FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS
CENTRO DE PESQUISA E DOCUMENTAÇÃO DE HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DO BRASIL – CPDOC
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA, POLÍTICA E BENS CULTURAIS
MESTRADO PROFISSIONAL EM BENS CULTURAIS E PROJETOS SOCIAIS
IMAGENS DA MADEIRA-MAMORÉ
Proposta de um Centro de Documentação e Referência
EVANDRO DA ROCHA LOPES
Orientação: Professora Dra. Luciana Quillet Heymann
FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS
CENTRO DE PESQUISA E DOCUMENTAÇÃO DE HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DO BRASIL – CPDOC
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA, POLÍTICA E BENS CULTURAIS
MESTRADO PROFISSIONAL EM BENS CULTURAIS E PROJETOS SOCIAIS
IMAGENS DA MADEIRA-MAMORÉ
Proposta de um Centro de Documentação e Referência
EVANDRO DA ROCHA LOPES
Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado Profissional em Bens Culturais e Projetos Sociais, do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas, como requisito parcial para obtenção do título de mestre em Bens Culturais e Projetos Sociais.
Orientadora: Professora Dra. Luciana Quillet Heymann
Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Mario Henrique Simonsen/FGV
Lopes, Evandro da Rocha
Imagens da Madeira-Mamoré: proposta de um Centro de Documentação e Referência / Evandro da Rocha Lopes. – 2018.
102 f.
Dissertação (mestrado) – Escola de Ciências Sociais da Fundação Getulio Vargas, Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais.
Orientadora: Luciana Quillet Heymann
Inclui bibliografia.
1. Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. 2. Associação dos Amigos da Madeira-Mamoré. I. Heymann, Luciana Quillet. II. Escola de Ciências Sociais da Fundação Getulio Vargas. Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais. III.Título.
CDD – 385
Agradecimentos
À professora Luciana Quillet Heymann, pela paciência, generosidade e rigor acadêmico durante a orientação.
Às professoras Aline Lopes de Lacerda e Verena Alberti, pela participação na banca.
A Joana d’Arc Cavalcante, pelas esperas e compreensão com as minhas ausências.
A João Garrel, pela amizade e leitura dos rascunhos do projeto.
A Luiz Leite de Oliveira, por ser um eterno defensor da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.
Aos meus amigos Martin Cooper e Célia Cooper, pelas traduções e estímulo.
A Rogério Alves de Barros, pela revisão final do trabalho.
Resumo
O trabalho tem como objetivo propor o projeto de um Centro de Documentação e Referência da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré a ser implementado na cidade de Porto Velho (RO) e vinculado à Associação de Amigos da Madeira-Mamoré. A pesquisa descreve a história da ferrovia e dessa entidade de preservação visando contribuir para a identificação material e simbólica do referido bem, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 2008. O Centro terá como foco a história da ferrovia Madeira-Mamoré, a fim de contribuir para a valorização da história regional por meio de ações de recuperação da memória ferroviária e preservação do patrimônio ferroviário. Inicialmente, o acervo contará com as coleções fotográficas de Manoel Rodrigues Ferreira e Dana B. Merrill, custodiadas pela Associação de Amigos da Madeira-Mamoré, e pelo arquivo da própria Associação. O Centro também será um órgão referenciador quanto à localização de acervos documentais e fontes bibliográficas sobre a ferrovia.
Palavras-chave: instituições de memória; patrimônio ferroviário; Estrada de Ferro
Madeira-Mamoré; Associação de Amigos da Madeira-Mamoré; Centro de Documentação e Referência; Rondônia.
Abstract
The objective of this work is to propose the design of a Documentation and Research Centre for the Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFM-M), to be created in the city of Porto Velho (RO), and linked to the Association of Amigos da Madeira-Mamoré. This work describes the history of both the railway and the preservation group in order to contribute to the identification of symbolic and material property registered by IPHAN in 2008. The Centre will focus on the history of the EFM-M in order to contribute to the evaluation of regional history through recovery actions of railway memory and railway heritage preservation. Initially this includes the archive collections of Manoel Rodrigues Ferreira and Dana B. Merrill, both in the custodianship of the Association of Amigos da Madeira-Mamoré, and the archives of the association itself. The Centre will also be a benckmark for the location of documetary collections and bibliographic sources on the EFM-M.
Key-words: memory institute; railway heritage; Estrada de Ferro Madeira-Mamoré;
Association of Amigos da Madeira-Mamoré; Documetation and Referral Centre; Rondônia
Lista de ilustrações
Ilustração 1 Mapa da EFM-M, mostrando o traçado, estações e paradas. Desenhista:
Mário Toval, s/d. Fonte: SILVA, 1944, p.284.
Ilustração 2 Vista panorâmica parcial do pátio ferroviário de Porto Velho. Na foto, ao
centro, rotunda e oficinas; à esquerda, veem-se prédios administrativos e residências; à direita, o rio Madeira. Foto: Dana B. Merrill, 1910. Fonte: TRILHOS E SONHOS. 2000, s./p.
Ilustração 3 Navio S.S. Madeira-Mamoré, transportando grupo de trabalhadores da
EFM-M até Porto Velho (RO). Foto: Dana B. Merrill, s/d. Fonte: NEELEMAN, Rose; NEELEMAN, Gary. 2011, p.135.
Ilustração 4 Trecho de linha ferroviária próximo à localidade de Santo Antônio (km 7).
Na foto, observa-se o desbarrancamento de aterro construído sob a linha férrea. Foto: Dana B. Merrill, s/d. Fonte: NEELEMAN, Rose; NEELEMAN, Gary. 2011, p.151.
Ilustração 5 Grupo de trabalhadores assentando trilhos e dormentes em um trecho da
linha férrea. Foto: Dana B. Merrill, s/d. Fonte: NEELEMAN, Rose; NEELEMAN, Gary. 2011, p.204.
Ilustração 6 Grupo de trabalhadores embarcando pelas de borracha; ao fundo, veem-se
os vagões e uma locomotiva. Foto: Dana B. Merrill, s/d. Fonte: NEELEMAN, Rose; NEELEMAN, Gary. 2011, p. 98.
Ilustração 7 Grupo de trabalhadores da lavanderia a vapor instalada em Porto Velho
(RO); ao centro, homem norte-americano; à esquerda e à direita, homens e mulheres barbadianas. Foto: Dana B. Merrill, s/d. Fonte: MUSEU DA IMAGEM E DO SOM. 1993, s./p.
Ilustração 8 Trabalhadores da EFM-M. Foto: Dana B. Merrill, s/d. Fonte: MUSEU DA
Ilustração 9 Trabalhador da EFM-M. Foto: Dana B. Merrill, s/d. Fonte: MUSEU DA
IMAGEM E DO SOM. 1993, s./p.
Ilustração 10 Trabalhador da EFM-M. Foto: Dana B. Merrill, s/d. Fonte: MUSEU DA
Lista de abreviações
ABPF – Associação Brasileira de Preservação Ferroviária
AMMA – Associação de Preservação do Patrimônio Histórico do Estado de Rondônia e Amigos da Madeira-Mamoré
ANPUH – Associação Nacional de História
ASFEMM – Associação dos Ferroviários da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré BEC – Batalhão de Engenharia e Construção
BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social CAPES ‒ Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CDHR – Centro de Documentação Histórica de Rondônia
CNRC – Centro Nacional de Referência Cultural
CPDOC – Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil CTPF – Coordenação Técnica do Patrimônio Ferroviário
DGEC - Diretoria Geral de Engenharia e Comunicações DNER – Departamento Nacional de Estradas de Rodagens DVT – Diretoria de Vias de Transportes
ECT – Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos EFA – Estrada de Ferro do Amapá
EFB – Estrada de Ferro de Bragança EFC – Estrada de Ferro Carajás
EFM-M – Estrada de Ferro Madeira-Mamoré
ELETROBRÁS – Centrais Elétricas Brasileiras S.A. EMBRATEL – Empresa Brasileira de Telecomunicações EFT – Estrada de Ferro Tocantins
FGV – Fundação Getúlio Vargas FIOCRUZ – Fundação Oswaldo Cruz
FUNCULTURAL – Fundação Cultural de Porto Velho FUNCER – Fundação Cultural do Estado de Rondônia FURNAS – Furnas Centrais Elétricas S.A.
