PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA
MARIA ANGÉLICA SOUZA RIBEIRO
M
IDIAGRAMAS:
U
MAA
BORDAGEMD
IAGRAMÁTICA DOSO
BJETOS DAC
OMUNICAÇÃODOUTORADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA
SÃO PAULO
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA
MARIA ANGÉLICA SOUZA RIBEIRO
M
IDIAGRAMAS:
U
MAA
BORDAGEMD
IAGRAMÁTICA DOSO
BJETOS DAC
OMUNICAÇÃODOUTORADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA
Tese apresentada à banca examinadora da
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
como requisito parcial para obtenção do título de
Doutora em Comunicação e Semiótica, sob a
orientação da Profª Drª. Maria Lúcia Santaella
Braga.
SÃO PAULO
BANCA EXAMINADORA
_________________________________ _________________________________
AGRADECIMENTOS
“Por que entrei no restaurante Polidor? Por que, visto que faço esse tipo de perguntas, comprei um livro que provavelmente não iria ler?”. Às perguntas de Cortázar são dedicadas aos meus pais, Sonia Cruz e Gilberto Ribeiro, nunca espantados diante dos meus hábitos de bibliotecária. Meus irmãos, Mariangela e João, os meus axiomas. Maria, Juçara, Patricia, minha intrépida tribo.
Lucia Santaella, pelo (absolutamente) extraordinário da experiência.
Michel Paty, por carregar o sol no bolso e dividi-lo comigo.
Winfried Nöth, pelos generosos apontamentos que antecederam meu embarque para Paris.
Marcelo Santos, um abismo para abismar-me.
Aos professores do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica (COS / PUC – SP), em especial, Leda Tenório da Motta, Ivo Assad Ibri e Norval Baitello Jr.
A Daniel Irrgang e Monika Vrecar por permitir que eu vasculhasse o Vilém Flusser Archiv, sediado na Universidade de Artes de Berlim.
Aos colegas dos grupos de estudos Sociotramas e TransObjetO.
Teté Chorumita, Titi Simas, Lee Baldo, Xu Komatsu, Rodolfo Vianna, Prúno Nepomuceno e Alex Peaudeau.
A Cida Bueno.
RESUMO
Propomos uma introdução à abordagem teórico-diagramática dos objetos da comunicação. Então, uma abordagem teórico-diagramática sugere que
os objetos midiáticos sejam investigados a partir das suas correspondências estruturais com o conjunto de proposições teóricas ideado pelo pesquisador. Do mesmo modo, ao dizermos diagramas (tal
qual signo de predominância icônica) e objetos da comunicação, insistimos sobre a natureza epistemológica da pesquisa. De antemão, deveremos indicar o que há de específico no objeto da comunicação ou sublinhar suas características distintivas quando comparado aos demais
objetos do conhecimento. A pesquisa tem o objetivo de contribuir com os repertórios epistemológico e metodológico dos estudos em Comunicação. Nossa principal hipótese considera a razão diagramática um recurso
teórico acordado com os desdobramentos cognitivos das novas tecnologias; o que – certo sentido – inspira investigações localizadas na
convergência entre os artefatos midiáticos e a racionalidade científica.
ABSTRACT
We propose a theoretical and diagrammatic approach of objects of
communication. Then, a theoretical-diagrammatic approach suggests that media objects are investigated from their structural correspondence with the set of theoretical propositions devised by the researcher. Likewise,
when we refer to diagrams (like a sign of iconic dominance) and objects of communication, we insist on the epistemological nature of the research. Beforehand, we should indicate what is specific in the communication
object or underline their distinctive features when compared to other objects (from psychology, theology, and economics, for example). Then, we need to determine the basis for a semiotics of communication as a
disciplinary field. This research aims to contribute to the repertoires of epistemological and methodological studies in Communication. Our main hypothesis considers the diagrammatic reason as a theoretical resource combined with the cognitive consequences of new technologies. This, in
some sense, have inspired a kind of research located at the convergence of media artifacts and scientific rationality.
