1. O ADOLESCENTE COMO SUJEITO DE DIREITOS
1.2 Evolução Legal dos Direitos do Adolescente
1.2.3 Estatuto da Criança e do Adolescente: Objetivos e Estrutura
Durante a década de 1970 e início da década de 1980 o país vivia em graves crises econômica, social e política, gerando níveis insuportáveis de descontentamento na população pelos diversos problemas econômicos e sociais pelos quais passavam. A insatisfação popular foi refletida em grandes manifestações nas ruas do país exigindo da classe política a realização da elaboração de emenda à constituição que tornaria possível a realização das eleições diretas, o voto popular para presidente da república e a tão sonhada redemocratização do Brasil. A aprovação da emenda não foi realizada pelo ainda governo militar, mas os partidos de oposição indicaram um nome aprovado pela
população para concorrer à presidência com o candidato militar, este candidato apoiado pelo povo era Tancredo Neves, sendo seu vice José Sarney. Apesar de ter vencido a presidência da República, o então presidente Tancredo Neves, faleceu antes de tomar posse, assumindo assim a presidência o vice do presidente eleito, José Sarney.
Durante o período dos anos 1980 e 1990 enquanto a classe política e poucos ricos da sociedade viviam suas vidas capitalistas e conforto financeiro, a grande maioria da população brasileira se encontrava na pobreza, no desemprego e com péssimo atendimento de políticas públicas de saúde, educação, moradia. O elevado número de pais e mães de família desempregados faziam com que estes abandonassem seus filhos, fizessem deles menores pedintes, os levassem a ser prostituirem ou a trabalhar em serviços que exploravam todo o tempo e a força das crianças e adolescentes (BRASIL, 2009).
O elevado número de crianças e adolescentes em situação de miséria e abandono era de tão grande presença e expressão nas ruas e na sociedade brasileira que possibilitou a formação de grupos sociais e movimentos em prol da proteção dos menores e seus direitos (BRASIL, 2009).
Tais movimentos sociais alcançaram reconhecimento e expressão por parte da sociedade e especialmente da classe política existente no início dos anos 1980 e que estariam presentes nas comissões para a assembleia constituinte da Carta Magna de 1988. A presença de textos contendo os direitos e proteção a criança e ao adolescente na próxima Constituição brasileira, de 1988, seria a oportunidade para a inclusão de previsões e garantias legais a serem implementadas no país visando à mudança da realidade social de crianças e adolescentes abandonados pela família ou que cometessem atos infracionais, à época ainda tratados como crimes (BRASIL, 2009).
Assim, a nova constituição, de 1988, inaugurava um período na história do Brasil, e até em nível internacional, de proteção à criança e ao adolescente ao estabelecer em seu texto no art. 227, que:
É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão (BRASIL, 1988).
Nota-se que o legislador passou a considerar dever de todos a garantia de direitos sociais mínimos à criança e ao adolescente, aliás não poderia ser diferente. O
detalhe é que a partir de 1988, com a promulgação do Estado Democrático de Direito, o legislador originário constituinte avocou para o Estado a obrigação, também conferidas à família e à sociedade (BRASIL, 1988).
O ECA é criado como complementação ao artigo 227 da CF e reafirma o cumprimento das orientações dadas pela Convenção Internacional dos Direitos da Criança que fora aprovada no ano de 1989, recebida pelo Brasil. Apontou para a necessidade de elaboração de uma lei que previsse o sistema de direitos, proteção e demais garantias que tornasse concreta o que previa texto constitucional.
O Estatuto, nascido em 13 de julho de 1990, trouxe consigo uma inédita compreensão a respeito de crianças e adolescentes, concebendo-os como sujeitos de direito e lhes atribuindo mais direitos que os conferidos aos demais cidadãos – “direitos específicos que lhes assegurem o desenvolvimento, o crescimento, o cumprimento de suas potencialidades, o tornarem-se cidadãos adultos livres e dignos” (VERCELONE, 1992, p.18).
As medidas socioeducativas são apresentadas pelo ECA da mesma forma que a regulamentação do procedimento para apuração do ato infracional no Sistema Jurídico de garantia dos direitos do menor:
Capítulo IV - Das medidas Socioeducativas Seção I - Disposições Gerais (arts. 112 a 114) Seção II - Da Advertência (art. 115)
Seção III - Da Obrigação de Reparar o Dano (art. 116)
Seção IV - Da Prestação de Serviços à Comunidade (art. 117) Seção V - Da Liberdade Assistida (arts. 118 e 119).
Seção VI - Do Regime de Semiliberdade (art. 120). Seção VII - Da Internação (arts. 121 a 125)
Capítulo V - Da remissão (arts. 126 a 128).
Título IV - Das medidas pertinentes aos pais ou responsável (arts. 129 e 130). Capítulo I - Disposições gerais (arts. 131 a 135)
Capítulo II - Das atribuições do conselho (arts. 136 e 137) Seção I - Disposições Gerais (art. 145)
Seção II - Do Juiz (arts. 146 a 149)
CAPÍTULO III - DOS PROCEDIMENTOS Seção I - Disposições Gerais (arts. 152 a 154)
Seção II - Da Perda e da Suspensão do Poder Familiar (arts. 155 a 163) Seção III - Da Destituição da Tutela (art. 164)
Seção IV - Da Colocação em Família Substituta (arts. 165 a 170)
Seção V - Da Apuração de Ato Infracional Atribuído a Adolescente (arts. 171 a 190) Seção VI - Da Apuração de Irregularidades em Entidade de Atendimento (arts. 191 a 193)
Seção VII - Da Apuração de Infração Administrativa às Normas de Proteção à Criança e ao Adolescente (arts. 194 a 197)
Seção VIII - Da Habilitação de Pretendentes à Adoção (arts. 197-A a 197-E)
Capítulo IV - Dos recursos (arts. 198 a 199-e). Capítulo V - Do ministério público (arts. 200 a 205) Capítulo VI - Do advogado (arts. 206 e 207)
Capítulo VII - Da proteção judicial dos interesses individuais, difusos e coletivos. (arts. 208 a 224)
Título VII - Dos crimes e das infrações administrativas Capítulo I - Dos crimes
Seção I - Disposições gerais (arts. 225 a 227)
Seção II - Dos crimes em espécie (arts. 228 a 244-b)
Capítulo II - Das infrações administrativas (arts. 245 a 258-b) Disposições Finais e Transitórias (arts. 259 a 267)
Enfim, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) surgiu como uma expressão de progresso em defesa dos direitos e da vida das crianças e adolescentes. Ao menos em termos de previsões legais para se alcançar tais garantias. Como uma das legislações mais avançadas do mundo nesse sentido, assim, nota-se que o ECA, prevê cuidados com seu público alvo desde o seu acolhimento, alimentação, moradia, educação, esportes, profissionalização, como também as peculiaridades necessárias para a aplicação do devido processo legal em caso de cometimento de ato infracional. Dessa forma, as peculiaridades no atendimento do adolescente em conflito com a lei, desde sua apreensão, encaminhamento às autoridades competentes e o cumprimento de
medidas socioeducativas estão previstos no texto com todos os cuidados que devem ser fornecidos às pessoas em desenvolvimento.