ÁREA TEMÁTICA: ( ) COMUNICAÇÃO ( ) CULTURA
( ) DIREITOS HUMANOS E JUSTIÇA ( X ) EDUCAÇÃO
( ) MEIO AMBIENTE ( ) SAÚDE
( ) TRABALHO ( ) TECNOLOGIA
CURSO PREPARATÓRIO PARA PSS-UEPG: A QUESTÃO DO ESPANHOL
COUTO, Ligia Paula1
TERNA, Ângela Maria Boiano2
GUARNERI, Gabriela Pontes3
RESUMO - Este trabalho tem por objetivo apresentar as atividades do projeto de extensão “Curso Preparatório para PSS-UEPG”, mais especificamente na área de espanhol, e os resultados atingidos. Esse projeto, organizado por professores da UEPG de diversas áreas do conhecimento em 2010, focou preparar alunos do Ensino Médio para as provas de Processo Seletivo Seriado (PSS) da UEPG. No caso do espanhol, a metodologia adotada para o estudo dessa língua estrangeira (LE) com relação ao PSS foi investigativa, isto é, foi necessário analisar os editais de PSS, verificar os conteúdos explorados e avaliar as provas aplicadas em anos anteriores. Partindo desse estudo inicial, os materiais didáticos utilizados nas aulas do projeto foram criados. Elaborar material próprio foi importante para que as atividades realizadas fossem coerentes com o que seria cobrado no PSS. Além de contribuir no preparo dos alunos para o PSS que ocorreu no final de 2010, o estudo das provas de espanhol proporcionou uma discussão entre os membros do projeto sobre as concepções de ensino de LE presentes neste processo seletivo e também no vestibular UEPG. Esses questionamentos levaram as acadêmicas extensionistas a desenvolver dois projetos de pesquisa, um sobre a prova de espanhol no PSS e outro sobre a prova de espanhol no vestibular, ambos no contexto da UEPG. Até o presente momento, conseguiu-se constatar que há uma lacuna entre a proposta dessas provas e as Diretrizes curriculares do PR para o ensino de LE (DCE-PR) (2008), algo que é entendido como incoerente, uma vez que a DCE-PR orienta a prática docente do professor de ensino médio, o qual é responsável pela formação de futuros candidatos para o PSS e vestibular.
PALAVRAS CHAVE – Ensino de espanhol; Extensão com pesquisa; Vestibular.
1
Mestre, professora da UEPG, [email protected].
2
Graduanda, estudante, [email protected].
3
Introdução
O projeto de extensão “Curso Preparatório para PSS-UEPG” foi elaborado a partir da iniciativa de alguns professores em criar um cursinho preparatório institucional da UEPG, uma vez que não temos esse espaço em nossa universidade e tal iniciativa é comum em outras universidades públicas e tão necessária para se atingir os objetivos de auxiliar os alunos da escola pública a ingressar no ensino superior público também.
Acreditar que a extensão é um campo de pesquisa fértil e investir nessa ideia foi uma das propostas possíveis na organização das atividades do projeto de extensão “Curso Preparatório para PSS-UEPG”, na área de espanhol. Assim, além de elaborar toda a proposta de ensino de espanhol nessas aulas do cursinho preparatório, foram desenvolvidas pesquisas sobre a temática.
Tudo começou com o convite a duas alunas do curso de Letras Espanhol/Português da UEPG, que já se debruçavam sobre questões de ensino/aprendizagem de espanhol-LE, para participarem do projeto. Ambas as alunas se mostraram bastante motivadas com a proposta, uma vez que já vinham discutindo e estudando teorias do campo da linguística, da educação e do ensino de LEs, mas sem ainda ter como estabelecer uma relação com a prática, pois não haviam iniciado na pesquisa ou extensão. Dessa maneira, o convite para participar do projeto chegou em bom momento e foi compreendido como uma oportunidade para estabelecer uma relação entre a teoria e a prática. No entanto, nenhuma das acadêmicas tinha um problema de pesquisa proposto, foi a participação no projeto que possibilitou a configuração de tal problema e dos questionamentos derivados dele.
