ADELINA BRACCO
FIGURATIVIDADE DO NÚMERO E SIMULACROS DO IBGE NA
MÍDIA IMPRESSA
Mestrado em Comunicação e Semiótica
Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Comunicação e Semiótica, área de concentração “Signo e Significação nas Mídias”, sob a orientação da Profa. Dra. Ana Claudia Mei Alves de Oliveira
Banca Examinadora
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Agradecimentos
À minha orientadora, professora doutora Ana Claudia Mei Alves de Oliveira;
Às professoras doutoras da minha banca de qualificação, Edna Maria Fernandes
Nascimento e Elizabeth Harkot de La Taille.
Aos professores do COS;
À secretária do COS, aos colegas, amigos e pesquisadores do Programa de
Estudos Pós-graduados em Comunicação e Semiótica e Centro de Pesquisas
Sociossemióticas - CPS;
Figuratividade do número e simulacros do IBGE na mídia impressa
RESUMO:
Neste trabalho foram analisadas reportagens publicadas em quatro jornais impressos diários brasileiros de grande circulação -- Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e Jornal do Brasil --, no período de dezembro de 2000 a 2007, nas quais se abordou o tema dos dados estatísticos oficiais produzidos pelo IBGE, relativos às condições de vida da população. O objetivo do estudo foi buscar a significação desses textos, identificando neles regimes de presença do IBGE construídos pelos jornais, por meio de procedimentos enunciativos e figurativizações, e analisar como a figuratividade produziu diferentes jogos de efeitos de sentido, em particular, os de objetividade, subjetividade, veridicção, veracidade e fidúcia. A teoria e a metodologia empregadas foram da semiótica discursiva, que possibilita o aprofundamento nos vários textos das páginas jornalísticas a partir do nível mais concreto e superficial da instância discursiva até os graus de invariância e generalidade das categorias fundamentais, nas estruturas semionarrativas. O corpus da pesquisa foi selecionado ao longo de quase sete anos de mapeamento e avaliação das publicações impressas, perfazendo um total de mais de 60 edições selecionadas. Foram adotados critérios de relevância significante para a obtenção de homogeneidade do material noticioso, examinando-se manchetes de capa, destaques de capa, capas de cadernos e, em menor escala, páginas internas. O material selecionado também articulou os sistemas de expressão verbo-visuais em sincretismo. Outro critério foi o de datas coincidentes, quando essa condição favorecesse procedimentos analíticos. O problema de pesquisa consistiu em compreender como os jornais, com suas marcas identitárias de sujeitos enunciantes, construíram o sentido dos dados de um discurso de cientificidade e projetaram simulacros do IBGE a partir dessas construções. A hipótese básica de trabalho foi a de que, nas suas enunciações sobre as informações do Outro (IBGE), os jornais utilizaram eficazmente estratégias discursivas por meio das quais comunicaram microuniversos de valores axiológicos aos enunciatários-leitores, avaliando e sancionando um /fazer/ da alteridade.ABSTRACT:
In this analysis we looked into news stories appearing on four Brazilian national daily newspapers – Folha de S. Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo e Jornal do Brasil – during the period ranging from December 2000 to 2007, in which we could find a large number of news about official statistical data produced by Brazilian statistical bureau (IBGE) and related to Brazilian people’s living conditions. The aim of this study was to identify the signification emerging from these texts as well as different modes of presence of IBGE as they were constructed by the newspapers which, for that purpose, adopted enunciative and figurativization procedures, and also find out how figurativity was capable of unleashing a series of meaning effects particularly those of objectivity, subjectivity, veridiction, veracity and fiducia (trust). The theory and methodology to achieve our aim came from discursive semiotics as it provides us with resources to analyze different structures of the news on journalistic pages starting from the most concrete and superficial level up to the deepest level and its degrees of invariance and general categories in the semionarrative dimension. Our corpus was selected following almost seven years of accompaniment and evaluation of such news with the selection of more than 60 editions of newspapers on the whole. We adopted signifying relevance criteria to achieve homogeneity as to the selected news stories so that our collection included top or highlighted stories on front pages or special inserts and some on section pages only if they proved pertinent to the analysis. The news also articulated both verbal and visual systems of expression in syncretism. Another criterion was to choose same date articles if such procedure was considered relevant to our analytical approach. The question of our research work was to understand how each newspaper bearing its own identity marks as enunciating subject developed mechanisms to build the meaning of statistical data of scientific nature and at the same time issue IBGE simulacra from their texts. Our basic hypothesis was that in their enunciations arising from Other’s information (IBGE), the papers under analysis efficiently managed discursive strategies by means of which they conveyed microuniverses of axiological values to their readers as well as evaluated and sanctioned a /doing/ from alterity.Sumário
Lista de Figuras 10
Siglas utilizadas 11
Parte I
1. Além e aquém do sentido dos dados estatísticos 13
1.1. Comentários iniciais 13
1.2. Escolha do corpus 17
Parte II
2. Jornais como presenças sensíveis 21
2.1. Capas e páginas sensientes 21
2.2. Jogos de efeitos de sentido 25
Parte III
3. A significação dos números 28
3.1. Preliminares da análise 28
3.2. Eus invariáveis 29
3.2.1. O Eu de O Globo 31
3.2.2. O Eu do Jornal do Brasil 33
3.2.3. O Eu de O Estado de S. Paulo 36
3.2.4. O Eu da Folha de S. Paulo 39
3.3. Eus variáveis em diacronia 41
. 3.3.2.1. Edição de 22 de dezembro de 2000 58
3.3.2.2. Edição de 10 de maio de 2001 62
3.3.2.3. Edição de 16 de setembro de 2006 66 3.3.3. O Eu de O Globo ea construção analógica 70 3.3.3.1. Edição de 22 de dezembro de 2000 70 3.3.3.2. Edição de 20 de dezembro de 2001 76 3.3.3.3. Edição de 20 de dezembro de 2001 Caderno Especial 79 3.3.4. O Eu do Jornal do Brasil ea construção sinedóquica 83 3.3.4.1. Edição de 22 de dezembro de 2000 83
3.3.4.2. Edição de 9 de maio de 2002 86
3.3.4.3. Edição de 16 de setembro de 2006 89 3.4.. Eus variáveis em sincronia: a rede de relações no quadrado semiótico 92
Parte IV
4. Simulacros do IBGE projetados pela mídia impressa 94
4.1. Condições de projeção e apreensão 94
4.1.1. A projeção simulacral da Folha de S. Paulo 97
4.1.1.1. Edição de 22 de dezembro de 2000 97
4.1.1.2 Edição de 20 de dezembro de 2001 99
4.1.3.1. Edição de 22 de dezembro de 2000 105 4.1.3.2. Edição de 22 de dezembro de 2000 Página Interna 106 4.1.4. A projeção simulacral do Jornal do Brasil 108
4.1.4.1. Edição de 22 de dezembro de 2000 108
4.1.4.2. Edição de 9 de maio de 2002 109
5. Considerações finais 110
6. Referências bibliográficas 112
Lista de Figuras
Figura 1 Nome de O Globo em 2000 e 2006 31
Figura 2 Nome do Jornal do Brasil em 2000, 2003 e 2006 33
Figura 3 Nome de O Estado de S. Paulo em 2001 e 2006 36
Figura 4 Nome da Folha de S. Paulo em 2000 e 2006 39
Figura 5. Capa da Folha de S. Paulo de 22-12-00 42
Figura 6.. Capa da Folha de S. Paulo de 20-12-01 48
Figura 7 Capa do Caderno Especial da Folha de S. Paulo de 20-12-01 50
Figura 8 Capa da Folha de S. Paulo de 26-11-05 54
Figura 9 Capa de O Estado de S. Paulo de 22-12-00 59
Figura 10 Capa de O Estado de S. Paulo de 10-05-01 63
Figura 11 Capa de O Estado de S. Paulo de 16-09-06 67
Figura 12 Capa de O Globo de 22-12-00 71
Figura 13 Página Interna de O Globo de 22-12-00 74
Figura 14 Capa de O Globo de 20-12-01 77
Figura 15 Capa do Caderno Especial de O Globo de 20-12-01 80
Figura 16 Capa do Jornal do Brasil de 22-12-00 84
Figura 17 Capa do Jornal do Brasil de 09-05-02 88
Siglas utilizadas
Sigla Por extenso
IBGE Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
FSP Folha de S. Paulo
OESP O Estado de S. Paulo
OG O Globo
JB Jornal do Brasil
CD 2000 Censo Demográfico 2000
[...] mediante uma redução do tempo – dele não se retendo senão o efêmero --, mediante uma redução do espaço – atribuindo importância somente a seus fragmentos – o ser humano se aproximaria, passo a passo, do essencial, permanecendo sempre, no entanto, na ordem do material. Edificar sobre a areia não é por acaso cultivar a espera do inesperado? Algirdas Julien Greimas in “Da Imperfeição”
Parte I
1. ALÉM E AQUÉM DOS DADOS ESTATÍSTICOS
1.1. Comentários Iniciais
Retratos do Brasil, perfil da população, fotografia do país são expressões de uso
corrente no jornalismo impresso diário quando se trata da apresentação, na forma de
reportagens, dos dados estatísticos sócio-demográficos produzidos pelo IBGE, material do
qual nos ocuparemos nesta pesquisa. O próprio IBGE utiliza esses termos para enfatizar a
atividade que desenvolve, de coleta e sistematização de dados numéricos, considerando os
resultados retratos da realidade. Por meio de um /saber fazer/ técnico, que é, em linhas gerais,
o de formulação e aplicação de modelos estatísticos obtidos a partir de um crivo de leitura dos
fenômenos sócio-demográficos, o instituto coleta dados através de questionários e transforma
esses dados em aglomerados analisáveis, com o intuito de obter indicadores. Esses
indicadores têm como inspiração primeira o interesse do Estado na formulação de políticas
públicas e, cada vez mais, a sua disponibilização, na forma de banco de dados, para uso de
outros segmentos da sociedade.
