Poder Judiciário da Paraíba 1ª Vara Mista de Mamanguape
PROCEDIMENTO COMUM CÍVEL (7) 0000870-86.2013.8.15.0231 [Dano ao Erário]
AUTOR: MINISTERIO PUBLICO DO ESTADO DA PARAIBA REU: ISAURINA DOS SANTOS MEIRELES FILHA
SENTENÇA
: EMENTA: ADMINISTRATIVO. IMPROBIDADE EMENTA
ADMINISTRATIVA. PAGAMENTO DE DESPESAS PESSOAIS COM RECURSOS PUBLICOS. VIOLAÇÃO DOS PRINCÍPIOS QUE REGEM A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. CONDUTA ÍMPROBA PREVISTA NO ART. 10, INCISO II, DA LEI N.º 8.429/92. DOLO GENÉRICO NA CONDUTA DA EX-GESTORA. DOSIMETRIA DAS SANÇÕES. OBSERVÂNCIA DOS CRITÉRIOS DA RAZOABILIDADE E PROPORCIONALIDADE. PROCEDÊNCIA EM PARTE DO PEDIDO. 1. Ainda que o contracheque goze de presunção de veracidade, enquanto documento público, esta sucumbe a fatos concretos que a contradigam, sobretudo em casos que se apura improbidade administrativa, nos quais a conduta ímproba geralmente é revestida de uma aparência legítima para não ser descoberta.
2. Aproveitar-se do cargo de Prefeita para utilizar do Erário local e pagar dívida pessoal de pensão alimentícia viola frontalmente os princípios da legalidade, pois não há qualquer amparo legal no desvio da verba pública; impessoalidade, ao utilizar-se da sua função e dos recursos públicos para favorecimento pessoal; e moralidade, adotando conduta diametralmente oposta ao bem comum, que deve ser o norte do comportamento administrativo.
3. Embora não tenha havido um acréscimo direto à sua fortuna, há de se perceber o ganho pessoal indireto ao evitar dispender valores próprios. 4. Na aplicação das sanções previstas no art. 12 da Lei 8.429/92, impõe-se a necessária observância ao princípio da razoabilidade e da proporcionalidade. 5. Procedência em parte do pedido..
Ministério Público da Paraíba propôs Ação Civil Pública por Improbidade Administrativa em face de ISAURINA DOS SANTOS MEIRELES FILHA (ou ISAURINA SANTOS MEIRELES DE BRITO), Ex-Prefeita do Município de Cuité de Mamanguape, alegando que ela teria pago pensão alimentícia ao ex-marido com recursos públicos municipais da Prefeitura de Cuité de Mamanguape.
A promovida apresentou defesa prévia apócrifa (IDs 27775837 - Pág. 49-100 3 27775839 - Pág. 1-9). Intimado o advogado para sanar o vício, o prazo decorreu in albis (ID 27775839 - Pág. 61).
O Ministério público se manifestou, rebatendo as argumentações da demandada (ID 27775839 - Pág. 69-81).
Contestação apresentada, desacompanhada de procuração constitutiva (IDs 27775839 - Pág. 89-100 e 27775840 - Pág. 1-13).
Intimado o advogado para acostar o documento, o prazo decorreu sem manifestação, pelo que foi decretada a revelia (ID 31612103).
A parte ré apresentou contestação nos IDs 27775839 - Pág. 89-100 e 27775840 - Pág. 1-13, sem, contudo, juntar habilitação do advogado.
O Ministério Público deixou transcorrer in albis o prazo par impugnar a contestação (ID 27775840 - Pág. 21).
Instados a indicarem provas a serem produzidas, a promovida não se manifestou (ID 27775840 - Pág. 29), ao passo em que o Ministério Público pugnou pela decretação da revelia e pelo julgamento antecipado da lide (IDs 29602465 e 31850565).
