PÓS-GRADUAÇÃO
Metodologia da Pesquisa Científica
PÓS-GRADUAÇÃO
Disciplina
Metodologia da Pesquisa Científica Autor
André Luiz Glaser
Índice ÍNDICE
Tema 01: Epistemologia 09
Tema 02: Normatização 27
Tema 03: O Projeto e o Artigo 47
Tema 04: A Escrita 71
© 2015 Kroton Educacional
Como citar este material:
GLASER, André. Metodologia da Pesquisa Científica. Valinhos:
2015.
APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA
As páginas que se seguem dão início aos quatro textos que formam a leitura fundamental da disciplina de Metodologia da Pesquisa Científica. A preocupação central é a de fornecer ferramentas para que os alunos dos cursos de especialização nas mais diversas áreas da Anhanguera Educacional possam redigir um trabalho de conclusão de curso satisfatório.
Nossa meta, na elaboração deste material, foi a de evitar que o conhecimento teórico, por mais fascinante que seja, não se desprendesse do interesse prático de um curso voltado para a elaboração de um artigo científico. Essa afirmação necessita de alguma especificação, para que não fique a impressão de que esta disciplina se reduz a uma série de dicas para se escrever bem. Evidentemente, as dicas podem ser de grande ajuda no momento da elaboração e escrita de textos, mas de forma alguma ganharão status prioritário. O objetivo desta disciplina é o de orientar o aluno tendo como bases, por um lado, o seu próprio conhecimento e, por outro, formas de expandi-lo, para que possa construir um texto baseado em sua própria experiência.
Dizer que nossa preocupação é a de possibilitar que o aluno marque seu texto com a sua experiência não implica num reducionismo do conhecimento, como se o que o aluno sabe já fosse o suficiente. Nossa posição é diametralmente oposta e essa, como também o é da crença de que o acúmulo de conhecimento pelo conhecimento, desvinculado de sua realização na prática, bastaria. A maturidade de um texto científico depende de ao menos três fatores: conhecimento da área específica sobre a qual se debruça a pesquisa;
clareza quanto aos objetivos prático-teóricos do trabalho a ser realizado; e domínio não só da linguagem escrita, mas, sobretudo, do estilo acadêmico. Nosso interesse, dessa forma, será o de preparar as atividades desta disciplina sobre esse tripé, contribuindo para que o aluno organize da melhor forma possível o conhecimento que já possui, tenha condições de realizar uma pesquisa bem fundamentada e aprimore, se houver necessidade, a sua habilidade de escrita.
A grande quantidade de áreas profissionais às quais essa leitura é voltada coloca-nos o problema de até onde a generalização do que será dito pode responder aos interesses de
necessário tanto para que o interesse do aluno seja satisfatoriamente desperto quanto para que as diferenças entre os estilos dos artigos, de acordo com as áreas de atuação, sejam devidamente abordadas. Para sanar este problema, as leituras e textos comuns a todos buscarão um grau de especificidade que não comprometa o entendimento de seu conteúdo ou o interesse de alunos diversificados, e as atividades mais específicas serão trabalhadas diretamente com o tutor responsável pela disciplina.
Muitos alunos, pelos mais diversos motivos, possuem expectativas bastante baixas com relação a disciplinas de metodologia da pesquisa científica. É nosso interesse reverter esse quadro, concentrando nos aspectos fascinantes da pesquisa e da produção escrita de conhecimento, bem como da qualidade instrumental desse conhecimento nas mais diversas atividades profissionais. Um curso de especialização estabelece, em geral, um vínculo bastante estreito com a atividade profissional sobre a qual está organizado. Esta disciplina, em conjunto com as demais, pretende contribuir para a formação de um profissional preparado para enfrentar a realidade às vezes bastante exigente do mercado de trabalho atual.
Apresentação da Disciplina
TEMA 01
Epistemologia
LEGENDA
DE ÍCONES seções
Início
Referências Pontuando Vamos pensar
Verificação de leitura Glossário
Gabarito
Aula 01 Epistemologia
Objetivos
Geral:
Refletir sobre ciência e método científico.
Específicos:
Refletir sobre a verdade da ciência.
Discorrer sobre os tipos de conhecimento.
Definir as características da ciência.
1. A Esfera de Ciência: Delimitação de Campo
Tendo em vista que discorreremos sobre “metodologia da pesquisa científica”, devemos inicialmente definir, mesmo que brevemente, o que entendemos por “ciência” e por “método”.
Tratemos de cada conceito separadamente.
1.1 A Esfera da Ciência
O que é necessário para que possamos dizer que algo é científico? Nossa sociedade está tão encharcada de verdades “cientificamente provadas” que não raro perdemos a noção de algumas qualidades intrínsecas do que seria uma ciência séria. Longe de defendermos uma intenção idealista, capaz de ver a ciência como “esfera autônoma”, não devemos, por outro lado, aceitar indiscriminadamente a subordinação total do conhecimento científico aos interesses do mercado. Isso porque, embora grande parte da produção científica esteja vinculada aos recursos provenientes das grandes empresas, com todas as complicações que daí advêm no que tange aos interesses por lucro que movimentam a esfera privada, a falta de critério no uso do conceito de “ciência” torna a pesquisa científica uma mera intervenção publicitária. O sucesso desse uso bastante específico do “científico” origina-se em certa crença
Aula 01 | Epistemologia
popular de que o científico é uma verdade, legitimando como irrefutável, consequentemente, a voz do cientista ou a do pesquisador. Vejamos um exemplo: o café faz bem ou faz mal à saúde? Com certeza todos nós já nos deparamos com argumentos contra, parcialmente contra, parcialmente a favor e a favor de sua ingestão, muitos deles cientificamente provados.
Até aí, não há nada de novo. Toda pesquisa científica bem feita possui um objetivo claro que delimita tanto a pesquisa propriamente dita quanto seus resultados. Uma pesquisa sobre o poder estimulante da cafeína no cérebro tenderá a apresentar um resultado mais positivo sobre o café do que um estudo dos efeitos do café no estômago ou na pressão sanguínea.
Contudo, dada a “idealização” da ciência como esfera da verdade anteriormente comentada, pode-se generalizar o que é específico com o intuito de se tirar proveito econômico ou político da pesquisa. Lembremo-nos, por exemplo, de que a supremacia ariana pregada pelo nazismo foi “cientificamente embasada” por um conjunto de ideias que se autointitulou uma “teoria”, conhecida como a eugenia nazista. Casos extremos não ditam regras, mas podem mostrar como certas tendências ideológicas trabalham desde as esferas mais amplas até as mais restritas.
Dito isso, podemos afirmar que a ciência nunca representa uma “Verdade” com “v” maiúsculo, tipo de conhecimento que, como veremos a seguir, pertence a outra esfera. A ciência só pode fornecer uma verdade relativa, uma vez que é uma conquista intrinsecamente humana. Daí as necessárias e frequentes contestações de teorias científicas por outras mais recentes que parecem explicar melhor a realidade. Mas se a ciência busca explicar a realidade, essa explicação tem como momento seguinte a sua manipulação. A ciência busca interferir na realidade, atuando nas mais diversas áreas das atividades humanas. E o faz pela união bem realizada da investigação científica, a pesquisa propriamente dita, com a lógica racional que permite a generalização das descobertas e a produção de leis.