Nos últimos tempos, considerando o período abrangido pelo corpus, tem havido interesse crescente da imprensa nesses números, cujas divulgações merecem até o estatuto de
acontecimentos dignos de grandes coberturas.
Nestas considerações iniciais, importa-nos refletir sobre o caráter contraditório e
superficial das noções de retrato e fotografia fundadas no senso comum. Nosso propósito é
superá-las e, guiados pela semiótica discursiva, ir além, ao encontro da significação que os
produzidos pelos enunciadores-jornais, e aquém, no reconhecimento do que primeiro confere
aos enunciadores-jornais uma estética invariável, igualmente fundadora do /fazer crer/ nos
números, na interação com os enunciatários-leitores. Ambas as instâncias, quer da
virtualidade da paradigmática, quer da realização da sintagmática, ao mesmo tempo e em um
único arcabouço de sentido, formam a base do que se conceitua como a dupla expressão da
identidade dos jornais, na perspectiva de Oliveira (2006: pág. 13).
Antes de prosseguirmos, gostaríamos de ilustrar esta introdução com um comentário
de Senra (2006: pág. 37). Ele nos diz, a partir dos estudos sobre história das estatísticas, que
elas têm “o poder de trazer pessoas e coisas distantes à presença de decisores (às suas mesas),
na forma de algumas tabelas e de alguns gráficos, quiçá, sempre que possível, na forma de
mapas (cartogramas).” Esse estudioso arremata o comentário com uma previsão: “Mais e
mais, os discursos perdem as letras e ganham os números.” (ibid.). Se essa tendência for irreversível, como nos diz o pesquisador, pensamos que nossa análise terá valido a pena, uma
vez que poderá mostrar o potencial da semiótica discursiva com relação a construções de
textos quantitativos, passíveis de serem analisados, tanto quanto os demais, como um todo de
significação. E, na nossa visão, a escolha temática estará também justificada pelo fato de esses
números serem colocados progressivamente à disposição da produção jornalística.
Na perspectiva da práxis cotidiana, retrato e fotografia remetem, de imediato, à idéia
de cópia. Trata-se de uma aparente trivialidade que recobre uma questão de fundo, a da
representação analógica do real, sobre a qual nos deteremos o suficiente para refutá-la no
priori “retratável”, ou, em outras palavras, passível de ser representada, tal como a concebe a ontologia.
Nossa proposta, dentro da semiótica, é tentar apreender e compreender as operações de
geração do sentido dos números no momento mesmo em que eles são concretizados, ou
melhor, figurativizados, em combinatória de relações, apresentada em ato e em situação, nas
páginas jornalísticas de quatro importantes matutinos.
O problema da pesquisa é, pois, investigar e compreender como os jornais
constituintes do corpus de análise, isto é, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e
Jornal doBrasil, construíram textos em que – é a nossa postulação -- transmitiram muito mais do que simplesmente informação ou saber, pois, diferentemente do que preceitua a teoria
clássica mecanicista da comunicação, as casas do emissor e do receptor não estão vazias, nem
são neutras, nem formam instâncias à parte uma da outra. Queremos demonstrar, no estudo,
que os jornais transmitiram um sentido (ou sentidos) aos seus leitores, ajudando-os a “viver”
um mundo social e a “realidade” de um país, o Brasil, ou, melhor, as “realidades” ou os
“brasis” que construíram, a partir dos números postos à disposição pelo IBGE.
Os números motivaram diferentes fazeres interpretativos, dependendo do ponto de
vista de quem os enunciou jornalisticamente, na sintagmática da página diária, que, por si só,
pressupõe uma anterioridade enunciativa no construir do mundo de papel, e na paradigmática
dos valores que o enunciador selecionou e fez circular, ambas as instâncias base do contrato
de veridicção implícito com o enunciatário-leitor. Esse pacto constitui o fundamento da
comunicação intersubjetiva.
Nossa hipótese básica é de que os jornais elaboraram seus discursos numéricos
apoiados em um conhecimento científico construído na alteridade. Contudo, na reiteração do
pacto fiduciário com seus enunciatários-leitores, reconstruíram o saber da alteridade,
singularizantes e singularizadores perante os demais parceiros da rede de relações
enunciativas. Melhor explicando, cada jornal colocou-se na posição de alter do IBGE e, no
discernimento de cada um, estiveram diante de um IBGE nem falso, nem verdadeiro, nem
mentiroso, nem dissimulado, mas todos esses atributos em complementaridade ao mesmo
tempo.
Se estivermos no caminho correto, chegaremos, no final, à constatação de que os
jornais projetaram não um único, mas pelo menos quatro IBGEs, a partir da construção de
1.2. Escolha do corpus
Nosso corpus é constituído por matérias noticiosas (reportagens) que se basearam em divulgação para a imprensa e para o público em geral de resultados de pesquisas estatísticas
referentes às condições de vida da população residente no Brasil. A expressão “população
residente” é utilizada pelo IBGE na acepção de que engloba, inclusive, estrangeiros que
moram, ou moravam no país, na época dos levantamentos.
Produtor oficial dessas estatísticas, o IBGE constituiu-se tanto em sujeito competente
para o /saber fazer/ técnico, ao longo de seus 71 anos de existência, como em sujeito
competente para o /fazer saber/ jornalístico, por meio de sua assessoria de imprensa, com sede
na cidade do Rio de Janeiro.
