I. Introdução
1. Enquadramento teórico
1.11. A Teoria triangular do amor
Sternberg (1986) e a sua teoria triangular do amor identifica três componentes que formam um triângulo explicativo sobre o amor: Intimidade (sentimentos de proximidade e de vinculação amorosa); Paixão (sentimentos romantizados, atração física, atividade sexual); Compromisso (tomada de decisão). Para Sternberg a intimidade resulta de uma capacidade de compromisso emocional na díade, já a paixão implica aspetos mais motivacionais. O compromisso tem inerente a si funções cognitivas dirigidas a um
38 relacionamento assumido e mantido.
Uma definição de amor do ponto de vista psicológico e devido à sua complexidade, deve ser compreendida no seu todo e não pelas partes, pois parece ter a sua etiologia em impulsos transmitidos geneticamente, em processos de modelagem social ao nível dos papeis aprendidos e também por processos de observação aprendidos que são posteriormente definidos pelos sujeitos, como sendo Amor. Sendo em grande medida uma construção social, resulta segundo Barnes & Sternberg (1986) de uma conceção individual das teorias implícitas que possa conter.
Estes componentes piramidais do amor, diferem entre si em relação às suas propriedades, sendo que o seu grau de importância varia em função do tempo do próprio relacionamento (curto ou longo prazo). Em relacionamentos de curto prazo a paixão normalmente assume o protagonismo, sendo moderada pela intimidade e com quase nenhum compromisso. Já num relacionamento amoroso de medio a longo prazo, a intimidade e o compromisso dividem entre si o protagonismo, ficando neste caso a paixão com um papel de moderação que tende a ir desaparecendo ao longo do tempo.
Sternberg e Grajek (1984) testaram três teorias alternativas que pudessem também elas explicar o amor: a de Spearmanian (baseada na teoria da inteligência geral de Spearman (1927) onde o amor equivale ao fator g, impregnado de sentimentos positivos e indecomponíveis); a de Thomsonian (baseado na teoria dos vínculos da inteligência de Thomson (1937), onde o amor se pode definir pelos seus diferentes sentimentos que quando somados resultam numa experiência composta, portanto passível de ser decomposta em diferentes tipos de laços concomitantes numa relação de maior intimidade e que por essa razão podem concretizar uma experiência global que é definida como sendo amor) e a de Thurstonian (baseada na teoria dos fatores primários onde subjaz a ideia de que o amor resulta de pequenos e consistentes conjuntos de sentimentos, com o mesmo grau de relevância, Thurstonian (1938).
Sternberg & Grajek (1984), defendem, portanto, que o amor resulta de um conjunto de estruturas primárias, compreensíveis quando analisadas em separado por poderem ser decompostas em diferentes fatores que se correlacionam entre si (modelo Thornsiano/Thomsiano). A componente intimidade, parece ser um denominador comum
39 nos diferentes relacionamentos amorosos, sendo a paixão e o compromisso relevantes apenas para relacionamentos mais específicos. A componente paixão em relação ao amor, decorre de questões motivacionais e de excitação.
Hatfield & Walster (1978) referem as necessidades sexuais como sendo bastante prementes num relacionamento amoroso, podendo mesmo ser dominantes na relação.
Contudo, outras variáveis se correlacionam com a experiência da paixão: autoestima, afiliação, autorrealização, submissão, entre outras. Estas variáveis são idiossincráticas e variam quanto à sua força, situação e tipo de relacionamento. Normalmente manifestam-se através de mecanismos de excitação psicológica e fisiológica, estando estas intimamente relacionadas entre si.
Apesar da paixão poder ser o “motor” de um relacionamento amoroso, também é verdade que ela tem uma forte reciprocidade com a intimidade por permitir a manutenção da proximidade no relacionamento. Não deve ser descurado o surgimento da paixão após relacionamentos iniciais de intimidade, já que os autores referem uma forte interação entre estes dois componentes. Quando nos referimos ao compromisso importa distinguir entre relações de curto (decisão em como se ama alguém) e de longo prazo (compromisso de manutenção desse amor por esse alguém). Decidir amar não se traduz necessariamente num sentimento de amor, nem o compromisso traduz obrigatoriamente uma decisão.
Apesar de algumas pessoas se comprometerem em amar alguém, nem sempre esse compromisso pode ser definido como sendo um sentimento de amor pelo outro, ou mesmo de paixão. A instituição do casamento veio legalizar a ideia de compromisso a partir de uma decisão de amar outra pessoa ao longo da vida. Porque as relações não são lineares, a componente compromisso pode ser o sustentáculo de um relacionamento, independentemente de ele poder ser mais ou menos “encalorado”, representando muitas vezes um fator de superação em momentos mais difíceis do casal. O compromisso também interage com a intimidade e a paixão, já que estas podem ocorrer a partir de uma componente mais cognitiva do relacionamento. Importa então distinguir decisão de compromisso. Uma decisão não define obrigatoriamente um compromisso. Já um compromisso, pode ajudar a perceber determinadas decisões tomadas numa relação.
