INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA
HEITHOR ZANINI
O ANO EM QUE A ESQUERDA PERDEU AS RUAS: CRISE DO
GOVERNO DILMA EM 2015
BRASÍLIA 2016
O ANO EM QUE A ESQUERDA PERDEU AS RUAS: CRISE DO
GOVERNO DILMA EM 2015
Trabalho apresentado na Universidade de Brasília, em 09 de dezembro de 2016, em cumprimento às exigências para obtenção do grau em bacharel em Ciências Sociais, habilitação em Sociologia, sob orientação do prof. Dr. Luís Augusto Sarmento Cavalcanti Gusmão.
BRASÍLIA 2016
O ANO EM QUE A ESQUERDA PERDEU AS RUAS: CRISE DO
GOVERNO DILMA EM 2015
Trabalho apresentado na Universidade de Brasília, em 09 de dezembro de 2016, em cumprimento às exigências para obtenção do grau em bacharel em Ciências Sociais, habilitação em Sociologia, sob orientação do prof. Dr. Luís Augusto Sarmento Cavalcanti Gusmão.
BANCA EXAMINADORA:
__________________________________________________________ Prof. Dr. Luís Augusto Sarmento Cavalcanti Gusmão (Orientador)
__________________________________________________________ Prof. Dr. Sérgio Barreira de Faria Tavolaro (Examinador)
BRASÍLIA 2016
A presente monografia pretende repassar os principais acontecimentos compreendidos no período entre as eleições presidenciais de 2014 e o mês de dezembro de 2015, logo após a aceitação do pedido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff por parte do então presidente da Câmara, Eduardo Cunha. É de interesse deste trabalho reconstituir os episódios políticos, econômicos e sociais que marcaram esse espaço de tempo de maneira cronológica para auxiliar o entendimento do período que precedeu o controverso fim do segundo mandato Dilma. A escolha do ano de 2015 se dá em razão de ser o momento histórico em que as opções políticas para a saída da crise institucional ainda não eram definidas para os atores em cena. Por fim, neste texto, procurou-se aproximar dos protagonistas deste processo para elucidar a importância das variáveis conjunturais e pessoais, para além das estruturais.
INTRODUÇÃO ... 05
1 JUNHO DE 2013, O INÍCIO ... 11
2 DAS ELEIÇÕES AO INCENDIAMENTO SOCIAL, O CRESCENDO ... 13
3 O GOVERNO SITIADO ... 29
4 A REORGANIZAÇÃO DO GOVERNO E A ORGANIZAÇÃO DO IMPEACHMENT ... 40
5 O FATOR CUNHA ... 58
6 NINGUÉM SABE O QUE TEMER ... 67
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 72
INTRODUÇÃO
Há poucos meses, abaixo da quitinete onde o presente autor tem passado seus últimos dois anos, uma humilde autointitulada “lancheteria” foi aberta. Após uns dias de funcionamento, apesar de não muito interessado no tipo de comida que deveria ser vendida ali, detive-me um instante para dar uma olhada no cardápio. Enquanto olhava as variedades de sanduíches, conversava com o proprietário, que já havia avistado durante os finais de semana, quando os barulhos das furadeiras não mais eram feitos pelas mãos dos pedreiros contratados, mas por ele mesmo.
Na rápida troca de palavras, entre indicações das especialidades da casa e outras amenidades, descobria um sujeito trabalhador, de conversa fácil, na faixa de seus trinta e poucos anos, morador de Águas Claras. Apesar de nunca ter sido fidelizado pelos sanduíches, o açaí de aparência pouco agradável e de preço muito convidativo me dava uma desculpa para passar por lá umas duas vezes por semana e conversar com meu mais novo amigo “da quadra” – do momento em que fazia o pedido até a hora de despedir-me e levar aquela iguaria a casa, para continuar os estudos. Nesses dois, três minutos em que esperava meu pedido, estabelecíamos conversas superficiais, porém agradáveis, sobre algum acontecimento do dia, sobre o andamento de sua recém-aberta empresa, ou sobre qualquer coisa que viesse à cabeça, a fim de evitar o silêncio embaraçoso.
Com a assiduidade de minha presença, parecia que aquela impessoal quadra da informática cedia e, assim, autorizava uma exceção no bloco A, no qual tentávamos estabelecer relações de, digamos, comunidade – para resgatar uma categoria durkheimiana. Tendo ambos obtido essa pequena intimidade, outros assuntos menos pasteurizados começaram a surgir, até que, recentemente, chegou a pergunta: “E vem cá, sua monografia é sobre o quê?”. A indagação surgia antes mesmo de que ele tivesse feito qualquer comentário sobre a situação política do país, o que me fez demorar uns segundos a responder, como sempre acontece nesses casos.
“Sobre a crise do governo Dilma em 2015”, respondi. Em seguida, meu mais novo vizinho do bloco respondeu, animado: “Cara, que legal! Muito legal! Assim... Ia ser legal você fazer algo do tipo: PT! O PT no poder!”. Naquele momento, não conseguia ainda entender o motivo da euforia das afirmações, que apontavam para alguém muito convicto da opinião que tinha a respeito do meu partido. Esperava, essa era a minha vontade, estar na frente de um petista, como eu, ou de alguém que reconhecesse os avanços que tivemos no país nos últimos anos. Minha racionalidade, contudo, infelizmente maior que minha vontade, me
preparava para o que provavelmente viria – e veio –, restando apenas torcer para que a intensidade da repulsa ao PT não fosse tão grande, ou tão ácida. De todo modo, respondi educadamente à sua pergunta, explicando que seria interessante estudar todo o período do PT no governo, mas que, por várias razões, isso não seria factível para uma monografia.
O proprietário da lancheteria, técnico em tecnologias da informação, consentiu, ainda que para meu desgosto, já que começava a gostar do açaí de lá, ele se mostrou decidido a continuar com o assunto: “Ah, sim... Mas, então, cursando Sociologia e gostando de política, tu (sic) deve curtir pra caramba o Fernando Henrique, não é?”. Chegava, assim, a mais uma das minhas frequentes encruzilhadas pessoais. A partir daquela pergunta, obrigatoriamente, a conversa passaria pela minha filiação partidária. E isso me incomodava. Na hora, pensei o quão lamentável seria deixar de comprar meu açaí de sexta à tarde por causa do “clima” que possivelmente seria gerado. Tive de pensar rapidamente também em como segurar minha rejeição ao FHC e a tudo que ele simboliza para a esquerda brasileira, e, de maneira sutil, porém enfática, responder que não, que não o “curtia”.
“Não... Na verdade, não. Aliás, eu diria o contrário.” Assim que terminei de responder, ele, que digitava na máquina de cartão de crédito o valor a ser cobrado de um cliente ao meu lado, olhou-me quase assustado. Numa mistura de quem pedia desculpas ou uma justificativa para tal fato, exclamou, para logo dizer em voz baixa, quase sem querer saber a resposta: “Sério?! Ué! Você, então, é...”.
Nessas horas, caro leitor, e aqui a indicação é por experiência própria, já que o resultado independe da maneira como você expõe, é melhor mostrar-se firme e orgulhoso do que é, de uma vez. Caso contrário, correrá o risco de a pessoa querer convencê-lo de que o filho do Lula é dono da maior empresa brasileira de tomadas de três pinos, como acontecera comigo mais de uma vez. Assim, emendei em seguida: “Sim, sou do PT. Até pouco tempo, fui da direção nacional da juventude, mas agora estou inativo porque tenho de resolver minha vida acadêmica e profissional”.
A reação foi a esperada: choque. O cidadão ficou uns cinco segundos sem saber o que dizer; enquanto isso, do meu lado, o outro cliente fitara-me de cima a baixo, decerto aproveitando a oportunidade de ver de perto uma espécie rara de ser encontrada nas zonas urbanas de classe média, especialmente do Plano Piloto. Minha percepção sobre este momento pode ser corroborada por outra história, mais breve, que é a do comentário de um amigo italiano que mora em Brasília há tempo, quando na época das eleições, num café, comentara: “Mas, frate, só você que é do PT e gosta da Dilma! Incrível! Tirando você, não conheço ninguém mais!”.
