UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ SETOR DE CIÊNCIAS DA SAÚDE
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO DE ENFERMAGEM MESTRADO EM ENFERMAGEM
O PROCESSO DE TRABALHO DA ENFERMEIRA NA CENTRAL DE MATERIAL E ESTERILIZAÇÃO: uma perspectiva tecnológica aos instrumentos
Curitiba 2006
SAMANTA ANDRINE MARSCHALL TAUBE
O PROCESSO DE TRABALHO DA ENFERMEIRA NA CENTRAL DE MATERIAL E ESTERILIZAÇÃO: uma perspectiva tecnológica aos instrumentos
Dissertação apresentada ao Programa de Pós- graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Paraná, como requisito para a obtenção do titulo de Mestre em Enfermagem.
Orientadora:Profª. Drª. Marineli Joaquim Meier
Curitiba 2006
DEDICATÓRIA
Ao meu marido, por ter compartilhado angústias, preocupações e dúvidas. Por ter me incentivado a percorrer este caminho de estudos e não desistir. Por, incondicionalmente, ter permanecido ao meu lado até o fim é que dedico esta conquista a você.
AGRADECIMENTOS
A DEUS, por ter-me dado o presente de desfrutar do estudo, de conhecer pessoas e fazer amigos, por permitir viver os momentos de aprendizado com saúde, serenidade, persistência e fé.
A MINHA FAMILIA, meus pais e irmã, que mesmo distantes se fizeram presentes em telefonemas, com palavras carinhosas de incentivo. Por muitas vezes, terem pronunciado seu orgulho e amor...
AOS MEUS AMIGOS queridos de muitos anos e de todas as horas: Kamila, Oberdan, Dalila e Samuel, obrigada pelos abraços sinceros e telefonemas que me ofereciam apoio e vontade de continuar....
AS AMIZADES que tive a honra e sorte de desfrutar durante este período. Agradeço a aprendizagem que me proporcionam, guardarei em meus pensamentos as conversas na sala de aula e nos corredores, os trabalhos e aprendizados compartilhados e tudo mais....
Em especial, agradeço às minhas amigas de curso: Juliana, Berendina e Rosele, nossa amizade apenas começou. Daqui para frente, contem sempre comigo....
A MINHA QUERIDA ORIENTADORA, para a qual ofereço especiais agradecimentos por seus ensinamentos, competência, paciência, simplicidade e muito, muito mais...
Por muitas vezes lhe disse que a tenho como exemplo profissional e de vida.
Sentirei saudades!
AS ENFERMEIRAS participantes desse estudo e a enfermeira e amiga Soriane, pela valiosa contribuição como profissionais e companheiras de profissão. Agradeço a presença de todas...
AOS PROFESSORES, que realizaram seu trabalho com competência e profissionalismo. Obrigada pelos ensinamentos proporcionados em nossos encontros. Em especial, à Professora Drª Maria Ribeiro Lacerda, que me fez perceber a importância de refletir minha profissão e ter desejo de fazer algo mais...
AO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO DA UFPR, na figura da Professora Drª Maria de Fátima Mantovani, que competentemente, alicerçou esse momento de desenvolvimento profissional.
AO DEPARTAMENTO DE ENFERMAGEM DA UFPR, a todos os professores e funcionários, que me receberam de braços abertos.
Finalmente, A TODOS que, de certa forma, contribuíram à efetivação desse estudo.
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe? Eu só levo a certeza do que muito pouco eu sei, e nada sei...
Cada um de nós compõe a sua história, cada ser em si carrega o dom de ser capaz, de ser feliz...
É preciso amor, para poder pulsar...
É preciso paz, para poder sorrir....
É preciso chuva, para florir...
Almir Sater
RESUMO
Estudo de abordagem qualitativa, do tipo descritivo, que teve como objetivo descrever a percepção de enfermeiras acerca dos elementos do seu processo de trabalho na Central de Material e Esterilização. A fim de subsidiar as reflexões foi construído um referencial teórico alicerçado nos temas: processo de trabalho;
Central de Material e Esterilização (CME) e tecnologia. A amostra foi composta por quinze enfermeiras que haviam atuado, estavam atuando na CME e docentes da área, com experiência superior a um ano nesta. As enfermeiras pertenciam a instituições de saúde da cidade de Curitiba - PR dentre elas hospitais, clínicas, empresas de esterilização e instituições de ensino superior, que foram selecionados intencionalmente. Para a coleta de dados, utilizou-se a entrevista semi-estruturada (quinze sujeitos) e o grupo focal (sete integrantes). Os dados foram analisados segundo a proposta de Análise de Conteúdo, e resultaram na definição de cinco categorias: caracterização dos objetos de trabalho da enfermeira na CME;
instrumentos necessários para o desenvolvimento do trabalho da enfermeira na CME; a enfermeira da CME e a definição da finalidade do seu trabalho;
determinantes/condicionantes do processo de trabalho da enfermeira na CME; o processo de trabalho da enfermeira da CME no grupo focal. A partir da analise dos dados, foi possível perceber e refletir os elementos do processo de trabalho da enfermeira na CME: os objetos são os materiais odonto-médico-hospitalares e a equipe de trabalho; os instrumentos referem-se às tecnologias gerenciais, de cuidado e de ensino e pesquisa; e a finalidade está na qualidade do serviço e da equipe para o cuidado indireto ao paciente. Caracterizam-se como interdependentes e complementares ao processo de trabalho em saúde e influenciados por determinantes/condicionantes do contexto social, histórico, econômico e político. Em seu processo de trabalho, a profissional tem possibilidade de atuar em diferentes dimensões práticas: “gerenciar”, “cuidar”, “ensinar” e “pesquisar” de modo articulado ou não. Indicou-se, ainda, que em sua trajetória profissional, se apropria e recria os elementos do seu processo com vistas a atender particularidades de sua prática e que, por este motivo, as funções que desempenha na CME são peculiares. Os dados também sugerem modificações às funções da enfermeira e a observação da importância de sua exclusividade na coordenação desse setor. Os desafios e contribuições do estudo são pontuados na complexidade do tema e do referencial teórico, e na profundidade da discussão proporcionada pelo grupo focal.
Compreende-se que a prática profissional exige da enfermeira um conjunto de conhecimentos empíricos, científicos e tecnológicos para acompanhar as inovações das organizações de saúde que, conseqüentemente, refletem nos seu processo de trabalho e em sua maneira de ser, pensar e agir. A partir da percepção e reflexão dos elementos de seu processo de trabalho, a enfermeira poderá desenvolver ações condizentes às necessidades de seu setor de atuação, qualificar o seu saber-fazer e, assim, proporcionar visibilidade e autonomia ao seu trabalho.
PALAVRAS-CHAVE: Trabalho; Enfermagem; Administração de materiais de Hospital/ organização & administração; Tecnologia.
SUMMARY
Descriptive-type qualitative boarding Study, that had as its objective to describe the perception of the nurses concerning the elements of their process of work in the Central office of Material and Sterilization. In order to subsidize the reflections it was constructed a theoretical reference on the subjects: working process; Central office of Material and Sterilization (CME) and technology. The sample was composed of fifteen nurses who had acted, were acting in the CME and professors of the area, with more than one-year experience in that. The nurses belonged to health institutions in the city of Curitiba - PR among which there were hospitals, clinicals, sterilization companies and superior education institutions that had been selected intentionally. For the data collection, it was used the semi-structured interview (fifteen subjects) and the focal group (seven integrant ones). The data had been analyzed according to the Content Analysis Proposal, and resulted in the definition of five categories: CME nurse working objects characterization; necessary instruments for the CME nurse working development; the CME nurse and the definition of the purpose of her work; determinants/ conditioners of the CME nurse working process;
CME nurse working process in the focal group. From its analyzes data, it was possible to understand and to reflect about the working process elements of the nurse in the CME: the objects are the odonto-medic-hospital materials and teamwork;
the instruments refer to education and research, care and management technologies;
and the purpose is in the quality of service and of the team for the patient’s indirect care. They are characterized as interdependent and complementary to the health working process and influenced social, historical, economical and political context determinants/conditioners. In her process of work, the professional has the possibility to act in different practical dimensions: “to manage”, “to care”, “to teach” and “to research” in an articulated way or not. It was indicated, yet, that in her professional trajectory, she appropriates and recreates her process elements with views to take care of the particularities of her practice and that, for this reason, the functions that she plays in the CME are peculiar. The data also suggested modifications on the nurse functions and her exclusive importance observation in the coordination of this sector. The challenges and contributions of the study are cited in the theme complexity and theoretical reference, and in the depth of the discussion proportionated by the focal group. It is understood that the professional practice demands from the nurse a set of empirical, scientific and technological knowledge to follow health organizations innovations that, consequently, are reflected in her working process and in her way of being, thinking and acting. From the perception and reflection of her working process elements, the nurse could develop actions regarding the necessities of her branch of acting, quality her know-how, and therefore, to provide visibility and autonomy for your work.
