CRIMINOLOGIA E RACISMO: O SISTEMA PENAL SOB A ÓTICA DA TEORIA
DO LABELLING APPROACH
CRIMINOLOGY AND RACISM: THE CRIMINAL SYSTEM UNDER THE LABELLING APPROACH THEORY
Aline Cristina de Oliveira Marcelino1; Ricardo Martins2
RESUMO
Faz-se uma breve reflexão sobre a teoria do Labelling Approach, também conhecida como a teoria do
etiquetamento ou da rotulação social, contribui para a revelação desta seletividade no sistema penal. Essa teoria tem como ponto de partida a premissa de que o crime e a figura do criminoso são resultados de um fenômeno de controle social, promovido pelas Instituições Estatais, sendo esse o objeto central do seu estudo. Nesse diapasão, o racismo como sendo um fenômeno histórico, inerente às relações de poder e opressão e, essencialmente, contemporâneo à escravidão dos povos africanos, do advento do capitalismo e da modernização. Assim, na realidade brasileira essa teoria se aplica na medida em que os quadros de das desigualdes sobressaem.
Palavras-chave: Criminologia. Direito Penal. Labelling Approach. Racismo. Encarceramento.
ABSTRACT
A brief reflection on the theory of labeling approach, also known as the theory of labeling or social labeling, contributes to the revelation of this selectivity in the penal system. This theory has as its starting point the premise that crime and the figure of the criminal are the result of a phenomenon of social control, promoted by the State Institutions, which is the central object of its study. In this tuning fork, racism is a historical phenomenon, inherent in the relations of power and oppression and, essentially, contemporary with the slavery of the African peoples, the advent of capitalism and modernization. Thus, in Brazilian reality this theory applies insofar as the inequality picture stands out.
Keywords: Criminology. Criminal law. Labeling Approach. Racism. Incarceration.
1. INTRODUÇÃO
O presente artigo objetiva abordar a contribuição histórica das teorias Criminológicas para a compreensão da seletividade que se apresenta no atual sistema penal brasileiro frente aos indivíduos afrodescendentes, em decorrência do racismo institucional, entendendo como sistema penal a tríade formada pela atuação legislativa penal, os agentes de segurança pública e o Poder Judiciário. Para tanto, importa analisar as vertentes criminológicas que convergem com o processo de transformação das práticas de opressão e estigmatização do negro pelas
1 Bacharel em Direito pela Universidade de Mogi das Cruzes. 2
Mestre em Direitos Fundamentais pela UNIFIEO, docente na Universidade de. E-mail: [email protected].
Revista do Curso de Direito do Centro Universitário Brazcubas V3 N2: Dezembro de 2019
classes abastadas, via de regra, homens e brancos, ao vislumbrarem a aplicação da lei penal de forma desproporcional sobre os grupos que apresentavam ser uma ameaça à branquitude predominante, obtendo o resultado de um controle social premeditado e com vistas a perpetuação dessas elites nos lugares de poder de mando. Incumbe salientar que as razões para a motivação desse controle social podem ser verificadas a partir do medo da elite brasileira face às ameaças advindas das novas formas de vida nas grandes metrópoles, decorrente da Lei Áurea datada de 1888, da consequente e inevitável transformação e modernização da sociedade com o fim do Império, em 1889 e início da República, formando uma sociedade industrializada e urbana. Isto posto, o que preocupava as elites eram os perigos decorrente desse processo de urbanização, com uma herança escravista e de graves desigualdades, assim como uma presente diversidade racial, impactando na formação de uma sociedade almejada pela elite, semelhante a europeia.
O racismo dentro desse contexto pode ser mais bem elucidado a partir dos estudos sobre a criminalidade promovidos no início do século XIX, pelas teorias nina-lombrosianas, tendo como expoentes o médico italiano Cesare Lombroso e, no Brasil, o legista maranhense Raimundo Nina Rodrigues, com seus estudos racistas e objetificantes à cerca da figura do criminoso. Enquanto a Criminologia Clássica, antecessora da escola positivista, via o mundo de maneira maniqueísta, quer seja, entre o bem e o mal, a criminologia positivista buscava pautar-se pela figura do criminoso como produto de um meio genético. Assim, o crime deixava de ser interpretado como uma questão ética e moral, para tornar-se uma problemática médica, psicológica e sociológica, na medida em que a criminalidade, para essa escola, era uma consequência ontológica, inerente ao indivíduo.
Com o advento da Criminologia Crítica, o estudo sobre o universo da criminalidade aponta para uma direção de cunho marxista, não havendo mais discussões sobre quem é o criminoso, mas sim sobre as razões que o fazem ser definido como tal. Sobre esse aspecto, a teoria do
Labelling Approach ou teoria da rotulação social afirma que o etiquetamento de um indivíduo
é fruto de uma reação social, a partir de um controle que qualifica o criminoso como sendo marginal, atribuindo essa alcunha a determinados indivíduos de uma sociedade.
Sendo um movimento criminológico baseado na reflexão sobre os mecanismos de controle social e suas consequências em um sistema penal, bem como no papel da vítima na relação delituosa, a teoria da reação social, proveniente da escola criminológica crítica, se contrapõem ao paradigma da criminologia tradicional, que pautava seus estudos e pesquisas acerca da criminologia, exclusivamente, a partir das características do crime e do criminoso, desconsiderando a influência dos atores de controle social nas ações delitivas, tais como o
legislador penal, os agentes de segurança pública e o Poder Judiciário, dentre outros. Nesse contexto, essa corrente criminológica surgida nos EUA, na década de sessenta, é precedida de um conceito de sociedade como sendo dinâmica, contínua e formada por relações conflitivas, que, até então, estava mascarada por uma visão distorcida de uma sociedade dita como coesa e sem fissuras, um todo pacífico.