Voltando à lancheteria, para a sorte de nós dois o açaí estava nas minhas mãos. Meu mais novo então ex-amigo, depois de sua pausa prolongada, comentou que na verdade não era muito “ligado em política”, ainda que gostasse de estar bem informado, e por isso sempre procurava ouvir a CBN e assistir à GloboNews. Dissemos duas bobagens encerrando o assunto, e parti para continuar meus estudos. Três dias depois voltei para outro açaí. Depois do pedido, antes que eu pudesse perguntar como havia sido o dia, comentando que tinha muitas coisas a solucionar, o proprietário fixou o olhar no computador e se pôs a teclar rapidamente uma lista de pedidos escritos que tinha em um caderno de anotações.
Sistemático que sou, retornei outros três dias depois. Pela primeira vez, foi ele quem buscou o açaí, de forma que tampouco conversamos. Noutra ocasião, a última, falamos sobre a chuva. A impessoalidade da Asa Norte tinha perdido; e a intolerância política, vencido.
Anedotas como essas não só perpassaram a história de vida de vários de nós, mas foram também integrantes e estruturantes das relações sociais da sociedade brasileira nos últimos anos. Isto porque não tiveram lugar unicamente durante os processos eleitorais, quando, ainda que sem justificativa racional plausível, os ânimos se acirram e situações críticas se registram. Episódios de constrangimentos, indisposições, ou mesmo brigas por questões políticas não foram situações isoladas dentro do estrato social da classe média “tradicional” brasileira.
Como o conceito de “classe média” brasileira é ambíguo e há diversas interpretações sobre seu significado, o termo “tradicional” refere-se, aqui, àqueles que se autodenominam classe média, mas têm seus filhos nas escolas particulares mais caras da cidade, contam com dois carros na garagem, viajam uma vez por ano à praia ou ao exterior e vivem em bairros nobres. Em outro esforço de localização, pode-se referenciar a amplitude dessa “classe média tradicional” nos pais dos alunos de colégios como Marista, Sigma, Galois e Olimpo, por exemplo, em Brasília.
Neste estrato social, a ojeriza ao Partido dos Trabalhadores, e a tudo que a ele remetesse, entrou num crescendo a partir do Mensalão, em 2005. Daquele momento em diante, o extraordinário nível de ódio político destes setores instalou-se e nunca arrefeceu. Sempre fora recorrente ouvir críticas preconceituosas, como a de que um analfabeto não poderia governar um país, ou a de que havia sido eleito um presidente que não sabia sequer falar corretamente o português. Entretanto, a estas, somaram-se as acusações de bandidos, ladrões e corruptos aos petistas, muitas vezes resumidas pela expressão “mensaleiros”, que passou a fazer parte do cotidiano de todo e qualquer simpatizante do PT até hoje. Afinal, o
Partido dos Trabalhadores não só errava, mas também reincidia, alimentando o discurso crítico que recaía sobre ele, e constrangendo cada vez mais sua base de apoio.
Na própria Universidade de Brasília, há inúmeros casos como esses, vindo tanto de setores ditos à esquerda do PT, quanto daqueles declaradamente à direita. Ademais, em todas as disputas eleitorais em que estive envolvido, a acusação de “ser pago pelo PT” ou de “receber dinheiro do governo” era uma tática política usada por qualquer que fosse o adversário na universidade. Nessa esquizofrenia acusatória, certa feita, chegaram a dizer que o PT teria pago um curso de oratória a mim. Neste episódio, datado de 2012, antes que pudesse – como um amigo inocentemente otimista indicou – aceitar aquilo como um elogio, tive de aceitar a derrota: qualquer identificação com o PT subtraía votos. Isto porque sempre vinha acompanhada de alguma crítica de ordem moral, como a acusação de pagamento, neste caso.
Mesmo entre uma classe média tida como progressista, o partido perdeu força regularmente: pelos escândalos de corrupção, sim, mas também pelas alianças políticas com setores fisiológicos da política eleitoral brasileira e pela boa desenvoltura que o PT aprendera a ter dentro desse meio. A legítima lógica de construção de maiorias parlamentares, em determinado momento, passou a se confundir com interesses privados e pouco republicanos do baixo clero da política, e também com um carreirismo social que surgira em torno da esquerda brasileira.
Neste contexto, naquelas eleições, ao abrir as urnas, o resultado expunha a realidade da imagem do Partido dos Trabalhadores: uma chapa inicialmente favorita para a eleição do Centro Acadêmico de Sociologia, ao ser transformada na “chapa do PT”, desidratou-se até perder as eleições por seis votos para um grupo político historicamente minoritário no curso. Importava derrotar o PT, fosse quem fosse o adversário.
Seria necessário o segundo turno mais acirrado da história da democracia brasileira para que, num curso de Ciências Sociais da UnB (!), o PT deixasse de ser execrado. Depois, as crises de 2015 e o impeachment em 2016 abririam espaço para a solidariedade política entre os diversos atores do campo progressista da UnB.
Este sentimento direcionado ao PT misturava política com ódio e se alimentava tanto dos erros como dos acertos do governo e do partido – pois criticava fortemente até os bem-sucedidos programas sociais do governo, tais como Bolsa Família, quotas étnico-sociais nas universidades públicas, Mais Médicos etc. Gradativamente, isto foi se espalhando por outras camadas sociais ao longo dos anos, até atingir seu ápice nos dias anteriores ao impeachment de Dilma. Hoje, para se ter ideia, segundo relatado pelo dirigente petista Joaquim Soriano, “há
membros do Sindicato dos Metalúrgicos que acreditam mais na Globo que no jornal do sindicato”. O termômetro é claro: o Partido dos Trabalhadores é questionado até no sindicato “do” Lula.
De que maneira a situação política se desenvolveu até chegar a esta conjuntura, é uma investigação hercúlea que foge à pretensão deste trabalho. Tem-se, entretanto, como fato inconteste que houve uma aguda crise de legitimidade do PT e de seu campo, o que é conditio sine qua non para entender a queda do projeto petista de governo e o crítico ano de 2015 que a precedeu: isso, sim, é objeto do presente texto.
A partir dessa interpretação, é importante que o leitor preste especial atenção no protagonismo da “classe média tradicional” neste processo. Muitas vezes ridicularizada por uma suposta hipocrisia moral e deixada de lado por sua suposta insignificância histórica em momentos de inflexão política, desde 2005, e com mais força a partir de 2013, este setor exerceu importante pressão social, e, como se verá, jogou um papel fundamental para a concretização do impeachment, chegando a pautar a oposição parlamentar.
Os erros de grande parte da direção do PT tampouco foram poucos. Esta maioria optara por adaptar-se à realpolitik e, acreditando-se como os mais novos parceiros daqueles que lá estavam há tempo, declararam-se surpresos e perseguidos quando lhes foi cobrada uma fatura de fato maior que aos veteranos do status quo brasileiro, qual seja: enfrentar as leis. Havendo já entrado nessa areia movediça, estes dirigentes inclinaram-se a seguir o roteiro do senso comum e não fizeram movimentações bruscas devido ao risco de uma rápida imersão. Parecia mais indicado adotar gestos leves, enquanto se flutuava e se esperava uma saída a partir de algum deus ex machina. Para encerrar a metáfora, a flutuação só foi possível durante o período em que houve sucesso econômico para sustentá-la. A saída milagrosa, como todos sabiam, nunca chegaria.
Quando os indicadores econômicos começaram a oscilar negativamente, as sempre tensas relações políticas começaram a ruir. Da crise política passou-se a uma crise social. Estas se retroalimentavam, até se chegar a um impasse institucional em 2015.
A opção de análise deste período de tempo, que vai do final de 2014, o pós-eleições, até o final de 2015, responde a dois elementos. O primeiro refere-se à pouca atenção analítica que até agora tem se dado a estes 14 meses para compreender a crise institucional pela qual passa o país hoje. Apesar de parecer lógico revisitar o passado, grande parte das análises retornam prioritariamente apenas até o primeiro semestre de 2016, que fora ainda mais explosivo, revisitando o ano anterior com pouca profundidade e precisão. Por isto, o segundo elemento entra em cena.