2. FUNDAMENTAÇÃO
2.1 Do julgamento conforme o estado do processo
O processo comporta julgamento imediato, tendo em vista a desnecessidade de produção de outras provas além dos documentos já existentes nos autos. Soma-se a revelia da demandada, que se manifestou por duas vezes no processo de forma deficiente (defesa prévia apócrifa e contestação desacompanhada de procuração) e deixou decorrer in albis os prazos concedidos para sanar os vícios de representação.
Nesta circunstância, sequer é possível considerar válida a constituição de advogado para acompanhar o feito a partir do estado em que se encontra, pois o que levou à revelia foi justamente a falta de representação. Assim, também se mostra incabível a intimação para especificação de outras provas que pretenda produzir.
Nesta senda, entendo desnecessária a expedição de ofício ao Banco Bradesco, (determinado no id 27775839 - Pág. 83), em consonância com a manifestação ministerial, que pugnou pelo julgamento antecipado da lide. As informações que poderiam aportar se mostram inócuas diante dos documentos já existentes e só seriam relevantes para confrontar a versão autoral com a tese defensiva, que não pode ser conhecida diante da revelia decretada.
Com efeito, embora não haja incidência do efeito material da revelia (por tratar de direito indisponível – art. 345, II, do CPC), não há como considerar os argumentos suscitados pela promovida revel em sua defesa, pois não tratam de questões de ordem pública que possam ser conhecidas de ofício pelo julgador. Tratam de versão antagônica àquela constante na inicial, consistindo em fatos impeditivos do direito perquirido pelo autor.
Considerar as alegações da defesa prévia ou da contestação e, ainda, prolongar o procedimento com a produção de prova (expedição de ofício) dispensada pela parte que a requereu inicialmente, seria favorecer a defesa, que permaneceu inerte em todas as oportunidades que teve para regularizar sua
participação no feito. Isto comprometeria o equilíbrio da relação processual e a imparcialidade do órgão julgador, que deve manter-se equidistante das partes. Estas, por sua vez, assumem o ônus de cada comportamento processual adotado.
Registro que não se está tomando como válidas as alegações de fato do autor, que ainda deverão ser provadas pelos elementos contidos no caderno processual, sendo este o significado da não incidência do efeito material da revelia.
Portanto, passo ao julgamento no estado em que o processo se encontra, na forma do art. 355 do CPC. 2.2 Mérito
O cerne do processo é saber se a promovida utilizou de dinheiro público em proveito próprio, empregando-o no pagamento de dívida por pensão alimentícia, quando então Prefeita do Município de Cuité de Mamanguape; e, acaso comprovado o fato, se isto configura alguma das hipóteses de improbidade administrativa trazidas pela Lei nº 8.429/92.
A petição inicial narra que, durante a tramitação do processo de exoneração de alimentos nº 023.2011.000209-6, proposto pela própria promovida em face do ex-esposo Djair Magno Dantas, foram verificados indícios de que ela teria se utilizado de recursos públicos para pagar prestações alimentícias em atraso, correspondentes aos meses de setembro, outubro e novembro de 2010, no valor de R$ 6.900,00. Ademais, estaria presente a possibilidade dela ter realizado todos os pagamentos alimentícios utilizando da mesma fonte indevida. Isto motivou a instauração do procedimento administrativo nº 0006/2012, que instrui a presente ação.
No procedimento administrativo consta cópia da referida ação de exoneração e de uma execução de alimentos intentada pelo ex-esposo anteriormente (nº 023.2010.001689-0).
No primeiro feito, o ex-esposo da promovida alegou, em sua contestação, que o montante dos alimentos em atraso foi pago por meio de ordem de pagamento oriunda diretamente do Município, conforme ofício de id 27775835 - Pág. 35. A promovida reconheceu o fato, tentando justificar que seu salário ficava retido na conta da Prefeitura e de lá era transferida a pensão ao alimentando, acrescentando que a acusação tratava de briga política na qual seu ex-esposo tentava denegrir sua imagem (id 27775835 - Pág. 87). Contudo, não há documento que comprove o procedimento indicado pela parte e não se explica o porquê do acúmulo do que seriam três prestações alimentícias sem realização de depósito mensal em favor do alimentando, sendo todo o quantum transferido de uma só vez justamente quando ela foi cobrada judicialmente.