Objetivos
O objetivo desse trabalho é apresentar as atividades do projeto de extensão “Curso Preparatório para PSS-UEPG”, mais especificamente na área de espanhol, e os resultados atingidos. Além disso, objetiva-se discutir como a extensão pode proporcionar o surgimento de temáticas de pesquisas e despertar o interesse dos extensionistas para a elaboração de pesquisas.
No caso específico da atuação da equipe de espanhol no projeto “Curso Preparatório para PSS-UEPG”, o estudo das provas de espanhol no PSS e no vestibular UEPG incitou uma discussão entre os membros do projeto sobre as concepções de ensino de LE presentes nestes processos seletivos. Ademais, ao pesquisar a temática do vestibular e do PSS, constatou-se que muito pouco é discutido e investigado, fato que justificou ainda mais a constituição de uma pesquisa.
Todos esses questionamentos levaram as acadêmicas extensionistas a desenvolver dois projetos de pesquisa, um sobre a prova de espanhol no PSS e outro sobre a prova de espanhol no vestibular, ambos no contexto da UEPG.
Metodologia
Durante o desenvolvimento das ações do projeto na área de espanhol, houve duas abordagens metodológicas: uma para organizar as aulas a serem trabalhadas com os alunos que se inscreveram para participar do curso preparatório para o PSS e uma para orientação das acadêmicas e extensionistas e a elaboração de suas pesquisas.
Para a organização das aulas, houve primeiramente um processo investigativo para conhecer as provas (nos três níveis: acompanhamento I, II e III), com seus editais, conteúdos e formatos. A partir dessa investigação inicial, houve uma seleção de conteúdos a serem abordados e a escolha da habilidade de leitura para ser focada e, nesta habilidade, explorar o gênero textual de revista ou jornal, uma vez que foi o gênero predominante na análise das provas anteriores.
Também em vista desta primeira investigação, percebeu-se que as expectativas com relação aos conteúdos gramaticais se concretizavam em, no máximo, uma pergunta na prova. Sendo assim, a elaboração do material didático focou com mais intensidade o trabalho com a leitura de artigos de jornais e revistas, com exercícios de compreensão e um número reduzido de questões gramaticais.
Além disso, no material didático, pensou-se em organizar espaços para a realização de provas anteriores do PSS, como uma espécie de simulado, de modo a fazer com que os alunos do ensino médio tivessem práticas da prova.
É importante ressaltar, ainda, que as primeiras aulas desse curso foram pensadas especialmente para possibilitar aos alunos uma compreensão da estrutura da prova de PSS e da importância do espanhol nessa prova. Dessa maneira, atividades foram realizadas para conhecer e
discutir a estrutura da prova do PSS e para refletir sobre a origem da língua espanhola e os países hispano falantes, mostrando aos alunos do projeto, por meio de mapa, todos os países que falam espanhol e tentando demonstrar a proximidade fronteiriça de muitos deles com o Brasil.
Para o planejamento e a condução das aulas, seguiu-se a perspectiva defendida nas Diretrizes curriculares para o ensino de línguas estrangeiras (DCE-PR) (2008), a qual se fundamenta na pedagogia crítica e na teoria dos gêneros textuais.
Com relação à pedagogia crítica, esse documento (p.52) afirma que há a necessidade de se garantir a equidade do tratamento da disciplina de LE em relação às outras do currículo, que é preciso resgatar a função social do ensino e que é necessário respeitar a diversidade, cultural,
identitária e linguística, no ensino da LE.