KEY-WORDS: Work; Nursing; Administration of materials of Hospital organization &
administration; Technology.
RESUMÉN
Estudio de abordaje cualitativo del tipo descriptivo, que tuvo como objetivo describir la percepción de enfermeras sobre los elementos de su proceso de trabajo en la Central de Material y Esterilización. A fin de subsidiar las reflexiones fue construido un referencial teórico, basado en los temas: proceso de trabajo; Central de Material y Esterilización (CME) y tecnología. La muestra fue compuesta por quince enfermeras qua habían actuado, estaban actuando en la CME y docentes del área con experiencia superior a un año en esta. Las enfermeras pertenecían a instituciones de salud de la ciudad de Curitiba - PR, entre ellas hospitales, clínicas, empresas de esterilización e instituciones de enseñanza superior, que fueron seleccionados intencionalmente. Para la coleta de datos, se utilizó la entrevista semi- estructurada (quince sujetos) y el grupo focal (siete integrantes) Los datos fueron analizados según la propuesta de Análisis de Contenido, y resultaron en la definición de cinco categorías: caracterización de los objetos de trabajo de enfermería en la CME; instrumentos necesarios para el desarrollo del trabajo de enfermería en la CME; la enfermería de la CME y la definición de la finalidad de su trabajo;
determinantes / condicionantes del proceso de trabajo de la enfermería de la CME;
el proceso de trabajo de la enfermería de la CME en el grupo focal. A partir de la análisis de los datos, fue posible percibir y reflejar los elementos del proceso de trabajo de la enfermería de la CME: los objetos son los materiales odonto-médico- hospitalários y el equipo de trabajo; los instrumentos se refieren a las tecnologías referenciales de cuidado y de enseñanza e investigación; y la finalidad está en la calidad del servicio y del equipo para el cuidado indirecto del paciente. Se caracterizan como independientes y complementarios al proceso de trabajo en salud e influenciados por determinantes / condicionantes del contexto social, histórico, económico y político. En su proceso de trabajo, el profesional tiene la posibilidad de actuar en diferentes dimensiones prácticas: “regentar”, “cuidar”, “enseñar”e
“investigar”. De manera articulada o no. Se indicó aún, que en su trayectoria profesional, si apropia y recría los elementos de su proceso con vistas a atender particularidades de su práctica, y que, por este motivo, las funciones que desempeña en la CME son peculiares. Los datos también sugieren modificaciones a las funciones de enfermera y la observación de la importancia de su exclusividad en la coordinación de ese sector. Los desafíos y contribuciones de los estudios son puntuados en la complejidad del tema y del referencial teórico, y en la profundidad del tema proporcionada por el grupo focal. Se comprende que la práctica profesional exige de la enfermera un conjunto de conocimientos empíricos, científicos y tecnológicos, para acompañar las innovaciones de las organizaciones de salud que, consecuentemente, reflejan en su proceso de trabajo y en su manera de ser, pensar y actuar. A partir de la percepción y reflexión de los elementos de su proceso de trabajo, la enfermera podrá desarrollar acciones que estén relacionadas con la necesidad con su sector de actuación, y así, calificar su saber-hacer.
Palabras-clave: Trabajo, Enfermería, Administración de Materiales de Hospital/
organización & administración; Tecnología
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO...11
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA...21
2.1 O processo de trabalho da enfermeira: uma construção histórica...21
2.2 A Central de Material e Esterilização (CME): história e processo de trabalho da enfermeira...49
2.3 Uma definição tecnológica aos instrumentos do processo de trabalho da enfermeira na central de material e esterilização ...62
3 CAMINHO METODOLÓGICO...72
3.1 Campo e sujeitos do estudo...73
3.2 Coleta de dados...76
3.3 Análise dos dados...84
3.4 Aspectos éticos do estudo...87
4 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS DADOS...89
4.1 CATEGORIAS DA PERCEPÇÃO INDIVIDUAL...90
4.1.1 Categoria 1 – A caracterização dos objetos de trabalho da enfermeira na na CME...90
4.1.2 Categoria 2 – Instrumentos necessários ao desenvolvimento do trabalho da enfermeira na CME...100
4.1.3 Categoria 3 – A enfermeira da CME e a definição da finalidade do seu trabalho ...151
4.1.4 Categoria 4 – Determinantes /condicionantes do processo de trabalho da da enfermeira na CME ...165
4.2 CATEGORIA DA PERCEPÇÃO GRUPAL...174
4.2.1 Categoria 5 – O processo de trabalho da enfermeira na CME no grupo focal ...176
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS...183
REFERÊNCIAS...199
APÊNDICES...214
ANEXOS...218
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
QUADRO 1 – Tecnologias de Enfermagem do processo de trabalho da Enfermeira da CME ...104 QUADRO 2 – Material de estímulo da sessão de grupo focal: Conceitos de processo de trabalho e de seus elementos...177 QUADRO 3 – Material de estímulo da sessão de grupo focal : Síntese das entrevistas individuais...178 FIGURA 1 – Perspectiva grupal do processo de trabalho da enfermeira da CME...182 FIGURA 2 – Uma adaptação aos elementos do processo de trabalho da enfermeira na CME a partir da percepção dos sujeitos...191
1 INTRODUÇÃO
O processo de trabalho da enfermeira1 é parte interdependente do processo de trabalho em saúde, e ambos se inserem em um contexto social, histórico, político e econômico. Por sua vez, este contexto transpõe transformações que determinam e condicionam as políticas e demandas de saúde, o mercado de trabalho e, inevitavelmente, os modos de saber e fazer das práticas profissionais (GELBCKE e REIBNITZ, 2002; SCHOELLER, 2002). Diante disso, Guérin et al. (2004) afirma que o trabalho apresenta um caráter sócio-econômico por fazer parte de uma organização social e econômica de produção.
As modificações pelas quais o processo de trabalho da Enfermagem está suscetível, podem, dentre outros fatores, provir de momentos que marcaram a história, como o período medieval que atribuiu caráter divino aos cuidados das religiosas e o advento da Reforma Protestante no século XVI que desprestigiou a Enfermagem, na época realizada por mulheres de índole duvidosa. Além disso, a Revolução Industrial no século XVIII proporcionou a reforma dos hospitais, o surgimento do modelo clínico2 e de outras profissões, e a absorção e criação de novas tecnologias impulsionada pelo modelo de produção capitalista3 que viu na Medicina, e nos hospitais, um nicho de mercado lucrativo (COLLIÈRE, 1986;
ALMEIDA e ROCHA, 1997; RIZZOTTO, 1999; GEOVANINI, 2002).
Outros acontecimentos pós Revolução Industrial influenciaram, e ainda influenciam, o processo de trabalho da saúde e da enfermeira como, por exemplo, o surgimento do neoliberalismo4 a partir da década de 70 e a globalização5, que
____________
1. Enfermeira: termo escolhido no feminino devido à predominância deste sexo na profissão e na pesquisa.
2.Modelo clínico ou biológico, caracterizado pela especialidade, parcelamento do homem, ênfase nos aspectos clínicos do processo saúde-doença, no qual o médico domina o processo de trabalho em saúde (PIRES, 1998; RIZZOTTO, 1999).
