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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS SOCIAIS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS SOCIAIS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS

ELISANDRA VANESSA DA COSTA RODRIGUES

REINTEGRAÇÃO SOCIAL DE ADOLESCENTES EGRESSOS DE MEDIDAS SÓCIO-EDUCATIVAS NA CIDADE DE MOSSORÓ/RN

MOSSORÓ/RN 2019

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ELISANDRA VANESSA DA COSTA RODRIGUES

REINTEGRAÇÃO SOCIAL DE ADOLESCENTES EGRESSOS DE MEDIDAS SÓCIO-EDUCATIVAS NA CIDADE DE MOSSORÓ/RN

MOSSORÓ/RN 2019

Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação Interdisciplinar em Ciências Sociais e Humanas do Departamento de Ciências Sociais e Política da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte na área de concentração Sujeitos, Saberes e Práticas Cotidianas como requisito para a obtenção do grau de mestre em Ciências Sociais e Humanas.

Orientadora: Profª. Drª. Geovania da SilvaToscano Co-orientadora: Profa. Dra. Ana Maria Morais Costa

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ELISANDRA VANESSA DA COSTA RODRIGUES

REINTEGRAÇÃO SOCIAL DE ADOLESCENTES EGRESSOS DE MEDIDAS SÓCIO-EDUCATIVAS NA CIDADE DE MOSSORÓ/RN.

Data de aprovação: ______/_______________/_________

BANCA EXAMINADORA

__________________________________________

Profa. Dra. GEOVÂNIA DA SILVA TOSCANO ORIENTADORA

__________________________________________

Profa. Dra. ANA MARIA MORAIS COSTA EXAMINADORA INTERA – CO-ORIENTADORA

__________________________________________

Prof. Msc. RAMON REBOUÇAS NOLASCO DE OLIVEIRA EXAMINADOR EXTERNO

Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação Interdisciplinar em Ciências Sociais e Humanas do Departamento de Ciências Sociais e Política da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte na área de concentração Sujeitos, Saberes e Práticas Cotidianas como requisito para a obtenção do grau de mestre em Ciências Sociais e Humanas, no período letivo de 2019.2, na área de concentração Sujeitos, Saberes e Práticas Cotidianas.

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“Cada um de nós é um herói em potencial.

Mas, muitos só descobrem isso debaixo dos escombros de um terremoto".

Antonio Francisco

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RESUMO

Objetiva-se nesta pesquisa, analisar se as instituições socioeducativas na cidade de Mossoró contribuem no processo de reintegração social dos adolescentes egressos do sistema; realizar mapeamento das instituições do sistema socioeducativo; observar como funciona o sistema socioeducativo na cidade de Mossoró e identificar fatores que influenciaram a mudança da prática de ato infracional dos adolescentes para a reintegração social. A metodologia da pesquisa consistiu na observação participante do sistema sócio educativo no município de Mossoró/RN, fontes documentais das instituições do Sistema socioeducativos existentes na cidade, diários de campo, coleta de dados a respeito dos adolescentes que passaram pelo sistema socioeducativos, especialmente, o Creas. O principal instrumento de coleta de dados consistiu em visitas informais, entrevistas individuais semiestruturadas, com profissionais das instituições, sendo seis deles membros do corpo técnico e quatro monitores identificados com a proposta do trabalho e dois adolescentes egressos do sistema socioeducativo. Na revisão teórica, trabalhou-se temas relacionados à adolescência, socialização, estigma e reintegração social. Como resultado desta pesquisa, constatamos que: as instituições socioeducativas na cidade de Mossoró/RN contribuem, parcialmente, no processo de reintegração social dos adolescentes egressos do sistema; viu-se que as condições estruturais e humanas disponibilizadas pelos entes federativos gestores responsáveis pelas instituições não correspondem com a necessidade ideal para as mesmas; o sistema socioeducativo na cidade de Mossoró/RN, ele funciona nos moldes previsto na Lei do SINASE e de acordo com base na previsão orçamentária estadual e municipal; e que entre os fatores influenciadores para a reintegração social dos adolescentes egressos do cumprimento de medidas socioeducativas os que mais se destacam são o apoio familiar, apoio de educadores do sistema da socioeducação, acesso a cursos profissionalizantes, trabalho informal, retorno à escola, efeito pedagógico da pena da medida socioeducativa, “casamento”, a paternidade e religião.

Palavras-Chave: Adolescência. Conflitos. Socioeducação. Reintegração Social.

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ABSTRACT

Keywords: Adolescence. Conflicts. Socioeducation. Social Reintegration.

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AGRADECIMENTOS

Agradeço a Deus, por ter me concedido a vida e por me possibilitar a realização de mais um sonho que é a participação e conclusão neste programa de mestrado, por me fortalecer nas dificuldades vivenciadas durante minha trajetória de vida e nesta pesquisa e por sempre renovar a fé, alegria e seu amor em minha vida.

A mim, por eu ter acreditado que seria possível a realização da minha pesquisa apesar de toda ansiedade e receios por estar participando de um projeto de mestrado interdisciplinar o qual representa um enorme desafio para uma jovem advogada até então com conhecimento pouco aprofundado das Ciências Sociais, e das riquezas cientificas pertencentes às demais áreas formadoras das Ciências Humanas. Por perseverar em busca dos sujeitos da pesquisa mesmo diante das barreiras encontradas.

Por ter acreditado que seria possível a realização da presente pesquisa.

A minha mãe e meu pai por terem me gerado a existência, pela educação e por terem me possibilitado vivenciar um processo socializador por meio do amor, educação, religião, disciplina e tantos fatores sociológicos positivos que contribuíram para a minha formação como indivíduo. A eles, especialmente, por serem os maiores responsáveis pela inspiração desta pesquisa.

Aos meus irmãos por sempre me apoiarem na minha jornada de estudos.

Ao meu grande companheiro de vida, meu marido, por toda compreensão com minhas rotinas de estudos e ansiedades, por me transmitir serenidade, amor, por todo incentivo e apoio em meus sonhos.

Aos meus amigos (a) que estiveram sempre socializando comigo durante esse tempo de desafios e aprendizados.

Aos professores da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) por todo apoio e por todos os ricos conhecimentos a mim transmitidos os quais nunca esquecerei.

Especialmente a professora Geovânia Toscano e Ana Maria Morais por me honrarem sendo sua orientanda, por me transmitirem alegria, empolgação e amor ao saber, ao humano, e a vida, pela leveza em compreender minhas dificuldades vivenciadas durante a pesquisa, pelo exemplo de mestras e ser humano.