No tocante à teoria dos gêneros textuais, a DCE-PR (2008, p. 55) postula que todo discurso produzido está relacionado à história e ao mundo social. Sendo assim, todos os sujeitos que interagem e atuam nesse mundo, utilizam o discurso e são por ele afetados. Além disso, para o ensino de LE, fica estabelecido que seu objeto de estudo:
(...) contempla as relações com a cultura, o sujeito e a identidade. Torna-se fundamental que os professores compreendam o que se pretende com o ensino da Língua Estrangeira na Educação Básica, ou seja: ensinar e aprender línguas é também ensinar e aprender percepções de mundo e maneiras de atribuir sentidos, é formar subjetividades, é permitir que se reconheça no uso da língua os diferentes propósitos comunicativos, independentemente do grau de proficiência atingido. As aulas de Língua Estrangeira se configuram como espaços de interações entre professores e alunos e pelas representações e visões de mundo que se revelam no dia-a-dia. Objetiva-se que os alunos analisem as questões sociais-políticas econômicas da nova ordem mundial, suas implicações e que desenvolvam uma consciência crítica a respeito do papel das línguas na sociedade.
Tentou-se, ao abordar a habilidade da leitura, uma relação com o texto que ultrapassasse as limitações de retirada de informações, mas que permitisse ao aluno, minimamente, perceber as diferentes vozes que compunham o texto e construir a compreensão e a interpretação textual, numa interação com o texto, com as professoras e com os colegas de curso.
Outro aspecto da metodologia se refere à orientação das acadêmicas para o desenvolvimento de suas pesquisas a partir da atuação no projeto de extensão. As acadêmicas participantes do projeto já faziam parte de um grupo que estudava teorias a respeito do ensino/aprendizagem de espanhol/LE. Assim, quando ingressaram no projeto e começaram a analisar as provas do PSS e vestibular UEPG no intento de elaborar o material didático para as aulas, sentiram-se instigadas a desenvolver uma pesquisa para tratar essas provas. Esse foi o caminho inicial para a configuração do problema de pesquisa, uma vez que as acadêmicas perceberam certas lacunas nessas provas como, por exemplo, um distanciamento com relação aos fundamentos das DCE-PR (2008) e erros de terminologia nos editais do PSS e do vestibular.
Para o desenvolvimento das duas pesquisas, foram lidos e estudados textos que abordavam concepções de ensino de LEs, metodologias de ensino de LEs, a teoria dos gêneros textuais e, com relação a documentos oficiais do governo para o ensino de LEs, escolheu-se a DCE-PR (2008). Com a realização dessas leituras, iniciou-se uma avaliação das provas e, tanto para a prova do PSS quanto para o de vestibular, constatou-se que é necessária uma revisão das provas para se intensificar o trabalho com os gêneros textuais na perspectiva defendida pela DCE-PR (2008). Essa necessidade estaria relacionada ao fato de se estabelecer um diálogo com o ensino público, o qual, por sua vez, é orientado pela DCE-PR (2008). Além disso, parte-se do pressuposto que a abordagem das provas do vestibular determina sobremaneira o modo como as escolas organizam seus currículos, portanto, provas pautadas na teoria dos gêneros textuais e numa perspectiva da pedagogia crítica poderiam orientar mudanças também necessárias na escola pública. Essa ainda é uma análise dos primeiros resultados interpretativos das provas, pois as duas pesquisas têm mais um ano de desenvolvimento pela frente.
Essa metodologia de aliar a pesquisa e a extensão e não dicotomizar a ação das acadêmicas (ou se faz pesquisa, ou se faz extensão) se firma em pressupostos de uma perspectiva metodológica da lógica dialética da realidade, em que não se separa prática de teoria, mas as une no conceito de práxis, sendo que, conforme explica Pinto (1979, p. 66-67):
(...) não é o pensamento que cria os fatos e os organiza em função de determinações lógicas tiradas de si mesmo. São os fenômenos, em virtude de suas relações intrínsecas, que causam uns aos outros e se exprimem no pensamento em virtude da capacidade que a organização perceptiva do homem possui de captá-los, eles e suas relações, e de produzir representações gerais, abstratas, universais, entre as quais se estabelecem vínculos que refletem as ligações existentes no mundo exterior entre os objetos e os fenômenos.
