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E D U C A R E C IV IL IZ A R : U M P R O J E T O D A S E L IT E S lE T R A D A S
P A R A O C E A R Á N O F IN A L D O S É C U L O X IX
EDUCArE ANO CIVILIZAR: A PROJECT DF ELITES LETRADAS
FOR CEARÁ IN THE LATE 19TH CENTURYponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
Ma noel C a r /os F onseca de Alenca r
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Professor Ms. (FECLESC-UECE).
R e s u m o
Com este artigo, busco compreender o posicionamento dos intelectuais e a imprensa em geral diante da precariedade da educação no Ceará no final do século XIX. Entendo que eles possuíam uma visão preconceituosa do povo e por isso queriam com seus escritos, redimi-Io do estado de ignorân-cia que acreditavam estar imerso.
Abstract
With this article, I try to comprehend the intellectuals' standing and the printing in general in front of Ceará's education precariousness in the last years of the 19th Century. I understand they held a harmful view about the people. Therefore they wanted, with their writings, to redeem them by the ignorance
state that they believed had been immersed.
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Educar e Civilizar: Um Projeto dos Elites Letradas para o Cearó no Final do Século XIX
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Até 30 ou 40 anos atrás, a capacidade de ler e contar eram privilé-gio de uma parcela mínima da população brasileira. O acesso à escola era muito limitado, sobretudo nas regiões mais atrasadas e nos locais mais distantes das cidades. Não era raro encontrar uma pessoa que sequer sou-besse assinar o nome. Diante desse quadro, não eram, e ainda não são, raros os discursos que apontam a educação como a única saída para o país alcançar o tão sonhado progresso econômico e social. Se ainda hoje está em voga tomar a educação como panacéia para nossos males, ima-gine há mais de 100 anos, em que a precariedade do ensino e dos meios de comunicação eram patentes.
Este artigo visa à analise da atuação dos intelectuais, nos campos que dispunham, sobretudo a imprensa, diante da precariedade do siste-ma educacional no Ceará na segunda metade do século XIX. A literatura seria um dos instrumentos no sentido de instruir e educar o povo. Dessa forma, os letrados, através de suas produções, buscavam cumpri r o papel de educadores e faziam de suas obras libelos em prol da salvação do povo do mar de ignorância e barbárie em que acreditavam o país estar imerso.
Ao avaliar a condição e atuação dos intelectuais no império e na república velha José Murilo de Carvalho afirma que estes eram como uma
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ilha de letr a dos num ma r de ignor a ntes.
A frase é, sem dúvida, paradigmática, quando nos deparamos com os dados e os depoimentos sobre o ensino do Ceará na segunda metade do século XIX. Segundo da-dos transcritos por Olinda, no governo de Pedro Leão Veloso (1881-1883), para uma população estimada de 750 mil pessoas, tínhamos apenas 209 escolas - 105 masculinas, 88 femininas, 16 mistas.(d.
OLlNDA, 2004, p.10- 11).
Até 1759, a educação foi deixada a cargo dos jesuítas, que foram certamente os primeiros responsáveis pela instrução no período colonial. Com sua expulsão, o Ceará procurou suprir sua ausência com a institui-ção de um subsídio literário com o fito de incentivar as escolas primárias,
que ensinavam a ler, escrever e contar. Apesar da boa intenção, a inicia-tiva pouco logrou êxito e a educação pública permaneceu caminhando sob bengalas. Não
à
toa, nossa intelectual idade foi toda ela formada, em princípio, por mestres particulares, seguindo a formação em escolas e universidades européias (CARVALHO, 1996)Na instituição do ensino público, primeiro fruto de legislação naci-onal, na carta de Lei de 15 de outubro de 1827, além da excessiva
M onoel Corlos Fonseca de Alencar
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ponsabilidade dada ao presidente da província, destaca-se o artigo 15 no qual lias escolas erguidas pelos estatutos atuais que se não opuseram a presente lei, os castigos serão praticados pelo método Lancaster".
Copiado da França, o método Lancaster representa a saída encon-trada pelas autoridades para alfabetizar o maior número possível de pes-soas em curto prazo de tempo. Já que o mesmo funcionava como rnultiplicador' de pessoas capazes de ensinar a "ler, escrever e contar", isso entendido como educação
prim ária".