Ao Professor Constantin Xypas por toda atenção a mim depreendida, pelo suporte na construção da minha pesquisa, pelo rico modelo de professor, por sua didática, paciência e humanidade que muito me ensinou.

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Agradeço ao meu mestre Paulo Lopo Saraiva por sempre ser uma fonte de inspiração em minha carreira acadêmica, e por ser um grande exemplo de profissional, professor e ser humano, por todo o incentivo e confiança.

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LISTA DE SIGLAS ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente

FUNDAÇÃO CASA – Centro de Atendimento Socioeducativo do Estado de SP CREAS – Centro de Referência Especializado de Assistência Social

CNJ – Conselho Nacional de Justiça REVISTA CONJUR – Consultor Jurídico

CASEP – Centro de Atendimento Socioeducativo Provisório CASEMI – Centro de Atendimento Socioeducativo

CASE – Centro de Atendimento Socioeducativo UNAI – Unidade de Atendimento Inicial

CASEP – Centro de Atendimento Provisório

CASEMI – Centro de Atendimento Socioeducativo de Semi Liberdade CASEF – Centro de Atendimento Socioeducativo Feminino

CASE - Centro de Atendimento Socioeducativo – Internação Provisória

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LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Variação da Restrição e Privação de Liberdade Total Brasil (2008-2013) ... 47 Figura 2 - Adolescentes e Jovens em Restrição e Privação de Liberdade Total Brasil (2010-2013) ... 48 Figura 3 - Porcentagem de Internação, Internação Provisória e Semiliberdade – Total Brasil (2013) ... 49 Figura 4 - Adolescentes e Jovens em Restrição e Privação de Liberdade por UF (2013) ... 50 Figura 5 - Mapa da Região do Estado do Rio Grande do Norte destaque para Mossoró- RN. ... 51 Figura 6 - Unidade do Sistema Socioeducativo de Mossoró-RN ... 54 Figura 7 - Fluxograma do processo do ato infracional para o cumprimento de Medida Socioeducativa ... 68 Figura 8 - Fluxograma do processo do ato infracional para o cumprimento de Medida Socioeducativas (continuação) ... 69

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LISTA DE TABELA

Tabela 1 - Tipologias das Medidas Cumpridas por Adolescentes... 55

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 13

1. O ADOLESCENTE COMO SUJEITO DE DIREITOS ... 28

1.1 Conceito de Adolescência ... 28

1.2 Evolução Legal dos Direitos do Adolescente ... 31

1.2.1 Legislação em Defesa do Adolescente no Cenário Internacional ... 33

1.2.2 Evolução da Legislação para Proteção dos Direitos e Garantias dos Adolescentes no Contexto Nacional Brasileiro ... 35

1.2.3 Estatuto da Criança e do Adolescente: Objetivos e Estrutura ... 42

1.3 Medidas Socioeducativas ... 46

2. INSTITUIÇÕES DO SISTEMA SOCIOEDUCATIVO NA CIDADE DE MOSSORÓ ... 51

2.1 Unidade de Atendimento Inicial (UNAI) ... 56

2.2 Promotoria do Ato Infracional ... 57

2.3 Vara da Infância e Juventude ... 58

2.4 Instituições para Execução de Medidas em Meio Fechado ... 60

2.5 Centro de Referência em Serviço Social – CREAS ... 60

2.6 Centro de Atendimento Socioeducativo Provisório (CASEP) ... 70

2.7 Instituição para Execução de Medidas em Meio Semiaberto ... 72

2.7.1 Centro de Atendimento de Semiliberdade (CASEMI) ... 72

2.7.2 O Centro de Atendimento Socioeducativo de Mossoró: CASE Internação Mossoró ... 72

3. DIALOGANDO COM PROFISSIONAIS DO SISTEMA SOCIOEDUCATIVO DA CIDADE DE MOSSORÓ/RN ... 74

3.1 Promotoria do Ato Infracional na Comarca de Mossoró/RN ... 74

3.2 Primeira e Segunda Visita a Vara da Infância e Juventude ... 75

3.3 Juíza da Vara da Infância e Juventude na Cidade de Mossoró/RN ... 76

3.4 Trajetórias de Adolescentes Egressos de Medidas Socioeducativas que alcançaram a Reintegração Social na Cidade de Mossoró ... 82

3.4.1 “Tiago” ... 84

3.4.1.1 Infância: moradia, família e escola. ... 84

3.4.1.2 Cumprimento de Medidas Soioeducativas e Reintegração Social ... 85

3.4.1.3 Vida Atual: Trabalho, Estudos e Projetos Futuros ... 87

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3.4.2 “João” ... 89

3.4.2.1 Infância: Moradia, Família e Escola ... 89

3.4.2.2 Cumprimento de Medidas Socioeducativas e Reintegração Social ... 91

3.4.2.3 Vida Atual: Trabalho, Estudos e Projetos Futuros ... 91

3.4.3 “Felipe”: ... 92

3.4.3.1 Terceira e quarta visitas realizadas a Vara da Infância - Impressões em audiências ... 93

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 95

REFERÊNCIAS ... 97

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INTRODUÇÃO

A inquietação deste estudo a respeito da reintegração social de adolescentes se volta especialmente para os egressos de medidas socioeducativas. Os altos índices de violência e criminalidade crescentes demonstrados através de dados estatísticos assustadores, no município de Mossoró e na maior parte dos municípios brasileiros, conduziram a questionamentos sobre a possível reintegração social de jovens que já foram praticantes de atos infracionais.

Segundo dados do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), divulgados pela Revista Consultor Jurídico no ano de 2016, dobrou o número de adolescentes que cumprem medidas socioeducativas no Brasil: em 2015, havia 96 mil menores nessa condição, em 2016 já haviam 192 mil. Esses dados estão no Cadastro Nacional de Adolescentes em Conflito com a Lei, do Conselho Nacional de Justiça os quais também demonstram que os atos infracionais mais cometidos por esses jovens são tráfico de drogas, roubo e furto. Os dados são do Cadastro Nacional de Adolescentes em Conflito com a Lei, do Conselho Nacional de Justiça.

Os primeiros sinais de interesse e preocupação social com essa parcela da sociedade brasileira classificada, primeiramente, pelas Constituições que vigoravam no país antes da Constituição de 1988, apenas em razão da faixa etária, de 12 a 18 anos, como menores ocorreram após o agravamento do abandono, estigmatização e marginalização de crianças e adolescentes oriundos de famílias pobres e desestruturadas que eram afastados população que tinha acesso aos bens de consumo e cultural.