Dessa forma, a partir de um referencial teórico, o presente estudo objetiva identificar de que forma as teorias criminológicas apresentam um paradigma sobre o modo de compreender as instituições penais como mecanismos de perpetuação do racismo no sistema penal brasileiro, sendo um sistema seletivo e estigmatizante, bem como de que maneira a teroria do Labelling
Approach se apresenta como um pensamento crítico ao direito penal e à criminologia
tradicional. Para tanto, será necessário, em princípio, conceituar o racismo e discorrer à cerca do processo histórico, seguindo para a abordagem da relação entre o racismo estrutural e a branquitude como instrumentos de opressão social. Na sequência, incumbe explorar a contextualização do racismo como objeto das teorias criminológicass positivista, até a ruptura proposta pela criminologia crítica e as teorias da reação e do etiquetamento social. Por fim, importa abordar a face racista do sistema penal brasileiro e seu contexto histórico, até os dias atuais.
2. CONCEITO DE RACISMO E RACISMO ESTRUTURAL
Enquanto comportamento moralmente reprovável, o racismo finca suas bases nas sociedades originárias do colonialismo e, portanto, descendentes de um período escravista, marcado pela tortura e extermínio de indivíduos rotulados conforme a sua cor e raça. Na tentativa de explicar o termo racismo, a literatura sobre o tema tem buscado problematizar a origem dessa conduta, que historicamente é versada como sendo decorrente da essência humana, sobretudo a partir do conjunto de crenças e valores de um indivíduo e que em razão de suas convicções se torne, por exemplo, um agressor extremamente violento, estando, portanto, fora da régua mediana que é a de uma coletividade que vive de acordo com as boas regras de convivência. Nessa linha, Lengbeyer (2005, apud Duarte, 2017, p. 17) aduz que racismo, para o cidadão leigo, está relacionado à pureza do coração de uma pessoa, ou de como ela é enxergada pelo outro. Portanto, a palavra pureza carrega um sentido de como o racismo é interpretado no cotidiano, sem partir de um debate devidamente aprofundado, mas sim estando restrito ao campo da subjetividade do tema, partindo-se da premissa de que: o “coração” de alguém é puro em sua essência, ou não é – neste último caso, a pessoa é muito racista, um pouco racista
ou algo entre esses dois extremos. O fator decisivo nesse modelo é o sistema de crenças”. Assim, o autor sustenta que a falácia da pluralidade de raça propõe libertar a consciência coletiva da responsabilidade sobre os indivíduos de coração impuros e, portanto, intitulados racistas, como sendo exceção à regra que é a de uma sociedade miscigenada e coesa no que tange a questão racial.
Contudo segundo o autor, o racismo não deve ser entendido como a consequência exclusiva da maldade humana, uma vez que esta definição mantem o debate em um nível demasiadamente raso. Assim, a comunidade acadêmica negra tem, sabidamente, contribuído para ampliar essa visão simplista do problema, a partir das produções acadêmicas à cerca de temas atuais, tais como a problemática do racismo estrutural e institucional, bem como a branquitude como tradução da situação de privilégio que cidadãos brancos vivenciam na sociedade brasileira. A partir dos estudos mencionados, importa compreender que o cerne da questão do racismo é esse modus operandi de cidadãos brancos calcado na opressão praticada em face de negros, como instrumento de um projeto de perpetuação nessa posição de privilégio.
Ao apresentar um primeiro conceito de raça, o professor Carlos Moore traça, em sua obra, um paralelo entre esta e o fenômeno do racismo, como uma relação de causa e efeito, identificando o racismo como sendo uma produção europeia, com sua genética atrelada a escravidão dos africanos, o advento do capitalismo e à modernidade. Assim para o professor, o racismo é e sempre foi um fenômeno social e cultural baseado no fenótipo, sendo esse uma característica real, objetiva que não está a mercê de qualquer confusão.
No Brasil, o mito da democracia racial despertou diversos estudos visando desconstruir essa falsa realidade, tendo em vista que referido mito objetivou omitir as relações de conflitos raciais no país, instituir um modelo que tenta suavizar o histórico violento dessa trajetória, frear as narrativas da população negra pela busca por igualdade e estabelecer rótulos sobre o papel de negros e brancos nesta sociedade, a partir de um discurso machista, racista e objetificante. Nesse sentido, defende-se a ideia de que não haveria racismo no país e que a discriminação pela cor da pele, no Brasil, é irrelevante, haja vista a miscigenação presente em nossa cultura, ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos. Ademais, para aqueles que defendem a democracia racial, a desigualdade de oportunidades no país segue a problemática social, ou seja, os negros sofrem com a escassez de ascensão social e são alvos da violência urbana não por serem negros, mas por serem pobres (CERQUEIRA; COELHO, p.7, 2017). Portanto, o racismo encontra solo fértil nas sociedades que elegem a abstração como forma de não enxergar, sobretudo, de não enfrentar o problema com honestidade e senso de justiça,
restando perceber que a consequência está diretamente ligada à forma não acidental com que as instituições de poder se colocam frente a determinados grupos sociais, colaborando para o surgimento das circunstâncias de injustiça e desigualdade social.
Racismo estrutural pode ser entendido a partir da ideia de normalização das desigualdades sociais entre brancos e negros, por parte das elites e instituições de poder, especificamente no campo da economia, política e da subjetividade, bem como, a naturalização da violência contra pessoas negras. A partir do racismo estrutural, a morte de um jovem negro nas periferias ou o encarceramento em massa desse grupo não choca, sequer intriga as elites brasileiras. Ademais, o que é normalizado na sociedade brasileira é a ausência de indivíduos negros nos espaços de poder, mas o que espante e causa repulsa são as medidas paliativas, tais como as ações afirmativas, como forma de compensação histórica e de garantir a equidade desses grupos historicamente marginalizados.
3. RACISMO E A CRIMINOLOGIA POSITIVISTA
A Criminologia enquanto ciência, centra-se no estudo do conjunto de fatores que conduz a motivação para a criminalidade, transitando entre a análise do objeto (criminoso, crime e criminalização) e do método (médico, psicológico, sociológico, histórico, antropológico). Na tentativa de encontrar o conceito ideal sobre o que é criminologia, Máximo Pavarini, como sendo um dos maiores criminólogos do fim do século XX, sugeriu ser o mais adequado falar em Criminologias, no plural. (ROORDA, 2016, p. 22 apud PAVARINI, 2006, p. 11)
De toda sorte, acompanhando Vera Malaguti Batista (2011) e Maximo Rozzo (2013):
“Pode-se dizer que se existe um fator que unifica esses saberes criminológicos é a sua relação com as categorias de poder, a questão criminal e as demandas por ordem.”