A adoção desse método e a sua permanência em outras leis voltadas para o ensino em Fortaleza eviden-ciam a preocupação das autoridades em aumentar de forma acelerada o número de pessoas instruídas na província, apesar das dificuldades.A dificuldade da administração pública em efetivamente instituir a educação pública na província é observada pela distancia de tempo en-tre a lei e sua aplicação. A Escola Normal foi criada temporariamente pela lei no 91, de outubro de 1837, se arrastou por algum tempo, e só foi efetivamente criada em 28 de dezembro de 1878. A importância da Esco-la Normal, como sabemos está em formar os profissionais de ensino, o que certamente contribuiria para o efeito multiplicador da educação.
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Segundo Plácido Aderaldo Castelo, surge, no ano de 1844, no go-verno de José Maria Bittencourt, o primeiro e, na verdade, o mais impor-tante ato no setor educacional, que daria novos rumos ao ensino provin-cial: a criação do Liceu. O Liceu parece ter sido realmente o maior em-preendimento educacional da administração pública do século XIX.Isso pode ser observado pelo número razoável de cadeiras criadas na província e no salário não tão irrisório recebido pelos professores, um
alento
à
situação pintada pelo deputado José da Costa Barros em 1823:ponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
A minha pr ovíncia há qua tr o a nos que nã o tem um só mestr e de la tim: nã o é por que ha ja fa lta de mestr es, ma s por que nã o cor r esponde o pa ga mento; ele é tã o mesquinho, que ninguém se a foita a ser mestr e de gr a má tica la tina , nem mesmo de pr imeir a s letr a s; e se a lgum se pr opõe a isso, é sempr e um miser á vel como eu conheço, que a nda embr ulha do em timã o gr osso, que está ca r -r ega do de filhos e que nã o sa be le-r e nem esc-r eve-r . (CASTELO,
1970, p. 46).
As más condições em que se encontrava o ensino no Ceará emer-gem de vários depoimentos de educadores e outros intelectuais preocu-pados com a educação na província. A abnegação de Dom Lino e sua
Educar e Civilizar: Um Projeto dos Elites Letradas paro o Ceoró no Final do Século XIX
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dificuldade
em realizar a contento sua obra educacional
são exemplos
contundentes do estado de abandono em que se encontrava a nossa
ins-trução. Em depoimento colhido por
J.
M. Sousa, Dom Lino diz:
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Na fa lta de ca r teir a s ou ba ncos inclina dos pa r a a escr ita , fui obr i-ga do a coloca r a s mesma s no meio da sa la e fixa r sobr e ela s os tinteir os, a fim de que os a lunos pudessem escr ever , ma is comoda -mente. C omo, por ém, essa s mesa s, a pesa r de ocupa r em gr a nde pa r te da sa la , nã o podia m a dmitir todos os a lunos, a o mesmo tem-po, fica va m estes na contingência de esper a r , uns pelos outr os, r esulta ndo da í um ta l ou qua l simulta neida de de distr ibuiçã o dos tr a ba lhos. O s a lunos que chega va m pr imeir o e a cha va m a inda um luga r va go na s mesa s pa ssa va m escr ever , enqua nto os outr os que ia m chega ndo, poster ior mente, er a m obr iga dos, pa r a nã o per de-r em tempo, a ocupa r -se com o pr ocesso da leitur a ... (Apud OLlNDA, 2004,
p.
47)A atenção a educação moral é outro elemento que compõe a
ideo-logia da época, e é parte de uma percepção generalizada de parte das
elites de que o país encontra-se mergulhado em costumes dissolutos.
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Nas instruções de 10 de julho de 1853 vale notar o artigo 58, que
diz que os professores
"cuida r ã o nã o só da educa çã o intelectua l de seus
discípulos, fa zendo-Ihes
cultiva r a memór ia e a inteligência como a
edu-ca çã o mor a l que é ver da deir o ensino, for ma ndo
o cor a çã o e dir
igindo-lhe os sentimentos'. (ApudC ASTELO ,
1970, p. 108)
Apesar do caudal de idéias novas que povoavam a província
pro-curando antená-Ia com ideais modernos, positivos e laicos, nossas elites
letradas não deixaram de enxergar a importância
da educação moral e
religiosa na formação do povo. Isso é parte de uma compreensão
genera-lizada de que não bastava o conhecimento
intelectual
ou informativo
para incutir no povo bons hábitos, costumes e disciplina.
