UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE PSICOLOGIA
EFEITOS DA CONFIANÇA NOS PARCEIROS SOBRE OS COMPORTAMENTOS DE RISCO
NAS RELAÇÕES
Fernando Jorge Garcez Ferreira
MESTRADO INTEGRADO EM PSICOLOGIA
Área de Especialização em Psicologia Clínica e da Saúde Psicologia Clínica Dinâmica
2020/2021
UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE PSICOLOGIA
EFEITOS DA CONFIANÇA NOS PARCEIROS SOBRE OS COMPORTAMENTOS DE RISCO
NAS RELAÇÕES
Fernando Jorge Garcez Ferreira
Dissertação orientada pelo Professor Doutor João Manuel Moreira
MESTRADO INTEGRADO EM PSICOLOGIA
Área de Especialização em Psicologia Clínica e da Saúde Psicologia Clínica Dinâmica
2020/2021
Dedico esta dissertação a todos e todas que foram fazendo o favor de caminhar comigo, no tempo, nos sorrisos, nas dores, lágrimas e gargalhadas. Dedico também á minha família, por TUDO. Dedico a todos as minhas Pessoas bonitas presentes na minha vida, que me ensinam cada dia a ser um pouco melhor (nem sempre aprendo). Dedico a todas as minhas pessoas ausentes, foi tão importante tudo o que me ensinaram (espero ter aprendido). Dedico também a MIM, por me permitir superar-me e reinventar-me.
Espero merecer a vossa confiança.
Agradecimentos
Começar por agradecer a todas as pessoas que começaram este processo e me disseram:
Vai! Obrigado Família (pai, mãe, irmãs, cunhados, sobrinhos), Anabela Botinas (sempre presente), Carla Andrino (para tudo! Que vem aí psicólogo), Carla Esmeralda (pela ajuda nas dúvidas para matricular-me), Ana Rodrigues, pelas conversas. Professora Carla Crespo (já podemos ser amigos?).
Agradecer a Aurélio Nucifora, sem ti teria sido tão mais fácil desistir. Obrigado por me dizeres: vai, tu és capaz. Obrigado por dize-lo sempre a sorrir. Grazie.
Obrigado a todos os meus colegas de trabalho. Sem vocês poderia ter sido um pouco mais difícil articular tudo.
Obrigado Ana Pisco (pelos gritos e por toda a rede que me permitiste ter. Ficaste com mais uns cabelinhos brancos, eu sei).
Ser grato a todos os meus colegas de curso, não vou nomear nenhum, porque eles sabem quem são, e seria tão injusto esquecer-me de alguém, e foram tantos. Desesperámos, mas permanecemos. Vai ser bom o caminho. Caminhemos.
Que dizer de TODOS os Professores? MUITO OBRIGADO a todos e a cada um e uma.
Pela generosidade da vossa partilha. Pela palavra que nem sempre souberam quão poderosa foi. Pelos raspanetes também (foi bom voltar a sentir-me pequenino, é a grande vantagem de tirar um curso superior aos 50 anos). Tão bom que foi aprender com cada um de vós. Muito obrigado!
Agradecer especialmente à Professora Doutora Ana Sofia Medina, minha orientadora de estágio, por tudo (acho que basta assim). Vou levá-la para a vida.
Agradecer à ARIA, instituição que me recebeu e que tanto me ensinou. Agradeço através da Drª Andreia Fonseca a toda a equipa que tão bem me acolheu, e muito especialmente a cada utente, que me ensinou que a vida recomeça sempre amanhã, porque hoje, tenho de fazer por estar presente.
Obrigado Professor Doutor João Moreira, foi um gosto sentir a sua ajuda, ainda que por vezes imagino que se tenha arrependido tanto de orientar alguém aparentemente tão desorientado. Muito obrigado. Posso também levá-lo para a vida?
Uma palavra para a Faculdade e para todos os recursos humanos que ela comporta, obrigado por tudo.
Finalmente, um obrigado mais especial (perdoem), para a minha família, por resistir às minhas pacientemente a todas as minhas ausências. Vocês sabem que existe sempre uma brisa que me leva, e vocês sabem que eu sempre vou. Mas sempre volto.
Um beijo ao amanhã, porque o hoje é rapidamente passado.
Resumo
O que nos faz confiar nas pessoas? De que forma a confiança é desenvolvida e mantida?
O que leva as pessoas a confiar e quais poderão ser as consequências de confiar? Olhar para este constructo a partir de uma lente psicológica, faz-nos constatar que apesar de ser quotidianamente referida como sendo um valor estrutural, é essencial para que as relações possam ocorrer e manter-se. Ficamos sempre com a perceção que pouco ou muito pouco sabemos sobre este constructo, tantas vezes referenciado e tantas vezes, também negligenciado, especialmente quando pesamos o papel que ela representa na balança com que equilibramos os nossos relacionamentos, a vários níveis e em diversas dimensões, de forma a ganharmos pistas para uma orientação prática sobre a confiança que depositamos nos outros e, porque não, também em nós próprios.
A análise qualitativa utilizada, revelou, ainda que de uma forma discreta, que os indivíduos continuam a privilegiar variáveis como as crenças, os sentimentos de segurança percebidos, o nível de comunicação, entre outros, para que se possa desenvolver e manter um relacionamento amoroso. Foi também percetível na amostra observada, que nenhum dos participantes terá associada de forma direta e consciente, a confiança como um eventual fator predisponente para comportamentos de risco no contexto da sua relação amorosa.
Palavras Chave: Confiança, Comportamentos de Risco, Relações Amorosas, Teoria da Vinculação, Desenvolvimento Psicossexual, Teoria do Amadurecimento Emocional
Abstract
What makes us trust people? How is trust developed and kept? What brings people to trust and what consequences may trust beget? To look at this construct from a psychological standpoint makes us realize that despite being daily mentioned as a structural value it is essential for relationships to happen and maintain themselves. We always have the perception that we know little or very little about this construct, so often referenced and so often also neglected, especially when weighing the role it represents on the scale with which we balance our relationships, on many levels and various dimensions, so as to get clues to a practical orientation about the trust we have in each other and, why not, in ourselves as well.
This dissertation intends to briefly reflect on how trust is perceived by individuals and how it may be perceived as predisposing factor for risk behaviors in the context of love relationships. To that effect, an open answer survey with three direct answer questions related to this construct was done.
The qualitative analysis used revealed, if discreetly, that individuals still favor variables such as beliefs, perceived safety feelings, communication level, among others, to develop and keep a romantic relationship. It was also noticeable in the observed sample that none of the participants associated in a direct and conscious way trust to a potential predisposing factor for risk behaviors in the context of their love relationship.
Keywords: Trust, Risk Behaviors, Romantic Relationships, Attachment Theory, Psychosexual Development, Emotional Maturing Theory
Índice
I. Introdução ... 1
1. Enquadramento teórico ... 2
1.1. Teoria da Mente ... 7
1.2. Crenças ... 11
1.3. Teoria da Vinculação ... 13
1.3.1. Estilos de Vinculação ... 15
1.3.2. A Vinculação e a Autoestima ... 16
1.3.3. Modelos Dinâmicos Internos ... 16
1.3.4. Vinculação no Adulto ... 18
1.4. Perspetiva Psicodinâmica da Confiança ... 19
1.5. A confiança e a autoestima ... 24
1.6. Teoria do Amadurecimento Emocional ... 26
1.6.1. As relações familiares e sociais na puberdade ... 31
1.6.2. O mundo adulto ... 32
1.7. Teorias implícitas da personalidade ... 32
1.8. Autoestima ... 34
1.8.1. A autoestima nos adolescentes... 35
1.9. Os Estados Emocionais ... 36
1.10. A Perspetiva Psicodinâmica do Amor ... 37
1.11. A Teoria triangular do amor ... 37
1.12. As relações amorosas ... 42
1.12.1. A fisiologia do amor romântico ... 43
1.12.2. A Manutenção do Amor Romântico ... 44
1.13. O poder nas Relações Amorosas ... 45
1.14. A Sexualidade ... 46
1.14.1. O Autoconceito sexual ... 48
1.15. Comportamentos de risco ... 50
1.16. A Infidelidade ... 50
1.16.1. A Infidelidade sexual ... 51
1.17. O Ciúme ... 53
II. Método ... 54
1. Objetivo geral ... 54
2. Procedimento ... 55
3. NVivo ... 56
4. Instrumento de Recolha de Dados ... 57
5. Recolha de Dados ... 57
6. Amostra ... 58
7. Análise de Dados... 58
III. Resultados ... 58
IV. Discussão ... 63
V. Limitações ... 66
VI. Conclusão ... 67
VII. Anexos ... 68
1. Anexo A ... 68
2. Anexo B ... 71
3. Anexo C ... 73
4. Anexo D ... 75
VIII. Referências Bibliográficas ... 76
1 I. Introdução
Esta dissertação, mais do que um projeto de investigação, pretende ser um movimento reflexivo sobre a confiança implícita nas relações amorosas e de que forma ela poderá ter um valor preditivo enquanto predisponente (ou não), para possíveis comportamentos de risco. Nesse sentido serão revisitados autores e modelos teóricos que permitam enquadrar este constructo nas suas várias e diversas dimensões. Será feita uma breve conceptualização das dimensões elegidas para falar da confiança.