Assim, podemos dizer que a ciência tem como características básicas a observação dos fatos, sua repetição (o experimento) e sua ordenação lógica, de forma a construir teorias que deem conta do comportamento dos eventos trabalhados, possibilitando sua utilização racional nas mais diversas áreas de atuação humana. Mas o que entendemos hoje como científico é algo relativamente novo. Embora a busca pelo conhecimento empírico tenha existido na Antiguidade, a sua aplicação prática em larga escala teve de esperar condições
culturais e socioeconômicas favoráveis, o que ocorre já no período de transição da Idade Média para o mundo moderno. Entre as inúmeras transformações ocorridas neste período, um fator significativo para a expansão sem precedentes do conhecimento lógico- empírico foi a sua separação da filosofia, norteando- se cada vez mais, como veremos a seguir, pelo método indutivo. O mundo ocidental, a partir do
humanismo, produziu uma contínua separação das esferas de conhecimento, pouco ou não separadas na Idade Média, tornando possível um grau de especialização surpreendente de um novo pensamento lógico vinculado à apreensão empírica do mundo. Nesse período, a razão assume o papel de instrumento para a obtenção da verdade, antes nas mãos do místico religioso. Liberta das concepções religiosas não racionais e afastando-se do paradigma lógico ditado pelo método dedutivo, a ciência constrói, em suas teorias, um outro mundo, movido por leis quantificáveis.
Esse novo tipo de conhecimento pode ser mais bem visualizado com uma breve exposição das quatro grandes esferas, geralmente aceitas como abrangendo os principais tipos de conhecimento no mundo ocidental: a popular, a filosófica, a religiosa e a científica. Para efeitos didáticos, as três primeiras esferas serão discutidas em oposição ao conhecimento científico. Iniciemos pelo conhecimento religioso. Este conhecimento é fundamentalmente transcendental. Sua base é a fé, pois parte de evidências não verificáveis. Assim, revela-se como dogmático. Religião e ciência possuíam uma grande proximidade no mundo medieval, muitas vezes sendo indissociáveis. Tomemos, por exemplo, a astrologia – na Idade Média, esse campo de estudo abrangia tanto a astronomia quanto a astrologia, que viriam a se separar posteriormente. O homem que estudava os astros era o mesmo que traçava o destino das grandes nações. Dentre as discussões que levaram à sua cisão, que foram muitas, podemos citar a descoberta, dados os critérios cada vez mais empíricos e cuidadosos de observação, do 13º signo, a Constelação de Ofiúco, que passa pela eclíptica celeste e localiza-se entre sagitário e escorpião. Dado que essa nova constelação era “verificável”, a nova tendência pela busca da verdade nos fatos não podia compartilhar, com os astrólogos tradicionalistas, a não aceitação da inclusão de mais um signo no zodíaco. Daí, temos um novo impulso, Aula 01 | Epistemologia
Saiba Mais
Para maiores informações, assista ao vídeo Carl Sagan – Ciência na Antigui- dade. Disponível em: <http://www.you- tube.com/watch?v=XhikMCGGYfM>.
Acesso em: 25 jan. 2015.
entre tantos outros, para a formação de um campo empírico-científico, a astronomia, e um transcendente, a astrologia moderna.
É evidente que a ciência do humanismo não rompeu definitivamente com toda e qualquer concepção religiosa do mundo. O que ocorreu, um processo do qual a filosofia também participou ativamente, foi a mudança da própria concepção de Deus, que se torna ”menos místico” e “mais racional”. O Deus místico medieval, embora não deixe de existir, perde espaço no campo filosófico e, sobretudo, no científico, que cada vez mais assume como uma das leis fundamentais do universo a lei de causa e efeito. Assim, Deus torna-se um ser absoluto em sua racionalidade, e o universo, antes sujeito aos seus caprichos, passa a ser regulado por suas leis, o movimento quantificável e regular dos astros sendo um dos exemplos máximos de sua obra. O universo, antes criação de um ser místico inacessível à inteligência humana, torna-se o grande relógio criado pelo relojoeiro divino – uma vez criadas as leis eternas, o funcionamento do mecanismo não é mais alterado por caprichos do criador.
Comparando filosofia e ciência, detectamos que ambas trabalham com sistemas lógicos.
Porém, a filosofia medieval (e boa parte da filosofia moderna) não recorria ao mundo empírico como coração de suas indagações e hipóteses. Trabalhando com grandes questões da humanidade, como o belo, a verdade, a morte, a liberdade etc., construía seus sistemas lógicos sobre hipóteses muitas vezes não verificáveis, voltando-se para critérios valorativos.
Fundamentalmente dedutiva, como veremos a seguir, não pode absorver totalmente os novos valores empírico-indutivos do novo conhecimento científico.
Não se trata aqui de um critério valorativo. A ciência, apesar de todas as vantagens da apropriação da realidade pela observação, não pode abarcar o mundo. No que tange à realidade social, histórica e cultural humana, há várias áreas das quais o conhecimento empírico ou não dá conta, ou o faz ao preço de um reducionismo gritante. A liberdade, por exemplo, é um conceito que só com contorcionismos surpreendentes pode ser investigada a partir de critérios empírico-mensuráveis. Quando muito, pesquisas podem mapear o que determinada cultura ou fração de uma cultura entende por “ser livre”, ou criar critérios econômicos para definir qual seria uma renda que tornaria possível algum critério específico de liberdade, mas as conclusões jamais poderão, a não ser de forma bastante ingênua, Aula 01 | Epistemologia
quando, no século XIX, surgem as ciências humanas, obrigando a, em determinadas áreas do saber, uma reaproximação da ciência aos critérios dedutivos da filosofia. Discutiremos esse tópico a seguir, ainda nesta aula.
No que tange às semelhanças e diferenças entre o conhecimento científico e o popular, o ponto de contato mais forte está na sua qualidade empírica – embora o conhecimento popular seja muitas vezes marcado pelo místico, tem sempre um objetivo prático a ser alcançado.
O que o difere do científico são o seu caráter tradicional (não há conhecimento popular de ponta) e sua pouca preocupação com a reflexão sobre os sistemas de que faz uso. Embora o conhecimento científico pareça estar, à primeira vista, bastante acima do popular, nosso dia a dia é marcado pela predominância deste conhecimento. Um exemplo típico está na área da educação familiar. Não há pai ou mãe que confie toda a educação, por exemplo, às conquistas e metodologias da psicopedagogia moderna. Em vários momentos o que prevalece é a tradição, o que foi herdado de nossos pais e avós, e que define tanto do que somos hoje.
A separação dessas quatro formas de conhecimento obedece a critérios analítico-pedagógicos, já que não encontramos formas de conhecimento em “estado puro”. O que há são tendências predominantes de uma ou de outra esfera, mas sempre com a presença de outras. A religião, por exemplo, está sempre ligada seja à filosofia, quanto mais “intelectuais” os religiosos nela envolvidos, seja ao popular, que oferece a realidade concreta que será organizada e direcionada por ela. A ciência, por mais que possa julgar-se neutra, está sempre sujeita à visão de mundo do pesquisador, com seus pré-conceitos, suas crenças e sua cultura.
Mesmo situações que pareçam partir puramente da observação podem ser entendidas como profundamente culturais. Poderíamos citar a famosa maçã de Newton. A história da queda da maçã como sendo um gatilho para as investigações sobre a gravidade (e a razão da lua não cair sobre nós como a fruta cai do galho da árvore) aponta para um interesse que vai muito além do cientista como “indivíduo”, pois o fato é que maçãs caem de árvores desde que macieiras existem. Apenas em um mundo que começa a valorizar a observação dos fatos como local privilegiado do conhecimento faz sentido “estudar” a queda do objeto, buscando extrair do experimento as leis que movem o mundo. Na Idade Média, a queda de objetos faria mais sentido como “vontade divina” do que como lei quantificável a ser investigada.
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Poderíamos ainda acrescentar a essas quatro esferas do conhecimento mais duas, geralmente ausentes de manuais de metodologia – o conhecimento jornalístico e o artístico. Quanto ao jornalístico, há um excelente artigo sobre o assunto de autoria do Prof. Eduardo Meditsch (2005), que discute o lugar específico do jornalístico como um conhecimento que vai além da forma tradicional de vê-lo, estando entre
o popular e o científico. Já o artístico tem sido bastante reconsiderado nas últimas décadas como recurso importante para a apreensão do mundo e atuação nele pela criatividade e pela fantasia. O espaço artístico parece possibilitar formas de dizer algo sobre o mundo que não poderia ser dito da mesma forma por outros meios. Embora não haja espaço aqui para essa discussão, um autor que defende o conhecimento artístico como fundamental é Edgar Morin.