Ou seja, baseado no referencial supramencionado, não restam dúvidas de que as instituições de poder buscam criminalizar certos agentes, conforme sua conveniência, com o fim exclusivo de garantir um controle social.
A Criminologia da Europa referenciou todo o saber criminológico moderno, sobretudo o protagonismo dos trabalhos da Escola Positivista, encabeçada pelo médico Cesare Lombroso (1835-1930), que, alinhado a Enri Ferri (1856-1929) e Rafaele Garofalo (1852-1934), buscou construir uma narrativa científica sobre o crime, contrapondo-se à Escola Clássica, das teorias penais, originária do Século XVIII, tendo Cesare Beccaria (1852-1934) e Jeremy Bentham (1748-1794) como figuras exponenciais desse movimento. Nessa perspectiva, a questão do crime passou a ser observada sobre o prisma de duas abordagens: a definição da ação criminal
pela Escola Clássica e seu viés legal e garantista, primando a liberdade individual e seu impacto desconectado da punição; a Escola Positivista, enfatizando o determinismo e a tese de um tratamento científico do criminoso, em face da defesa e da ordem social. (ALVAREZ, 2012, p.23).
A teoria do “criminoso nato” de Lombroso partirá da premissa de que o agente criminoso é um indivíduo que apresenta características físicas e mentais primitivas do homem e que, por sua hereditariedade está propenso ao crime. Lombroso chegou a sofisticar a sua teoria do atavismo, incluindo outras características, tais como doenças e degenerações congênitas para embasá-las como a origem do comportamento criminoso, contudo sempre se pautou na ideia principal dos fatores biológicos do crime, a partir dos estigmas carregados pelo indivíduo. Com isso, Lombroso simplifica o crime a um fenômeno ontológico e natural, e o criminoso a uma aberração patológica e primitiva. (ALVAREZ, 2012, p.679).
Desde a sua obra mais importante, L´Uomo Delinquente, publicado em 1876, até a edição de
Le Crime, Causes et Remèdes, em que Lombroso estuda os fatores sociais e econômicos do
crime, suas teorias tiveram grande repercussão naquela época, dado o seu caráter simplista proposta pela sua tese em relação à criminalidade, assim como sua ambição era de criar uma nova ciência sobre a natureza humana. Todavia, provocou toda uma geração de críticos acerca de suas teorias, motivando-o para uma contraposição em face desses, senão vejamos:
Essas oposições provêm, em grande parte, do fato de que muitos dos oponentes, não conhecem as publicações feitas em língua estrangeira. Eles se atêm, por exemplo, ao meu Homem Criminal, que é apenas a primeira parte de uma obra já antiga, enquanto muitos outros trabalhos, e mais eruditos ainda, têm sido publicados desde então sobre o mesmo assunto. (ALVAREZ, 2012, p. 769 apud ...)
Além de Lombroso, a produção literária de Ferri e Garofalo integraram as bases sólidas da “Escola Positiva, Determinista ou Italiana”, conceituando a Criminologia como a ciência orientada para o estudo do homem delinquente.
O racismo e a criminologia, no Brasil, convergem a partir da Criminologia Positivista, tendo como protagonistas as ideias do médico legista maranhense Raimundo Nina Rodrigues, baseando-as nas teorias dos já mencionados Lombroso, Ferri e Garofalo, contribuindo para a compreensão do racismo no sistema penal brasileiro. Dessa forma, para Duarte (2018), é histórico o uso da raça como fator criminógeno e que utiliza esse elemento como justificativa do descontrole social e da criminalidade. Não obstante, é possível observar a tragédia da escravidão e da segregação racial, como instrumentos de controle social, cujo mesmo é objeto central das teorias criminológicas. Assim como, é possível observar as estratégias de controle e rotulação social durante o projeto político abolicionista. Ainda para o autor, é indiscutível a
ideia de que a relação entre raça e criminalidade é fruto de uma decisão política, não sendo, sob nenhuma hipótese, um “erro científico” como defendia as teorias lombrosianas.
O surgimento da Criminologia Positivista no Brasil explica, em muitos aspectos o sistema penal brasileiro atual, calcado no racismo e na seletividade em virtude de raça e cor. Nessa linha, por volta de 1880, era possível identificar adeptos das ideias de Lombroso, Ferri e Garófalo, protagonistas da Escola Positivista Italiana, que explicavam a teoria do criminoso nato e a ação delituosa por meio de fatores patológicos e individuais, nas Academias brasileiras de Direito e Medicina, singularmente, na Faculdade de Medicina da Bahia, que formou grande parte desses intelectuais, tais como Nina Rodrigues, como sendo o pioneiro da Criminologia e da Antropologia brasileiras. A partir de sua obra “As raças humanas e a responsabilidade penal”, Nina Rodrigues figurou como grande modelo de uma ideia que se contrapôs à concepção da Criminologia Positivista, buscando evidenciar os mecanismos de controle social. Assim, para Rodrigues (1997 apud DUARTE, 2018, p. 26):
Nos momentos finais da escravidão, Nina Rodrigues corroborou o racismo das teorias criminológicas europeias e das práticas locais dos escravistas, desenvolvendo a hipótese causal explicativa da criminalidade no Brasil, como resultante da inferioridade racial de índios e negros.
Para o autor, referido posicionamento pode ser compreendido a partir do contexto histórico da época em que as medidas de controle social, partindo da ideia de raça como um vetor da criminalidade e do distúrbio social, bem como da seletividade presente na distinção entre negros e brancos, escravos e livres, respectivamente, entravam em conflito, tendo em vista que as instituições sofriam pressões externas de cunho mercadológico e abolicionistas à escravidão, tendo como objetivo principal a formação de uma mão de obra livre, bem como pressões internas por meio de movimentos que se rebelavam contra o regime escravista, propondo a realização das ideias de liberdade e igualdade advindas do Iluminismo.
