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ESTADO DO RIO DE JANEIRO PODER JUDICIÁRIO

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ESTADO DO RIO DE JANEIRO PODER JUDICIÁRIO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO DÉCIMA SEXTA CÂMARA CÍVEL

Apelação Cível nº: 0015254-69.2004.8.19.0001 Apelantes: Eduardo Orione de Assis e outra Apelado: Banco Berj S/A.

Desembargador Eduardo Gusmão Alves de Brito Neto

Apelação Cível. Direito Civil. Sistema Financeiro de Habitação.

Revisão de cláusula contratual. Saldo devedor exorbitante.

Anatocismo. Tabela Price. Reajuste das parcelas pelo PES/CP.

Taxa referencial como índice de correção monetária. Sentença de improcedência. Irresignação dos autores que merece acolhida. 1 – Não há nada de irregular na utilização da Tabela Price, certo de que tal sistema de amortização não induz, por si só, à prática de anatocismo. Autores que, por sua vez, não se desincumbiram do ônus do provar a composição dos juros, mormente quando nenhum quesito ao perito foi formulado nesse sentido. 2 – Atualização monetária do saldo devedor do financiamento que equivale ao índice utilizado para correção dos depósitos em Caderneta de Poupança, que em dado momento passou a ter os rendimentos indexados pela TR.

Legalidade do uso da Taxa Referencial desde que prevista em contrato, hipótese dos autos, ainda que o contrato seja anterior à Lei n.º 8.177/91. Precedentes do Superior Tribunal de Justiça.

3 – Laudo pericial que aponta irregularidade na atualização do

saldo devedor feita pela instituição financeira, já que em

desarmonia com as condições previamente pactuadas no

contrato. 4 – Recurso dos autores parcialmente provido para

reformar a sentença a quo e, por isso, julgar parcialmente

procedentes os pedidos dos autores para fixar o saldo devedor

residual em R$ 17.857,84, corrigidos monetariamente a contar

de junho de 2004, e sem prejuízo dos respectivos juros

moratórios, na forma da cláusula I, § 3º do contrato, bem como

para suspender eventual execução extrajudicial ou leilão, ou

mesmo a inclusão do nome dos autores nos cadastros de

restrição ao crédito enquanto pendente o julgamento desta

ação revisional.

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Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação Cível nº: 0015254-69.2004.8.19.0001, tendo como apelantes Eduardo Orione de Assis e outra e apelado o Banco Berj S/A.

ACORDAM, por unanimidade de votos, os Desembargadores que compõem a Décima Sexta Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, em conhecer do recurso dos autores para dar parcial provimento.

RELATÓRIO

Eduardo Orione de Assis e Myriam Tereza Maio Rios de Assis propuseram ação revisional de prestações e de saldo devedor e repetição de indébito, pela qual pretendem, em razão de contrato de financiamento de compra e venda de imóvel, a suspensão do pagamento da parcela controvertida, a não inclusão de seus nomes nos cadastros restritivos ao crédito, a abstenção do Réu em proceder à cobrança do saldo devedor residual até o julgamento da demanda ou de adotar qualquer medida executiva do débito, a declaração da nulidade da cláusula contratual que prevê a atualização monetária pela TR, utilizando-se o INPC como índice de correção, bem como a declaração de que o saldo devedor atual dos autores é de R$ 3.146,63.

Contestação às fls. 147/158, pela qual o Banco réu

suscitou preliminar de incompetência do juízo cível, em razão do disposto

no artigo 97, inciso I, do CODJERJ. No mérito, aduziu a inaplicabilidade do

Código de Defesa do Consumidor, bem como a legalidade no uso da Taxa

Referencial como fator de atualização monetária. Sustentou também que o

financiamento foi contraído em 180 (cento e oitenta) prestações

reajustadas, anualmente, com base na variação da Unidade Padrão de

Capital – UPC e o saldo devedor corrigido, no primeiro dia de cada trimestre

civil, também na mesma proporção da variação da UPC; que, em razão da

medida cautelar nº 710579-7 proposta pelos autores, juntamente com

outros mutuários, ficou determinado que os reajustamentos das prestações

seriam feitos de acordo com a variação salarial dos mutuários, o que nunca

foi comprovado para a correta apuração dos valores das prestações; que o

saldo devedor remanescente de financiamento é de R$ 26.769,90, e não de

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R$ 3.146,63 como dizem os autores. No mais, alegou estarem ausentes os requisitos essenciais para a concessão da tutela antecipada.