Vale à pena conferir suas ideias em seu livro A cabeça bem-feita (2003).
Dito isso, falemos um pouco do método científico.
1.2 O Método Científico
Podemos definir “método” como um caminho a ser percorrido. Esse caminho está presente em várias áreas da atividade e do conhecimento humanos. Há certamente a necessidade de um método de ação no mundo dos negócios, por exemplo, mesmo que os passos a serem seguidos não sejam teoricamente explicitados, dependendo mais da intuição ou do conhecimento prático da pessoa envolvida. Em nossas atividades cotidianas, também fazemos constantemente uso de métodos que muitas vezes passam despercebidos por nosso ser consciente. Basta lembrarmo-nos de quantas vezes alguém nos revelou, para a nossa surpresa, alguma mania nossa, marcada por um método, ou como percebemos no outro formas de agir bastante metódicas que lhe são invisíveis, tão invisíveis que, em alguma situações, podem causar constrangimento se reveladas.
Saiba Mais
Artigo O jornalismo é uma forma de conhecimento?, de Eduardo Meditsch.
Disponível em: < http://revistas.univer- ciencia.org/index.php/mediajornalismo/
article/view/1084/5273>. Acesso em:
25 jan. 2015.
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O que caracteriza, então, o método científico? Um elemento que definitivamente o constrói é a sequência racional das ações que constituem esse processo ou caminho. Há, para falar de outra forma, uma organização lógica entre os vários momentos de uma pesquisa científica que é planejada e alterada de acordo com as necessidades impostas pelo próprio processo.
Se devemos desenvolver um trabalho de campo sobre as tendências políticas de determinado eleitorado, há um processo, ou método, que depende, para o sucesso da pesquisa, de um estudo detalhado desse eleitorado que permita a elaboração de questões pertinentes e das quais possamos extrair material suficiente para possíveis generalizações, sempre limitadas pelo escopo da pesquisa. Mas também se deve fazer um estudo das metodologias estatísticas à disposição, para que detenhamos um repertório suficiente para uma escolha adequada às necessidades do trabalho a ser realizado. O método deverá ainda determinar as formas de coleta dos dados, sua organização, seleção e classificação, sempre tendo em vista uma conclusão satisfatória. A razão, então, ou a lógica racional, é um elemento indispensável para um método científico bem elaborado.
Mas a filosofia também faz uso de um método racional. Então, um outro elemento distintivo deve ser considerado, uma vez que há diferença real entre o método filosófico e o científico.
O que torna a ciência “científica” é um método que una a razão à observação dos fatos. A razão é compartilhada pela ciência e pela filosofia; a observação empírica, por sua vez, é comum à ciência e ao conhecimento popular. Contudo, razão e observação juntas constituem a marca do método científico. Isso não significa que devamos necessariamente fazer uso do método científico (razão + observação) em nossa pesquisa acadêmica. Há áreas de pesquisa acadêmica que trabalham sobre hipóteses não verificáveis, aproximando-se de linhas de um método filosófico. Outras áreas dependem tanto do método científico como do filosófico para desenvolverem seus trabalhos. Seria interessante agora discutirmos o que seria o método indutivo e o dedutivo, para então retomarmos a questão de sua aplicabilidade.
1.3 Dedução e Indução
Talvez, de forma genérica, possamos dizer que o método dedutivo seja o coração da filosofia, e o indutivo, o da ciência. A diferença essencial entre ambos é o movimento do pensamento lógico que, no primeiro caso, move-se do geral para o específico e, no segundo, Aula 01 | Epistemologia
do específico para o geral. O silogismo aristotélico, como formulação básica da dedução, é o exemplo mais frequente a que recorremos para exemplificar este encadeamento lógico de ideias:
• Todo ser humano é mortal.
• Sou um ser humano.
• Portanto, sou mortal.
As três partes desse raciocínio são nomeadas “premissa maior”, de caráter geral, “premissa menor”, específica, e “conclusão”. Parte-se do que é aceito como verdade geral, de um axioma, para, através de uma premissa intermediária e específica, chegar-se a uma conclusão também verdadeira. O pensamento, movendo-se do geral conhecido à sua concretização, tem como um de seus fundamentos o conhecimento do mundo específico a partir das leis que o regem.
Como o encadeamento dos três momentos do silogismo é fundamentalmente racional, uma falsa lógica pode causar a impressão de verdade no que é falso ou parcialmente falso:
• Cão que ladra não morde.
• Este cão ladra.
• Portanto, não morde.
O erro, tomar o provérbio de fundo moral como axioma, pode levar a uma bela mordida na perna. Nesse caso, a primeira premissa é falsa, por não comportar, em sua generalização, uma verdade ou mesmo algo que se aproxime de uma verdade – há muitos cães que ladram e mordem. Pode acontecer de a lógica que articula as premissas não ser correta, ou ser ambígua, produzindo um raciocínio distorcido da realidade:
• A natureza é movida pela lei do mais forte.
• Eu sou mais forte.
• É natural que eu te domine.
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O erro lógico aqui advém do fato do ser humano não ser movido unicamente por forças instintivas, mas possuir cultura e política. Em sociedades complexas como a nossa, a força muitas vezes provém de privilégios sociais que garantem sua legitimidade institucional. De outro lado, a mera aplicação da força física para a dominação do outro pode levar o indivíduo a atos passíveis de penalização, o que não ocorre na natureza.
O pensamento dedutivo foi retomado na modernidade por Descartes. Sua nova estruturação lógica, mais complexa, parte de uma evidência que é então analisada através de sua fragmentação. A análise busca localizar e isolar as partes constitutivas do objeto de estudo para reconstruir o todo através da síntese. Esta é uma forma de conhecimento mais profundo da evidência. Como a evidência, nesse caso, pode ser hipotética, a ser ou não confirmada pela análise, o método possui grande potencial para a pesquisa. É usado, sobretudo, quando o estudo parte de formulações gerais já aceitas socialmente ou na comunidade científica.
Também faz parte de toda pesquisa de raiz filosófica, corrente de pensamento construída a partir da formulação de hipóteses sobre as quais encadeamentos lógicos complexos das ideias são construídos. Profundamente racional, o método dedutivo pode atingir graus bastante abstratos, caso o encadeamento lógico não esteja de alguma forma atrelado ao mundo “vivido” da experiência sensível.
A indução apresenta um movimento oposto de apreensão da realidade ao da dedução e é parte intrínseca da nova ciência, em sintonia com a proposta humanista do mergulho no real sensível. O que mudou, entre tantas coisas, foi a própria concepção do real. Como vimos anteriormente, ao comentarmos o interesse de Newton pelas leis que movem o mundo sensível, desde que maçãs existem, elas caem das árvores quando maduras. Esta é uma evidência que poderia criar um silogismo simples: toda a maçã madura, salvo se for antes arrancada ou devorada por algum animal, cai da árvore. Esta é uma maçã madura presa a uma árvore. Portanto, dadas as ressalvas anteriores, cairá. O exemplo é apenas para chamar a atenção ao fato de que a evidência esteve sempre presente por toda a história do ser humano. Porém, é num determinado período histórico, denominado humanismo, parte de um movimento mais amplo de ascensão da classe burguesa, que emerge o interesse por investigar essa evidência, vista como fenômeno a ser estudado. A diferença em relação ao pensamento dedutivo é que agora não se parte de uma hipótese preestabelecida. É a análise Aula 01 | Epistemologia
dos elementos constitutivos do fenômeno que vai tornar possível a indução de hipóteses. A reprodução do fenômeno em condições controladas – o experimento – permite a contínua verificação das hipóteses induzidas e sua reformulação constante. Quando a quantidade e a qualidade dos experimentos permitem a formulação de uma forte tendência, esta é examinada até que alcance o grau de generalização de uma
lei geral. Contudo, essa lei geral, se genuinamente científica, não tem a pretensão de ser Verdade Eterna, uma vez que novos estudos, realizados pelo mesmo pesquisador ou por outros na mesma época ou em épocas posteriores, pode mostrar as limitações ou mesmo os erros dessa generalização, produzindo novas leis gerais.