Já no segundo processo mencionado (execução de alimentos), é a própria demandada quem alega a quitação do débito juntando o mesmo ofício por meio do qual solicita a transferência do dinheiro da conta bancária da Prefeitura para a conta do beneficiário da pensão alimentícia (id 27775837 - Pág. 21), o que corrobora a origem do dinheiro para o adimplemento da obrigação.
Em confirmação, temos o ofício do Banco Bradesco, que informa que a conta bancária nº 530.040-1, agência 2009, de onde saiu o pagamento, é de titularidade da Prefeitura Municipal de Cuité de Mamanguape – CNPJ 01.612.341/0001-80 (id 27775836 - Pág. 77).
Ora, percebe-se que o montante para quitação do débito alimentar saiu da conta da Prefeitura para a conta do exequente, quando deveria ter sido adimplido com recursos próprios da executada. Deveria sair da sua esfera de disponibilidade e não da do Município. Ainda que as prestações normalmente fossem descontadas em folha da sua remuneração, o que se estava cobrando eram parcelas em atraso, em nada dizendo respeito à Edilidade. Logo, não poderia ela dispender recursos públicos para pagamento de dívida pessoal.
Mesmo a afirmação de que a parcela da sua remuneração correspondente à pensão alimentícia era retida na conta bancária municipal não se sustenta. Se assim o fosse, não teria havido o atraso do pagamento das prestações, que seriam repassadas normalmente mês a mês a partir do desconto automático e do cadastro
da conta do alimentando. Acrescente-se que não há qualquer explicação para a falta do repasse mensal por parte da demandada.
Não se duvida que a obrigação alimentícia realmente pudesse ser efetivada mediante desconto em folha, contudo não há evidências seguras deste comportamento e esse ônus era da parte promovida, eis que diz respeito a uma alegação por ela realizada. Ainda que haja contracheques da promovida enquanto Prefeita, com a indicação do desconto (id 27775834 - Pág. 71/75), há o incontroverso atraso do pagamento, que ensejou a execução dos alimentos e deu origem à celeuma aqui discutida, estando comprovado que o débito foi pago com valores que saíram da conta municipal.
Sobre este aspecto, ainda que o contracheque goze de presunção de veracidade, enquanto documento público, esta sucumbe a fatos concretos que a contradigam, sobretudo em casos que se apura improbidade administrativa, nos quais a conduta ímproba geralmente é revestida de uma aparência legítima para não ser descoberta.
Por outro lado, não há confirmação de que esta prática tenha se repetido em outras ocasiões como supõe o Ministério Público ao levantar a “possibilidade da mesma ter se utilizado do erário público para adimplir todos os depósitos mensais devidos ao alimentando desde junho/2010” (id 27775834 - Pág. 7).
As provas existentes limitam-se ao pagamento da quantia de R$ 6.900,00, a título de prestações atrasadas, por meio do ofício dirigido ao Banco Bradesco, havendo um conjunto de elementos que evidenciam a prática da conduta desviada da promovida. Entretanto, não se tem elementos mínimos de que todas as parcelas alimentícias tenham sido pagas com recursos do Município.
Nesse sentido, os únicos outros documentos pertinentes dizem respeito a um extrato bancário do ex-esposo da demanda com a indicação de crédito oriundo da Prefeitura de Cuité de Mamanguape (id 27775835 - Pág. 41), mas que se mostra isolado de outros elementos que o confirmem; e um comprovante de depósito no valor de R$ 690,00, do qual se percebe o CPF da ex-gestora como depositante (id 27775835 - Pág. 37).