Na primeira parte esta dissertação preocupou-se em fazer uma pequena conceptualização da sociedade. Sobre como se organiza e sobre os comportamentos que vão emergindo a partir das diferentes configurações que ela foi e vai tendo ao longo do tempo. Este tema remete para as questões da socialização, onde será abordada a Teoria da mente, especialmente na vertente mais cognitiva, as crenças.
As relações estabelecem-se sempre em contexto, assim o tipo de vinculação a que podem estar sujeitas é um ponto relevante para esta dissertação, para ter também a oportunidade de falar sobre a autoestima, os modelos dinâmicos internos e a vinculação no adulto, parte importante a ter em conta nesta dissertação. Porque esta, decorre a partir de uma lente psicodinâmica, pretendi abordar a confiança também sobre esta perspetiva, a das relações objetais e do amadurecimento emocional para ter pistas que permitam observar dados relativos ao mundo adulto da confiança.
Ao abordar as relações amorosas torna-se essencial revisitar a Teoria Triangular do Amor de Sternberg e também como ocorre a sua fisiologia, a do amor, assim como da manutenção desse amor romântico. As relações amorosas são uma deixa perfeita para lançarmos um breve olhar também para questões como a sexualidade, o poder dentro das relações, a infidelidade e o ciúme, que são todos eles fatores que podem concorrer para uma maior efetividade de comportamentos de risco dentro das relações amorosas, mesmo que continuem a ter a premissa da confiança entre parceiros como cola de uma estabilidade percebida.
2 1. Enquadramento teórico
Tantas vezes, no coloquial dos nossos dias, deparamo-nos com a dicotomia confiança versus desconfiança enquanto valor estrutural no desenvolvimento das nossas relações nas suas diferentes esferas: pessoais, familiares, amorosas, profissionais, políticas, sociais, entre outras. Pensar a confiança é perceber os mecanismos que lhe estão subjacentes, assim como a sua componente interpessoal:
“ (…) é melhor passar os dias com amigos e homens bons do que com estranhos ou a primeira pessoa que apareça. Logo, o homem feliz necessita de amigos.”
(Aristóteles,1991)
Earle e Cvetkovich (1995) referem grandes desenvolvimentos ao nível da confiança social na era moderna, contrariamente às sociedades pré-modernas. Com as sociedades modernas e porque elas deixaram de se organizar em pequenos grupos, a confiança enquanto construto passou a recorrer a mecanismos transicionais, ou seja, deixou de ser como até então, interpessoal (particularizada) para passar a ser generalizada, adotando uma componente mais social (entre estranhos). As sociedades pré-modernas apresentavam uma segmentação e uma estratificação onde não existiam níveis de diferenciação entre os indivíduos, o que limitava as relações de confiança. As relações interpessoais existiam sobretudo num plano de subordinador e subordinado, onde o subordinado apenas podia garantir condições mínimas de sobrevivência.
Lévi-Strauss (1950) refere que a confiança depende de sistemas simbólicos (mito e religião), que permitem uma reciprocidade social. Os indivíduos que partilham símbolos comuns, em princípio, partilharão também do mesmo sistema de normas e valores, o que vai permitir uma ideia de previsibilidade dos comportamentos esperados. Esta previsibilidade será potenciadora de uma lógica de ligações sociais entre estranhos.
Por outro lado, Johnstone (2011) refere que são os sistemas abstratos (reportando-se à Grécia antiga) que vão permitir aos indivíduos que não se conhecem entre si, passarem a adotar comportamentos recíprocos confiáveis. A confiança pessoal, era até então, investida de um modo restrito e por mecanismos de familiaridade entre os indivíduos.
Com o surgimento de uma impessoalidade ao nível das relações, os sistemas abstratos (dinheiro, normas, leis, retórica, etc.), por estarem muitas vezes contrários às disposições
3 psicológicas dos indivíduos, vieram promover interações percebidas como sendo de confiança, mesmo nas relações entre estranhos, facto que impactou na vida dos indivíduos, quer nas suas esferas mais públicas, quer nas mais privadas ou íntimas. A confiança, enquanto constructo multidisciplinar e multifatorial, contém em si uma particularidade: a capacidade de coexistir concomitantemente com a desconfiança.
Segundo este autor, em todas as sociedades terá sido assim ao longo dos tempos.
Nunca será demais recordar a Teoria do desenvolvimento psicossocial de Erikson (1980), onde o autor refere que é logo no primeiro estádio do desenvolvimento humano, até mais ou menos os 18 meses de vida que surge a difícil tarefa de aprender a confiar ou desconfiar. É nesta fase que este autor converge com outras teorias psicodinâmicas do desenvolvimento, ao referir-se à dependência exclusiva do bebé face aos seus cuidadores, o que vai desenvolver, no pequeno ser, um sentido de confiança (ou não), dependendo da responsividade e da sensibilidade que estes revelarem, face às suas necessidades. Erikson defende que cuidadores que não atendem às necessidades expressas pelo bebé, promovem nele sentimentos de ansiedade, medo e desconfiança, uma vez que este passa a ter uma noção de imprevisibilidade do mundo. A desconfiança assim gerada é um forte preditor de sentimentos de solidão e de isolamento. Possivelmente por essa razão, segundo o autor, a esperança é uma virtude que os indivíduos saudáveis tendem a desenvolver.
Não será abusivo, pensar a esperança, enquanto uma componente da autonomia. Sem autonomia não se produz o verbo, não existe um sentido de agência que nos permita explorar e deixar-nos espantar com o mundo e no mundo. Entender Erikson quando ele apresenta a sua primeira fase do desenvolvimento psicossocial que é a confiança versus desconfiança, de forma a transportar este conceito para a vida adulta dos indivíduos, não deixa de ser um exercício estimulante.
Conceptualizando a autonomia, Webster (1983), refere-se à mesma como sendo uma liberdade que decorre de mecanismos de autorregulação que se regem por uma independência moral. Ao direcionarmos o nosso olhar para os diferentes períodos de vida, a infância e a idade adulta, e até mesmo para a velhice, é fácil encontrarmos alguns paralelismos (obviamente, que através de uma dinâmica de semelhanças e diferenças).
Na infância a autonomia e a autorregulação são fenómenos ainda emergentes ou em vias de emergir, devido ao estado de dependência da criança em relação aos seus progenitores.
4 No adulto e também nos adultos mais velhos, a autonomia e a sua autorregulação, em princípio já estarão instaladas, conferindo-lhes um sentido de independência.