Conforme Rizzini (1997 p. 29), ao fim do século XIX, as crianças abandonadas por seus pais desempregados e pobres sem acesso a bens materiais e educação moral começaram a ser pensadas como um problema social muito sério com necessidade de medidas rápidas a serem tomadas por parte do Estado.

Ocorre que a solução encontrada pelo Estado brasileiro no final do século XIX e inicio do século XX foi desenvolver uma doutrina normativa e social pela qual de forma intervencionista mantivesse uma fiscalização e controle sobre as famílias pobres de forma a acompanharem de perto a situação de cuidados das famílias pobres com seus menores, tendo sido esta politica denominada de: Doutrina da situação irregular. Sobre essa teoria afirma Costa (2007, p.65):

A Doutrina da Situação Irregular foi, forma de intervir, punindo as famílias na medida em que os poderes públicos deveriam investigar se os pais supriam ou não as necessidades de seus filhos e se estes estavam sendo “controlados”, para que não incomodassem a ordem social. Nessa “pedagogia da punição”,

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caso os pais não cumprissem suas obrigações junto à família, poderia ser retirada a autoridade paterna, favorecendo, portanto, a emergência de um Estado protetor.

O interesse do Estado era de ter um maior controle sobre a vida dos menores e seus pais pobres e não de diminuir a desigualdade social extrema que dificultava o acesso dos pais e mães de família a educação, trabalho e renda para viverem de forma justa e equilibrada. O acesso aos direitos fundamentais básicos por parte das crianças e adolescentes também eram ignorados, o que os tornavam ainda mais suscetíveis a levarem uma vida de pobreza e marginalidade.

Em 1924, os juristas brasileiros criaram o primeiro juízo de menores do país e em 1927 elaboraram o código de menores no governo do Marechal Figueiredo. Este código ficou conhecido como código de Mello Matos, onde já havia a previsão para o tratamento diferenciado para as crianças e adolescentes desde a fase de apreensão destes na prática de ato infracional até a colocação destes em instituições separadas de adultos.

Este primeiro código de menores era baseado pela doutrina da situação irregular, por meio da qual as crianças e adolescentes eram separados e entiquetados como bem nascidos e os que viviam em “situação irregular” os quais deveriam seguir regras de moral e educação imposta pelo Estado, porém inexistente em suas famílias. Assim, ao invés de suas famílias receberem apoio para que as desigualdades sociais e econômicas pudessem ser diminuídas, o código de 1927 trouxe um tratamento extremamente duro e punitivo para os pais pobres, para as crianças e adolescentes pobres, além de terem trazidos termos que os rotulou de forma depreciativa e estigmatizante, até os dias de hoje. Por meio do código de menores as crianças e adolescentes que eram pelo Estado apreendidos como vivendo em situação irregular eram internados em Fundações para o bem estar social dos menores (FEBEM), eram julgados pelo juiz de menores sem direito ao devido processo legal, ao contraditório e ampla defesa. Nesse intervalo de tempo – 1927 a 1970, ano da criação da FEBEM – os menores não se beneficiavam de um bom sistema de saúde nem tão pouco tinham acesso a direitos fundamentais, consequentemente, o acesso à escola não ocorria da melhor forma, pois muitos menores tinham uma jornada informal de trabalho. Todavia, era direito deles frequentar as salas de aula (RENAUT, 2002).

Com vistas ao progresso do respeito aos direitos e as garantias das crianças e adolescentes a década de 1990 surgiu como um despertar internacional e nacional para o cuidado especializado com essa fase da vida dos seres humanos, pois como se trata de

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pessoas em desenvolvimento foi alargada e direcionada a necessidade de um tratamento diferenciado multisetorialmente na formação destes, em áreas como saúde, educação, profissionalização, esporte, cultura etc. Nesse contexto surgiu o ECA em 1990 para fortalecer a proteção dos direitos da criança e do adolescente.

A presente pesquisa a respeito da reintegração social de adolescentes iniciou-se no ano de 2017 quando ingressei no mestrado interdisciplinar em Ciências Sociais e Humanas, na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Porém, o meu interesse por esses temas adveio a partir de 2012 com o meu envolvimento profissional como advogada especialista em criminologia. O campo de estudos e observações pertencentes ao tema da investigação social deste trabalho sempre permearam minha curiosidade desde a minha infância quando já observava meu pai, policial militar, sair para o trabalho e arriscar sua vida com a missão de prevenir a prática de crimes, combater os criminosos e defender à sociedade da atuação destes. Por outro lado, aponto a minha convivência dentro dos ambientes educacionais, uma vez que, minha mãe, enquanto professora, trabalhou em dois turnos em escolas públicas e ainda possuía uma escola particular primária que funcionava nas dependências da nossa residência, no Bairro Alto de São Manoel, na cidade de Mossoró-RN. No ambiente familiar fui aprendendo, diariamente, a importância das práticas educativas e socializadoras na formação do ser humano e a relevância dessas práticas na formação de valores como a paz, a solidariedade o respeito ao outro e a coletividade.

Desde a infância e com um forte sentimento de justiça sonhava em um dia e de alguma maneira contribuir para a diminuição das injustas sociais. Assim, aos 18 anos ingressei na Faculdade de Direito e desde o primeiro semestre já lia e pesquisava em obras de criminologia, sociologia e filosofia as causas que conduzem os indivíduos a praticarem atos criminosos.

Tais estudos realizados durante a graduação em Direito entre os anos de 2005 e 2009 juntamente com os resultados de uma pesquisa empírica sobre a trajetória de vida familiar de um grupo de apenados (a) da penitenciária agrícola Mário Negócio na cidade de Mossoró deram origem ao trabalho de conclusão de curso de graduação no ano de 2009: Criminalidade como efeito da desestrutura do núcleo familiar.

Os resultados da citada pesquisa sobre criminalidade e desestrutura familiar demonstrou à direta e consequente relação existente entre os comportamentos criminosos e a precedente vivência dos indivíduos autores destes comportamentos em uma socialização familiar primária onde não havia a presença de valores e direitos

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fundamentais para a formação do ser humano, tais como: amor, respeito, cuidado, alimentação, educação, acesso a serviços de saúde, moradia digna. Restando também demonstrado pelos apenados observados na então pesquisa durante a minha graduação que as atitudes de violência e agressividade transmitidas por estes à sociedade resultava da transmissão das próprias vivências de abandono e violência recebidas por eles durante a infância e adolescência por parte de seus pais ou de suas mães bem como observamos no discurso destes que a reprodução da violência sentida e vivida por eles no núcleo familiar foram influenciadoras para uma futura prática de crimes contra a sociedade.

