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UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ UFC FACULDADE DE EDUCAÇÃO CURSO DE PEDAGOGIA

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FACULDADE DE EDUCAÇÃO CURSO DE PEDAGOGIA

A PERCEPÇÃO DOCENTE SOBRE A HOMOSSEXUALIDADE EM UMA ESCOLA PÚBLICA EM AQUIRAZ/CE

MÁRCIO ANDRÉ SILVESTRE

FORTALEZA 2016

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A PERCEPÇÃO DOCENTE SOBRE A HOMOSSEXUALIDADE EM UMA ESCOLA PÚBLICA EM AQUIRAZ/CE

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará como exigência parcial para obtenção do diploma de Licenciado em Pedagogia, sob a orientação da Prof.ª Dr. ª Maria José Albuquerque da Silva.

FORTALEZA 2016

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A PERCEPÇÃO DOCENTE SOBRE A HOMOSSEXUALIDADE EM UMA ESCOLA PÚBLICA EM AQUIRAZ/CE

Monografia apresentada à Universidade Federal do Ceará - UFC como pré-requisito para a obtenção do título de Licenciado em Pedagogia.

Aprovada em: 18/07/2016.

BANCA EXAMINADORA

_______________________________________

Profa. Dra. Maria José Albuquerque da Silva (Orientadora) Universidade Federal do Ceará - UFC

_______________________________________

Profa. Dra. Luciane Germano Goldberg Universidade Federal do Ceará – UFC

_______________________________________

Profa. Dra. Ana Paula de Medeiros Ribeiro Universidade Federal do Ceará - UFC

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A Deus.

À minha mãe Antônia, exemplo de força e coragem, companheira, amiga sempre presente, à minha família e a todos meus amigos que me apoiaram nessa difícil jornada.

Obrigado.

A todos os homossexuais que vivenciam o desafio de superar dia a dia o preconceito e a discriminação por sua maneira singular de ser e viver e sentir.

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AGRADECIMENTOS

Em primeiro lugar, agradeço a Deus por ter me concedido a oportunidade de ingressar nessa conceituada universidade, além de me dar sabedoria e força nessa jornada que foi bastante difícil e cheia de obstáculos. Porém, ele não me desamparou em nenhum momento.

À minha mãe Antônia, sinônimo de força e determinação. Uma mulher guerreira que cuidou tão bem de mim e de meus irmãos, nos incentivando a estudar e buscar sempre o melhor. Uma heroína na qual me espelhei e a quem dedico minha vida.

Aos/às meus/minhas dez irmãos/irmãs: Raimundo, Julia, Francisco, José, Paulo, em especial a Maria, Lucia e Luciê que fazem parte da minha vida, servindo de apoio e incentivando permanentemente o meu sucesso. À minha sobrinha Maria Eduarda e meu cunhado Wagner Silva, também só tenho a agradecer.

Ao meu pai Manoel Lourenço, que se encontra nos braços do Pai. (In Memoriam)

À Maria de Fátima (Dedé) que Deus colocou em minha vida. Um ser iluminado que emana paz e felicidade para todos ao seu redor.

À minha professora e orientadora Maria José Albuquerque pela dedicação e paciência que teve para comigo nos momentos em que desanimava. Sua orientação e incentivo permitiram que eu concluísse esta monografia.

Ao Kalilio Pereira, que foi tanto tempo meu anjo da guarda.

É claro que não poderia deixar de agradecer aos/às professores/as e adolescentes que fizeram parte desta pesquisa, em especial aqueles/as que participaram da oficina. Como também agradeço à direção da escola participante.

Agradeço às professoras Luciane Goldberg e Ana Paula de Medeiros, por terem aceitado o convite para compor minha banca examinadora e fazerem parte desse momento tão especial em minha vida.

Aos/Às meus/minhas queridos/as amigos/as Márcio Moreira, Jônatas Bandeira, Maria Amélia Matias, Rosângela Holanda, Aurineide Garcia que me acompanharam nesse processo monográfico, compartilhando angústias e vitórias.

Por fim, sou grato a todos os amigos que não citei, mas que de alguma forma fazem parte de minha história e que sempre estiveram ao meu lado, me amparando de alguma forma.

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“Qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor valerá.”

(Milton Nascimento).

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EU, DESCOBRIDOR DE MIM1

Olhos no espelho

Deleito nas mais profundas descobertas Meu corpo em movimento

Ágil, baixo, lento.

De repente, somente Diante de mim Tímido, alegre, sorridente

Sou simplesmente assim.

Estudante, pedagogo e trabalhador Universo do ensinar e aprender

Que me ergue com esplendor Na luta digna de ascender

Praia, poesia e canção

Constroem meu mundo da imaginação Persistente, romântico e sonhador

Diabético, dedicado e vencedor

De repente, somente Olho novamente Como sou forte e resistente

Tudo isso é surpreendente

Esse encontro Foi tudo repentino Tramado pelo destino Tudo isso agradeço ao divino.

1 Poema escrito por mim como atividade da Disciplina Leitura e Produção Textual na Formação de Professores, no curso de Pedagogia da UFC. Foi apresentado no Multiencontros, promovido pela UFC, 2016.

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RESUMO

O trabalho tem como objeto-problema a percepção docente sobre a homossexualidade numa escola pública em Aquiraz/CE, com o objetivo de investigar e analisar os discursos e práticas de professores com relação às questões de gênero, sexualidade, em especial, com relação à homossexualidade. O estudo está fundamentado em autores que abordam temas como gênero, sexualidade, homossexualidade e formação de professores, dentre eles, Louro (2007, 1997), Mott (2003), Canário (2010) e Alarcão (1998). Quanto à metodologia, trata-se de uma pesquisa qualitativa bibliográfica e documental, com estudo de caso baseado em pesquisa de campo e análise de dados apurados em uma escola pública cearense, mediante a observação em sala de aula, entrevista semiestruturada com docentes e oficina ministrada para alunos da instituição.

Como resultados, verificou-se que a homossexualidade ainda é percebida, em discursos e práticas, como um comportamento desviante e silenciado na escola, motivado pelo fato de os docentes se sentirem despreparados para lidar com as manifestações da sexualidade dentro da sala de aula. Quanto à formação de professores/as, espaço primordial para o aprendizado desses conhecimentos, identifica-se a ausência de estudos sistemáticos e de propostas concretas voltadas para o enfrentamento de questões como essas. Defende-se, então, a necessidade de se trabalhar projetos com tais temáticas no cotidiano escolar, vinculado ao desenvolvimento do projeto pedagógico da escola, em prol de uma formação de sujeitos pautada numa percepção crítico-emancipatória.

Palavras-chave: Formação de professor. Gênero. Homossexualidade. Sexualidade.

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ABSTRACT

The work has as its object-matter the perception teaching on homosexuality in a public school in Aquiraz/CE, with the objective to investigate and analyze the discourses and practices of teachers with respect to issues of gender, sexuality, in particular, with respect to homosexuality. The study is based on authors that discuss topics such as gender, sexuality, homosexuality and training of teachers, among them, Louro (2007, 1997), Mott (2003), Canário (2010) and Alarcão (1998). As for the methodology, this is a bibliographic and documentary research, with case study based on field research and data analysis established in a public school of Ceará, through classroom observation, semi-structured interview with faculty and taught workshop for students of the institution. As a result, it was found that homosexuality is still perceived, in speeches and practice as a deviant behavior and silenced at school, motivated by the fact that teachers feel unprepared to deal with the manifestations of sexuality within the classroom. The training of tutors, primordial space for learning of that knowledge, identifies the absence of systematic studies of concrete proposals aimed to deal with issues such as these. Defends itself, then, the need to work with such projects in school everyday themes linked to the development of the pedagogic project of the school, for a formation of subject based on a critical perception-emancipatory.