IAB – Instituto dos Arquitetos do Brasil
ICOMI – Sociedade Brasileira de Indústria e Comércio de Minérios de Ferro e Manganês
IEB – Instituto de Estudos Brasileiros
INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária INPS – Instituto Nacional de Previdência Social
IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional LPCF – Lista do Patrimônio Cultural Ferroviário
MIS – Museu da Imagem e do Som
MVOP – Ministério da Viação e Obras Públicas OAB – Ordem dos Advogados do Brasil
PDS – Partido Democrático Social
PMDB – Partido do Movimento Democrático Brasileiro
PPHEC – Programa de Pós-Graduação em História e Estudos Culturais PRÓ-MEMÓRIA – Fundação Nacional Pró-Memória
RFFSA – Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima SECEL – Secretaria de Estado da Cultura, Esportes e Lazer
SEJUCEL – Superintendência da Juventude, Cultura, Esportes e Lazer SENAC – Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial
SPHAN – Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional SPU – Serviço do Patrimônio da União
UNESP – Universidade Estadual Paulista
UNIR – Fundação Universidade Federal de Rondônia USP – Universidade de São Paulo
Sumário
Introdução...13
Capitulo 1 Memória e patrimonialização de acervos 1.1 Instituições de memória e documentação...21
1.2 Memória ferroviária e patrimônio ferroviário...26
1.3 EFM-M: uma ferrovia patrimonializada...31
Capítulo 2 Estrada de Ferro Madeira-Mamoré: uma ferrovia na Amazônia 2.1A história da ferrovia...44
2.2 Associação de Amigos da Madeira-Mamoré...58
Capítulo 3 Projeto do Centro de Documentação e Referência da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré 3.1 Apresentação...64
3.2 Justificativa...65
3.3 Objetivo geral...67
3.4 Objetivos específicos...67
3.5 Implantação e estrutura organizacional...68
3.6 Acervo...70
3.7 Recursos e parcerias...86
3.8 Oficinas de capacitação técnica...88
Considerações finais...90
13
Introdução
O que eu vim fazer aqui!...
Qual a razão de todos esses mortos internacionais que renascem na bulha da locomotiva e vêm com seus olhinhos de luz fraca me espiar pelas janelinhas do vagão?...
Mário de Andrade (1927).
O trecho acima faz parte das anotações do diário do escritor Mário de Andrade (1893-1945) para o livro O turista aprendiz1, organizado a partir do material de sua ‟viagem de descoberta” à Amazônia, durante a qual percorreu, em 1927, o rio Amazonas até o Peru e o rio Madeira até a Bolívia. O escritor demonstrou entusiasmo pela vivência tropical, interesse etnográfico e atração pela região amazônica, principalmente por estar na fase de redação de sua obra Macunaíma (1928). Mário de Andrade empreendeu três ‟viagens de descoberta do Brasil”: a primeira, em 1924, ao interior de Minas Gerais, acompanhado de escritores e artistas modernistas; a segunda, quando esteve na Amazônia entre 13 de maio a 15 de agosto de 1927, acompanhado de Olívia Guedes Penteado, Margarida Guedes Nogueira, Paulo Prado e Dulce do Amaral Pinto; a terceira e última, ao Nordeste brasileiro, ao qual viajou sozinho, no final de 1928 e início de 1929.
O que eu vim fazer aqui!...
Mário de Andrade, ao expressar seus sentimentos de espanto e/ou arrependimento durante sua viagem em direção à Bolívia num vagão de passageiros da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFM-M), certamente estava comungando o mesmo sentimento de milhares de homens que trabalharam na construção da Ferrovia do Diabo, como o empreendimento se tornou conhecido em razão do elevado número de mortes registradas na suas obras.
No final dos anos de 1950, um outro escritor também manifestou seus sentimentos de espanto ao conhecer a EFM-M. Porém, diferentemente do nosso escritor modernista, Manoel Rodrigues Ferreira (1915-2010) externou emoções ao ver os trilhos da ferrovia e escreveu em seu livro Nas selvas amazônicas (1961): ‟esta é a fabulosa
1 Andrade, Mário de. O turista aprendiz. (Estabelecimento de texto, introdução e notas Telê Porto Ancona Lopez). São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1983. Nesta obra, Telê P. A. Lopez reuniu numa estrutura de diário os textos-base, notas originais e esboço de um livro preparado por Mário de Andrade, que narram suas ‟viagens etnográficas” à Amazônia, em 1927, e ao Nordeste, em 1928/1929, cujos originais pertencem ao Arquivo Mário de Andrade do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP).
14 ferrovia, que em tão curto espaço de tempo já caiu no domínio da tradição, da lenda, da fantasia.” (p.79).
Em 2018, embora de maneira distinta dos escritores citados acima, estou diante de sentimentos que requerem algum distanciamento, a fim de entender a ferrovia como objeto de pesquisa de meu trabalho final no curso de Mestrado Profissional em Bens Culturais e Projetos Sociais do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/FGV). Meu objetivo consiste em elaborar o projeto de um Centro de Documentação e Referência acerca da EFM-M, que abrigue as coleções fotográfica e documental custodiadas pela Associação de Preservação do Patrimônio Histórico do Estado de Rondônia e Amigos da Madeira-Mamoré2, usualmente denominada Associação de Amigos da Madeira-Mamoré (AMMA), e desenvolver ações para recuperar a memória da ferrovia e valorizar a história regional.
Meu interesse pela EFM-M surgiu a partir da percepção de que a sua construção, os diversos atores sociais envolvidos nela e os patrimônios material e imaterial tão emblemáticos que lhe estão associados no contexto regional conectam-se a questões nacionais, como a ocupação, exploração econômica e integração da Amazônia. O meu contato com a história e o acervo da ferrovia se deu a partir da minha contratação como funcionário público alocado na Secretaria de Estado da Cultura, Esportes e Lazer (SECEL) rondoniense, criada em 1981. Ao longo de 18 anos, trabalhei no Centro de Documentação Histórica de Rondônia (CDHR), fundado com o objetivo de coletar, preservar e divulgar as ‟fontes históricas” do estado, e passei a frequentar o pátio e o museu ferroviários de Porto Velho. Por outro lado, desde a minha graduação em História na Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR), em 1987, venho realizando pesquisas e coletando fontes bibliográficas sobre a ferrovia. A proximidade com o tema levou-me a participar da AMMA, da qual me tornei membro do Conselho Administrativo.
A origem da AMMA está vinculada as manifestações coletivas locais pela preservação da EFM-M que ocorreram em Porto Velho (RO), inicialmente em 1979, e à
2 A entidade foi criada em 31 de julho de 1987, constituída em Assembleia geral após convocação
pública feita à população do estado de Rondônia pela Comissão Pró-Reativação da EFM-M. Consta do convite para o evento que o objetivo era ‟despertar e conscientizar a população e órgãos competentes da viabilidade e importância da reativação total da EFM-M”. O evento foi realizado no auditório do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac Porto Velho), nos dias 31 de julho e 1 de agosto de 1987. COMISSÃO pró-reativação da EFM-M. Movimento popular pela reativação da EFM-M: convite. Porto Velho: Genese Top, 1987. [Fotocópia].