Há pouco espaço para o purismo quando falamos desses métodos. O método indutivo, quando se estruturou como ciência, foi muitas vezes considerado o único capaz de revelar a verdade do mundo, como diz Francis Bacon no aforismo XIV de seu Novum Organum:
O silogismo consta de proposições, as proposições de palavras, as palavras são o signo das noções. Pelo que, se as próprias noções (que constituem a base dos fatos) são confusas e temerariamente abstraídas das coisas, nada que delas depende pode pretender solidez. Aqui está por que a única esperança radica na verdadeira indução.
Porém, dizer que devemos ser totalmente indutivos para podermos realizar o ideal de uma ciência imparcial é uma grande utopia, uma vez que não há pesquisador que possa remover, de sua pesquisa, seus conhecimentos, interesses e perspectivas de ordem cultural. Como vimos, o próprio fato de se olhar de forma diversa a maçã caindo de uma árvore não é fruto da genialidade de um homem, mas de um interesse coletivo gerado por uma nova concepção de mundo – a verdade não estava mais nos desígnios místicos de Deus, mas na observação dos fenômenos para o descobrimento das leis que movem o mundo físico. Não se deve partir do pressuposto de que só a indução é válida – tudo depende da área de atuação da pesquisa e da corrente crítica que se segue. A arqueologia, por exemplo, tem nas evidências encontradas nos sítios arqueológicos material para muita pesquisa indutiva, mas não pode se privar da construção de hipóteses que preencham os espaços vazios entre o que se tem para
Link
Assista ao vídeo Método Induti- vo x Método Dedutivo. Disponí- vel em: < http://www.youtube.com/
watch?v=JAnZMzmCe9Q>. Acesso em: 25 jan. 2015.
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A que tudo isso nos serve? O importante é que tenhamos consciência do que estamos fazendo. Nossa pesquisa parte do geral ou do específico? O que queremos provar? Há a necessidade da formulação de hipóteses a serem testadas? Qual o caminho metodológico que nossa pesquisa percorrerá? Haverá levantamento de dados? Como se realizará a análise dos dados? De forma quantitativa, qualitativa ou ambas? Quanto mais claras essas questões estiverem em nossa mente, mais provável será que produzamos um trabalho de qualidade. Saber se o argumento percorre o caminho da generalização ou da especificação, e como o faz, possibilita que mantenhamos clara a espinha dorsal de nosso texto, não criando monstruosidades em sua forma.
1.4 Trabalhos de Divulgação e Trabalhos Comparativos
Mas é necessário que o argumento de um artigo seja sempre dedutivo ou indutivo?
Não. Um artigo científico pode seguir outros modelos. Há bons artigos que funcionam como material de divulgação. Pega-se um livro importante e difícil, por exemplo, e após uma leitura e análise atentas do material, escreve-se um artigo explicitando o argumento central do livro, como ele se insere na obra do autor, como se insere na discussão teórica da qual faz parte etc. Esse trabalho, de caráter didático, é relevante e bastante útil, dada a impossibilidade de tempo para lermos tudo o que nos interessa. Há teses de mestrado, e mesmo de doutorado, que funcionam nessa linha, situando determinada obra no trabalho do autor e/ou no desenvolvimento de teorias em determinada época e local. Em uma entrevista para o programa de radio Radioscopie1, em 7 de fevereiro de 1973, Jean-Paul Sartre faz um comentário interessante sobre os trabalhos de divulgação de seus escritos por outras pessoas.
No entanto, concordo que minhas obras filosóficas não são, na verdade, legíveis a não ser por filósofos. No entanto, pela mediação, elas atingirão o povo, pelos homens que a lerão e darão a ela uma forma mais acessível. Notei muitas vezes, após escrever, que há pessoas que escrevem melhor. Os professores, por exemplo, que explicaram melhor o existencialismo, que eu não expliquei em O ser e o nada. Simplesmente porque, naquele momento, talvez fosse necessário inventar, compreender as coisas novas.
1 Entrevista realizada em 7 de fevereiro de 1973 por Jacques Chancel em seu programa Radioscopie. Texto original (em francês) disponível em: <http://www.sartre.ch/Radioscopie.pdf>. Acesso em: 25 jan. 2015.
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O trecho esclarece a importância do trabalho de divulgação tanto para fins pedagógico- escolares quanto para enriquecer a discussão no próprio meio científico-acadêmico. Se o trabalho for sério, certamente será bem recebido.
Outro tipo de artigo que não implica necessariamente na utilização dos métodos de indução e dedução é o trabalho de comparação e enfrentamento entre teorias. Também de grande relevância no meio acadêmico, permite mapeamentos bastante frutíferos de discussões teóricas. Muitas vezes cedemos a um ecletismo vulgar, que aproxima teorias que são, na verdade, diametralmente opostas. Trabalhos comparativos sérios permitem que compreendamos melhor o que está em jogo em teorias diversas, o que está sendo defendido e o que está sendo questionado. Toda teoria é uma intervenção em uma discussão, embora muitas vezes não explicitada. Uma pesquisa desse tipo pode contribuir muito para o amadurecimento intelectual do pesquisador.
2. As Ciências Naturais e as Ciências Humanas
Como vimos, a ciência moderna inicia-se no humanismo como fundamentalmente empírica, atenta aos fatos, ao seu isolamento, à sua repetição e à sua análise com o objetivo de deles extrair leis gerais que os descrevam. O seu potencial foi e é extraordinário – basta vermos o desenvolvimento surpreendente das máquinas, que caminharam desde os primeiros relógios e teares mecânicos até os nossos sofisticados computadores, motores automotivos etc.
Mas essa forma de ver o mundo encontrou, sobretudo no século XIX, com o surgimento da sociologia e da psicologia modernas, dificuldades bastante grandes na transposição de um conhecimento acumulado por meio de um estudo das forças da natureza para o estudo do comportamento humano. O homem não é apenas natureza, é movido por interesses e desejos em dinâmica constante, dadas as relações sociais que constroem sua identidade.
Assim, se é possível formular uma lei que descreva com exatidão fenômenos causados pela gravidade em todo o planeta e mesmo em outros astros, é muito mais difícil criar fórmulas que deem conta do comportamento psicológico humano ou que determinem com precisão o movimento da economia.
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Diante disso, novas construções teóricas foram desenvolvidas, gerando por vezes uma grande disparidade entre as ciências naturais e as humanas, ou entre as ciências humanas baseadas nas teorias das ciências naturais e as ciências humanas mais preocupadas em entender o espaço não natural (sociológico, histórico, político e cultural) do homem. Deve- se ter em mente essa diferença, para que não se corra o risco de avaliar erroneamente uma teoria, exigindo fundamentações que não são parte de seu núcleo duro. Por exemplo, a história não pode ter a precisão da física mecânica. Se às vezes aspira a essa “exatidão”, corre o risco de destruir o objeto que estuda – o ser humano – em prol de uma regularidade que, embora possa responder por certas tendências históricas, não pode dar conta de toda a realidade do ser humano. Um dos grandes avanços na historiografia moderna, por exemplo, foi o questionamento da visão tradicional da história como uma história construída pela ação de grandes homens que sucedem uns aos outros em um movimento contínuo em direção ao futuro. O questionamento desse ideal teleológico (o telos do progresso, um caminho que seria marcado pelo avanço tecnológico e do processo civilizatório) é feito, nessa nova historiografia, pela constatação de que a história não é um caminho rumo ao progresso, mas uma sequência de lutas. Os que ganham e marcam seu lugar na história não são necessariamente os
“melhores”, mas os mais fortes, com mais recursos, com mais homens e/ou mais estratégia.