Quando analisado o ano de 2015, constata-se que a intensificação dos conflitos políticos e sociais do primeiro semestre de 2016 a níveis nunca antes vistos foi tão somente o ápice de um processo que transcorreu por todo o período compreendido neste trabalho. Logo, a riqueza de 2015 reside no fato de jogar luz sobre as inúmeras peças deste xadrez que se movimentavam por diversos caminhos, procurando respostas e saídas segundo as possibilidades da conjuntura e as necessidades de seus interesses. A excepcionalidade de 2015 diz respeito, por conseguinte, a poder visualizar o quebra-cabeça a se montar erraticamente até, abruptamente, encaixar-se de uma maneira determinada, que então se acreditou ser “a” saída: o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.
Deste modo, inspirado no recente e magnífico trabalho de Lira Neto, Getúlio, e no clássico de Alexis de Tocqueville, Lembranças de 1848, este trabalho, com muita humildade, com esteio em duas obras de tamanha envergadura, dispôs-se à tentativa de narrar um período turbulento da história recente do nosso país, a partir da explicitação de elementos que só podem ser notados mediante uma aproximação com os personagens que compõem esta trama e com os meandros de seu desenvolvimento.
1 JUNHO DE 2013, O INÍCIO
Historicamente, a tradição de mobilização popular mediante ocupação de vias públicas e protestos, ou mesmo os “panelaços”, sempre esteve ligada ao campo político progressista. Nacionalmente, também assim foi em nossa história. Se fizermos um repasse pelos momentos mais politicamente turbulentos do Brasil republicano, encontraremos apenas a Marcha da Família com Deus pela Liberdade como exemplo de mobilização de massas de setores da direita política, que veio a ser uma série de protestos em resposta ao Comício da Central do Brasil, ou Comício das Reformas, realizado por João Goulart.
Entretanto, os últimos anos da democracia brasileira transformaram essa realidade histórica. Um importante processo de mobilização, que apesar de fugir do escopo deste trabalho necessita ser citado, são os protestos de Junho de 2013. Motivo de estudos e interpretações diversas a respeito de seus objetivos e significados, as multitudinárias manifestações ocorridas em junho daquele ano nos servem por dois motivos fundamentais.
O primeiro refere-se ao fato dos protestos, embora politicamente difusos, terem sido canalizados em última instância para a crítica ao governo Dilma e ao PT, especificamente, e aos partidos políticos e ao campo progressista, em geral. O outro motivo, mais objetivo, pode ser entendido como resultado do primeiro: a brusca queda de popularidade do governo. Em um espaço de tempo de três semanas, a avaliação do governo Dilma caiu 27 pontos percentuais, indo de 57% a 20%. A queda só não foi maior que aquela registrada no período Collor, após o confisco das poupanças.
Como todo período de mobilização social intensa, Junho de 2013 não significou apenas pessoas na rua, protestando, reivindicando e mostrando sua insatisfação com o governo. Aquele mês foi um ponto de inflexão que ainda deverá ser estudado mais a fundo, pois após mais de uma década sem grandes manifestações, milhares de pessoas saíram de suas casas e, de fato, pararam o país. Significou a primeira mobilização de massas para toda uma geração, a primeira efervescência das ruas desde o Fora Collor, em 1992.
Se hoje é possível afirmar que foi um ponto de inflexão em termos de mobilização, à época o ponto de inflexão mais evidente se referia à polarização política e social que então se estabeleceu no país. Ao longo do mês em que ocorreram as manifestações, não foram poucos os casos de confrontos e hostilizações – antes, durante e depois das manifestações. Militantes do PT, PCdoB, PSOL e PSTU ou de entidades como UNE, MST e CUT chegaram a ser expulsos das manifestações, quando não cercados e atacados. No decurso deste processo, os
ânimos se exaltaram a tal ponto que há registros de manifestantes com camisetas vermelhas, sem símbolos, sendo igualmente ameaçados.
Alguém poderia argumentar que em toda e qualquer mobilização social sempre há um grupo radicaloide e irresponsável que não é passível de controle - e é a mais pura verdade. Não obstante, a razão de junho ter sido notado em seu exato momento por aqueles que participamos como um ponto de inflexão da política brasileira se deve, porém, ao fato de que as increpações aos grupos de esquerda presentes nas manifestações contaram com o aval de alguns dos manifestantes, quando não com a participação direta de parte significativa destes. O relato do então vice-presidente da UNE, Mitã Chalfun, exemplifica o clima vivenciado em um dos protestos em São Paulo, quando ele e outros dirigentes estudantis e sindicais foram atacados:
Tiveram muitos ataques. Tinha os ataques com xingamentos e palavras de ordem contra os partidos e movimentos sociais de uma grande parcela dos manifestantes. Tinha também os ataques organizados pelos black blocks, que incentivavam essa opinião, mas um pouco mais agressivos. Nesse ato específico, teve esse grupo que não estava presente nas outras manifestações, que só apareceu para nos agredir e nos expulsar do ato. Acho que a maioria da população demonstrava um grande desgaste em relação aos partidos e aos movimentos sociais. Porém, existia um sentimento da maioria de ser contra a violência. Esses sentimentos, em alguns momentos, eram conflituosos, o que deixavam bem divididas as opiniões. De modo que a maioria não queria os partidos, mas não concordava com agressões.
A partir desta efervescência, daqueles que entoavam que “o gigante acordou” e se opunham “contra tudo isso que está aí”, começava a erigir-se um incontornável muro que separaria a sociedade brasileira nos próximo anos.
A divisão do país entre “coxinhas” e “petralhas”, que apesar de cômica ilustra dois campos não somente diferentes, mas também radicalmente antagônicos, se aprofundaria a níveis iguais ou maiores às animosidades da época do “Mensalão”, em 2005, e abriria um fosso até agora irreconciliável na sociedade brasileira. O ar de polarização que se respirou em junho se faria presente inúmeras vezes mais, com maior ou menor intensidade, a depender do momento, perpassando todos os momentos políticos do nosso país desde então.
2 DAS ELEIÇÕES AO INCENDIAMENTO SOCIAL, O CRESCENDO
Após um breve sono do gigante, as eleições de 2014 reeditaram o clima de hostilidade vivido um ano antes. A polarização foi verificada não apenas nas ruas e nos ânimos dos eleitores e militantes durante o período eleitoral, mas o próprio resultado das urnas é elucidativo neste ponto: diferença de 3,28%, ou 3,4 milhões de votos, em favor de Dilma Rousseff – a menor desde a redemocratização do país. Com a declaração do resultado das eleições, quem apostou por um momento de sossego se enganou. Já na primeira quinta-feira pós-eleições, o partido do candidato derrotado Aécio Neves, o PSDB, entra com um pedido inédito de auditoria da contagem de votos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em seguida, no sábado, pequenas manifestações em São Paulo, Brasília e Curitiba reivindicavam o impeachment de Dilma Rousseff, ao lado de grupos que pediam intervenção militar. Começava o questionamento da legitimidade do segundo governo Dilma.
Vale a pena registrar que nesta manifestação do sábado 1 de novembro, após seis dias da reeleição de Dilma Rousseff, o presidente do PSDB-SP, Alberto Goldman, comentava que o país estava com os ânimos inflamados “[...] até por conta do tipo de campanha, muito suja, muito pesada, que o PT fez no primeiro turno contra a Marina (PSB) e depois contra o Aécio.” Contudo, o próprio dirigente tucano emendava, sobre as reações ao resultado eleitoral: “Mas nem isso justifica um pedido de impeachment da presidente”.