15 articulação dos participantes do Seminário Madeira-Mamoré, cujo encontro resultou na criação da Associação dos Ex-Ferroviários e Amigos da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Este seminário foi realizado em 1980, numa promoção da Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), atual IPHAN, da Fundação Nacional Pró-Memória (Pró-Memória) e do governo do antigo território federal de Rondônia, com o objetivo de discutir com a comunidade local e órgãos públicos ações de proteção, recuperação e utilização dos bens remanescentes da ferrovia.
Em 2018, existem em Porto Velho duas entidades que têm a EFM-M como foco de seus interesses: a própria AMMA, constituída como entidade pública em 1987, cujo atual presidente é o arquiteto e urbanista Luiz Leite de Oliveira, e a Associação dos Ferroviários da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (ASFEMM), fundada em 2017 e subordinada ao poder público, cabendo-lhe a responsabilidade pela administração, conservação e guarda da área tombada pelo IPHAN. Atualmente, a ASFEMM é presidida pelo ferroviário aposentado José Bispo de Morais. Ambas promovem atividades de preservação e divulgação da ferrovia. Uma terceira associação foi criada em 1998, a Madeira-Mamoré Railway Society3, na cidade de Castelford, Inglaterra, pelo jornalista, professor e pesquisador ferroviário inglês Martin Cooper, mas suas atividades foram encerradas em 2009.
A diversidade de atores sociais envolvidos com o tema Madeira-Mamoré também é percebida com relação ao acervo documental, pois existem dois órgãos públicos em Porto Velho que mantêm a guarda desse material: o museu ferroviário e o CDHR.
Originalmente montado na estação ferroviária, o museu ferroviário, cuja data de abertura não está clara, consta do Relatório da Comissão Interministerial (1973),4 que trata da transferência do acervo da EFM-M. O relatório menciona que o museu contava com um acervo em exposição permanente, devendo constituir-se como ‟repositório das tradições ferroviárias da lendária Madeira-Mamoré”. (BRASIL, 1973, p.54). Vale salientar que, no período de 1966 a 1973, os bens móveis e imóveis da ferrovia estiveram sob a guarda do 5° Batalhão de Engenharia e Construção (5° BEC), o que nos faz supor que o referido museu tenha sido organizado e mantido pela guarnição militar até o momento da cessão, em 1981, de parte da ferrovia ao governo de Rondônia. Outra
3 Disponível em: http://www.internationalsteam.co.uk. Acesso em: 11 mai. 2018.
4 BRASIL. Departamento Nacional de Estradas de Ferro. 7° Distrito Ferroviário. Relatório da Comissão Interministerial constituída pela Portaria MT-5088/73, de 9 de março de 1973. Brasília (DF): Departamento Nacional de Estradas de Ferro, 1973. 58 p. [Fotocópia].
16 confirmação de sua existência é dada por funcionários do Pró-Memória5, cuja visita a Porto Velho registra a existência de um museu da EFM-M sediado na estação ferroviária e que, naquele momento, fora instalado provisoriamente num dos galpões do pátio ferroviário.
Em 1981, o museu ferroviário foi entregue pelo 5° BEC à SECEL, que o transferiria para um dos galpões usados anteriormente como armazéns de carga e pertencentes ao conjunto de construções originais da ferrovia. O museu foi aberto à visitação pública como parte das comemorações pela reativação de oito km da linha férrea (Porto Velho-Santo Antônio). Este trecho operava com passeios turísticos nos finais de semana, entre 1981 e 2000, em cumprimento ao protocolo de ações assumidas pelo governo de Rondônia junto ao SPHAN e à Pró-Memória durante o seminário realizado em 1980. Embora o acervo exposto no museu ferroviário seja composto, na sua grande maioria, de peças tridimensionais (maquinários, móveis, objetos decorativos, ferramentas, uniformes etc.), há uma série de fotografias, recortes de jornais, livros e documentos administrativos relacionados a diferentes épocas da ferrovia. (BORZACOV, 1998). O destaque do museu é a locomotiva ‟Coronel Church”, da The Baldwin Locomotive Works, fabricada em 1877, a primeira trazida para a Amazônia, em 1878, e usada na cerimônia de inauguração da EFM-M em 1912.
Além do museu ferroviário, o CDHR também está encarregado da guarda e conservação do material histórico sobre a EFM-M. Para entender-lhe a origem, impõe-se recuar à criação das instituições necessárias à implantação do estado de Rondônia6, instituído pela Lei Complementar n°41, de 22 de dezembro de 1981, de cujo processo surgiu, conforme ressaltado linhas acima, a SECEL.
A mudança do status de território federal para estado provocou em Rondônia um crescimento expressivo de sua população.7 O aumento populacional levou ao
5 BRASIL. Fundação Nacional Pró-Memória. Projeto: Memória histórica da estrada de ferro Madeira-Mamoré. Processo de tombamento da EFM-M. Brasília (DF): Fundação Nacional Pró-Memória, 1982, 9 p. [Fotocópia].
6 O Estado de Rondônia foi criado pela Lei Complementar n° 41, de 22 de dezembro de 1981. No entanto, é com a criação do território federal do Guaporé, Decreto-Lei n° 5.812, de 13 de setembro de 1943, e, posteriormente, com a mudança da designação para Rondônia, Lei n° 2.731, de 17 de fevereiro de 1956, que constituiu-se o território federal de Rondônia. (MATIAS, 1997, pp. 87-91).
7 Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em suas Séries históricas –
População, 1950-2010, o estado apresentara os seguintes números de crescimento: população urbana (60.541 habitantes em 1970; 239.430 habitantes em 1980; 658.172 habitantes em 1991) e população rural (116.620 habitantes em 1970; 503.125 habitantes em 1980; 1.130.874 habitantes em 1991). Somente a cidade de Porto Velho atingira, em 1991, o percentual de crescimento de 467% em relação à população registrada em 1980. (TEIXEIRA; FONSECA, 1998, p.174).
17 surgimento de cidades: em 1943, eram somente duas, ou seja, aquelas que correspondiam ao início (Porto Velho) e ao término da ferrovia (Guajará-Mirim); em 1977, foram criados cinco municípios; e, em 1981, mais seis, perfazendo um total de 13 no período de 1943 a 1981. (MATIAS, 1997, p.139).
Diante do novo contexto sociopolítico e econômico, os administradores culturais locais, principalmente da capital Porto Velho, temiam pela possibilidade de ‟perda” da memória local e dos bens culturais até então identificados com a história regional. A observação feita por funcionários do Pró-Memória durante viagem a Rondônia, no início dos anos 1980, deve ter corroborado o ‟temor” das autoridades culturais:
[...] nas viagens realizadas na capital, Porto Velho, e cidades situadas ao longo do trecho da ferrovia, constatamos que esses imigrantes desconhecem ou pouco se identificam com a história da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Ao contrário dos ‟nativos” – termo empregado pelos que nasceram em Rondônia –, que consideram a ferrovia o marco inicial de sua cidade, seu Estado e que valorizam e preservam essa história, esse patrimônio como parte de si mesmos. Nessa perspectiva, a Fundação Nacional Pró-Memória elaborou uma coletânea de reportagens com o intuito de fornecer subsídios a todos os interessados pela história da ferrovia, em particular aos vários segmentos da comunidade rondoniense (ferroviários, migrantes, estudantes, etc.), cuja efetiva relação com esse bem cultural [...] possibilitou a mobilização da opinião pública no sentido da recuperação da sua memória histórica e progressiva reativação. [...]. (PRÓ-MEMÓRIA, 1988, p.11).
Para a consecução dos seus objetivos, decidiu-se vincular o CDHR ao Departamento de Cultura da SECEL, em 1982, atribuindo-lhe o recolhimento sistemático de documentação de natureza diversa que pudesse constituir um acervo de fontes para pesquisas sobre Rondônia, ou seja, o órgão foi pensado sob uma dupla perspectiva: preservação da memória local e formação de um acervo documental de interesse para a história regional. Nesse período, uma das atividades culturais recorrentes do CDHR era a organização de exposições de documentos e fotografias em eventos promovidos pela SECEL. Entre 1982 e 1983, foi realizada a campanha ‟Doe um documento ao Centro” e os documentos provenientes de diferentes doadores foram expostos semanalmente numa praça pública da cidade como forma de atrair o interesse da comunidade e apoio à campanha. (LOPES, 1999, s/p.).