Essas qualidades, tão vinculadas ao ideal de guerra, não são necessariamente as qualidades que possibilitariam o progresso ético-moral do ser humano, por exemplo. A obra que melhor ilustra essa nova historiografia é A formação da classe operária inglesa, de E. P. Thompson, contando a história da classe operária como uma sequência de luta, de vitórias e de perdas, sempre opondo seus ideais de comunidade aos ideais individualistas burgueses. No caso em questão, a força da obra está no fato das generalizações não “passarem por cima” do levantamento de dados, mas serem construídas a partir deles ou como hipóteses a serem neles testadas.
Dependendo da área de pesquisa em que estamos envolvidos, critérios tanto metodológicos quanto da exposição dos argumentos mudam. Se, por exemplo, trabalhamos com um tema que procura articular certa corrente política com as forças culturais de determinada sociedade, essa relação cultura/política não pode ser transformada em números exatos, nem ser prevista com grande acuidade, como pode ser prevista a velocidade de um corpo caindo em condições específicas determinadas. Da mesma forma, com todo o conhecimento exato dos Aula 01 | Epistemologia
elementos químicos que agem no nosso corpo, a medicina não pode assegurar a cura total de uma doença. São tantas as forças determinantes, nas quais entra inclusive a disposição psicológica do doente em se curar, que qualquer afirmação categórica pode se mostrar falsa.
A indução e a dedução, dessa forma, embora marcadas pelo pensamento científico e pelo filosófico, respectivamente, estão ambas presentes, em graus variados, nas pesquisas mais diversas. As ciências exatas podem ser muito dedutivas, especialmente quando atingem um alto grau de abstração. A matemática é um bom exemplo de uma área que permite tanto estudos indutivos quanto estudos altamente dedutivos, quando as relações internas entre os números ganham autonomia, distanciando-se do mundo empírico. Do mesmo modo, a economia pode ser estudada indutivamente, colocando à prova teorias existentes e produzindo outras a partir de pesquisas de campo, ou se fechar em amplos mapeamentos de ciclos históricos que se baseiam mais em equações matemáticas do que em um conhecimento do comportamento humano. As ciências humanas enfrentam constantemente essa dificuldade da presença de concepções bastante diversas, umas se aproximando das ciências naturais, com a produção de leis mais fixas e quantificáveis, aos poucos se distanciando do ser humano concreto, e outras procurando entender o ser humano no mundo, com trabalhos de campo mais empíricos e amarrados ao mundo concreto.
3. Problemas Comuns
O artigo de conclusão do nosso curso de especialização, dessa forma, pode percorrer tanto uma via mais dedutiva quanto uma mais indutiva. Contudo, o que deve estar sempre em pauta no momento da pesquisa e da escrita é que, independentemente do caminho metodológico tomado, o argumento tem de ser movido por critérios lógico-racionais. Vimos no início desta aula os tipos de conhecimento. Tanto o religioso quanto o popular não podem ser pilares de sustentação de nosso argumento. Dizer que o líder deve ser persistente, justo e sincero, por exemplo, é algo de uma generalidade gritante. Uma pesquisa que se proponha a trabalhar com essas qualidades teria de, por exemplo, examiná-las em situações e momentos históricos específicos – quais as características de persistência que contribuem para uma boa gestão em uma empresa familiar? Como fazer com que a empresa X, que implantou uma gestão estratégica mais arrojada há cinco anos, solucione problemas em sua gestão, ainda Aula 01 | Epistemologia
Vamos pensar
A partir do que foi apresentado nesta aula, comece a pensar em um tema que gostaria de pesquisar. Pense na importância desse tema e faça uma pergunta de pesquisa para a temática que escolheu.
amarrada a ideais de persistência mais funcionais em uma hierarquia vertical? Estes são problemas específicos que podem ser trabalhados de forma lógico-indutiva.
Mantendo o exemplo do líder, outro problema frequente é o da falta de método. É comum que alunos venham com uma listagem de qualidades do líder, por exemplo, tiradas de algum livro sobre o assunto, mas sem organizar o seu trabalho, seja dedutivamente, mostrando como essas qualidades se resolvem na prática, modificando-se em situações específicas diversas, seja indutivamente, mostrando como a prática pode ser generalizada em certas tendências mais amplas, os “itens” expostos, mas sempre como generalizações que não podem ser simplesmente aplicadas como se fossem uma panaceia para todos os males. Temos de ter em mente que teorias são sempre generalizações e, consequentemente, sempre redutivas. São traços gerais retirados dos objetos de estudo a partir de um ponto de vista específico, nunca abarcando o objeto em sua completude. Uma teoria que desse conta de toda a realidade não seria mais teoria, mas a realidade propriamente dita. Façamos uso de teorias, mas para tal é preciso que trabalhemos com um método de aplicação; coloquemo-nas em xeque, mas trabalhando indutivamente ou comparando-as com outras teorias.
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Vimos nesta aula os seguintes pontos importantes:
• A verdade da ciência.
• Os tipos de conhecimento.
• As características da ciência.
Pontuando
Referências
ALVES, Rubem. Filosofia da Ciência. São Paulo, Ars Poética, 1996.
BACON, Francis. Ovum Organum. Arquivo eletrônico. Disponível em: <http://www.triplov.com/hist_
fil_ciencia/francis_bacon/novum_organum/index.htm>. Acesso em: 1 fev. 2015.
CERVO, A. L.; BERVIAN, P. A. Metodologia Científica. São Paulo: Makron Books, 1996.
DANTON, Gian. Metodologia Científica. MG: Virtual Books, 2002. Disponível em: < http://www.ebah.
com.br/content/ABAAAARXsAE/metodologia-cientifica>. Acesso em: 1 fev. 2015.
LAKATOS, E. Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Fundamentos de Metodologia Científica. São Paulo: Atlas, 1991.
MEDITSCH, E. O jornalismo é uma forma de conhecimento? Media & Jornalismo, Brasil, v. 1, n. 1, 2005.
Disponível em: <http://revistas.univerciencia.org/index.php/mediajornalismo/article/view/1084/5273>.
Acesso em: 1 fev. 2015.
MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita. RJ: Ed. Bertrand Brasil LTDA, 2003.
RODRIGUES, André Figueiredo. Como elaborar citações e notas de rodapé. SP: Humanitas, 2007.
______. Como elaborar e apresentar monografias. SP: Humanitas, 2008.
______. Como elaborar referência bibliográfica. SP: Humanitas, 2008.
SIMÕES, Darcília. Trabalho acadêmico. O que é? Como se faz? Rio de Janeiro: Dialogarts, 2004.
Disponível em: <http://www.dialogarts.uerj.br/arquivos/trabalhoacademico2004.pdf>. Acesso em: 1 fev. 2015.
TEMA 02
Normatização
LEGENDA
DE ÍCONES seções
Início
Referências Pontuando Vamos pensar
Verificação de leitura Glossário
Gabarito
Aula 02 Normatização
Objetivos
Auxiliar o aluno na formatação e normatização de seu artigo científico.
Expor a formatação e normatização de artigos científicos.
1. O Formato SARE
Os artigos científicos resultantes de sua pesquisa devem seguir alguns padrões e normatizações vigentes. Veremos nesta aula algumas dessas normas.
A primeira forma é a do SARE (Sistema Anhanguera de Revistas Eletrônicas). Você deve seguir essa formatação somente de quiser publicar seu artigo nas revistas da Anhanguera Educacional. Se não for o que pretende, deve seguir as demais normatizações e a estrutura descrita em seu Manual de TCC.
O Modelo do formato SARE está disponível para download no link <http://sare.anhanguera.
com/index.php/index/simplePages?servicePageName=downloads>. O texto desse arquivo é uma explicação detalhada de como o modelo funciona. Contudo, como a formatação possui seções diversas para o título, subtítulo e texto, seu uso pode apresentar problemas para pessoas que não estão muito familiarizadas com os recursos do Word. Algumas dicas podem tornar o seu manuseio bastante simples. Primeiro, trataremos dos textos escritos diretamente no SARE, e depois discutiremos o problema da importação de documentos para esse formato.
2. Escrevendo no SARE
Como dito anteriormente, o SARE possui estilos diversos para formatações diversas.