LISTA DE FIGURAS
FIGURA 1.Oleo sobre tela do austríaco Stefan Zsaitsists...15
FIGURA 2.Diagrama de Alain Badiou sobre Trajeto de uma Verdade...46
FIGURA 3.Diagrama dos modos do conhecer em Platao...51
FIGURA 4.Demonstracoes graficas do Teorema de Pitagoras...56
FIGURA 5.Humboldtdans sa bibliothèque...76
FIGURA 6.Capa do catalogo da 19ª. Bienal de São Paulo...85
FIGURA 7.Kölner Dom, cidade de Colônia, Alemanha...103
FIGURA 8.Igreja belga criada pelos artistas plásticos Pieterjan Gijs e Arnout Van Vaerenbergh. O título da obra é “Lendo nas entrelinhas”....106
SUMÁRIO
PREFACIO...11
ACERCA DO CEMITERIO EPISTEMOLOGICO...14
VINCULOGRAMAS.UMA ABORDAGEM DIAGRAMATICA DOS OBJETOS DA COMUNICAÇÃO...29
A FALSA ENCRUZILHADA ENTRE CIENCIA E LITERATURA.O MARCENEIRO,O CIENTISTA,O
ESCRITOR...61
ACOISA, A BIBLIOTECA, O CALCULO E O QUARTO
PRINCIPIO...68
“
Será que devíamos tatuar um coração na testa? Todos assim veriam: o coração subiu à cabeça. E como seria um coração azul-marinho, azul-morte, um coração agônico, também poderíamos dizer: a morte subiu à cabeça. Só precisamos transformar em escrita o profundo susto que levamos”.
11
PREFÁCIO
Em algum momento do dia 9 de setembro de 2009, defendemos a
monografia intitulada Outro(s) lugar(es) de enunciação: a emergência do dialogismo em ambientes hipermidiáticos (RIBEIRO, 2009). Na ocasião, a seção dedicada ao “prefácio” foi chamada “prelúdio”, em razão de
pendores musicais. Eu havia encerrado a leitura de A arte de escrever, antologia de ensaios assinados por Arthur Schopenhauer (2009). Ainda sob o efeito narcótico da obra, assisti à transformação das minhas
hipóteses em convicções íntimas. Certa de que a transformação deporia contra o conhecimento sistematizado, tomei para mim ― sob a vigilância afetuosa de Lucia Santaella ― o compromisso de uma notação em
partitura. É possível escutar, ainda hoje, o tema melódico que as nossas páginas reverberam.
O “prelúdio”, relido desde a circunstância criada pelo trabalho que
se segue, reúne preocupações análogas àquelas que incomodam minha atual rotina como pesquisadora. Não são “preocupações análogas”,
simplesmente. São preocupações idênticas. Eis o motivo pelo qual
reproduzimos a abertura escrita cinco anos passados.
Há ideias apresentadas a maneira de portas batidas; há outras
beneficiadas pela conveniência do tempo ― esta condição de existência ora leniente, ora inflexível. Ambas as categorias de lampejos merecem que lhes sejam dirigidas as mesmas porções de afeto. Foram redigidas
12 as linhas. Aqui, uma lição de Schopenhauer. Ali, em 2009, uma lição de Borges e Foucault.
Lá, no primeiro excerto das suas As palavras e as coisas, Foucault
― tão logo encerra a referência àquela taxionomia translumbrada de
Borges1 ― lança-se à seguinte meditação: ‘que coisa, pois, é impossível
pensar, e de que impossibilidade se trata?’. Ainda como que pasmado pela enumeração borgiana, assevera: ‘ o impossível não é a vizinhança
das coisas, é o lugar mesmo onde elas poderiam avizinhar-se’. E tendo auscultado a admiração de Foucault e seu veredicto, em igual medida
admirável, apropriei-me fraudulentamente da dúvida, dedicando muitas horas não à resposta. Mas ao desdobrar infinitesimal da suspeita, até que ela se revelasse, tão somente, um lugar pensável.