Como funcionário do CDHR, entre 1981 e 2000, participei ativamente de todas as etapas de implantação do órgão, bem como de atividades culturais, recebimento de doações e atendimento ao público. Também elaborei o Guia Preliminar de acervo do
CDHR (1999), cujo escopo era facilitar o acesso do usuário às várias coleções mantidas
18 periódicos locais (jornais, boletins, revistas, cadernos), iconografia (fotografias, cartazes), projetos arquitetônicos, documentos diversos e uma biblioteca sobre a Amazônia. Atualmente, o CDHR faz parte do Museu da Memória Rondoniense, entidade cultural criada pelo governo estadual (Decreto n° 22.776/2018) e vinculada à Fundação Cultural do Estado de Rondônia (FUNCER). Em 2016, o acervo foi higienizado, organizado e digitalizado, mas o órgão não dispõe de atendimento satisfatório ao usuário, pois não tem funcionários capacitados e em número suficiente para os serviços técnico-documental e de conservação, pesquisa e difusão.
É nesse contexto institucional, que apresenta dificuldades de acesso a documentos sobre a EFM-M, que gostaria de inserir a proposta do Centro de Documentação e Referência, que se propõe a ser um órgão especializado na ferrovia e a disponibilizar informações do acervo custodiado pela AMMA. Diferentemente dos órgãos públicos acima descritos, podemos considerar a inciativa como isolada das ações governamentais pois, após a sua criação, sua gestão administrativa, financeira e patrimonial deverá ser entregue à AMMA.
Como membro da AMMA desde a sua fundação, participo de suas atividades e propus-me a apresentar o projeto do Centro de Documentação e Referência, cujo objetivo primordial será preservar e dar acesso público ao acervo documental custodiado (coleções de fotografias) e ao próprio arquivo da Associação (recortes de jornais, fotografias, atas de reuniões, gravações em vídeos, processos judiciais etc.) armazenado desde as primeiras manifestações ocorridas em 1979.
As imagens fotográficas a serem abrigadas no Centro compõem as coleções Manoel Rodrigues Ferreira e Dana B. Merrill custodiadas pela AMMA que irão ocupar lugar de destaque no acervo como fontes de pesquisas. No Capítulo 2 deste trabalho apresento algumas fotografias (Ilustrações n°1 a n°10) produzidas por Merrill que procuram dialogar com o texto sobre a história da ferrovia. Busquei imagens que mostrem ao leitor diferentes aspectos da construção da EFM-M como a grandiosidade do pátio ferroviário instalado em Porto Velho às margens do rio Madeira; o transporte de trabalhadores abarrotados em um navio até chegarem ao local de construção da ferrovia; o desbarrancamento de um trecho de linha férrea em consequência de intensas chuvas que destruíam horas de trabalho; o assentamento de trilhos e dormentes que envolvia muitos trabalhadores no serviço; o esforço de trabalhadores embarcando uma grande quantidade de pelas de borracha num vagão da ferrovia; um grupo de homens e mulheres de nacionalidade barbadiana que prestavam serviços na lavanderia a vapor
19 instalada pela companhia ferroviária em Porto Velho; e por último, imagens que mostram alguns trabalhadores estrangeiros com seus trajes de trabalho, com destaque a ilustração n° 10 provavelmente um homem hindu usando um tradicional chapéu indiano.
Minha proposta vai ao encontro de uma demanda dos próprios membros da AMMA, que vislumbram uma nova fase na mobilização de outros atores sociais para a continuidade de ações em defesa da EFM-M. O Centro de Documentação e Referência será uma instituição de caráter civil, sem fins lucrativos e de acesso público. Deve-se registrar que estamos cientes do desafio de criar uma instituição fora do âmbito governamental e que terá a ferrovia Madeira-Mamoré como objeto de especialização.
Embora a dissertação gravite em torno de discussões sobre patrimonialização e memória ferroviária, suscitadas principalmente após a edição da Lei n° 11.4838, de 31 de maio de 2007, que atribuiu ao IPHAN competência para preservação de nosso patrimônio ferroviário, tais discussões não estão associadas aos objetivos deste projeto. Irei abordá-las de maneira tangencial, utilizando-me dos trabalhos de Lucas Neves Prochnow (O IPHAN e o patrimônio ferroviário: a memória ferroviária como
instrumento de preservação, 2014), Lucina Ferreira Matos (Memória ferroviária: da mobilização social à política pública de patrimônio, 2015) e Liliane Janine Nizzola e
Fernanda Gibertoni Carneiro (Manual técnico do patrimônio ferroviário, 2010), que tratam do tema de forma apropriada.
Para formulação de minha proposta do Centro de Documentação e Referência da EFM-M, abordarei a importância material e simbólica da ferrovia, a fim de justificar a sua relação com a população local. A ferrovia é um elemento marcante na história, memória e cultura das cidades de Porto Velho e Guajará-Mirim e podemos identificar diversas ‟figuras ferroviárias” estampadas nos símbolos oficiais (hino, bandeira e brasão) desses municípios e do estado de Rondônia.
O primeiro capítulo apresentará uma breve discussão sobre instituições de memória e documentação, em conexão com a valorização da memória no contexto contemporâneo. Não pretendo realizar uma discussão sobre a construção desses conceitos ou meandros teóricos, mas compreendê-los como elementos utilizados na formatação de diversas instituições. O capítulo também apresenta a discussão sobre
8 Lei n° 11.483, de 31 de maio de 2007. Dispõe sobre a revitalização do setor ferroviário, altera dispositivos da Lei n° 10.233, de 5 de junho de 2001, e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br.> Acesso em: 6 mai. 2017.
20 memória ferroviária, patrimônio ferroviário e o processo de patrimonizalização da EFM-M.
O segundo capítulo terá início com uma breve história da ferrovia, de maneira a familiarizar o leitor com o processo histórico que será objeto de interesse do Centro de Documentação e Referência, e tratará da mobilização local que surgiu em defesa dos bens remanescentes da EFM-M e que deu origem à AMMA.
No terceiro e último capítulo, apresento o projeto do Centro de Documentação e Referência da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, da concepção à metodologia de implantação desse órgão na capital rondoniense. Destacar-se-á a contextualização das coleções de fotografias de Manoel Rodrigues Ferreira e Dana B. Merrill, com o objetivo de traçar o percurso do material que irá compor o acervo inicial do Centro de Documentação e Referência.
21
Capítulo 1
Memória e patrimonialização de acervos 1.1 Instituições de memória e documentação
Este capítulo pretende abordar a constituição de instituições de documentação no contexto contemporâneo de valorização da memória e da patrimonialização de acervos.
Segundo Camargo, a partir dos anos 1970, o centro de documentação e pesquisa e de memória e referência surge no Brasil como instituição alternativa, muitas vezes vinculada às universidades, diante de reivindicações sociais por referências especializadas. Para algumas categorias, porém, ‟o ato de pesquisar está relacionado a uma atividade de busca que não se prende, necessariamente, a uma finalidade acadêmica ou científica estrita” (CAMARGO, 2003, p.21) e sim ao uso social da informação. A autora destaca ainda que os centros de documentação proporcionaram novas maneiras de trabalhar com fontes documentais e apresentaram a possibilidade de ‟conceber uma política institucional de informação” (Ibidem, p.23), o que os tornou importantes para empresas, órgãos públicos e, logicamente, para pesquisadores interessados na investigação histórica.