As pesquisas objeto das reportagens em análise são classificadas como estruturais pelo
órgão, por demandarem períodos relativamente longos, a partir de um ano, para coleta e
consolidação dos resultados. O método de divulgação para a imprensa é diferenciado em
relação aos levantamentos de dados mensais e trimestrais (chamados de conjunturais), pois o
instituto, no primeiro caso, fica disponível para contato dos jornalistas antes da data única em
que as estatísticas se tornam de domínio público, mediante um compromisso de sigilo
profissional até a data de divulgação. Dessa forma, tanto a imprensa como o IBGE
potencializam o efeito de ruptura com o cotidiano, que pode ser mais ou menos intenso,
dependendo da avaliação da importância do assunto por parte de cada enunciador-jornal.
Melhor explicando, a intensidade da visibilidade e da sensibilização dada aos fatos do IBGE
varia de enunciador para enunciador, como constataremos nas análises.
Por essa razão, postulamos que, na construção do texto midiático dos números, surgem
que se entretecem com os do IBGE, subsumindo-os no construir dos acontecimentos
estatísticos.
A título de esclarecimento, falaremos em termos gerais das principais características
das pesquisas estatísticas abordadas neste trabalho, a saber: Censo Demográfico 2000 (CD
2000), Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (grafada como PNAD ou Pnad).
Algumas outras foram selecionadas e avaliadas, mas não integraram nossa grade geral de
leitura, pois, necessariamente, tivemos de fazer uma redução com base em critérios de
representatividade. Portanto, nesta análise, procuramos selecionar as pesquisas com mais
qualidades pregnantes, ou seja, aquelas capazes de desencadear efeitos de sentido tais que
favorecessem a comparabilidade e a construção de um modelo de apreensão geral da
significação e de previsibilidade, que é o quadrado semiótico.
Neste início de jornada, consideramos válido fazer um breve resumo histórico da
natureza dos dados aos quais vamos nos dedicar.
Os censos, por exemplo, são realizados desde 1872, ainda no Império. Esse primeiro
censo, na verdade, foi uma contagem da população. Foi somente a partir de 1890, na
República, que os censos se tornaram decenais. Conforme documentos do IBGE, os censos
demográficos, integrantes do sistema de coleta domiciliar, são a única fonte de informações
sobre a situação de vida da população em cada um dos municípios e localidades do país.
No caso do CD 2000, a coleta foi realizada de 1º. de agosto a 30 de novembro de
2000, com aplicação de dois questionários: um mais simples, consolidado como “Resultados
A PNAD, que está fazendo 40 anos de existência em 2007, também é uma pesquisa
domiciliar, porém, configurada por amostragem, com coleta levada a cabo durante uma
determinada semana do ano, a chamada semana de referência. A abrangência nacional dessa
pesquisa foi obtida gradativamente e, em 2005, já cobria todo o território brasileiro. Ela
investiga temas permanentes, como características da população, educação, trabalho e
rendimento, domicílio, e outros de periodicidade variável, de acordo com as necessidades de
informação do Estado brasileiro. Em anos de censo demográfico, a PNAD não é realizada.
São essas as pesquisas que emergiram do corte temático do corpus desta análise. Quanto ao corte temporal, procuramos selecionar as matérias noticiosas de mesma
data, mas sem que isso nos tolhesse a flexibilidade necessária à busca da significação. Assim,
o período coberto pelo mapeamento foi de dezembro de 2000, passando por 2001, 2002,
2003, 2004, 2005, 2006 e 2007.
Fizemos um outro tipo de corte do corpus, desta vez pelo critério da relevância de matérias noticiosas. Selecionamos para análise material verbo-visual de primeira página
(capa) ou constitutivo de capa de cadernos ou suplementos especiais, ou, em outras ocasiões,
constitutivos de manchetes de páginas internas, complementando material de primeira página.
Essa seleção implicou uma busca baseada em articulação sincrética e procedimentos retóricos.
Na articulação sincrética, temos implicados dois sistemas de expressão, o verbal e o visual,
para a geração de sentido. A visualidade a que nos referimos aqui é empregada no sentido
amplo e engloba gráficos, tabelas, desenhos, estruturas diagramáticas, considerados, no seu
conjunto, produtores de sentido, tanto quanto fotografias de sujeitos empíricos.
Ao realizar o corte pelo critério de relevância, procuramos seguir a noção referida por
Van Dijk (2004: pág. 123), dando conta de que “a notícia tem o que podemos chamar de
‘estrutura de relevância’ que indica ao leitor que informação é mais importante ou
Nessa linha de raciocínio, buscamos a contribuição de outro autor, que assevera que
manchetes de capa e de páginas internas estão no texto para estimular a leitura de matérias
(NOBLAT, 2003: pág. 116).
Retomando a perspectiva da semiótica, dizemos que o enunciador-jornal, ao selecionar
um arranjo de formantes para expressar uma notícia na superfície bidimensional da página,
visa à reiteração do contrato enunciativo implícito que mantém com o enunciatário-leitor.
Como sujeito do /fazer persuasivo/, o jornal modaliza o enunciatário-leitor para que este
realize o /fazer interpretativo/, doando-lhe competência para o /querer/, /poder/ e /fazer/ a
leitura da construção de mundo do dia.
O /fazer/ do jornal subordina-se à intencionalidade de um projeto gráfico reconhecido
e reconhecível, elaborado para que o enunciatário satisfaça suas expectativas sintagmáticas,
no tocante aos acontecimentos do dia, e paradigmáticas, com relação aos atributos e valores
que conferem identidade à publicação que tem por hábito ler.
Esboçados esses primeiros traços conceituais, trataremos agora da fundamentação
Parte II
2. JORNAIS COMO PRESENÇAS SENSÍVEIS
2.1. Capas e páginas sensientes
Nosso trabalho ergue-se nos marcos do projeto sociossemiótico tal como concebido e
desenvolvido por A. J Greimas, Eric Landowski e Jean-Marie Floch. Por projeto
sociossemiótico estamos nos referindo aos estudos que têm como finalidade o melhor
entendimento da dimensão social dos fatos de significação (LANDOWSKI, 1992: pág. 166).
Nossa preocupação é eminentemente investigativa, voltada para aquilo “que se deixa de fato
ver e até sentir”. (LANDOWSKI, 2002: pág. 127).
Os procedimentos de análise semiótica permitem que se reconheça a axiologia dos
enunciadores jornalísticos e as diferenças entre eles, posto que cada um constrói seu regime
de presença e de sentido no mundo. Na perspectiva do método aqui adotado, axiologia é “o
modo de existência paradigmática dos valores”. (GREIMAS & COURTÉS, s/d: pág. 37).
A axiologia ganha contornos sensíveis a partir do investimento da categoria afetiva de
base, chamada tímica, euforia vs disforia, que determina “a relação que um corpo sensível mantém com seu ambiente” (BERTRAND, 2003: pág. 431), de repulsão ou de atração.
É essa categoria de base uma das que articularemos no contato com os textos
jornalísticos selecionados, buscando identificar oposições semânticas indicativas da direção
tímica disfórica ou eufórica imprimida pelos enunciadores aos textos. Em textos sincréticos,
como os das reportagens sobre as estatísticas, que aliam o verbal e o visual, a direção tímica é
de natureza complexa, produzindo efeitos de sentido de nível superior. Há casos, na nossa
conjunção de dois sistemas de expressão da significação para a manifestação de um só
conteúdo.
A seleção de primeiras páginas para determinação do sentido se inspira em
ensinamento de Floch (1987: pág. 34):
Ela [a primeira página] é, evidentemente, se se considera a totalidade de páginas de um jornal, a primeira, aquela em que se dão as notícias que foram consideradas mais importantes, mais ricas de ensinamentos ou de emoções para os leitores; mas é também a página onde, cada dia, figura o título. Qualquer que seja o ordenamento das notícias, qualquer que seja o tamanho dos títulos em função da importância concedida aos acontecimentos, título e divisa constituem o lugar onde se manifesta a permanência do jornal. A primeira é, então, a página em que se manifesta uma das características fundamentais do discurso jornalístico: o de ser uma criação própria [...] a partir destes “discursos dos outros” que são os acontecimentos do mundo.