Diante deste quadro, tenho que o autor atendeu parcialmente o ônus do art. 373, I, do CPC, trazendo provas suficientes a demonstrar os fatos constitutivos somente quanto ao pagamento indevido de R$ 6.900,00, feito com recursos públicos mantidos na conta bancária nº 530.040-1, agência 2009, Banco Bradesco.
Resta agora averiguar se este comportamento afronta a previsão legal que rege a Administração Pública para saber se configura alguma das hipóteses de improbidade trazidas pela Lei nº 8.429/92 a ensejar sanção.
A base da Administração Pública é trazida no art. 37 da Constituição Federal, com ênfase nos princípios que devem reger o Poder Público, quais sejam, legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Deles decorrem os demais mandamentos que regem o comportamento de qualquer pessoa que desempenhe função pública, do que adveio a Lei nº 8.429/92 como forma de coibir e sancionar condutas extremas praticadas pelos agentes públicos, sobretudo aqueles que importem enriquecimento ilícito. Pelas provas dos autos, o que se conclui é que a conduta da promovida em aproveitar-se do cargo de Prefeita para utilizar do Erário local e pagar dívida pessoal de pensão alimentícia viola frontalmente os princípios da legalidade, pois não há qualquer amparo legal no desvio da verba pública; impessoalidade, ao utilizar-se da sua função e dos recursos públicos para favorecimento pessoal; e moralidade, adotando conduta diametralmente oposta ao bem comum, que deve ser o norte do comportamento administrativo. Ou seja, a promovida desviou-se da função na qual foi investida pela participação popular mais preciosa em nosso ordenamento, consistente no voto direto, sendo uma das maiores honras, mas também responsabilidade em gerir corretamente a res publica em prol do desenvolvimento da sociedade. Ao contrário, ela preferiu orientar-se por seus interesses pessoais, dilapidando o Erário para auferir vantagem econômica com o pagamento de dívida pessoal com recursos públicos, o que caracteriza ato de improbidade administrativa prevista no art. 10, II, da Lei nº 8.429/92:
Art. 10. Constitui ato de improbidade administrativa que causa lesão ao erário qualquer ação ou omissão, dolosa ou culposa, que enseje perda patrimonial, desvio, apropriação, malbaratamento ou dilapidação dos bens ou haveres das entidades referidas no art. 1º desta lei, e notadamente:
(...)
II - permitir ou concorrer para que pessoa física ou jurídica privada utilize bens, rendas, verbas ou valores integrantes do acervo patrimonial das entidades mencionadas no art. 1º desta lei, sem a observância das formalidades legais ou regulamentares aplicáveis à espécie;
Embora não tenha havido um acréscimo direto à sua fortuna, o que poderia levar a supor pela inaplicabilidade desde dispositivo, há de se perceber o ganho pessoal indireto ao evitar dispender valores próprios, preferindo retirar dos cofres públicos o que deveria ser pago com seus recursos pessoais.
Quanto à demonstração do elemento subjetivo caracterizador da improbidade, é necessário esclarecer que o dolo se distingue da má-fé, correspondendo à vontade livre e consciente de praticar determinada conduta, compreendendo, logo, um elemento cognoscitivo (o conhecimento das circunstâncias de fato que propiciariam o resultado) e um elemento volitivo (a vontade livre, não viciada). A propósito, consulte-se:
Repetimos, uma vez mais, que o dolo é o querer do resultado típico, a vontade realizadora do tipo objetivo. (…)
(…) Assim, se quisermos aperfeiçoar um pouco mais a definição do dolo, que formulamos há pouco, e que se extrai da lei, é conveniente conceituá-lo como a vontade realizadora do tipo objetivo, guiado pelo conhecimento dos elementos deste no caso concreto.
Dito de uma forma mais breve, o dolo é uma vontade determinada que, como qualquer vontade, pressupõe um conhecimento determinado. Durante muitos anos alguns autores insistiram no aspecto de conhecimento do dolo, situando nele a sua essência (teoria da representação), enquanto outros acentuavam seu aspecto de vontade pura (teoria da vontade).