Nomeadamente, de independência moral, o que lhes confere a capacidade de fazer juízos em relação a comportamentos certos ou errados, de modo independente em relação aos outros. Importa enfatizar que Erikson (1950), refere que a procura de autonomia é um contínuo ao longo da vida. Cada estádio da teoria psicossocial de Erikson, represente uma tarefa, ou uma crise de desenvolvimento na vida do individuo, que deve ser resolvida, referindo o autor que, essa crise, não deverá ser entendida sistematicamente como sendo algo catastrófico, contudo, ela expressa sempre, isso sim, uma vulnerabilidade e um potencial a considerar. Quanto maior for o sucesso na resolução dessa “tarefa-crise”, mais saudável será o desenvolvimento do indivíduo no seu ciclo de vida.
A primeira fase do ciclo de desenvolvimento psicossocial de Erikson, refere-se exatamente ao objeto de estudo desta dissertação, a confiança, que ele contrapõe com a desconfiança, que como já foi referido anteriormente por Johnstone (2011), tendem a ser concomitantes. Esta fase da infância convoca a representação de uma primeira demonstração de compromisso social e sentimento de confiança percebido pela criança, relativamente aos seus cuidadores significativos e de referência. Uma mãe (ou cuidador principal) que seja e garanta uma consistência na responsividade demonstrada às necessidades do bebé, está a contribuir para a primeira construção de sentimentos de conforto, segurança interior e previsibilidade desse bebé.
Estas condições, ou sentimentos potenciados, são para Erikson, fortes preditores de um estado geral de confiança, que funciona como um “motor” de exploração do mundo, ou da realidade externa, que será com certeza um garante de sentimentos de autonomia (Erikson, 1950). A fé e a esperança dos pais num filho são sustentadas também por sentimentos de confiança que foram sendo perpetuados ao longo do tempo pela religião:
“a confiança que nasce do ato de cuidar, é, sem dúvida, na atualidade, o fundamento de uma religião (Erikson, 1950)”
Em contexto religioso, uma confiança individual torna-se uma fé comum., assim como a desconfiança é facilmente percebida como sendo um sentimento negativo para o grupo.
Sendo então a fé e a confiança construções a partir de respostas de cuidado que vão sendo estabelecidas nos períodos mais arcaicos do desenvolvimento humano, denota-se um
5 equilíbrio de poder que surge de uma reciprocidade de vinculação e cuidado entre a criança e o adulto.
Na idade adulta, questões como a autonomia e independência moral são componentes de autoestima e autorregulação, muito fortes. Erikson fala também de outras características que poderão ser pertinentes nesta reflexão, como a vergonha, que é facilmente percebida pela criança como sendo um mecanismo de exposição que ela facilmente transforma em culpa.
Também com o adulto este sentimento pode ocorrer, sobretudo quendo possa existir uma perceção de baixo autocontrolo ou de perda de controlo externo (relações de poder). Outra fase interessente para ser olhada, será a fase de generatividade onde o adulto, especialmente mais velho, traduz uma necessidade de independência dentro do seu contexto familiar e no grupo de amigos, que encontra um paralelo na criança mais pequena quando tenta desenvolver os seus esforços para ganhar a sua independência.
A última fase referida por Erikson, que se relaciona com a integridade versus o desespero, obriga-nos a refletir sobre o sentido da vida e o significado que lhe atribuímos.
Uma visão menos positiva deste estádio desencadeará, certamente sentimentos de desespero, e medo. No adulto um medo sobretudo em relação à morte. Quando pensamos na infância, não nos podemos desmarcar da característica inicial da confiança, por ser adquirida através da integridade de uma outra pessoa, do cuidador. Erikson é muito claro na sua teoria psicossocial do desenvolvimento, referindo que sem existir uma integridade por parte dos adultos, não pode haver uma confiança percebida na infância. Atrevendo- me a fazer uma tradução direta do inglês, é dele a frase que diz: “crianças saudáveis, não terão receios em relação à vida, se os seus mais velhos, tiverem integridade suficiente para não temerem a morte” (Erikson, 1950). As relações de confiança são tantas vezes definidas como expectativas comportamentais sobre o outro, que funcionam como preditores de relações de vinculação mais fortes, saudáveis e seguras, que se desenvolvem num contínuo mais ou menos esperado.
Nenhuma sociedade é totalmente desprovida de confiança. Os elementos que a constituem tendem a depositar essa confiança nas suas relações mais ou menos significativas, sejam elas a nível familiar, profissional, social e até mesmo amoroso, variável que será bastante importante para esta minha reflexão. Ao olharmos para a confiança enquanto constructo e a partir de uma lente mais ampla, não é difícil entender
6 a importância, dificuldade e o desafio inerente a este tema. É pensar nas relações que se estabelecem entre pares, com o ambiente, com estruturas e organizações, para mencionar apenas algumas variáveis.
Na sua vertente mais solidária, a sociedade, segundo Émile Durkeim, potenciaria a existência de uma reciprocidade moral nas relações sociais, condição basilar para a construção de uma ideia de ordem social. Karl Marx vem sublinhar uma perspetiva capitalista da construção da sociedade, onde as relações sociais estariam subjugadas a uma ideia de divisão do trabalho imposta aos indivíduos. Max Weber focou-se nas estruturas de poder e da autoridade das sociedades, enquanto Talcott Parsons se debruçou sobre uma vertente de coesão social, referindo-se à conceptualização de um constructo que decorre de uma interiorização das normas sociais (Martins, 2013).
Ao considerarmos dimensões como ordem social, divisão de trabalho, noção de poder, autoridade e coesão social, estamos a ter uma visão antropocêntrica da sociedade, bem como do tipo de relações que esta visão comporta. Não será extemporâneo recordar Tajfel e Turner (Vala & Monteiro, 2013) quando defendem que, para ocorrerem relações interpessoais, é necessário existirem dois tipos de contexto: um contexto interpessoal- intergrupal, que deve existir num contínuo a partir do interpessoal (características individuais dos sujeitos que propiciam relações mais íntimas ou de amizade) para o intergrupal (ideia de pertença um determinado grupo), e ainda um contexto onde impere um sistema de crenças.
Para Tajfel e Turner (Vala & Monteiro, 2013), um sistema de crenças tem implícitas em si duas dimensões: a mobilidade social (flexibilidade e permeabilidade intergrupal) e a mudança social (visão estratificada e impermeável da sociedade), que permite usar recursos cognitivos que permitem a movimentação de um contexto mais interpessoal para outro mais intergrupal. O conceito de sociedade reveste-se de muita controvérsia, especialmente quando se pensa na sua génese. Não sendo do âmbito desta dissertação desenvolver um olhar aprofundado sobre a constituição da sociedade, importa fazer um breve enquadramento teórico sobre a mesma, de forma a contextualizar os indivíduos e as suas relações.
7 Existe uma perceção de que as sociedades surgem a partir de uma convergência do ser humano para a vida em grupo, colmatando assim dificuldades de satisfação das necessidades individuais. A partir desta perspetiva, conseguimos perceber a importância das relações interpessoais no estabelecer de um equilíbrio e de uma harmonia relacional estável. Passa a ser importante determinar regras de convivência que regulem condutas e imprimam um controle social, fato que faz emergir um conceito de jusnaturalismo (doutrina empírica que defende que os seres humanos possuem uma condição inata de associação que decorre de leis transcendentais inerentes à própria essência do indivíduo, Dallari, 1993).
Recordando Aristóteles (1991) e a sua teoria de que o homem é um ser gregário, por não conseguir viver sozinho, importa referir que este olhar gregário sobre a condição humana considerou que o Homem se foi agrupando em pequenos núcleos (família), para posteriormente constituir-se em comunidades mais alargadas (união de famílias), organizando-se em espaços físicos como casas (aldeias) que se foram aglomerando de modo a criar comunidades autossuficientes. Surge assim a ideia de cidade-estado.
Todas estas reflexões sobre sociedade, remetem-nos para as questões da socialização, que segundo Damásio (2011), se relaciona bastante com os neurónios-espelho. Os neurónios- espelho permitem-nos capacidades miméticas ao observarmos os outros. Uma observação empática do outro permite-nos pormo-nos na pele do outro, na expetativa de tentarmos sentir o que os nossos interlocutores possam estar a sentir, o que nos possibilita desenvolver comportamentos de cooperação e previsibilidade tática.