3. O modelo de produção capitalista centra-se no capitalismo, um regime econômico que desenvolve meios de produção, operado por trabalhadores e fundamentado na empresa privada e liberdade de mercado (BORON; GENTILI (orgs.), 2000).
4. Estrutura ideológica/política que acompanha mudanças do capitalismo e caracterizada pela privatização, controle de gastos, elevação de taxas de juro e desemprego. Receitas econômicas e programas políticos sugeridos nos anos 70, conectado à nova dinâmica tecnológica e gerencial, que influenciou as finanças e competitividade dos mercados (SADER; GENTILI, 2000).
5. Entendo por globalização o processo caracterizado pelo desenvolvimento da tecnologia e avanços de diferentes áreas (economia, sociologia, biologia, gestão, etc), que vêm afetando os processos de trabalho e as estruturas das organizações por meio da modernização e (re)elaboração de teorias econômicas e sociais (NETO; LIBERAL, 2004).
provocaram mudanças nas organizações de saúde, no aumento da incorporação de tecnologia e na qualificação dos serviços e dos recursos humanos. Até os dias de hoje, tais mudanças se mostram imprescindíveis às organizações que desejam permanecer competitivas no mercado de produção de serviços de saúde.
Por sua vez, as mudanças do contexto histórico, social, político e econômico respondem, dentre outras coisas, às demandas do mercado de trabalho atual e ocorrem em uma velocidade espantosa que atinge as profissões de saúde e suas práticas. Muitas instituições e serviços de saúde desenvolvem práticas que buscam diagnósticos e terapêuticas de qualidade6, por meio da incorporação de equipamentos, materiais e conhecimentos científicos, qualidade de atendimento e redução de riscos aos seus clientes, objetivando otimização e competitividade pela superação de suas expectativas (TRONCHIN; MELLEIRO; TAKAHASHI, 2005).
Como conseqüência, a competitividade acarreta modificações no trabalho da enfermeira, que busca aperfeiçoamento, habilidades e reflexão de suas práticas à construção de um perfil que exige uma profissional polivalente e multifuncional (CORNETTA, 2002; FELLI; PEDUZZI, 2005). Ao refletir a respeito de seu trabalho, como parte de um contexto social, a enfermeira percebe a necessidade de ações criativas, eficazes, eficientes e de qualidade, que conduzam ao atendimento das reais necessidades de cuidado dos pacientes7, além do alcance dos interesses da organização na qual desenvolve suas práticas de cuidado.
Porém, a rápida inovação tecnológica científica8 absorvida pelas organizações de saúde e, respectivamente, pelos que nelas atuam, revela aspectos negativos ao seu trabalho como, por exemplo, crises na organização dos seus saberes, identidade profissional, condições de trabalho, de vida e de percepção a respeito do que, como e para que o trabalho está sendo desenvolvido. De acordo com ____________
6. Na saúde a qualidade corresponde a um conjunto de atributos ao alcance de um nível de excelência profissional e satisfação do paciente, no uso eficiente de recursos com o mínimo de riscos a ele. A qualidade é avaliada a partir da estrutura, processo e resultado e tem como pilares a eficácia, eficiência, efetividade, otimização, aceitabilidade, eqüidade e legitimidade (DENSER, 2003;
TRONCHIN; MELLEIRO; TAKAHASI, 2005).
7. Termos como paciente, cliente e usuário foram mencionados pelos sujeitos desse estudo ao se referirem aos indivíduos que procuram as instituições em que trabalham para receberem atendimento de saúde. Diante disso, estes termos estarão permeando a construção desse estudo, sem padronizá- los a partir da escolha de um deles, com o objetivo de preservar a originalidade das falas dos sujeitos.
8. A expressão diz respeito a transformações de caráter tecnológico que incidem sobre os processos de produção e seus produtos, se relacionam a progressos técnicos e mudanças tecnológicas nos processos de produção por meio da aplicação e transformação de conhecimentos técnicos e científicos à produção e comercialização de produtos, com vistas ao lucro (CASTILHOS, 2002).
Gelbcke e Reibnitz (2002) o tempo está em uma constante transformação direcionada às pessoas em um ritmo frenético e, muitas vezes, estas transformações se articulam nas mais diferentes áreas de forma imprevisível e nem sempre positiva.
Dessa maneira, as transformações mediadas pelo contexto social, quando assimiladas inadequadamente, podem confundir, dissociar e fragilizar as ações das profissões, inclusive da Enfermagem e, a partir daí, fazer surgir uma incoerência entre a teoria e a prática. Em contraponto, quando assimiladas de modo positivo, instigam a reflexão dos profissionais em torno de seus discursos e práticas, servindo como ‘molas propulsoras’ para novas ações e maneiras ao seu saber e fazer.
Diante disso, percebo que acontecimentos sociais influenciam o processo de trabalho da enfermeira como sinais de um tempo que, de certo modo, definem e delimitam caminhos a ser seguidos pelos elementos e pessoas envolvidas neste processo. Retratar o trabalho no contexto sócio-econômico em que se encontra é, também, demonstrar que em seu desfecho existem determinantes e condicionantes históricos, sociais, econômicos, culturais, políticos, científicos e tecnológicos. Nesse sentido, deve ser visto como dinâmico, mutável e sensível a oscilações e movimentos da sociedade (GELBCKE; REIBNITZ, 2002). A respeito desse aspecto, Almeida e Rocha (1997, p.24) enfatizam que: “Conseqüentemente, as circunstâncias fazem os homens, da mesma forma que os homens fazem as circunstâncias”.
No decorrer de sua trajetória histórica, a Enfermagem vivenciou modificações e mostrou dinamicidade nas ações de muitas enfermeiras, que trilharam novos caminhos na criação e aplicação de conhecimentos. Nestas ações, as profissionais deram origem a procedimentos, sistematizações e teorias que instrumentalizaram o saber e o fazer da profissão, embasados em conhecimentos científicos advindos da necessidade de resolver problemas da sua realidade prática, o que foi iniciado por Florence Nightingale (1820-1910) no século XIX, e impulsionou a profissionalização da Enfermagem no mesmo período (GEOVANINI, 2002).
O trabalho da Enfermagem é considerado uma prática social, por encontrar- se articulada a outras práticas de saúde e estar integrada a instituições prestadoras de serviços de saúde de caráter coletivo, pois suas ações são compartilhadas com outros profissionais de saúde. O seu caráter coletivo o insere no processo de trabalho de saúde produtor de bens não comercializáveis, pois seus produtos ou
serviços são consumidos no ato em que são produzidos (KIRCHHOF, 2003; FELLI;
PEDUZZI, 2005).
Felli e Peduzzi (2005) acrescentam que cada trabalho desenvolvido no processo de trabalho em saúde, seja ele da Enfermagem, Medicina, Nutrição, Fisioterapia ou outro, é identificado como meio à realização do trabalho em saúde.
Porém, cada profissão apropria-se dos elementos do processo de trabalho em saúde (objeto, instrumentos e finalidade) para criar o seu próprio, com vistas a atender as especificidades de sua prática.
Ao investigar o processo de trabalho da enfermeira, observo que é teórico e prático, interdependente e complementar ao trabalho da saúde, caracterizado por um conjunto de elementos (objeto, instrumentos e finalidade) adaptado às especificidades da profissão, ou seja, apresenta-se de um modo próprio e peculiar (PIRES, 1998; LEOPARDI, 1999).
Os elementos do trabalho se articulam à medida que as ações desenvolvidas atuam sobre um determinado objeto por meio de instrumentos, que trarão resultados a uma finalidade específica. Este processo depende de pessoas e das relações que estabelecem entre si e seu ambiente de trabalho, e por meio dele a enfermeira é capaz de produzir e reproduzir sua existência (CAPELLA 1996; ALMEIDA; ROCHA, 1997; LEOPARDI,1999a; ARGENTA; PIRES, 2000; MATOS; PIRES, 2002).