Para Camargo, essas mudanças foram percebidas por Francisco Iglésias, que, ao publicar o artigo “A história no Brasil” (1979), chamou a atenção de pesquisadores e instituições para as frágeis condições de realização de pesquisas sobre a história do país. No entanto, já seria possível vislumbrar algumas ações isoladas no sentido de modificar a situação dos acervos documentais, principalmente no que se referia à proteção e organização, tanto no âmbito público como no privado. Entre as instituições citadas por Iglésias, consta o CPDOC, da FGV, pelos ‟esforços em reunir documentos e gerar fontes (como os depoimentos orais) para desenvolver os estudos históricos sobre o país.” (CAMARGO, 1979, p.24).
Camargo (2003) se vale de Sergio Miceli, que identificou nesse mesmo período uma certa estatização da cultura, e menciona as ‟numerosas iniciativas governamentais de proteção ao patrimônio cultural e de criação de um aparato institucional que estendia o alcance do Estado às diversas dimensões do ato cultural e dos bens materiais (o bem cultural) dele decorrentes.” (CAMARGO, 2003, p. 24). Assim, tanto no âmbito público como no privado, era possível observar uma série de iniciativas que visavam a preservação da memória do país ou a elaboração de histórias empresariais.
22 Segundo Bellotto (1991), arquivos, bibliotecas, centros de documentação e museus possuem o documento como elemento comum, cabendo a cada instituição recolher, tratar, recuperar e divulgar tais documentos com o intuito administrativo, científico, cultural ou social. A diferença entre elas decorre ‟da própria maneira como se origina o acervo e também o tipo de documento a ser preservado.” (BELLOTTO, 1991, p.14). Para Tessitore (2003, p.12), o que vai definir a instituição em que o documento deverá ser abrigado é a sua origem e função, e não o fato de ser manuscrito, impresso, avulso, encadernado, papel, disquete ou objeto. Portanto, não é o suporte do documento que irá definir seu destino institucional.
Camargo e Goulart (2015, p.24) nos chamam a atenção para características que são exclusivas de arquivos, bibliotecas, centros de documentação e museus. Num arquivo, os documentos nascem em decorrência das atividades de pessoas jurídicas e físicas no decurso do tempo. Os arquivos são constituídos a partir da atividade da entidade produtora, por acumulação, e não são resultantes de uma seleção. Os arquivos de instituições tornam-se ferramentas de gestão utilizadas como provas das ações realizadas, interessando à entidade que os gerou e acumulou. No caso da biblioteca, pode haver a obrigatoriedade do depósito legal9. Em se tratando de bibliotecas, museus e centros de documentação, a instituição tem a liberdade da escolha (seleção) de documentos para compor seus acervos conforme sua área de especialização. Quanto ao centro de documentação, podemos dizer que tem como principal missão o apoio à pesquisa e não a gestão de um acervo que atenda aos interesses do produtor.
Entre as instituições analisadas, aquela que se adequa aos propósitos de nosso trabalho é o centro de documentação. De acordo com o Dicionário brasileiro de
terminologia arquivística (BRASIL, 2005, p.46), o centro de documentação é uma
‟instituição ou serviço responsável pela centralização de documentos e disseminação de informações.”
Segundo Bellotto (1991, p.15), o centro de documentação, quanto à sua origem e fins do material abrigado, representa um somatório de arquivo, biblioteca e museu. A biblioteca é um órgão colecionador e compõe o seu acervo de maneira artificial, conforme sua especialidade (por oposição à acumulação orgânica que caracteriza os arquivos), sendo na sua maioria documentos publicados e direcionados a diversos
9 No Brasil, a Biblioteca Nacional é responsável pelo depósito legal. Há duas leis federais que o regulam: Lei n° 10.994, de 14 de dezembro de 2004, que trata de obras de natureza bibliográfica, e a Lei n° 12.192, de 14 de janeiro de 2010, que dispõe sobre obras de natureza musical. Disponível em: <http://www.bn.gov.br>. Acesso em: 15 jul. 2017.
23 leitores; os arquivos são órgãos receptores e recolhem obrigatoriamente a documentação produzida pela instituição à qual são vinculados e têm a unicidade dos itens documentais como sua maior característica; o museu também é um órgão colecionador, dedicando-se sobretudo a objetos tridimensionais, e suas coleções são artificiais, classificadas pela natureza do material e finalidade do próprio museu; e o centro de documentação é um órgão colecionador ou referenciador, que, no caso de possuir acervo, abriga uma coleção especializada numa área, assim como sua base de dados. (BELLOTTO, 1991, p.16).
Para Tessitore, um centro de documentação, por ser composto por elementos diferentes, não dispõe de uma teoria e metodologia próprias para o tratamento de seu acervo, marcadamente diversificado. Embora a biblioteconomia o considere como parte de seu domínio, a autora é contrária ao uso generalizado de noções e regras da biblioteconomia, que organizam e referenciam os documentos separadamente, ‟tratando as informações neles contidas como dados a serem decompostos e reordenados” (TESSITORE, 2003, p.14), já que os documentos possuiriam especificidades. Para Bellotto (1991, p.17), o tratamento documental adotado neste tipo de instituição deverá obedecer à natureza do seu material. Entende-se, portanto, que os centros de documentação extrapolam o universo documental de bibliotecas e podem ter semelhanças com os arquivos, dependendo do tipo de material que abriguem.
Já para Camargo e Goulart (2015, p.19), tais distinções são tênues e têm significado mais didático do que operacional, já que também há semelhanças entre as instituições. Segundo as autoras, nos encontros internacionais, como, por exemplo, o
Cultural Heritage Information Professionals, realizado em 2008 na cidade americana de
Sarasota, foi possível observar o compartilhamento de experiências e a aproximação entre profissionais de arquivos, bibliotecas e museus através do uso de recursos digitais, pois estes possibilitaram ‟superar as tradicionais barreiras” (Ibidem, p.21) existentes entre as diferentes instituições.
Uma particularidade ressaltada por Bellotto (1991, p.15) reside na finalidade do centro de documentação: prestar informação cultural, científica, funcional, conforme a natureza de seu acervo e de acordo com sua especialidade. No mesmo sentido, Tessitore (2003, p.17) enfatiza que o recorte temático deverá ser bem definido, sendo fundamental que cada centro de documentação consolide sua identidade, a fim de direcionar a formação e a ampliação do acervo, cabendo-lhe também a criação de
24 programas de ação e a definição de atividades. Quanto à natureza do acervo, um centro de documentação poderá compreender:
. fundo de arquivo: conjunto de documentos acumulados no exercício das funções de entidades ou pessoas. [...]
. coleções: conjunto de documentos reunidos de forma artificial, em torno de temas, funções, entidades, pessoas ou até mesmo de um tipo ou gênero de documento.
. material hemerográfico: jornais, revistas e boletins. . material bibliográfico: livros, teses e folhetos. [...]
. bancos de dados: sobre temas específicos, referências sobre as atividades e acervo de entidades afins. (TESSITORE, 2003, p.18).
Outras questões importantes devem ser consideradas: o centro de documentação e o arquivo de uma instituição são órgãos distintos e não se confundem. O primeiro tem como objetivo apoiar pesquisas institucional, acadêmica e/ou individual, ao passo que o segundo tem a finalidade de atender à administração (pública ou privada) e ser utilizado como prova. Outra especificidade diz respeito ao fato de os documentos de arquivo, diferentemente daqueles custodiados por um centro de documentação, possuírem organicidade, estando reunidos a partir de uma mesma origem, sendo o conjunto que lhe confere significado.
Os usuários do centro de documentação são, na sua grande maioria, pesquisadores interessados em documentos variados sobre determinado tema, ou seja, buscam material ou ‟referências para a localização das fontes de seu interesse.” (Ibidem, p.15). Cabe ao centro de documentação indicar ‟quem é o seu público e quais são as demandas de informações” (Ibidem, p.19), o que deverá ser detectado através de interação e sondagem junto ao seu público.