1.1. Teoria da Mente
Definida por Premack & Woodruff (1978), a teoria da mente é aceite pela comunidade científica como sendo uma competência metacognitiva, através da qual os indivíduos apresentam capacidades de representação de estados mentais (crenças e intenções) dirigidas para ações, de forma a conseguirem atribuir esses estados mentais aos outros.
Esta designação surge com o psicólogo americano David Premack, a partir das suas experiências com chimpanzés. A teoria da mente foi veiculada pelos psicólogos para traduzir um mecanismo de atribuição de estados mentais que os indivíduos dirigem uns aos outros, no intuito de desenvolverem processos de interpretação, explicação e previsão
8 dos comportamentos futuros do outro. Ela pressupõe a capacidade de ter uma crença sobre os estados mentais, incluindo a capacidade recursiva de ter crenças sobre as crenças. Para Premack & Woodruff (1978), a teoria da mente do senso comum pauta-se, genericamente, por três tipos de estados mentais: desejos, crenças e presunções.
Um aspeto importante sobre a teoria da mente é que, ao contrário do que seria de esperar, ela é desenvolvida desde muito cedo na infância, de uma forma espontânea e informal, durante o período pré-escolar (Leslie, 1987), sendo generalizável em termos culturais (Avis & Harris, 1991). Marschark (2000), defende que, para uma boa compreensão dos comportamentos dos outros, devem existir alguns componentes básicos nesta teoria da mente: desejos, emoções, intenções e crenças. Segundo Wellman (1990), o conceito de desejo desenvolve-se por volta dos dois anos de idade. Este autor refere que, na criança, a ideia de predisposição para a ação pode ocorrer ainda mais cedo. Meltzoff (1995), sugere que, a partir mais ou menos dos 18 meses, a criança apresenta uma capacidade mimética e Leslie (1987) chama a atenção para que, entre os 18 meses e os dois anos de idade, a criança já apresenta competências de dissimulação e fingimento (quando desperta a capacidade de conseguir fingir, desperta também a capacidade em reconhecer o fingir do outro).
Para além disso, independentemente da idade, o importante é que, para que a criança possa relacionar-se com as crenças, ela deve conseguir distinguir uma proposição falsa de uma verdadeira. Relativamente às crenças, é importante que consiga compreender que aquilo em que alguém acredita pode ser falso. Assim, o conceito de crença parece ser um conceito abstrato. Por conceito devemos entender uma unidade de conhecimento.
Portanto, importa perceber que um conceito abstrato implica a existência de um conhecimento, sendo, neste caso, também ele abstrato.
Segundo Wellman (1990), quando falamos da teoria da mente, os conceitos deverão ser entendidos como um grupo de conhecimentos adquiridos à luz de teorias do senso comum (psicologia naïfe). Compreendendo a relação entre as ações e os estados mentais, passa a haver uma maior capacitação para se lidar com efeitos surpresa, segredos, enganos e mentiras, o que vai permitir maiores inferências sobre o Outro. Com o desenvolvimento da linguagem, a capacidade de comunicar torna-se um elemento crucial para uma melhor compreensão da intencionalidade entre os sujeitos, permitindo que a comunicação se torne mais fértil e eficaz (Meltzoff, Gopnik, & Repacholi, 1999). A teoria da mente pode
9 ser concebida através de duas abordagens, uma cognitiva (crenças, pensamentos e intenções) e outra afetiva (emoções e sentimentos dos outros).
Segundo Pacherie (2004), a abordagem afetiva refere-se a uma compreensão dos estados emocionais dos outros. Algo similar ao que se pode entender por empatia. Ao permitir- nos fazer uma antecipação dos comportamentos, desejos e crenças dos outros, estamos a imprimir uma maior qualidade às interações entre os sujeitos, especialmente do ponto de vista cognitivo, uma vez que esta abordagem implica mecanismos específicos para que possam acontecer relações interpessoais: saber gerir relações sociais; reconhecer sinais sociais; uso de recursos atencionais; processamento da memória de trabalho; tomadas de decisão e regulação das emoções. Estes elementos, segundo Wellman & Bartsch, (1994), são de extrema importância para uma adequada interação social.
Não sendo estas competências inatas em nós, Gopnik e Slaughter (1991) sugeriram um Modelo de Desenvolvimento da Teoria da Mente que se caracteriza por três estádios:
compreensão da dissimulação, perceção e imaginação; compreensão de desejos e intenções e compreensão de crenças e do conhecimento.
Os comportamentos pré-linguísticos têm uma forte implicação na noção do Self e na noção do Outro. Por essa razão, a comunicação precoce é essencial em termos desenvolvimentistas. Tanto assim é que Tomasello (2003), chegou a identificar três fases de extrema importância para o desenvolvimento da comunicação: a fase prélocucionária (comportamentos não conscientes e sem a intencionalidade de um objetivo específico (expressão facial, contacto ocular e movimentos corporais que acontecem até por volta dos 9 meses de vida); a fase ilocucionária (onde já existe uma intencionalidade ao nível dos comportamentos, da produção de gestos, de vocalizações pré-verbais e de uma atenção partilhada com o locutor, o que acontece aproximadamente entre os 9 meses e 1 ano de vida) e por fim a fase locucionária (em que passa a haver uma comunicação intencional já com recurso às palavras).
McElwain e Volling (2004) relacionam a qualidade da comunicação precoce a fatores psicossociais, especialmente no que diz respeito às interações parentais. Lewis et al.
(1996) acrescentam ainda a importância de outros fatores como a fratria, referindo que crianças com irmãos desenvolvem mais facilmente competências de mentalização do que filhos únicos, sendo também importante o número e a extensão das interações familiares.
10 Fica, portanto, fácil perceber que a privação e os maus-tratos na infância terão efeitos perniciosos ao nível do desenvolvimento do indivíduo. Na mesma linha, para Piaget (1972), a psicologia do desenvolvimento enfatiza, normalmente, a importância das relações familiares e do ambiente enquanto fatores importantes para a aquisição de competências de mentalização, ou seja, para uma capacidade de compreender o outro.
De uma perspetiva neurobiológica, suspeita-se que, mais do que numa localização específica no cérebro, a mentalização possa ocorrer a partir de um circuito neuronal que, na perspetiva de Burns (2006), é responsável pela existência de um “social brain” que interage com todas as estruturas relacionadas com a cognição, nomeadamente a social.
Brothers (1996) defende que outras estruturas cerebrais podem também estar envolvidas neste processo: o córtex orbito frontal (lesões nesta área são responsáveis por défices cognitivos na memória sequencial, nas funções executivas e na memória de trabalho, défices de atenção, alterações de humor e comportamentos inapropriados), o sulco temporal superior e a amígdala (responsável pela deteção da direção do olhar, pela regulação das emoções e do comportamento social).
Outras estruturas cerebrais são também ativadas através de um sistema de neurónios- espelho, responsáveis por processar visualmente o comportamento dos outros através do córtex motor do sujeito que observa, originando uma reprodução do mesmo comportamento efetuado pelo sujeito observado, o que vem potenciar a capacidade de compreender melhor as ações do outro (Rizzolatti et al, 2009). Damasio (1994) refere que lesões na região do lobo frontal afetam o comportamento humano ao nível das suas funções cognitivas superiores, especialmente no que diz respeito aos comportamentos sociais, às alterações da personalidade e ao autoconhecimento.
Retomando a ideia de um processo metacognitivo da mentalização e fazendo uma ponte para uma abordagem psicodinâmica dos processos de construção da confiança, Mokhtar et al (2010) referem a importância do tempo passado e partilhado entre pais e filhos como sendo um fator determinante para um maior e melhor desenvolvimento da teoria da mente. Leslie (1987) vem referir um modelo cognitivo para explicar esta teoria, sugerindo que o estado mental, conceptualmente, relaciona-se com dimensões do real e com um sentido de agência a partir de processos cognitivos mais complexos. Deste modo, a perspetiva da Teoria da Mente subjaz às dinâmicas sociais (desde o momento das nossas
11 relações de objeto mais primárias), assim como aos processos de vinculação a que estamos sujeitos. Ao pensarmos o Outro também nos sentimos pensados, o que confere um sentimento de individualidade percebida. Para que esse processo ocorra, os sujeitos devem poder sentir-se acolhidos mutuamente, ou não. Ao desenvolvermos processos de mentalização, ganhamos também a capacidade de nos pôr em perspetiva, o que nos permite experienciar, acolher e regular as nossas próprias emoções e, também, as dos outros.