Keywords: Teacher training. Gender. Homosexuality. Sexuality.

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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

DST – Doença Sexualmente Transmissível

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IDEB – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica LDBEN – Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional LGBT - Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais

NUSS – Núcleo de Pesquisa sobre sexualidade, Gênero e Subjetividade PCN - Parâmetro Curricular Nacional

PDE – Plano de Desenvolvimento da Escola PME - Plano Municipal de Educação

PNE - Plano Nacional de Educação PSE – Programa Saúde na Escola PPP – Projeto Político e Pedagógico

UERJ – Universidade Estadual do Rio de Janeiro UFC - Universidade Federal do Ceará

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ... 14

2 SEXUALIDADE E HOMOSSEXUALIDADE: ASPECTOS TEÓRICOS, CONCEITUAIS E CONTEXTUAIS ... 18

2.1 Contexto social, histórico e cultural do Brasil em relação à sexualidade e a homossexualidade ... 18

2.2 Entrelaçando os conceitos centrais do estudo ... 21

2.3 Gênero e sexualidade ... 21

2.4 Orientação sexual ... 24

2.5 Identidade de gênero e identidade sexual ... 25

2.6 Homossexualidade: para além do azul e rosa, um arco íris de cores ... 26

2.7 Analisando as fontes e documento legais ... 29

2.8 Formação docente: perspectivas e desafios ... 33

2.8.1 Formação Continuada ... 33

2.8.2 Papel do professor diante da homossexualidade no contexto escolar ... 34

3 METODOLOGIA ... 37

3.1 Abordagem do estudo: pesquisa qualitativa ... 37

3.2 Procedimentos da investigação empírica ... 38

3.3 O contexto social, histórico cultural de Aquiraz ... 39

3.4 O lócus da pesquisa ... 41

3.5. Os sujeitos do Estudo ... 43

3.6 Perfil acadêmico-profissional dos/as docentes ... 44

3.7 Tratamento dos dados coletados ... 45

4 RESULTADOS E ANÁLISE DOS DADOS ... 46

4.1 Prática docente: reflexão sobre o seu papel nas questões de gênero, sexualidade e homossexualidade ... 46

4.1.1 Percepção conceitual ... 46

4.1.2 Formação continuada ... 52

4.1.3 Prática pedagógica docente ... 54

4.1.4 Oficina educativa: uma experiência participativa ... 57

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 63

6 REFERÊNCIAS ... 66

APÊNDICE A - Roteiro de Entrevista Semiestruturada com os docentes em uma escola da rede pública municipal de AQUIRAZ ... 70

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1 INTRODUÇÃO

Considerando a educação como fenômeno histórico e social, entende-se a escola como uma instituição que, como muitas outras, relaciona-se com pessoas. Sua peculiaridade está em ser uma das primeiras instituições que a criança tem como referência a ser seguida, a posteriori da família. Mais em específico tem cunho complementar a ação familiar, com a proposta e missão de instruir e educar.

Nesse contexto, a escola também é o espaço em que docentes e alunos podem acessar diferentes linguagens, práticas educativas e o convívio social. É o ambiente de desenvolvimento individual e coletivo do sujeito, com a oportunidade da diferença se manifestar e ser respeitada.

Na prática, a escola deve ser um ambiente em que todos os alunos se sintam acolhidos. Para que isso aconteça é importante que temas atuais e de seu interesse sejam discutidos constantemente, de modo crítico-reflexivo, com o intuito de mostrar que podem ser explorados por outros vieses, de maneira desmitificada, sem tabus ou preconceitos.

Alguns dos temas que não pode ser ignorado é a questão de gênero e sexualidade no âmbito escolar, em especial, a homossexualidade, cada vez mais discutida nos espaços sociais, mas é também na escola que precisa ter um olhar especial, por ser um local que propõe a socialização de valores e atitudes no modo de decidir e agir em prol da formação humana.

As expectativas desse estudo iniciaram a partir de minha experiência, trabalhando como secretário escolar, em uma escola pública de Ensino Fundamental no município de Aquiraz, notadamente, durante as reuniões pedagógicas, quando surgia a discussão sobre o tema, em que percebia entreolhares de professores, que logo mudavam de assunto, demonstrando despreparo para enfrentar essa questão.

No intuito de me localizar no contexto da pesquisa como sujeito investigador refaço, por meio de minhas lembranças escolares, os elementos construtores de minha identidade, durante os caminhos percorridos da adolescência até os dias atuais, e que tem me fortalecido na condição de homossexual, futuro professor e pesquisador da temática.

Foi em Aquiraz, a primeira capital do Ceará, entre a brisa do mar, que vivi a minha adolescência e, sobretudo, no que diz respeito aos desafios enfrentados em sala

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de aula, onde desde muito cedo percebi e senti a dinâmica segregadora do cotidiano, principalmente com a separação das práticas inerentes ao gênero, demarcando bem o binário feminino e masculino, enquadrando sempre as situações nas ditas “normas sociais”, como brincadeiras do tipo masculinas, tais como: futebol, carro ou na simplicidade da vida, em não poder chorar, ser sensível, delicado, pois essas são ditas qualidades femininas.

Muitos dos conflitos internos na adolescência são vivenciados, principalmente, no âmbito educacional, no que tange à sexualidade e aos modos de vivê-la em sociedade. A escola em que estudei foi pública e essa nunca oportunizou espaços de discussão sobre a sexualidade, mais especificamente, “homossexualidade”.

Esporadicamente tratava sobre Doença Sexualmente Transmissível (DST) ou gravidez na adolescência, conforme previam os conteúdos programáticos. Descobri nesse espaço que havia outros adolescentes que sentiam as mesmas angústias e também sofriam calados, por não entender o que estava acontecendo em relação às descobertas, os desejos e medos.

Em 2009, aos 22 anos, decidi revelar para minha mãe que era gay, e falei abertamente sobre a minha sexualidade, recebendo todo o apoio. A partir daí fiquei convicto de que devemos nos reconhecer e nos aceitar para que possamos exigir respeito como qualquer outro “ser” humano, como um cidadão de direito.

Além disso, tive a oportunidade de participar de vários eventos, dentre eles:

Curso sobre Política Nacional de Saúde Integral Lésbica, Gays, Bissexuais, Travesti e Transexuais, promovido pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); I Seminário da Diversidade Sexual e Combate a Homofobia, promovido pela Secretaria de Cultura e Turismo de Aquiraz; e I Seminário Conversas empoderadas e despudoradas sobre gênero, sexualidade e subjetividades, organizado pelo Núcleo de Pesquisa sobre Sexualidade, Gênero e Subjetividade (NUSS), da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Sabemos que no modelo social em que vivemos, onde prevalece o patriarcalismo, o machismo e a heterossexualidade, são muitas as dificuldades e desafios para trabalhar com essa temática da “sexualidade”, principalmente, quando se busca desmitificar tabus e lidar adequadamente com os preconceitos existentes. Não tem sido tarefa fácil tratar sobre isso nos espaços formativos, sobretudo, o escolar, sobre o que de antemão parece algo desconhecido, proibido, feio, visando desconstruir essas ideias, destruir simulacros de uma verdade absoluta e mostrar aos alunos a sua real

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importância, que não é essa coisa “incompreensível”, “pecaminosa” como a sociedade apregoa baseada em preceitos e interpretações religiosos, dificultando a compreensão que se trata de algo normal, ontológico, ou seja, de todos nós seres vivos.