Nesse sentido,
escreveu Ercília Braga:
A moder nida de dos pr ofessor es pr imá r ios ja ma is deixou de vincu-la r instr uçã o e for ma çã o r eligiosa e de deposita r na escovincu-la a s espe-r a nça s e o futur o da socieda de pela possibilida de que esta tinha de nã o a pena s instr uir , ma s ta mbém de educa r . E sse último conceito engloba va os a spectos intelectua l, r eligioso, mor a l e cívico (OLlNDA, 2004,
p.
51).M anoel Carlos Fonseca de Alencar
A partir disso, podem os com preender os instrum entos de punição,
ou disciplinadores, associados ao ato de educar, pois não bastava apenas
instruir, m as levar os alunos pelo cam inho da m oral e dos bons hábitos. E
isso só era possível, com o acreditavam nossos educadores, através de
corretivos disciplinares contundentes.
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°
depoim ento de João B rígido ém uito revelador dessa postura.
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A escola er a fr equentemente um a mbiente desa gr a dá vel, que me-tia medo àcr ia nça da : imper a va m os ma is a bsur dos métodos peda -gógicos. A cr uelda de - peculia r a os homens de gover no, esta va a ssocia da àidéia de ensino. E sse ponto de vista começa va no pr ó-pr io ler . onde os pa is sevicia va m os filhos a chicote. Q ua ndo o mestr e na escola , como segundo pa i, r ecor r ia m a os pr ocessos vio-lentos pa r a cor r igir a coleçã o de monstr ozinhos enfi/eir a dos nos ba ncos, conta va com a a pr ova çã o tá cita e completa da fa mília
A pa lma tór ia er ao ca stigo usua l. O númer o de bolos va r ia va numa esca la esca nda losa , ma tiza ndo enor memente a s possibilida des dos ca stigos ... Nos ca sos ma is difíceis, qua ndo o mestr e julga va ta is pena s insuficientes pa r a a fa lta cometida , punia a nu a s ná dega s do pa ciente de qua tr o pés, fla gela ndo-a s a chicote (Apud OLl N DA,
2004, p. 20).
C om o vem os, educar está associado
à
ideia de controle social edisciplinam ento. A s escolas, na m odernidade nascente, cum priram o
al-m ejado papel de controlar e disciplinar as populações urbanas,
sobretu-do aquelas que se apresentavam com o incôm odo
à
produtividadecapita-lista.
E sse aspecto torna-se m ais visível quando tom am os a lei 1759, de 5
de agosto de 1856, que autoriza a criação de um a C asa de E ducando,
para o recolhim ento de m eninos órfãos e desvalidos, m aiores de 7 e m
e-nores de 18 anos. A lém da leitura, escrita, contabilidade, m úsica
instru-m ental etc, a lei alm ejava ensinar a esses m eninos um ofício. Podem os
destacar da lei as norm as severas de ensino. O s horários de levantar,
estu-dar, orar e até perm anecer em silêncio entre m eio-dia e 13:00 horas são
rigorosam ente estabelecidos. E ram escolhidos decuriões responsáveis por
inspecionar os outros alunos, que não podiam deixar o estabelecim ento,
a não ser com seus m estres: "Q uanto
à
disciplina: os educandos são obri-gados a cum prir, com respeito e obediência"(Apud
C A ST E L O , 1970, p. 178).Educar e Civilizar: Um Projeto dos Elites letrados poro a Cearó na Final do Século XIX
D essas norm as podem os apreender facilm ente duas preocupações
das autoridades: um a era lim par as ruas dos pobres, órfãos e desvalidos,
internando-os em estabelecim entos que os educassem e disciplinassem ;
outra é adestrar esses m eninos para o trabalho, ou m elhor, torná-Ios
pro-dutivos. A s norm as rígidas funcionam com o corretivo para essas crianças
pobres que, com o acreditavam as elites, estavam im pregnadas de
costu-m es dissolutos e degenerados, tornando-se, certam ente, um perigo para a
sociedade disciplinar que alm ejavam instaurar.