Ainda em novembro, outras duas convocações de manifestações pelo impeachment de Dilma seriam feitas. A última do ano, no sábado 6 de dezembro, contaria com vários políticos da oposição para ajudar a divulgar o protesto em suas redes sociais, como foi o caso dos senadores tucanos Aécio Neves, José Serra e Aloysio Nunes, por exemplo. Todas estas manifestações pós-eleições tiveram características muito próximas. Via de regra, o comparecimento foi baixo e houve presença de grupos extremistas que pediam intervenção militar, e assim dava espaço ao questionamento do caráter verdadeiramente democrático dos protestos. No marco dos escândalos da Petrobrás, as pautas, de maneira geral, se reduziam genericamente a temas “contra a corrupção”; especificamente, ao impeachment de Dilma e ao “Fora PT”. Importante lembrar que já neste momento começavam a aparecer cartazes comemorando a Operação Lava Jato e saudando o juiz federal Sérgio Moro, mesmo que sem a força que se veria nos próximos protestos.
Outra característica fundamental que não pode ser deixada de lado é a atuação nas redes. Para além da participação física, presencial, desses manifestantes, seu ativismo virtual conseguia evidenciar e dar destaque às chamadas das manifestações, assim como atrair
“apoios não presenciais”. Páginas de facebook, hashtags e demais instrumentos de redes surgiram, aqueles que já existiam aumentaram seu alcance e os protestos agitavam e pautavam o dia “na rede”. Em virtude disto, alguns jornais chegaram a falar em “guerra de hashtags”, devido à disputa entre os #ForaDilma e #TchauQuerida contra os #DilmaLindaOBrasilTeAma e #DomingoEuNãoVouPorque.
Com o habitual espaço e generosa cobertura nos meios de comunicação tradicionais, a exposição que as manifestações receberam foi importante e a partir destes protestos diversos personagens começaram a ganhar visibilidade como protagonistas do movimento pelo impeachment. À época, uma figura que havia se alçado como referência dos protestos era o cantor Lobão. Também são destes momentos que datam as “fundações” das organizações MBL – Movimento Brasil Livre, Revoltados Online e Vem pra Rua, as quais, segundos seus críticos, até hoje não têm definição clara quanto às suas caracterizações políticas ou suas fontes de financiamento: elas passaram a ser questionadas sobretudo a partir da divulgação de áudios vazados à imprensa em maio de 2016, que sugeriu contarem esses grupos com financiamento dos partidos PSDB, PMDB, DEM e Solidariedade em algumas de manifestações.
Depois da manifestação de dezembro, pouca coisa acontecerá até março de 2015, quando registra-se uma das maiores jornadas de protestos das últimas décadas. Até então, como fato político, destaca-se o pedido de impugnação da chapa Dilma-Temer protocolado pelo PSDB no Tribunal Superior Eleitoral, no dia da diplomação da Justiça Eleitoral, visando impedir a posse de Dilma e requisitando que seu adversário, Aécio, fosse o empossado. Sem citar o pedido do PSDB, mas em clara alusão ao fato, o então presidente do TSE, Dias Toffoli, declarou na cerimônia de diplomação que “não haverá terceiro turno na Justiça Eleitoral.”
Sendo assim, o ano de 2014 se encerrava com um governo fragilizado que não teve sequer tempo para comemorar sua reeleição. O horizonte de então apontava, por um lado, para mais dificuldades econômicas e para a necessidade de um ajuste fiscal que causava ojeriza aos apoiadores de Dilma, e, por outro, para incertezas quanto à governabilidade no Congresso Nacional frente a iminente candidatura de Eduardo Cunha à Presidência da Câmara Federal.
Desta maneira começava 2015. Fevereiro, o primeiro mês da quinquagésima-quinta legislatura da Câmara, se passou entre a derrota do governo com a acachapante eleição de Eduardo Cunha para a Presidência da casa, após vencer em primeiro turno o candidato petista Arlindo Chinaglia; a renúncia de diretores da Petrobrás, entre eles a própria presidente da
empresa, próxima a Dilma Rousseff; e a posterior instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar crimes na estatal.
Um mês depois, as ruas voltavam a ser ocupadas pelos defensores do governo no dia 13 e pelos opositores no dia 15, e o clima de animosidade e divisão social se instalava novamente. Antes das manifestações de março, porém, houve dois eventos que reascenderam a polarização política do país. Na última semana de fevereiro de 2015, em meio às denúncias de corrupção na Petrobrás e às dificuldades do novo governo Dilma, a Federação Única dos Petroleiros e a CUT organizaram um grande ato na sede da Associação Brasileira de Imprensa, no Rio de Janeiro, chamado “Defender a Petrobrás é defender o Brasil”, no qual denunciava-se uma “campanha visando à desmoralização da Petrobrás.” O ato contava com a presença de inúmeras personalidades da esquerda brasileira, dentre elas, o ex-presidente Lula. De início, antes do próprio ex-presidente chegar ao local, houve tumultos e troca de socos entre petistas e manifestantes que se concentraram na sede da ABI para protestar contra o PT. Mas o que realmente repercutiu do ato foi especificamente a última frase do discurso de Lula. O dirigente petista, finalizando sua fala, concluiu:
Em vez de ficarmos chorando, vamos defender o que é nosso. Defender a Petrobras é defender a democracia e defender a democracia é defender a continuidade do desenvolvimento social nesse país. Quero paz e democracia, mas também sabemos brigar. Sobretudo quando o Stédile colocar o exército dele nas ruas, um abraço!
Esta última frase sobre o “exército”, inserida em diversas chamadas da imprensa, quando transformada em manchetes e títulos de artigos vários, se tornou, expandindo assim o seu poder simbólico como diria Bourdieu, em: “Lula convoca exército do MST”. A reverberação deste episódio teve direito a um requerimento para que o ex-presidente comparecesse à Comissão de Direitos Humanos da Câmara, que apesar de não ter prosseguido, o requerimento em si teve repercussão, a ponto do dirigente petista ter de esclarecer publicamente que havia sido apenas um recurso retórico. Ademais, a declaração deu lugar a um polêmico artigo publicado no jornal Estado de São Paulo, no sábado 7 de março, de autoria do general Rômulo Bini Pereira.
Com o título de “Vamos à Guerra”, o ex-Chefe do Estado Maior da Defesa começava em tom de advertência: “Nos conflitos da humanidade, a pior e mais sangrenta guerra é a entre irmãos. Ela deixa marcas indeléveis que impactam a população dos países onde ocorre.” O artigo, como esperado, tecia críticas a Lula, a sua fala no ato do Rio de Janeiro e a sua
postura em relação aos escândalos da Petrobrás. No entanto, o que acendeu os nervos do campo progressista foram os parágrafos finais que selavam o artigo:
Iniciada por essa nova visão sectária do ex-presidente Lula, uma confrontação num ambiente conturbado e acéfalo pelo qual passa o Brasil, sem dúvida, poderá conduzir-nos a situações extremas. Novamente as Forças Armadas serão chamadas a intervir e não poderão deixar de cumprir o que preconiza o artigo 142 da Constituição da República.
Os novos comandantes das Forças, que gozam de alto conceito entre os seus pares e subordinados, certamente não se calarão como seus antecessores que adotaram uma atitude de silêncio obsequioso.
Se é certo que a possibilidade real de um golpe militar nunca foi uma preocupação séria dos setores pró-governo, é igualmente correto afirmar que este artigo os incomodou, e muito. Nas redes sociais e nos círculos políticos, o texto do general Bini foi motivo de debate acalorado, e entre o campo progressista foi entendido como uma tentativa de intimidação. Em várias conversas entre petistas, fossem reuniões ou mesmo encontros em cafés e bares, falava-se sobre a audácia de, em pleno 2015, um general falava-sentir-falava-se confortável para proferir ameaças veladas num importante meio de comunicação impresso. O apaziguamento que houvera durante as férias e o recesso parlamentar acabava; a crise institucional, porém, apenas começava.
Não bastasse o furor causado pelo episódio recém-narrado, a partir das redes sociais chamava-se um panelaço para o dia 8 de março, durante o pronunciamento oficial da presidenta em razão do Dia da Mulher. Nesse discurso, Dilma culpava a crise internacional e a seca pelos problemas domésticos:
Entre muitos efeitos graves, esta seca tem trazido aumentos temporários no custo da energia e de alguns alimentos. Tudo isso, eu sei, traz reflexos na sua vida.” E, em seguida, dizia a parte que seria integralmente lembrada: “Você tem todo direito de se irritar e de se preocupar. Mas lhe peço paciência e compreensão porque esta situação é passageira.
