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Cad. Saúde Pública vol.32 número4

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Academic year: 2018

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GLOBAL MENTAL HEALTH: PRINCIPLES AND PRACTICE. Patel V, Minas H, Cohen A, Prince MJ, editors. Oxford: Oxford University Press; 2014. 498 p. ISBN: 978-0-19-992018-1

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00000316

O livro Global Mental Health: Principles and Practice é de especial interesse no momento atual da saúde men-tal brasileira, marcado por uma profunda desigualdade de acesso a serviços e uma claudicante implantação da política nacional.

A pesquisa em saúde mental global integra várias disciplinas; combinando investigação e ação para me-lhorar acesso aos serviços, ao tratamento e para reduzir a violação dos direitos humanos das pessoas que so-frem de transtornos mentais. O termo “global mental health” [saúde mental global] ganhou destaque nas publicações científicas a partir de 2007 quando a revis-ta Lancet utilizou-o para enfocar temas negligenciados pelos programas de pesquisa convencionais na psi-quiatria e publicações da área da saúde.

Nesta publicação os editores Vikram Patel, Harry Minas, Alex Cohen e Martin J. Prince reuniram 54 au-tores de 18 países diferentes que construíram uma obra capaz de refletir o dinâmico debate atual entre estudio-sos e pesquisadores de todo o mundo. A abordagem ao tema é ampla, a linguagem e o conteúdo do livro são voltados para um grande público de profissionais e es-tudantes, incluindo aqueles que não têm nenhum trei-namento prévio em saúde mental.

O escopo do livro é realizar uma síntese crítica dos principais aspectos do campo: seus fundamentos cien-tíficos e sua prática. Está organizado em 20 capítulos divididos em duas partes: a primeira com 12 capítulos trata dos princípios da saúde mental global; e a segun-da com 8 capítulos enfoca as práticas em diversas áreas do globo.

Inicialmente traz uma revisão histórica e teórica do tema e suas interfaces com diversas disciplinas da saú-de pública. Traz interessante saú-descrição saú-de várias inicia-tivas (publicações, atividades, cursos) e parcerias com organizações de terceiro setor. A partir da perspetiva da saúde mental global discute as classificações diagnósti-cas em psiquiatria, metodologias de pesquisa transcul-tural, epidemiologia e impacto dos transtornos men-tais, determinantes sociais da saúde mental, promoção da saúde e prevenção dos transtornos, intervenções terapêuticas entre outros temas.

A segunda parte contém a descrição de práticas e estudos de caso no campo. Apresenta capítulos bem escritos a partir da experiência do cuidado comparti-lhado entre especialistas e não-especialistas em saúde mental. Traz ideias inovadoras e histórias de sucesso especialmente em países de baixa e média renda, que podem inspirar e estimular profissionais que traba-lham no difícil processo de integração da saúde mental na Estratégia Saúde da Família.

A falta de recursos para a saúde mental – huma-nos, financeiros e técnicos – traz consequências para vários aspectos da saúde mental global. Em nosso país, assim como em outros lugares do mundo, o processo de desinstitucionalização resultou em desenvolvimen-to do cuidado fora dos grandes hospitais. No entandesenvolvimen-to, na ausência de serviços adequados para consolidar es-te cuidado comunitário (em número e em qualidade), muitas pessoas com graves transtornos mentais estão em situação de rua, ou residindo com a família que as mantém em grades domiciliares nas periferias das grandes cidades. Os centros de acolhida da assistência social recebem centenas de pessoas com grave sofri-mento mental sem nenhum tipo de cuidado, compon-do cenários que muitas vezes nos remetem à situação das instituições totais do início do século XX.

Por outro lado, os esforços para ampliar e intensi-ficar serviços e práticas de saúde mental supõem que ações mais ou menos padronizadas sejam efetivas em diversos contextos: este é um paradoxo do campo da saúde mental global. O desafio é modificar o cenário de cuidado, evitando repetir as hierarquias de poder em nosso campo de trabalho. É possível cuidar da saú-de mental e lutar pelos direitos humanos preservando a diversidade cultural? É possível um equilíbrio entre ações culturalmente sensíveis e a necessidade de am-pliar o acesso aos serviços?

Teorias que fundamentam este campo de estudo, reconhecem que as culturas são sistemas de significa-dos abertos, híbrisignifica-dos e fluisignifica-dos. Cultura e contextos so-ciais desempenham diferentes papéis no diagnóstico e no cuidado aos problemas mentais. Os estudos na área de saúde mental global dependem da compreensão da interação da psicopatologia com os diversos tipos de estruturas e processos sociais. Esta nova visão implica em reflexões sobre conceitos comumente aceitos na área da psiquiatria transcultural. O reconhecimento da ubiquidade da cultura traz, por exemplo, o ques-tionamento do diagnóstico das “síndromes ligadas a cultura”, considerando os processos de cognição e co-municação preponderantes na produção e expressão de determinados quadros clínicos.

Segundo os autores, a saúde mental global po-de ser consipo-derada não apenas uma oportunidapo-de po-de reparação de desigualdades profundas que refletem uma história global de dominação e exploração, mas também uma possibilidade de colhermos os benefícios de uma diversidade cultural. Reforçam que as ações de saúde mental sejam capazes de proteger e expressar a identidade cultural da comunidade; o que demanda uma sociedade que respeite as diferenças. O cuidado em saúde mental pode contribuir para a construção desta sociedade.

Um aspecto importante abordado no livro é a me-todologia de pesquisa neste campo. As práticas ba-seadas em evidência representam um terreno seguro para as ações em saúde mental entretanto apresentam limitações; especialmente devido à complexidade de

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Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 32(4):e00000316, abr, 2016 RESENHAS BOOK REVIEWS

traduzir conhecimentos gerais em intervenções local-mente apropriadas e efetivas. Segundo os autores, a pesquisa na área da saúde mental global responde me-lhor às necessidades locais quando envolve usuários e é conduzida por trabalhadores “da ponta”. Por esta razão, defendem metodologias de pesquisa participa-tivas como um modo de assegurar que as prioridades locais sejam reconhecidas e que ocorra troca de conhe-cimentos durante o processo de pesquisa, promovendo uma melhor aplicação dos resultados. Esta modalidade de pesquisa também proporciona um maior conheci-mento do universo simbólico dos diversos atores so-ciais envolvidos, tradicionalmente marginalizados ou excluídos, e alcança melhor os grupos mais difíceis de acessar (imigrantes e refugiados, por exemplo). Tam-bém defendem o uso da pesquisa etnográfica para ex-plorar os sistemas de significados e práticas que consti-tuem diferentes modos de vida cultural.

Finalmente os autores defendem a importância do compromisso político para implantar leis e políticas que priorizem os direitos humanos na atenção à saú-de mental. A abordagem da saúsaú-de mental global nesta publicação reconhece a dimensão política da prática da saúde mental e suas implicações sociais; nos reve-la uma disciplina capaz de superar o dualismo entre compromisso político e competência técnica. Enfim, uma leitura fortemente recomendada!

Carmen Santana 1

1Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, Brasil.

Referências

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