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O Fenômeno Formativo na Tragédia Sofocliana

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Academic year: 2020

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o fenômeno formativo na tragédia

sofocliana* José Joaquim Pereira Melo** Renan Willian Fernandes Gomes***

Resumo: este trabalho discute o fenômeno formativo na tragédia de Sófocles, tendo como orientador geral as bases materiais que levaram ao processo de transformação helênica entre os séculos VIII-V a.C. A sociedade patriarcal, respaldada pela religião doméstica, cedeu espa-ço para uma sociedade racional, advinda da organização da pólis, espaço em que a tragédia se desenvolveu e expressou as mudanças que ocorriam na sociedade grega. A tragédia, especificamente a sofocliana, foi devidamente apropriada pelo cidadão grego, que desejava uma participação efetiva na polis. Com isto, o poeta expressou o fenômeno formativo do homem de seu tempo.

Palavras-chave: Sófocles. Tragédia. Formação italiana. * Recebido em: 10.06.2011.

Aprovado em: 27.06.2011.

** Pós-Doutorado em História da Educação pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2007). Doutor em História e Sociedade pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1998). Mestre em História e Sociedade pela Uni-versidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1990). Graduado em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Mandaguari (1985) e em História pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Mandaguari (1988). Professor Associado da Universidade Estadual de Maringá. Tem experiência na área de História, com ênfase em História Antiga e Medieval, atuando principalmente nos seguintes temas: Educação, Sêneca, Santo Agostinho, Cristianismo e Helenismo. E-mail: [email protected]. *** Graduado em Letras Licenciatura plena em Língua Portuguesa. Pesquisador em Teatro

Grego no Departamento de Fundamentos da Educação da Universidade Estadual de Maringá (UEM). E-mail: [email protected]

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A formação da Grécia clássica é parte do processo de transformação ocorrido entre os séculos VIII e V a.C, considerados por muitos estudio-sos como um período divisor de águas entre a Grécia orientada pelo pen-samento mítico e religioso e a que se pautou no penpen-samento racional e filosófico. No processo de negação do mundo mítico, fundado em uma re-ligião doméstica, e de afirmação da razão e da filosofia, as comunidades de aldeias dos tempos homéricos, organizadas em clãs, foram cedendo lugar a uma nova organização socio/politica: as unidades políticas maiores e mais complexas das cidades-Estado, por sua originalidade, particularizaram a civilização grega.

Uma das grandes modificações havidas desde a época micênica é o grande aumento do número de unidades políticas independentes. Ao invés de uns poucos grandes reinos, talvez sujeitos, todos eles, ao domínio do rei Mi-cenas, encontramos em quase todo vale uma cidade que pretende ser um poder soberano, sem fidelidade a ninguém — na verdade, a cidade-Estado, característica da Grécia clássica (LLOYD-JONES, 1962, 27).

Essa nova realidade grega teve raízes nas transformações promovidas pela concentração da riqueza agrária, a qual aumentou o poder econômi-co dos grandes proprietários sobre as populações agrárias desprovidas. Ao mesmo tempo, tais proprietários arrebataram a autoridade política do rei, atribuindo-a a um conselho, que, de maneira geral, estava sujeito às suas manobras. Por fim, liquidaram por completo o sistema monárquico.

Nesse cenário de mudanças econômicas e de agitações políticas, os gregos conheceram, particularmente no decorrer do século VII a.C, um movimento migratório para regiões não habitadas, onde promoveram a fundação de colônias. Com a conquista de novos mercados, ocorreu uma revolução econômica no mundo grego, caracterizada pela diversificação de atividades, pela ampliação da produção artesanal e pela expansão do comércio.

Como resultado da própria evolução social, o comércio e os pro-dutos artesanais ganharam o status de principais atividades econômicas: a população urbana aumentou com as novas regiões e a necessidade de trocas e de riqueza adquiriu novas formas. Já no século VI era amplo o uso da moeda nas transações comerciais. Na dinamicidade desse movimento, alimentada pelas vitórias sobre os inimigos e pela aquisição/compra de de-vedores que não conseguiam regularizar suas dívidas, a escravidão se impôs como realidade institucional (LARA, 2001).

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O comércio possibilitou certa autonomia ao novo agente social, o comerciante, emancipando-o, em certa medida, do poder patriarcal. Este perdia dia a dia sua autoridade e já não podia manter sua hegemo-nia política.

Na luta contra o inimigo comum, a oligarquia fundiária, os setores médios ascendentes associaram-se aos homens do campo desapropriados. O resultado desse acirrado conflito de classes foi a implantação da ditadu-ra, que tinha como bandeira estimular esperanças e afiançar a superação do caos em que se encontrava a sociedade grega. Demagogos ávidos de poder conquistaram apoio popular suficiente para atingir os seus fins, à revelia das constituições e leis. Finalmente, o descontentamento com esse gover-no de poderes ilimitados, o aumento do poder econômico e a consciência política desenvolvida por cidadãos comuns criaram as condições para a implantação da democracia (BURNS, 1980).