1.2. Crenças
As crenças são normalmente pensadas como tendo sobretudo um prisma religioso, mas do ponto de vista fenomenológico implicam uma atitude disposicional e intuitiva no ato de acreditar em algo ou em alguma coisa, portanto, subjetiva. Usam recursos cognitivos, já que a sua principal função é tentar conceber uma explicação possível e inteligível sobre a realidade, a vida, o mundo e tudo aquilo que existe. Para Kant (2001) a crença é algo do domínio da intuição, não demonstrável empiricamente, mas que pode ser explicada como uma ação, no sentido de uma tomada de decisão ou de uma escolha que obedece a um sentido ético. Na psicologia é considerada do ponto de vista cognitivo.
Segundo Judith Beck, as crenças “são compreensões fundamentais e profundas, frequentemente consideradas pela pessoa como sendo verdades absolutas” (Beck, 1997).
Sendo centrais, podem ter o poder de estimular atitudes, regras e suposições. Para esta autora, as crenças decorrem das relações interpessoais, sempre enquadradas em contextos nos quais essas relações coexistem. Não as confunde com sentimentos, emoções ou memórias apreendidas, ainda que considere que os itens referidos possam ser constituintes da sua estrutura psíquica e ontológica, não devendo ser descurada a sua vertente epistemológica devido ao seu caráter cognitivo.
A partir da sua vertente epistemológica, Beck considera que as crenças devem ser consideradas um objeto de estudo, pois a partir delas construímos representações sobre a realidade e sobre o mundo. Também por causa delas, desenvolvemos pensamentos e sentimentos mais ou menos funcionais. Crenças mais funcionais, normalmente, não provocam uma distorção da realidade, do mundo ou das próprias experiências, o que já não se pode dizer de crenças mais disfuncionais (Beck, 1997). Por termos a convicção,
12 enquanto seres sociais que somos, de que vivemos num mundo ou numa realidade partilhada com outros, segundo Aumann (1976) pressupomos vivências, situações, discussões e crenças que vamos partilhando uns com os outros (abordagem interativa).
Este pressuposto, contudo, não tem em consideração aquilo que se designa por crenças partilhadas. Então, como se pode fazer essa equilibração?
Para Brown (2017) cada indivíduo é percebido como sendo um ser individual e singular que compartilha um contexto social, passando a depender dos diferentes pontos de vista de cada um dos participantes, ou seja, um Eu que se agrupa em um Nós. Esta abordagem permite uma perspetiva intersubjetiva das crenças, que não depende de uma visão tão coletivista sobre o mundo, fazendo emergir questões e dinâmicas sociais diversas. Definir uma crença é uma árdua tarefa, já que ela pode ser percebida como sendo uma ideia, uma construção mental ou mesmo uma estrutura cognitiva.
O sociólogo Max Weber foi o primeiro autor a debruçar-se sobre a ideia de que a crença pode existir num lócus de análise entre uma ação e um comportamento (Webber, 1994).
Importa então perceber de onde surgem as crenças, uma vez que elas não existem per si nem são hereditárias e decorrem do comportamento humano. Numa perspetiva construtivista das interpretações que vamos fazendo do ambiente, ideia defendida por Aristóteles (1991) com o seu conceito de tábula rasa, Durkheim (2008) vem defender a crença a partir da ideia de uma consciência coletiva, portanto abstrata, que se caracteriza pela partilha de um conjunto de valores, simbolismos e sentimentos que são comuns aos membros de uma determinada comunidade.
O tipo de crenças está dependente do grau de significância que é atribuído à experiência vivida pelo sujeito, podendo estas ser oxidantes ou alcalinas. Segundo Luhmann (2009) uma crença alcalina relaciona-se com uma visão mais otimista que os indivíduos fazem de si próprios, do mundo e também das suas interações com os outros. Por outro lado, uma crença oxidante está associada normalmente a distorções cognitivas (Hawton e Kirk, 1997).
A crença pode ser pensada a partir de uma estrutura psíquica: emoção, sentimento, memória e volatilidade. Estes componentes psíquicos são responsáveis por uma compreensão da realidade. As crenças orientam-se e deixam-se orientar por um léxico
13 dos sentimentos, segundo Viscott, 1982 possuem um caracter subjetivo e são mais ou menos complexas, dependendo das experiências às quais os indivíduos vão estando sujeitos. Estão normalmente impregnadas de sentimentos e significados percebidos, e não são nunca estáticas, uma vez que vão sempre surgindo crenças novas para substituir e/ou alterar crenças mais antigas.
Um sistema de crenças possui um sentido de agência que promove dialéticas responsáveis pela sua mutabilidade, novidade e componente temporal, ou seja, aquilo a que é costume chamar experiência geracional. Elas podem ser determinantes nos atos, comportamentos, interações e identidade de uma pessoa.
Para Luhmann (2009) não existem vários Eus que possam surgir num individuo, o que poderia contribuir para uma visão fragmentada do mesmo, devido às suas diversas experiências de vida. Para este autor, é mais plausível a possibilidade de diferentes formas de interação que se inscrevem em contextos de vida mais complexos, permitindo assim uma modulação da identidade a partir de interações e experiências efetivadas nos encontros e relações entre os sujeitos.
Sosa (2015) defende dois tipos de crença. Uma mais de julgamento, quando o indivíduo é movido por um sentido de agência e de intencionalidade nas suas ações, por isso voluntárias, conscientes, ainda que em alguns casos possam não ser assim tão conscientes.
Outra, mais funcional, que apresenta uma vertente também teleológica ou biológica que, apesar de não ter uma intencionalidade, apresenta um caráter de regulação involuntário dos mecanismos psicológicos ou cognitivos. Para além disso, Sosa define as crenças como sendo possuidoras de uma componente funcional, ou de primeira ordem (animal) e uma componente judicativa, ou de segunda ordem (reflexiva).
1.3. Teoria da Vinculação
John Bowlby preconiza, na sua teoria da vinculação, a importância e a necessidade universal de ligações de proximidade (emocionais e afetivas) fortes, com o intuito de promover e desenvolver sentimentos de maior segurança percebida. Ao sentimento de segurança está subjacente uma exploração mais confiante do Eu, dos Outros e também do Mundo (Ainsworth e Bowlby, 1991). Fundamenta-se na psicanálise, socorrendo-se de conceitos da biologia, da psicologia do desenvolvimento e da etiologia. Importa referir
14 que ela depende também do contributo de outros autores, nomeadamente: Mary Ainsworth e os seus estudos relativos à relação mãe-criança, onde desenvolveu uma metodologia de avaliação dos tipos de vinculação (Situação Estranha) e Lorenz e Harlow, com os seus estudos na área da Etologia (Belsky e Nezworski, 1988).
Bowlby não dava particular atenção à psicanálise de Freud, uma vez que desconsiderava a sua teoria dominante, onde o princípio da libido mediaria a relação entre a mãe e o bebé (drive theory). Não considerava também os conceitos freudianos de “ego” e de
“superego”. A vinculação e o desenvolvimento apresentam uma complementaridade entre si, que acompanha os indivíduos ao longo da sua vida, devendo por isso, ela ser consistente, em relação a pelo menos um cuidador primário (normalmente a mãe) durante os primeiros anos de vida da criança. Bowlby defende a importância de se construir laços emocionais, determinantes para o desenvolvimento humano e para o funcionamento psicológico dos indivíduos.