O panelaço, que até então parecia ser apenas mais uma convocação anônima, como tantas outras, sem força, surpreendeu a todos ao tomar proporções nunca antes vistas quando alguns bairros de parte das capitais brasileiras tiveram verdadeiras orquestras tocando durante o discurso inteiro. Barulhos ensurdecedores de panelas batendo, luzes de apartamento ligando e desligando intermitentemente, carros buzinando sem parar, e vários gritos de “Fora, Dilma”, “Fora, PT” e alguns insultos de moradores das vizinhanças foram gravados por smartphones. Logo após o panelaço, estes inúmeros vídeos circularam por aplicativos
mensageiros e pelas redes evidenciando a convulsão social em resposta ao discurso de Dilma na televisão. Como não poderia ser diferente, tais vídeos foram vastamente aproveitados pelos oposicionistas, além de terem sido veiculados nos principais telejornais do país em praticamente todas as edições.
A reação dos favoráveis ao governo foi de tentar minimizar a importância do protesto e, até, ridicularizá-lo. Em nota oficial, o Partido dos Trabalhadores declarou que o panelaço teria sido “uma orquestração com viés golpista da elite e da classe média alta.” O jornalista Juca Kfouri, da Folha, por sua vez, em artigo intitulado “O panelaço da barriga cheia e do ódio”, escreveu:
[...] O panelaço nas varandas gourmet de ontem não foi contra a corrupção. Foi contra o incômodo que a elite branca sente ao disputar espaço com esta gente diferenciada que anda frequentando aeroportos, congestionando o trânsito e disputando vaga na universidade.
Na avaliação do Planalto, segundo o que falara o Ministro-Chefe da Casa Civil, Aloízio Mercadante, braço direito da presidenta escolhido para comentar o fato, os protestos teriam ocorrido em cidades e bairros onde Dilma perdeu as eleições “por uma grande diferença”. O ministro disse ainda que “a primeira regra do sistema democrático é reconhecer o resultado das urnas. Só tem dois turnos, não tem terceiro turno. Nós vencemos pela quarta vez (as eleições).”
Também na segunda-feira, na cerimônia de sanção da Lei do Feminicídio, a presidenta respondeu às indagações sobre os protestos na mesma linha de Mercadante:
O que não é possível no Brasil é a gente também não aceitar a regra do jogo democrático. A eleição acabou. Houve o primeiro e houve o segundo turno. O terceiro turno das eleições, para qualquer cidadão brasileiro [...] não pode ocorrer a não ser que você queira uma ruptura democrática.
Não surpreendentemente, tanto as reações dos partidários de Dilma Rousseff quanto as declarações do governo não apaziguaram os ânimos dos opositores. Pelo contrário, aumentaram a fratura política, que nesse momento era já visivelmente irreconciliável, entre dois setores da sociedade: de um lado, os “petralhas” corruptos, que contariam com os votos dos ignorantes e dos beneficiários de quotas e programas assistencialistas; do outro, “coxinhas” da elite golpista, que não teriam aceitado o resultado eleitoral. Deste momento em diante, o fosso que separava estes grupos só iria se alargar.
De fato, na avaliação de especialistas, e do próprio ex-presidente Lula segundo afirmou o jornalista Kennedy Alencar em seu blog, o pronunciamento de Dilma no 8 de março teria sido um grande erro de cálculo político. O Planalto teria se equivocado tanto no timing, quanto no conteúdo. Primeiramente, seria já tarde para pedir “esforços” e “paciência” da população em relação ao ajuste fiscal que se levava a cabo; e, em segundo lugar, teria sido também um erro tático primário trazer um ponto negativo do governo para o centro do debate conjuntural enquanto, naquele momento, a agenda política central estava pautada pela divulgação do que ficou conhecido como “a lista da Lava Jato”, elaborada pelo Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot.
Publicizada numa sexta-feira, importante destacar, apenas dois dias antes do discurso do Dia da Mulher, nessa lista pedia-se a abertura de inquérito para investigar 47 políticos de diferentes partidos supostamente envolvidos no escândalo do “Petrolão”, contendo parlamentares do Partido dos Trabalhadores e dos partidos da base aliada. Do início da semana até a sexta-feira em que se publicaram os nomes, houve uma espécie de expectativa nacional por parte dos meios de comunicação e da sociedade como um todo, especialmente pela quantidade de envolvidos no processo. O sentimento de repulsa a “tudo isso que está aí” se agravava com o episódio da lista, que expunha um modus operandi arraigado em todo o sistema político, abrangendo praticamente a todos os partidos.
Posteriormente, com o discurso de Dilma e os panelaços no domingo, e a reação vacilante do governo na segunda, esse sentimento de aversão à política e aos políticos pulsava e seria, em dias, prontamente canalizado. Aquela era exatamente a semana em que havia sido amplamente divulgada uma manifestação no domingo, 15 de março, a favor do impeachment. Por conseguinte, o descontentamento não só atingiu em cheio ao governo, mas serviu igualmente de combustão mobilizadora para o comparecimento no domingo.
Em meio a essa turbulência política, havia preocupação por parte do campo pró-governo em demonstrar apoio popular e capacidade de colocar gente na rua, já que este estava claramente na defensiva desde a vitória eleitoral. Desta vez, os partidários de Dilma Rousseff decidiram também se mobilizar para disputar com aqueles favoráveis ao impeachment e foi chamada uma manifestação para sexta-feira, dia 13 de março, dois dias antes da manifestação contra o governo e a favor do impeachment.
Convocado pela CUT, UNE e MST, o “Ato em defesa da Petrobrás, dos Direitos e da Reforma Política” pretendia criticar o ajuste fiscal adotado pelo governo e se opor às mobilizações já consideradas como golpistas. O também batizado de “Dia Nacional de Lutas” teve, porém, um comparecimento residual em praticamente todas as capitais do país, com
exceção de São Paulo, onde os organizadores declararam haver 100 mil manifestantes, contra os 10 mil segundo a Polícia Militar. Os baixos números de participação, entretanto, já eram esperados, tendo inclusive feito com que o Planalto chegasse a pedir à CUT para cancelar o ato, com medo de uma assistência ainda menor. Tal intromissão do governo causara um grande incômodo dentro da central sindical e mesmo do PT, pois muitos dirigentes e militantes se negavam a aceitar a derrota nas ruas sem sequer tê-las disputado. Viam nesse gesto algo como jogar a toalha antes de ter entrado no ringue. Publicamente, é claro, o Secretário-Geral da Presidência, Miguel Rossetto, negou qualquer tipo de demanda à direção sindical cutista por parte do governo. Independentemente da quantidade exata, é possível afirmar que em São Paulo houve presença importante de manifestantes partidários do governo Dilma. Mesmo entre os organizadores, foi uma surpresa a quantidade de gente mobilizada na capital paulista – que certamente esteve acima dos dez mil contabilizados pela PM. Ao longo da jornada, os petistas respiraram mais tranquilamente ao ver que o movimento sindical ainda gozava de uma força expressiva, e mensagens e telefonemas eram trocados constantemente celebrando a mobilização. Contudo, repetindo, São Paulo seria o único lugar onde o saldo apresentava-se positivo mesmo quando comparado ao protesto contra Dilma.
Em relação à repercussão midiática, o ato foi noticiado de maneira escassa. Nos meios de comunicação televisivos, quase não houve cobertura dos acontecimentos; nos jornais, constaram mais denúncias de supostos pagamentos – de pão com mortadela e trinta reais - a manifestantes em São Paulo do que informações sobre os atos propriamente ditos. Este fato, de acordo com a interpretação da esquerda marxista do PT, vinha a demonstrar o quanto Marx estava correto ao dizer que as ideias dominantes de uma época eram sempre as ideias das suas elites sociais e econômicas.