Os séculos V e VI a.C. representam a época clássica na história grega. Nessa época de ouro, termo que tem o mesmo sentido, a cultura helênica chegou ao amadurecimento e desenvolveu todas as suas poten-cialidades. Ao mesmo tempo, a instituição sócio-política que caracterizou o mundo grego, ou seja, a cidade-Estado, atingiu sua plenitude. Provavel-mente, nesse desenvolver, essa expressão do realizar grego começou a reve-lar as fragilidades que os gregos não quiseram ou não tiveram condições de resolver (LARA, 2001).

Os helenos chamavam essas pequenas unidades autônomas de pólis, palavra que ora aparece traduzida como cidade-Estado ora apenas como cidade. No entanto, nenhuma dessas traduções corresponde ao sentido do termo grego (FERREIRA, 1992). Com a pólis, situações significativas se colocaram para o homem grego: “pois a vida social e as relações entre os homens tomam uma forma nova, cuja originalidade será plenamente sentida pelos gregos” (VERNANT, 2002). De um lado, as novas relações que se estabeleciam, desvinculadas da consanguinidade e ordenadas pela nova construção administrativa, punham em tela o ideal igualitário que alavancava a democracia nascente. De outro, a conjunção do corpo social liquidava a hierarquia sustentada pelo poder das famílias aristocratas.

Exemplificadora, nesse sentido, é a situação vivida pela personagem de Sófocles, Édipo, que assassina o próprio pai e desposa a mãe. Segundo Junito de Souza Brandão, em Édipo Rei, é possível interpretar uma reação contra o sistema da velha ordem, a ordem patriarcal que já não podia sub-sistir: o “mito de Édipo deve ser julgado como um símbolo não do amor incestuoso entre mãe e filho, mas da rebeldia contra a autoridade paterna

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da família patriarcal” (BRANDÃO, 2001). Essa peça representa uma si-tuação em a sociedade democrática em ascensão não poderia vicejar sob o poder único característico da sociedade patriarcal.

La fusión de varias comunidades dispersas en uma, para objetos políticos, fue conocida bajo el nombre de “sinecismo”, y esto aconteció seguramente muy pronto en ciertas localidades: en Ática y en Lacônia, por ejemplo, donde Atenas y Esparta, respectivamente, aparecen desde el principio como capitales reconocidas, en que los ciudadanos ejercen sus derechos públicos. Y en ambos casos los câmbios fueron sin duda acompañados por modificaciones del poder monárquico; proceso semejante al de otros pue-blos griegos, y que gradualmente condujo, como se aprecia claramente en el caso de Atenas, al establecimiento más o menos cabal de la democracia (PETRIE, 1946, p.14).

Anteriormente, o espelho para se explicar a sociedade, justificar e formar o homem era o do perfil heroico, consagrado pelas obras de Homero e fundado nas virtudes modelares que davam sequência aos fei-tos heroicos dos antepassados e garantiam exercício de liderança e poder. Essas antigas formas de explicação do mundo foram sendo abandonadas em meio às transformações que ocorriam: o novo homem que se erigia reivindicava seu lugar e, por conseguinte, escrevia sua história distanciada da dos deuses.

Este homem não mais creditava inteira responsabilidade aos deuses pelo que acontecia em sua própria história, ou seja, no curso de sua vida. A sociedade em que estava inserido exigia outra forma de atuação, dinâmi-ca e participativa: a cidade requisitava um novo ideal de homem.

Diante disso, entende-se o fundamental papel que a pólis tinha na vida do grego. Segundo Werner Jaeger, a pólis propagava uma espécie de consciência coletiva; havia um sentimento de identificação/igualdade entre os habitantes de uma mesma pólis.

A gigantesca influência da pólis na vida dos indivíduos baseava-se na igual-dade do pensamento dela. O Estado converteu-se num ser especificamente espiritual que reunia em si os mais altos aspectos da existência humana e os repartia como dons próprios [...] Para a identificação total de um grego exigia-se não só o seu nome e o de seu pai, mas também o da sua cidade natal. Pertencer a uma cidade tinha para os Gregos um valor ideal análogo ao do sentimento nacional para os modernos (JAEGER, 1995, p. 141).

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Foi no espaço da pólis que o grego, respaldado pela racionalidade, passou a se enxergar/entender como senhor de sua vida. As normas divinas cederam espaço para normas racionais, comuns a todos e passíveis de dis-cussão e alterações. A lei, então, tinha dimensão humana.

Portanto, é à pólis que se deve creditar a influência racional na vida do cidadão helênico, visto que foi em seu interior que se desenvolveu o princípio de igualdade. Esse espaço privilegiado reuniu em si os mais altos valores da existência humana, os quais eram entendidos como dons pró-prios de cada cidadão. A vida e a justiça, até então guiadas pela interpreta-ção da vontade deuses e pela arbitragem dos reis, assumiram a condiinterpreta-ção de lei e legislação escrita.

Compreende-se assim o alcance de uma reivindicação que surge desde o nascimento da cidade: a redação das leis. Ao escrevê-las, não se faz mais que lhes assegurar permanência e fixidez. Subtraem-se à autoridade privada do Basileis, cuja função era “dizer” o direito; tornam-se bem comum, regra geral, suscetível a ser aplicada a todos de mesma maneira (VERNANT, 2002, p. 57).