Com o surgimento de duas novas categorias sociais, oriundas da crise ocasionada pela complexidade do controle social, amplamente difundidas no século XIX, sendo uma formada pelo negro-escravo urbano e a outra pelo negro-liberto, logo na sequencia as elites intelectuais passam a adotar o cientificismo como ideologia, construindo as instituições base de uma sociedade de trabalho livre, a partir da instalação de escolas, faculdades e da administração púbica carregando esse viés ideológico da racialização do poder institucional. Em suma, as teses de Nina Rodrigues são desenvolvidas no momento em que negros passam a ocupar o espaço urbano e, no âmbito político se definem os direitos dos cidadãos, inclusive negros. Nesse período, o espaço geográfico, institucional e nacional, bem como os direitos fundamentais tornam-se objeto de permuta.
Conforme aduzido por Carvalho e Duarte (2017), lamentavelmente a história brasileira oficializada nos ocultou sobre a verdade à cerca do processo abolicionista, ordenado pela necessidade da elite branca atravancar a ascensão social da população negra, a nível local e regional. Com isso, as elites, por meio da polícia passam a coibir o trabalho e o comércio de rua realizados por ex-escravos, implantando normas de higiene e a ação policial de cunho discriminatório. Ao revés, as elites e o Estado concentravam esforços na implantação de espaços privados para o comércio, descapitalizando os pequenos comerciantes negros. Além do contexto mencionado, as batalhas na denominada “Cidade Negra”, Salvador, Bahia, região de notório gerenciamento das elites brancas sobre a mão-de-obra escravista negra, serviram como pano de fundo à chegada da Criminologia no Brasil. A partir da obra de Nina Rodrigues, surge a premissa de controle social, não só pelo controle de indivíduos, mas também pelo controle e a seletividade de grupos humanos por meio da característica racial. A relação entre racismo e criminologia, naturalmente aponta para uma correlação entre a Criminologia, as Teorias Raciais e o direito penal e suas práticas racistas. Portanto, o racismo se apresenta como um divisor na Criminologia enquanto ciência, tanto pelo pressuposto de que a criminologia positivista nasce por meio das teorias raciais, quanto porque suas premissas e conclusões reproduzem ideias e práticas discriminatórias. (Carvalho e Duarte, 2017, p. 30). Dessa forma, o racismo passa de um problema da ausência de civilidade de grupos humanos para um fator que explica a seletividade do exercício da cidadania na sociedade brasileira. Por derradeiro, analisar o contexto histórico promove um entendimento sobre o modo como o racismo está atrelado ao sistema penal brasileiro.
4. A TEORIA CRIMINOLÓGICA DO LABELLING APPROACH
No presente capítulo, é salutar abordar as características da teoria do Labelling Approach como sendo aquela que rompe com a sociologia criminal liberal, estabelecendo uma mudança de paradigma partindo-se da perspectiva da rotulação social, mostrando o conflito característico da criminologia crítica, oriunda das teorias do conflito de origem marxistas. Nesse sentido, para Lopes (2008), explica-se os sistemas de criminalização das classes sociais inferiores na medida em são o alvo do sistema penal, cenário esse intimamente ligado ao plano econômico de uma sociedade. Dessa forma, é possível verificar que a condição dos indivíduos menos abastados é determinante para o seu processo de criminalização.
Conforme sustenta Silva (2015, p.102), surge um novo paradigma criminológico, em virtude de transformações sociocriminais sofridas pelo direito penal, denominado paradigma da
reação social, que terá como objeto de análise o sistema penal e o fenômeno de controle social, opondo-se ao antigo paradigma etiológico, que investigava o criminoso a partir das suas características individuais. Dessa forma, nesse novo paradigma, são analisadas as situações em que o indivíduo pode ser intitulado como um desviante, bem como o desvio e a criminalidade passam a ser definidos como uma espécie de etiqueta, um rótulo imposto a certos indivíduos em decorrência de uma complexa interação social, não sendo mais o delito fruto de uma qualidade, característica de uma conduta individual.
Assim, ao invés de questionar “quem é o criminoso? ” e “porque é que o criminoso comete o crime? ”, conforme ocorre na Criminologia Tradicional, segundo Baratta (1999), o labelling
approach passa a questionar “quem é definido como criminoso?”, “porque determinados
indivíduos são definidos como criminosos?”, “em que contexto um indivíduo pode se tornar objeto desta definição?”, “quais os efeitos que decorrem dessa definição sobre o indivíduo?”, “quem define quem?” e, por fim, “com base em que leis sociais se distribui e concentra o poder de definição?”.
O labelling, de acordo com Shecaira (2013), simboliza um divisor na teoria do conflito e um pensamento que rompe com o paradigma etiológico-determinista, oriundo da criminologia clássica, e no lugar de um conceito estanque e rígido de análise social se apresenta como uma concepção dinâmica e contínua, características da complexidade da vida humana em sociedade. Pode ser definido como um movimento criminológico baseado na reflexão sobre os mecanismos de controle social e suas consequências em um sistema penal, bem como no papel da vítima na relação delituosa. Contrapõem-se ao paradigma da criminologia tradicional, que pautava seus estudos e pesquisas acerca da criminologia, exclusivamente, a partir das características do crime e do criminoso, desconsiderando a influência dos agentes de controle social nas ações delitivas.
Ainda na visão do autor, para o labelling, o crime não se origina da condição humana do indivíduo, ou seja, das suas características físicas e biológicas como argumentava as teorias da criminologia científica de Cesare Lombroso, médico italiano, que desempenhou um dos papeis centrais na Criminologia Tradicional. Portanto, a contribuição do labelling está no conceito da complexidade inerente à vida em sociedade como forma de aprofundar os estudos sobre o cenário da criminalidade nos grandes centros urbanos, tendo como premissa a ideia de que o crime é uma reação do indivíduo aos mecanismos de controle e domínio social, instrumentalizados, em grande parte, pelo poder judiciário, agentes da segurança pública e legisladores penais, como forma de conterem a sociedade dentro de um parâmetro de ordem e previsibilidade que atenda à conveniência do Estado. Ainda na visão do autor, a delinquência
é resultado de um processo desencadeado pela estigmatização promovida pelos agentes de controle sobre determinados grupos sociais, ou seja, o delinquente se difere dos demais indivíduos em decorrência da rotulação social que sofre.