Continuei meus estudos com a temática da criminalidade no Curso de Especialização em Direito Público, no ano de 2011 a 2012, na Uniasselvi, desenvolvendo o Trabalho de Conclusão de Curso intitulado: Direito Penal Mínimo e Direito Penal Máximo, cujo objetivo foi desenvolver um diálogo a respeito dos sistemas penais existentes e possíveis e quais seriam as aplicações penais que, possibilitando um controle social equilibrado, poderiam ser os mais eficazes com vistas aos objetivos das penas sanções, principalmente, correção, retribuição e paz social. Os estudos sobre as teorias penais me demonstraram que há métodos penais da politica do Direito penal mínimo e da politica do Direito penal máximo que podem ser utilizadas no Brasil com vistas ao controle da criminalidade desde que demonstrada a eficácia destes dentro dos princípios estabelecidos por um Estado democrático de Direito. As reflexões sobre os sistemas penais também me conduziram aos questionamentos a respeito da existência da ressocialização e da importância de práticas ressocializadoras, foco desta pesquisa no Mestrado em Ciências Sociais e Humanas na UERN.

Como Advogada participei durante os anos de 2013-2014 da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil, subseção de Mossoró, momento em que como representante desta Cidade de Mossoró pude participar de várias atividades em prol do acesso aos direitos fundamentais para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Trabalhávamos em ações de visitas, fiscalizações dos serviços prestados e estruturas oferecidas à população em diversos serviços públicos de saúde:

hospitais públicos, maternidades, UPA‟s (Unidade de Pronto Atendimento) na área de segurança: atendimento a pessoas vitimas de violência que precisavam de assistência jurídica, atendimento à profissionais da segurança pública como policiais militares e guardas municipais para atendimento jurídico e intervenção da OAB em situações institucionais; no campo da Educação realizamos o projeto Direitos Humanos nas

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escolas, por meio do qual os advogados colaboradores desenvolviam atividades educativas e de socialização com crianças e adolescentes de escolas públicas da cidade disponibilizando, também, reflexões sobre temas diversos como: direitos humanos na educação, o aluno e o aproveitamento na aula, respeitos aos professores, comportamento do aluno na sala de aula.

A minha inquietação a respeito do tema sobre ressocialização em nível de mestrado se volta especialmente para os adolescentes, após constatar altos índices de violência e criminalidade dados assustadores, no Brasil e na cidade de Mossoró, sobre o crescimento do envolvimento de indivíduos nesta faixa etária em crimes e como consequência muitos vão a óbito.

Como exemplo do quadro situacional de envolvimento de adolescentes com atos infracionais vemos os seguintes dados do Centro de Atendimento Socioeducativo do Estado de São Paulo – SP (Fundação Casa) que, adolescentes em privação e restrição de liberdade, na Evolução por Triênio – Brasil (1996 a 2011), apresentam um exponencial aumento do envolvimento desses com a criminalidade: em 2006, eram 4,245 jovens em regime de internação, 13 anos depois, no ano de 2019, este número subiu para 19.595.

No Brasil, a garantia de Direitos as crianças e adolescentes que vivenciam situação de conflito é reafirmada a partir da Lei nº 12.594 de 2012 que institui Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE), cujas normas prevê e garante o acesso integral e prioritários desses jovens ao sistema único de saúde, ao acompanhamento psicossocial, ao assistencialismo social, ao acesso ao estudo regular, cursos profissionalizantes, técnicos e demais acessos à educação, aos direitos individuais. Importa esclarecer que todos esses direitos são garantidos as crianças e adolescentes em conflito com a lei por meio das três esferas do nosso governo, federal, estadual e municipal, as quais precisam regulamentar localmente, a execução das medidas socioeducativas indicadas no SINASE, a partir das instituições que o compõem Entretanto, a existência de política pública como o SINASE, não encerra uma questão apontada por Sales (2004, p.42.), quando revela que a sociedade enxerga os adolescentes autores de atos infracionais como “sem solução” demonstrando assim um (pre) conceito a respeito da possibilidade da mudança de vida deles definindo-os como:

“pessoas sem solução”.

Predomina no Brasil o senso comum de que o destino de todo e qualquer adolescente que comete ato infracional ou é a prisão referindo-se às medidas

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socioeducativas ou o cemitério, fazendo uma observação simplista quanto às práticas corriqueiras de assassinatos destes jovens.

Compreendendo a natureza reconhecidamente complexa e desafiadora, além das polêmicas que o tema reintegração social de adolescentes em conflito com a lei envolve, delineou-se a nossa pesquisa para a cidade de Mossoró/RN, elegendo a seguinte pergunta norteadora: as instituições para cumprimento de medidas socioeducativas na cidade de Mossoró estão sendo efetivas para o processo de ressocialização desses sujeitos?

Assim, a presente pesquisa propõe os seguintes objetivos:

Analisar se as instituições socioeducativas na cidade de Mossoró contribuem no processo de reintegração social dos adolescentes egressos do sistema.

Realizar mapeamento das instituições do sistema socioeducativo na Cidade de Mossoró.

Observar como funciona o sistema socioeducativo na Cidade de Mossoró.

Identificar fatores que influenciaram a mudança da prática de ato infracional dos adolescentes para a reintegração social.

Na perspectiva desta pesquisa considera-se medidas socioeducativas, aquelas previstas na Lei 8.069/1990 - ECA, Estatuto da Criança e do Adolescente e designadas por um juiz com poder legal, assim sendo aquele que atua na aplicação processual especifica para adolescentes autores de atos infracionais. Deste modo, por meio da Vara da Infância e Juventude as medidas socioeducativas são designadas com o objetivo de disciplinar, punir e corrigir pedagogicamente um indivíduo em formação pela prática de um ato que feriu outro indivíduo e a sociedade como um todo, além de prestar aos adolescentes em conflito com a Lei o acesso à educação formal, esporte, lazer, acesso a saúde física e psicológica, na perspectiva de sua reintegração social.

Segundo Ishida (2015, p.27):

Houve muita galhardia (nobreza de alma) para concretização do ECA.

Sancionado, após tal procedimento, passou a ser um dos diplomas legais mais modernos do mundo. A edição do ECA representava o estabelecimento de garantias, da instituição do contraditório nos procedimento da infância e da juventude e da supressão do denominado

"entulho autoritário", sendo um diploma compatível com o Estado Democrático de Direito.