Por isso, o grego vivia na cidade, pela cidade e para a cidade. A ci-dade tornou-se para o grego comum e, particularmente, para o aristocrata o mais significativo valor da sua existência. Nela seria realizava a plenitude humana, visto, no seu âmbito, os gregos sentirem-se livres e protegidos das agressões da natureza, das contendas sociais. Sentiam-se livres do poder dos reis que submetiam os outros povos e, de certa forma, do medo das forças sobrenaturais, já que eles tinham humanizado seus deuses, fazendo deles seus concidadãos.

A cidade incorporava a realização mais perfeita da vida, a única con-siderada verdadeiramente humana: ela estabelecia um diferencial entre o grego civilizado e os outros povos, que eram considerados bárbaros. Por isso, o grego vivia intensamente e dedicava-se plenamente à sua cidade. Não pensava em outra forma de viver, nem tampouco tinha a intenção de levá-la a outros povos. Pode-se inferir que essa radicalização na concepção da vida na pólis levou à inibição de qualquer tentativa de unificação polí-tica do espaço grego, mesmo tendo-se em conta as diversas iniciativas de união entre as cidades (LARA, 2001).

Nos quadrantes dessas coordenadas, a expressão da individualidade e a fecundidade do debate criaram as condições para o desenvolvimento da política. Liberando o homem dos implacáveis desígnios divinos, esta

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tornou possível que ele, a partir das suas próprias habilidades, fizesse sua historia na ágora1.

De acordo com Jean-Pierre Vernant, era na ágora que a cidade costumava centralizar-se. Esta praça pública servia apropriadamente como um espaço para o debate e a discussão dos problemas de interesse comum (VERNANT, 2002).

Com a pólis, o que era secreto no interior da família – o culto às divindades do período patriarcal – passou a fazer parte de toda a cidade:

Essa transformação de um saber secreto de tipo esotérico, num corpo de verdades divulgadas no público, tem seu paralelo num outro setor da vida social. Os antigos sacerdotes pertenciam como propriedade particular a certos gene e marcavam seu parentesco especial com um poder divino; – a pólis, quando é constituída, confisca-o em seu proveito e os transforma em cultos oficiais da cidade (VERNANT, 2002, p. 58).

Nesse sentido, a religião deixou de ter um caráter puramente do-méstico. Os cultos dedicados às divindades deixaram de ser restritos ao in-terior das casas e passaram a ocorrer nas ruas, nas festas populares. Surgiu, assim, uma “religião da cidade”2. Quando o cidadão helênico abandonou

os velhos preceitos da religião gentílica e deixou de aplicar os ensinamentos legitimados pela religião doméstica, estes perderam a função de guia da comunidade em contínuo crescimento.

Esse novo homem deparou-se com a possibilidade de agir em socie-dade, de escrever sua história, começando a se entender como parte funda-mental dessa mesma sociedade. De um lado, o homem grego tinha sua vida traçada pelos deuses; de outro, configurava-se a possibilidade de agir com base em sua vontade, escrever sua própria história, responder por seus atos. O quadro de conflito vivido pelo homem grego e que o colocava em dois pólos opostos e conflitantes foi devidamente representado nas manifes-tações artísticas surgidas na Grécia, especialmente na tragédia: “[...] a con-tradição trágica pode situar-se no mundo dos deuses, e seus pólos opostos podem chamar-se Deus e homem, ou pode tratar-se de adversários que se levantam um contra o outro no próprio peito do homem” (LESKY, 1995). A TRAGÉDIA: GÊNESE E CARACTERÍSTICAS

Segundo Fernand Robert (1987), o vocábulo tragédia é composto de dois elementos: o primeiro refere-se a bode; o segundo, a canto. Explica esse autor que, na arte arcaica, os sátiros eram representados com o aspecto

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equino; somente mais tarde é que lhes foram atribuídos pés e cornos de bode. A princípio, as representações e danças eram realizadas pelo coro ao redor de um bode sacrificado em um altar e o público compunha um círculo ao seu redor. Mesmo quando essas representações foram ganhando um tom mais dramático, sua estrutura foi mantida: um lugar disposto em círculo em frente de um altar, com o público circundante em ascendente, no geral, beneficiando-se do declive do terreno (FUNARI, 2004).

Quanto à sua origem, esse gênero literário, segundo seus estudiosos, está intimamente ligado ao culto dionisíaco.

Dos cultos que existiram paralelamente à religião oficial da Grécia, o dioni-síaco é o mais importante para a formação da tragédia, por sua característica de grande festa coletiva, de caráter popular, onde Dioniso, quatro vezes ao ano, era cultuado pela fartura da terra, do leite, do vinho e do mel. Nessas festas, havia danças e cantos do ditirambo, que davam ao culto certo caráter lírico, o qual permaneceu na tragédia (COSTA; REMÉDIOS, 1988, p.9).

A celebração desse deus devia-se ao fato de que: “Era él, en efecto, el dios de las exaltaciones extáticas, y ejerció natural señorío sobre cuantos se sentían en contacto con los secretos de la naturaleza o procuraban indagar los misterios que gobiernan la existencia humana (BOWRA, 1948).