A mobilização dos militantes pró-Dilma, todavia, não fez recuar nem um centímetro os que queriam o impeachment. Domingo, dia 15 de março de 2015, sem nenhum tipo de exagero, há de ser considerado como um marco político que inicia um processo de catalisação do desgaste de um governo recém empossado. Os cidadãos que foram às ruas conseguiram, por meio de ocupação de vias públicas, começar um real processo de questionamento da legitimidade política do segundo governo Dilma. Apesar de terem utilizado um método tradicionalmente identificado com os campos militantes progressistas, a composição política dos manifestantes era majoritariamente de centro-direita segundo o Datafolha; já que numa escala de 1, simbolizando o extremo à esquerda e 7, aquele à direita, a média obtida da pesquisa foi de 4 e 6.
Contando com uma cobertura midiática ampla, extensa e contínua que cobria ao vivo todos os protestos e enfatizava o “clima de festa” e a “presença de famílias e crianças”, via-se a maior mobilização de rua desde as Diretas Já, superando as Jornadas de Junho de 2013.
Em São Paulo, o coração do protesto, foi contabilizado 1 milhão de pessoas pela PM. Em várias outras capitais brasileiras irrompiam manifestações multitudinárias que, todas juntas, chegaram a 2,4 milhões de brasileiros nas ruas daquele domingo. Entoando cantos contra a corrupção e pela saída de Dilma Rousseff e do PT, também neste protesto, em alguns casos, houve presença de grupos que pediam a volta da ditadura militar. O juiz Sérgio Moro começava a tornar-se figura venerada entre os manifestantes e placas de apoio à Operação Lava Jato eram vistas nas mãos de inúmeros cidadãos. Mas, de fato, a consigna que unificava a todos os presentes era o impeachment, “já”.
A palavra de ordem do “Impeachment, Já!” ilustrava o início da mudança de tática da oposição ao governo. O “já!” não era por acaso. Significava, na verdade, uma recusa explícita da atitude que vinha caracterizando até então setores influentes da oposição. Com efeito, muitos dirigentes políticos diziam preferir ver o governo “sangrar”, ao invés de iniciar um processo de impeachment. Dias antes da manifestação, por exemplo, o ex-candidato a vice de Aécio, o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), declarou em um seminário no Instituto FHC:
Não quero que ela saia, quero sangrar a Dilma, não quero que o Brasil seja presidido pelo Michel Temer (PMDB)”. Na mesma linha, declarou o ex-presidente FHC: “Não adianta nada tirar a presidente”. o senador Aécio Neves: O PSDB manifesta apoio irrestrito a todas as manifestações pacíficas e organizadas de forma apartidária em todo o país [...] Não estamos proibindo nem proibidos de falar sobre impeachment, mas nesse momento isso não está na agenda do PSDB.
Neste ponto, os organizadores do evento, que apesar de não centralizado incluía MBL, Revoltados Online e Vem Pra Rua como protagonistas reconhecidos, tiveram um importante papel. Não somente foram capazes de transformar a quotidiana agitação virtual em milhares de pessoas nas ruas, como também canalizaram a euforia coletiva de suposta oposição unânime ao governo que se vivia para a demanda concreta e objetiva do “Impeachment, Já!”. Em cima do carro de som na Avenida Paulista, um dos três coordenadores nacionais do MBL, Renan Santos (32), resumia em sua fala a tática por eles adotada: “Porque os parlamentares de oposição, o dinheiro deles tá aqui, ó. No bolso! Durante quatro anos. Eles pediram pra Dilma sangrar e a gente sangrar junto. Vocês querem esperar? Vocês querem sangrar com a Dilma? [...] Então é impeachment, já!”.
Desta maneira, o que antes não era parte da tática das lideranças políticas da oposição passava a ser “o grito das ruas” e, consequentemente, entrava no centro da agenda dos políticos oposicionistas.
Tão importante foi o papel das lideranças pró-impeachment que, todos eles, viraram personagens nacionalmente conhecidos. Suas redes sociais se transformaram em centros difusores e mobilizadores da campanha pelo impeachment e estiveram presentes nos meios de comunicação com certa regularidade. Desde então até a data do impeachment, gozaram de livre trânsito no Congresso Nacional pelas mãos de diversos parlamentares e obtiveram amplo reconhecimento da sociedade, sobretudo a partir das redes sociais. Das lideranças, as duas que se destacaram e ainda hoje têm grande reconhecimento pelos seus pares são Kim Kataguiri (20), que no início de 2016 se tornou colunista da Folha de São Paulo, e Fernando Holiday (20), recentemente eleito a vereador pelo DEM, na cidade de São Paulo nas eleições de 2016. Os dois, junto a Renan Santos, eram e continuam sendo os coordenadores nacionais do MBL. Com a exposição, todavia, veio a revelação de seus históricos, e muitos acabaram perdendo legitimidade, como é o caso do próprio Renan Santos, que responde a mais de 60 processos e sofre cobrança num total de 4,9 milhões de reais nas ações em que responde. Estes fatos foram, vale a pena esclarecer, noticiados na grande imprensa, não se tratando, portanto, de supostas difamações infundadas de seus opositores políticos.
Sobre o perfil dos manifestantes, em geral, não houve diferenças consideráveis de uma cidade a outra. Sem embargo, os dados existentes são referentes à manifestação da Avenida Paulista, em São Paulo. Segundo pesquisa do Datafolha, a média de idade dos manifestantes no protesto era de 40 anos, sendo a maioria aqueles do sexo masculino (63%). A maior parte tinha ensino superior (76%) e a divisão por renda mostra que a) 14% tinham renda mensal de até 3 salários mínimos; b) 15%, de 3 a 5; c) 27%, de 5 a 10; d) 22%, de 10 a 20; e e) 19%, mais de 20.
Na manifestação, a maior parte se declarou de cor branca (69%), seguidos daqueles que se declararam pardos (20%) e negros (5%). Por fim, no segundo turno das eleições de 2014, apenas 3% dos que protestavam na Avenida Paulista haviam votado em Dilma Rousseff, enquanto 82% confiaram seu voto a Aécio Neves. Este perfil das manifestações acabou por alimentar a tese dos contrários ao impeachment de que havia, na realidade, uma reação elitista ao resultado eleitoral de 2014. Tendo sido o pleito eleitoral legítimo, as manifestações seriam também golpistas. A consequência lógica desta interpretação era não haver possibilidade de diálogo com quem esteve ou apoiou o protesto, o que levava a uma política de combate frontal entre ambos os lados.
Além disso, como em junho de 2013, houve registro de agressões físicas a militantes partidários ou mesmo a pessoas que vestiam vermelho e passavam perto dos locais de protesto. Entre estes acontecimentos, há vídeos de manifestantes agredindo até mulheres e pessoas de idade, o que contrasta com a imagem repercutida nos noticiários de um protesto cheio de famílias, de cidadãos tirando selfies com a polícia, e todos com a camisa da seleção brasileira em clima de festa. As duas realidades não são excludentes, é claro.
Terminada a jornada das manifestações pelo país, ainda no domingo à noite, o Palácio do Planalto anunciou uma coletiva para falar a respeito das manifestações. Não bastasse o povo na rua no decurso do dia, quando foi ao ar o pronunciamento do governo, à noite, outro grande panelaço teve lugar enquanto os ministros davam suas declarações.
Os ministros destacados para falar ao país foram José Eduardo Cardozo, da Justiça, e Miguel Rossetto, da Secretaria-Geral da Presidência. Naquela coletiva, alguns analistas disseram mostrar falta de coordenação política e de análise da realidade por parte do governo, já outros afirmaram ser uma tática de separar dois conteúdos direcionados a dois setores distintos. Análises de discurso à parte, o que ficou explícito é que Cardozo falou uma coisa; Rossetto, outra. O ministro da Justiça começou seu pronunciamento abordando a legitimidade das manifestações para em seguida afirmar que o governo “[...] está atento e revela a disposição que sempre teve de ouvir as vozes das ruas”. Cardozo abordou também a necessidade de promover uma reforma política e o futuro anúncio de novas medidas contra corrupção.