1 “Esse texto cita ‘uma certa enciclopédia chinesa’ onde está escrito que ‘os animais se
dividem em: a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) domesticados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães, h) incluídos na presente classificação, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel muito fino de pelo de camelo, l) et cetera, m) que acabam de quebrar a bilha, n) que de longe parecem
14
ACERCA DO CEMITÉRIO EPISTEMOLÓGICO
Passados quase quatro anos desde o início da pesquisa de
doutorado, as hipóteses que orientaram a pesquisa permanecem em estado coreográfico. Ou, para continuar a falar como Barthes (2003:XXII), “uma revoada de mosquitos”. As razões pelas quais o repertório abdutivo2
conserva sua robustez original são inúmeras, muito embora sejam delimitadas por um cinturão bastante preciso. Assim, antes de especificarmos aquilo a que chamamos “cinturão”, retomaremos a série
de pontos listada por ocasião do projeto de pesquisa. Ao recuperamos as especulações de saída, procuramos exibir sua natureza esquemática. Um “esquema” é, certa medida, a anamnese de uma “relação representada”.
Os termos conservados entre aspas merecem breve detenção, ainda que,
de tão breves, sejam ― exclusivamente ― um avanço acanhado. Outros termos serão mencionados já adiante e ao longo, igualmente metidos entre vírgulas suspensas, a fim de apresentar ao leitor nossa caixa de
ferramentas conceitual. E se construiremos nosso próprio conjunto de recursos, eis uma escolha epistemológica.
2“Against these unidirectional models of scientific discovery [os modelos do
conhecimento, em geral, alcançados via indução e/ou dedução], the hermeneutics propose an alternative model of understanding, not unrelated to the alternative which Peirce introduced under the designation of abduction, the method of explaning data on
the basis of assumptions and hypotheses about probable, not yet certain laws” (NÖTH,
15
Figura 1. Óleo sobre tela do austríaco Stefan Zsaitsists.
Pedra de escândalo dos estudos de comunicação no Brasil, a
reflexão epistemológica permanece condicionada àquilo que conjugam uns poucos nomes, no mais, as figuras mitológicas do recenseamento bibliográfico. De acordo com Erick Felinto ([2011] 2014), a querela ao redor do “campo da comunicação” tem mobilizado parte substantiva dos pesquisadores brasileiros da área, sendo “o tom dominante, na maioria
dos trabalhos (...), a necessidade do estabelecimento de um lócus de legitimação essencialmente epistemológico do discurso teórico sobre a comunicação” (ibid.:3, itálicos nossos). O resultado de tal prática é o
breviário de Muniz Sodré (2012:234):
16 agigantamento do campo, com a ideia enganosa de que a comunicação esteja com tudo”.
Incluiríamos, ainda, os arroubos terminológicos3 e a impaciência
para com a ausculta dos objetos; hábitos que só fazem enublar a perspectiva argumentativa. Interessadas em compreender o que pode ser considerada uma particularidade brasileira (FELINTO, ibid.:4),
sustentamos duas hipóteses, ambas orientadas pela série de desdobramentos com origem no “discurso”, esse inescapável4.
Naturalmente, ao dedicarmos quaisquer linhas aos problemas do “campo da comunicação”, esperamos espanar o halo metafísico (ibid.) que
ultrapassa os estudos da área. Se os dispositivos são presumidos (e autores e conceitos e redes teóricas e escolas e constrangimentos institucionais etc.), devemos (re-) conhece-los ao preço de assisti-los
antecipar aquilo que não pensamos por nós mesmos. Dizíamos, então, duas hipóteses, implicadas uma na outra e aliadas à mitificação de um magro conjunto de perspectivas teóricas: a equivocada antítese ciência versus literatura e o discurso científico tornado comentário.
3“Precisamos nos colocar em permanente estado de alerta contra a fixação de palavras
ou conceitos, de modo que entendamos ‘comunicação’, ‘mídia’ e outros correlatos como construtos em processo de contínua reconfiguração histórico-cultural” (FELINTO [2011] 2014). Ver também Santaella, ([2007a]2014) e Felinto, ([2005]2014).
4O prognóstico é de Wolfgang Ernst (1959-): “So far in the Western culture, narrative has
17 Aqui nossa carta náutica, desenhada quatro anos passados.
O objeto consistia na condição de possibilidade para uma “semiótica da comunicação”. A fim de concluir pela circunscrição de um
domínio disciplinar, consideramos a “razão diagramática” um recurso teórico oportuno para a observância de fenômenos midiáticos, ditos “objetos da comunicação”. Como investigar e tornar inteligíveis temas tal
qual a ubiquidade tecnológica, por exemplo, sem perder a espessura da sua complexidade? Nossos argumentos andavam, como ainda hoje, comprometidos com o debate epistemológico: o que é, com o que se ocupa e de que modo a comunicação dá nome aos fenômenos contra os
quais esbarra?