Identificamos durante o caminho percorrido nesta pesquisa, uma carência de estudos empíricos que demonstrem a probabilidade de reintegração social de

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adolescentes egressos do cumprimento de medidas socioeducativas. Na busca de referenciais teóricos sobre o tema encontrou-se publicações diversas referentes às matérias das Ciências Humanas relacionadas às pesquisas de processos de ressocialização de indivíduos que cometeram crimes ou atos infracionais. No entanto, notamos que tais estudos aparecem sempre de forma restrita a apenas um dos possíveis aspectos influenciadores para a transformação do indivíduo, tais como: ressocialização e práticas esportivas, ressocialização e psicologia, ressocialização e educação, e o sistema socioeducativo, e práticas musicais, artísticas ou culturais. Porém, mencionaremos no presente estudo alguns trabalhos que consideramos válidos para a construção teórica da temática.

O conceito de socialização caiu em desuso? Tamara (2008) ao escrever “Uma análise dos processos de socialização na infância com base em George Simmel e George H. Mead” propõe uma compreensão mais detalhada dos processos de socialização durante todas as fases da vida e mais especificadamente durante infância, apresenta conceituações sobre as diferentes formas de se conceituar o processo de socialização a partir de estudos de Émile Durkheim (1922, 1950), Simmel (1908) e Weber (1905-1920), Mead (1934), Parsons (1955), Piaget (1975), Habermas (1973) e Luhmann (1987). Já o caráter processual do conceito de socialização foi explorado principalmente por Leopold von Wiese (1931, 1933) e Norbert Elias (1939, 1970). Para Tamara Grigorowitsch definir os processos de socialização na infância a partir dos estudos de Simmel e de Mead resultam em demonstrar a partir das obras analisadas a importância do período de socialização na infância e como nessa fase as crianças podem exercer um papel ativo e determinante para a formação de seus selfes ou individualidades.

Para Borges (2013) em seu artigo „Adolescente infrator e políticas públicas para a socialização‟ busca demonstrar de forma objetiva toda a problemática envolvendo as transformações no individuo adolescente como as mudanças hormonais, a química cerebral, conflitos de personalidade, interações sociais e outras peculiaridades dessa fase em desenvolvimento. No artigo o autor mostra como resultado a complexidade presente na proposta de ressocialização por meio da institucionalização para cumprimento de medidas socioeducativa prevista no ECA.

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Na perspectiva de Varela, Alves e Almeida (2015) em “Proposta de ressocialização de crianças e adolescentes infratores na região da 11° SDR1 curitibanos”, as autoras mostram o importante papel que as medidas socioeducativas devem exercer no trabalho de ressocialização dos adolescentes em conflito com a lei.

Relatam que deve ser através do cumprimento dessas medidas que deve ser desmistificado os preconceitos trazidos nos próprios adolescentes como também na sociedade uma vez que esta deveria vê-los como em readaptação. Também trazem a importância da readaptação durante a medida socioeducativa ser feita de forma mais individualizada e harmônica de acordo com os valores e cultura pessoal de cada individuo. Por fim, sugerem a criação de uma comissão publico-privada responsável por formar parcerias de pessoas privadas e entidades públicas voltadas para o oferecimento de diversas atividades que deem suporte e acesso a oportunidades capazes de realizarem mudanças positivas na vida dos egressos de medidas socioeducativas.

A pesquisa ora desenvolvida, aponta para a compreensão da realidade do Sistema Socioeducativo voltado para crianças e adolescentes que vivenciaram situações de conflito com a lei na Cidade de Mossoró, e para isto, fizemos uma observação das instituições que compõe tal sistema durante os anos de 2017-2019, identificando pontos positivos, negativos e omissos com relação ao SINASE local e as possibilidades de colaboração para a reintegração desses sujeitos.

Ao iniciarmos esta pesquisa no inicio do ano de 2017, sobre o sucesso na reintegração social de jovens egressos de medidas socioeducativas buscamos informações diretamente nas instituições aonde são realizados os acompanhamentos das medidas. Buscamos a aproximação dos sujeitos indicados pelo Centro de Referência em Assistência social (CREAS), que cumpriram medidas socioeducativas em meio aberto, que foram considerados por esta instituição como reintegrados a sociedade, objetivando observar os fatores que os conduziram ao distanciamento da prática infracional para uma vida de práticas individuais e sociais saudáveis.

Para a aproximação dos sujeitos egressos do cumprimento da medida socioeducativa e reintegrados socialmente do funcionamento do universo socioeducativo no Brasil e Cidade de Mossoró.

No Brasil, os sistemas de sócioeducação são organizados conforme previsto na Lei 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente) e na Lei do

1 SDR trata-se da Secretaria de Desenvolvimento Regional.

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Sinase (lei nº 12.594, de 18 de janeiro de 2012). Assim as cidades não possuem um sistema próprio e autônomo, pois é o Poder Judiciário Estadual, por meio da Vara da Infância e Juventude (quando houver no sistema judiciário de uma cidade) é quem centraliza todo o procedimento do processo judicial do adolescente que praticou ato infracional e do cumprimento da medida socioeducativa. No caso, se uma cidade não houver uma Vara da Infância e Juventude este processo é encaminhado para uma vara em outra cidade do Estado que possua este atendimento especializado para os processos dos adolescentes.

No Estado do Rio Grande do Norte, com 167 municípios, existem apenas 3 (três) varas especializadas em infância e juventude. Por isso, nosso ponto de partida da pesquisa foi observar os dados quanto aos processos sobre a prática de atos infracionais e cumprimentos de medidas socioeducativas a partir das informações constantes no sistema de informações da Vara da Infância e Juventude do Sistema Judiciário do Estado do Rio Grande do Norte. Lá a instituição nos apresentou os adolescentes que, de fato, passaram pelo sistema socioeducativo da cidade de Mossoró/RN.

Assim, de um total de 448 adolescentes que adentraram no sistema socioeducativo no município de Mossoró/RN para cumprir medidas socioeducativas em meio aberto, designada pelo SINASE, entre os anos de 2015 e 2018, identificamos que apenas uma pequena parte destes, que corresponde a 4 jovens egressos, trabalham e/ou estudam e vivem de forma reintegrada à sociedade.