Todos esses estilos podem ser selecionados no ícone “estilo” do Word. Essa ferramenta oferece acesso direto a toda a formatação do texto, como vemos na Figura 2.1:
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Figura 2.1: Tela de Estilos I.
Clicando sobre o ícone “subseção”, por exemplo, temos o formato automaticamente selecionado no texto. Toda a formatação do SARE está lá, inclusive a formatação dos itens, numeração, legendas etc. Se o ícone “mostrar visualização” for pressionado, você tem acesso inclusive ao estilo real da fonte, como na Figura 2.2:
Figura 2.2: Tela de Estilos II.
Com um pouco de prática, esse recurso pode ser usado com muita facilidade.
Contudo, podem permanecer algumas dúvidas quanto à formatação do arquivo. Faremos então uma descrição de como o SARE funciona, apontando problemas que possam ocorrer e maneiras de se formatar o texto manualmente.
Comecemos pelo título e pelo subtítulo. O SARE possui formatações específicas para o título e para o subtítulo. O título, em abóbora (cor personalizada) e fonte arial narrow tamanho Aula 02 | Normatização
14, não aceita letras minúsculas. O subtítulo, em arial 12, deve ser escrito com as primeiras letras em maiúsculo, com exceção de artigos, preposições e conjunções. Uma forma de se trabalhar com essa formatação é digitar no próprio título disponível no modelo, excluindo o que está escrito. Quem for utilizar esse sistema, deve “guardar” um título e um subtítulo para que, sempre que necessário, corte-o e cole-o no lugar devido. A seguir, um exemplo de como isso pode ser feito:
1. TÍTULO PARA USO POSTERIOR 1.1 Subtítulo para Uso Posterior
A numeração é automática. Uma vez colado o título ou o subtítulo, a numeração será reorganizada de acordo com as seções e subseções do texto. Para começar a escrever, basta pressionar <enter> e a fonte muda para book antiqua, tamanho 11. O primeiro parágrafo não possui paragrafação. A partir do segundo, a paragrafação passa a ser 1,5. Esse ajuste também é automático:
1.2 TÍTULO
O primeiro parágrafo se inicia colado à margem esquerda.
O segundo parágrafo se inicia com recuo esquerdo de 1,5cm. O mesmo ocorre com o subtítulo.
Pode-se proceder da mesma forma para o título e subtítulo do artigo – basta selecionar o texto e escrever sobre ele. No final do modelo, há espaço para agradecimentos e depois para as referências bibliográficas. Mantenha o formato original – essas seções não são numeradas.
Quanto a tabelas e figuras, o título deve ser colocadoacima das tabelas e abaixo das figuras.
Corte e cole as frases a seguir, já com a formatação correta para o SARE (tabela: Times New Roman tamanho 10, espaçamento simples, 6 pt antes e 3 pt depois; figura: Times New Roman tamanho 10, espaçamento 1,5 linhas, 3 pt antes e 3 pt depois).
Tabela 1 – Exemplo de um Título para uma Tabela.
Figura 3 – Exemplo de uma imagem inserida no artigo.
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Há no arquivo SARE um modelo de gráfico. Use a formatação indicada, acrescentando ou eliminando linhas e colunas conforme a necessidade.
Quanto ao cabeçalho, no topo da página pode-se ler, no arquivo do formato SARE, “título do artigo” nas páginas pares e “nome do autor” nas páginas ímpares. Para modificar o texto, basta clicar duas vezes sobre o cabeçalho, selecionar o trecho e digitar os dados por cima. O procedimento deve ser realizado em uma página par (título) e em uma página ímpar (autor).
A formatação é automática (letra arial tamanho 8, espaçamento simples, antes 30 pt, depois 0 pt). Deve-se manter a formatação pedida – no título, somente substantivos próprios devem vir com a primeira letra em maiúsculo.
Na primeira página, canto esquerdo, há a frase “nome da revista”. Seu preenchimento será realizado apenas em caso de publicação. Acerte apenas o ano. Na parte “autor”, coloque seu nome, unidade e email:
autor
afiliação autor
emailautor@dominio André Luiz Glaser
Anhanguera Educacional – Unidade Brigadeiro
No caso de mais de um autor, basta repetir o procedimento. Porém, não se deve colocar na parte “coautor” o nome do orientador. O orientador não é coautor! Pode-se colocar o nome do orientador em nota de rodapé ou na seção “agradecimentos”.
3. Importando Documentos para o SARE
Há várias situações em que essa importação se faz necessária, as mais comuns sendo quando há textos escritos anteriormente e no caso de citações diretas. A importação de documentos para o arquivo do SARE pode ser feita de duas formas: pré-formatando o documento ou colando-o no SARE, selecionando-o e então escolhendo, na seção “estilo”, Aula 02 | Normatização
o estilo apropriado. Esta última é a forma mais simples, mas, para os que queiram trabalhar manualmente, serão explicados a seguir os passos para a formatação.
Antes de cortar o documento, devem ser realizados os seguintes procedimentos:
• O texto deve ser justificado e formatado em espaço 1,5 cm com a letra book antiqua tamanho 11. Em seguida, deve-se entrar na seção “parágrafo” do Word para formatar as margens. O novo padrão é:
Recuo: esquerda 1, direita 0.
Espaçamento: antes 3 pontos, depois 3 pontos (provavelmente os números deverão ser digitados – o procedimento automático pula de 0 para 6 pontos). Para isso, no Word 2007, o ícone “início” deve ser clicado (barra de ferramentas no topo) e, em seguida, o ícone
“parágrafo”. Na versão antiga, deve-se procurar o ícone “formatar parágrafo”. O texto, então, deve ser transferido em blocos (subseções), cortando e colando no SARE.
• O resumo e o abstract possuem letra book antiqua tamanho 10 e espaçamento simples entre as linhas (incluindo as palavras-chave). A formatação é:
Recuo: esquerda 0, direita 0.
Espaçamento: antes 0 pontos, depois 12 pontos (no caso das palavras-chave, o espaçamento é antes 0 pt, depois 0 pt).
• A Bibliografia possui a mesma letra das páginas do texto, mas em fonte tamanho 10 e espaço simples sem justificação. As margens e espaçamento são:
Recuo: esquerda 1, direita 0.
Espaçamento: antes 3 pontos, depois 3 pontos.
Se, ao colar o texto, a formatação aparecer como a da seção título ou subtítulo, basta pressionar o ícone para voltar esse passo, digitar qualquer letra no novo parágrafo, colar novamente e depois apagar a letra. Isso pode ocorrer quando o texto a ser colado vier logo Aula 02 | Normatização
sobre tradução. Ao colar o documento já formatado como especificado anteriormente, logo após o título da seção (“A tradução hoje”), tenho esse resultado:
3. A TRADUÇÃO HOJE
AO FALARMOS DE TRADUÇÃO, NÃO ESTAMOS DISCUTINDO UMA ESFERA AUTÔNOMA, CAPAZ DE ESTABELECER SUA PRÓPRIA PROBLEMÁTICA COMO INERENTE AO SEU CAMPO DE AÇÃO, EXCLUINDO-SE, MESMO QUE PARCIALMENTE, A ESTRUTURA SOCIAL MAIS AMPLA. ASSIM, TORNA-SE INGÊNUO DISCUTIR UM “GRAU DE OBJETIVIDADE” QUE PERMITA GERAR UMA TRADUÇÃO “IMPARCIAL”.
Vejam que o parágrafo foi incorporado ao texto com a formatação do título, ou seja, o modelo SARE não reconheceu que se trata de uma nova seção. A forma mais prática de resolver esse problema seria digitar qualquer letra, ou mesmo espaço, antes da colagem:
2. 3. A TRADUÇÃO HOJE
Z Ao falarmos de tradução, não estamos discutindo uma esfera autônoma, capaz de estabelecer sua própria problemática como inerente ao seu campo de ação, excluindo-se, mesmo que parcialmente, a estrutura social mais ampla. Assim, torna-se ingênuo discutir um “grau de objetividade” que permita gerar uma tradução “imparcial”.