Para além dessa ligação com o deus, o mito constitui-se em matéria-prima/fonte da tragédia, em sua forma bruta; nele, o poeta trágico buscou inspiração para criar suas personagens, o que não poderia ser diferente, pois, afinal, o mito foi a “[...] fonte de todo pensamento grego” (GRIMAL, 1985). Naqueles tempos, expressões artísticas como a epopeia e a lírica já estavam prontas, enquanto conhecimentos como a filosofia, a historiogra-fia e a retórica estavam passando por significativo desenvolvimento. Ao lançar mão desses conhecimentos novos, a tragédia apresentou-se como um ponto de confluência das artes. Além disso, não se esqueceu da dança e da música, pois, pela tendência a despertar um maior interesse, estas eram fundamentais na montagem da representação (SCHULER, 1985). Duas questões significativas merecem ser lembradas a respeito das tragédias gregas

A primeira é que a ação era minimamente representada no palco: os ato-res recitavam acontecimentos de um enredo já conhecido do público, visto a história que encenavam ter suas origens em lendas populares (BURNS, 1980).

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Em regra, o heroi da tragédia era representado pelo “primeiro” ator, que sempre ficava em evidência. Apresentada ao mesmo tempo, mas à dis-tância, ficava a figura identificadora: na democrática Atenas, na maioria das vezes, o heroi era um rei, até mesmo um ‘tirano’ ou ainda um rei inimigo. A elevação e a queda do heroi eram preparadas de modo a ser previstas e previsíveis, pois, na maioria das vezes, conforme já mencionado, o conteúdo mítico das peças era do conhecimento do público. Portanto, centralizadas e destacadas eram as pegadas que levavam ao fim do heroi, em todos os seus tempos e variações, quer tivessem sido realizadas de for-ma consciente e voluntária, quer de forfor-ma cega e desatinada. A metafó-ra trágica relaciona-se quase que regularmente a um quadro de sacrifício (BURKERT, 2001).

A segunda questão relaciona-se à pouca preocupação das tragédias com a complexidade da personalidade individual. Não se evidenciavam ca-racteres pessoais produzidos pelas adversidades de uma vida marcada pela longevidade. As personagens não tinham o perfil de indivíduo e assumiam a condição de “tipos”.

A utilização das máscaras tinha por fim evitar mostrar qualquer ca-racterística que, de forma evidente, distinguisse os atores do restante da humanidade. Além disso, o fio condutor das tragédias era o conflito entre o homem e o universo. A orientação trágica dada aos caracteres principais nessas peças referia-se a algo exterior ao indivíduo. Em geral, ela se refe-ria a um crime praticado por alguém contra a sociedade e que tinha, por extensão, ofendido os projetos morais do universo. Essa era a origem da importância dada à efetividade da punição. Tratava-se de restabelecer o equilíbrio próprio da justiça retributiva.

Importa considerar que, como objetivos das tragédias gregas, não constavam apenas apresentar o sofrimento, as dores das personagens e/ou interpretar as ações humanas, mas também abordar o comportamento, su-postamente ideal, do homem grego, inseri-lo em uma situação de angústia e, com base nesse quadro, purificar as emoções do público, pontificando uma justiça vitoriosa (BURNS, 1980).

Para Jacqueline de Romilly (1984), as características trágicas assu-midas pelo teatro foram uma produção social; expressiva, sua populariza-ção chegou ao ponto de a cidade parar para assistir as suas representações. Por extensão, o teatro interferia na formação do cidadão.

Segundo Rocha Pereira, a importância atribuída à tragédia pelo gre-go era tanta que as peças se constituíram como uma atividade de ordem cívico-religiosa destinada a toda a pólis.

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[...] a ela assiste toda a pólis, pois até os pobres podem levantar os seus bilhetes numa espécie de fundo comum, o theoricon. Não é divertimento e distracção para o espírito cansado pelas tarefas quotidianas. O cuidado em que tais actos se efectuem anualmente com toda a regularidade era uma das grandes preocupações dos Atenienses, que até encerravam os tribunais durante esse período (PEREIRA, 1998, p.392).

A influência que a tragédia exercia entre os gregos também foi destacada por Albin Lesky, que afirma: “Com o mito heroico, a tragédia conquistou um âmbito temático que vivia no coração do povo como um trecho da sua história” (LESKY, 1995).

Afinal, a tragédia continha a magia de reproduzir no palco situações cujas matrizes residiam naquilo que rodeava o grego em seu cotidiano pes-soal e público, enfim, em sua existência em sociedade.

A tragédia fornece aos expectadores uma possibilidade para se admirarem com as ações e/ou com os processos de relacionamento dos homens entre si, fornece estímulos pedagógicos para pensar o mundo sob os cânones do racional. Coloca ao grande público (sem sistematizações acadêmicas), em uma visibilidade mais concreta, a condição humana de precariedade e de angústia pelo desconhecido. Mobiliza para a observação e a interpretação de princípios naturais, de necessidades internas dos fenômenos, ligadas, fundamentalmente, ao ciclo da vida, ou seja, nascimento, crescimento,

re-alização, decadência, dissolução. Exerce, assim, um papel imprescindível na

compreensão de um mundo movido por leis, basilar para o aprimoramen-to da auaprimoramen-toconsciência que passa a reconhecer a diferença entre destino e necessidade (NAGEL, 2006, p.87).