M oses Pechm an m ostrou que no R io de Janeiro, a vinda da fam ília
R eal tornou m ais intensa a ingerência das autoridades sobre o cotidiano
da cidade, policiando hábitos e costum es. O s m ecanism os utilizados
para polir (controle) eram desde a presença das autoridades policiais até
crônicas em jornais e m anuais de bons hábitos e tons. T ais policiam entos
sobre os costum es certam ente se espalharam pelas províncias, um a vez
que a capital do Im pério, sede da C orte portuguesa, funcionava com o luz
a irradiar outras cidades. O autor tam bém nos m ostra o tratam ento
dife-renciado dado às classes sociais. A os pobres, vagabundos e ociosos im
-perava a prática da perseguição, das prisões e internam entos, às cam adas
abastadas recom endava-se m anuais de bom tom e civilidade, sem esque-
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cer a educação rígida e severa (PE C H M A N , 1999).O quadro acim a pintado nos ajuda a entender a necessidade da
intelectualidade cearense em contribuir, através de suas obras, com a
ele-vação do nível de instrução da província. Podem os, então, dizer que
diante da precariedade do ensino na província, os intelectuais se utilizam
da im prensa com o instrum ento educativo e form ativo. E la seria o
princi-pal m ecanism o para levar instrução ao povo. N esse sentido, é com um
encontrar nos jornais referências ao papel de educadores ou form adores
dos letrados, assim com o um a denúncia à precariedade tanto do sistem a
de ensino da província com o do estado pouco adiantado da im prensa
(FE R N A N D E S, 2006, p. 18-61).
Im pregnados de um pensam ento cientificista-, a intelectual idade
finissecular, acreditava que o saber, sobretudo o inform ado pela ciência,
fosse capaz de redim ir o B rasil de um passado im erso nas trevas do
obs-curantism o, associado ao pensam ento católico e à estrutura política e
social vigente, no caso, a m onarquia escravista. C om o vem os, entre essa intelectual idade associa-se a m ilitância política e a ideologia da
transfor-m ação social a partir do conhecim ento letrado (O L IV E IR A , 1998).
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É
exatam ente essa postura que levará a intelectual idade a secolo-car no papel de arautos do saber, donos da verdade, e utilizar os m
M anoel Carlos Fonseca de Alencar
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mos que estavam
àsua disposição para propagar a luz do saber, redimir o
povo ignorante e colocar o Brasil nos trilhos do progresso e da
civiliza-ção. Vale lembrar que a Revolução Francesa foi a grande inspiradora
des-sa intelectualidade,
pois, como pensavam, foi o resultado da intervenção
consciente do povo com participação ativa dos intelectuais, colocando
abaixo o Antigo Regime e tornando a França um referencial de progresso
e civilização.
A principal trincheira desses intelectuais, combatentes da verdade,
mosqueteiros letrados, no dizer de Nicolau Sevcenko, era a literatura"
(SEVCENKO, 1995). O período que Dolor Barreira chamou de efervescência
literária no Ceará nos mostra que cresceu substancialmente o número de
periódicos que circulavam em Fortaleza. Para além da imprensa
político-partidárias, circulavam na província uma porção de jornalecos, chamados
de pasquins, que se pretendiam moralizadores dos costumes. Essatarefa
moralizadora
está presente em praticamente toda a literatura, seja ela
jornal ística, romanesca ou cientifica. Aderaldo Castelo ao tratar da história
do ensino no Ceará, nos mostra o quanto os projetos de fomento do ensino
no Ceará estiveram associados à intenção da elite letrada de educar mora-
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lizando, não apenas as elites, mas sobretudo o povo.
O primeiro
jornal cearense de cunho científico
e cultural
foi
A
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F r a ter n ida de.
Sendo o órgão de divulgação da Academia Francesa, o
pe-ríodo carrega a marca do pensamento cientificista
da elite letrada e de
seu engajamento em prol do progresso da província. Um dos traços
im-portantes de seu programa era a instituição do ensino laico. Informados
pelos pensadores positivistas e evolucionistas europeus, seus membros
professavam a ideia de que o ensino exclusivamente religioso atravancava
o progresso e desviava o país do rumo trilhado pelos países civilizados da
Europa. Eles acreditavam que era necessário estimular o ensino das
ciên-cias, dos ofícios e das letras, já que esses eram importantes para o
pro-gresso do país, no rumo de uma sociedade industrial e urbana.
A preocupação com a educação é notável em sua iniciativa de
fun-dar uma escola noturna voltada para a educação do povo, denominada
Escola Popular. Aberta ao público, a escola promovia conferências
abran-gendo os mais diversificados temas. É também de iniciativa dos
intelectu-ais a fundação dos Gabinetes de Leitura, outra iniciativa em prol da
ele-vação do nível de instrução da província.