Utilizamos como embasamento para verificar a existência e compreender o fenômeno da reintegração social desses jovens, as observações apresentadas por profissionais que atuam no sistema socioeducativo, como: assistentes sociais do Centro de Referência em Assistência Social (CREAS), diretora do Creas, Cientista Social do Creas, assistente jurídica do Creas, arte educadora do Creas, psicóloga do Centro de Atendimento Socioeducativo Provisório (CASEP), Educador do Casep, diretor do Casep, diretora do Centro de Atendimento Socioeducativo (CASE) internação e diretora do Case Semi liberdade, educadores do Case internação, promotor de justiça da criança e do adolescente da promotoria de justiça de Mossoró/RN, juíza da Vara da Infância e Juventude da Cidade de Mossoró/RN. Estes profissionais, entre outros, integram o sistema socioeducativo da Cidade lócus da pesquisa. Assim, a compreensão do processo da reintegração adveio a partir dos diversos encontros que tivemos durante a pesquisa com esses profissionais e, especialmente, mediante as narrativas dos dois jovens egressos da Socioeducação.

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Em seguida a obtenção dos dados, no período acima citado, fomos visitar às instituições responsáveis pelo cumprimento das medidas socioeducativas, intencionando investigar a existência ou não existência de adolescentes egressos do cumprimento de medidas socioeducativas em meio aberto que foram ressocializados. Realizamos nas datas de 20 de abril de 2018 e posteriormente nos meses de junho, julho e agosto de 2018, visitas ao CREAS da cidade de Mossoró, entidade que aparece no contexto da ressocialização de adolescentes como fundamental na obtenção de resultados positivos para a ressocialização. Confirmamos esta assertiva mediante observações feitas por servidores da promotoria do ato infracional e por meio da atuação do próprio judiciário, através de entrevista realizada em Junho de 2018 com a juíza da Vara da Infância e Juventude, pois afirmou a magistrada que a medida socioeducativa mais aplicada pela Vara são as medidas cumpridas em meio aberto e que são executadas por meio do CREAS. No período de março de 2018 realizamos visita ao Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Infrator (CIAD) provisório e ao Centro Educacional (CEDUC) internação.

A partir das informações obtidas na Vara da infância e Juventude em abril de 2018, observamos que as medidas em meio aberto são as mais aplicadas nos processos por ato infracional lá existentes reforçando assim o nosso interesse nessa pesquisa a respeito da execução das medidas socioeducativas em meio aberto.

As medidas Socioeducativas estão previstas no art. 112 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) de 1990, e são justificadas entre outros motivos, por que segundo a legislação brasileira, só pode haver punição pela justiça criminal para as pessoas a partir dos seus 18 anos de idade, ficando de fora dos meios legais punitivos às crianças e os adolescentes.

Assim, os princípios e diretrizes para a realização do trabalho de

“ressocialização” dos menores de 21 anos de idade por meio do sistema socioeducativo encontra-se na lei 12.594/2012, lei que cria o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE).

O texto dessa Lei traz uma variedade de direitos protetivos para as crianças e adolescentes, divisão de responsabilidades e custeios financeiros a serem assumidos pelos entes federativos: União, Estados, Distrito Federal e Municípios, além de orientações para as atividades socializadoras e cuidados para com os adolescentes que passem pelo sistema socioeducativo. A Lei do Sinase dá as diretrizes para a organização do sistema de socioeducação brasileiro.

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Com o novo diploma legal de garantia de Direitos das crianças e adolescentes a partir do SINASE implementado em 2012, intenta-se a reinserção social equilibrada dos sujeitos que cumpre com sucesso as medidas sociais e educativas a ele apresentadas e que permitem uma mudança em sua forma de viver para uma existência sem ações contra a sociedade. Daí, a relevância de nossa pesquisa ao procurar escutar agentes envolvidos com a implementação da política do SINASE em Mossoró e os sujeitos egressos do sistema que foram reintegrados socialmente.

Analisando o quadro de violência no município de Mossoró, locus do nosso estudo, percebemos que o cenário da violência se apresenta preocupante. Mossoró consta entre os 142 municípios no Brasil com maior índice de morte de jovens por violência, o que levou a sua inclusão no Plano Nacional Juventude Viva2.

Para a percepção dos cenários mostrados nessa dissertação, é indispensável conhecer minimamente a população da cidade onde se situa a pesquisa.

Nesta perspectiva, indicamos que no ano de 2017, conforme dados do IBGE3, a cidade de Mossoró, contava com uma população estimada de 295.619 habitantes4, sendo 66.889 pessoas na faixa etária de 10 a 19 anos, correspondendo a aproximadamente 22% da população, equivalendo: 21. 703 de 10 a 14 anos e 44.986 dos 15 aos 19 anos.

Quando o assunto é a educação da população, os dados do ano de 2018 das Secretarias de Educação Municipal e Estadual apresentam que Mossoró conta por volta com 100 escolas de nível fundamental e 34 estabelecimentos de ensino de nível médio Estadual. Em 2017 foram 20.050 matrículas no Ensino Fundamental e 10.233 no Ensino Médio, totalizando 30.283 pessoas matriculadas nesses dois níveis de ensino.

A partir desses dados gerais acima demonstrados, tornar-se visível o grande número de adolescentes fora da escola. No ano de 2018 por meio do programa busca ativa escolar, plataforma programa do MEC (Ministério da Educação), em parceria com o UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a infância) e a fundação TIM (telefonia Móvel) juntamente com a secretaria municipal de saúde, de desenvolvimento social e de educação da Cidade de Mossoró iniciaram no final do ano de 2017 a busca por todas as crianças e adolescentes que estão fora das salas de aulas, além dos motivos que os

2 O Plano Nacional Juventude Viva é direcionado ao desenvolvimento de ações para jovens de 15 a 29 anos, prioritariamente negros, em situação de vulnerabilidade social ou exposição a situações de violência, residentes nos municípios com maior ocorrência de homicídios nessa faixa etária.

3 Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/rn/mossoro/panorama

4 No último censo realizado em 2010 foi registrado uma população de 259.815 habitantes.

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levaram a não estarem estudando. A evasão escolar é um ato agravante das condições de vulnerabilidade social destes e da exposição a situações de violência e envolvimento na prática de atos infracionais.

As informações apontadas sobre o acesso dos adolescentes da cidade de Mossoró a educação pública, indicam que há no município um quadro de vulnerabilidades sociais percebidas mais explicitamente pela desestruturação familiar e pela falta da escolarização o que vem provocando o contato de muitos destes jovens com episódios condizentes a prática de atos infracionais.

Observamos que, grande parte do discurso dos meios de comunicação traduz a reprodução de falas nos ambientes da cidade de Mossoró. Trata-se de narrativas carregadas de sentimentos de indiferença para com os adolescentes que vivem em conflito com a Lei. Referindo-os apenas e tão somente como pessoas más, vagabundas.