Do meu caderno de registros recupero os seguintes apontamentos iniciais: “o texto científico como técnica, se por ‘técnica’ o sentido histórico do termo”. E linhas abaixo: “que me ensinam as novas tecnologias sobre
o meu ofício, sobre a minha prática?”. Os antigos não estabeleceram diferença entre “arte e técnica: tanto assim que a palavra latina ars é a tradução da palavra grega téchne” (CHAUÍ, 1994:106). A sociedade greco-romana entendeu que arte e técnica eram atividades ocupadas com
o artefato, com a produção de objetos ou obras não encontrados na natureza. “Agricultura, arquitetura, pintura, literatura, medicina, oratória,
18 óculos, por exemplo, determinam a natureza, a qualidade daquilo que vejo. Não são extensões, como daria a ver certa noção centro-periférica, mas minha nova co-substância. Quando visto meus óculos, altero o
entorno, a ambiência antropológica onde estou inscrita. Em McLuhan (1972:15), “qualquer nova tecnologia de transporte ou comunicação tende a criar seu respectivo meio ambiente humano”. Tenhamos isto conosco.
Diagramas representam relações necessárias e inteligíveis entre
signo e objeto. Logo, dizemos que sua observação direta não aponta para coisas definitivas, holográficas, de anterioridade ontológica à relação que
estabelecem com o sujeito. Não recorre ao estacionário de uma fictícia ordem natural, “ao cálculo individual” (BADIOU, 1994:13) — assim
funcionam as coisas para mim e todas as demais similares assim
funcionarão. São hipoícones os diagramas, via distinta e com Charles Sanders Peirce, cuja realização é o próprio registro.
Quando dizíamos “objetos da comunicação”, de antemão, insistíamos sobre uma especificidade: não qualquer “ob-jectum, aquilo que está posto, que é dado ou lançado para e diante de um sujeito na
relação de conhecimento” (GIACOIA JUNIOR, 2006:134); mas aquele “da comunicação”. Objetos da comunicação foram considerados, sobremaneira, objetos da experiência – o que dizia sobre eles uma
19 inventada. Dizemos "inventada" a maneira de Eric Hobsbawn, na introdução do livro A invenção das tradições (1984). A "tradição inventada" é "um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras
tácita ou abertamente aceitas" e cuja insistência determina sua pertença histórica; é a repetição que prescreve sua continuidade.
Mas as notícias davam conta de que o “objeto” havia sido seqüestrado por “disciplinas vizinhas”. Diziam, é preciso “favorecer ações de desentranhamento” e, sobretudo, “distinguir os aspectos mais característicos do que possa ser considerado ‘fenômeno comunicacional’ em meio a modulações sociais, políticas, educacionais, estéticas, etc”
(BRAGA, [2011]2014). Todo o dito não subtrai o caráter legítimo do debate. Aponta para a preocupação, talvez de uns poucos, com tamanha
relevância endereçada à conjecturada penhora do objeto. Meanwhile, tantas desimportâncias despejadas aos tonéis nas bibliotecas das universidades, conforme nota de Maria Immacolata Vassallo de Lopes
durante o VI Seminário da ALAIC (Associação Latinoamericana de Investigadores da Comunicação), ocorrido em 2011.
Longe de criar um nó górdio, a convergência pressuposta em “semiótica da comunicação” desejou a apreciação um lugar teórico. Do
lugar teórico de onde falamos, não há concorrência entre a ação do signo
e aquela do objeto da comunicação. Será nossa única aula semiótica. “Um mero pressentimento [presentment] pode ser um signo”, indicou
20 16 de outubro de 2013, Fernando Zalamea proferiu conferência dedicada às representações triádicas em Peirce. A audiência da Université Paris Diderot – Paris 7 foi alertada para a pândega envolvendo a sistematização
dos manuscritos deixados pelo autor e, ao aviso, seguiu-se a enumeração das tentativas de organização das páginas ― desde a do prêmio Nobel Bertrand Russell (1872-1970) até o mais recente projeto de edição, capitaneado pelo Departamento de Filosofia da Universidade de Harvard.