Camargo e Goulart (2015, p.63) também estão de acordo com Camargo (2003) quanto ao surgimento dos centros de documentação nos anos 1970, interessados na organização e disponibilização de referências especializadas. Quanto aos centros de memória, segundo Camargo e Goulart, é nos anos 1980 que eles se organizam e se fortalecem, vinculados a entes públicos, privados ou, ainda, ao terceiro setor, para os quais se fazia necessária a ‟preservação da cultura e identidade das organizações”. (2015, p.63).
Segundo as autoras, intercâmbios entre instituições públicas e privadas, mudanças na produção de bens e nas relações de trabalho e o surgimento de novas tecnologias – todas marcas do mundo moderno - modificaram a forma de a sociedade se conectar com o seu passado, presente e futuro. E é nesse cenário que indivíduos, grupos,
25 associações e diversas instituições passaram a valorizar suas memórias e, consequentemente, a expressar reivindicações relativas à patrimonialização de bens e à construção de lugares para abrigá-las, o que nos remete à noção de lugares de memória de Pierre Nora.
Para Nora (1993), os lugares de memória compreendem três dimensões que coexistem e operam de maneira simultânea: material, funcional e simbólica. É lugar material pois a lembrança precisa de suportes para se expressar; lugar funcional se abrigar rotinas, práticas e rituais que garantam a materialização da lembrança e sua transmissão; lugar simbólico se a imaginação dotá-lo de uma aura simbólica. Porém, para que existam como lugares de memória, é necessário que se tenha vontade de memória, ou seja, que existam indivíduos que assumam o discurso de valorização de determinado passado. (NORA, 1993, p.21). Segundo Neves:
Longe de ser um produto espontâneo e natural, os lugares de memória são uma construção histórica e o interesse em seu estudo vem, exatamente, de seu valor como documentos e monumentos reveladores dos processos sociais, dos conflitos, das paixões e dos interesses que, conscientemente ou não, os revestem de uma função icônica. (2017, p.1).10
As transformações na sociedade contemporânea submeteram as organizações a novas exigências e dinâmicas nas relações entre o público e o privado, entre o individual e o coletivo, entre o objetivo e o subjetivo (CAMARGO; GOULART, 2015, p.38), fazendo com que o conhecimento organizacional se tornasse necessário, pois a competividade entre organizações passou a ocorrer a partir da capacidade de criar um novo conhecimento, difundi-lo e incorporá-lo a produtos, serviços e sistemas. (Ibidem, p.40). O conhecimento passa a ser um recurso estratégico para essas organizações e será justamente a gestão desse conhecimento o objeto do centro de memória. Tais órgãos passam a abrigar informações consideradas qualificadas, reunidas a partir de diferentes origens, e capazes de promover inovação ou agregar valor ao produto ou serviço.
No entanto, Camargo e Goulart questionam se é possível considerar o acervo de um centro de memória como lugar de conhecimento ao atribuir-lhe importância como ferramenta gerencial, pois, nesse caso, conhecimento e informação se confundiram. Os centros de memória devem ser vistos como ‟fatores de produtividade, numa dimensão estritamente pragmática e voltada para o campo organizacional.” (CAMARGO;
10 NEVES, Margarida de Souza. Lugares de memória da medicina no Brasil. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2017. Disponível em:
26 GOULART, 2015, p.55). Por outro lado, os documentos custodiados por esses órgãos revelam ‟atributos, propriedades, relações, fatos e ideias de todo tipo. Seu denominador comum [...] é servir de fonte para respaldar um sem número de atividades.” (Ibidem, p.56).
Atualmente, a preservação da memória e dos bens pertencentes às organizações públicas ou privadas se tornou uma decisão importante para essas organizações, com base no entendimento de que suas memórias fazem parte da memória nacional, regional ou local. De acordo com Gonçalves (2015, p.213), observa-se hoje um crescimento de demandas relacionadas ao patrimônio e à memória, que resulta na proteção e na preservação de bens culturais, quer sejam de natureza material ou imaterial. Para algumas categorias, afirma o autor, o discurso do patrimônio opera como afirmação da própria identidade dos grupos sociais que buscam o reconhecimento público de sua existência social, cultural e patrimonial.
1.2 Memória ferroviária e patrimônio ferroviário
Para contextualizar a questão do tombamento do patrimônio ferroviário e o conceito de memória ferroviária no Brasil, recorremos aos trabalhos de Lucina Ferreira Matos, Estação da memória: um estudo das entidades de preservação ferroviária do
estado do Rio de Janeiro (2010) e Memória ferroviária: da mobilização social à política pública de patrimônio (2015), e de Lucas Neves Prochnow, O IPHAN e o patrimônio ferroviário: a memória ferroviária como instrumento de preservação
(2014), que analisam esses temas de forma detalhada.
No Brasil, o processo de desestatização do sistema ferroviário (Decreto n° 473/1992)11 definiu o desmonte do transporte ferroviário de passageiros e a privatização do transporte ferroviário de cargas. Com a extinção da Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA) em 2007, seus bens remanescentes foram classificados em operacionais e não operacionais e em móveis e imóveis, estabelecendo-se os parâmetros da destinação a ser dada a cada um deles, todos pertencentes à União. A mesma lei que extinguiu a RFFSA (Lei n°11.483/2007)12 transferiu ao IPHAN a posse e usufruto de bens móveis não
11 Decreto n° 473, de 10 de março de 1992. Dispõe sobre a inclusão, no Programa Nacional de Desestatização – PND, da Rede Ferroviária Federal S.A – RFFSA, da AGEF – Rede Federal de Armazéns Gerais Ferroviários S.A. e da VALEC – Engenharia, Construção e Ferrovias S.A. Disponível em http://www.planalto.gov.br. Acesso em: 6 mai. 2017.
12 Lei n° 11.483, de 31 de maio de 2007. Dispões sobre a revitalização do setor ferroviário, altera dispositivos da Lei n° 10.233, de 5 de junho de 2001, e dá outras providências. Disponível em
27 operacionais reconhecidamente de valor histórico, artístico e cultural e a prerrogativa de requerer os bens móveis operacionais e bens imóveis não operacionais passíveis de declaração de interesse histórico, artístico e cultural sob a guarda de outras instituições públicas. Por fim, a referida lei determinou o compartilhamento da gestão de outros bens imóveis operacionais de interesse do IPHAN, tornando este órgão o principal responsável pelos bens remanescentes das ferrovias brasileiras. Segundo Prochnow (2014, p.71), a extinção da RFFSA também fez surgir movimentos reivindicatórios conduzidos por associações de classe ferroviárias, que arguíam administrativamente e/ou judicialmente controvérsias relacionadas às suas aposentadorias e ao remanejamento de funcionários. Segundo o autor, o patrimônio ferroviário não fez parte das discussões, ou seja, os ferroviários não demonstraram interesse quanto aos bens móveis e imóveis das ferrovias. Somente após a intervenção do IPHAN, a memória ferroviária teria sido contemplada, objetivando a sua preservação. (Ibidem, p.71). Não é essa a posição de Matos, cuja pesquisa aponta que a preservação ferroviária se deu a partir de distintos atores e de ações complementares, tanto no âmbito de associações de preservação formadas por ex-ferroviários da RFFSA quanto no IPHAN. (2015, p.14).