Essa “criação própria” dos jornais, a partir do alter IBGE, é o que queremos pesquisar,
considerando-a nos seus diversos arranjos de capas e partindo dos investimentos semânticos
em espaços e ambientes fotografados, nos elementos gráficos empregados, na visualidade
plástica, inclusive, de famílias de tipos do verbal.
Nossa análise estende o conceito de Floch também para capas dos cadernos especiais
(ou suplementos) dedicadas aos resultados estatísticos, o que ocorre, sobretudo, com relação
ao Censo 2000. Em tais capas internas específicas também estão presentes elementos de
permanência do jornal, embora re-apresentados em combinatória mais flexível, já que a
isotopia temática abre caminho para a mobilização de recursos outros, através dos quais o
Ao nos orientarmos pelas oposições semânticas presentes nos textos relativamente aos
fatos estatísticos, estamos tornando operatório um conceito fundamental em semiótica, que
permite determinar os valores que dão origem à significação.
O sentido, diz Greimas, é inerente à condição humana. Para o fundador da teoria, “o
homem vive num mundo significante”. Para ele, o problema do sentido não se coloca, o
sentido é colocado, se impõe como uma evidência, como um “sentimento de compreensão”
absolutamente natural. (GREIMAS, 1975: pág. 12).
A fonte originária do sentido é a relação que faz com que ele surja da descontinuidade
estabelecida em um mesmo eixo semântico. Nas palavras de Landowski, que sintetiza esse
princípio basilar, a significação “nasce da instauração e do reconhecimento das diferenças”
(1992: pág. 174).
A semiótica postula para a análise da estruturação dos textos um modelo geral,
gerativo e indutivo, centrado na descrição e homologação de conversões dos planos da
expressão e do conteúdo.
Fiorin resume o percurso gerativo de sentido da seguinte forma (2002: págs. 35 e 36):
Na nossa análise, entenderemos uma manchete, um título, uma foto, um gráfico como
presenças sensíveis, dispostas na página a nos “interpelar”, convocar nossos sentidos para
que alcancemos o inteligível partir do sensível e, vinculadamente, o sensível a partir do
inteligível, num processo incessante de geração de significação. Entenderemos as capas dos
jornais como presenças sensientes, ou seja, produtoras de sentido, tanto quanto outros objetos
do mundo natural que para nós significam.
O corpus da pesquisa nos permitiu observar que também os jornais da imprensa considerada “séria” utilizam dispositivos visuais e verbais para fazer com que suas manchetes
nos interpelem vigorosamente, tendo em vista o objetivo de fazer circular seus valores
axiológicos.
Desde o princípio da análise, a semiótica discursiva nos deixa cientes de que nossos
achados terão sempre a marca do provisório e do parcial, condição, aliás, de toda atividade de
pesquisa.
Vale lembrar, ainda, que os textos sobre medições numéricas ocuparam espaços
considerados nobres nas páginas dos jornais, impondo-se com um modo de presença
figurativo que faz o mundo ser na e pela montagem verbo-visual. Nesse mundo assim
edificado e, coerentemente com o princípio epistemológico da rede de relações fundadora da
significação, os jornais e o IBGE atuaram em co-presença na enunciação, num jogo complexo
de relações estético-estésicas fundado na intencionalidade e na fidúcia, pois falamos aqui de
2.2. Jogos de efeitos de sentido
Postulamos que efeitos de sentido de objetividade e de subjetividade são articulados
nas reportagens estatísticas num todo que constitui uma complementaridade única entre
sensível e inteligível, construindo um mundo linguageiro, que se deixa apreender, na
aparência do sensível e na ilusão da referencialidade externa.
Barros (2002: pág. 85) fala em “objetividade” como “ilusão de ausência de
enunciação, ou de distância em relação a ela”. É como se o discurso se narrasse sozinho, com
as informações fluindo em seqüência natural, com a ilusão de aderência aos acontecimentos,
sem acréscimos ou reduções.
Apagam-se as marcas da enunciação, que é entendida por Landowski como “ato pelo
qual o sujeito faz ser o sentido” (LANDOWSKI, citado por FIORIN, 2002: pág. 31), com a
projeção de um não-eu, um não-aqui e um não-agora. Atribui-se o dito às figuras de
autoridade, como o IBGE ou especialistas, obtendo-se, com isso, efeitos de imparcialidade e
de isenção. Delega-se voz a interlocutores, inclusive figuras do cotidiano (populares), que vão
reiterar conteúdos expressos nos textos, ancorando o efeito de sentido de real, gerando a
fidúcia, o /crer/ verdadeiro e o /dizer/ verdadeiro como condição do saber.
Para melhor explicitar o conceito de referencial externo ou realidade, queremos
destacar, com Landowski (1992: pág. 169) que:
o semioticista, enquanto tal, não tem nada a dizer sobre o fim último das coisas; sua ambição se limita a descrever a organização e o funcionamento destas, contanto, pelo menos, que as “coisas” a serem levadas em consideração existam também (ou primeiramente, pouco importa) “na linguagem”, isto é, desde que elas signifiquem.
Assim, para que as coisas, os objetos, os seres façam sentido, estamos assumindo,
cultura humana, passam sempre pelos sentidos. É Landowski (2002: pág. 166) quem
complementa:
[...] é o discurso, enquanto ato de enunciação efetuado em situação e
produzindo sentido, que nos interessa [...]. Ora, considerar o discurso como
uma atividade geradora de sentido exclui tanto a atitude caricaturalmente purista e, na prática, quase inaplicável que desejaria que se isolem completamente os textos de seus contextos, como aquela, aparentemente mais realista mas, desta feita, teoricamente insustentável, que consiste em postular uma relação de determinação de uns pelos outros. De fato, entre o que “de dentro”, faz que um discurso tenha sentido, e aquilo a que, “afora”,
ele dá sentido, as relações só podem ser da ordem da determinação recíproca
e dialética: um discurso só adquire sentido enquanto reconstrói significativamente, como situação de interlocução, o próprio contexto no interior do qual se inscreve empiricamente sua produção ou sua apreensão. [grifos do autor]
A leitura do mundo a que nos referimos é, e não poderia ser de outra forma, a humana
e não a do próprio mundo capaz de se narrar per se (GREIMAS, 2004: pág. 84). Nesta pesquisa, estamos convencidos de que olhar viabilizador da leitura e compreensão do jornal
impresso é tanto da ordem do verbal como do visual e capaz de desencadear estados afetivos
(patêmicos) que atravessam todo o texto tido como “objetivo”.
Acreditamos que podemos interagir sensivelmente com sujeitos “de papel”, como
corporeidades presentes ou presentificáveis, posto que a própria página de um jornal, uma
manchete, uma foto, um desenho, são capazes, em seu agir, de nos sensibilizar e contagiar.
No ato da leitura de reportagens sobre estatísticas, o enunciatário-leitor se familiariza
com atores em papéis temáticos do cotidiano, simulacros projetados no texto e pelo texto. Em
outras palavras, o enunciatário-leitor é modalizado segundo um /fazer crer/ verdadeiro,
implícito no contrato fiduciário que instala a possibilidade de leitura como um mínimo de
A crença depositada no /dizer/ verdadeiro do jornal é renovada todos os dias, tanto no
momento do preenchimento da expectativa sintagmática, de leitura do mundo dos
acontecimentos que o jornal diário apresenta, como no momento de preenchimento da
expectativa paradigmática, de reencontro com o sistema de valores da axiologia do jornal, que
faz dele uma singularidade perante o enunciatário.