Segundo Belsky e Nezworski (1988), Bowlby defendia que, caso essa consistência na vinculação não ocorresse, por qualquer razão, poderiam surgir problemas comportamentais e de regulação emocional no bebé. Para Bowlby, a vinculação resulta de uma relação emocional profunda, criando um elo de ligação entre duas pessoas significativas, de uma forma duradoura no tempo e no espaço. O autor defendia um sistema psicobiológico, ou seja, um sistema comportamental de vinculação, que predispõe os seres humanos a procurar relações de proximidade com figuras de vinculação (Bowbly, 1969). Entenda-se por proximidade a uma figura de vinculação, a acessibilidade da figura de vinculação. Assim, ele acreditava numa ligação primária importante e significativa, não descurando as relações secundárias, nem por isso desprovidas de importância relacional. Então… O que acontece num cenário de privação materna?
Segundo Bowlby, a ausência precoce de cuidados maternos estaria intimamente relacionada com percursos de vida menos favoráveis, pela impossibilidade destas crianças poderem dirigir um comportamento de vinculação a uma determinada figura, adulta e significativa, e com competências de suprir as suas necessidades de segurança, de afeto e conforto (Bowlby, 1984). Para Cummings, Davies & Campbell (2000), este vínculo sustenta uma trajetória de desenvolvimento adaptativa, uma vez que, dependendo
15 dos contextos e das novas interações, a criança tende a definir um caminho de maior ou menor continuidade. O papel dos pais não se traduz apenas na preocupação em satisfazer as necessidades fisiológicas da criança, mas também em conferir níveis de afeto, atenção e segurança emocional. O desenvolvimento da criança torna-se mais equilibrado quando ela consegue percecionar responsividade e disponibilidade por parte dos seus pais (Bowlby, 1990). Crianças que apresentam uma autoestima mais elevada são as que têm uma história de vinculação mais segura, por serem menos dependentes e, segundo Sroufe et al. (2005) sentirem-se mais competentes.
1.3.1. Estilos de Vinculação
Ser, é um processo sempre dinâmico e dialético. A vinculação requer uma articulação constante com as diferentes fases de desenvolvimento, pressupondo uma estabilidade entre o ambiente e as características particulares e inatas dos indivíduos, que acontecem num contínuo. A vinculação influencia e guia todos os indivíduos ao longo de todo o seu ciclo de vida e de desenvolvimento (Bowlby, 1969). Segundo Mary Ainsworth, as relações de vinculação diferem das relações sociais, na medida em que as primeiras se caracterizam por quatro itens particulares: procura de proximidade, sentimento de base segura, necessidade de porto seguro e comportamentos de protesto perante a separação (Ainsworth, 1969). Para esta autora, é a partir de uma consolidação da relação comportamental de proximidade que se forma então um sistema de vinculação, que tem como principal função permitir um sentimento de proteção e de segurança percebida, em contextos específicos.
A vinculação pode ser ativada internamente (por medo, ameaça, dor, cansaço) ou externamente (pela presença de estranhos ou por a criança estar sozinha), de forma a manter uma distância segura entre a criança e a sua figura de vinculação (Bowlby, 1969).
A partir deste momento, segundo Ainsworth (1979), podem então surgir diferentes tipos de vinculação: segura, insegura ansiosa-ambivalente, insegura- evitante. Main e Solomon (1986) vieram acrescentar a esta categorização ainda uma outra forma: insegura desorganizada-desorientada, para se referirem a comportamentos de bizarria, de estereotipia e pouco compreensíveis do ponto de vista relacional nos reencontros com as figuras de vinculação.
16 Bowlby (1969) defendia que todas estas categorizações correspondem a representações mentais, às quais chamou modelos internos dinâmicos (normas conscientes e também inconscientes que organizam e regulam o acesso a dados que informam sobre a vinculação). Assim, a vinculação decorre de uma ligação emocional (de referência), que vai sendo construída ao longo do tempo, de forma a contribuir para um desenvolvimento mais ou menos adaptativo da capacidade para estabelecer relações pessoais futuras de qualidade.
1.3.2. A Vinculação e a Autoestima
A autoestima e a vinculação são dois constructos que se relacionam intimamente.
Segundo Bowlby (1984), desde o nascimento que o bebé necessita de desenvolver uma relação de vinculação, habitualmente com a mãe ou com uma figura materna substituta.
Esta proximidade vai garantir um sentimento de proteção face a situações mais ameaçadoras, promovendo um efeito de base segura que será responsável por uma redução de transtornos de ansiedade e por permitir uma exploração segura do ambiente.
A relação de vinculação promove uma elaboração de representações mentais que irão estabelecer o padrão de futuras relações e de futuros comportamentos, cognições e afetos (Bowlby, 1990). Bowlby chamou a estas representações Modelos Internos Dinâmicos, ou seja, guidelines que permitem interpretar eventos interpessoais, de forma a prever expectativas, comportamentos e futuras interações.
Uma vinculação segura é o resultado de comportamentos parentais sensíveis, calorosos e de proximidade. Por outro lado, uma vinculação evitante ou ambivalente pode dar origem a perturbações de ansiedade e de depressão (Manassis, 2001), fazendo crescer a probabilidade de surgirem comportamentos externalizantes, com uma elevada probabilidade de sintomas depressivos (Allen et al., 2003). Segundo Mota e Matos (2008), a qualidade da relação de uma relação de vinculação ganha tanto ou maior relevância pelo seu valor preditivo nas relações futuras.
1.3.3. Modelos Dinâmicos Internos
De acordo com Bowlby, o sistema comportamental de vinculação depende de uma representação mental do meio onde o indivíduo se insere e vive, como se de um mapa cognitivo se tratasse, onde o indivíduo apresenta capacidades percetivas e interpretativas dos eventos, de forma a conseguir desenvolver competências de antecipação em relação a situações futuras (Soares, 2009). Para Bowlby (1988), estes modelos aplicam-se ao
17 mundo físico e interpessoal da criança, sendo fundamentais para que ela adquira uma visão de si e do mundo, já que a compreensão dessa visão se desenvolve a partir de imagens matriciais das suas primeiras experiências de vinculação. Os modelos dinâmicos internos, portanto, podem orientar os comportamentos.
Thompson (2008) indica dois tipos de modelo dinâmico interno: o seguro (que se caracteriza por expetativas positivas em relação à vida e uma visão do mundo em que os riscos ou perigos são controláveis, visão que potencia relações mais positivas, apoiantes e de maior gratificação) e o inseguro (que apresenta expectativas pouco seguras e de grande imprevisibilidade sobre o mundo, onde a conservação e a manutenção da vida implicam comportamentos mais evitantes e de afastamento social). Para as pessoas com modelos dinâmicos internos inseguros, os “outros” são percebidos como sendo arautos de negatividade, hostilidade e desconfiança. Esta perceção é responsável por comportamentos sociais mais áridos, com a tónica numa fraca responsividade social e pouco ou quase nada apoiantes (Bretherton, 2005). Bowlby ressalta ainda a importância de um sistema de vinculação devido ao seu dinamismo, uma vez que o próprio ciclo de desenvolvimento humano sofre mudanças significativas ao longo da vida. A ressalva centra-se, segundo Soares (2009), numa componente de “availability” da figura de vinculação. Por outras palavras, este conceito traz à luz uma crença de “disponibilidade”
ao nível da comunicação, proximidade física e responsividade, caso seja necessário à criança emitir um pedido de ajuda.
A psicopatologia do desenvolvimento não defende uma etiologia isolada para o surgimento de comportamentos mais vulneráveis ou de risco, uma vez que estes partilham ambos de uma perspetiva longitudinal do tempo, que se mesclam com diferentes fatores protetores, tal como a resiliência. A psicopatologia do desenvolvimento recorre, portanto, a um modelo interdinâmico (criança e o meio). Os comportamentos de risco, de acordo com Sameroff & Fiese (2000), admitem dois diferentes níveis: um micro (o próprio indivíduo, a família) e outro macro (os pares e a comunidade). A resiliência, pelo seu carater adaptativo, vem contribuir com um tipo de funcionamento mais positivo em relação perigos internos ou externos ao sujeito (Yates et al., 2003).
A relação parental, e o tipo das relações sociais existentes, revelam-se de extrema importância no desenvolvimento de uma psicopatologia da criança (Greenberg, 1999).