Laudo pericial às fls. 367/369, pelo qual o expert apurou o saldo devedor em R$ 17.857,84.

Pela sentença de fls. 485/489, o juízo a quo houve por bem julgar improcedentes os pedidos, condenando-se os autores ao pagamento das custas do processo e dos honorários advocatícios, estes arbitrados em 10% do valor atribuído à causa.

Inconformados com o julgado, os autores interpuseram o recurso de apelação às fls. 490/498, pelo qual reiteram os argumentos trazidos na inicial, em especial a diferença entre o saldo devedor indicado pela instituição financeira ré e aquele encontrado pelo perito quando da confecção do laudo contábil, bem como o fato de o réu utilizar a tabela price como sistema de amortização, que é uma forma de capitalizar juros compostos disfarçados na prestação. Argumentam que a correção do saldo devedor não poderia ser feita pela TR, mas sim pela INCP, pois além de mais favorável ao consumidor, a Taxa Referencial foi declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal.

Contrarrazões às fls. 502/509.

É o relatório. À douta revisão.

VOTO

Têm razão, em parte, os autores.

Na verdade, considerando a ineficácia da medida liminar

concedida na cautelar, aos mutuários de fato caberia pagar as prestações

de acordo com o índice apontado no contrato. Entretanto, como bem

ressalvou o expert, em trabalho muito bem elaborado, diga-se, o saldo

devedor final de R$ 27.881,38 apontado pela instituição financeira ré está

em desarmonia com as cláusulas contratuais que estabelecem os reajustes

das parcelas, tendo aquele perito chegado à quantia de R$ 17.857,84,

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levando-se em conta exclusivamente as condições de reajustamento das prestações contratadas pelas partes.

E nesse ponto em particular, vale esclarecer que o expert não deixou de aplicar o indexador próprio do contrato para atualizar as prestações de acordo com os índices deste TJRJ. O anexo I indica a variação da UPC para o período contratado, aplicado trimestralmente, como pactuado, até janeiro de 1999, já que a última prestação foi paga em março desse mesmo ano. Assim, fica claro intuir que o perito corretamente encontrou e corrigiu o valor das 180 prestações com base no índice estabelecido em contrato, fazendo uso de outro índice apenas para atualizar o saldo devedor.

Daí já se vê uma diferença de quase 40% entre o valor cobrado e aquele efetivamente devido a merecer a sentença pequeno retoque.

Contudo, o mesmo não vale para a utilização da Tabela Price. Veja-se que não há nada de irregular na utilização do sistema de amortização previsto no contrato de financiamento, certo de que tal tabela não induz, necessariamente, à capitalização dos juros.

Trata-se, na verdade, de tradicional mecanismo de pagamento de dívidas, destinando-se as parcelas iniciais ao abatimento dos juros e as parcelas finais ao pagamento do principal. Isso, por si só, não mostra prática de anatocismo, pois sobre os juros vencidos não devem incidir novos juros.

E, in casu, não tendo sido comprovada a transformação de

capital puro em montante, com nova e indevida incidência de juros, isso sim

vedado, em qualquer hipótese, nos contratos de financiamento habitacional,

não há que se falar na prática de anatocismo. Registre-se que os autores

poderiam, caso fosse de seu interesse, provar a composição dos juros

formulando quesitos nesse sentido ao perito, mas não o fizeram e,

consequentemente, não se desincumbiram do ônus que lhes cabia de

provar eventual afronta às regras que disciplinam o SFH.

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Assim, lícita a utilização da Tabela Price, sendo vedada apenas a capitalização dos juros, sob qualquer peridiocidade, mantém-se o sistema de amortização eleito pelas partes.

No mais, alegam os autores que a atualização monetária do saldo devedor do financiamento seria equivalente ao índice utilizado para correção dos depósitos em Caderneta de Poupança, que em dado momento passou a ter os rendimentos indexados pela TR, o que seria irregular, tendo em vista o decidido pela Suprema Corte na ADI 493-0/DF.

Nesse particular, aliás, esclareça-se que o Supremo Tribunal Federal não afastou a aplicação da Taxa Referencial a todo e qualquer contrato, nem mesmo declarou a sua ilegalidade. O que fez foi estabelecer que a TR não poderia ser aplicada como indexador substituto em contratos celebrados antes da vigência da Lei nº 8.177/91, o que não significa que não possa ser utilizado quando expressamente pactuado que a correção seja feita pelos índices da caderneta de poupança.