A teoria tripartida do amor de Stenberg explica a interação entre estas três componentes
40 a partir do tipo de amor que elas podem desencadear: o desamor (ausência total dos três componentes do triangulo de Stenberg. São relações pessoais e casuais desprovidas de sentimento de amor); a amizade (conjunto de sentimentos experienciados em relacionamentos de amizade, pela sua proximidade, união e cordialidade. Não apresenta sentimentos de paixão ou de compromisso de longo prazo.); a paixão (ou “amor à primeira vista”, deriva de mecanismos de excitação, onde não está presente nem a intimidade nem o compromisso. É tendencialmente volátil com um elevado grau de excitação psicofisiológiao e características somáticas: aumento do batimento cardíaco, palpitação do coração, elevada produção de hormanas, ereção genital do pénis e/ou do clitóris.); o amor vazio (decorre da decisão em assumir o compromisso com o outro, não sendo, sendo sensível à intimidade nem à paixão.
É frequente nas relações ditas “estagnadas” com um défice de envolvimento e de atração física entre os parceiros); o amor romântico (resulta da combinação entre intimidade e paixão. Este tipo de amor conta com mais uma outra variável: a excitação. Para além de uma atração física, apresenta também uma componente emocional, daí que por vezes possa ser confundida com a paixão); o companheirismo amoroso (parte de uma combinação entre a intimidade e uma decisão para o compromisso, mas na verdade não é mais do que uma amizade duradoura e comprometida); o amor fugaz (depende da articulação entre paixão e compromisso, não comtemplando a intimidade. Normalmente resulta da paixão sem uma estabilidade necessária que permita uma descoberta de intimidade em comum.
Também pode ser chamado de “amor instantâneo” por estar associado a finais de relação muito rápidos e quando falamos de casamento, em divórcios também eles muito rápidos);
o amor consumado (depende dos três componentes. É o amor tantas vezes idealizado nos relacionamentos romântico e por isso, procurado. Contudo, este tipo de amor traz consigo grandes dificuldades na sua manutenção. Não deve ser tido como garantido.
Independentemente do seu grau de dificuldade, depende sempre do tipo de relacionamento e de variáveis situacionais para que se desenvolve e possa ser mantido).
Esta teoria tripartida do amor, segundo Stenberg depende de dois fatores essenciais: a quantidade e o equilíbrio desse amor.
Sentir não é o mesmo que expressar o que se sente. Assim é de extrema importância que
41 a intimidade entre o casal, seja expressa através de um bom nível de comunicação:
sentimentos internos de cada um em relação ao outro; promoção de sentimentos de bem-estar do outro; partilha material, pessoal; tempo de qualidade em comum; empatia e disponibilidade para nutrir o outro de apoio emocional e material. Quanto à forma, esta intimidade pode ser expressa através de beijos, abraços, olhares, toque e relações sexuais.
A componente compromisso pode se verificar através da realização de promessas;
comportamentos de fidelidade; superação em conjunto de momentos de maiores dificuldades; de envolvimento e mesmo de casamento. As ações inerentes a uma determinada componente podem variar consoante as particularidades das pessoas envolvidas, do tipo de relacionamento e das situações onde elas ocorrem. Ainda assim, importa considerar que as ações revelam ter um grande efeito ao nível dos relacionamentos.
Bern (1972) com a sua Teoria da autoperceção, refere que os sentimentos e os pensamentos de uma pessoa podem ser afetados pelas suas ações e o seu contrário também pode ocorrer. As ações podem moldar os sentimentos e os pensamentos de uma pessoa, assim como os pensamentos e os sentimentos podem moldar também as ações do indivíduo. As ações desencadeiam outras ações que facilmente despoletam uma mais ou menos intrincada rede de ações, já para não referir que a forma como alguém age, afeta sempre a forma como o outro se pode estar a sentir ou a pensar em relação a si próprio.
Portanto, torna-se extremamente importante considerar que tão importante quanto o tipo de amor que se vive, também a forma como os indivíduos envolvidos na relação expressam esse tipo de amor revela ser de grande importância.
Os relacionamentos estão sempre sujeitos a um curso, e nesse seu caminho deparar-se-ão com mudanças qualitativas no decorrer do tempo. Essas mudanças normalmente ocorrem pela dificuldade que representa manter um amor romântico por longos períodos de tempo devido a fatores de erosão como pode ser habituação, entre outros (Berscheid & Walster, 1978). A profundidade e amplitude de uma relação bem-sucedida depende do seu grau de
“penetração social” que pode estar associado a processos de conhecimento do casal ao longo do tempo, nomeadamente a um nível mais íntimo do relacionamento, sendo que tradicionalmente, no que diz respeito aos papeis, as mulheres apresentam tendencialmente uma maior predisposição para a intimidade, bem como para o desenvolver de uma maior
42 penetração social, contrariamente aos homens. Sternberg-Grajek (1984) referem que uma boa comunicação diádica é de grande eficácia para o garante de um relacionamento amoroso bem-sucedido.
Consideremos ainda Berscheid (1983), a propósito da emoção presente nos relacionamentos íntimos, quando alerta para o facto de que a estagnação pode ser o antagonista de uma intimidade vívida e vivida. Um excesso de previsibilidade num relacionamento poderá ser adverso a uma relação de intimidade, o que deve fazer considerar a importância de se introduzir o elemento “novidade” de modo a potenciar qualitativamente o crescimento do relacionamento.