Ao enfocar os elementos do processo de trabalho, destaco os instrumentos, ou seja, o “como” da prática da enfermeira, para o qual vários sinônimos foram encontrados, como meios, recursos, métodos, caminhos, formas, jeitos. Não obstante, identifico-os como tecnologias utilizadas no processo de trabalho da enfermeira e, neste panorama, as tecnologias de Enfermagem se caracterizam por algo a mais do que equipamentos e recursos materiais. Gonçalves (1994), Merhy (1997), Cecílio (1997), Faria (1999) e Meier (2004) entendem que a tecnologia vai além dos objetos e equipamentos, pois também envolve o uso de saberes estruturados para orientar ações e alcançar a finalidade proposta no trabalho.
Nesse sentido, proponho que as tecnologias de Enfermagem sejam entendidas como um conjunto de saberes (conhecimentos, reflexões) e fazeres (materiais, equipamentos, metodologias de trabalho, comunicação) que envolvem as dimensões do seu processo de trabalho e que podem ser classificadas, conforme Merhy (1997) como leves (relações, vínculos), leve-duras (saberes organizados) e duras (equipamentos, normas, estrutura organizacional). E, ainda, conforme Meier
(2004), a tecnologia pode ser de materiais e equipamentos, atividades humanas e profissionais.
Diante disso, apreendo que o processo de trabalho da enfermeira envolve a articulação de um conjunto de elementos que caracterizam o saber e fazer dessa profissional que mantém uma intrínseca e interdependente relação ao processo de trabalho em saúde. Além disso, acrescento que alguns autores concebem que o trabalho da enfermeira possui dimensões práticas: o cuidar, o educar e o gerenciar que transformam o ser, o saber e o fazer da profissão (CAPELLA 1996; LEOPARDI, 1999; LEOPARDI; GELBECKE; RAMOS, 2001; KIRCHHOF, 2003).
Além dessas dimensões, Felli e Peduzzi (2005) acrescentam a dimensão pesquisar, presente no cotidiano das enfermeiras e por meio da qual ela tem a possibilidade de refletir sua prática e observar fenômenos de seu cotidiano com vistas a modificar sua realidade. Aponto que a percepção da existência da dimensão da pesquisa, observada pelas autoras citadas anteriormente, também se faz presente em minha prática profissional9 atual.
Desse modo, as dimensões práticas do fazer da enfermeira permitem-lhe atuar em diferentes organizações de saúde, dentre elas clínicas, hospitais e instituições de ensino e pesquisa, que são compostas por diversos setores. A Central de Material e Esterilização (CME) é um desses locais e se caracteriza como um setor de serviços de saúde, inserido ou não em uma organização de saúde, devido à possibilidade de existir como uma empresa independente, prestadora de serviços de esterilização. É um ambiente de alta concentração de equipamentos e materiais, que apresenta um processo de trabalho específico, no intuito de contribuir à qualidade dos serviços prestados por suas unidades consumidoras10, por destinar- se a oferecer materiais esterilizados em condições seguras de uso (POSSARI, 2003; SILVA; BIANCHI, 2003; TONELLI; LACERDA, 2005).
Para tanto, necessita incorporar inovações tecnológicas científicas para qualificar o atendimento de saúde e, principalmente, para auxiliar o controle e redução de riscos relacionados às infecções (ARGENTA; PIRES, 2000). Diante ____________
9. Como enfermeira, atuei um ano em unidade básica de saúde, quatro anos em clínicas especializadas, no setor de Centro Cirúrgico e Central de Material e Esterilização e dois anos como professora de um curso técnico de enfermagem. Atualmente, dedico-me à pesquisa, como bolsista do Curso de Mestrado da Universidade Federal do Paraná –UFPR.
10. Unidades consumidoras: setores das instituições de saúde que consomem, que fazem uso dos materiais (produtos) produzidos na CME (SOBECC, 2005; HOUAISS, 2004).
dessa necessidade, a enfermeira busca transformar e ampliar caminhos antigos por meio da aplicação de saberes e fazeres no intuito de atingir suas finalidades e garantir a qualidade, ao mesmo tempo em que tenta manter-se presente no mercado de trabalho da atualidade. Isso indica a presença de determinantes e condicionantes ao processo de trabalho da CME, acrescido da necessidade de acompanhar as mudanças do contexto social, político, econômico e histórico no qual está inserido.
Diante das informações mencionadas anteriormente, a contextualização do processo de trabalho da enfermeira instigou buscas pessoais acerca da temática, tendo como base a realidade do cenário em que a profissão está implantada: de mudanças, questionamentos, reflexões à definição de seu objeto de trabalho, instrumentos que o circundam e finalidade a que se destina.
Destaco que a importância de conhecer a prática da enfermeira, no significado de seu processo de trabalho e dos elementos que o compõe, está em compreender o quê, para quem, como e por que as ações são desenvolvidas e, a parti daí, adaptar tais elementos às diferentes práticas, de modo a torná-los condizentes à realidade. Esta reflexão apresenta-se como um exercício a ser realizado por todas profissionais que desejam perceber os contornos de sua prática.
A escolha do objeto de estudo partiu de reflexões a respeito dos conhecimentos adquiridos na graduação, na prática profissional, desenvolvida em Centros Cirúrgicos e Centrais de Materiais e Esterilização (CME) ambulatoriais, e no contato com as disciplinas do Curso de Mestrado em Enfermagem, realizado atualmente. Em minha formação acadêmica pouco foi abordado a respeito da área de CME, o estágio foi curto e assimilado como algo moroso, dispensável e que não agregava conhecimentos. Entrar em uma CME era uma “perda de tempo”, pela concepção incorporada ao trabalho desenvolvido (tecnicista, rotineiro e repetitivo) e pela ausência da profissional enfermeira no setor.
Depois de formada, vivenciei situações que compeliram reflexões acerca do processo de trabalho da enfermeira neste setor. Tive a oportunidade de atuar em uma Unidade Básica de Saúde, na qual encontrei dificuldades em gerenciar o processamento de materiais odonto-médico-hospitalares para o cuidado em saúde, dentre elas, a ausência de recursos físicos e materiais e a inexperiência com as atividades.
Um tempo depois, ao atuar em um Centro Cirúrgico e Central de Material e Esterilização de uma Clínica Oftalmológica, precisei de dedicação e estudos para compreender o trabalho desenvolvido no setor, o que, aos poucos, também me auxiliou a perceber a sua importância, sua dimensão e a responsabilidade de gerenciá-lo.
Ao longo do tempo, observei que o trabalho realizado no setor abrangia muito mais do que receber, limpar, acondicionar, esterilizar, guardar e distribuir artigos, e
“lidar” com equipamentos de complexa tecnologia. Desenvolvia educação em serviço, monitorização de processos, participava da aquisição e testes de produtos e materiais, além da parceria com a Comissão de Controle de Infecção Hospitalar.
Visualizei que as atividades desenvolvidas na CME repercutiam em diferentes setores da instituição, pois todos dependiam do adequado processamento de artigos realizado pelo setor. Assim, o fato do trabalho da CME ser relegado a segundo plano pela equipe de saúde da instituição foi algo transformado com a visibilidade das atividades realizadas.
A CME se caracteriza como uma área de atuação peculiar da enfermeira que exige uma gama de conhecimentos que podem advir de reflexões, pesquisas, estudos e experiências ocorridas no desenrolar de seu processo de trabalho. Cruz e Soares (2003) afirmam que o trabalho da enfermeira na CME é, também, fruto de experiências cotidianas e que exige conhecimentos empíricos, científicos e tecnológicos. Esta ultima questão, da exigência de conhecimentos tecnológicos, instigou o desejo de aprofundar a dimensão do significado da palavra ‘tecnologia’ ao trabalho da Enfermagem na CME, o qual foi solidificado em uma aula da disciplina
“Enfermagem e a Prática Profissional” do curso de Mestrado da Universidade Federal do Paraná (UFPR), na qual uma nova concepção de tecnologia à Enfermagem foi apresentada.
