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Cad. Saúde Pública vol.32 número4

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Academic year: 2018

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Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 32(4):eED010416, abr, 2016

EDITORIAL EDITORIAL

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311XED010416

A evolução do conhecimento sobre a relação entre infecção pelo vírus Zika na gestação e a ocorrência de afecção neurológica congênita grave – até o momento denominada pelo seu principal sinal, a microcefalia – foi de uma rapidez, seriedade e consistência que ficará na história da ciência e da saúde. Tudo começou com a percepção dos obstetras e neonatolo-gistas em Pernambuco de um aumento no número de casos da má-formação, em agosto-setembro de 2015, que foi seguida por um alerta à Secretaria de Saúde de Pernambuco e ao Ministério da Saúde em outubro, quando iniciou a investigação do problema. Em 11 de novembro, já havia evidência suficiente para que fosse declarada Situação de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional. Em seguida, em 1o de fevereiro desse ano, a

Organização Mundial da Saúde declarou “Public Health Emergency of International Con-cern”, baseando a decisão nos mesmos pontos da decisão brasileira 1.

Se o vírus já existia e circulava em diversos países da África e Ásia, por que somente no Brasil se verificou esse excesso de casos de microcefalia? Primeiro porque ainda que a frequência da malformação fetal entre as gestantes que tiveram Zika no início da gestação seja alta, a população dos países mais acometidos, em especial a das ilhas da Micronésia e Polinésia é pequena e, consequentemente, a ocorrência de malformações evento raro. Re-trospectivamente, entretanto, foi possível identificar a presença do vírus em alguns casos de malformação fetal ocorridos no surto de 2013 2. Mas cabe também ressaltar o papel do

Sistema Único de Saúde (SUS), que atende à maioria dos partos da população brasileira, em especial a mais pobre. O SUS trouxe a possibilidade de ver o conjunto e levantar a sus-peita epidemiológica. Além disso, existe pesquisa séria e de alta qualidade no Brasil, capaz de unir a investigação à assistência, sem perder de vista a centralidade do paciente. Em recente evento promovido pela equipe no epicentro desse terremoto, em Recife (http://scf. cpqam.fiocruz.br/eventozika/), foi possível saber o que se está fazendo em pesquisa, da virologia à sorologia, da clínica à epidemiologia. E se faz muito.

Desde o início, a editoria de CSP decidiu que artigos que tratassem de qualquer aspecto do tema Zika seguiriam um “fast track” editorial. Neste número, trazemos três textos que abordam questões distintas. A Comunicação Breve Microcefalia no Estado de Pernambuco, Brasil: Características Epidemiológicas e Avaliação da Acurácia Diagnóstica dos Pontos de Corte Adotados para Notificação de Caso traz as bases técnicas da redefinição do ponto de corte para casos suspeitos de microcefalia. Em meio a acusações da imprensa e Internet marrom de manipulação dos dados para esconder a epidemia, os colegas apresentam as bases científicas do protocolo adotado pelo Ministério da Saúde para definir casos suspei-tos. No total, entre o momento da submissão, pareceres e reformulação, o artigo foi apro-vado em 28 dias.

Os outros dois textos, na seção Perspectivas, apontam questões mais diretamente po-líticas, que tangenciam a epidemia de Zika. Frente às emergências sanitárias

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Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 32(4):eED010416, abr, 2016

EDITORIAL EDITORIAL

nais, securitiza-se a saúde. A epidemia de ebola foi classificada como uma ameaça à paz

e à segurança mundiais, e as consequências são muito bem apresentadas em Do Ebola ao

Zika: As Emergências Internacionais e a Securitização da Saúde Global. O outro texto discu-te as Ameaças de Retrocesso nas Políticas de Saúde Sexual e Reprodutiva no Brasil em Tem-pos de Epidemia de Zika, retrocesso este promovido pelo Projeto de Lei no 5.069/2013, que

aumenta as barreiras ao acesso a serviços de saúde e ao exercício dos direitos sexuais e reprodutivos para as mulheres vítimas de violência sexual. Esse Projeto inclusive estimu-la a objeção de consciência de profissionais do serviço público, negando a estimu-laicidade do Estado brasileiro 3.

Enfim, portas abertas e “fast track” para artigos sobre Zika. Esperamos dar a nossa con-tribuição ao debate científico, sempre tendo por objetivo o avanço científico e da saúde das populações.

Marilia Sá Carvalho Editora

1. World Health Organzation. WHO Director-General summarizes the outcome of the Emergency Commit-tee regarding clusters of microcephaly and Guillain-Barré syndrome. http://www.who.int/mediacentre/ news/statements/2016/emergency-committee-zika-microcephaly/en/ (acessado em 04/Mar/2016). 2. Jouannic J-M, Friszer S, Leparc-Goffart I, Garel C,

Ey-rolle-Guignot D. Zika virus infection in French Poly-nesia. Lancet 2016; 387:1051-2.

Referências

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