O palco da tragédia assumiu o papel de espelho para o grego: com base nele o indivíduo se via, julgava, considerava suas ações e avaliava o papel dos deuses em sua vida (BRANDÃO, 2001, p.13). Para Aristóteles, “a tragédia é a imitação de homens melhores do que nós” (ARISTÓTE-LES, 1987); ou seja, ela tinha um papel exemplificador, suas ações eram modelos a ser observados e seguidos pelo

A TRAGÉDIA A SERVIÇO DO FENÔMENO FORMATIVO

Esse cenário leva a entender a “grande força educativa” que a tra-gédia conquistou no processo de organização da cidade e de consolidação

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da democracia. Na condição de “gênero didático”, ela serviu aos fins de governantes e atendeu às necessidades da cidade, orientando a mentalida-de grega ainda confusa, o homem que se confrontava com os seus limites, com a complexidade, a ambiguidade e as contradições próprias daquele período histórico.

Em face do conflito vivido pelo grego, os tragediólogos não se aven-turaram a negar os velhos mitos, mas, ao mesmo tempo, não tinham a ino-cência homérica para aceitá-los sem o crivo da reflexão. Por isso, colocaram no centro das discussões a vinculação do homem com a sociedade e com a natureza em geral, sempre tendo em vista um aproveitamento prático, mas, ao mesmo tempo, sem excluir de suas produções um forte espírito re-ligioso e moral, o que evidencia o seu caráter formador (GALINO, 1973). Vale enfatizar que em Atenas o teatro tornou-se o único espaço pos-sível para se falar ao cidadão de qualquer tema que não envolvesse uma situação política imediata. Assim, a maioria dos poetas assumiu como par-te de sua função reafirmar ou rever os padrões morais, sociais e religiosos da sua época. À medida que mudavam os valores, era comum que o poeta adequasse sua fala aos valores emergentes (PEREIRA, 1998).

Investindo-se da condição de “diretor das almas”, o poeta, nesse exercício formativo, provocou e contribuiu para a reflexão e para o assen-tamento moral. Ao ensinar o que entendia ser a forma de “viver melhor”, o conhecimento mais elaborado sobre os deuses, as maneiras particulares com que estes se relacionavam e intervinham na vida e nos assuntos dos homens, como estes podiam conquistar seus favores, o poeta consolidou um papel pedagógico em seu meio e assumiu o papel de educador da cons-ciência moral do seu tempo e da sua cidade. Requisitado, ele desempenhou a condição de educador em todas as suas dimensões: moral, religiosa, polí-tica e humana (GALINO, 1973).

Tal condição foi evidenciada por Aristófanes (445-385 a.C), o mais expressivo representante do teatro cômico. Ele não teve dúvidas em afirmar em sua peça As rãs: “É verdade que não, mas o poeta deve lançar um véu sobre o que é indecoroso, e evitar sua exposição à luz do dia ou apresentá-lo em cena. O poeta trágico é para a idade viril o que o preceptor é para a infância” (ARISTÓFANES, 1996, p.264).

No entanto, é possível encontrar na Antiguidade uma resistência a essa força influenciadora e formadora de que se revestiu o teatro, em especial a tragédia. É o que se observa nos muitos passos de Platão, que condenou e até mesmo propôs a exclusão desses elementos literários do seu projeto de cidade-ideal (PEREIRA, 1998).

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O tratamento dado por Platão à tragédia não retratou todo o pen-samento grego, que quase sempre entendeu a dimensão formativa nela contida. Expressivos, neste sentido, são os dizeres de Werner Jaeger: “a concepção de poeta como educador do seu povo — no sentido mais am-plo e profundo da palavra — foi familiar aos gregos desde a sua origem e manteve sempre a sua importância [...]” (JAEGER, 1995, p.61).

Os principais representantes do gênero dramático no período foram Ésquilo (525/456 a.C), Sófocles (496-406 a.C) e Eurípides (485-406 a.C), os quais foram fundamentais para que o espírito ateniense chegasse à sua expressão clássica (GALINO, 1973) e para que o século V a.C., como o ponto de partida dos séculos de ouro, representasse toda uma época. SÓFOCLES: O POETA-EDUCADOR

Neste movimento artístico formador, papel significativo teve Sófo-cles, cujas peças mais conhecidas são Édipo Rei, Édipo em Colono, Antígona e Electra.

De estilo elaborado e reflexão aguçada, Sófocles foi autor de mais de cem peças, das quais dezoito mereceram distinções e prêmios. O con-junto de sua obra, a exemplo de poucos escritores gregos, expressa o ideal grego do “nada em excesso”. Sua atitude e estilo são ímpares, quando se trata da deferência e exaltação da harmonia e da paz, do respeito e da de-dicação à democracia, da simpatia e da habilidade no trato das fraquezas humanas (BURNS, 1980).