Com estes pensamentos transitando em minha mente foi crescendo a vontade de somar esforços a outras iniciativas da sociedade, focadas no tema da sexualidade, tais como a homossexualidade no contexto escolar, no sentido de contribuir para uma conscientização de que é necessário instigar o respeito e a tolerância entre professores, alunos e demais agentes que atuam na escola. Nessa perspectiva, os professores poderão ajudar, ou melhor, compreender os alunos no seu processo de construção de identidade, pois muitos sofrem calados, num silêncio profundo e não têm, muitas vezes, a quem recorrer.

Diante dessa situação cabe perguntar: até que ponto a escola vem discutindo esse tema? Estariam os/as professores/as preparados/as para o debate referente ao gênero e à sexualidade? Como os /as professores (as) lidam com os alunos homossexuais? Em face do exposto convém investigar, como problemática central do estudo: como a homossexualidade está presente no imaginário dos professores atuantes na sala de aula em uma escola pública no município de Aquiraz?

Partindo dessas inquietações, o objetivo geral da pesquisa foi analisar a prática e os discursos dos professores de uma escola pública no município de Aquiraz/CE, com relação às questões gênero, sexualidade, em especial, da homossexualidade. Para tanto, foram delineados objetivos específicos: identificar a discussão sobre questões de gênero e sexualidade nas fontes e documentos legais;

conhecer como ocorre a ação/intervenção pedagógica de professores junto aos alunos na escola, e mais especificamente, na sala de aula, acerca das temáticas de gênero e sexualidade. Identificar, por meio dos discursos, o processo formativo de professores, percebendo suas posições e concepções sobre questões de gênero e sexualidade.

Quanto ao referencial teórico, o estudo se fundamenta numa perspectiva crítico-reflexiva de educação, sendo esta concebida como fenômeno social historicamente situado e como instrumento de emancipação humana. Os conceitos centrais ou categorias que alicerçam o estudo são gênero, sexualidade, homossexualidade e formação de professores, embasados em autores tais como Louro (2007, 1997), Mott (2003), Braga (2010), Ferreira e Luz (2009), Canário (2006) e Alarcão (1998).

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Para a realização do trabalho optamos trata-se de uma pesquisa qualitativa bibliográfica e documental, com estudo de caso baseado em pesquisa de campo e análise de dados apurados em uma escola pública cearense, mediante a observação em sala de aula, entrevista semiestruturada com docentes e oficina ministrada para alunos da instituição, no mês de junho do corrente ano.

Considero, portanto, esta pesquisa relevante por tratar de um contexto marcado por questões discriminatórias, geradoras de preconceitos e representações simbólicas, de modo que estas temáticas, ao serem tratadas educacionalmente, podem ser apreendidas e utilizadas como subsídios para novas propostas e ações pedagógicas.

Essa pesquisa nos possibilitará uma maior compreensão sobre tal realidade, podendo posteriormente servir como instrumento didático e referência para outros trabalhos científicos e escolares.

Para fins de organização o trabalho está estruturado em quatro capítulos. Na introdução apresento o tema, a justificativa e relevância, os objetivos, bem como as etapas do desenvolvimento deste trabalho; o capítulo 2 trata da fundamentação teórica, seus conceitos e concepções segundo os autores; o capitulo 3 aborda a metodologia, o tipo de pesquisa, sujeitos e instrumentos da pesquisa; e o capitulo 4 apresenta os resultados e análise dos dados sobre a percepção dos docentes; e por fim as considerações finais, seguida de referências, apêndice e anexo.

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2 SEXUALIDADE E HOMOSSEXUALIDADE: ASPECTOS TEÓRICOS, CONCEITUAIS E CONTEXTUAIS

Para uma melhor compreensão da temática abordada foram tratadas sobre as seguintes categorias/conceitos centrais: gênero, sexualidade, homossexualidade e formação docente. A abordagem se fundamenta em autores que contribuem para elucidar a discussão, dentre eles estão: Louro (2007; 1997), Braga (2010), Ferreira e Luz (2009), Canário (2006) e Alarcão (1998), os quais defendem um posicionamento crítico-reflexivo com o qual compartilhamos.

Iniciamos com a apresentação do contexto social, histórico e cultural do Brasil em relação à sexualidade e a homossexualidade.

2.1 Contexto social, histórico e cultural do Brasil em relação à sexualidade e a homossexualidade

No Brasil, a homossexualidade ainda é um tema abordado de forma preconceituosa e discriminatória, sendo isso mais latente até meados dos anos 2002, cujo cenário vem se modificando por força de conquistais legais, oriundas da mobilização de movimentos sociais em defesa da cidadania e dos direitos de grupos historicamente silenciados, a exemplo de LGBT.

Até o início do século XXI, portanto, não havia medidas para combater discriminações e preconceitos decorrentes de questões relacionadas à orientação sexual.

Esses movimentos, então, foram ganhando mais força, mesmo com a presença de vários grupos religiosos, tal como a igreja Católica, que por séculos repudiou e excomungou homossexuais, sujeitos tidos pela sociedade como doentes e degenerados.

Historicamente no Brasil a homofobia, ou seja, a aversão e repulsa contra a homossexualidade ou a homossexuais, encontrou terreno fértil para se manifestar, em todos os âmbitos e espaços sociais. Senão vejamos o que o trecho abaixo revela:

A homofobia esteve sempre embutida em diversas esferas e manifestações da cultura em nosso país: nos discursos médico legais, que consideravam a homossexualidade uma doença; em discursos religiosos, que condenavam o ato homossexual como pecado; em visões criminológicas conservadoras, que tratavam homossexuais como um perigo social; e em valores tradicionais que desqualificavam e estigmatizavam pessoas que não se comportavam de acordo com os padrões de gênero prevalentes como pessoas anormais, instáveis e degeneradas, caracterizando a homossexualidade como um

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atentado contra a família (RELATÓRIO DITADURA E

HOMOSSEXUALIDADES: INICIATIVAS DA COMISSÃO DA

VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO “RUBENS PAIVA”, 2013)

Mesmo com as perseguições e repressões, os que eram degradados para o Brasil encontravam espaço para as práticas homoafetivas. Havia mais liberdade sexual dos nativos e escravos, bem como a nudez dos nativos.

Há também relatos da existência e destino da primeira travesti negra2 do Brasil, Francisco Manicongo, ou como era conhecida “Chica Manicongo”, que fora queimada na fogueira sob a acusação de sodomia.

Na literatura brasileira é possível encontrar vários personagens homossexuais, como nas obras Moleque Ricardo3, O cortiço4 e O bom crioulo5. Observa-se, porém, que em algumas obras há uma diminuição da figura do homossexual, se referindo ao homossexual como sendo fleumático e decadente, permitindo traçar como era o pensamento vigente na época em que cada obra está inserida, seu contexto em relação à homossexualidade. Há ainda a mencionar que a descriminação no Brasil esteve por anos relacionada como criminalidade, juntamente com discursos homofóbicos, principalmente no período da ditadura militar, que tinha a homossexualidade como uma ameaça e subversão política. Para isso, conforme a descrição seguinte:

Os preconceitos homofóbicos embutidos na ideologia anticomunista e moralista adotada pelo regime militar infiltravam todos os espaços nos quais o estado de exceção operava. Embora houvesse a censura da imprensa e de outros meios de comunicação e expressão antes do golpe de 1964, a preocupação de “moralizar” o país ”reforçou a intervenção do Estado no controle da cultura” sob diversos aspectos (RELATÓRIO DITADURA E

HOMOSSEXUALIDADES: INICIATIVAS DA COMISSÃO DA

VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO “RUBENS PAIVA”, 2013).