A partir daí, foram realizadas leituras de conhecimentos divulgados em meios científicos a respeito do processo de trabalho da Enfermagem, da tecnologia e da CME. Nestas, alguns autores destacaram a necessidade de aprofundar essas temáticas em suas reflexões, dentre os quais estão Cruz e Soares (2003), Souza e Ceribelli (2004) e Tonelli e Lacerda (2005) que estudam o trabalho da CME; Pires (1998); Leopardi (1999); Pereira (2001); Kirchhof (2003) e Fracolli e Granja (2005) que abordam aspectos do trabalho e seu processo; e Gonçalves (1994), Merhy
(1997), Faria (1997) e Meier (2004), que estudam a temática da tecnologia, além de outras referências.
Dentre os conhecimentos divulgados a respeito das temáticas em meios científicos, destaco alguns. Um deles corresponde a um estudo retrospectivo dos conhecimentos produzidos em Central de Material e Esterilização realizado por Cruz e Soares (2003, p.95), no qual relatam: “[...] evidenciamos a ausência de estudos voltados para os aspectos subjetivos da experiência da prática vivenciada pelos trabalhadores dessa área”.
As autoras comentam a evidência de um número reduzido de conhecimento produzido pelas enfermeiras desse setor, fato que foi observado na revisão de literatura. Tonelli e Lacerda (2005, p.31), indicam que a enfermeira da CME deve questionar o trabalho que desenvolve no setor, com o intuito de se tornar: “[...] porta- voz de idéias, valores, padrões e juízos que impliquem a consciência da atual forma de relações sociais em CME e direcionem novas necessidades de produção e de qualificação da assistência à saúde”.
Em outro estudo, que trata um levantamento bibliográfico desenvolvido por Fracolli e Granja (2005) com o objetivo de identificar como a Enfermagem brasileira tem abordado a categoria “processo de trabalho” para analisar a sua prática, foi constatado que a produção de artigos acerca do tema é pequena frente ao montante de artigos produzidos nos periódicos pesquisados.
De modo similar, Pires (1998, p.19) destaca que: “[...] apesar das especificidades do processo de trabalho em saúde e da sua importância para a sociedade, a teorização sobre ‘o trabalho em saúde’ é relativamente pequena”.
Nesse sentido, Gelbcke (2002) salienta que devido às mudanças ocorridas no mundo do trabalho e da Enfermagem, pesquisas estão surgindo no intuito de aprofundar discussões acerca do processo de trabalho da enfermagem.
Com relação à justificativa de aprofundar estudos direcionados à temática das tecnologias de Enfermagem, destaco as reflexões de Meier (2004), que sugere rever saberes e fazeres da profissão e aponta que ao compreender a tecnologia como essencial à sua prática, a enfermeira será induzida a retomar o entendimento do seu processo de trabalho. Diante de tais afirmações, o estudo dos elementos do processo de trabalho da enfermeira na CME possibilitará compreender a inserção da tecnologia nesse processo.
A partir do exposto, a pergunta norteadora que direcionou esse estudo foi:
“Qual a percepção11 das enfermeiras acerca dos elementos do seu processo de trabalho na Central de Material e Esterilização?”.
No intuito de responder essa questão, o objetivo geral foi descrever a percepção de enfermeiras acerca dos elementos do seu processo de trabalho na Central de Material e Esterilização por meio de uma abordagem individual e grupal.
Os objetivos específicos estão em conhecer a percepção das enfermeiras acerca dos elementos do seu processo de trabalho na Central de Material e Esterilização e proporcionar a reflexão a respeito dos elementos do seu processo de trabalho na Central de Material e Esterilização.
O presente estudo encontra-se estruturado em quatro capítulos. O primeiro é a introdução, ora apresentada. O segundo trata da fundamentação teórica, que se mantém alicerçada em leituras e reflexões apresentadas em três seções: o processo de trabalho da enfermeira: uma construção histórica; Central de Material e Esterilização (CME): história e processo de trabalho da enfermeira; e uma definição tecnológica aos instrumentos do processo de trabalho da enfermeira na central de material e esterilização.
A seção intitulada o processo de trabalho da enfermeira: uma construção histórica, aborda o conceito de elementos do processo de trabalho e um breve histórico do processo de trabalho de saúde e da Enfermagem, ressaltando alguns momentos importantes para a profissão e os determinantes e condicionantes que atuam na sua evolução.
A seção apresentada como Central de Material e Esterilização (CME): história e processo de trabalho da enfermeira, apresenta um breve relato histórico do setor, da inserção da enfermeira e do seu processo de trabalho. A ultima seção do segundo capítulo identificada como uma definição tecnológica aos instrumentos do processo de trabalho da enfermeira na central de material e esterilização, traz o conceito de tecnologias de Enfermagem e a sua inserção na CME. O terceiro capítulo trata do caminho metodológico percorrido e o quarto capítulo, apresenta a análise e discussão dos dados, seguida das considerações finais, referências e dos anexos e apêndices.
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11. Entendo por percepção a capacidade do ser humano em apreender algo por meio de sua mente ou seus sentidos (HOUAISS, 2004).
Acredito que esse estudo possa contribuir à melhoria da qualidade do processo de trabalho da enfermeira na CME, à medida que instigará reflexões a seu respeito e, quem sabe, modificará o seu cotidiano.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Este capítulo compreende a apresentação de aspectos históricos do processo de trabalho da Enfermagem e da enfermeira e seus elementos — objeto, instrumentos e finalidade. Na seqüência, a Central de Material e Esterilização (CME) em sua história, processo de trabalho e inserção da enfermeira no setor. Por fim, a relação da tecnologia com o processo de trabalho da enfermeira na CME.
2.1 O PROCESSO DE TRABALHO DA ENFERMEIRA: UMA CONSTRUÇÃO HISTÓRICA
História do Processo de Trabalho da Enfermagem
A Enfermagem, ao longo de sua trajetória, vem sendo conceituada de diferentes maneiras, como uma prática que utiliza saberes de outras ciências e uma síntese própria destes, com vistas a atender necessidades de saúde do indivíduo, visualizadas na promoção da saúde, prevenção e recuperação das doenças do indivíduo, por meio do cuidado. Como trabalho e prática social, utiliza conhecimentos e habilidades específicas, construídas e organizadas na divisão social e técnica do trabalho da saúde, com o objetivo de manter, dar continuidade e reparar obstáculos à vida, buscando visualizar o indivíduo como sujeito de sua existência, universal, concreto e singular (CAPELLA, 1996; ALMEIDA; ROCHA, 1997).
Lacerda (1998) interpretou a Enfermagem como um ser, estar, pensar, fazer, acontecer, transformar, uma disciplina, uma ciência e uma arte inserida em um mundo sujeito a transformações. Uma disciplina acadêmica, que necessita de conhecimento científico; uma ciência básica, aplicada e prática e uma arte por utilizar conhecimentos científicos com vistas a atender seus fenômenos de interesse na prática. Profissão praticada entre uma equipe composta de enfermeira, técnica e auxiliar de Enfermagem, regida por uma legislação para o seu exercício profissional.
A compreendo como uma profissão que utiliza saberes para subsidiar suas práticas, como uma forma de ser, fazer, pensar e transformar em seus ambientes de trabalho e de interagir, dialogar e modificar os seres humanos com quem estabelece relações nestes ambientes por meio do cuidado. Apresenta respaldo legal e mantém
um exercício profissional que determina sua composição em enfermeiras, auxiliares e técnicas de Enfermagem, como profissionais habilitadas para desenvolver atividades sob uma divisão social e histórica de trabalho. É uma profissão inserida em um contexto econômico, político, social e cultural que determina suas práticas e condiciona seu processo de trabalho. Este processo, por sua vez, apresenta dimensões de atuação visualizadas no cuidado, na gerência, na pesquisa e no ensino e elementos (objeto, finalidade e instrumentos) que se articulam e o compõe.