Sófocles tornou-se um símbolo do artista que busca a mediação en-tre os pólos opostos, enen-tre os exen-tremos. Quando essa mediação se mos-trou impossível, ele lançou mão de uma elegia aprazível e amargurada. Sua maneira de representar a impossibilidade de se voltar atrás apresentou-se posteriormente como síntese primorosa. Em face disso, ele conquistou a graça e a simpatia dos defensores e partidários do equilíbrio notadamente estético: dos classicistas (CARPEAUX, 1959).

Segundo grande parte dos estudiosos, ele foi um homem de opini-ões moderadas, um respeitador da religião e da moral. Viveu, por conse-guinte, em harmonia com a sua época. Foi um poeta único, continuador de Ésquilo, dando sequência, em seu palco, à forma com a qual este repre-sentava as relações entre homens e deuses: “la forma tradicional le resultó adecuada, y aunque introdujo reformas técnicas, se contuvo siempre en los limites de su arte y observó cuidadosamente el tono aceptado de la tragedia (BOWRA, 1983).

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Nesse momento, de acordo com o estabelecido pelos cânones, assen-tam-se as normas e preparam-se os caminhos para a realização da educação no seu recorte clássico. Acrescente-se que, já nessa época, a palavra educa-ção era investida do sentido de formaeduca-ção consciente (GALINO, 1973).

Artista da palavra e da cena, hábil calculador dos efeitos, mestre da construção dramática e da narrativa analítica do enredo, Sófocles coloca-va-se entre o pathos coletivista de Ésquilo e o individualismo de Eurípedes. O drama de Édipo, com o seu caráter semipolítico e semissentimental, põe às claras um vigor elevado de emoção. O conflito coletivo e o conflito in-dividual associam-se internamente e o resultado se torna independente das condições externas, resultado permanente (CARPEAUX, 1959).

Ao contrário de Ésquilo, que põe em cena personagens sublimes e heroicas, compostas de fora para dentro e impelidas para a desdita por um destino inexorável, Sófocles, modelando suas personagens de dentro para fora, destaca suas qualidades morais e espirituais. Seu estilo, mesmo não sendo tão ornado quanto o do poeta antecedente, é prenhe de pensamen-tos na sua aparente sensibilidade. Assim, é bastante flexível para mostrar os diferentes matizes de suas ideias.

Nesse processo de composição sofocliana, um traço não pode ser desconsiderado: a ironia com que ele representa uma situação pensada pela personagem e que difere do real (PETRIE, 1980). O fato de, em Só-focles, o ser humano ser desprovido das grandes proporções características das personagens de Ésquilo não afeta a nobreza de seu caráter heroico. Suas personagens possuem um caráter sensível e sereno. Nele, a essencialidade da natureza humana não é afetada/alterada pela espiritualidade, mesmo quando esta é aprofundada pela intensidade/violência das paixões. O poe-ta, ao delinear os caracteres de suas personagens não se esquece da “medi-da”; o contrário seria dar vazão a todos os males, conforme assevera o coro de suas peças.

Pelo que se pode apreender em suas tragédias, Sófocles se colocou como o educador daquele homem ligado ao Estado, homem esse legado por Ésquilo. Por isso mesmo, já que a conduta ideal do homem aparece como a principal preocupação de sua obra, Sófocles assumiu o propósito de formá-lo de acordo com os parâmetros requisitados pelo elevado ideal helênico do seu tempo (GALINO, 1973).

Os conflitos mais reais, as situações do cotidiano e a busca por di-reções em um período conturbado foram inspiração para a construção da obra dramática sofocliana. O homem que nela está representado é aquele que encara seus dramas. Embora a presença dos mitos e dos deuses ainda

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seja forte no desenvolvimento da ação, Sófocles humanizou suas perso-nagens, dotando-as de defeitos e vontades. Mais do que isso, o homem sofocleano buscava uma medida, um equilíbrio para si.

Não é por mera casualidade de temperamento pessoal que Sófocles é o mestre do meio-tom, ao passo que Ésquilo nunca o poderia o conseguir [...] Não compreenderá isto facilmente quem, nos momentos de caos e agitação da vida em que todas as formas parecem dissolver-se, não tiver estendido a mão para este guia, a fim de encontrar de novo o equilíbrio interior por meio da ação de alguns versos de Sófocles. A medida que se experimenta no acorde e no ritmo é que é o princípio do ser para Sófocles. É o piedoso reconhecimento de uma justiça que habita as próprias coisas e cuja compreensão é o sinal da mais perfeita maturidade. Não é sem razão que o coro das tragédias de Sófocles repete constantemente que a fonte de todo o mal é a ausência de medida (JAEGER, 1995, p. 324-5).

Tal princípio de representação pode explicar a maneira pela qual suas personagens se apresentam: ora certas de suas ações, legitimadas pelos deuses, ora duvidosas e temerosas por estar infringindo o que teria sido traçado por forças supremas. Este fato aponta para o entendimento de que o universo trágico, geralmente concebido como uma crise cujo ponto cen-tral é a ambiguidade, é apenas resultado de um mundo que se apresentava dividido pelo choque entre forças opostas — o mítico e o racional (COS-TA; REMÉDIOS, 1988), promovido pelo processo de transformação pelo qual passava a Grécia.