Prochnow e Matos ressaltam que a Lei n° 11.483/2007 trouxe diversas implicações ao IPHAN, mensuráveis pela quantidade de bens recebidos, formulação de procedimentos e novas atribuições de gestão administrativa e técnica. Segundo Nizzola e Carneiro, autoras do Manual Técnico do Patrimônio Ferroviário (s/d), tal lei estabeleceu, no âmbito da Coordenação Técnica do Patrimônio Ferroviário (CTPF/IPHAN), um novo instrumento de proteção ao patrimônio ferroviário, que se difere do tombamento estabelecido no Decreto-Lei n° 25/1937, uma vez que este protegia e salvaguardava bens públicos e particulares. Das distinções entre os dois ordenamentos jurídicos, destacamos que a Lei n° 11.483/2007 é aplicável somente aos bens oriundos da extinta RFFSA, pois trata-se de uma forma especial de acautelamento e proteção cujo objetivo é proteger e salvaguardar o patrimônio cultural ferroviário por meio de preservação da memória ferroviária, de acordo com o artigo 9° da referida lei. (NIZZOLA; CARNEIRO, s/d, p.28). As autoras ainda ressaltam que, “para que seja possível fazer-se a necessária distinção entre a Lei 11.483/2007 e o Decreto-Lei 25/1937, impede diferenciar-se declaração de valor cultural e tombamento.” (Ibidem, p.28) [Grifo das autoras].
A partir da Lei n° 11.483/2007, o IPHAN assumiu a gestão dos bens móveis e imóveis até então pertencentes à RFFSA, constituídos de um gigantesco acervo,
28 calculado em mais de 52 mil bens imóveis e 15 mil bens móveis, espalhado pelo país e do qual não se tinha o real conhecimento. (IPHAN, s/d, p.1). A edição desta lei alterou dispositivos da Lei n° 10.233/2001, que delimitara a área de atuação e a responsabilidade do IPHAN, cuja gestão foi ampliada, sobretudo no que se refere à patrimonialização e à preservação do acervo ferroviário nacional. As dificuldades impostas pela Lei n° 11.483/2007 e os problemas decorrentes para o IPHAN são bem descritos e analisados por Matos (2015) e Prochnow (2014).
Pelo Decreto-Lei n° 25/1937, já cabia ao IPHAN tratar da proteção do patrimônio histórico e artístico nacional e, dentro de sua abrangência, responder pelo registro de tombamento dos bens ferroviários como patrimônio nacional. E foi este o procedimento adotado quanto aos seguintes acervos: Trecho Ferroviário Mauá-Fragoso (Processo 0506-T-54), primeiro trecho de linha férrea construído no Brasil, no Rio de Janeiro, RJ; Estação da Luz (Processo 0944-T-76), em São Paulo, SP; Estação Ferroviária de Lassance (Processo 1143-T-85), na cidade de Lassance, MG; Complexo Ferroviário de São João del-Rei (Processo 1185-T-85), nas cidades de São João del-Rei e Tiradentes, MG; e a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré: pátio ferroviário, bens móveis e imóveis (Processo 1220-T-87), na cidade de Porto Velho, RO; Vila Ferroviária de Paranapiacaba (Processo 1252-T-87), na cidade de Santo André, SP; Estação Ferroviária Mayrink (Processo 1434-T-98), na cidade de Mairinque, SP; Estação D. Pedro II: prédio (Processo 1285-T-89), na cidade do Rio de Janeiro, RJ; Museu do Trem – acervo: Locomotiva Baroneza (Processo 1382-T-97), na cidade do Rio de Janeiro, RJ; Companhia Paulista de Estrada de Ferro: Conjunto de edificações, bens móveis (Processo 1485-T-01), na cidade de Jundiaí, SP; Complexo Histórico da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil; Estrada de Mato Grosso do Sul (Processo 1536-T-06), na cidade de Campo Grande, MS; Conjunto da Estação Ferroviária de Teresina (Processo 1557-T-08), na cidade de Teresina, PI. (MATOS, 2015, p.133).
Com a edição da Lei n° 11.483/2007, o IPHAN teve sua área de atuação e de responsabilidade acrescidas. A referida lei manteve a redação do artigo 9˚, da Medida Provisória n° 353/2007, segundo o qual:
Art. 9˚ Caberá ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN receber e administrar os bens móveis e imóveis de valor artístico, histórico e cultural, oriundos da extinta RFFSA, bem como zelar pela sua guarda e manutenção.
§1˚ Caso o bem seja classificado como operacional, o IPHAN deverá garantir seu compartilhamento para uso ferroviário.
29
§2˚ A preservação e a difusão da Memória Ferroviária, constituída pelo patrimônio artístico, cultural e histórico do setor ferroviário, serão promovidas mediante:
I – construção, formação, organização, manutenção, ampliação e equipamento de museus, bibliotecas, arquivos e outras organizações culturais, bem como de suas coleções e acervos;
II – conservação e restauração de prédios, monumentos, logradouros, sítios e demais espaços oriundos da extinta RFFSA. (BRASIL, Lei n° 11.483/07).
Objetivando regulamentar as atribuições estabelecidas pela nova legislação e, principalmente, normatizar a situação dos bens provenientes do espólio da RFFSA, coube ao IPHAN editar a Portaria n° 407, de 21 de dezembro de 2010, tratando do estabelecimento dos parâmetros de valoração e dos procedimentos de inscrição dos bens na Lista do Patrimônio Cultural Ferroviário (LPCF); da criação de uma Comissão de Avaliação do Patrimônio Cultural Ferroviário, encarregada de avaliar os bens; e da definição dos critérios técnicos do que se compreenderia como patrimônio cultural ferroviário, dentro dos parâmetros estabelecidos pela portaria:
[...] é integrado por bens móveis – material rodante, peças, documentos em geral, arquivos, livros, pinturas, fotos, plantas, mapas, objetos de decoração, equipamentos de ferrovia, dentre outros – e imóveis – pátios, estações, armazéns, oficinas, caixas d’água, entre outros – tomados em conjunto ou isoladamente, desde que tenham valor artístico, histórico e cultural. (BRASIL, Portaria n° 407/07).13
Paralelamente ao processo de regulamentação, organização e padronização de ações e procedimentos técnicos, discutiam-se no IPHAN os conceitos de patrimônio ferroviário e de memória ferroviária. Prochnow é autor do verbete sobre memória ferroviária que consta do Dicionário IPHAN do patrimônio cultural:
Formulada dentro do parlamento brasileiro com a intervenção das associações de ferroviários, a categoria memória ferroviária foi aplicada por meio de política pública para agir na preservação do patrimônio ferroviário. Tal como consta na supracitada lei [Lei n° 11.483/2007], o legislador equivaleu a categoria memória ferroviária a patrimônio ferroviário, segundo as práticas históricas de atribuição de valor e proteção que formaram o campo de conhecimento da instituição. (IPHAN, 2015, p.1).
Para Matos, memória ferroviária significa
[...] o conjunto de representações materiais e simbólicas intimamente relacionadas ao universo ferroviário [e que] extrapola o contexto do material, compreendendo tudo aquilo que encerra, imbuído ou repleto de sentimentos dos indivíduos e, por isso, impossível de ser aprisionada em um corpo/objeto
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físico. Sendo assim, os discursos e as ações dos atores representantes das entidades de preservação ferroviária, cada qual a seu modo, evidenciam características diferentes, mas complementares daquilo que conforma a memória ferroviária.(2010, p.99).
O legislador não estabeleceu distinções entre memória ferroviária e patrimônio ferroviário, definindo a existência de uma implicação mútua entre as duas categorias. Prochnow (2015, p.1) atesta que tanto a Lei n° 11.483/2007 quanto a Portaria n° 407/2010 ‟operam a partir da equivalência entre memória ferroviária e patrimônio ferroviário, que se realiza na pressuposição de que todo e qualquer elemento físico relacionado à ferrovia gerou alguma memória.” O mesmo autor afirma que, atualmente, o uso do termo memória ferroviária encontra-se naturalizado e é utilizado na legislação de forma pacífica, apesar de ser totalizante e se referir à memória ferroviária como uma invocação ao todo.