Por outro lado, Miguel Rossetto foi mais duro. Falou também sobre a legitimidade das manifestações, mas, como quem sopra para depois morder, logo em seguida disparou: “o que não é legítimo e aceitável é o golpismo, a intolerância e o impeachment infundado que agride a democracia. [...] A consciência brasileira, e a sociedade há de rejeitar essas manifestações contrárias à democracia”.
Além das críticas ao pronunciamento, que foram gerais nos meios de comunicação, alguns analistas concluíram que Cardozo teria falado “para fora”, para acalmar os manifestantes, mostrando abertura ao diálogo, ao passo que Rossetto teria falado “para dentro”, para acalmar os militantes pró-governo, mostrando pulso firme contra a oposição. Independentemente da avaliação que se queira fazer, o que se registrou no momento da coletiva de imprensa é que a panela bateu para os dois, e com igual intensidade.
No dia seguinte, a presidenta Dilma reuniu-se com nove ministros e com o vice-presidente, Michel Temer. Após a reunião, Cardozo foi novamente o encarregado de fazer o pronunciamento e, basicamente, repetiu os termos de sua fala na noite anterior: “O governo
está inteiramente aberto ao diálogo e assume como postura central o diálogo com todas as forças sociais. E pouco importa se são forças sociais que apoiam o governo ou são forças sociais contra o governo. [...] O governo está ouvindo as manifestações”. A presidenta só se pronunciou sobre as manifestações na coletiva após a sanção do novo texto do Código de Processo Civil, quando declarou que: “Um país amparado na separação, independência e harmonia dos poderes, na democracia representativa, na livre manifestação popular nas ruas e nas urnas se torna cada vez mais impermeável ao preconceito, à intolerância, à violência, ao golpismo e ao retrocesso”.
À noite, quando as imagens das declarações dos ministros e da presidenta foram ao ar nos diferentes telejornais, outro grande panelaço teve lugar, mostrando que a agitação e o descontentamento com o governo seguiam firmes. Ao encerrar esta jornada sem precedentes de mobilização popular, o que se viu foi um país extremamente dividido, uma desaprovação não só latente, mas mobilizada, e uma incapacidade de diálogo entre o governo e aqueles que foram às ruas. As análises sobre a responsabilidade do governo, naquele momento, pela conjuntura crítica, foram várias e conflitantes. Destaca-se, porém, como já comentado, a situação de polarização, divisão, e até mesmo de ódio político que se instalou e partiu ao meio o país. Igualmente, para além das medidas contra a corrupção que Dilma se comprometera em lançar, o ponto principal da pauta dos protestos não podia ser atendido pelo governo por uma questão objetiva: os manifestantes demandavam a saída da própria presidenta.
Ainda na mesma segunda-feira, era feito um chamamento para outra manifestação nacional no dia 12 de abril, com a palavra de ordem “Fora, Dilma”. Convocado em um primeiro momento apenas pelo grupo MBL, em poucos dias todos os grupos pró-impeachment se uniriam para a reforçar a manifestação.
Como não poderia ser diferente, uma jornada de tamanha envergadura colocava o Planalto em cheque também nas ruas. A sensação era de um governo sitiado, cercado. Mal começara e já havia sofrido uma grande derrota ao ver Eduardo Cunha se eleger Presidente da Câmara, que, apesar de peemedebista, atuava abertamente como opositor. Ainda no campo político, no início do mandato, Dilma escolhera alçar figuras expressivas da campanha de Arlindo Chinaglia à presidência da Câmara, principal adversário de Cunha, ao primeiro escalão do governo – caso de Pepe Vargas e Miguel Rossetto. Com Vargas na Secretaria de Relações Institucionais, responsável pela articulação política do governo, as pontes de diálogo com o parlamento ficaram minadas, uma vez que este havia conduzido uma forte e dura campanha contra a candidatura de Cunha.
Na trincheira econômica, por outro lado, Dilma acabara de escolher Joaquim Levy como ministro da Fazenda para conduzir um forte ajuste fiscal que tropeçava em dois obstáculos: primeiro, a militância e os apoiadores do governo, que se opunham ferozmente às medidas sugeridas; segundo, a dificuldade de aprovar as próprias medidas do ajuste no Congresso, onde Eduardo Cunha sabotava as votações e aprovava as “pautas bomba”, nome que se deu aos projetos e emendas que aumentavam o gasto público em pleno processo de contenção orçamentária. A presidente lidava com uma faca de dois gumes, pois ao tentar levar a cabo sua política econômica se desgastava com sua base de apoio, mas ao não conseguir levar essa política adiante, se desgastava com seus opositores – que, ironicamente, afirmavam apoiar o ajuste fiscal.
Por fim, entre tantos tropeços, na terça-feira, dia 17 de março, dois dias depois da maior manifestação desde a redemocratização do país, o jornal Estado de São Paulo divulgava o vazamento de um relatório interno da Secretaria de Comunicação Social da presidência da república. Em cinco páginas, o texto expunha um duro balanço das estratégias adotadas pelo Planalto desde as eleições de outubro, o qual podia ser ilustrado pelo trecho: “Não há dúvidas de que a comunicação foi errada e errática. Mas a crise é maior do que isso”. O documento apontava, ainda, para o sentimento de “mágoa” dos eleitores de Dilma, resgatando expressões amplamente difundidas nas redes relacionadas à política econômica adotada no segundo mandato: “Votamos nela e a política econômica é do Aécio”. Fazia-se também uma avaliação negativa por “pedir paciência” no pronunciamento do 8 de março, fato que teria irritado tanto simpatizantes quanto adversários.
Finalmente, em tom sintetizador, outro trecho sentenciava a conjuntura: “De um lado, Dilma e Lula são acusados de corrupção na Petrobrás e por todos os males que afetam o país. De outro, a militância se sente acuada pelas acusações e desmotivada por não compreender o ajuste na economia. Não é uma goleada. É uma derrota por WO”. Para onde quer que se olhasse, apenas instabilidade se avistava.
O campo de apoio ao governo, por exemplo, vivia a encruzilhada relatada pelo trecho do documento da Secretaria de Comunicação Social. Com um ajuste fiscal que ia na direção contrária de suas pautas históricas, como congelamento salarial e corte de verbas nas universidades, para dar dois exemplos óbvios, as entidades desse setor político decidiram por convocar manifestações com pautas propositivas que permitissem, ao mesmo tempo, mostrar o suporte ao governo.
Nesta linha, CUT, MST e UNE convocaram um protesto para o dia 7 de abril, que tinha como chamado o subtítulo “em defesa da Petrobrás, da Reforma Política, dos direitos
dos trabalhadores e contra o ajuste fiscal”. O dia escolhido foi em função da votação na Câmara Federal do PL 4330, que permitiria a terceirização para as “atividades-fim”, proposta criticada pelos apoiadores do governo. Não se pode dizer que houve um grande esforço de mobilização para este dia. Contudo, os números não deixam de mostrar a fraqueza e a incapacidade de mobilização que estes setores vivenciavam. Segundo a polícia, foram apenas 6 mil manifestantes no Brasil inteiro, enquanto a organização do ato falava em – igualmente insignificantes - 14 mil. Tratava-se de algo testemunhal, que no afã de mostrar força expunha fraqueza e alimentava o sentimento de superioridade da oposição.
Apesar de não haver registros de confrontos sérios, em todas as cidades em que os poucos manifestantes saíram às ruas, houve clima de hostilidade e troca de ofensas com cidadãos que, ao notar a movimentação governista, gritavam “Fora, PT” , “Fora, Corruptos”, e demais palavras de ordem da oposição. A percepção, no momento, era de ausência de qualquer apoio ao governo nas ruas. Tal discernimento se materializava na pesquisa feita pelo Datafolha nos dias 9 e 10 de abril daquele ano de 2015, que dava um sinal amarelo para o governo: 63% da população adulta brasileira era a favor da abertura do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff.