Quanto ao movimento homossexual, este surge no Brasil e ganha força a partir da segunda metade dos anos 1970. Conforme Facchini (2003), o termo

“movimento homossexual” é entendido como o conjunto das associações e entidades, mais ou menos institucionalizados, constituídas com o objetivo de defender e garantir direitos relacionados à livre orientação sexual.

2 Primeiro homossexual travesti descoberto em pesquisas recentes da história do Brasil, foi um negro natural do Congo, Francisco Manicongo, escravo de um sapateiro, residente em Salvador, denunciado na Visitação de 1591. (MOTT, 1994)

3 José Lins do Rego, 1936

4 Aluísio de Azevedo, 1890

5 Adolfo Caminha, 1895

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Ressalta-se que desde a década de 60, com a explosão dos movimentos sociais de minorias (étnicas, sociais, culturais, religiosas, sexuais...) em vários países da Europa e no Brasil, e com o fortalecimento dos estudos de gênero, foi possível uma maior organização na luta pelos direitos de igualdade das ditas minorias sociais.

Segundo Facchini (ibidem), sua trajetória está dividida em três diferentes momentos. É importante frisar o primeiro momento, denominado “primeira onda”, corresponde ao surgimento e expansão desse movimento no período de “abertura”

política e que se concentrou no eixo Rio-São Paulo, sendo fortemente marcada por um caráter antiautoritário e comunitarista. Esse primeiro momento encerra-se nos últimos anos da primeira metade dos anos 1980, o que coincide com a retomada do regime democrático e o surgimento da AIDS, então chamada de “peste gay”.

O primeiro movimento gay do Brasil surgiu em São Paulo, em 1979, e o Primeiro Encontro Brasileiro de Homossexuais foi realizado em 1980. Na década de 1980 foi pouco tratado pela bibliografia, correspondendo como um possível declínio do movimento; porém, foi nessa década que os movimentos homossexuais passaram então a multiplicar-se em todo o Brasil, procurando a afirmação de uma identidade e reivindicando direitos para homens e mulheres homossexuais, como um direito de cidadania, haja vista a perseguição e o preconceito a que sofriam.

No início da década de 1990 houve um reflorescimento das iniciativas militantes, fortalecendo-se frente à sociedade com a presença marcante na mídia, com ampla participação em movimentos de direitos humanos, enfim, os grupos e as associações voltadas à homossexualidade ganharam visibilidade por meio de políticas públicas voltadas à contenção do vírus HIV, visto como um problema de saúde pública.

A fundação do primeiro grupo, com uma proposta de politização da questão da homossexualidade foi o “SOMOS” criado em São Paulo no ano de 1978 (FACCHINI, 2003).

Os movimentos gays organizados estariam evidenciando uma nova postura dos homossexuais e, consequentemente, uma nova relação entre cultura, sociedade e indivíduos. Esse seria um espaço de extrema importância na luta por direitos, por visibilidade, por emancipação, por justiça e principalmente por uma educação mais formal, com relação à AIDS, que em seu início atingiu, sobremaneira, a comunidade homossexual masculina.

Junto à efervescência e poder dos movimentos sociais, em um processo de construção e reconstrução de identidades sexuais e de gênero, surge, na metade dos anos

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90, a sigla GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes). Neste contexto, a sigla GLS traduzia um discurso de convívio harmonioso e pluralista de afirmação de identidades, bem como a segmentação de mercado (FACCHINI, 2003).

Na I Conferência Nacional de Políticas Públicas para GLBT, em 2008, foi impressa a discussão da mudança da sigla GLBT para LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), como já adotado no cenário internacional.

Apesar dos avanços no campo da sexualidade no Brasil, a sociedade ainda tem demonstrado intolerância e resistência no reconhecimento legal e judicial dos direitos sexuais e humanos LGBT. Foram conquistados o reconhecimento das uniões homoafetivas e a adoção de crianças, mas é preciso combater a homofobia diariamente, nas relações cotidianas vividas nos mais diversos espaços de socialização, que massacra os direitos dos indivíduos, por não se adequar a heteronormatividade6 da sociedade vigente.

Assim, para o entendimento da temática pesquisada, buscamos aprofundar a discussão acerca dos conceitos teóricos que consideramos importantes no presente trabalho, procurando indicar e articular tais conceitos de modo a definir e delimitar progressivamente o objeto de investigação: a percepção docente sobre a homossexualidade em uma escola pública em Aquiraz/CE.

2.2 Entrelaçando os conceitos centrais do estudo

Com o intuito de assegurar um suporte teórico condizente com a temática em foco, tratamos de expor, a seguir, sobre os conceitos centrais ao estudo.

2.3 Gênero e sexualidade

Uma das questões que instiga o estudo sobre gênero e sexualidade se refere ao próprio sentido dos termos, isto é: o que é gênero e o que é sexualidade?

Historicamente, estas perguntas têm permeado o imaginário social, quase sempre distorcidas por uma visão de senso comum que se limita a demarcar lugares entre homens e mulheres e a distinguir o que é da ordem do masculino e do feminino. Do mesmo modo, quanto à sexualidade, esta, se restringe às descobertas do prazer e do desejo em cada indivíduo, sem qualquer associação às questões sentimentais e afetivas.

6 Entendemos por heteronormatividade a obsessão com a sexualidade normatizante heterossexual, através de discursos que descrevem a situação homossexual como desviante e imoral.

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Atualmente, nas sociedades ocidentais, entretanto, tais temas têm ganhado cada vez mais visibilidade, amplitude e espaço, envolvendo inúmeros aspectos para além do biológico e conquistando avanços em termos conceituais e do ponto de vista da legislação, inclusive, no meio educacional, constituindo bandeiras de lutas de diversos movimentos sociais em defesa dos direitos da mulher em relação ao homem e da liberdade para a vivência da sexualidade, independente do sexo e do gênero.

Partimos do pressuposto de que o conceito de gênero é utilizado usualmente como uma palavra que serve para classificar as pessoas na sociedade de acordo com o sexo que possuem, ou seja, se são do sexo masculino e/ou do sexo feminino, porém sabemos que esse termo possui muitos significados, conforme as diferentes abordagens, concepções e tempo histórico.

O termo gênero foi usado como sinônimo de mulheres, associado à política do feminismo, principalmente nos anos 1980 com o avanço das lutas contemporâneas dos movimentos sociais de mulheres feministas. Os estudos de gênero iniciam referindo-se à organização social da relação entre os sexos, negando o determinismo biológico no uso dos termos como “sexo” ou “diferença sexual” (SILVA, 2015).

Segundo Meyer (2013), na história do movimento feminista esse conceito se desdobrou em dois momentos importantes, denominadas ondas. Na primeira onda (1890 a 1934), as feministas buscavam findar com o sexismo, procurando eliminar o discurso sobre as desigualdades entre os sexos e almejando conquistar para s mulheres mais oportunidades, colocações e direitos iguais aos homens.

Já na segunda onda, em 1960, irá se voltar para as construções propriamente teóricas, além das preocupações sociais e políticas, nascendo daí as primeiras conversas sobre a diferenciação de gênero. A segunda onda remete ao reconhecimento da necessidade de um investimento mais consistente em relação à produção do conhecimento, mas, sobretudo, buscando compreender e explicar a subordinação social e a invisibilidade política a que as mulheres tinham sido historicamente submetidas.

Analisar a forma como esses conceitos são construídos socialmente torna o conceito de gênero uma importante ferramenta.

Nesse contexto, o conceito de gênero passa a englobar todas as formas de construção social, cultural e linguísticas implicadas com os processos que diferenciam mulheres de homens, incluindo aqueles processos que também perpassam pelo corpo.