De acordo com Andrade (2008), a Teoria do Etiquetamento Social foi construída a partir de dois fundamentos: a criminalização primária e secundária. Nesta senda, o sistema penal passa a ser compreendido como sendo um processo dinâmico e articulado, em que os agentes de controle social formal concorrem para esse processo de criminalização. Partindo dessa premissa, no que se referente a criminalização primária, temos a figura precípua do legislador que tipifica quais são as condutas criminosas, seguido dos agentes responsáveis pela criminalização secundária, tais como as polícias, o Ministério Público, o Poder Judiciário, o sistema carcerário e os demais mecanismos de controle social informal. Portanto, a partir dessa perspectiva, o sistema penal pode ser entendido como um processo de criminalização de indivíduos, seguramente sofisticado e eficaz.
No que concerne o seu contexto histórico, o labelling approach é incipiente do início da década de sessenta, nos Estados Unidos, mencionada por diversos autores daquele período como sendo uma teoria crítica ou nova, dado o relevante conteúdo crítico ao direito penal e à criminologia tradicional. Contudo, a partir dos anos setenta, com as obras de Taylor, Walton e Young, intitulada Criminologia nova e Criminologia Radical, em que os autores imprimem uma análise de cunho marxista, inaugurou-se a teoria radical ou crítica. Portanto, para Shecaira (2014), a partir desse momento, foi necessário estabelecer uma perfeita diferenciação entre o pensamento do labelling approach, que não mais passaria a chamar seus pensadores de crítico, tendo em vista o advento da teoria crítica, passando então a denominar a teoria do etiquetamento social ou da rotulação social ou ainda, teoria interacionista ou da reação social. Uma vez conceituada como sendo uma teoria da reação social, o labbeling irá analisar a relação entre o crime e as estruturas de dominação do Estado, partindo do pressuposto de que ao tipificar determinadas condutas, o Estado não visa a paz e a ordem social e sim o conflito, pois seu objetivo é, a partir do caos, impor seu poder de coerção sobre os indivíduos de uma sociedade. Dessa forma, a teoria do etiquetamento social defende que a origem mais remota da criminalidade seria o processo político de criminalização em que caberia ao Estado controlador dizer quais condutas seriam ou não criminosas, estabelecendo, portanto, a ideia de que esse não é um processo neutro, na medida em que ao indicar quais são as condutas típicas, o Estado também seleciona os seus criminosos.
Portanto, às instituições que exercem o controle social, não lhes cabe explicar as causas da criminalidade, pois são responsáveis por operacionalizá-la e justificá-la, legitimando assim a
rotulação e a seletividade da criminalidade instrumentalizada pelo sistema penal. Assim como, não se trata de combater essa criminalidade, uma vez que a função do sistema é, exatamente, construí-la e mantê-la de forma seletiva, aduz Andrade (1995, p.34-35).
Por derradeiro, a teoria da rotulação social se apresenta como um terreno pouco conhecido pela doutrina jurídica brasileira, ainda que decorra de, pelo menos, cinquenta anos, tendo em vista o grande dogmatismo arraigado nesta. Contudo, consoante a Shecaira (2013), no campo jurídico, os postulados teóricos do labelling approach foram bem recebidos pela nossa doutrina penal, tendo como referência a teoria garantista do direito penal mínimo, em que a premissa da intervenção penal restringe-se a atingir, estritamente, os bens jurídicos relevantes, sendo esses aqueles valores sociais que devem estar protegidos do perigo de lesões efetivas, tais como a vida, a integridade física, dentre outros. Ademais, a reforma penal de 1984, inaugurada pelas leis 7209/84 e 7210/84, promoveu uma grande modificação em nosso ordenamento jurídico a partir da influência das ideias centrais do labelling, por exemplo, a pena privativa de liberdade e a introdução do sistema de progressão de cumprimento que foi concebido com o intuito de atenuar o choque da reinserção social quando o preso se encontrava institucionalizado. Dessa forma, é possível verificar que a lei recepcionou o
labelling, tendo em vista que essa teoria propõe instrumentos mitigadores à
institucionalização da pena privativa de liberdade.
5. ETIQUETAMENTO SOCIAL DO DIREITO PENAL BRASILEIRO: A
CONTRAVENÇÃO DE VADIAGEM
O racismo como instrumento de edificação do sistema penal brasileiro guarda uma relação histórica com a tipificação de determinadas condutas com o intuito de manter grupos sociais atrelados à marginalidade, evitando com isso a sua ascendência e protagonismo social.
Na primeira década do Século XX, a predominância de classes populares, sobretudo cidadãos negros, em determinadas regiões brasileiras motivou o Estado a promover a restrição legal do direito de ir, vir e de permanecer desses indivíduos em locais públicos, na tentativa de obstaculizar a evidente expansão da cultura negra, por meio da sua música e dança. Dentre os locais historicamente conhecidos por ser palco dessa efervescência cultural afro-brasileira, pode-se destacar as cidades do antigo Distrito Federal, atualmente o estado do Rio de Janeiro, nas regiões da Cidade Nova e Santo Cristo, além da Central do Brasil (ROORDA, 2016, p. 29).
Segundo o autor, o Código Penal dos Estados Unidos do Brasil, promulgado em 1890, sendo o primeiro Código Penal da República do Brasil, previa a Contravenção Penal de vadiagem ou, também denominada vagabundagem, nos artigos 399 a 401, observando três condutas do agente contraventor para a configuração do referido tipo penal, tais como domicilio incerto, ausência de oficio ou profissão e a falta de meios para o próprio sustento. Outro requisito para a incursão da vadiagem haveria de ser a sua prática voluntária, e nesse caso, a comprovada incapacidade para exercer qualquer profissão não caracterizaria a contravenção.