Nathan Houser ([1989] 1992, 2013), entretanto, recupera evento ainda mais distante no tempo. Josiah Royce, eminente filósofo americano e professor em Harvard, endereçou carta efusiva ao colega Wendell T.
Bush, professor da Universidade de Columbia e editor do Journal of Philosophy. Em 4 de janeiro de 1915, cerca de nove meses passados
desde a morte de Peirce, Royce escreveu:
“We have just received at Harvard the extant logical manuscripts of Charles S. Peirce, a gift from his widow, and, as I hope, a real prize. I look forward to some arrangement for editing them. They are certainly fragmentary but also certainly inclusive of some valuable
monuments of his unique and capricious genius” (ibid.).
Dois outros excertos, igualmente recuperados por Houser,
explicam as razões pelas quais o estado de ânimo de Royce tenderia a uma drástica mudança. W. Fergus Kernan, estudante de graduação e aluno de Royce, foi destacado para trabalhar na edição dos manuscritos.
21 “No one except me had made any careful exploration of the manuscripts or had even the faintest idea of the inconceivable textual confusion that prevailed in those piles of yellowed and dog-earred pages that had reposed so long undisturbed by any other hands than mine. A first lecture (of the Lowell Lectures on Pragmatism) would be found, for example, at the top of one group of manuscripts prominently located on the right edge of Royce's long study table. Then three piles further on (and two days later) one would discover Lecture no.2 firmly
wedged between a lengthy dissertation on "The Doctrine of Chances" with pages unnumbered and a small, and
intensely interesting, treatise ‘On the Prospect of Air
-Sailing’".
E já o próprio Peirce parecia ciente da árdua tarefa implicada na reunião dos seus escritos, especialmente, os apontamentos sobre lógica: “I must tell you that all that you can find in print of my work on logic are
simply scattered outcroppings here and there of a rich vein which remains
unpublished. Most of it I suppose has been written down; but no human being could ever put together the fragments. I could not myself do so”
(ibid.). Haverá, nos tais “afloramentos esparsos”, possibilidades heurísticas inéditas? Ou, dito de outra maneira, há qualquer coisa que devamos descobrir existente sob a história do conhecimento científico como ordem de ocorrência fática ou cronologia preditiva? Parece
evidente, de antemão, que o empreendimento ― cuja enormidade pode ser conjeturada quando consideradas ambas as perguntas ― tem a aparência de um cemitério de dragões. Linhas gerais, sugere buscarmos algo que não enxergamos; um “estatuto autônomo” da ciência, a partir
22 Santaella (2005:42) considerou “mais completa” a seguinte definição de signo, constante dos The Collected Papers. E com ela seguimos:
“um signo intenta representar, em parte, pelo menos, um objeto que é, portanto, num certo sentido, a causa ou determinante do signo, mesmo que o signo represente o objeto falsamente. Mas dizer que ele representa seu objeto implica que ele afete uma mente de tal modo que, de certa maneira, determina, naquela mente, algo que é mediatamente devido ao objeto. Essa determinação da qual a causa imediata ou determinante é o signo e da qual a causa mediada é o objeto pode ser chamada interpretante”(PEIRCE apud SANTAELLA, ibid.).
O signo é uma tríade, o entretecimento de três indissociáveis: (1) fundamento, (2) objeto e (3) interpretante. E um interpretante — ou “causa
imediata” — é sempre, de modo necessário, diverso do fundamento do signo, sua propriedade, caráter ou aspecto (SANTAELLA, ibid.). De modo
que a “ação do signo”, a semiose, é a determinação da alteridade ou “outridade”, como prefere Augusto Ponzio (SANTAELLA&NÖTH,
2009:33). A existência é, antes, “díada”, “dois sujeitos colocados em unidade”, “segundo”,“ação bruta” (PEIRCE, 2005). Comunicação, mesmo
modo, implica naquilo que nos obriga à pura experiência binária, ao encontro com uma oferta de “resistência”, “sentido de esforço” (ibid.) — o mundo não é o que experimentamos, mas o que somos obrigados a experimentar; e, então, a representação, “terceiro”, “generalidade”, “in
23 ontológicas e epistemológicas. Portanto, onde estiver escrito “objeto da comunicação” leremos “signo”.