Assim, ao passo que, para Homero, o heroi era o arquétipo a ser se-guido, para Sófocles, o protagonista, apesar de suas imperfeições humanas, representa o ideal de homem que deveria ser seguido: suas atitudes, suas crenças e, principalmente, a maneira como dirigia sua própria vida. Esse perfil heroico carrega em seu bojo valores sagrados como nobreza, prudên-cia, sabedoria, justiça, lealdade, racionalidade, ou seja, virtudes que cada cidadão deveria buscar no intuito de ser um homem melhor.

Ódio, ciúmes, arrogância, remorso são listados como as paixões mais comuns de que as personagens sofoclianas eram investidas. Tais ele-mentos eram os causadores do infortúnio, da ira dos deuses. A falta de me-dida desse homem trazia para si as catástrofes, a exemplo das que ocorrem com Édipo, que se vê às voltas com a praga que assola Tebas: “Sófocles deja bien claro, desde el principio, que el héroe es culpable de desacato a los dioses y, en tal virtud, será castigado” (BOWRA, 1948, p.74).

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Nesta mesma linha de raciocínio, Werner Jaeger considera:

Esse homem, sobre quem parece desabar o peso de todas as dores do mun-do, foi desde o início uma figura da mais alta força simbólica. Converte-se no homem sofredor, sem mais. Na plenitude da vida, Sófocles achou plena satisfação em colocar Édipo no meio da tempestade do aniquilamento. Põe-no diante dos olhos do espectador no momento em que amaldiçoa e quer aniquilar, desesperado, a sua existência, tal como já com as próprias mãos havia apagado a luz dos olhos (JAEGER, 1995, p.333).

As características com que Sófocles revestiu seus herois traziam o ris-co de eles não se situarem nos quadrantes requisitados pela ordem. Mesmo neste caso, parece que o sentido era o de que uma transgressão sem uma exemplar punição poderia levar ao caos.

A tenacidade com que Sófocles caracterizou seus herois conduz ao domínio da sabedoria. A ação na sua forma mais expressiva cede lugar para o exercício da contemplação. O saber tem um caráter superior ao do fazer (SCHULER, 1985).

A natureza religiosa de Sófocles evidencia-se na importância por ele atribuída à excelência e à superioridade dos deuses e à força temível e im-placável de seus poderes quando cotejada com a fragilidade e a debilidade humana.

Nessa linha de raciocínio, na perspectiva do tragediólogo, a prescri-ção dos deuses traz consigo retidão e bondade, ou seja, é sempre boa e não escapa da sintonia da sua providência (GALINO, 1973).

Na tragédia sofocliana, até mesmo os inocentes não deixam de ser vítimas da fatalidade (SCHULER, 1983). Édipo, por exemplo, “[...] não era culpado; os deuses é que estavam irados com a sua raça” (PEREIRA, 1998, p.431). Atenta ao seu tempo, essa personagem deixa claro que tem consciência das mazelas e das injustiças que campeiam em sua cidade, bem como de que o homem é constantemente atormentado pela dor e pelas desditas, que são comuns ao longo da vida. No entanto, o pessimismo de Sófocles não era absoluto, pois até nisso ele encontrava compensações, mostrando que era exatamente no sofrimento que se encontrava a gran-deza heroica vivida por suas personagens (GALINO, 1973). Tal vivência deveria se constituir em modelo para seu público. Tal como suas persona-gens, seu público deveria adquirir a consciência de que pelo sofrimento e somente pelo sofrimento o homem se capacitava plenamente para identi-ficar sua situação no cosmo.

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Uma coisa é certa: Sófocles não se afastava da sua realidade. No Phi-loctetas, a desdita, a dor trágica, apresenta-se como instrumento da vontade superior, divina, como instituição deste mundo. Sem a resistência trágica à lei do Estado, Antígona seria apenas uma personagem sentimental; o en-frentamento põe à luz a força e o imperativo de uma consciência moldada pela resistência. Assim, Antígona se converte no símbolo perene de todo movimento de resistência. Da mesma forma, o poeta fez de sua persona-gem mais famosa — Édipo — o símbolo permanente dos erros trágicos da humanidade: aqueles particulares do heroi que, na estrutura trágica, eram os responsáveis por seu infortúnio.

Em meio às complicações típicas de um enredo quase diabólico, os erros se desfazem e a personagem se transforma num ser cuja companhia é a infelicidade. Em outras palavras, torna-se um homem trágico, aceitando aquilo que a vida lhe impôs. Ao final das suas tragédias, Sófocles faz de suas personagens homens mais dignos do que eram no início do drama. Aí está a solução euripidiana encontrada por Sófocles para o conflito esquiliano: o confronto entre a ordem celeste e a ordem terrena, que resulta em uma vida dolorosa, mas reconciliável na plenitude da dignidade humana.