Após o procedimento, não se esqueça de apagar o caractere ou espaço incluído, nesse caso, a letra Z.
4. Algumas Dicas de Formatação
O artigo deve ser impresso em papel A4, impressão em preto (exceto imagens, gráficos etc.) e, ao menos até o momento, em apenas um lado do papel. Não há restrições explícitas ao uso do papel reciclado, mas vale à pena checar se a instituição permite o seu uso. Como o artigo será entregue no formato SARE, a sua formatação já está pronta e não há, para impressões de arquivos nesse formato, folha de rosto. O artigo final deve ser entregue em encadernação plástica (frente transparente) em espiral.
1.
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No caso de trabalhos de módulo com a formatação tradicional, as margens são: esquerda 3 cm, direita 2 cm, superior 3 cm, e inferior 2 cm. Os parágrafos devem ser justificados e a paginação, no canto superior direito. Utilize espaço 1,5 e, preferencialmente, as letras Times New Roman ou Arial. Para a formatação da Falsa Folha de Rosto, da Folha de Rosto e do Sumário, consulte o site Fazendo Acontecer1, que apresenta figuras para facilitar o uso das ferramentas do Word, ou qualquer material similar. O resumo e o abstract devem vir com espaço simples e devem ser seguidos pelas palavras-chave e keywords (de 3 a 6).
5. O Problema do Plágio
O plágio merece uma seção à parte, dada a sua frequência nos trabalhos acadêmicos nos dias de hoje. O uso constante do computador, e sobretudo da internet, tem gerado uma cultura “corta e cola” inaceitável do ponto de vista acadêmico, mas cada vez mais frequente nas atividades escolares, desde trabalhos de menor porte até monografias, dissertações e teses. É surpreendente que isso ocorra, visto que o trabalho intelectual não só não é contra o diálogo com outros textos, mas o recomenda vivamente. Basta que as referências sejam colocadas para que o plágio deixe de existir. O plágio consiste, basicamente, na apropriação indevida do texto ou ideias do outro. Como nos lembra o advogado e professor José Augusto Paz Ximenes Furtado, em artigo publicado no site Jus Navigandi, em setembro de 2002:
No Código Penal em vigor, no Título que trata dos Crimes Contra a Propriedade Intelectual, nós nos deparamos com a previsão de crime de violação de direito autoral – artigo 184 – que traz o seguinte teor: Violar direito autoral: Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa. E os seus parágrafos 1º e 2º, consignam, respectivamente:
§1º Se a violação consistir em reprodução, por qualquer meio, com intuito de lucro, de obra intelectual, no todo ou em parte, sem autorização expressa do autor ou de quem o represente, [...]: Pena – reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa, [...].
§ 2º Na mesma pena do parágrafo anterior incorre quem vende, expõe à venda, aluga, introduz no País, adquire, oculta, empresta, troca ou tem em depósito, com intuito de lucro, original ou cópia de obra intelectual, [...], produzidos ou reproduzidos com violação de direito autoral.
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Um pouco adiante, o professor Furtado lembra que a Constituição Federal diz, em seu artigo 5º, XVII, que:
[...] aos autores pertence o direito exclusivo de utilização, publicação ou reprodução de suas obras, [...]. E a devida proteção legal em legislação ordinária nós a encontramos na Lei nº 9.610/98, mais precisamente nos seus artigos 7º, 22, 24, I, II e III, e 29, I.
Porém, a citação com as devidas referências não constitui plágio:
Mas, se a própria Lei acima citada, nos informa, no seu artigo 46, III, que não se constitui ofensa aos mencionados direitos, a citação em livros, jornais, revistas ou em qualquer outro meio de comunicação, de trechos de qualquer obra, desde que sejam indicados o nome do autor e a proveniência da obra, aonde constataremos a incidência dessa contrafação (reprodução não autorizada) tão grave, especificamente entendida na sua forma conhecida como PLÁGIO?
Exatamente no modo como o plagiário se apossa do trabalho intelectual produzido por outrem.
Ainda no mesmo artigo, o professor Furtado cita então, como abominável, uma prática muito comum no meio escolar:
O plagiário recorre dolosamente aos expedientes mais sutis, porém não menos recrimináveis, e não reluta em fazer inserções, alterações, enxertos nas ideias e nos pensamentos alheios, muitas vezes apenas modificando algumas palavras, a construção das frases, a fim de ludibriar intencionalmente e assim prejudicar, de forma covarde, o trabalho original de alguém e ofendendo os direitos morais do seu verdadeiro autor.
O assunto é da maior seriedade, sobretudo pela aparente falta de informação dos alunos com relação à ilegalidade do plágio. A cultura “corta e cola” mencionada anteriormente, que ganha cada vez mais espaço com o crescente uso dos computadores pessoais, não é, em si, ilegal. Cortamos e colamos constantemente material para a nossa leitura diária, enviamos trechos copiados a amigos por e-mail ou em redes sociais, cortamos e colamos partes de nossos próprios textos em nossos trabalhos. O uso contínuo desse recurso, contudo, induz- nos a “facilitarmos nossa vida”, inserindo em nosso texto trechos retirados de outras fontes sem colocarmos as devidas referências. Há casos piores, e infelizmente frequentes, em que, como comentado na citação anterior, o texto plagiado é “levemente modificado”, em uma tentativa intencional de ludibriar o leitor.
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Uma vez detectado o plágio, o aluno terá de responder por ele. Não vale à pena arriscar a ter um artigo recusado por conta de algumas páginas sem as devidas referências. E mesmo que o aluno tenha “sorte” e o trabalho seja aprovado sem que o plágio tenha sido detectado, haverá sempre a possibilidade de um leitor futuro conhecer a fonte original e denunciar o autor. Hoje em dia, grande parte dos trabalhos de final de curso, ao invés de ser enviada para bibliotecas em forma de material impresso, é alojada em bancos de dados de acesso aberto na internet. Um plágio pode vir a ser detectado mesmo anos após sua publicação, podendo gerar processos e perda do título adquirido.
Como então citar? As citações podem ser literais ou livres (paráfrases). Para as citações literais, que consistem na importação do texto original sem alterações, as aspas são usadas apenas se a citação for breve (até três linhas). Se for longa (mais de três linhas), deve-se usar um tamanho menor da fonte (no SARE, use book antiqua 9) e um espaçamento menor entre as linhas (em geral, de 1,5 para 1,0). Em ambos os casos, a pontuação antes da citação é a que melhor se adequar ao contexto. Há duas formas de colocar as referências: em nota de rodapé e na forma “autor-data”. Embora a ABNT recomende ambas, a tendência atual tem sido a de utilizar a forma “autor-data”. Nela, coloca-se entre parênteses o sobrenome do autor em letras maiúsculas, a data da publicação e o número da página, sempre separados por vírgula. Se o sobrenome vier no corpo do texto, não se usam letras maiúsculas. Exemplo:
a) Assim, define-se um novo gênero como “sempre a transformação de um ou vários gêneros antigos”. (TODOROV, 1980, p. 34)
b) Segundo Todorov (1980, p. 34), um novo gênero “é sempre a transformação de um ou vários gêneros antigos”.
Se houver dois ou três autores, devem ser separados com ponto e vírgula. Se houver mais de três, usa-se apenas o primeiro sobrenome e, após, a expressão latina et alli, mais comumente usada de forma abreviada: et al.
Importante: toda alteração feita em uma citação literal deve vir entre colchetes, seja ela uma omissão,um acréscimo ou uma alteração. Exemplo:
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a) Omissão: “A visão conservadora, neste caso, está correta. [...] A ambiguidade do discurso mantém-se por toda a obra.” (Aqui as reticências marcam a omissão de uma parte do discurso original.).
b) Acréscimo: “Sua obra [a escrita em sua primeira fase, de 1890 até 1903], apesar de coesa, ainda não possuía uma maturidade literária.” (Aqui, o acréscimo clarifica ao leitor informações que só seriam acessíveis lendo trechos anteriores ao citado.).
c) Alteração: Segundo o autor, “[o] livro se constituiu num marco do pensamento científico.”