Há mais de meio século a doutrina apercebeu-se de que é tão falso que o dolo seja representação como que o dolo seja vontade: o dolo é representação e vontade. Na base da disputa havia um equívoco verbal, como acabaram reconhecendo os seus protagonistas.
O reconhecimento de que o dolo é uma vontade individualizada em um tipo, obriga-nos a reconhecer em sua estrutura dois aspectos em que consiste: o do conhecimento pressuposto do querer e o próprio querer (que não pode existir sem conhecimento). Isso dá lugar aos dois aspectos que o dolo compreende:
a) os aspectos do conhecimento ou aspecto cognoscitivo do dolo; b) os aspectos do querer ou aspecto volitivo do dolo.
(EUGENIO RAÚL ZAFFARONI e JOSÉ HENRIQUE PIERANGELI, Manual de Direito Penal Brasileiro, p. 480/481, São Paulo, Revista dos Tribunais, 2002)
Sabe-se que o ato ímprobo, mais do que um ato ilegal, é a desonestidade do agente público para com a Administração, e, portanto, não prescinde de dolo ou culpa grave, evidenciadora de má-fé, para que se possa configurar. Em consequência, a ilegalidade só adquire o status de improbidade quando a conduta antijurídica fere os princípios constitucionais da administração pública pela má-fé do gestor público. Com esta compreensão, nota-se que está presente o dolo da conduta, porquanto, ciente dos princípios administrativos pelos quais deve ser pautado o administrador público, a ré deliberadamente efetivou um verdadeiro desfalque ao cofre municipal, talvez acreditando tratar de quantia insignificante às contas públicas, mas que não encontra o mínimo amparo legal. Independente da justificativa mental que tenha lastreado sua atitude, resta clara a intenção direta em se beneficiar do Erário, utilizando indevidamente de verba pública para fim pessoal.
O entendimento está em consonância ao posicionamento do STJ, para quem é imprescindível a demonstração do elemento subjetivo, sendo suficiente a prática do ato a título de culpa nos tipo previsto no art. 10 da Lei 8.429/92:
ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. OFENSA AO ART. 1.022 DO CPC/2015 NÃO CONFIGURADA. IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. PRESENÇA DO ELEMENTO SUBJETIVO. REEXAME. SÚMULA 7/STJ. UTILIZAÇÃO DE VERBAS PÚBLICAS PARA
PAGAMENTO DE GASTOS PARTICULARES.
CARACTERIZAÇÃO DE ATO ÍMPROBO. REVISÃO DA DOSIMETRIA DAS PENAS. IMPOSSIBILIDADE REEXAME DE MATÉRIA FÁTICO-PROBATÓRIA. SÚMULA 7/STJ. HISTÓRICO DA DEMANDA 1. Cuida-se, na origem, de Ação Civil Pública por Ato de Improbidade Administrativa proposta pelo Município de São Sebastião/SP contra o ex-prefeito Juan Manoel Pons Garcia, em razão da utilização ilegal de verbas públicas para pagar despesas particulares como refeições, bebidas alcoólicas, vestimentas e produtos de higiene pessoal. 2. A sentença julgou parcialmente procedentes os pedidos para condenar o réu pela prática de atos de improbidade administrativa, obrigando-o a ressarcir o Erário municipal no valor de R$ 46.043,24, (quarenta e seis mil e quarenta e três reais e vinte e quatro centavos), acrescido de juros e correção monetária. 