Um exemplo que deverá retornar em outra seção da tese. “Quando o Rei Pirro entrou na Itália, e verificou a formação de combate do exército romano, disse: ‘Não sei que espécie de bárbaros são estes (pois os
gregos assim chamavam todas as nações estrangeiras), mas a formação de combate, que os vejo realizar, nada tem de bárbaro’”. O que nos conta Montaigne (1978:100), nas últimas décadas do século XVI, antecipa o imbróglio. A insistência da ficção de campo (do conhecimento),
entorpecida pela procura de proposições transparentes ao fenômeno, haverá de minguar já nas primeiras linhas da nossa primeira parte. Seu programa teleológico prevê o abrandamento do choque, do conflito, com
vistas à prevalência do significado como aquilo que é imediatamente evidente ou evidente para “(...) um pensamento exterior ao próprio pensamento” (BADIOU, ibid.:15). Via inversa, a imanência do conceito é
sua natureza vetorial, de suporte. A imanência é o que está no campo (da
experiência, único fator corretivo do pensamento). Ocupado com os elementos inscritos em determinado modo de existência, o discurso é
senão o revés de forças isoladas ou de forças que não podem ser amansadas. “Rimbaud utiliza a expressão às revoltas lógicas’. O desejo da filosofia contém isto: uma revolta lógica” (ibid.:11). Considera
materialidade e imaterialidade5 como co-substâncias, considera todo o
5 Aqui tomadas as categorias como formas gerais de predicação, muito embora,
24 dito uma grande “aposta, o gosto pelo encontro e pelo acaso, o engajamento e o risco”(ibid.:12).
Não se trata, simplesmente, de livrar de impurezas a linguagem: um fenômeno é um fenômeno; apenas teorias são verdadeiras ou falsas. O registro alfabético, discurso verbal escrito de certas características de
um objeto, atravessa, invariavelmente, o encadeamento lógico de signos arbitrários. Determina, por sua vez, um espaço de memória (repertório) e previsão (heurística). A razão diagramática amplia as dimensões daqueles espaços, na medida em que opera com possibilidades
predicativas. O número de possibilidades corresponderia ao modo como as premissas são articuladas num texto científico. Consequentemente, às alterações nos processos de abordagem e registro do fenômeno
midiático, corresponderiam mudanças quanto à inteligibilidade do objeto. Ambientes hipermidiáticos, geotags, realidade aumentada, wireless, mobile games, computadores vestíveis e recentes experiências
tecnológicas instauram julgamentos percepitivos inauditos. Significa dizer que à multiplicidade irredutível dos efeitos do medium estão correlacionados não um, mas incontáveis modos de descrição de
hipóteses que, observadas e comprovadas empiricamente, são organizadas por meio de equações conceituais. A razão diagramática examina o estado de coisas e subordina seu programa de objetividade às possibilidades interpretativas prefiguradas no e pelo fenômeno. A
25 Não havendo separação entre sujeito-objeto, o acontecimento comunicativo é o hífen: a atadura fenomenológica. A fenomenologia, que na construtura peirceana está localizada entre a matemática e as ciências
normativas, alcançou pouca publicidade entre os estudiosos de Peirce (DE TIENNE, 2004). Fato muitíssimo curioso, aliás, quando (1) a “quase ciência está na base de todo o seu edifício filosófico” (SANTAELLA,
2004:30) e (2):
“(...) todo fenômeno de nossa vida mental é mais ou menos como a cognição. Toda emoção, toda explosão de paixão, todo exercício da vontade é como a cognição. Mas modificações da consciência que são semelhantes possuem algum elemento comum. A cognição, portanto, nada tem, em si, de distinto, e não pode ser considerada uma faculdade fundamental. Entretanto, se nos perguntássemos se não existiria um elemento na cognição que não é nem sentimento, sensação ou atividade, descobriremos que algo existe, a faculdade de aprendizado, de aquisição, memória e inferência, síntese. (...) debruçando-nos mais uma vez sobre a atividade, observamos que a única consciência que dela temos é o sentido de resistência. Temos consciência de atingir ou de sermos atingidos, de nos depararmos com um fato (PEIRCE, ibid.:14).