Ao pensar nos elementos do processo de trabalho na Enfermagem, percebo que esta se apropriou, ensinou, transformou, criou e recriou técnicas, enunciou princípios científicos, teorias e implementou metodologias de trabalho para incluir-se na organização social e econômica. Atualmente, também busca aproximar-se de seu objeto e finalidade, concomitantemente com as tentativas de responder às exigências do mercado de trabalho, que influenciam a sua prática profissional.
A profissão tem incorporado, ao seu fazer, novas concepções para atualizar suas práticas e atender as demandas de saúde que surgem. Busca uma definição de seu objeto de trabalho e necessita de profissionais responsáveis ao seu saber- fazer, que sejam competentes e éticos (MEIER, 2004).
Similarmente, Pereira (2001) aponta que a profissão exerce suas ações a partir de saberes próprios que finalizam transformar o processo saúde-doença da coletividade por meio de processos de trabalho – assistencial, administrativo, de ensino e de pesquisa. Compõe a área de prestação de serviços de saúde que está alicerçada em um modelo de saúde político hegemônico regido pelas políticas de saúde. Outrossim, a autora ressalta que o trabalho, sempre tema central na vida das comunidades, limita-se às condições estabelecidas pelo contexto no qual está inserido.
Assim, o processo de trabalho da enfermeira é determinado, porém dinâmico.
Sua dinamicidade, visualizada em sua transformação ao longo dos anos, resulta de buscas e construções de maneiras de processar o trabalho, e é passível de reflexões, análises e proposição de novas idéias. Assim, falar do trabalho remete repensar a sua prática, e isto faz emergir sentimentos e lembranças do “jeito” de fazer a profissão.
Por sua vez, esse processo encontra-se vinculado ao da saúde, como um conjunto de atividades coletivas, complementares e interdependentes a este, a partir do qual a enfermeira se apropriou e recriou o seu trabalho sob uma nova forma,
modelada conforme suas especificidades (ALMEIDA; ROCHA, 1989; CAPELLA, 1996; PIRES, 1998; KIRCHHOF, 2003). Sob o mesmo ponto de vista, Schoeller (2002, p.159) diz que: “[...] a inserção de cada profissão no processo de trabalho em saúde decorre, entre outras questões, do modo com essa se apropria da, e recria a finalidade do processo de trabalho em saúde”.
Além disso, enfatizo a constatação de que o trabalho sofre modificações advindas do contexto em que está inserido. Nesta perspectiva, os momentos históricos servem como testemunhas a confirmar a existência de transformações aos processos de trabalho por meio de determinantes e condicionantes.
A apreensão do significado das palavras condicionante e determinante permitiu a reflexão de alguns aspectos da trajetória histórica vivenciada pela Enfermagem e resgataram a existência de fatores influenciadores do processo de trabalho da enfermeira. Considero que uma condição refere-se à maneira de ser de uma pessoa ou de uma coisa, é uma circunstância de que as pessoas dependem, um estado favorável ou desfavorável, uma situação ou oposição na sociedade.
Quando algo é condicionado corresponde que é submisso a certas condições, e o
“condicionador” traduz o que regula a existência ou o comportamento de algo ou alguém (HOUAISS, 2004).
A palavra determinante designa o que determina, e determinar é indicar, fixar com precisão. Ainda, é aquilo que é decisivo, que estabelece e demarca limites, que é causa de (HOUAISS, 2004). Por perceber a proximidade dos conceitos de determinante e condicionante, passo a os considerar, nesse estudo, como um único termo: indicadores causais da maneira de ser, estar e fazer da Enfermagem.
Compreendo que as mudanças e a dinamicidade do trabalho da enfermeira advieram da necessidade de acompanhar as demandas de saúde da população e do mercado de trabalho, bem como de tentativas de solucionar problemas e obstáculos de sua prática e ensino.
Marx (1987) apontava, no século XIX, as conseqüências da evolução do processo de trabalho como uma metamorfose que transforma, evolui, avança, mas que também traz à arena do trabalho questões controversas, passíveis de interrogações e dúvidas. Atualmente, alicerces do cenário histórico-político-social estão nos avanços tecnológicos, da ciência e seus paradoxos e na produção de bens e serviços (originada do sistema capitalista) que influenciam e dinamizam as
práticas de saúde, direcionam a organização dos serviços de saúde e condicionam o seu trabalho e, conseqüentemente, o da Enfermagem.
Leituras a respeito da evolução e da história do trabalho da enfermeira permitem afirmar que suas práticas foram, são e sempre serão determinadas e condicionadas por fatores históricos, políticos (econômicos), sociais e culturais, o que torna sua estruturação dependente do contexto em que estão implantadas.
Vários fenômenos e acontecimentos históricos determinaram formas, modelos e sistematizações que condicionaram as práticas e os saberes da Enfermagem e, por conseqüência, refletiram em sua visibilidade e imagem social, em seu reconhecimento e valor econômico de trabalho, em sua dependência ao modelo biomédico, dentre outras coisas.
A existência e identificação de determinantes/condicionantes no processo de trabalho da enfermeira são confirmadas nas palavras de Peduzzi e Ciampone (2005), que apresentam relações entre o trabalho dos profissionais de saúde e o contexto do qual faz parte, refletidas nos processos de gestão e estruturas organizacionais, que são permeáveis a influências externas.
Além disso, destaco reflexões de diversos autores como Collière (1986), Machado (1995), Passos (1996), Rizzotto (1999), Geovanini (2002) a respeito da relação do trabalho da Enfermagem com o contexto em que se encontra. Os autores enfatizam alguns aspectos da imagem, da valorização e da posição da profissão, relacionados a questões históricas e culturais pelas quais passou e ainda passa.
Apresentam suas características como legados da história carregados dos séculos passados para o século atual, das quais a profissão reluta em se prender, ao mesmo tempo em que busca alternativas para se desvincular.
Os estudos e reflexões a respeito da evolução da Enfermagem revelaram a existência de alguns momentos históricos marcantes à sua construção, os quais determinaram caminhos seguidos pelas suas práticas e saberes, que condicionaram sua maneira de ser, fazer e saber. Exemplos destes estão na Idade Média e no Cristianismo (século V a XV), nos acontecimentos da Reforma Protestante (início do século XVI), na Revolução Industrial (século XVIII) e no capitalismo (século XIX) (GEOVANINI, 2002). Além destes, aponto o período atual que, neste século (XXI), se firma na globalização, no neoliberalismo e no pós-neoliberalismo os quais, juntamente com os outros momentos mencionados, passam a ser abordados nas páginas seguintes (BÓRON; GENTILI, 2000).
A igreja, na Idade Média, marcou as práticas de saúde pelo seu poder dogmático moral, intelectual e financeiro e, a partir disto, se apropriou do cuidado dos doentes com o auxilio de entidades que imperavam no governo da época. O cuidado aos doentes era prestado em hospitais regidos pela Igreja e, neste momento, eram vistos como locais de busca da salvação da alma e do corpo, tanto pelos doentes quanto pelas religiosas que prestavam cuidados caritativos.
A respeito das características da Enfermagem, contribuía com as práticas e políticas de saúde à medida que cuidava de enfermos segregados nos hospitais devido a doenças infecciosas. Neste momento histórico, era uma prática sozinha (não havia a figura do médico nestes locais), leiga (fundamentada na experiência) e praticada por mulheres de ordens religiosas. O fazer destas mulheres se caracterizava por atividades manuais, obrigatórias, submissas como um sinônimo de doação total e de cuidado espiritual, de proteção da castidade e de abnegação material e social (COLLIÈRE, 1986; ALVES, 1987; ALMEIDA; ROCHA, 1997;
RIZZOTTO, 1999; GEOVANINI, 2002).