18 Tipos diferentes de vinculação, segundo Soares (2009), têm sido relacionados com problemáticas de internalização e de externalização dos comportamentos na adolescência.
Sabe-se que a relação entre vinculações inseguras e realidades familiares mais desfavoráveis pode estar subjacente a comportamentos problemáticos ulteriores (Sroufe et al., 2005).
1.3.4. Vinculação no Adulto
No adulto, a vinculação permite a criação de laços entre parceiros, nomeadamente ao nível sexual. Se quisermos associar um olhar evolutivo a esta ideia, ele pode ajudar a perceber que esses laços irão permitir uma perceção de cuidados parentais (se desse caso se tratar) mais robustos. A teoria da vinculação assenta na premissa de que os modelos internos formados serão relativamente estáveis ao longo da vida do indivíduo. Quando os laços de vinculação, por algum motivo não apresentam uma grande estabilidade, poderão dar origem a problemas comportamentais (nomeadamente sexuais) na adolescência e, na idade adulta, poderão levar a alguma dificuldade na construção e manutenção de relações estáveis (amorosas e sociais). De acordo com Belsky, Steinberg e Draper (1991), a vinculação no adulto constitui-se a partir de duas abordagens: uma implícita (que consiste em identificar padrões seguros e inseguros de vinculação a partir de variáveis como a autonomia, o tipo de ligação, o grau de preocupação face à figura de vinculação) e outra explícita (a partir de uma ideia de vinculação que é perpetuada desde a infância e mantida também na idade adulta, especialmente se falamos de amor romântico, Hazan e Shaver, 1987).
Bartholomew e Horowitz (1991), a partir da teoria de Bowlby, sugeriram um modelo dicotómico e fatorial da vinculação (para o self e para os “Outros”, e também positivo e negativo), que forma quatro diferentes estilos de vinculação. Segundo Johnson (2004), este modelo representa guiões de estimulação de proximidade. O modelo do Self revela o grau de valorização do indivíduo e o modelo dos Outros indica graus de evitação e dependência nas relações de maior proximidade (Griffin, & Bartholomew, 1994). Um défice precoce de cuidados maternos pode relacionar-se positivamente com percursos de vida mais nocivos para a criança, já que ela poderá estar impossibilitada de suprir necessidades de afeto e de conforto, por não ter ao seu alcance a possibilidade de dirigir um comportamento de vinculação a uma figura adulta significativa (Bowlby, 1984). Não só a presença e a intensidade relacional da vinculação são de extrema importância, como
19 também a qualidade dessa mesma relação depende dos comportamentos e das respostas da criança, mas também da disponibilidade e do investimento da figura de vinculação.
1.4. Perspetiva Psicodinâmica da Confiança
É importante frisar que para além da psicanálise, Donald Winnicott assume um papel importante na temática das relações objetais e quanto à forma como elas se vão desenvolvendo em termos de um amadurecimento saudável. A interação das pessoas não se extingue nas suas relações com o mundo externo (as outras pessoas), estende-se também para o seu mundo interno (com a representação interna de uma pessoa significativamente relevante para o próprio, de forma a que esta possa influenciar os afetos e os comportamentos externos). O conceito de objeto, do ponto de vista psicanalítico, segundo Laplanche e Pontalis (1970) é abordado sob vários pontos de vista:
Pulsional (resgatando a ideia de um movimento intencional no sentido da obtenção de uma satisfação, satisfação essa que pode vir de alguém, de um objeto parcial, real ou fantasmático); de Correlato (de amor/ódio a partir de uma dinâmica relacional entre a pessoa enquanto instância egóica face ao objeto que é percebido como sendo total); e de Objetividade (compreensão e conhecimento das características permanentes dos sujeitos, independentemente dos desejos e opiniões dos demais).
Segundo estes autores, o conceito de objeto tende a referir-se a uma pessoa, já que esta é o alvo das pulsões. O objeto apresenta um valor qualitativo, sem que isso lhe confira obrigatoriamente uma condição de sujeito. Para estes autores, a ideia de relação decorre da noção de uma inter-relação entre sujeito e objeto, relativamente à forma como este (o sujeito) vai constituindo os seus objetos e também pela forma como esses mesmos objetos vão modelando o próprio sujeito.
A Teoria das Relações Objetais, pensada num sentido mais abrangente, encontra eco na abordagem de Greenberg e Mitchell (1994), quando referem que ela se relaciona com a forma como são explorados os relacionamentos entre pessoas reais e aquilo que é internalizado sobre essas mesmas pessoas, ainda mais porque, em princípio, essas pessoas são significativas e importantes para o sujeito e portanto, fixar-se-ão de uma forma
20 indelével, ao ponto de contribuírem para a formação de futuras atitudes, reações e perceções. Melanie Klein põe o foco nas questões libidinais. Ainda que respeitando as evidências Freudianas, vai divergir de Freud por aperceber-se de questões edipianas e de uma estrutura superegóica já no primeiro ano de vida da criança. Progressivamente, ela refere a existência de um outro tipo de estruturas psíquicas, não referidas por Freud, as
“estruturas arcaicas”, que lhe permitiram desenvolver as suas próprias teorias.
Klein introduz a ideia de posições, segundo Greenberg e Mitchell (1994), por oposição às fases psicossexuais de Freud que para ela, acabavam por se sobrepor umas às outras, misturando-se. Klein acredita que as posições, decorrem do tipo de relações que são desenvolvidas com os objetos e com os mecanismos defensivos a eles associados.
Ela dedica-se então à forma como as relações de objeto se organizam quanto ao seu conteúdo e quanto à forma com que elas impactam no mundo interno da criança, determinando as suas experiências e os seus comportamentos (Klein, 1952). Nos anos 40 do século passado, Fairbairn também vem questionar o modelo pulsional de Freud, divergindo de Klein e de Winnicott, defendendo que o modelo pulsional clássico deve ser olhado por outro prisma já que o objeto deixa de ser procurado para uma satisfação do prazer, mas sim porque, ao passar a existir, ele vai se tornar na verdadeira finalidade do impulso, o que permite perceber a relação com o outro Greenberg e Mitchell (1994).
Winnicott vem defender que nem sempre se poderia recorrer ao complexo de Édipo enquanto justificativa para os distúrbios que ocorriam nos primeiros anos de vida do bebé, especialmente depois de ter trabalhado com Klein e de ter desenvolvido prática clínica com crianças e adultos psicóticos, facto que lhe permitiu desenvolver um trabalho de observação sobre estádios mais primitivos do ciclo de desenvolvimento do ser humano.
Desta forma, surge a sua Teoria do Desenvolvimento Emocional (Winnicott, 1965). Esta teoria defende que o bebé humano nasce com um património genético e biológico, o que sugere um amadurecimento intrínseco ao desenvolvimento do sujeito, devido a fenómenos como o crescimento, o desenvolvimento e também a possibilidade de um relacionamento com os objetos.
Segundo Winnicott (1958), o bebé depende sempre de alguém para que possa sobreviver e, por essa razão, o ambiente é um elemento relevante para um desenvolvimento sadio e uma relação objetal adequada. A relação mãe-bebé ou cuidador-bebé ganha uma
21 importância crucial para um desenvolvimento que se espera saudável, já que é o
“ambiente” que irá facultar e facilitar o desenvolvimento emocional e uma boa saúde mental do bebé. Winnicott (1965), argumentava que o desenvolvimento emocional tem início desde uma fase mais primitiva, que se vai desenvolvendo até a uma idade adulta, num contínuo onde se verificam diferentes estádios, tal como o estádio edipiano da teoria psicossexual de Freud, dentro de um conjunto de outros exemplos possíveis.
Ao pensarmos numa relação mãe-bebé e na dependência do bebé em relação a esta mãe- ambiente, uma imagem rapidamente consegue ser visualizada, o colo. O colo, imageticamente catapulta-nos para uma ideia de dependência. A perspetiva freudiana do funcionamento psíquico rege-se por um binómio de excitação/tensão, onde há sempre uma necessidade de reabsorver a excitação e de ir reduzindo a tensão, ainda que essa mesma excitação nunca se esgote, já que os organismos estão sempre sujeitos a estimulações constantes (Nasio, 1995).