(Aqui os colchetes marcam a alteração do “o” maiúsculo para o “o” minúsculo).
Se o texto original apresenta erros ortográficos, problemas de coesão ou coerência textuais etc., não corrija. Coloque, após a passagem, (sic).
É importante ter em mente que não apenas as citações literais sem referências são plágio, mas também as paráfrases, que consistem na exposição, com as palavras do escritor, das ideias do outro. Essas exposições devem necessariamente conter, antes, após ou durante sua execução, as devidas referências ao texto original. Evidentemente, as paráfrases, por não serem transcrições literais, não virão entre aspas ou destacadas do texto, como no caso das literais. Mas não basta (e essa é uma dúvida comum dos alunos) citar a obra usada apenas nas referências finais. Mesmo que o texto esteja nas referências, se houver paráfrase ou citação literal sem a devida indicação antes, durante ou depois da citação, há plágio. Aqui, não há concessão possível.
A título de ilustração, veja como poderíamos construir uma paráfrase da citação do professor Furtado, já apresentada:
O plagiário recorre dolosamente aos expedientes mais sutis, porém não menos recrimináveis, e não reluta em fazer inserções, alterações, enxertos nas ideias e nos pensamentos alheios, muitas vezes apenas modificando algumas palavras, a construção das frases, a fim de ludibriar intencionalmente e assim prejudicar, de forma covarde, o trabalho original de alguém e ofendendo os direitos morais do seu verdadeiro autor.
Uma opção de paráfrase seria (no texto em que a paráfrase for usada, como visto anteriormente, não há recuo ou mudança no tamanho da fonte, alterados aqui por tratar-se de um exemplo):
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Dentre os recursos ilícitos utilizados pelos plagiadores, o professor Furtado (2002) cita as inserções e alterações que modificam o sentido do texto. Tal atitude, entendida como recriminável e covarde, possui, seguindo o autor, uma intenção de ludibriar o leitor e infringe os direitos do autor.
Uma outra opção, de leitura bastante agradável se for bem feita, é a mistura de paráfrases e citações literais breves:
Dentre os recursos ilícitos utilizados pelos plagiadores, o professor Furtado (2002) cita “inserções, alterações, enxertos nas ideias e nos pensamentos alheios”, manobras vistas como sutis, “porém não menos recrimináveis”. Tal atitude, entendida como recriminável e covarde, possui, segundo o autor, a intenção de ludibriar o leitor, simultaneamente prejudicando o trabalho original e “ofendendo os direitos morais do seu verdadeiro autor”.
Outro problema bastante frequente que, caso citado incorretamente, também se configura como plágio, é o da citação da citação, que tem de ser feita com o famoso “apud”. A citação da citação pode ocorrer tanto na forma literal quanto na forma de paráfrase. Em ambos os casos, trata-se de citarmos um texto que já é uma citação no original que lemos. Para que as referências estejam corretas, é preciso citar primeiro a obra e/ou o autor de onde foi extraído o texto e, depois, a obra consultada. Vejamos a definição e exemplos fornecidos pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS, s/d), que são, eles próprios, citação de citação (o texto se inicia com a seguinte informação: “‘Menção de uma informação extraída de outra fonte.’ (ABNT, 2002, p. 1)”:
Citação de Citação
Transcrição direta ou indireta de um texto em que não se teve acesso ao original, ou seja, retirada de fonte citada pelo autor da obra consultada.
Indicar o autor da citação, seguido da data da obra original, a expressão latina
“apud”, o nome do autor consultado, a data da obra consultada e a página onde consta a citação.
Exemplo:
• Citações curtas e inseridas no parágrafo:
“O homem é precisamente o que ainda não é. O homem não se define pelo que é, mas pelo que deseja ser”. (GOMENSORO DE SÁNCHEZ, 1963 apud SALVADOR, 1977, p. 160).
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Segundo o autor (SILVA, 1983 apud ABREU, 1999, p. 3) diz ser “[...] a educação compreende desde [...]”.
• Citações longas e destacadas no recuo de 4 cm.
[...] com realidades como pobreza, menor, escolaridade, menor acesso a oportunidades laborais, maior chance de sofrer exploração no trabalho, desemprego, alcoolismo, dificuldades na família e/ou na escola entre outras tantas problemáticas as quais jovens de classe média. (FERNANDES apud RACOVSCHIK, 2002, p. 2).
Vejamos um último comentário sobre citação, um problema bastante frequente em trabalhos universitários. O aluno, ao discutir um tema específico, discorre sobre vários autores e suas articulações teóricas sem tê-los lido. O conhecimento desses autores foi realizado por meio de um livro que trata do assunto. Nesse caso, não dar crédito para quem de fato realizou o árduo trabalho de ler obras completas de teóricos para torná-los acessíveis a um público mais amplo é, no mínimo, muito desonesto. Se não se tratar de uma paráfrase ou citação literal, informe o leitor que as informações forma extraídas do livro X, entre as páginas 34 e 67, por exemplo.
6. Referências Bibliográficas
Ao invés de repetirmos o que já foi escrito centenas de vezes, um domínio muito útil para checarmos a formatação padrão de trabalhos, que merece ser consultado frequentemente, é o da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que oferece o arquivo em versão PDF e HTML.
http://www.bu.ufsc.br/home982.PDF http://www.bu.ufsc.br/framerefer.html
Chamemos apenas a atenção para alguns tópicos frequentemente esquecidos pelos alunos:
• As referências devem ser listadas pelo sobrenome do autor, grafado em letra maiúscula.
Quando há repetição do autor, ao invés de repeti-lo, deve-se usar um traço de seis caracteres. Na bibliografia deste texto, por exemplo, temos os seguintes exemplos:
DEMO, P. Introdução à metodologia da ciência. São Paulo: Atlas, 1991.
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______. Metodologia científica em ciências sociais. São Paulo: Atlas, 1989.
RODRIGUES, André Figueiredo. Como elaborar citações e notas de rodapé. SP: Humanitas, 2007.
______ . Como elaborar e apresentar monografias. SP: Humanitas, 2008.
______ . Como elaborar referências bibliográficas. SP: Humanitas, 2008.
• É inadmissível a entrega de uma listagem de “www’s”. Se as referências eletrônicas possuírem autor, devem ser realizadas da mesma forma que um artigo impresso: nome do autor, título, data se houver e, se for revista eletrônica, todos os dados pertinentes disponíveis no site. Após isso, deve-se usar a expressão “Disponível em:” seguida do endereço eletrônico e a expressão “Acesso em:” seguida da data de acesso.
• Sites como a Wikipédia, embora muito úteis para nossos trabalhos, não são bem vistos como referências por não haver critério de seleção para a publicação das informações neles contidas. Se o aluno fizer uso de sites desse tipo, os bons artigos possuem links para sites mais confiáveis, vinculados a universidades ou a revistas idôneas. Opte sempre por referências confiáveis.
• As referências impressas e as eletrônicas podem vir juntas ou separadas, à escolha do autor. Caso deseje separá-las, o autor pode usar termos como “Referências Eletrônicas”
ou “Referências Webgráficas”, por exemplo.
• A formatação do SARE para as referências é fonte book antiqua tamanho 10, espaçamento simples com três pontos antes e três depois. Não esquecer que, com exceção da primeira página, o formato SARE possui margem esquerda de 1 cm.
Para facilitar a vida do pesquisador, há um aplicativo desenvolvido pela UFSC que cria as referências a partir da digitação dos dados. O site2 pode ser usado livremente. Não há mais razão para a entrega de trabalhos com referências fora dos padrões.
Há uma infinidade de casos específicos que podem gerar dúvidas ao pesquisador na hora da elaboração das referências. A melhor coisa a fazer é consultar boas referências, como o site Aula 02 | Normatização