3. O Tribunal paulista, ao dirimir a controvérsia, houve por bem reformar parcialmente a sentença para condenar o réu nas seguintes sanções: a) devolução dos valores utilizados indevidamente; b) suspensão dos direitos políticos por 3 (três) anos; e c) multa civil de 12 (doze) vezes o valor do último subsídio recebido pelo ex-prefeito. AUSÊNCIA DE NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL 4. A solução integral da controvérsia, com fundamento suficiente, não caracteriza ofensa ao art. 1.022 do CPC/2015. (...) PRESENÇA DO ELEMENTO SUBJETIVO 7. O posicionamento do STJ é de que, para que seja reconhecida a tipificação da conduta do réu como incurso nas previsões da Lei de Improbidade Administrativa, é necessária a demonstração do elemento subjetivo, consubstanciado pelo dolo para os tipos previstos nos artigos 9º e 11 e, ao menos, pela culpa, nas hipóteses do artigo 10. É pacífico no STJ que o ato de improbidade administrativa previsto no art. 11 da Lei 8.429/1992 exige a demonstração de dolo, o qual, contudo, não precisa ser específico, sendo suficiente o dolo genérico (REsp 951.389/SC, Rel. Ministro Herman Benjamin, Primeira Seção, DJe 4/5/2011). Assim, para a correta fundamentação da condenação por improbidade administrativa,
é imprescindível, além da subsunção do fato à norma, estar caracterizada a presença do elemento subjetivo. A razão para tanto é que a Lei de Improbidade Administrativa não visa punir o inábil, mas sim o desonesto, o corrupto, aquele desprovido de . Precedentes: AgRg no REsp 1.500.812/SE, Rel. lealdade e boa-fé
Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe 28/5/2015; REsp 1.512.047/PE, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, DJe 30/6/2015; AgRg no REsp 1.397.590/CE, Rel. Ministra Assusete Magalhães, Segunda Turma, DJe 5/3/2015; AgRg no AREsp 532.421/PE, Rel. Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, DJe 28/8/2014. 8. O Tribunal a quo assim apreciou a presença do elemento subjetivo do agente político em relação aos fatos apurados (fls. 1.252-1.255, e-STJ): "As argumentações do Parquet são atestadas pela análise dos comprovantes de pagamento (por exemplo) às fls. 856/913, onde se constata a assinatura do ex-prefeito nas notas fiscais emitidas, o que leva à conclusão de que a utilização inadequada dessas verbas (para fins pessoais) era feita de forma consciente pelo réu desta ação, configurando-se, portanto, o ato de improbidade de prejuízo ao erário público, hipótese tipificada no art. 10 da Lei 8.429/92, razão pela qual o recurso do autor deve ser desprovido". 9. Valeu-se a Corte de origem do quadrante fático que emerge do caso concreto para concluir presente o dolo do agente político na utilização indevida das verbas públicas para fins pessoais, razão , sob pena de pela qual inviável a reanálise do acórdão pelo STJ
ofensa à Súmula 7/STJ. A propósito: AgInt no REsp 1.652.655/SP, Rel. Ministro Francisco Falcão, Segunda Turma, DJe 9/4/2018; AgInt no AREsp 943.769/PB, Rel. Ministro Gurgel de Faria, Primeira Turma, DJe 18/12/2018; AgInt no AREsp 1.184.699/RJ, Rel. Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Turma, DJe 27/9/2018. (...) CONCLUSÃO 13. Agravo conhecido para conhecer parcialmente do Recurso Especial apenas em relação à preliminar de violação do art. 1.022 do CPC/2015 e, nessa extensão, não provê-lo. (AREsp 1527732/SP, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 05/09/2019, DJe 11/10/2019) Portanto, tenho que está suficientemente comprovado o fato que caracteriza o ilícito previsto no art. 10, II, da Lei nº 8.429/92, devidamente revestido da antijuridicidade e do dolo que orientou a conduta, demandado a sanção do art. 12, II, da mesma Lei.
Quanto à punição aplicável, ressalto que as sanções da ação de improbidade administrativa são aplicadas de forma isolada ou cumulativa, conforme o caso o exigir, pela própria redação do art. 12, caput, da Lei nº 8.429/1992:
Art. 12, Parágrafo único. Na fixação das penas previstas nesta lei o juiz levará em conta a extensão do dano causado, assim como o proveito patrimonial obtido pelo agente.