A partir disso, autores como Collière (1986) e Geovanini (2002) apontam que o período do Cristianismo condicionou heranças à imagem da Enfermagem, como legados legitimados e aceitos na sociedade, os quais identificaram a profissão como um sacerdócio, devido aos valores advindos da abnegação, obediência e do espírito de serviço das religiosas no cuidado aos enfermos. Esta relação entre a invisibilidade histórica da Enfermagem e as características e ações das religiosas no Cristianismo, é entendida como determinante/condicionante que se reflete atualmente em suas práticas.
Outro ponto importante, ressaltado por autores como Collière (1986), Machado (1995) e Passos (1996), é o fato do conceito da profissão seguir um caminho histórico e paralelo ao da mulher e de sua simbologia na sociedade: inferior ao do homem, desqualificada, desvalorizada, somada à herança de preconceitos que a conotam como atividade de renúncia, aceitação e respeito para com os outros.
Tais fatores resultaram na distorção da imagem social da enfermeira, pela qual vem lutando de forma desigual a passos lentos e isolados um do outro para transformar, como conseqüência da desunião da categoria e da equivocada determinação histórica do que lhe cabe ou não fazer.
Constato que as características de obediência, disciplina, abnegação, respeito, falta de autonomia e presença da figura feminina na Enfermagem, podem
ser retratadas como frutos de uma árvore antiga, que continuam a serem colhidos e que podem ser observados nas suas condições de trabalho em instituições de saúde deste século, descritos nas desumanas horas, cargas e turnos de trabalho, ausência de locais adequados para descanso, subordinação a superiores e baixos salários (MACHADO, 1995).
O período do Cristianismo da Idade Média caracterizou a Enfermagem como uma prática devota, caritativa, de cuidado empírico, praticada por religiosas, e configurou os elementos do seu processo de trabalho da seguinte maneira: o objeto no corpo e alma do enfermo hospitalizado e renegado da sociedade; como instrumentos, a estrutura precária dos “hospitais”, o conhecimento empírico (experiência), os cuidados básicos (higiene, alimentação); e como finalidade, salvar a alma e o corpo do enfermo e, de si mesma.
Almeida e Rocha (1997) reforçam este pensamento ao dizerem que nesse período a Enfermagem, por ser independente da prática médica, reunia suas ações de cuidado ao conforto da alma. De modo idêntico, Leopardi (1999, p.13) explica que nas organizações religiosas, mulheres eram escolhidas para executar a obra divina do cuidado ao enfermo: “[...] o cuidado dos religiosos se diferencia pela preocupação com o cuidado da alma, tanto quanto com o cuidado do corpo, na trilha da tradição judaica”.
Dessa maneira, é identificada a influência de determinantes/ condicionantes históricos, políticos, sociais e culturais deste período às características do trabalho atual da Enfermagem, como estilhaços da história espalhados ao longo do caminho, que se repercutem nos baixos salários da enfermeira como sinônimo de baixo valor de suas práticas, nas jornadas prolongadas de trabalho, sobrecarga de atividades e precárias condições dos hospitais. De certa forma, as características de subordinação podem ser presenciadas, nos dias de hoje, na maneira em que a enfermeira se relaciona com o profissional médico, com os interesses da instituição e do sistema econômico.
Outro momento histórico, determinante do processo de trabalho da Enfermagem, foi o da Reforma Protestante, no século XVI, marcado por grandes acontecimentos: decadência do feudalismo, êxodo rural e com ele o surgimento de doenças infecto-contagiosas devido à aglomeração de pessoas nas cidades, progressos do Renascimento — ciência e arte moderna, universidades como status intelectual — e evolução da Medicina.
Além disso, a Igreja, ao sentir abalos ao seu poder, provocou o evento da Santa Inquisição, justificado pela perseguição de bruxas e curandeiras. Mas, ao mesmo tempo, uma rebelião contra a coerção da Igreja surgia e teve sua força comprovada na Reforma Protestante, movimento iniciado por Martim Lutero no século XVI como um manifesto contra o poder dogmático do cristianismo. Esta Reforma resultou no fechamento de hospitais, que permaneceram assim até as políticas de saúde pública sentirem a necessidade de um local específico para abrigar os enfermos e segregá-los do convívio da sociedade. Com isso, as políticas de saúde tornaram-se responsabilidade do governo, que reabriu esses espaços e os tornou sinônimos de locais insalubres, depósitos de doentes e pessoas portadoras de doenças infecciosas. Leopardi (1999, p.13) corrobora este pensamento ao mencionarem que: “a institucionalização dos hospitais foi uma resposta que, mais do que cuidar e curar tinha como objetivo confinar, controlar e excluir”.
Até o momento da Reforma Protestante, a Enfermagem, na figura das religiosas, permaneceu nos hospitais. Em seguida, na reabertura destas organizações, houve a necessidade de recrutamento de pessoas para prestarem os cuidados aos doentes e, então, as mulheres religiosas foram substituídas por mulheres consideradas de baixa índole. Geovanini (2002) refere que estas mulheres eram embriagadas, pseudo-enfermeiras, ignorantes e sem ideal, submetidas a atividades domésticas, baixas condições de vida e de trabalho. Os autores explicam que estes acontecimentos determinaram o trabalho da profissão como indigno, pouco atrativo e, inevitavelmente, desprestigiado, e este período é lembrado, atualmente, como um período decadente e negro da profissão.
Nesse contexto, as atividades da Enfermagem foram marcadas pela desorganização, péssimas condições de trabalho e introdução da figura do médico no ambiente hospitalar, até então inexistente no local. A partir daí, o médico assumiu a reforma, a administração e a organização desses ambientes, se apoderou do cuidado e tratamento dos indivíduos enfermos e auxiliou a constituição da Enfermagem como atividade auxiliar da Medicina.
Almeida e Rocha (1997) reafirmam esta reflexão ao dizerem que ao tomar a frente da reestruturação dos hospitais, o médico presidiu todas as fases do processo de trabalho da saúde, utilizou como instrumentos o saber clínico e a infra-estrutura hospitalar e, por conseqüência, deixou à Enfermagem as atividades estabelecidas no cristianismo (básicas). Do mesmo modo, Leopardi (1999) salienta que após as
religiosas serem banidas dos hospitais, abrem-se as portas à clinica hospitalar e o médico fixa-se neste ambiente, o qual se torna instrumento de seu trabalho. Com isso, os elementos do processo de trabalho não se modificaram muito na época, quadro que foi transformado pelo momento que estava por vir, a Revolução Industrial e a instalação do capitalismo
Após o período pós-monástico, surge com a Revolução Industrial (1760), um período marcado pela industrialização, avanços tecnológicos e científicos e, na seqüência, a definição e consolidação do capitalismo (século XIX). O século XVIII trouxe a difusão da indústria e a economia política centrada no preço dos produtos, nas relações de oferta e procura e na interdependência a fatores sociais e econômicos.
No final do século XVIII, com o advento da indústria, os camponeses e artesãos tornaram-se trabalhadores, engrenagens de uma máquina, e os tempos e lugares de trabalho passaram a defender regras empresariais e ritmos de fábrica. O domínio econômico passou a ser da indústria, com suas máquinas potentes e produtividade por meio de atividades parcelares e, a partir disso, o trabalho revelou contradições: alienante e deformador, mas, ao mesmo tempo, necessário e, quando ausente, foi caracterizado como sinônimo de desocupação e os desempregados
“trapos ao vento”, como mencionou De Masi (2001).
A indústria passou a fabricar produtos, serviços e valores para consumidores e, por isso, a sociedade foi chamada de industrial, na qual houve padronização de produtos e processos, processos parcelados e mantidos na sincronia imposta pelas máquinas. Foram centralizados os saberes (informações) e o poder (hierarquia) e, concomitantemente, maximizou-se a eficiência e a produtividade. “Com o advento da indústria, de fato, o trabalho é organizado em bases realmente novas, até atingir vertiginosos níveis de produtividade, e a organização do trabalho se transforma numa ciência autônoma” (DE MASI, 2001, p.145-6).