Concernente à pena imposta à contravenção de vadiagem, o autor ainda informa que a penalidade prevista era de quinze dias de prisão (cellular) e, tratando-se de reincidência, o condenado seria internado em uma colônia correcional, instituída com o fim exclusivo de encarcerar capoeiras e vadios, variando a pena entre seis meses até três anos de reclusão. Com a edição do decreto 145, datado de 11 de junho de 1893, foram promovidas alterações legais sobre a vadiagem, reduzindo a pena máxima para até dois anos de reclusão, bem como em caso de menores de idade, a autorização para a internação seria concedida apenas nos casos de ausência do poder pátrio (ROORDA, 2016, p. 30).
Ainda de acordo com Roorda (2016, p. 30), o processo penal previsto na Lei 628 de 1899, para a investigação e julgamento da contravenção penal de vadiagem, curiosamente, previa um procedimento demasiadamente sumário. Segundo o autor, o delegado instruía o processo e direcionava para o Pretor (Promotor) para sua avaliação. Contudo, o histórico trazido por Roorda aponta que, dos casos pesquisados por ele, tipificados como vadiagem, somente um único apresentava recurso da sentença. Nessa linha, a fim de contabilizar os casos de contravenção penal processadas em uma Pretória (atualmente vara criminal), a partir da pesquisa por meio dos escritos históricos sobre o tema, o autor aponta para uma predominância da vadiagem entre as detenções ocorridas àquela época, atrás apenas da prática de “distúrbio/algazarra”. Contabilizando os números identificados na casa de correção do Rio de Janeiro, identificou-se que dos 752 registros de contravenções no ano de 1904, 132 eram oriundos da vadiagem, contra 214 anotações sobre “distúrbio/algazarra” (ROORDA, 2016, p. 22 apud GIZLENE NEDER, 1997).
Entre os anos de 1904 e 1905, no mesmo período em que as detenções pela contravenção de vadiagem se asseveravam, ocorriam as reformas urbanas do então prefeito do Distrito Federal, Pereira Passos em consonância com o projeto de higienização urbana de Oswaldo Cruz. Nesse contexto, Roorda (2016, p. 32):
Os processos por vadiagem eram altamente funcionais para o novo projeto de cidade anunciado, retirando as populações populares das ruas, ainda que por breves períodos. A pena aqui sustenta-se, ideologicamente, mais do que pelo conceito de “classe perigosa” de uma criminologia positivista da época, pelas demandas por ordem e organização espacial da cidade, que impõe a remoção de desocupados dos lugares públicos.
Assim, criminalizar a prática de vadiagem evidenciou que o objetivo central das detenções não era o de proteger a sociedade de malfeitos, ou de moralizar o contraventor. Ao contrário, esse trecho histórico da justiça criminal brasileira aduz para a instrumentalização do ato de criminalizar aquilo que, nada mais era, senão a expressão da cultura e da condição social de um povo, como vistas a um projeto de poder do Estado e das grandes elites. É possível aqui traçar um paralelo entre a criminologia positivista e a teoria da reação social, da criminologia crítica: a vadiagem como contravenção penal traduz a teoria da mestiçagem de Nina Rodrigues sugeriu que cor e raça eram fatores determinantes da criminalidade, enquanto o racismo daquela época abriu caminho para as teses da teoria do etiquetamento social, baseando-se na rotulação social presente desde o período pós-escravocrata, até os dias de hoje. É, portanto, o paradigma entre racismo e vadiagem, rotulação social e direito penal.
6. A LEI DE DROGAS E O ENCARCERAMENTO SELETIVO DE NEGROS
O racismo, no contexto da seletividade penal, pode ser caracterizado como um modo de violência institucional decorrente do tratamento desigual no sistema de justiça criminal, identificando o agente não pelo tipo penal que praticou, mas por quem ele é. Assim, o racismo pode ser denunciado como um aspecto da seletividade desse sistema, uma vez que os agentes públicos utilizam da raça para identificação de criminosos, não restando dúvidas de que a vulnerabilidade e seletividade sofrida por esse criminoso passam a ser determinantes, na medida em que estes saem do status de delinquente para a situação de vulneráveis perante a prática seletiva dos agentes do sistema de justiça criminal. Dessa forma, nesse sistema, a seletividade, de forma quantitativa e qualitativa, opera estabelecendo as condutas a serem punidas, sendo as cometidas por esse grupo vulnerável as que com maior frequência são apenadas.
Com a crescente crise no sistema penitenciário a partir da década de noventa, se buscou identificar e explicar as razões da seletividade entre negros e brancos no âmbito da justiça criminal de São Paulo, por meio da análise das sentenças judiciais de crimes da mesma natureza por ambas as classificações de réus. Nesse contexto, o estudo de Adorno (1996,
p.284-285) apud Silveira (2007, p. 44), sobre os crimes com violência julgados naquela década, na Comarca de São Paulo apresentou:
Os resultados alcançados, até este momento, indicaram maior incidência de prisões em flagrante para réus negros (58,1%) comparativamente a réus brancos (46,0%). Tal aspecto parece traduzir maior vigilância policial sobre a população negra do que sobre a população branca. Há maior proporção de réus brancos respondendo a processo em liberdade (27,0%) comparativamente a réus negros (15,5%). Réus negros dependem mais da assistência judiciária proporcionada pelo Estado (defensoria pública e dativa, correspondendo a 62%) comparativamente a réus brancos (39,5%). Em contrapartida 60,5% dos réus brancos possuem defensoria constituída, enquanto apenas 38,1% dos réus negros se encontram nessa mesma condição. [...] De todos os brancos que se dispuseram a apresentar provas testemunhais, 48% foram absolvidos e 52% condenados. Entretanto, entre os réus que se valeram desse exercício, 28,2% foram absolvidos enquanto 71,8% foram condenados. Finalmente, a maior inclinação condenatória também parece estar associada à cor da vítima. Réus brancos que agridem vítimas da mesma etnia revelam maior probabilidade de absolvição (54,8%) do que de condenação (42,2%). Quando o agressor é negro e a vítima é branca, o quadro se inverte. Entre estes, a proporção de condenados (57,8%) é superior à de absolvidos (45,2%). Tudo parece indicar, portanto, que a cor é poderoso instrumento de discriminação na distribuição da justiça
Os dados supramencionados começariam a embasar as teses atuais sobre a estereotipação de certos indivíduos e essa preferência do sistema penal. Tal estigmatização acabou por promover uma grande revolução no campo da ciência Criminológica, confrontando as teorias tradicionais concernentes ao conceito de criminalidade e criminoso, até o momento vistas como realidades estanques e de constatação objetiva. Assim, com essas análises, a teoria do
labelling ganha um importante papel ao transformar o campo das problemáticas
criminológicas, mormente no que se refere aos processos de criminalização, tais como o reconhecimento do caráter criminoso de determinado comportamento e de rotulação social como sendo a definição do status de criminoso. Para Baratta (1999, p.86), não é possível compreender a criminalidade sem analisar a ação do sistema de justiça criminal, por ser o aparato estatal que a tipifica e reage em face dela, desde as instituições de leis abstratas até a atuação das instâncias do controle social, tais como as polícias, o Poder Judiciário e o Sistema Penitenciário.