Depois da iniciativa pioneira da Academia Francesa, muitos
Gabi-netes foram fundados no interior do Ceará. Além, claro, de ser um espaço
de consulta e de leitura, os Gabinetes também procuravam
promover
palestras noturnas O .
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e p r o mo ver esco l çao. ed u ca r ein str .
ma is va r ia d o s a ssu n to s a sSen to tu r n a so n d e o s in telectu a is v~ ~ :o p o vo . A p r » :
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o r n o u co mu a va r n so b r e o suOlnzena, de p r o p r ied a d e d o C /u b
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Educor e Civilizor: Um Pro;eto dos Elites letra dos poro o ( . .
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(CA-MINHA, 1 8 9 5 , p. 4 ).
Como vemos, essa geração de escritores, informada pelo
pensa-mento científico, procurava fazer de suas obras libelos em sua jornada de
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combate a ignorância, que acreditavam reinar na província. A própriaideia de romance de costumes, característica do naturalismo, evidencia a função moralizadora que os escritores atribuíam às suas obras: denunciar para reformar. Adolfo Caminha e outros literatos que abraçaram o natura-lisrno" - atribuiam um valor documental às suas obras, fazendo delas libelo em prol da reforma do país.
Dessa forma, o provincianismo, o esnobismo burguês, a ignorância da elite, o arrivismo, a civilização de fachada abraçada por nossas elites, a má educação, a roubalheira política ete. são alvos da pena ferina de Adolfo Caminha. No seu romance liA Normalista", o que vemos
é
um escritor comprometido com um ideário civilizador que acreditava não estar presente na sociedade conservadora e chinfrim de Fortaleza. Co-mungando com outros intelectuais a ideia de uma República das Letras, professavam ser o saber e o letramento os elementos basilares da repúbli-ca que almejavam (CARDOSO, 2000). A crença no papel do saber e da educação como veículo para redimir os males do país se multiplica nos jornais letrados. Oliveira Paiva escreveu na Quinzena:Na d a étã o ca p a z d e fo men ta ro p a tr io tismo e a cen d er o s b r io s d e u ma n a çã o co mo a liter a tu r a .
O
livr o a co mp a n h ao
in d ivíd u o o n d e158
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M anoel Carlos Fonseca de Alencar
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quer que ele vá . C usta -lhe ba r a to. Q ue ma is? D eve ser uma a r ma pa r a o povo cea r ense. E sta é a ideia do C /ub Liter á r io: - O LIVRO E A P ALA VRA E M AÇ ÃO -.É por isso que tendo inicia do a publica -çã o d A Q uinzena , va i ina ugur a r br evemente a s sua confer ência s; e a ssim ir emos der r oca ndo, de ba stilha em ba stilha , a tir a nia da ignor â ncia - indigna e ba ixa a té pa r a os a nima is. Q ue o povo nã o seja r ebelde à voz dos seus melhor es a migos; que a socieda de cea r ense cor r a a ouvir a s pa la vr a s sincer a s a r r a nca da s àpa r te ma is nobr e da nossa a lma ; que a pr ovíncia lembr e-se de que é feita pa r a um futur o de glór ia s e bem-esta r : que os cea r enses, ca da um de
per si, busquem em si mesmo a intuiçã o de que o homem na sceu
pa r a a doce a legr ia do bem, o que só se consegue pela cultur a de si pr ópr io (A quinzena, 31 de julho de 1887).
o
jornal A Quinzena está marcado por um notável otimismo de seus membros quanto ao seu papel na jornada do Brasil junto ao progres-so e a civilização. Tendo circulado três anos depois de o Ceará abolir precocemente a escravidão, tratou de exaltar os feitos do povo cearense, acima de tudo de sua intelectual idade, na luta contra o obscurantismo do cativeiro. Daí o Ceará ser conhecido como TERRA DA LUZ. E a literatura - ou melhor, o saber letrado = , pensavam, tinha cumprido um papelfun-damental nesse processo.