Este período, marcado pelo surgimento das fábricas, êxodo rural, fragmentação das atividades, altas cargas e jornadas de trabalho, alienação, subordinação e exploração, revelou conseqüências às cidades. Elas se tornaram desestruturadas, se transformaram em focos de epidemias pelas péssimas condições de higiene e saneamento, o que fez com que as doenças atingissem os trabalhadores e este fato se tornou uma “pedra no sapato” do sistema capitalista,
como obstáculo à força produtiva do trabalhador, sentida na diminuição de sua produção.
Nesta situação, o governo entendia que soluções imediatas eram indispensáveis à “saúde” do capitalismo, o que o levou a conduzir políticas de saúde pública com vistas a recuperar a saúde dos trabalhadores. Além disso, as doenças atingiram alguns dos soldados do governo — considerados caros e necessários neste período marcado por conflitos e guerras—, o que fortaleceu a idéia de medidas drásticas e urgentes para restabelecer a capacidade dos enfermos e, com isso, garantir o capital. Como resultado, as práticas de saúde absorveram a ideologia do capitalismo e a saúde passou a ser vista como uma necessidade à manutenção da produtividade (GEOVANINI, 2002).
O avanço das práticas de saúde, somado à reestruturação dos hospitais, foi auxiliado pela incorporação de processos de trabalho e equipamentos utilizados nas indústrias, o que possibilitou a expansão do setor de saúde. Ao mesmo tempo em que manteve a produção dos trabalhadores, ao assumir medidas de tratamento às doenças, a Medicina, com seu modelo clínico, fez com que o setor de saúde fortalecesse o seu poder econômico pelo consumo de equipamentos e medicamentos e, assim, foi ao encontro da consolidação do sistema capitalista, bem como o crescimento e prestígio da profissão. A saúde passa a ser vista como necessidade, objeto de consumo, desejo e fonte de lucro, e os hospitais, reorganizados, tornam-se produtores e vendedores desta necessidade, por meio da oferta de seus serviços (PIRES, 1998). “A tecnologia e a ciência assumiram o comando dos processos de produção, antes guiados pelo bom senso e pela experiência” (DE MASI, 2001, p.153).
Além disso, as transformações que surgiram nos hospitais determinaram e auxiliaram o aparecimento da divisão técnica do trabalho da saúde, pelo surgimento de uma gama variada de profissões subalternas à Medicina, por não conseguir mais trabalhar sozinha e dar conta de todas as tarefas dos tratamentos dos doentes. Por este motivo, a Enfermagem teve a oportunidade de assumir tarefas e organizá-las (RIZZOTTO, 1999; LEOPARDI, 1999; GEOVANINI, 2002).
Desse modo, os serviços de saúde se organizaram na lógica do modelo biológico de assistência à saúde, sob a hegemonia médica, que domina o processo de trabalho em saúde e delega atividades aos outros profissionais envolvidos. Ao coordenar a assistência da saúde, essa profissão definiu modelos, manipulou
técnicas e saberes que deveriam ser seguidos por todos os outros profissionais da área da saúde e os submeteu ao seu saber, interesses, autoridade e controle. Por conseguinte, a Enfermagem surgiu como profissão complementar, subordinada e de suporte à Medicina (PIRES, 1998; RIZZOTTO, 1999; GEOVANINI, 2002).
De certa forma, o sistema militar influenciou a mudança no cenário e imagem dos hospitais, ilustrada no modelo clínico individualista e curativo e nos princípios de consideração à habilidade manual (tecnicismo), hierarquia e vigilância e manutenção da disciplina. Estes princípios foram firmados no trabalho por meio de normas, rotinas, técnicas, controle, supervisão, fragmentação, e ações burocráticas e administrativas que, com o tempo, foram delegadas à enfermeira, que passou a manter a ordem e a disciplina nos ambientes de trabalho.
O cenário do capitalismo foi o nascedouro da Enfermagem moderna e de sua organização, como apontam Pires (1998) e Geovanini (2002). As autoras comentam o auxílio de Florence Nightingale (1820-1910), sua precursora, em tornar o processo de trabalho da profissão vinculado à política e ideologia da sociedade capitalista, que o associou a uma prática institucionalizada e com o objetivo de atender às necessidades de saúde dos soldados, da mão-de-obra (força de trabalho) e do saber médico.
Reconheço e valorizo que Florence teve sua importância à configuração da Enfermagem e merece ser destacada pelos seus pensamentos e escritos, por considerar a profissão como uma arte de cuidar de indivíduos doentes e sadios, sustentada por um triângulo de ações entre cuidar, gerenciar e educar, fundamentadas na manutenção de condições favoráveis do ambiente para que o paciente obtivesse a cura pela natureza. Ela destacou que o conhecimento e as ações da profissão eram diferentes da Medicina, por seu foco central estar no indivíduo e não em seu corpo.
Mas, por outro lado, interpreto que Florence estimulou a fragmentação do trabalho da Enfermagem, ao criar uma divisão social do processo de trabalho em duas categorias, as enfermeiras — ladie-nurses (de classe social elevada, com funções intelectuais de administração, supervisão, direção e controle) e as auxiliares
— nurses (de classe baixa, dirigidas pelas ladie-nurses e que faziam o trabalho manual e direto aos indivíduos). Essa divisão técnica do trabalho teve por conseqüência a cisão entre o pensar (realizado pelas enfermeiras) e o executar (realizado por auxiliares e técnicas). Além disso, instaurou um padrão a ser seguido
na seleção, caracterização e definição das enfermeiras — um padrão moral e intelectual de abnegação absoluta, altruísmo, espírito de sacrifício, integridade, humildade e disciplina—, que logo se tornou exemplo a ser seguido e considerado em diversas escolas e que se reflete até os dias de hoje (MELO, 1986; SILVA, 1989;
GEOVANINI, 2002).
Dessa maneira, o processo de trabalho da Enfermagem moderna foi determinado pelo sistema capitalista, pela influência dos saberes e fazeres de Florence Nightingale e pelo modelo clínico da Medicina, com pequenas alterações que condicionaram seu objeto no cuidado ao indivíduo, seus instrumentos nos procedimentos técnicos e de supervisão por meio de normas e rotinas, e sua finalidade em cuidar e promover a cura do indivíduo.
Porém, mesmo com a abrangência do objeto da Enfermagem para o cuidar do indivíduo e não do corpo, o trabalho da enfermeira se organizou em três direções que convergiam para a recuperação individual do corpo: organização do cuidado ao doente (sistematização de técnicas), do ambiente terapêutico (higiene, limpeza) e dos agentes de enfermagem (treinamento, mecanismos disciplinares) (ALMEIDA;
ROCHA, 1997; GEOVANINI, 2002). Essas direções impulsionaram a absorção de princípios da administração no cuidado com o ambiente proposto por Florence, como um novo instrumento do processo de trabalho que subsidiou as ações com modelos, normas e rotinas que finalizavam a organização da instituição e controle do trabalho.
Por sua vez, as ações administrativas da enfermeira foram influenciadas por várias teorias da administração, dentre as quais estão as de Frederick Winslow Taylor e seus seguidores, com suas teorias que apareceram para garantir produtividade às organizações. Nesta perspectiva, o administrador passou a empreender medidas para controlar o ritmo e a jornada de trabalho e se apropriar do saber, características também absorvidas pela enfermeira, enquanto supervisora e coordenadora de setores de serviços da Enfermagem (PIRES, 1998).
Taylor, no final do século XIX e início do século XX, impulsionado pela preocupação existente com o desempenho humano e a cientificidade no trabalho, difundiu suas idéias de organizá-lo por meio da redução do tempo (eficiência) com o emprego da máquina, do cronômetro e da precisão e, assim, transformou os resultados do trabalho, até então embasados na aproximação e na experiência. As escolas tayloristas tinham por questão fundamental o estabelecimento do ritmo e do tipo de tarefas a serem executadas, o que foi alcançado pelo controle do trabalho,