Louro (1997, p. 23) enfatiza que “o conceito passa a exigir que se pense de modo plural”. Nesse sentido, a compreensão de gênero possibilita identificar a

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imensidão de valores atribuídos a homens e mulheres, bem como as regras de comportamento decorrente desses valores.

Sobre esse assunto, Medeiros, Gomes Filho e Juca (2015) também consideram o gênero como uma construção social, isto é, como parte inerente da sociedade, determinando o que vem a ser homem ou mulher, instituindo, paralelamente, oposições arbitrárias e indicativas de dominação e submissão, respectivamente.

Ressalta-se que as normas de gênero são construções sociais, portanto estão relacionados à forma como nos sentimos e nos percebemos como sujeitos atuantes nos espaços em que vivemos. Essas construções ocorrem ao longo da vida dos sujeitos, em interação com diversas circunstâncias e aprendizagens (WENETZ, 2005).

É na perspectiva de gênero como “identidade dos sujeitos” (LOURO, 1997) que desenvolvemos este trabalho, buscando analisar os discursos dos docentes e discentes em torno da homossexualidade em uma escola pública, pois se deve compreender o gênero como constituinte das identidades dos sujeitos, identidades essas que se transformam, não são fixas ou permanentes e que podem, inclusive, ser contraditórias.

Reconhecer e compreender as relações de gênero e a sexualidade como parte constitutiva da sociedade significa que nas diferentes instituições a construção do sujeito não é um processo linear, ao contrário, é dinâmico e contínuo, por isso precisa ser problematizado, reinterpretado e discutido.

No tocante à sexualidade, esta é compreendida com inúmeras distorções, pois é um processo complexo, que dispõe de diferentes formas de obter prazer com o próprio corpo e se relacionar com os outros. Está associada à imaginação, à fantasia, à criatividade, ligada ao aspecto biológico, às transformações do corpo, principalmente, às fisiológicas, que definem o que é macho e o que é fêmea.

De acordo com Grossi (2014, p. 2),

Os anos 60 constituem um período de grande questionamento da sexualidade:

a pílula anticoncepcional passa a ser comercializada, a virgindade enquanto valor essencial das mulheres para o casamento começa a ser amplamente questionada, e se começa a pensar mais coletivamente, no Ocidente, que o sexo poderia ser fonte de prazer e não apenas destinado à reprodução da espécie humana. Entre os inúmeros movimentos sociais que despontam neste período, dois nos interessam particularmente, o movimento feminista e o movimento gay, porque ambos vão questionar as relações afetivo-sexuais no âmbito das relações íntimas do espaço privado. As lutas destes movimentos vão refletir-se no campo acadêmico por vários fatores: primeiro porque a Universidade é um lugar de produção de conhecimento fortemente influenciada pelas lutas sociais; e segundo porque muitas das estudantes (e

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algumas professoras) que participaram destas lutas percebem que não existem respostas a inúmeros questionamentos destes movimentos sociais, de maneira que se inicia um movimento, no interior de diferentes disciplinas, em busca de se encontrar o lugar das mulheres, até então invisível.

Louro (2007, p. 204) ressalta “que as formas de viver a sexualidade, de experimentar prazeres e desejos [...] precisam ser compreendidas como problemas ou questões da sociedade e da cultura”. Desse modo, a sexualidade pode ser entendida como uma construção, que envolve um processo contínuo de aprendizagem e reflexão e não somente das condições biológicas.

Para Ferreira e Luz (2009, p. 35), “a sexualidade é algo complexo e não pode ser separada dos aspectos social, político, cultural e econômico” e complementa,

“ela está presente desde a concepção e até a morte”. É, pois, dessa forma, que muitas pessoas descumprem as regras socialmente aceitas sobre ser homem ou mulher e começam a reconhecer o desejo por pessoas do mesmo sexo e se sentem constrangidas pela desvalorização corriqueira da homossexualidade e tendem a omitir sua condição.

É importante demonstrar o fato de que a homossexualidade hoje está sendo encarada de forma diferente da que era pensada antes. Deve-se mostrar a evolução do quadro histórico na sociedade em geral.

A abordagem de alguns conceitos e significados sobre orientação sexual, identidade de gênero e sexual e homossexualidade nos auxiliará na compreensão dos significados da sexualidade dos sujeitos, ao identificá-los por suas práticas, comportamentos e preferências sexuais, isto é, ao identificá-los de acordo com suas orientações sexuais, aspectos explorados ao longo do trabalho.

2.4 Orientação sexual

Outro conceito básico no contexto da sexualidade é a orientação sexual, que está atrelado ao interesse afetivo-sexual apresentado pelo sujeito. Conforme Bortolini (2008), orientação sexual significa a atração, o desejo sexual e afetivo que uma pessoa sente por outras.

Considerada um termo mais apropriado do que “opção sexual” e

“preferência sexual”, visto que não se trata de uma opção, uma escolha, a orientação sexual é compreendida como a forma pela qual o indivíduo vai viver sua sexualidade, podendo ser: heterossexual (quem sente atração por pessoas do gênero oposto),

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homossexual (quem sente atração por pessoas do mesmo gênero), bissexual (quem sente atração por pessoas de ambos os gêneros) (BORTOLONI, 2008).

Acrescenta-se também o termo assexual (quem não sente nenhuma atração sexual) e pansexual (quem sente atração sexual por todos os gêneros), o que contribui para revelar que não há fronteira fixa, definida, em termos de orientação sexual.

A orientação sexual, portanto, se faz presente como elemento social, cultural e histórico:

O conceito de orientação sexual, apesar de uma considerável polissemia que lhe é característica, diz respeito a como cada sujeito vivencia suas relações sexuais e afetivas. É imprescindível para a compreensão dos aspectos sociais, culturais e históricos da sexualidade e tem implicações imediatas no entendimento sobre arranjos familiares e parentalidade por exemplo. (NOTA TÉCNICA N° 24/2015 – SECADI/MEC)

A heterossexualidade representa o modelo padrão de sexualidade no mundo ocidental, uma vez que não desvia as regras impostas socialmente; é então, vista como a relação “natural” e “normal” na sociedade vigente. A homossexualidade, em contrapartida, por não corresponder aos padrões estabelecidos aos gêneros e aos desejos sexuais, é caracterizada como uma identidade desviante, logo, não tem nada de

“natural” nem de “normal”.

2.5 Identidade de gênero e identidade sexual

Para uma melhor compreensão acerca dos termos identidades de gênero e identidade sexual, faz-se fundamental entender inicialmente o que se pensa sobres esses conceitos. No século XXI o termo identidade tem passado por grandes mudanças.

Antes, tal conceito era empregado, na maioria das vezes, para designar identificações forjadas socialmente e culturalmente através de percepção/ compreensão que eram oriundas dos sujeitos e não construções sociais, coletivamente elaboradas.

A discussão sobre as identidades contemporâneas analisa criticamente a construção da normalização e, com isso, a criação de limites rígidos nos sentimentos, nos desejos e nos atos, estabelecendo, com isso, outros comportamentos e formações sociais como não desejáveis.

Nunes (2013) observa que o sujeito na pós-modernidade não se identifica mais com uma identidade única e estável, se transformando em um sujeito composto por várias identidades, que por vezes lhes são contraditórias ou não resolvidas.

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A identidade sexual é aspecto fundamental da identidade da pessoa natural, revestida de uma série de ramificações que acessam inúmeros direitos tendo o condão de influenciar no livre desenvolvimento da personalidade do indivíduo (CUNHA, 2015).