Barros (1995: pág. 90) nos remete a Greimas para falar da adesão “fiduciária” (aspas
da própria autora):
A verdade e a falsidade constituem efeitos de sentido do julgamento epistêmico, em que o crer precede o saber e pertencem, ambos, a um único e mesmo universo cognitivo. Distinguir a adesão “fiduciária”, que envolve o crer, da adesão “lógica”, que recorre ao saber, é, para Greimas, separar tipos de racionalidade que, no ato de interpretar, se misturam e se confundem na certeza ou na dúvida da verdade, na verdade ou na falsidade da certeza. Afirma-se, com isso, o caráter ideológico da interpretação, no seu “reconhecimento da verdade”.
Para encerrar esta semiotização inicial do jornal impresso, na qual explicitamos o
escopo de nossa abordagem, afirmamos com Campos (citada por CAMARGO, I.A. 2002:
pág. 113) que:
Parte III
3. A SIGNIFICAÇÃO DOS NÚMEROS
3.1. Preliminares da análise
Queremos enfatizar a importância da figuratividade como primeiro acesso ao sentido
ou sentidos dos textos submetidos a esta análise. A figuratividade, já o disse Greimas no seu
último livro de autoria única, “Da Imperfeição” (1987, primeira edição em francês, 2002,
primeira edição em português, com prefácio e tradução de Ana Claudia de Oliveira), não é
simples ornamento das coisas. “Ela é esta tela do parecer cuja virtude consiste em entreabrir,
em deixar antever, graças ou por causa de sua imperfeição, como que uma possibilidade de
além (do) sentido” (2002: pág. 74). Esse além sentido, ele completa, à frente, é o reencontro
dos “humores do sujeito” com a imanência do sensível.
A articulação imanência vs aparência é fundante em semiótica, pois dela deriva o sentido sentido --a estesia-- oriundo das conversões de etapas que homologam a imanência até
a superfície mais concreta e superficial da manifestação.
Recordamos que nosso objeto é um todo de sentido, uma construção que comporta um
plano da expressão e um plano de conteúdo articulados. Nosso acesso ao sentido deve,
portanto, começar pela figuratividade, que, por sua vez, concentra temática ampla, originária
3.2. Eus invariáveis
Tomaremos como ponto de partida a pesquisa de Oliveira “A Dupla Expressão da
Identidade do Jornal” (2006) para a elaboração de uma grade geral de leitura dos textos
constituintes do corpus, na análise da significação dos dados estatísticos do IBGE. Na pesquisa citada, estuda-se a articulação das características invariantes, constituídas pelo título
do jornal e conjunto significante próximo, e variantes, ou seja, o todo de sentido formado pelo
texto dos acontecimentos do dia, na construção de mecanismos de interação da mídia
impressa diária com seus enunciatários. Segundo a autora, é essa articulação que está na base
da dupla expressão da identidade do jornal (ibid. pág. 14).
Consideramos, então, o nome do jornal um elemento invariante, na expressão de
Oliveira, um “eu que se mostra” e que se compromete, assumindo o que deixa ver e sentir do
mundo naquele dia assim como, em diacronia, também nos dias posteriores. Esse “eu”
interage com um “tu” que está fora, mas atuando em co-presença.
A interação resultante é concebida como um estar, um sentir e um viver junto a
significação, caracterizando o regime de presença do ajustamento, conforme abordagem dos
estudos mais recentes de Landowski (citado por Oliveira, ibid. pág. 14). Nesse regime, não se concebe troca de objeto de valor entre sujeitos, pois a relação é de um corpo-sujeito
(enunciatário) com outro corpo-sujeito (jornal), sem a interposição de valor pré-fixado.
Entende Oliveira que o valor brota do estar junto que ambos constroem.
Com a figuratividade do seu nome, o jornal atesta, enquanto sujeito, no corpo a corpo
com o enunciatário, que ele, na interação em ato e em presença, é o mesmo de ontem. Expõe
sua invariância para a suposta invariância do leitor, na metáfora do reencontro marcado que, a
A seguir, faremos algumas observações a respeito do modo de presença dos eus
permanentes dos jornais que analisamos.
A título de esclarecimento sobre os elementos constituintes que circundam o núcleo do
título dos jornais, observamos que a Lei de Imprensa, de 1967 (ainda em vigor), estipula a
obrigatoriedade da identificação dos responsáveis estampada no cabeçalho, bem como sede,
série e data da impressão. Eis o artigo e parágrafos referentes dessa lei:
Lei de Imprensa
Lei n.º 5.250, e 09/02/1967
Art. 7º - No exercício da liberdade de manifestação do pensamento e de informação não é permitido o anonimato. Será, no entanto, assegurado e respeitado o sigilo quanto às fontes ou origem de informações recebidas ou recolhidas por jornalistas, rádio-repórteres ou comentaristas.
§ 1º - Todo jornal ou periódico é obrigado a estampar, no seu cabeçalho, o nome de diretor ou redator-chefe, que deve estar no gozo dos seus direitos civis e políticos, bem como indicar a sede da administração e do estabelecimento gráfico onde é impresso, sob pena de multa diária, de, no máximo, um salário mínimo da região, nos termos do artigo 10,
§ 2º - Ficará sujeito à apreensão pelo autoridade policial todo impresso que, por qualquer meio, circular ou for exibido em público sem estampar o nome do autor e editor, bem como a indicação da oficina onde foi impresso, série da mesma e data da impressão.
§ 3º - Os programas de noticiário, reportagens, comentários, debates e entrevistas, nas emissoras de radiodifusão, deverão enunciar, no princípio e no final de cada um, o nome do respectivo diretor ou produtor.
3.2.1. O Eu permanente de O Globo
Figura 1-Nome de O Globo em 2000 e 2006
O eu de O Globo apresenta uma primeira oposição verbo-visual na categoria cheio vs vazio. Sobre a tira de fundo escuro (azul), que se estende de ponta a ponta na largura da
mancha gráfica, o título se apresenta centralizado, vazado, enquadrado, não-serifado.
Além dessa primeira oposição, outra de natureza geométrica convoca enfaticamente
nosso olhar. A larga tira retangular estendida de lado a lado, engloba, no vazado, três círculos
(O O O), um semicírculo fechado (G) e outras duas letras (B e L), com a letra B sendo vista
em fase de transição, pela clivagem da “barriga”, para a letra L, de ângulo reto.
Na parte superior do título, três grossos traços, em tom claro, separam a instalação de
uma notícia curta, nas edições mais antigas que pesquisamos. A notícia, de cunho utilitário,
também vazada, estende-se de uma extremidade à outra da largura da mancha gráfica, com
indicação da localização interna do restante da informação. Trata-se do simulacro de uma
notícia última, acrescida à maneira de figurar no limiar do fechamento da edição, para um
efeito de sentido de atualização do narrado do mundo, num esforço que mobilizou toda a
energia da redação em proveito do enunciatário que irá encontrar o jornal no dia seguinte. Nas
substituído pelo endereço eletrônico na internet. centralizado, em letras vazadas, que passou a
qualificar o Eu permanente do jornal O Globo no aspecto da competência tecnológica para acompanhar a velocidade do cotidiano digital.
Esse endereço já existia no período inicial da pesquisa, compondo os elementos
significantes adjacentes ao título, contudo, sem destaque.
Notamos que, em algum momento, no transcorrer das edições que não somente a dos
números estatísticos do IBGE, o jornal acrescentou ao fundo azul, um selo em alto relevo, que
projetou uma sombra escura sobre a mesma base do fundo, para indicar os seus anos de
existência (80). Desta feita, deixava-se ver e apreender pela longevidade de sua manifestação
permanente, no reencontro diário e sempre renovado com seu leitor.