Muito ilustrativo dessa
estr utur a de sentimentos
presente entre os intelectuais do final do século XIX com respeito ao seu papel de conduto-res do povo rumo ao progresso material e intelectual da província, é a postura dos membros da Padaria Espiritual. O jornal Opã o
propunha contribuir com o melhoramento moral e intelectual da província através de várias iniciativas: campanha para o aumento do acervo da Biblioteca Pública, denúncia dos espaços da cidade que representavam sociabilida-des não-condizentes com a civilização e a promoção de atividades letra-das educativas que mostrem a importância do saber e do letramento. Apesar do sarcasmo e humor que fervilhavam nas páginas dO Pão, seus membros viam em suas ações seriedade e compromisso. É ainda Adolfo Caminha, no seu artigo quinzenal intitulado "Sabatina", que ataca impiedosamente a burguesia local por esta não compreender os altos in-tentos dos letrados e de os ter perseguido; eles que eram ...C .. )
os a r gona uta s
intr épidos, r evolucioná r ios, a migos da ver da de (...).
P or que, convença m-se os que vêm tudo - céus e ter r a - pelo pr is-ma fa lso do inter esse pessoa l e do pr econceito, si a huma nida de
Educar e Civilizar: Um Projeto das Elites letrados poro o Cearó no Final do Século XIX
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a inda sofr e e geme, a culpa é dela , da Bur guesia , esse fla gelo de toda s a s gr a ndes vir tudes, esse a lgoz da estética e do bom gosto,
cuja s a spir a ções,
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emsuma , r esumem-se n'este pr eceito ignobil: -encher bem a pa nça ega nha r dinheir o (O Pão... da PadariaEspiri-tual. 6 de novembr o de 1892).
C om o já colocado acim a, nossas elites letradas se preocupavam
em educar e civilizar não apenas o povo, m as as próprias fam ílias de
cabedais que não com preendiam o papel do saber e da educação para o
progresso do país. C ontudo, a políticas e as ações voltadas às diferentes
classes eram bem diferentes.
A necessidade de instruir e educar o povo era tam bém tônica dos
discursos dos próprios operários em seus jornais. A delaide G onçalves
de-m onstrou que na im prensa operária era pauta de discussão a necessidade
da instrução e educação para os trabalhadores, visando a 11
eleva çã o sociel,
intelectua l
emor a l'
dos m esm os. C om partilhando com a im prensa liberal a ideia de instrução com o instrum ento responsável pelo progresso m aterial e espiritual da província, a im prensa operária veiculou artigos criticando oabandono da instrução pública, a necessidade de m elhoram ento da B ibli-
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oteca Pública, com o tam bém a com preensão da im prensa com o im
portan-te m ecanism o de educação e instrução do povo; fundavam seus gabinetes
de leitura e prom oviam palestras abertas ao povo. T ranscrevo aqui trecho
do Jornal O
C olossa l,
citado por A delaide G onçalves:A instr uçã o é tã o necessá r ia pa r a ilustr a r nosso espír ito, como o a limento é indispensá vel pa r a o sustentá culo do cor po. O nde nã o há instr uçã o é mor ta a civiliza çã o; nã o tem possibilida de de pr o-gr esso a lgum, quer mor a l, quer ma ter ia l.
A cha ve que a br e uma escola de instr uçã o educa tiva , é a mesma que fecha um cá r cer e, onde só r esulta o cr ime emsua s múltipla s for ma s.
Nã o pode ser sociá vel um povo que vegeta àsombr a da ignor â n-cia e do indifer entismo.
O homem a quem fa lece a instr uçã o, emolhos que nã o vêem e
ouvidos que nã o ouvem, por que esses, como a queles, se a cha m cer r a do pela mã o fér r ea da ignor â ncia .
Se um pa ís se diz a dia nta do no ma pa da s na ções culta s, é por que nele penetr ou a civiliza çã o por meio da instr uçã o e do estudo (ApudG O NÇ ALVE S, 2006, p. 61).