Louro (2007, p. 11) chama a atenção para esse aspecto ao afirmar que as

“identidades de gênero e sexuais são, portanto, compostas e definidas por relações sociais, elas são modeladas pelas redes de poder de uma sociedade”.

A identidade sexual e a de gênero das pessoas são interdependentes e construídas à medida que identificadas, social e historicamente, como masculinos ou femininos, constituindo-se de acordo com o modo como vivem seus prazeres e sua sexualidade.

É importante ressaltar que há estudos em que a identidade sexual aparece como sinônimo de orientação sexual, e em outros aparece como sinônimo de identidade de gênero, de modo que para nós, independente desses arranjos teóricos, a identidade indica a percepção que cada indivíduo constrói sobre si mesmo e como aprende a lidar com isso.

2.6 Homossexualidade: para além do azul e rosa, um arco íris de cores

Embora a homossexualidade seja um assunto que tenha ganhado mais espaço e visibilidade atualmente, sua abordagem ainda está ligada à anormalidade e ao preconceito, e na sociedade brasileira é considerado um mito e um tabu (FURLANI, 2009). A partir dessa perspectiva, a homossexualidade não pode permanecer como assunto restrito, e visando melhor compreender o surgimento da figura pública do homossexual, recorremos à percepção de estudiosos no assunto.

Segundo Mott (2003) a importância de estudar sobre a homossexualidade na realidade brasileira é ter a possibilidade de desvendar as raízes do preconceito em nossa sociedade, contribuindo para pensar em caminhos e estratégias visando erradicar a intolerância e atrocidades cometidas contra homossexuais.

A história nas diversas culturas indica que sempre existiram homossexuais, embora recebessem outra nomenclatura. O tratamento de cada cultura à homossexualidade tem sido diferente, mas na nossa cultura ocidental, influenciada fortemente pela moral burguesa e a religião cristã, tem sido fortemente reprimida e

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silenciada, atribuindo a essa identidade um caráter pecaminoso, patológico e criminoso, que vai de encontro a moral e os bons costumes da sociedade tradicional.

Para Prado e Machado (2008) afirmam que as homossexualidades estiveram presentes no mundo de formas tão distintas quanto à própria organização cultural e moral na história das sociedades.

Há vários estudos que apontam as possíveis causas ou origem da homossexualidade, principalmente correntes teóricas vinculadas à Biologia Psicologia, Sociologia, Antropologia e ainda a religião, que tratam numa perspectiva, muitas vezes, confusa, sem explicar satisfatoriamente os significados atribuídos. Um exemplo disso é o determinismo, uma das correntes que traz argumentos para explicar tal fato. Essa teoria tem como perspectiva defender e admitir uma causa biológica para todos os fatos.

Diante disso, a Genética, a Endocrinologia e a Neurociência usam argumentos

“precisos” para explicar a causa ou causas da homossexualidade. Conforme descreve Longaray (2010, p. 21):

Estudos realizados no ano de 1991 afirmam que a identidade homossexual pode ter origem explicada em estudos realizados com cérebros ou seja, a causa da homossexualidade está na semelhança existente entre o cérebro feminino e o cérebro do homossexual. Pequenas diferenças detectadas através de um exame de ressonância magnética seria a prova da caraterística biológica como justificativa para o surgimento da homossexualidade.

Do ponto de vista religioso, a homossexualidade contradiz a lei divina e é tratada a partir de estudos e referências nos textos bíblicos como um desvio, e quando esta é posta em prática, constitui um grave pecado. Atualmente, a visão da Igreja Católica Apostólica Romana tem assumido postura mais progressista, na figura do Papa Francisco, que tem um posicionamento aberto sobre a temática, na qual pede aos fiéis

“o respeito, e não a discriminação”7.

Diante disso, Longaray (2010) afirma que a homossexualidade, em meio aos discursos (re) produzidos pelas instituições religiosas, é tida como antinatural, como abominação, uma vez que a não possibilidade de procriação não corresponde, dessa forma, à constituição da família patriarcal, baseada na visão sobre a mulher como mera reprodutora de filhos herdeiros e submissa à vontade do homem.

7 Disponível em:

http://www.opovo.com.br/app/maisnoticias/mundo/2016/06/27/noticiasmundo,3628975/papa-francisco- diz-que-cristaos-devem-pedir-desculpas-aos-gays.shtml . Acesso em 27 jun. 2016.

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Furlani (2009) atribui a invenção do termo, inicialmente homossexualismo ao médico húngaro Karoly Maria Benkert, em 1869. Palavra híbrida, formada pela união de três radicais gregos e latinos: homo (grego) – igual, semelhante, o mesmo que;

sexus (latim) – sexo; ismo (latim) - próprio de, que tem de condição de. Esse último reforçou a ideia de anormalidade, algo patológico e desviante.

A partir do século XX houve uma ressignificação e o termo homossexualidade (do latim, sufixo dade – qualidade de) passou a se referir como tipo de relacionamento, possibilidade legitima e não patológica de homens e mulheres vivenciarem seus afetos e prazeres. Mas, somente em 1985, o Conselho Federal de Medicina do Brasil considerou sem efeito legal o parágrafo 302.2 do Código Mundial da Saúde que, desde 1948, que incluía o “homossexualismo” como desvio e transtorno sexual, retirado deste em 1993, e em 1999 o Conselho Nacional de Psicologia confirmou a normalidade da orientação homossexual (QUIRINO, 2014).

Para Mott (2003), homossexualidade significa “sexo igual” podendo ser usado tanto para o homem que se relaciona com homem, quanto para a mulher que se relaciona com mulher. Meira (2002) complementa dizendo que é algo mais profundo que um simples contato entre duas pessoas do mesmo sexo, tem a ver com o desejo, afeto e o amor. É uma força impulsiva, forte e dominante.

Após o surgimento público do termo homossexual, em 1969 ocorre o incidente de Stonewall, que faz referência a quatro dias de motins homossexuais em Greenwich Village (Nova York).

No Brasil, a resposta à epidemia de HIV/Aids, além de expor a existência da diversidade homossexual, produzindo reflexos no campo da reivindicação por direitos, acabou por coadunar o debate sobre sexualidade com a questão do respeito aos direitos humanos.

Apesar dos avanços no campo teórico, contudo, a nossa sociedade tem demonstrado bastante intolerância e resistência em reconhecer os direitos sexuais e humanos de gays, lésbicas, bissexuais, entre outros. Intolerância e resistência expressas nas relações cotidianas vividas nos mais diversos espaços de socialização através da homofobia, ou seja, da manifestação de medo, aversão e desprezo às relações afetivas entre pessoas do mesmo sexo.

Esse cenário nos impulsiona a engrossar as fileiras dos que lutam contra toda forma de discriminação e preconceito, tanto na escola quanto fora dela.

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2.7 Analisando as fontes e documento legais

A constituição Federal de 1988 introduz em seu artigo 205, que a educação é um direito de todos e, ainda, que condições para acesso e permanência escolar devem ser garantidas pelo Estado. No artigo 5° afirma que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. Tal compreensão e determinação legal estão reafirmadas no artigo 3° da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDBEN – (BRASIL, 1996), que constituem princípios vitais para a melhoria e democratização da gestão e do ensino, tendo aqui, um olhar especial para “o respeito à liberdade e o apreço à tolerância”, que significa que nenhuma pessoa pode ser desrespeitada, em virtude de sua raça, fé religiosa, orientação sexual, entre outros.

A proposta curricular das escolas brasileiras está apresentada nos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN - (BRASIL, 1998) que consiste em um documento oficial contendo metas, objetivos e princípios para a Educação Básica. É um documento referencial para que as escolas desenvolvam suas práticas pedagógicas em conformidade com cada disciplina a ser ministrada em sala de aula.