Enunciado n.º 34 das 4ª e 5ª Câmaras Cíveis do STJ. As sanções previstas na Lei Federal n.º 8.429/1992 não são necessariamente cumulativas, cabendo ao magistrado dosá-las de acordo com os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade.
Nesse sentido, dentro dos critérios de razoabilidade e proporcionalidade, há de se considerar que o fato apurado não parece ser rotineiro na vida da demandada, despontando como evento único pelo processo administrativo que instrui o feito, o que ameniza o deslize, apesar de não afastar a responsabilidade, que
se inicia no ressarcimento integral do dano de R$ 6.900,00 (seis mil e novecentos reais) causado ao Erário municipal, consubstanciado no ofício de id 27775835 - Pág. 35.
A perda do cargo ou função pública é também recomendável, seja ele qualquer um que o promovido se encontre no momento do trânsito em julgado do processo, conforme já decidiu a respeito o STJ [REsp 924.439 e EREsp 1701967].
Do mesmo modo, se mostra cabível a suspensão dos direitos políticos, pois o ato decorreu de comportamento direto da promovida em cargo público eletivo, quando deveria desempenhar função política executiva afastada dos seus interesses pessoais e concentrada no bem da coletividade. Contudo, esta suspensão deve ficar no mínimo legal, pois não se mostra tão grave o comportamento.
A multa civil é cabível como forma de compensação pelo prejuízo causado ao Município, pois o ressarcimento, em si, apenas constitui o que deveria ter sido efetivamente gasto pela parte à época, repondo o que faltava. Com isto, aplico a pena de multa em uma vez o valor do dano, qual seja, R$ 6.900,00 (seis mil e novecentos reais), com juros de 0,5% (meio por cento) ao mês e correção monetária pela média do INPC/IGP-DI, desde a prática da improbidade administrativa.
A penalidade de contratar com o poder público ou receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que seja por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio pelo período de 05 (cinco) anos parece inócua, razão pela qual deixo de aplicá-la.
3. DISPOSITIVO
Diante de todo o exposto, com fulcro no art. 10, caput e inciso II, da Lei nº 8.429/92, JULGO PROCEDENTE A PRETENSÃO INICIAL PARA CONDENAR ISAURINA DOS SANTOS , já qualificado nos autos, nas sanções previstas no art. 12, II, da Lei n. 8429/92, MEIRELES FILHA
quais sejam:
RESSARCIMENTO INTEGRAL DO DANO DE R$ 6.900,00 (seis mil e novecentos reais) em favor do Município de Cuité de Mamanguape;
PERDA DO CARGO ou FUNÇÃO PÚBLICA, à época do trânsito em julgado;
MULTA CIVIL DE R$ 6.900,00 (seis mil e novecentos reais) com juros de 0,5% (meio por cento) ao mês e correção monetária pela média do INPC/IGP-DI, desde a prática da improbidade administrativa, em favor do Município de Cuité de Mamanguape;
SUSPENSÃO DOS DIREITOS POLÍTICOS PELO PRAZO DE 5 (CINCO) ANOS.
Deixo de condenar o agente ao pagamento de honorários advocatícios, por ser incabível seu recebimento pelo Ministério Público (RT 729/202, JTJ 175/90).
Custas pela promovida.
Com o trânsito em julgado, calcule-se as custas e intime-se a demandada para efetuar o pagamento, em dez dias, sob pena de remessa dos cálculos para fins de inscrição na Dívida Ativa Estadual.
Providencie-se o cadastramento deste processo na página do Conselho Nacional de Justiça - CNJ na internet, no Cadastro Nacional de Condenações Cíveis por Ato de Improbidade Administrativa.
Publicada a registrada digitalmente. Intimem-se. Cumpra-se.
MAMANGUAPE, 6 de outubro de 2020.
de Direito