Postado do lado direito, o selo estava ali para ser percebido em primeiro plano, mas
discretamente, significando que as marcas do tempo não haviam alterado as feições do eu, não
havendo motivo para pensá-lo diferente do hoje. Passado o ano do aniversário de soma
redonda, o dispositivo foi retirado.
Na linha de data, nas primeiras edições que pesquisamos, aparecia o nome do
fundador (lado esquerdo) e do presidente (lado direito). Nas edições mais recentes,
permaneceu, na mesma posição o nome do fundador, sem menção ao seu status funcional, e, do lado direito, preservou-se apenas o nome “Roberto Marinho”, com o ano de nascimento e
3.2.2. O Eu permanente do Jornal do Brasil
Figura 2 - Nome do Jornal do Brasil em 2000, 2003 e 2006
No período coberto por esta análise (2000 a 2007), o eu invariável do Jornal doBrasil alterou-se por duas vezes. Na forma primeira, no final do ano 2000, apresentava-se marcado
pela disposição abrangente, deitada, quase encostando nos limites da largura da mancha
gráfica na parte superior. Utilizavam-se letras maiúsculas, em negrito e com serifas grossas e
quadradas. As letras eram de uma família de tipos que remetia à tradição do design tipográfico.
Na disposição gráfica do título inicial, podemos reconhecer as oposições
horizontalidade vs verticalidade, largura vs altura, lateralidade vs centralidade, amplitude vs estreiteza, abertura vs fechamento, liberdade vs cerceamento. O efeito de sentido que percebemos nesse título é de abrangência do olhar do jornal sobre o país, em todas as direções
Entre os exemplares que analisamos, notamos que o jornal sempre estampou no título
a reafirmação de sua longevidade, com dia mês e data de nascimento (inicialmente, abaixo do
título, em letras bem menores, lia-se “Fundado em 9 de abril de 1891”).
No corpus desta pesquisa, o endereço na internet passou a integrar a linha de data no final de 2001, porém, de maneira discreta.
Já em 2003, o eu permanente se mostra com novo arranjo gráfico, que promove uma
ação verticalizante no título, fazendo-o reduzir seu modo de estar no espaço da identificação
pelo leitor. Interpretamos o movimento como perda da abrangência do olhar, que assumiu a
forma compactada. Essa mudança foi feita com hesitação, como nos desvela o uso de versal e
versalete (letra em caixa alta do tamanho da de caixa baixa), assinalando um abalo na sua
re-construção subjetal.
O ano de fundação (“Desde 1891”), por sua vez, passou a integrar o núcleo do eu do
jornal, colocado na mesma linha. Com o destaque do ano de fundação, entendemos que o
novo-velho título buscava recuperar a fidúcia do pacto com os antigos enunciatários.
Paralelamente, acenava para os novos com o efeito de modernização sugerido pela elegância
da nova família de tipos e colocação do endereço na internet logo abaixo do nome.
Em 2006, tomando como referência nosso corpus, houve outra mudança de porte no eu permanente e no variável. A mancha gráfica dos acontecimentos diários se condensou, com
a passagem para o formato tablóide; o nome do jornal se retraiu e mostrou-se pelo negativo,
isto é, do bold preto passou ao bold vazado em fundo azul de dois tons.
“Jornal” e o mais claro “do Brasil”. Duas linhas grossas vazadas também aparecem na base
que sustenta o nome.
Foi repetida a estratégia de manter a temporalidade histórica do ano de fundação, para
que ela se tornasse avalista de que as mudanças estavam sendo feitas em nome de um projeto
de atualização das estruturas do jornal.
Há de se notar ainda que o título foi deslocado para baixo, em seguida a uma “vitrine”
de chamadas de matérias de serviços e de cultura. Acima dessa vitrine, uma tira passou a
convocar o olhar para a chamada dos classificados, em retomada parcial de uma das marcas
que singularizou o jornal antes da mudança, ou seja, a de estampar na primeira página uma
coluna de classificados.
Na linha de data, parte das informações obrigatórias, como ano, número da edição,
localidade e data ficaram mais evidentes, explicitando-se, também, o dia da semana e o
3.2.3. O Eu permanente de O Estado de S. Paulo
Figura 3 - Nome de O Estado de S. Paulo em2001 e 2005
Nos marcos temporais da pesquisa que realizamos, o jornal empreendeu mudanças
mínimas no seu título, procurando preservar o núcleo identitário e assim manter o eu do
ajustamento intacto na renovação do pacto de confiança com os leitores.
A família tipográfica escolhida pelo jornal para seu título não tem serifas, o traçado se
dá em continuidade, não se vê excesso nem forma transitória do grosso para o fino.
Observa-se contenção, cujo sinal evidente é o corte da letra T, de mínimas dimensões.
O jornal coloca-se na área branca com o artigo definido O. Como observou Oliveira
em seus estudos, ele apresenta-se “como um sujeito coletivo, que engloba todo o estado e os
Em termos categoriais, reconhecemos as oposições significantes das categorias
compacto vs disperso, regularidade vs variabilidade, tradição vs inovação, identidade vs alteridade.
Num dos exemplares iniciais da nossa pesquisa, o jornal reservava a margem esquerda
para informações de natureza utilitária, referentes ao próprio jornal, como preço em alguns
estados, remissão à página interna com mais preços. Do lado direito, vinha o nome do diretor
responsável. Embaixo do título, na linha de data, uma tarja escura em letras vazadas indicava
a data, informes de ano, número e dia da semana. Margeando a tarja, o jornal instalava em
sucessão horizontal quatro nomes da família fundadora, com data de nascimento e morte de
cada integrante, reiterando a vinculação da permanência de ideais assumidos.
Notamos, ainda, nas edições do início do estudo, que um traço de vários pontos
gráficos separava o eu permanente do arranjo sintagmático do dia.
Em 2005, observamos uma mudança na disposição geral dos significantes que
circundavam o título. A distância do traço grosso separando o mundo dos acontecimentos do
dia do título ficou mais pronunciada, as informações utilitárias de preços foram deslocadas
para baixo, e, no lugar delas, inscreveu-se o horário de fechamento da edição, num efeito de
sentido de agilidade na adaptação das novas coerções temporais impostas ao /fazer/
jornalístico na contemporaneidade.
Eliminou-se a maioria dos nomes familiares, deixando-se apenas dois, colocados do
lado direito. Investiu-se semanticamente no dia da semana, postado logo abaixo do título, num
movimento que entendemos de qualificação do enunciador para tratar de questões que digam
respeito mais de perto ao dia a dia do enunciatário.
Conforme ficou evidente no corpus, o traço grosso, definidor dos campos do si mesmo e do Outro, passou a modular a separação, ou seja, a acompanhar a extensão dos títulos das
novidade pode significar a intencionalidade de uma presença mais interpretativa do eu
permanente na construção sintagmática.
Vale lembrar ainda que o endereço na internet passou a ocupar um espaço do lado
3.2.4. O Eu permanente da Folha de S. Paulo
Figura 4 - Nome da Folha de S.Paulo em 2000 e 2006
Um título verticalizado e compactado, de hastes espessas com serifas finas, caracteriza
o eu permanente do jornal. A colunata de hastes capta o olhar na regularidade do traçado
simétrico.
Reconhecemos na plástica do nome as oposições perpendicularidade vs horizontalidade, grosso vs fino, compactação vs espaçamento, ângulos agudos vs angulos retos, elipse vs círculo, descontinuidade vs continuidade, flexibilidade vs rigidez.