Os PCN compreendem a orientação sexual como um trabalho de caráter informativo e formativo e que preconiza o tema sexualidade para o ensino fundamental e médio, porém há grande dificuldade por parte da escola em abordar a questão.

Outro documento importante é o Plano Nacional de Educação (PNE), Lei n°

13.005/2014, que é instrumento de planejamento que orienta a execução e o aprimoramento de políticas públicas para área da educação.

Com a Emenda Constitucional n° 59/2009, passou de uma disposição transitória da LDBEN para uma exigência constitucional com periodicidade decenal, o que significa que planos plurianuais devem tomá-lo como referência. O PNE também deve ser base para elaboração dos planos estaduais, distrital e municipais, que, ao serem aprovados em lei, devem prever recursos orçamentários para sua execução. (BRASIL, 2014).

Outro importante instrumento legal a ser analisado são as diretrizes curriculares nacionais para a Educação Básica aprovada ano passado, por meio da Res.

Nº 2/2015. (BRASIL, 2015). Segundo esse documento, nos cursos de formação de professores, é necessário contemplar dentro da formação teórica e interdisciplinar, as questões socioambientais, à diversidade étnico-racial, de gênero sexual, entre outras,

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pois temos a compreensão que os professores são agentes formativos, para isso a necessidade de acesso permanentes às informações, vivência e atualizações.

É importante reforçar que cada município conheça e discuta a relevância de todas as metas do PNE, contribuindo para que o país avance na universalização da obrigatoriedade do ensino e na qualidade da educação. Tendo como referência o município lócus da pesquisa, o Aquiraz, o seu Plano Municipal de Educação (PME) foi aprovado pela Lei n° 1119 de 18 de junho de 2015, com vigência de 2015 a 2024.

Nesse intuito, após uma análise do documento, o PME não reporta nenhuma meta diretamente ligada às questões de gênero, sexualidade ou respeito à diversidade sexual ou orientação sexual. Mas é notório, que algumas estratégias se utilizam de palavras afins para abordar o assunto como: respeito à diversidade, tolerância com o diferente, discriminações, violências, sexualidade (DST-AIDS), respeito ao outro, presentes exclusivamente na meta 4. Entretanto, nos PCN está embasado e vinculado ao tema orientação sexual com a saúde, as Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e a gravidez na adolescência, evidenciando um caráter eminentemente patológico, como podemos observar a seguir:

Meta 4 – Melhoria da qualidade da educação básica no município cuidando, especialmente da aprendizagem dos alunos.

Estratégias:

4.9 - Criar situações que promovam o respeito a diversidade, e à tolerância, evitando que se comentam discriminações e violências contra os sujeitos escolares: alunos, professores, gestores, funcionários e familiares, sempre na perspectiva de tornar a escola prazerosa e justa para todos que dela participam.

4.24 – Desenvolver projetos que aproximem a escola das famílias usuárias da mesma, tais como Escola para Mães, ofertando cursos com temas para orientar o cuidado e a educação da criança, nos primeiros anos de vida; Pais e Filhos: uma Relação de Amor que tratará de sexualidade (DST-AIDS), gravidez na adolescência, uso de drogas, violência doméstica, convivência com filhos drogadictos, tolerância com os diferentes; desenvolvimento da espiritualidade; direito e deveres de cidadania, dentre outros.

4.25 – Estreitar as relações com os familiares dos alunos, afim de capacitá-los a participar e acompanhar a vida escolar dos seus filhos criando situações para que os alunos e seus familiares trabalhem em si o sentimento responsável da cidadania, tendo como foco o respeito ao outro, a si mesmo, ao meio ambiente e ao patrimônio público.

4.27 – Adotar projetos e programas de proteção à criança e ao adolescente, contra ações de violência, tais como: o uso de drogas ilícitas, inclusive bebida alcoólicas e cigarros, qualquer tipo de iniciativa de tráfico, gravidez precoce e doenças sexualmente

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transmissíveis – DST’s e AIDS, maus tratos domésticos e abandono familiar.

4.28 – Articular, junto à Secretaria Municipal de Saúde, o atendimento aos estudantes da rede escolar municipal por meio de ações de prevenção, promoção e atenção à saúde. (Grifos nosso).

(PLANO MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE AQUIRAZ, 2015.

pp.167-168).

Nesse momento em que as discussões sobre a diversidade estão aumentando na sociedade, a educação precisa se envolver, favorecendo a assimilação e internalização de conceitos que envolvem as temáticas da diversidade, inclusão, etnia, gênero e sexualidade.

No tocante à estratégia 4.9, esta concebe a escola como um espaço de todos, convivendo com a diversidade social ali presente, respeitando as distintas visões e valores, fortalecendo as ações de combate à discriminação e aos diversos tipos de preconceito existentes na sociedade. Ou seja, vimos do ponto de vista legal há avanços e conquistas, mas nos indagamos: e na prática do dia a dia, como isso ocorre?

Sabemos que os alunos devem estar inseridos sem quaisquer condições ou imposições pelas quais possam ser limitados em seus direitos de participação ativa do cotidiano escolar. Para isso, o/a docente deve transformar a sala de aula em um ambiente colaborativo, com uma gestão de saber que envolve os aspectos humanos, culturais e sociais, a fim de desconstruir discriminação e preconceitos. É importante, entretanto, que os sistemas de ensino fomentem políticas públicas e iniciativas de formação continuada aos profissionais da educação para a discussão e promoção das temáticas.

Nessa mesma direção é necessário um olhar especial para o Projeto Político Pedagógico (PPP), uma ferramenta imprescindível e que norteia todos os parâmetros a serem desenvolvidos e executados dentro de uma instituição escolar, sendo uma exigência expressa na LDBEN, no artigo 12, que define, entre as atribuições da escola, a tarefa de elaborar e executar sua proposta pedagógica.

Vale ressaltar que o PPP deve ser resultado de um trabalho construído coletivamente: grupo gestor, professores, funcionários, pais e aluno, bem como, a comunidade, por isso, a importância que todos esses segmentos participem na sua elaboração e façam um pacto para cumprimento das metas e objetivos propostos, com o intuito de atender e somar as dificuldades da instituição. Nesse sentido, Veiga e Araújo (2012 p. 11) complementam argumentando que se faz necessário “construir um projeto

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político-pedagógico [...] comprometido com as múltiplas necessidades sociais e culturais da população”.

A escola apresentou o PPP atualizado, em virtude da renovação de credenciamento da instituição, com validade de 2016 a 2018. O referido documento foi elaborado a partir de dados do Plano de Desenvolvimento da Escola (PDE) e do Censo Escolar, ambos de 2014 /2015, os quais se organizam em quatro dimensões:

infraestrutural, pedagógica, administrativa e relacional, favorecendo assim uma leitura sobre as condições da escola.

Está previsto no texto legal que a avaliação do referido documento acontece anualmente, onde a direção envolve todos os membros da equipe escolar nas tomadas de decisões, acatando sempre a decisão da maioria, embora ainda haja pouca participação dos representantes dos pais, de acordo com o que foi possível notar nesses anos de atuação como secretário da instituição.

Os/as professores/as têm papel importante na elaboração desse documento, bem como devem se tornar sujeitos ativos na participação e execução do cotidiano escolar. A título de adiantamento dos dados do campo, convém registrar que, dos professores da pesquisa, apenas dois participaram de sua elaboração (D2, D3,), pois os outros (D1 e D4) estavam lotadas em outra unidade de ensino. Os docentes também disseram que não conhecem o referido documento, sendo esse um dos problemas para a colaboração e execução das ações propostas.