M anoel Carlos Fonseca de Alencar
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discurso que associa educação e trabalho como elementos de regeneração social também está presente no discurso da imprensa operá-ria. Há uma sensível preocupação por parte dos partidos operários em serem bem vistos pelas classes elevadas e desfazer a visão negativa sobreas classes pobres. No jornal O
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O per á r io, vemos:TSRQPONMLKJIHGFEDCBA
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tr a ba lho e a educa çã o sã o os ca minhos por onde deve se guia r o oper á r io. D o tr a ba lho vem a for ça , a muscula tur a que a z desa pa -r ece-r a indolência e a mo-r osida de. D a educa çã o na sce o bem es-ta r da fa mília , a economia e o cr édito que sã o a única felicida de do homem pobr e. D o tr a ba lho r esulta o desenvolvimento da s a r tes e da indústr ia (...) e a educa çã o é que pr epa r a os homens pa r a toda s a s investiga ções (...) Assim, pois, a r tista s, tr a ba lha i pa r a vossa educa çã o, cer tos de que dela r esulta r á vosso futur o, da vossa fa mí-lia e da vossa pá tr ia ."O oper á r io nã o é um a nima l ir r a ciona l que a pena s se deva con-tenta r com o a limento; é pr eciso ter confor to pa r a a s luta s, ma s o confor to ema na do da educa çã o de que a té entã o estã o a r r eda dos. Tr a ba lha r nã o é o ba sta nte; é pr eciso pr oduzir , e pa r a pr oduzir é pr eciso estuda r e a pr ender . Sem r ecur sos pa r a a lca nça r esse fim, o oper á r io deve buscé-Io na uniã o da fa mília , no estudo da s coisa s e na compr eensã o do gr a nde livr o a que cha ma mos mundo (Apud GONÇALVES, 2006, p. 69).
A inserção mais efetiva do Brasil na sociedade capitalista, industrial e urbana, na segunda metade do século XIX, exigia a mudança da estrutu-ra e do imaginário social que adequassem o país ao ethos burguês em pleno desenvolvimento. A educação e o trabalho como elementos moralizantes e regeneradores compõem certamente uma estrutura de sen-timento presente nos mais amplos setores de nossa sociedade. A influên-cia das correntes iluministas européias justificava a atitude, muitas vezes arbitrária, de intervir na sociedade procurando discipliná-Ia e educá-Ia segundo os padrões civilizados e burgueses.
A própria noção de "civilização" - tão propalada por esses letra-dos - sempre foi uma forma de, historicamente, os europeus se coloca-rem como superiores aos povos colonizados, qualificando-os como in-feriores e bárbaros, justificando com isso todo um passado de interven-ções, abuso de poder, massacre de outras culturas, saques etc. (ELIAS,
1994). Sem fugir ao binômio "civilização e progresso", era muito difícil conceber caminhos alternativos aos impostos pelas metrópoles. Em nome
Educar e Civilizar: Um Projeto dos Elites Letrados poro o Cearó no Final do Século XIX
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deste mesmo binômio
os próprios nacionais continuaram,
mesmo
de-pois da independência,
a perpetuar
uma história
de preconceitos,
desmandos e chacinas contra as populações negras, indígenas,
mesti-ças e pobres do Brasi I.
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B ib lio g ra fia
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o
nome geral de monitores ou instrutores, ensinam as seções em I :: dos mestres, enquanto estes cuidam da ordem e vigilância mora o ::mister, porém, que antes ou depois da classe, recebam esses funcio rios a lição direta do mestre, para instruírem e se porem em condiçõ de instruir os demais" (CASTELO, 1970, p. 50).
2 "Mes mo na França, o sistema lancasteriano, ou 'monitoral siste
gorou até 1867, quando acabaram por abalar profundamente a o -social e delegar às crianças um poder que só poderia ser conferia homens feitos" (CASTELO, 1970, p. 50).
3 Chamo cientificismo, pois abrange o conjunto de correntes de
mento que estavam presente entre os intelectuais do final do
Apesar de suas diferenças, erigiam a ciência e o pensamento cie
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N o ta s
Educar e Civilizar: Um Projeto dos Elites letradas paro o Ceoró no Final do Século XIX
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como capaz de dar as respostas para os problemas da humanidade (cf. ALENCAR,2003)
4 Entendo que literatura não se refere apenas a obras de cunho ficcional,
mas um conjunto amplos de discursos que no final do século XIX pro-curam narrar a experiência brasileira.
S Dolor Barreira chama a atenção para o surgimento de vários pequenos
jornais na década de 1870 que se pretendiam se diferenciar dos jor-nais político-partidários, muitos se dizendo científicos e literários, ou-tros se auto-intitulando de moralizadores dos costumes. Vemos aí o processo de formação de um campo de saber que se julgava indepen-dente, procurando elevar a ciência e a literatura ao patamar da verda-de, longe das parcialidades dos jornais políticos (cf. BARREIRA, 1986). A respeito do papel controlador desses jornais, particularmente de pas-quins que pretendiam disciplinar através do riso, ver Silva (2002).
6 O naturalismo para essa geração representava os preceitos da ciência
presentes na literatura ficcional. Eles procuravam desvendar a verdade a partir de seus romances.