Do final de 2000 ao início de 2007, o título não mudou no seu núcleo básico. Houve
alterações nos elementos vizinhos ao nome, como data, lugar ocupado pelo slogan e selo com o horário de fechamento da edição.
Situado no centro, relativamente distanciado das margens, o jornal (edição de
22/12/2000) reserva espaço em branco à esquerda, seguindo a linha do título, para uma
inscrição de natureza técnica, com a especificação da localidade a que se destina, na forma de
da agilidade do jornal, incorporando a dinamicidade dos acontecimentos do presente à
produção de um bem de acabamento sofisticado.
Notamos que a construção da abreviatura “S.Paulo”, não segue a norma da gramática.
Se estendêssemos o título, da forma como está, teríamos de escrever SãoPaulo, sem espaço
entre as letras. Entendemos que essa marca no verbal é sugestiva de um fazer
auto-referenciado.
Outro traço desse eu que se enuncia no regime do ajustamento é explicitar o papel que
se atribui em meio a outros enunciadores. Lemos no slogan “Um jornal a serviço do Brasil”. Entende-se que está a serviço de um destinador coletivo, o Brasil, portanto, conhecedor dos
valores implicados na relação e por ela englobado. Assim, na vizinhança do espaço do
ajustamento, que é o do título, reconhecemos a presença de um destinador manipulador e
sancionador que se expõe, em espaço contíguo ao da ocorrência da adesão ao pacto
enunciativo.
O jornal separa com um fio médio e contínuo os dois campos de significação (o da
identidade e o da construção diária do mundo). No corpus que selecionamos, houve um período de edições em que esteve incluída, na linha do título, a alusão aos 80 anos (em 2001),
na estratégia de remissão à longevidade para reiteração da competência enunciativa.
O endereço na internet, especificamente no corpus, só vai aparecer bem mais tarde, em 2006, por ocasião da modificação nos dispositivos periféricos ao título. O slogan (“A Serviço do Brasil”) e o endereço eletrônico passam a encimar o nome, rompendo com a uniformidade
3.3. Eus variáveis em diacronia
Neste ponto, queremos esclarecer que prosseguiremos com a análise dos efeitos de
sentido dos números construídos pelos diferentes enunciadores-jornais, com vistas ao
estabelecimento de um modelo geral de rede de relações representado pelo quadrado
semiótico, para depois traçarmos os simulacros do IBGE na mídia impressa.
3.3.1. O Eu da Folha de S. Paulo e a construção metafórica 3.3.1.1. Edição de 22 de dezembro de 2000
Estatuto dos dados: manchete de capa do jornal
O conjunto verbo-visual da manchete é composto por antetítulo, título, fotografia e
legenda, selo, gráficos, desenhos e tabelas. O bloco de texto da chamada da manchete ocupa
uma coluna, do lado direito. Na seqüência dessa coluna, há uma chamada secundária, com
título em duas linhas.
Topologicamente, o arranjo instala-se na metade superior da primeira página,
evidenciando a importância dada ao acontecimento estatístico.
São os seguintes o antetítulo (1) e o título da manchete (2), ambos dispostos na
horizontal, em uma linha cada um, ocupando, de ponta a ponta, a largura da mancha gráfica
(seis colunas):
(1)
Censo 2000, do IBGE, mostra que a taxa de aumento da população na
década de 90 foi a mais baixa desde 1950
(2)
A coluna formada pelo texto da chamada da manchete e pequena chamada consecutiva
delimita verticalmente o arranjo verbo-visual, contrastando com a horizontalidade do conjunto
da manchete ao qual se subordina. Desce na vertical, margeando a faixa na horizontal abaixo
da legenda, constituída de tabelas e desenhos facilmente reconhecíveis, de um homem e uma
mulher, para apreensão imediata de que o assunto é sobre as diferenças entre sexos. Se
considerarmos a coluna somente no seu prolongamento, ela segue até o final do comprimento
da página.
Do lado esquerdo, a figuratividade dos números também remete ao /saber fazer/
técnico, explicitando novamente a interlocução do IBGE. O enunciador-jornal coloca no
espaço à esquerda uma bandeira, que parece desenhada à mão livre e lembra um olho. Na
continuação desse desenho, lê-se “Brasil 2000”. Abaixo da bandeira, instala-se um número
em tipos grandes, sem arredondamento (169.544.443), tendo acima a palavra “População” e
na parte de baixo “Habitantes”. O número sem arredondamento gera um efeito de sentido de
multiplicidade, objetividade e exatidão. Na posição em que se encontra, está bem próximo da
extremidade esquerda da foto da manchete.
Na seqüência do número, há um gráfico de linha, que mostra a queda abrupta na taxa
de crescimento da população, reiterando o efeito de sentido de objetividade. Sob esse gráfico,
um outro gráfico em forma de barras na horizontal, põe em relação as proporções da queda no
crescimento em diversas regiões do país.
O acesso ao sentido de toda essa composição sincrética se dá pela grande foto que
ocupa a área central da página e, na foto, pela moldura da TV descartada, em primeiro plano.
A moldura da TV faz as vezes de um focalizador para a interpretação do texto. É
através da moldura que se vê o entulho – em disposição caótica e pontiaguda --, contrastando
com a progressão reiterativa dos gráficos. No meio do entulho, vê-se uma criança, em um
Eideticamente, a moldura da TV pode ser interpretada como um gráfico metaforizado,
dialogando com os gráficos técnicos e estabelecendo relações semânticas opositivas. As retas
superior e inferior da moldura são ascendentes, contraditoriamente à matéria verbal da
manchete e dos gráficos que a sustentam. O que se vê especialmente na reta superior
horizontal é elevação em direção de colisão com a palavra “lento” da manchete.
Se considerarmos as perpendiculares direita e esquerda da moldura de TV, veremos
que reiteram a verticalidade em contraponto com as direções horizontais e descendentes dos
gráficos técnicos. Reconhecemos, no gráfico da moldura da TV, um efeito de sentido de
crescimento constante da condição de miséria, figurativizada pelo entulho e pela criança. Foi
esse o pano de fundo disfórico que o enunciador-jornal selecionou para expressar a
figuratividade dos números do IBGE.
As oposições tímicas notam-se também no verbal. Pelo princípio da pressuposição, a
manchete verbal, da forma como foi construída, poderia gerar uma timia eufórica ou
não-disfórica, se considerarmos que o crescimento populacional acelerado em um país pobre como
o Brasil significaria piora nas condições de vida. Contudo, o sujeito coletivo figurativizado
pela criança encontra-se apático. Na sua proxêmica, expressa imobilismo rompido
parcialmente pelo virar do rosto.
Modalizado pelo /querer ser visto/, ele se volta para o enunciatário-leitor implicando-o
na construção do sentido do enunciado. O flagrante do ator criança no entulho não explicita
seu fazer, pois tem as mãos ocultas. Esse ator não está identificado na legenda, muito embora
URBANIDADE: Lixão da favela Estrutural, a 11 km do Palácio do Planalto;
com mais de 3.000 famílias, é maior invasão de área pública no Distrito Federal, cuja
população foi de 1,6 milhão (1991) a 2 milhões em 2000 Pág. C6
Inevitavelmente, relacionamos opositivamente o habitat do lixão com o do Palácio do Planalto, referido no texto.