No que diz respeito à questão de gênero, sexualidade, diversidade sexual e orientação sexual e homossexualidade, o PPP simplesmente ignora e não faz nenhuma referência, além de não traçar nenhuma meta ou estratégia para a promoção e discussão no âmbito escolar. Também é notório que faz menção apenas ao que preconiza os PCN, principalmente as ações vinculadas à promoção da saúde.

A escola é contemplada com o Programa Saúde na Escola (PSE), que tem parceria com a Secretaria Municipal de Saúde do município, tendo como objetivo oferecer a prevenção e atenção à saúde de crianças e jovens do ensino básico público, onde conta com a presença da enfermeira e do dentista da unidade básica de saúde local.

Vimos, em relação a isso, que os profissionais de saúde trabalham de diversas formas: realizam palestras quando a escola convida, fazendo campanhas de vacinas na própria escola e ainda fazendo o trabalho de saúde bucal, menos estabelecendo um diálogo profícuo quanto às questões sociais e afetivas que cercam a

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temática em foco, embora tenhamos clareza que tal debate poderia ser conduzido e direcionado pelo corpo docente e corpo gestor da instituição.

2.8 Formação docente: perspectivas e desafios

A literatura acadêmica nos permite compreender que a formação docente deve caminhar alicerçada na indissociabilidade entre a reflexão e a ação, entre a teoria e a prática educativa, tendo a universidade e a escola como lócus privilegiados dessa formação, valorizando a produção do conhecimento pelo docente, como um sujeito pensante e um agente ativo do saber. Nesse sentido, deve-se primar não somente pela formação inicial, mas também pela formação continuada, uma vez que o aprendizado é um processo vivo, dinâmico e permanente na vida dos seres humanos.

2.8.1 Formação Continuada

Os desafios da escola do século XXI são grandes e o professor é o condutor do processo educativo, por isso, a prática docente tem sido alvo de discussão, principalmente nas próprias salas de graduação nas universidades, pois a maior questão é exatamente refletir junto aqueles que irão se formar como futuros educadores.

Nesse sentido, é indispensável que os professores reflitam sobre o papel social da escola, a fim de construir um juízo crítico capaz de saber identificar, avaliar e analisar informações, com vista a lidar com as demandas sociais desse tempo (violência, relações de gênero, sexualidade, homossexualidade, entre outros).

Não há o que questionar: os professores são os animadores da aprendizagem com suas práticas, suas reflexões, seu compromisso e sua competência. A sala de aula é o espaço privilegiado onde a ação educativa se realiza, numa relação direta entre aluno e professor. Nesse sentido, a tarefa de ensinar e aprender exige formação, tempo e planejamento.

Dessa forma, para conseguir bom desempenho, os professores precisam se sentir preparados para o exercício da ação docente, o que exige um amplo programa de formação continuada. Ao tratar sobre essa formação como instrumento de profissionalização, Alarcão (1998) afirma:

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Entendo que a formação continuada de professores deve visar ao desenvolvimento das potencialidades profissionais de cada um, a que não é alheio o desenvolvimento de si próprio como pessoa. Ocorrendo na continuidade da formação inicial, deve desenrolar-se em estreita ligação com o desempenho da prática educativa.

Nóvoa (1992) destaca que a formação deve estimular uma perspectiva crítico- reflexiva para fornecer aos professores os meios de um pensamento autônomo, facilitando as dinâmicas de autoformação. Diante dessa consideração, os professores precisam refletir constantemente sua prática docente, a partir de um processo de reflexão pessoal em que possam descobrir suas potencialidades para desenvolver novos saberes e habilidades que transformem sua prática pedagógica em sala de aula, visando o tipo de aluno que quer formar e o tipo de sociedade que quer ajudar a construir.

2.8.2 Papel do professor diante da homossexualidade no contexto escolar

Para compreender a atitude do professor à frente problemática da sexualidade, como algo constantemente presente no ambiente escolar, provocando dúvidas e inquietações, é necessário que os mesmos se prepararem adequadamente, com base numa sólida formação, sem cair nos modismos de época e bem fundamentados em concepções progressistas e emancipatórias, conscientes dos termos a serem utilizados, principalmente com as noções de diferença, diversidade, gênero e sexualidade existente na sociedade, as quais estão dentro de sala de aula, tendo em vista que a escola é um espaço em que as manifestações sexuais são evidenciadas com recorrência, por isso é importante fomentar estratégias de promoção do respeito às diferenças de cada um.

Braga (2010) salienta que as manifestações de gênero e sexuais são cogitadas na escola e por muitos momentos são trabalhadas de modo impróprio. Ao que parece isso ocorre porque os professores apresentam dificuldade em tratar desse tema em seu cotidiano. No tocante à homossexualidade, essa dificuldade torna-se ainda maior, em virtude de ser vista de forma restrita, vinculada ao preconceito e desrespeito, adjetivos associados, muitas vezes, impostos pelos meios políticos, morais, religiosos e afins.

Tomando como referência os PCN (BRASIL, 1996), intitulado em seu volume 10 como “Orientação Sexual e Pluralidade Sexual”, são trabalhados os temas transversais. Esse documento também traz como proposta conteúdo específico a ser

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trabalhados, como: sexualidade, prevenção contra gravidez, Doenças Sexualmente Transmissíveis, AIDS e prevenção para saúde sexual.

Embora nos PCN se apresente a proposta de trabalhos com esses temas transversais, grande parte dos professores não se dispõe a explorá-los, alegando despreparo e encerrando o assunto sem delongas. Há que se refletir, então, sobre a necessidade de uma formação que contemple as preocupações dessa natureza.

A orientação sexual é tratada teoricamente com o tema da sexualidade na infância e adolescência, incluindo questões como posturas, crenças tabus e valores, porém não se concretiza, pois encontra o silêncio embutido quando não encontra espaço no currículo, nas disciplinas, para tratar sobre o assunto. Interessante ressaltar que os PCN distribuídos para as escolas, não tinha sido lido ou consultado pelos docentes que participaram da pesquisa.

Em muitos casos, os professores trabalham apenas na disciplina de Ciências, sem seguir a transversalidade no ensino, abordando apenas questões de fisiologia do corpo e reprodução humana, delimitando assim a discussão, motivo pelo qual se faz premente a inserção dessa temática na formação dos professores.

Sabemos que não é tarefa fácil, em decorrência de muitos tabus, e por não aparecer nos livros didáticos também, por isso os professores encontram muitos desafios, principalmente o medo dos pais dos alunos não aceitarem.

Dessa forma, a construção de relações e espaços de aprendizagem no âmbito escolar exige dos educadores uma prática sempre inovadora, criativa e uma formação continuada com ênfase para alcançar os objetivos e o crescimento educacional dos alunos. Isso contribuirá, no nosso entendimento, para o desenvolvimento de um trabalho amplo, não pautado apenas para o cumprimento de metas e conteúdo, mas sim para uma formação mais ampla.

Diante disso, compreendem-se as razões pelas quais muitos adolescentes não encontram abertura e são impedidos de falar de seus sentimentos, inquietações, medos e anseios, e é nesse período que muitos se auto afirmam e por vezes, manifestam sua sexualidade em alto nível de rebeldia.

Para Ferreira e Luz (2009), a escola pode reproduzir papeis de gêneros e modelos de sexualidade que oprimem, mas que também podem construir relações que libertem. Nesse sentido, a escola deve agir no respeito à diversidade. É preciso apoiar os alunos, devendo os professores auxiliá-los no diálogo e discussão sobre sua sexualidade,

Referências

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