Na observação de Prochnow:
A política pública para proteção do bens ferroviários baseia-se então na enunciação do conceito de memória ferroviária. E se essa criação foi resultado de alguma construção ou diálogo com a sociedade, o foi com as associações de ferroviários. A união de dois termos, a memória, que se refere a qualquer coisa, individual ou socialmente construída; e a ferrovia, ou a história da ferrovia, e todos os elementos que a fizeram existir. Disso resultou um conceito com bastante apelo: a memória ferroviária. (2014, p.69)
As medidas protetivas dispostas no Decreto-Lei n° 25/1937 e na Lei n°11.483/2007 serviram de respaldo, em distintas fases do processo, ao tombamento da EFM-M. Segundo Prochnow (2015, p.1), o Decreto-Lei n° 25/1937 demonstra que a atuação do Estado se dava a partir da seleção de bens imóveis, atribuindo-lhes excepcionalidade ou monumentalidade do projeto, da arquitetura, de suas estações ou dos pátios ferroviários ou, ainda, conferindo-lhes valor histórico, desenvolvimento econômico e ocupação do território, como fica demonstrado no pedido de tombamento da EFM-M. Já a Lei n° 11.483/2007 delegou ao IPHAN a guarda, gestão e preservação de bens móveis e imóveis de valor histórico, artístico e cultural provenientes do acervo da extinta RFFSA, encarregando-o da preservação do patrimônio ferroviário nacional, o que pode ser considerado uma equivalência entre memória ferroviária e patrimônio ferroviário (Idem). O tombamento do ‟Pátio Ferroviário da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, bens móveis e imóveis, Porto Velho, Rondônia” foi o primeiro bem tombado a partir de solicitação da comunidade local e da associação de ex-ferroviários após a vigência da Lei n° 11.483/2007. (PROCHNOW, 2014, p.84).
31
1.3 EFM-M: uma ferrovia patrimonializada
O patrimônio remanescente da EFM-M é emblemático no contexto histórico do atual estado de Rondônia, pois apenas a partir da instalação da Madeira-Mamoré Railway Company, em 1907, na atual cidade de Porto Velho, é narrada a história da região. A nossa proposta de criação de um centro de documentação e referência para abrigar uma coleção de fotografias da ferrovia poderá ampliar as discussões em torno da EFM-M e contribuir para a pesquisa sobre história regional. A coleção de imagens que será abrigada no órgão pertenceu a Manoel Rodrigues Ferreira e está custodiada pela AMMA, com sede em Porto Velho.
Considerada deficitária, a EFM-M foi erradicada14 em 1966, durante a ditadura militar, através de decreto15 assinado pelo presidente da República, marechal Humberto de Alencar Castelo Branco16 (1964-1967). O mesmo decreto subordinou a EFM-M ao Ministério da Guerra, atual Ministério da Defesa, ou seja o patrimônio e a administração da ferrovia deixaram de integrar a RFFSA. No que se refere ao tráfego, optou-se por transferi-lo da RFFSA para a Diretoria de Vias de Transportes (DVT) do Ministério da Guerra, considerando-se três aspectos: a ferrovia era antieconômica e, portanto, deveria ser ‟suprimida”; ocorreria a implantação de rodovias federais substitutivas à ferrovia no trecho Porto Velho-Abunã-Guajará Mirim; e, no período de construção destas rodovias, a própria ferrovia seria utilizada para o transporte de equipamentos e materiais destinados às obras, a cargo do 5° BEC. Esta guarnição militar foi criada pelo Decreto n° 56.629, de 30 de julho de 1965, com o objetivo de realizar ‟missões rodoviárias” delegadas ao Ministério da Guerra (MARTINS, 1971, p.95), como, por exemplo, a construção das rodovias BR-29 (atual BR-364), trecho Brasília-Acre, e a BR-319, trecho Porto Velho-Guajará Mirim. Já os funcionários da EFM-M, até então sob a alçada da RFFSA, passaram à jurisdição do Ministério da Viação e Obras Públicas
14 Os termos ‟suprimida” e ‟erradicação” são utilizados textualmente no Decreto n° 58.501, de 25 de maio de 1966, quando se referem à ferrovia. Segundo Andrès (2005, p.6) esta norma legal versa sobre ‟uma verdadeira ameaça à nação, um câncer, uma grave doença a ser erradicada do país.” Para Houaiss (2004, p.1190), erradicação - ato de erradicar; erradicar - arrancar pela raiz; dessarraigar; eliminar; extirpar; desativação - ato ou efeito de desativar, de tornar inoperante; desativar - tornar inativo, inoperante, pôr fora de ação < d. um mecanismo><d. uma fábrica>. (Idem, p.959).
15 Decreto n° 58.501, de 25 de maio de 1966, que dispõe sobre a transferência da responsabilidade do tráfego da EFM-M, da RFFSA para a DVT do Ministério da Guerra. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1950-1969/D58501.htm. Acesso em: 6 dez. 2017.
16 Humberto de Alencar Castelo Branco (1897-1967), militar de carreira do Exército, com forte influência e participação no golpe militar de 1964. Para mais informações, ver:
http://www.fgv.br/acervo/dicionarios/verbete-biográfico/humberto-castelo-branco. Acesso em: 21 mai. 2018.
32 (MVOP). A desativação da EFM-M ocorreu no dia 19 de setembro de 1972, após o ofício n° 300, expedido pelo 7˚ Distrito Ferroviário à diretoria da ferrovia, determinando a paralisação e a suspensão dos serviços. (PRÓ-MEMÓRIA, 1981, p.2).
Para Martins, autor de A Amazônia e nós (1971), que narra a história do 5° BEC, a ferrovia Madeira-Mamoré havia cumprido a sua ‟missão”:
Por ironia do destino, cem anos após os preparativos para a sua construção, essa romântica ferrovia deverá ser erradica para sempre.
Como a história da construção da EFM-M é apaixonante, recomendamos àqueles que se interessam pelo assunto lerem o excelente livro de Manoel Rodrigues Ferreira, A ferrovia do Diabo. (MARTINS, 1971, p.39).
Durante a obra da rodovia BR-425, que seria inaugurada em 1979, a ferrovia se manteve em funcionamento e serviu de apoio ao 5˚ BEC. No mesmo ano de 1979, o Ministério dos Transportes publicou o anúncio do leilão público de todos os bens remanescentes que formavam o acervo da Madeira-Mamoré.
Logo após a imprensa divulgar notícias sobre o leilão público para a venda de 17.640 toneladas classificadas como sucatas, ocorreram, ainda em 1979, as primeiras manifestações em Porto Velho contra a desativação e venda do acervo da ferrovia, cujos participantes eram ex-trabalhadores ferroviários, jornalistas e pessoas da comunidade. O jornal Alto Madeira publicou, em sua primeira página:
Madeira-Mamoré está a leilão
A nossa lendária Estrada de Ferro Madeira-Mamoré terá hoje o seu acervo desativado leiloado ao correr do martelo. A nossa edição de hoje, assim podemos dizer, é dedicada a esse acontecimento que traz frustações aos nossos pioneiros da tão decantada ferrovia, aos moradores antigos desta região que muito usufruíram dessa estrada de ferro. Frustações para uns e negócio rendoso para outros. O mundo dos negócios é assim mesmo, não se casa com o sentimentalismo. [...]
(ALTO MADEIRA, Porto Velho (RO), 5 de abril de 1979, n° 13.202, p.1).
No dia 23 de maio de 1979, o mesmo Alto Madeira informou o que os defensores da ferrovia esperavam:
Não haverá mais leilão da Madeira-Mamoré
A grande nova: um trecho de 25 quilômetros será reativado.
O acervo da ferrovia Madeira-Mamoré [...] não mais será leiloado e um trecho será reativado para atender objetivos turísticos. A notícia foi dada ontem à noite, com certo entusiasmo, pelo governador Jorge Teixeira de Oliveira. O trecho que deverá ser reativado fica entre as cachoeiras de Santo Antônio e Teotônio, percurso aproximado de 25 quilômetros. [...]