Nesse sentido, confira-se o RE nº 175.678, de relatoria do Ministro Carlos Veloso: "I - O Supremo Tribunal Federal, no julgamento das ADIns 493, Relator o Sr. Ministro Moreira Alves, 768, Relator o Sr.

Ministro Marco Aurélio, e 959-DF, Relator o Sr. Ministro Sydney Sanches, não excluiu do universo jurídico a Taxa Referencial, TR, vale dizer, não decidiu no sentido de que a TR não pode ser utilizada como índice de indexação. O que o Supremo Tribunal decidiu, nas referidas ADIns é que a TR não pode ser imposta como índice de indexação em substituição a índices estipulados em contratos firmados anteriormente a Lei 8.177, de 01.03.91. Essa imposição violaria os princípios constitucionais do ato jurídico perfeito e do direito adquirido. C. F., art. 5° XXXVI. II - No caso, não há falar em contrato em que ficara ajustado um certo índice de indexação e que estivesse esse índice sendo substituído pela TR. E dizer, no caso, não há nenhum contrato a impedir a aplicação da TR. Ill - R.E. não conhecido" (STF, RE 175.678, Rel. Ministro Carlos Veloso, j. em 19.11.94, DJU 04.08.95, p.

22.549).

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Ademais, há entendimento reiterado do Superior Tribunal de Justiça no sentido de ser possível a aplicação da TR como fator de correção monetária em contratos de financiamento habitacional:

“(...)Possibilidade da adoção da TR como índice de correção monetária dos saldos devedores dos financiamentos habitacionais, independentemente da data da assinatura do contrato, desde que pactuada a adoção do mesmo coeficiente aplicável às cadernetas de poupança. Precedentes.”

(REsp 985.597/PR, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 01/06/2010, DJe 17/06/2010)

“(...) Em relação à Taxa Referencial, é entendimento harmônico desta Corte no sentido de ser possível a sua utilização como índice de correção monetária nos contratos de financiamento imobiliário em que prevista a atualização das prestações e do saldo devedor pelos mesmos índices da caderneta de poupança, como no caso, ainda que o contrato seja anterior à Lei n.º 8.177/91.”

(AgRg no REsp 581.997/PR, Rel. Ministro Honildo Amaral de Mello Castro (Desembargador convocado do TJ/AP), Quarta Turma, julgado em 16/03/2010, DJe 29/03/2010)

“(...) Ausência de vedação legal para utilização da TR como indexador do saldo devedor do contrato sob exame, desde que seja o índice que remunera a caderneta de poupança livremente pactuado.

Precedentes”.

(AgRg no REsp 826.853/DF, Rel. Ministro Aldir Passarinho Junior, Quarta Turma, julgado em 03/10/2006, DJ 30/10/2006, p. 327)

“(...) O STJ entende que, prevista no contrato a

correção monetária em conformidade com a

remuneração das cadernetas de poupança, é possível

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a utilização da Taxa Referencial, na atualização do saldo devedor e das prestações do financiamento imobiliário”.

(EDcl no REsp 312595/SP, Rel. Ministro Humberto Gomes de Barros, Terceira Turma, julgado em 24/05/2005, DJ 27/06/2005, p. 363)

Se porventura vier a ser adotado outro indexador para correção dos rendimentos das cadernetas de poupança, ficará, evidentemente, afastada a Taxa Referencial e será aplicado o novo indexador, conforme estabelece o contrato objeto desta ação.

Sem mais, e pelas razões acima expostas, meu voto é no sentido de dar provimento ao apelo dos autores para reformar a sentença combatida e, por isso, julgar parcialmente procedentes os pedidos para fixar o saldo devedor residual em R$ 17.857,84, corrigidos monetariamente a partir de junho de 2004, e sem prejuízo dos respectivos juros moratórios, na forma da cláusula I, § 3º do contrato de financiamento, bem como para suspender eventual execução extrajudicial ou leilão, ou mesmo a inclusão do nome dos autores nos cadastros de restrição ao crédito, enquanto pendente o julgamento desta ação revisional.

Considerando a sucumbência recíproca, ficam rateadas as custas do processo e compensados os honorários advocatícios, conforme dispõe o artigo 21 do Código de Processo Civil.

Rio de Janeiro, 23 de maio de 2013.

EDUARDO GUSMÃO ALVES DE BRITO NETO

Desembargador Relator

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