Percebe-se que o grande consumo por parte da sociedade mossoroense de programas policiais e de sites divulgadores dos atos infracionais reflete apenas uma curiosidade sobre os fatos ocorridos, predominando a total incompreensão desses sujeitos.

Para uma melhor compreensão desta pesquisa utilizamos o seguinte entendimento de reintegração social: Trata-se da reinserção de um individuo a vida em sociedade após este ter tido o acesso a oportunidades e incentivos que os preparem para viverem em busca do mínimo necessário para sua existência além do respeito à coletividade.

O processo de convencimento dos adolescentes a mudança pode ter acontecido durante o cumprimento da medida ou logo após esta, ou por consequência desta, e, assim reintegrados a sociedade. Esta do mesmo modo os recebeu, reintegrando-os de forma precária ou satisfatória em seus direitos.

A compreensão dos elementos acima mencionados também busca fundamento em conceituações teóricas a respeito dos sujeitos, adolescência, socialização e reintegração social, entre outros assuntos que ora são abordados.

Assim, quando o indivíduo em foco refere-se a adolescentes as concepções de Ariès (1978) trazem importantes contribuições para uma compreensão geral a respeito desta fase da vida. Para ele esta aparece como uma fronteira da vida que foi descoberta entre os intelectuais quanto ao surgimento do conceito da adolescência na modernidade.

Alcançar uma saudável inclusão social durante a juventude, após uma infância e adolescência repleta de carências de Direitos fundamentais, atenção e afeto mínimo dispensável para a existência humana é algo raro de ser encontrado dentro da sociedade

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brasileira. Nesse sentido relacionamos à nossa pesquisa aos estudos da sociologia do improvável de Pierre Bourdieu em sua obra “A Distinção” (2008) onde o autor traz a importância de se considerar os hábitos, educação, cultura, status social e capacidade financeira de cada família para explicar os comportamentos em sociedade. E de Bernard Lahire, em o “Sucesso escolar nos meios populares: as razões do improvável” (1997), respectivamente, uma vez que, suas obras e conceitos fornecem pressupostos sociológicos que auxiliam na compreensão e nas observações críticas das trajetórias dos adolescentes egressos de medidas socioeducativas que alcançaram a reintegração social.

Os estudos resultados de pesquisa de mestrado de Oliveira (2002) apresentaram- nos elementos teóricos e empíricos fundamentais para uma aproximação do universo vivenciado pelos adolescentes brasileiros que são egressos de medidas socioeducativas.

Trata-se de um trabalho detalhado no campo da psicologia voltado para, além de outros objetivos, apresentar as muitas dificuldades existentes nas vidas e famílias destes jovens que os impossibilitam a alcançarem uma reintegração social ajustada. Assim, a autora apresenta no contexto de sua pesquisa o problema da exclusão social no Brasil e as fases da valorização e assistência à infância no país e a partir desses estudos volta-se para a apresentação das instituições de socioeducação em seu local de pesquisa, bem como apresenta a realidade de vida dos adolescentes internados e suas expectativas para o futuro após a institucionalização.

As análises de Oliveira (2002) sobre o processo de inclusão social dos adolescentes egressos apresenta uma relação fragilizada existente entre os adolescentes que são o público do cumprimento na cidade de Ribeirão Preto/SP com as instituições do sistema socioeducativo, pois de uma forma generalizada nas instituições que fizeram parte de sua pesquisa havia, segundo a autora mencionada, um descompasso muito grande entre a lei (ECA) e a realidade observada nas instituições, desde a qualidade das instalações físicas e sanitárias, até o tratamento frio e carcerário dos educadores, além da falta de efetividade das atividades sócio pedagógicas propostas aos jovens. Além disso, a autora fala de um ciclo perverso existente na vida desses adolescentes que cumprem medidas socioeducativas em Ribeirão Preto. Assim traz o conceito de ciclo perverso na vida desses sujeitos já que ao saírem da institucionalização do sistema socioeducativo voltam aos mesmos ambientes e práticas de atos infracionais.

Santos (2016) em seu artigo de pesquisa “A realidade das instituições de medidas Socioeducativas e suas Contradições: um estudo sociológico”, apresenta detalhes legais e empíricos sobre a contradição do objetivo ressocializador das

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instituições de medidas socioeducativas do Brasil e a lei que prevê o mesmo sistema – ECA. Neste sentido, o trabalho do autor, anteriormente mencionado, denuncia uma série de problemas e descasos que ocorre na maior parte das instituições brasileiras e que, segundo ele, explica a não efetividade na missão ressocializadora, situações degradantes que vão desde a péssima estrutura física das unidades, superlotação, ausência de profissionais especializados, entre outras que se somadas à falta de estrutura econômica e cultural dos adolescentes enquanto egressos do sistema de socioeducação e de seus familiares fazem a idealizada mudança de vida por parte de alguns não passar de um sonho impossível.

A metodologia adotada nesta pesquisa envolve a pesquisa documental, a observação com a priorização da técnica de pesquisa exploratória utilizada na coleta de dados do sistema socioeducativo local e, ainda a vivência no sistema socioeducativo com conversas informais com educadores e com uma juíza da infância e juventude, duas assistentes sociais, uma cientista social e uma técnica administrativa.

Também foi realizada entrevista semiestruturada com 2 jovens egressos de medidas socioeducativas, reintegrados a sociedade. Com eles fizemos a entrevista com a gravação de voz, sendo transcritas todas as falas.

Importa registrar, que, a autora da presente pesquisa, apesar de não ter encontrado os dados sobre adolescentes ressocializados que procurava no Ministério Público, a visita realizada na promotoria do ato infracional foi de extrema importância para o desenvolvimento deste estudo, uma vez que o Promotor Titular deste órgão ao conhecer a proposta da pesquisa motivou a autora ao desenvolvimento da investigação.

Segundo ele, não existem dados, nem estudos disponíveis nessa temática com abordagem na cidade de Mossoró/RN e que uma pesquisa com essas características serviria como fonte de informação para a promotoria do ato infracional de Mossoró e/ou outras instituições que trabalhem com adolescentes em conflito com a lei.