Para Flauzina (2008), está presente no sistema penal um racismo arraigado, que objetiva, exclusivamente, o controle da população negra. Assim, há um vínculo histórico, uma relação íntima entre racismo e Sistema Penal no Brasil, mormente, de maneira enviesada, ainda que haja uma tentativa de apresentar uma ideia oposta desta. “Passemos então a nos ocupar desse relacionamento tão frutífero quanto incestuoso em que se transformou a convivência entre racismo e sistema penal nessa “amostra terrestre do paraíso” chamada Brasil. (FLAUSINA, 2008, p.44)”.
Nos dias atuais, a estigmatização ora explanada no contexto da justiça criminal, ganha contornos explícitos frente ao gigantesco encarceramento seletivo do sistema penal brasileiro, amplamente divulgado pelos índices de presos e presas em decorrência de tipos penais específicos. Destaca-se o volume de presos, condenados e provisórios no Brasil que, de acordo com o Departamento Penitenciário Nacional, o Depen e o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, o Infopen, somam 726.712 pessoas presas no país, entre 2015 e o primeiro semestre de 2016. Desse universo prisional, 64% são pessoas negras, enquanto 35% são brancas.
Ao analisarmos os números por espécies de crimes, temos o crime de Tráfico de Drogas com maior incidência em encarcerar pessoas, sobretudo, negros e negras, sendo 28% da população carcerária total. Em segundo no ranking, aparece os crimes de Furto e Roubo, que somam 37%, seguido do delito de Homicídio, representando 11% das prisões. Passemos a analisar os aspectos sobre a aplicação da Lei de Drogas pela Justiça Criminal e seu impacto no encarceramento seletivo de negros.
No Brasil, a prática de traficância é tipificada como crime hediondo e, portanto, apenada com maior rigor e reprovabilidade. Ocorre que, grande parte das pessoas presas pelo delito de tráfico de entorpecentes não são traficantes de alta patente, ocupantes de posto de renome dentro de organizações criminosas. Ao revés, a maioria são usuários viciados em substanciais ilícitas e detidos portando pequenas quantidades dessas. Em tese, para essa situação o artigo 28 da atual legislação de drogas, deixou de prever a aplicação da pena privativa de liberdade para o porte de entorpecentes para uso pessoal, qual seja:
Lei nº 11.343/06 – Art. 28. Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas:
I – advertência sobre os efeitos das drogas; II – prestação de serviços à comunidade;
III – medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo. ...
§ 6º Para garantia do cumprimento das medidas educativas a que se refere o caput, nos incisos I, II e III, a que injustificadamente se recuse o agente, poderá o juiz submetê-lo sucessivamente a:
I – admoestação verbal; II – multa.
§ 7º O juiz determinará ao Poder Público que coloque à disposição do infrator, gratuitamente, estabelecimento de saúde, preferencialmente ambulatorial, para tratamento especificamente.
Não obstante à referida despenalização da conduta do artigo supramencionado, sendo esse o entendimento do Supremo Tribunal Federal, ainda assim não houve a descriminalização do
porte de entorpecentes para uso pessoal. Ocorre que, o grande viés seletivo desse dispositivo está previsto no §2º, em que o legislador apresenta os critérios que definem o agente como sendo usuário ou traficante, baseando-se na natureza e quantidade apreendida, no local da apreensão, nas circunstâncias sociais e pessoais do agente, bem como a sua conduta e seus antecedentes. Nesse momento, a criminalização primária, ora abordada ao longo desse artigo, se faz presente, tendo a figura do legislador como ator central desse controle social formal do Estado sobre uma população historicamente vulnerável, uma vez que pobres e negros, comumente residem nas periferias e comunidades, sendo as regiões demasiadamente dominadas pela criminalidade, em decorrência da omissão do Estado aos estímulos básicos para uma vida digna. Portanto, local e circunstâncias sociais, fatalmente, deporão contra o agente que seja detido nas favelas e periferias dos grandes centros, sendo ínfima a chance desse agente preencher todos os requisitos para enquadrar o fato ao porte para consumo pessoal e, consequentemente, não ser apenado com a privativa de liberdade. Nesse momento, não restam dúvidas de que o agente flagrado com drogas em um local conhecido pelos índices de violência, sendo pobre e negro, seguramente será enquadrado no artigo 33 da referida lei de drogas, sendo identificado como traficante. Enquanto isso, o jovem branco, bem-apessoado, surpreendido com substâncias ilícitas nas redondezas de sua residência em um bairro residencial de classe média alta, se enquadrará na figura do usuário, não sendo, portanto, apenado.