No eixo vertical, pelo qual progride o olhar do enunciatário-leitor, é instalada uma
segunda foto, desta vez de um ator jogador de futebol. A foto é menor que a primeira e mais
quadrada. Há uma reiteração eidética dessa forma levando-se em conta a base e laterais dos
braços erguidos do jogador, a estrutura que aparece como pano de fundo (fachada de um
edifício) e quadrados do escudo do time de futebol na camisa de atores secundários,
retomando, inclusive, a forma da moldura de TV. Diz a foto referente ao futebolista:
PRESENTE DE NATAL: O atacante vascaíno Romário celebra o título da
Copa Mercosul conquistado sobre o Palmeiras, em desfile em carro do Corpo de
Bombeiros, no Rio Pág. D6
Observam-se os contrastes de ambientação e estados de alma entre a primeira foto (da
criança), na solidão da obscuridade social, e a segunda, de triunfo e gregarismo, na do jogador
de futebol. Flagrado no momento de júbilo, expresso no rosto e nas mãos erguidas, tronco
A terceira e última foto do eixo de percurso do olhar instala o ator galinha, do filme
“A Fuga das Galinhas”, uma paródia às produções sobre campos de concentração, segundo a
nota do jornal.
Os formantes eidéticos dessa composição contrastam com os das outras duas fotos.
Nesta última, predominam as formas circulares e oblongas (corpo da galinha, olhos, colar,
ponta dos dedos). Dois grandes pés sustentam o volume do corpo e, na axialidade da
construção tríplice das fotos, também o todo verbo-visual dessa primeira página.
Entendemos que o sentido dessa primeira página que deu manchete principal aos
números do IBGE é de nível alegórico, em que predominam intersecções semânticas e de
sentido, por meio das quais o enunciador-jornal transforma habilmente o sentido dos números
3.3.1.2 Edição de 20 de dezembro de 2001
Estatuto dos dados: chamada de destaque, metade inferior da página.
A manchete de uma linha, na horizontal, com foto é sobre a Argentina. A composição
verbo-visual que a segue, em segundo nível de importância, é a relativa aos números do
IBGE.
A chamada dos números diz respeito ao estado da população brasileira, indicando a
existência de um caderno em separado na edição. Nosso procedimento de análise é o de
semiotização da chamada da primeira página e da capa do caderno especial.
Na primeira página, o texto sobre os números aparece com título em três linhas,
ocupando duas colunas. Diz o título:
Mais velho e mais alfabetizado, Brasil continua desigual
Centralizada, a ilustração da matéria verbal dos números é um arranjo verbo-visual
com fotos de bonecos, tabelas e gráficos. Os bonecos visam a qualificar o enunciatário-leitor
para a apreensão visual imediata do sentido do número-figura.
A manchete, no entanto, instala uma timia que transita do não-disfórico (mais velho),
passa pelo eufórico (mais alfabetizado) e termina no disfórico (desigual), ou seja, o
enunciador constrói no verbal um mosaico de direções para a apreensão do sentido do
número, em procedimento oposto ao que tencionou fazer no visual.
A reiteração do “mais” gera um efeito de sentido de processo cumulativo ascendente,
enquanto o “continua” ocorre como processo durativo que já deveria ter regredido ou
acabado. Conseguimos, dessa forma, ter acesso a valores axiológicos do enunciador, que
sancionou negativamente a “desigualdade” expressa no texto.
Os bonecos sem fisionomia são identificados pelos papéis temáticos, como idosos,
crianças, mulheres, responsáveis pelo domicílio. No seu estar no mundo, são apanhados na
estaticidade de uma gestualidade que confirma os papéis simulacrais.
Explora-se nesse conjunto bonecos-números-gráficos uma espacialidade organizada,
de bonecos justapostos, cujas relações não se dão diretamente. Menciona-se como fonte dos
números o IBGE, na extremidade inferior esquerda da ilustração.
Podem-se notar intersecções na somaticidade dos bonecos e na somaticidade dos
atores do enunciado da manchete sobre a Argentina, cuja massa tímica está bem delineada
como disfórica. A legenda da foto sobre a Argentina remete à situação de caos social e a
vicinalidade dos dois enunciados (argentinos - bonecos), ligados pelo eixo semântico do
social, aliada à somaticidade a que nos referimos, mostra a intencionalidade de fazer com que
haja relações de sentido.
Notamos uma coluna larga à direita por onde corre a matéria verbal da manchete. Essa
disposição diagramática coloca num campo contíguo Argentina e Brasil, para que se dê no
eixo do sentido o reconhecimento de um pelo outro, mesmo que antiteticamente.
Nossa semiotização agora é da capa do caderno relativo às estatísticas. A capa do
“Especial Censo 2000” (8 páginas) retoma os bonecos, sem fisionomia, exceto pelo
acréscimo de um, que figurativiza o negro. São igualmente captados na sua proxêmica e
gestualidade, em recriação de uma cena de sociedade, sancionada pela seleção de valores do
enunciador-jornal.
Os bonecos ocupam o centro da página, distribuídos em quatro fileiras na vertical e
“Melhores” (lado esquerdo) e “Piores” (lado direito).
O efeito de sentido de profundidade do arranjo é dado pela colocação sucessiva dessas
fileiras de figuras até a proximidade de um logo quadrado, de fundo escuro e letras grandes
vazadas, na parte superior, em que se lê “Censo 2000”. Censo está escrito em uma linha e
2000 na outra, fazendo com que cada número coincida com uma fileira de bonecos, em efeito
sucessivo de ancoragem dos dados estatísticos. Dois pequenos blocos de texto quadrático
ladeiam o logo, à direita e à esquerda, com uma frase sobre os números, reiterando a busca de
criação de um efeito de objetividade, a despeito da cena imaginária. O IBGE é convocado
metonimicamente para ancorar a matéria verbo-visual (a parte “Censo 2000” pelo todo
instituto).
Embora sem rosto (exceto pelo que figurativiza o negro), a proxêmica e gestualidade
dos bonecos, na multiplicidade de direções de passos e eixos corporais suspensos, como se
fossem marionetes, autoriza-nos a falar em interação eufórica do flagrante social construído
pelo enunciador. Há bonecos relaxados (com as mãos nos bolsos), demonstrando afetividade
(de mãos dadas), realizando atividades. Nenhum está figurativizado no modo da insatisfação.
Entendemos que o jornal construiu esse texto sincrético para que fosse imediatamente
reconhecido pelo olhar do enunciatário-leitor, sem a interferência de noções cognitivas
complexas. Dessa forma, o enunciador-jornal se qualificou perante o Outro quanto à
transmissão de conteúdos via figuras de um mundo que ele mesmo construiu recorrendo ao
imaginário social.
A naturalização dos papéis temáticos é evidente. Assim, os executivos são
apresentados de terno, com pasta ou não, os trabalhadores comuns são figurativizados com
instrumentos de trabalho nas mãos, as mulheres são apresentadas conforme o padrão de
indumentária tradicional, o idoso de bengala, apoiado nos braços de alguém, e as crianças
O jornal também aborda internamente o tema da assimilação racial. O boneco que
figurativiza o negro aparece com feições distintas, vestido como executivo, com um bebê de
colo nos braços, de mãos dadas com a mulher. Essa re-apresentação do negro a partir de um
status social mais elevado foi explorada somente na capa e no visual, sem recuperação verbal nas páginas internas, como pudemos constatar.
O título da matéria verbal contrasta com a direção tímica que foi conferida à
apresentação na capa. Promove também a ruptura com a divisão de quatro colunas na vertical
e quatro na horizontal. Diz o título:
Mais velho, mais feminino, mais alfabetizado
Reiteram-se três vezes o intensificador “mais”, acentuando o sentido de
progressividade cumulativa, qualificando a população mediante os predicados “velho”,
“feminino”, “alfabetizado”. O arranjo das colunas é também ternário. A desigualdade referida
na chamada da primeira página, desaparece como título e passa para o lide da matéria verbal
como “grandes diferenças sociais”.
Entendemos que o enunciador-jornal buscou construir a significação dos números a
partir de intersecções de sentido com valores sociais cristalizados, figurativizados por bonecos
sem fisionomia que, na rede imaginária de relações constituíram um simulacro do viver em