Vale destacar que a partir das informações obtidas nas instituições do sistema socioeducativo visitadas como: Promotoria do Ato Infracional, Vara da Infância, CREAS, CIAD provisório e CEDUC internação, observamos os reiterados atos infracionais cometidos pelos adolescentes, como: crimes de internet (fraudes), associação com o tráfico de drogas, furtos e roubos são em sua maior parte relacionados à busca imediata por bens materiais e econômicos por parte dos adolescentes

A presente dissertação está organizada com a seguinte estrutura:

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No primeiro capítulo é apresentada a discussão que envolve a construção do adolescente como Sujeito de Direitos. Assim, trabalhamos o conceito de adolescência nas Ciências Humanas e Sociais, a evolução histórica da Legislação dos Direitos do adolescente Internacionalmente e Nacionalmente e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), instituído pela Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, como resultado do reconhecimento do adolescente como sujeito de direito em contraposição a legislações anteriores pautadas na ideia de controle e de exclusão social sustentadas na Doutrina da Proteção Integral e no velho paradigma da situação irregular (Código de Menores – Lei nº 6.697, de 10 de outubro de 1979) acarreta mudanças de referenciais e paradigmas com reflexos inclusive no trato da questão infracional.

No segundo capítulo apresentaremos as Instituições do sistema socioeducativo existentes no município de Mossoró, suas finalidades, a metodologia utilizada nas atividades desenvolvidas e a dinâmica do funcionamento das instituições referentes a aplicação das medidas. A apresentação foi construída a partir da pesquisa documental, visita pessoal e diálogo com os educadores. Nessa ocasião, tratou-se das impressões dos sócios educadores atuantes no sistema. Mencionamos as instituições para execução de medidas em meio fechado e semiaberto e de modo mais específico a Instituição para execução de medidas em meio aberto, ou seja, o Centro de Referência em Serviço Social (CREAS) que elegemos como lócus prioritário dessa pesquisa.

O terceiro capítulo será destinado as entrevistas com os profissionais e trajetórias de dois jovens egressos das medidas socioeducativas reintegrados a sociedade, e que se dispuseram a conceder entrevistas e contar suas histórias e experiências de vida, fonte direta da qual buscamos apreender as variáveis sociológicas presentes nos processos de ressocialização.

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1. O ADOLESCENTE COMO SUJEITO DE DIREITOS

Objetivamos neste capítulo fazer uma abordagem conceitual de adolescência, uma vez que, a concepção das peculiaridades desta fase da vida, bem como a percepção da construção histórica do seu conceito e seu status como sujeito de direitos se faz necessária na perspectiva de situar os sujeitos da pesquisa, o lócus na qual ela se desenvolveu e os aportes legais que estruturam as políticas socioeducativas e a ação das instituições.

Desenvolvemos, ainda, neste primeiro capítulo a evolução histórica do conceito de adolescência além da demonstração do avanço da legislação internacional e nacional para a proteção dos Direitos dos adolescentes.

1.1 Conceito de Adolescência

Desde a idade antiga até o início da idade moderna não se admitia entre os adultos considerar a idéia da existência de pessoas em desenvolvimento, pois para eles não existia nenhuma diferença em qualquer aspecto que seja entre as pessoas, fossem elas crianças, adolescentes ou adultas. Crianças e adolescentes eram tratados por seus familiares e demais membros da sociedade como se adultos fossem e dessa forma tinham de viver a vida privada e assumir responsabilidades como estes, devendo assim, trabalhar, na maioria das vezes, em árduas jornadas de trabalho braçal, na esfera civil:

casavam e mantinham uma vida sexual, muitas vezes ainda crianças, assim como, na esfera penal, eram julgados e condenados a cumprirem penas semelhantes às penas dos adultos (ARIÈS, 1978).

Em diálogo com Ariès (1978), percebemos que tanto a infância como a adolescência foram uma invenção da modernidade, portanto, uma categoria recentemente constituída na história da humanidade. Hoje ambas são compreendidas como categorias históricas, que recebe significações e significados, porém nem sempre foi assim. Trata-se de um conceito construído histórico e socialmente cuja análise deve se dar à luz das diversas sociedades no contexto de suas influencias teóricas e de novos paradigmas econômicos, culturais e políticos.

Essa fase da vida teve sua identificação como uma fase especial de transformação da existência humana no final do século XIX, quando houve o reconhecimento da adolescência em suas características de desenvolvimento biológico,

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neurológico, psicológico, social e histórico, possibilitando assim um reconhecimento do sujeito adolescente e a separação cronológica da adolescência por meio da delimitação das idades onde as pessoas em desenvolvimento não foram mais consideradas como crianças nem tão pouco, poderia ser considerada como pessoas adultas.

Ariès (1978) entende que a adolescência surgiu junto com a Modernidade, a partir do século XX. Dizendo que:

O primeiro adolescente moderno típico foi o Siegried de Wagner; a música de Siegried, pela primeira vez, exprimiu a mistura de pureza (provisória), de força física, de naturismo, de espontaneidade e de alegria de viver que faria do adolescente o herói do nosso século XX, o século da adolescência (ARIÈS, 1978, p. 46).

Para o referido autor, a implantação do sentimento de infância, no século XIX, foi fundamental para a emergência da adolescência como uma fase com características peculiares e únicas, distintas dos outros momentos do desenvolvimento humano.

Ainda na perspectiva de desvendar variáveis sociológicas que atuam positivamente na vida dos sujeitos da nossa pesquisa, consideramos significativo analisar os trabalhos de pesquisa de Andreas Flinter (1968), pois este autor relaciona os sistemas de educação, cultura, religião com a juventude da contemporaneidade, colaborando, assim, com nossos estudos, pois suas análises a respeito do processo formativo do jovem colabora para uma real percepção das variáveis sociológicas influenciadoras da construção de vida dos adolescentes reintegrados a sociedade e do mesmo modo na compreensão dos que não conseguem se integrar ou se reintegrar socialmente. Flitner (1968, p. 37-68) diz: “Já no Século XVIII havia sido descoberto o relacionamento entre o processo formativo do jovem e o seu meio, isto é, seu mundo de vida social, espiritual e moral”.

Frota (2007), por sua vez, destaca que na maioria das vezes, os estudiosos do desenvolvimento humano definem que ser adolescente é viver um período de mudanças físicas, cognitivas e sociais que, juntas, ajudam a traçar o perfil desta população.

Discutem também segundo a autora, a adolescência como uma fase do desenvolvimento humano que faz uma ponte entre a infância e a idade adulta. Nessa perspectiva de ligação, a adolescência é compreendida como um período atravessado por crises, que encaminham o jovem na construção de sua subjetividade. Porém, a autora assevera que a adolescência não pode ser compreendida somente como uma fase de transição. Assim define-se adolescência como um período da vida humana entre a puberdade e a adultíci.

Referências

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