Apesar de quase nunca se referir às relações de objeto, Freud posteriormente chegou a admitir que os objetos procurados apenas para satisfação ou mesmo para uma satisfação sexual, podem ser muito diversos, por variarem entre diferentes sujeitos e nas diferentes fases do ciclo de vida dos sujeitos. Freud admite que, na criança, existe uma primeira relação de objeto que ocorre numa fase muito primitiva da sua sexualidade a que veio a chamar de autoerotismo. Nesta fase, a pulsão sexual vai-se ligar a um órgão ou à excitação de uma zona erógena, de modo a satisfazer-se sem ter de recorrer a um objeto externo (chuchar o dedo), reproduzindo assim o prazer já experienciado nas suas primeiras experiências de e com o seio materno.
Winnicott alerta para a possibilidade de Freud ter considerado a importância do ambiente (mãe) e a dependência do próprio bebé, ainda que essa assunção não tivesse espaço na sua teoria pulsional, onde a relação mãe-filho é uma relação libidinal e, portanto, instintiva. De acordo com Loparic, 1997), seria injusto não referir a importância, para Freud, das relações entre pais e filhos, por serem um garante de cuidados, carinho e castigo, independentemente de não serem muito ativas, já que, para ele, a criança não teria poder de se expressar nesse tipo de relação. Comportamento que só poderia vir a ser observado mais tarde no desenvolvimento da criança.
22 Com Melanie Klein, as relações de objeto passam a definir o tipo de relações humanas, a partir dos estádios mais primitivos ou arcaicos do desenvolvimento. A complexidade da personalidade humana só é possível ser percebida através de uma tentativa de compreender o mundo interno do bebé e o seu consequente desenvolvimento (Klein, 1975). Por essa razão, ela atribui especial atenção à primeira relação de objeto do bebé (com o seio materno e com a mãe) porque, ao ser introjetado, este torna-se uma parte segura do Ego, permitindo uma facilidade de vinculação com a progenitora. Para Klein, existe um mundo interno, que se compõe de vários objetos internos, formados a partir de representações mentais associadas às vivências no mundo externo. Ao interiorizar-se uma experiência, também se está a influenciar a representação mental dessa mesma experiência, a partir de sentimentos e instintos convocados no momento dessa vivência.
As relações objetais, para esta autora, decorrem de uma necessidade de dependência em relação ao outro, para uma garantia de sobrevivência do sujeito. Inicialmente, é uma relação parcial que, ao longo do desenvolvimento do bebé, culminará numa capacidade de integração do Ego, por já ser possível integrar o seu objeto bom e o seu objeto mau, num só e único objeto (seio bom e seio mau). O primeiro objeto a ser possuído é o seio da mãe (objeto parcial) e nesta fase a mãe não é percebida como sendo uma pessoa inteira, mas sim um seio. Um seio bom, porque permite a satisfação e a gratificação do bebé, e um seio mau, que não satisfaz as necessidades e não gratifica, portanto, frustra. Surge, então, uma ambivalência entre o amor e o ódio (projeção/introjeção).
Os mecanismos de projeção e introjeção tornam-se coadjuvantes na construção de estruturas como o Ego e o Superego, abrindo “terreno” para o Complexo de Édipo. Estes mecanismos são concomitantes nas interações entre objetos externos e internos, criando dualidades emocionais no bebé que alternam entre: amor/ódio; exterior/interior;
realidade/fantasia; ansiedade persecutória/idealização. Esta última muito dependente do surgir da atividade do jogo entre a mãe e o bebé, que se revela de extrema importância para a atividade mental do bebé, por ajudar a construir fantasias (gratificantes, prazerosas, agradáveis ou destrutivas e de frustração).
As fantasias inconscientes do bebé estão associadas às questões da alimentação. Klein refere que no futuro da vida do bebé essas fantasias serão responsáveis por aquilo que o bebé engolirá ou incorporará. Esses impulsos orais serão elementos que vão servir como
23 ferramentas para a construção do um mundo interno onde existirão réplicas dos objetos externos com os quais se terá relacionado anteriormente. Para Klein:
“ (…) os objetos internalizados são percebidos pelo bebé como que tendo vida própria, estando harmonia ou em conflito uns com os outros e com o ego, de acordo com as emoções e as experiências do bebé. Quando o bebé sente que tem objetos bons, ele vivencia sentimentos de confiança, estima e segurança. Quando sente que contém objetos maus, ele vivencia perseguições e suspeitas” (Klein, 1952).
Gradualmente, a criança caminha rumo às suas relações objetais mais maduras. A perceção de um objeto real vai-se tornando mais clara, definida e também mais independente de outros objetos até então internos. Surge assim a ansiedade na sua forma mais primária (raiz persecutória), característica de dificuldades adaptativas face a novas situações. Estes sentimentos persecutórios poderão ser amplificados por experiências mais dolorosas, que serão percebidas pelo bebé como sendo ataques hostis contra ele, sendo que o seu contrário também se verifica (Klein, 1952). A esta fase a autora denominou de esquizo-paranóide e está repleta de processos de negação, omnipotência, cisão e de idealização.
Na teoria Kleiniana, à medida que se vão desenvolvendo relações de objeto significativas com a mãe, o pai e os restantes elementos da família, estes vão sendo introjetados com características boas ou más consoante as experiências e consoante a forma como essas experiências se vão sucedendo, numa lógica de sentimentos e fantasias. Um mundo interno, preenchido com bons e maus objetos, vai sendo criado, e paulatinamente poderá tornar-se numa interioridade onde predominem perseguições internas ou elementos de estabilidade que virão a refletir-se na personalidade do indivíduo.
Ronald Fairbairn, apesar de partir de uma visão freudiana e por ter tido uma proximidade clínica com pacientes esquizoides, também declinou a teoria libidinal de Freud. Deu importância às relações de objeto, por ter constatado com os seus pacientes, as dificuldades que estes apresentavam nas suas relações objetais. A designação esquizoide
24 relaciona-se com uma perspetiva de clivagem do Eu (Fairbairn, 1952), referindo por isso que ninguém está isento de poder manifestar alguma característica esquizoide quando sujeito a condições extremas, ainda que essas manifestações possam refletir um comportamento de ajustamento em relação a situações do quotidiano ou mesmo a situações específicas.
O seu interesse na psicopatologia permitiu que pudesse constatar, no que diz respeito às relações de objeto, que:
“(…) o desenvolvimento das relações de objeto é um processo através do qual a dependência infantil em relação ao objeto dá gradualmente lugar a uma dependência madura em relação ao objeto” (Fairbairn, 1952).
Para este autor, o desenvolvimento emocional decorre das diferentes formas de nos relacionarmos com os outros e das alterações sequenciais que vão ocorrendo durante os diferentes estádios psicossociais do nosso ciclo de desenvolvimento. Assim, a sua teoria das relações objetais tem três fases: uma identificação primária (fase oral); dependência transicional (da dependência infantil para uma dependência mais madura, implicando um declínio da ambivalência existente até então); dependência madura (diferenciação entre o objeto e o self - fase genital). O sucesso deste modelo depende da qualidade da dependência em relação ao objeto.
1.5. A confiança e a autoestima
A autoestima pressupõe uma avaliação subjetiva do próprio que varia em grau (mais ou menos positivo). Segundo vários autores, uma autoestima mais alta em princípio será um bom preditor para o surgimento de um amor romântico, uma vez que quando o indivíduo é capaz de se aceitar a si próprio, sem reservas e de uma forma menos defensiva, ele estará mais propenso para amar o Outro e desenvolver relações interpessoais mais satisfatórias, significativas e gratificantes (Maslow, 1970).
De acordo com a Teoria da Autoconsistência (Jones, 1973), indivíduos com uma maior autoestima, serão, em princípio, serão mais responsivos para a constituição de um par romântico, contrariamente a indivíduos com uma menor autoestima. A autoestima orienta-se por uma necessidade valorativa de aumentar, manter e confirmar níveis de