Em Sófocles, tudo busca a harmonia, o que, no entanto, não pres-supõe o esquecimento do fundo escuro da existência do homem. O poeta tem os dotes de um humanista, mas de um humanismo helênico que nunca desconsiderou a precariedade do mundo em face da provável ira dos deuses, nem, tampouco, a ideia de que a tristeza deste mundo exige do público um silêncio regado de compaixão no final da peça (CARPEAUX, 1959).

Por isso mesmo, Sófocles sensibiliza-se e comove-se com o sofri-mento dos homens, embora não saiba como resolvê-los. O fato de não ter respostas satisfatórias ao problema das trágicas limitações em que estava emerso o homem constitui-se em uma das causas da sua candente moder-nidade (SCHULER, 1985).

A modernidade de Sófocles apresenta-se também no modo pelo qual ele libera o seu heroi da sua história e faz dele uma personagem isola-da. Isso se observa quando ele representa pessoas separadas do mundo que as cerca de forma tenaz e desesperada: Ájax, na desgraça do seu suicídio; Antígona na luta de oposição à razão de Estado, reivindicando as “leis não escritas dos deuses”, somente a ela facultado seu apreender; e o mais desdi-to e solitário, o Rei Édipo (BURKERT, 2001).

Assim, tanto o homem comum quanto o idealizado estão presentes em Sófocles. Figuras humanas de carne e osso foram construídas, com paixões violentas e sentimentos ternos, de grandeza heroica e altiva

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huma-nidade, o que as faz tão semelhantes a nós e ao mesmo tempo dotadas de tão grande nobreza (JAEGER, 1995).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao discutir as crises vividas pela sociedade grega, a tragédia tem por preocupação orientar e situar o cidadão nesse processo confuso e complexo de mudanças. A tragédia, em razão da força dramática que lhe dá caracterís-ticas distintas das dos demais gêneros literários, tornou-se instrumento por excelência para se representar e discutir esse processo e, em consequência, refletir sobre o homem requisitado pela ordem social que se implantava.

O segredo da surpreendente proeza literária de Atenas está no lugar central que ocupa não só na educação, como também na vida da comunidade adulta a qual considera que a literatura exerce influência sobre a sociedade e é algo com que a sociedade deve preocupar-se (BALDRY, 1968, p. 60).

Mesmo que pareça perigoso afirmar que as tragédias foram escritas com finalidade formadora para o seu público, pois o propósito era o de serem elas obras de arte com finalidade cênica, deve-se considerar que essa condição não dispensou seus enredos de estar em sintonia com os interesses da pólis, de discutir um modelo de homem para aquele contexto histórico.

Um escultor de homens como Sófocles pertence à história da educação humana. E como nenhum outro poeta grego. E num sentido inteiramente novo. É na sua arte, que pela primeira vez se manifesta o despertar da edu-cação humana. É algo totalmente diverso da ação educativa, no sentido de Homero, ou da vontade educadora, no sentido de Ésquilo (JAEGER, 1995, p. 321).

Assim, por meio de suas personagens, o poeta assumia uma função so-cial, qual seja: a de ser “o educador dos homens livres” (BONNARD, 1980), que, nesse momento, já reivindicavam papel mais ativo na vida em sociedade. Isto era um fragrante indicativo de que o mundo grego passava transformações tão profundas que resultariam em um novo tempo para a Grécia.

Importante aqui é destacar o fato de que, dentre outros aspectos culturais, políticos e sociais, a Grécia continua se fazendo notória também em sua história educacional. Tal notoriedade se explica pela maneira com que a pedagogia helênica concebeu o educar/moldar do homem/cidadão.

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Em síntese, a educação grega, quer na sua expressão mais formal quer na informal, desempenhou o seu papel social e respondeu às necessi-dades do tempo histórico em que ocorreu. Os reflexos desse desempenho iluminaram a educação ocidental da qual foi gênese, marcando presença nas instâncias voltadas à educação na atualidade. Conforme se constata nos currículos, programas, livros e manuais didáticos comumente aceitos e utilizados na contemporaneidade, os temas relacionados à educação desse período são praticamente obrigatórios.

THE FORMATIVE PHENOMENON IN THE SOPHOCLES’ PLAY

Abstract: this work discusses the formative phenomenon in Sophocles’ play, having as a guiding principle the material bases which propelled the Hellenic transformation occurred between the VIII-V century B.C. The patriarchal society oriented by a domestic religion gave way to a rational society derived from the pólis organization, where the tragedy developed itself and expressed the changes taking place at the time. The tragedy, specially the Sophoclian’s, was appropriated by the Greek citizen, who wanted an effective participation in the pólis. Thus, the poet expressed the formative phenomenon of the people of his time. Keywords: Sophocles. Tragedy. Formation.

Notas

1 Ágora: praça pública onde os cidadãos gregos se reuniam para discutir e ex-pressar suas ideias. Era também na ágora que os filósofos e oradores se reu-niam para mostrar suas habilidades de reflexão ou de convencimento. 2 A religião da cidade era a religião da pólis grega, que confiscou da antiga

reli-gião doméstica ritos, crenças e divindades e os adaptou à realidade da cidade, tornando público o que até então tivera uma característica de privado. Referências

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Referências

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