A premissa sobre uma maior severidade da Justiça criminal para com delinquentes negros, bem como as predisposições entre o racismo e sistema penal podem ser demonstradas a partir de diversas pesquisas no campo empírico, podendo citar o levantamento da Agência Pública, Agência de Jornalismo Investigativo, que em 2017 analisou a sobrerrepresentação de negros como réus em processos criminais pelo tráfico de drogas, distribuídos na justiça de SP. Nesse sentido, das cinquenta comarcas com mais de cem julgados, quarenta e nove apresentaram uma predominância da população negra na justiça paulista em relação a população negra local, na medida em que a proporção entre negros sentenciados e a população negra dos municípios foi maior do que o comparativo entre a proporção de brancos, conforme demonstrado no gráfico abaixo:
Gráfico 1 – Sobrerrepresenação negra na Justiça de SP
Fonte: Agência Pública – Agência de Jornalismo Investigativo. Disponível em:
https://public.tableau.com/profile/ag.ncia.p.blica#!/vizhome/Barras_Justica_Municipios/Sobrerrepresentao
Com base no gráfico 1, o município de São Vicente apresentou o maior índice de população negra condenada por tráfico de drogas no estado, com 73% dos sentenciados pela traficância sendo negros, contra uma população negra local de 46%. O gráfico ainda apresenta a região de Santo André com a maior diferença entre negros sentenciados por tráfico contra a população afrodescendente local, sendo 59% contra 27%, respectivamente.
Assim, o estudo demonstra no gráfico 1, a partir de um comparativo entre negros e brancos, que as sentenças de primeiro grau condenaram 71, 5% dos negros e 69,5% dos brancos por tráfico. No que se refere a sentença que julgou pela desclassificação para a posse de drogas para consumo pessoal, previsto no artigo 28 da lei de drogas, temos 6,8% da desclassificação para brancos e 5% para negros, apresentando uma diferença de 36%, ou seja, da variação de 1,8% entre os índices de brancos e negros, a desclassificação foi 36% menor entre os sentenciados negros.
Partindo-se da perspectiva das teorias criminológicas, para a compreensão dessa diferenciação entre usuário e traficante, enquanto a criminologia etiológica mantém diversas pesquisas voltadas à resposta da indagação “por que determinadas pessoas afrodescendentes traficam drogas? a teoria crítica indagará “por que determinadas pessoas afrodescendentes são rotuladas como traficantes?” (CARVALHO, p. 37, 2016). A mudança na forma de questionar esse fenômeno possibilita que a criminologia e o sistema de justiça criminal afastem-se do papel meramente descritivo das funções de cada agente do sistema penal, para então revelar os impactos de cada nos processos de criminalização.
CONCLUSÃO
Ante aos temas abordados neste artigo, foi possível concluir que a seletividade do sistema penal brasileiro é consequência do racismo, como sendo um fenômeno decorrente do processo abolicionista que fora se aperfeiçoando ao longo do desenvolvimento urbano da sociedade brasileira para além do racismo de caráter etiológico, ganhando contornos de um racismo estrutural, ou seja, velado e naturalizado por parte das elites brancas, como forma de garantir um controle social sobre os negros recém-alforriados, sendo esse controle fruto do medo e da ameaça por parte das elites sobre a ascensão dessas classes subalternas e da consequente perda de privilégios e do poder de mando. Ademais, havia um medo da inevitável miscigenação, que comprometeria o desejo de mantença de uma cultura e sociedade semelhante à europeia.
No que se refere à Criminologia, constatou-se que é a ciência que busca identificar as razões do crime e da criminalidade, desde a sua vertente clássica, capitaneada por Cesare Beccaria, e a premissa da criminalidade como sendo um produto das escolhas racionalizadas do indivíduo, passando pelo surgimento da escola criminológica positivista, encabeçada pelo médico cientista italiano Cesare Lombroso, e acompanhada pelo legista maranhense Nina Rodrigues, com suas teorias racistas que propunha estudar o crime e a criminalidade como sendo ontológicos e derivados da natureza humana, denominando o indivíduo como “criminoso nato”, até o advento da vertente crítica, de cunho marxista, da escola Criminológica Crítica e sua teoria da reação social, e do etiquetamento ou rotulação social (Labelling Approach), contribuindo para a compreensão da criminalidade a partir dos estudos sobre quem rotula o indivíduo como criminoso, defendendo que esta seria uma reação social às medidas de controle manipuladas pelas instituições de poder, sobretudo pelo sistema de justiça criminal.
Por derradeiro, foi possível compreender que o racismo e o sistema penal desenvolvem uma relação histórica, desde a tipificação das manifestações culturais do povo negro após a abolição da escravatura, com a criminalização da capoeira e do samba, até a vadiagem como contravenção penal, convertendo pessoas pobres e negras em delinquentes, sem, contudo absorver que grande parte dos indivíduos sem propriedade e sem ofício ou residência fixa assim se apresentavam em decorrência do processo de abolição da escravidão, entendendo que esse não foi um fato histórico, mas sim um movimento arquitetado com vistas à criação de uma mão-de-obra livre, sem garantir a essas pessoas meios básicos de subsistência digna. O resultado desse processo histórico se perpetua e desagua na realidade brasileira dos dias atuais, por meio do encarceramento em massa e seletivo de jovens, homens e mulheres
negras, pelos crimes de tráfico de drogas, furto e roubo que, somados, representam cerca de 65% do volume de encarcerados no total, sendo esses apenados, majoritariamente, pobres e negros.
A situação atual aponta para um colapso ético e moral, covarde e violento em que o opressor, representado pelo Estado e por suas instâncias de controle, caracterizados pelo legislador penal, os agentes de segurança pública e o Poder Judiciário dão sinais de que essa seletividade penal não traduz perspectivas positivas para a criança pobre e negra de hoje. Ao analisar o contexto do encarceramento da população negra pela ótica da Teoria do Labelling Approach em conjunto com o pensamento crítico criminológico, é evidente que quem dita quais são as condutas delitivas (legislador) e quais os indivíduos que devem ser apenados (segurança pública, Ministério Público e Poder Judiciário) é flagrante o etiquetamento e a rotulação do agente negro como sendo o alvo certeiro de um sistema estigmatizante e opressor.
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