Outro componente a confirmar esse sentimento seriam as mobilizações da oposição nos protestos do dia 12 de abril. Mesmo que menores que as de março, foram extremamente consideráveis ao levar às ruas metade do contingente anterior em um intervalo de tempo de apenas um mês. Segundo a PM, 700 mil pessoas compareceram aos protestos em todo o país. A organização, por sua parte, estimara a assistência em 1,5 milhão. Mais uma vez, sem necessidade de ater-se à exatidão dos números, dava-se outra grande demonstração de fôlego daqueles que se opunham ao governo. E mais, reafirmava-se a capacidade de mobilização do campo “Fora, Dilma” em contraposição à fraqueza do campo pró-Dilma. Evidenciava-se, também, o conflito dentro do campo de oposição ao governo, que àquela altura não havia ainda consensuado uma estratégia unitária.
Em relação ao perfil dos manifestantes, este se mantinha praticamente inalterado quando comparado aos da jornada anterior, do 15 de março. Novamente, os dados que se têm são referentes à manifestação de São Paulo na Avenida Paulista, também pelo Datafolha. A única variação considerável foi a média de idade, que passou de 40 para 45 anos. Destaca-se, porém, que 37% dos presentes neste protesto não compareceram ao do dia 15 do mês anterior. Repetindo as mesmas características da manifestação histórica de março também quanto aos dizeres, palavras de ordem e reivindicações, o que surpreendia era a intensificação do clima de animosidade dentro e fora da manifestação. Em artigo na BBC Brasil, o coordenador do
grupo de pesquisa “Qualidade da Democracia”, da USP, José Álvaro Moisés, que esteve no protesto, afirmou ter ficado preocupado com: “o aumento do tom raivoso”.
Nesta linha, outra vez, produzia-se um contraste entre a narrativa apresentada pelos meios de comunicação, que unanimemente seguiam retratando um “ato cívico” com “presença de famílias e crianças” em coberturas ao vivo, e a realidade de alguns episódios que aconteciam sobretudo antes ou depois das manifestações, quando membros do protesto supostamente identificavam, arbitrariamente, um “petralha” e passavam a increpá-lo. Os relatos de jovens de chinelo e com barba, ou de pessoas trajando vermelho que, ao andar pelas proximidades dos protestos, foram alvo de agressão, são vastos, e muitos constam registrados em vídeo. Nesse relato ideológico-mistificador de certos meios de comunicação, era como se, para usar um conceito de Goffman, a trama social ficasse reduzida às regiões de fachada.
Mesmo dentro das manifestações, houve conflitos entre os participantes que apoiavam uma intervenção militar e aqueles que não. O contraste entre o que veiculava-se nos telejornais e na imprensa escrita pode ser constatado inclusive nos seus próprios vídeos, como os vários que foram feitos pela TV Folha sobre as diversas manifestações. Independentemente, a repercussão midiática era gigantesca.
Em definitiva, a jornada de protestos do 12 de abril inseria-se como um elemento a mais na escalada de polarização vivenciada pelo país ao mobilizar, novamente, setores importantes da classe média brasileira. Como vetor de radicalização, este fenômeno influenciava o quotidiano do Congresso Nacional, onde se travava uma batalha entre os parlamentares favoráveis a entrar com uma ação de impeachment já naquele momento, e aqueles que preferiam esperar.
A vacilação da oposição quanto a esse tema é verificada no próprio comportamento do senador Aécio Neves, presidente nacional do PSDB. Na terça-feira após o protesto, dia 14 de abril de 2015, Neves declarava que o partido estudava a possibilidade do impeachment, mas não demoraria até o final do mês para que o político mineiro fosse chamado a intervir na bancada tucana da Câmara Federal, intercedendo os deputados a não apresentar um pedido de impeachment no dia 29, e asseverando: “Com serenidade, vamos definir os passos que daremos a seguir. Não deixaremos impunes os crimes cometidos pelo atual governo. Mas definiremos as etapas que serão tomadas por nós.”
A intervenção se devia, em parte, porque o jurista Miguel Reale Júnior ainda não havia concluído o parecer solicitado pelo PSDB, fato que levava a importantes figuras do partido, tais como FHC, Serra e Aloysio Nunes, a também se opor àquela iniciativa naquele momento. Mas há de se lembrar que, nesse mês de abril, a popularidade de Aécio estava em
alta por causa das recentes eleições e da brusca queda de popularidade que Dilma vinha sofrendo, interessando-lhe mais um possível novo pleito eleitoral do que o impedimento da presidenta e entregar o governo de bandeja ao PMDB.
Na quarta-feira seguinte, dia 15, foi a vez de outra jornada nacional convocada pelas centrais sindicais, que apesar de maior que aquela do dia 7, tampouco conseguiu disputar em número com os protestos pelo impeachment. Com um total de 32 mil pessoas mobilizadas nas ruas do país em números da PM, e 150 mil segundo a organização, uma vez mais era exposta a fraqueza política do governo.
O campo de apoio a Dilma sofria uma dupla dificuldade de mobilização. Para além do desgaste histórico e, digamos, estrutural, que os movimentos sociais vinham sofrendo, aplicava-se, naquele exato momento, o ajuste fiscal do governo. Em síntese, os movimentos sociais que se opunham ao impeachment se mobilizavam pela legitimidade e estabilidade do governo, ao mesmo tempo que criticavam as medidas econômicas adotadas por esse mesmo governo.
Ainda nessa quarta-feira, de manhã, o então tesoureiro do Partido dos Trabalhadores, João Vaccari Neto, havia sido preso preventivamente na décima-segunda etapa da Operação Lava Jato, acusado de receber propinas da Petrobrás. A prisão de Vaccari foi outro fato que elevou o tom do discurso contra o governo, e claramente contribuiu para o já tenso acirramento dos ânimos durante as manifestações à tarde.
Dias após a prisão do tesoureiro petista, na sexta-feira da mesma semana, outro ingrediente seria adicionado à combustão política que se vivenciava, a saber, a declaração de Augusto Nardes, ministro do TCU. Relator das contas do governo de 2014, Nardes declarou que: “Existem várias ilegalidades em relação às pedaladas [...] Poderá, sim, ser responsabilizada a presidenta (pelas pedaladas), se comprovado.”
Tal fato ensejava a possibilidade de materializar uma argumentação jurídica capaz de dar sustentação à abertura de um processo de impeachment. Ademais, sua possibilidade tornava-se pública em meio a um turbilhão político, o que só o abasteceu e o tornou ainda maior.
No meio deste incidente gerado pelas declarações de Nardes, chama atenção a declaração de Eduardo Cunha, que meses mais tarde acataria o pedido de impeachment tendo como base o parecer do TCU: “O que você chama de pedalada é a má prática da coisa pública. Isso vem sendo praticado nos últimos dez, doze, quinze anos. É um erro que eu condeno, mas a princípio, eu, sinceramente, não vejo isso como motivo para suportar um pedido de impeachment.”
De qualquer modo, a possibilidade do TCU emitir um parecer recomendando a reprovação das contas do governo também qualificava o discurso da oposição ao governo e inseria Dilma no centro da crítica. O discurso contra a corrupção tinha tido, até então, dificuldade para ligar-se à Dilma. As críticas ao PT e à Petrobrás pareciam não atingir frontalmente a figura da presidente. No entanto, com um parecer nesses termos, a crítica contra a corrupção finalmente encontrava um ato que implicava pessoal e diretamente a presidente: manipulação orçamentária, maquiagem de contas públicas.
A reação ao novo episódio foi óbvia, e o que a princípio aparentou ser algo localizado e circunscrito a certos locais ou a períodos de tempo específicos, generalizou-se. A constância e a radicalidade dos discursos de ódio político e das hostilizações entre os setores pró e contra o governo se tornou algo inédito. Em retrospectiva, é possível afirmar que em abril, de certa maneira, naturalizou-se a intolerância como forma de fazer política no dia a dia, e somente após a sessão da Câmara que aprovou o afastamento de Dilma, em 17 de abril de 2016, é que houve um ponto de inflexão em que os ânimos começaram a se acalmar.
Por conseguinte, abril marca não só a confirmação da hegemonia da oposição ao governo, mas também, e sobretudo, a radicalização política que pautou o quotidiano de toda a sociedade brasileira nas ruas, bares, universidades, casas e, até mesmo, reuniões de família.