Além disso, pensando a formação proporcionada pelo curso de Letras da UEPG, que foca a licenciatura, objetiva-se cooperar para a construção da identidade de um professor crítico-reflexivo. Pelo conceito “crítico-reflexivo”, entende-se que a ação do professor se inicia na observação e análise das ações na prática; a partir desse movimento, ele buscará teorias que fundamentem tais ações e possam proporcionar as transformações necessárias; e, por fim, ele se voltará para a prática com o intuito de transformá-la. Portanto, é preciso atuar na formação inicial desse futuro professor de modo que ele conheça instrumentos para observar e analisar a prática, adquira conhecimento teórico e consiga selecionar os pressupostos que fundamentam e possam também modificar a prática quando necessário e, ademais, seja capaz de transformar suas ações.
Assim, a atuação das acadêmicas no projeto, aliada ao desenvolvimento da pesquisa, objetiva a formação de professoras numa perspectiva de pesquisadoras da prática docente e das questões diversas que envolvem os processos de ensino/aprendizagem de uma LE. Fazer extensão com pesquisa, na área do ensino, cooperaria para a formação do que Pimenta (2005, p. 47) chama de intelectuais críticos e reflexivos.
Resultados
No desenvolvimento das atividades do projeto de extensão “Curso Preparatório para PSS-UEPG”, na área de espanhol, tivemos como resultado a elaboração do material didático e o encaminhamento de duas pesquisas. As duas pesquisas ainda estão em andamento e o objetivo delas é analisar as provas do PSS e do vestibular UEPG. Até agora, ambas as pesquisas permitiram concluir que as provas não seguem a teoria dos gêneros textuais como postulada na DCE-PR (2008).
Apesar das pesquisas existirem há menos de um ano, já houve a produção de dois artigos para congresso internacional de educação e encaminhamento de proposta de participação em simpósio na área de ensino de línguas.
Para finalizar, a atuação no projeto possibilitou explorar o conceito de professor crítico-reflexivo e caminhar em direção a uma formação de professores que alie a prática à pesquisa, de forma a construir uma práxis.
Conclusões
A importância do projeto de extensão é a de, primeiramente, estabelecer uma ponte entre a universidade e a sociedade na qual ela se insere. Neste caso, a comunidade pontagrossense pôde se beneficiar da iniciativa de constituição de uma proposta de cursinho preparatório para o PSS e vestibular, que fosse institucional, isto é, uma iniciativa da instituição UEPG.
Acredita-se que essa proposta é fundamental para que a universidade possa orientar os alunos de ensino médio da escola pública para prestarem o PSS e o vestibular e, também, para estabelecer um vínculo da universidade com esses alunos, mostrando que sim, a universidade pública é um espaço para alunos da escola pública, o ingresso deles é bem vindo e esperado.
O projeto de extensão, ainda, permite a participação de graduandos objetivando contribuir para sua formação. Projetos extensionistas, para alunos de Letras, cooperam para a formação pedagógica e, ademais, podem colaborar para a formação na área da pesquisa. A defesa que se faz neste trabalho é que sempre haja extensão com pesquisa. Nessa perspectiva, há um esforço de se configurar práticas crítico-reflexivas e se formar um intelectual crítico e reflexivo para atuar na docência.
Por fim, é importante ressaltar que esse projeto de extensão não foi reeditado, estamos aguardando ainda sua segunda edição para o ano de 2011. Sente-se cada vez mais a necessidade de se criar projetos de extensão na área do ensino, uma vez que se abre um campo de pesquisa para a docência e para a intensificação da formação do futuro professor. Essa oportunidade de uma
formação diferenciada fundamentará a concepção de atuar com pesquisa, possibilitando, assim, a construção da identidade de um intelectual crítico e reflexivo para a docência.
Referências
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
PARANÁ. Diretrizes curriculares da educação básica: língua estrangeira moderna. Secretaria de estado da educação do Paraná, 2008.
PIMENTA, Selma Garrido. Professor reflexivo: historicidade do conceito. In: Professor
reflexivo no Brasil: gênese e crítica de um conceito. São Paulo: Cortez, 2005.
PINTO, Álvaro Vieira. Ciência e existência: problemas filosóficos da pesquisa científica. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.