O “fenômeno” como espécie de “cognição” é assunto relevante. E é
a fenomenologia, do seu absoluto elementar, quem determina as condições para a experiência como acontecimento. Cumpre considerar
que, do lugar onde nos colocamos, noções como “veículo”, “emissão”, “transporte” ou “troca” serão deixadas de esquina. Um “veículo” é um
26 todo caso, um encadeamento hierárquico e logocêntrico. Um objeto, um sujeito, um fait accompli é perturbado, mexido, agitado. A passagem do seu estado A para B está, de modo necessário e acauteladamente,
presciente. Há o repouso e a excitação, partida e chegada. São posições de sentido. (Sentido!) E posições não dependentes do objeto, sujeito ou fato. “Transportar” implica o deslocamento espaço-temporal. O transporte,
tal como aparece nos estudos dedicados a matéria, não prevê
interceptação, corte, a “decriptagem de um sentido ou de uma verdade” (DERRIDA, 1991:372). Não remete ao outro, a coisa alguma fora do ato: o deslocamento, apenas.
O professor Michel Paty veio-me em 2011, por ocasião da disciplina Perspectivas Epistemológicas e Filosóficas do Conhecimento Científico, oferecida pelo Instituto de Eletrotécnica e Energida (IEE) da
Universidade de São Paulo (USP). Como aluna especial, participei das atividades previstas, tendo apresentado um seminário dedicado a
natureza do objeto da ciência. Inquietava-me, sobremodo, como, de que maneira específica, eram criados os novos conceitos. Se, por um lado,
ocupamo-nos com o recenseamento de autores ratificados e, por outro,
habituamo-nos a supor os mesmos desdobramentos críticos, como, de que maneira específica, são articulados os novos complexos conceituais?
Durante o seminário, interessada nos tipos de raciocínios kantianos, disse qualquer coisa como: “Nicolau Copérnico é comumente
27 recomendou-me, então, a investigação da expressão “revolução copernicana”, autoempregada por Immanuel Kant quando da sua Crítica da Razão Pura. O ponto nodal: a reordenação copernicana do espaço
cósmico foi tão determinante para a astronomia quanto o sistema crítico kantiano para o pensamento ocidental.
Tendo lido Bachelard, a quem considerou “topófilo” e mensageiro extemporâneo de Platão, Peter Sloterdijk ([1998]2004:9) depositou nas livrarias, o primeiro volume da trilogia Sphären (Esferas), de subtítulo Bolhas (Microesferologia) e prólogo de Rüdiger Safranski. Preceptoral,
Safranski esclareceu: “Esferas diz, então, o título desta obra em três volumes. Uma filosofia não é original, apenas, quando emprega novos conceitos, mas também quando descobre algo de surpreendentemente significativo em expressões bem conhecidas”. Zygmund Bauman liquefez
a modernidade no último século XX. Escreveu (apud SANTAELLA, 2007:14): “os líquidos se movem facilmente. Eles fluem, escorrem,
esvaem-se, respigam, transbordam, vazam, inundam, borrifam, pingam, são filtrados, destilados; diferentemente dos sólidos, não são facilmente contidos (...)”. Em 2006, Žižek (2008) lançou sua A visão em paralaxe e explicou: “a definição padrão de paralaxe é o deslocamento aparente de
um objeto (mudança de sua posição em relação ao fundo) causado pela mudança do ponto de observação que permite nova linha de visão”
(ŽIŽEK, 2008:32). E, tendo lido Hegel, afirmou: “uma mudança ‘epistemológica’ do ponto de vista do sujeito sempre reflete a mudança ‘ontológica’do próprio objeto” (ibid.). Era setembro de 2009, quando
28 Heidegger e McLuhan, dedicou sua obra à própria geração, “órfã de céu e terra”, para mais tarde concluir:
“(...) a cada revolução, a introdução de novos
instrumentos e de novas técnicas, além de originar novas formas de percepção, modificando a visão e a compreensão do ambiente, ao mesmo tempo, instauravam novas dinâmicas de interação com o território, gerando novas dinâmicas habitativas” (DI FELICE, 2009:66).
Às muitísimo breves apresentações de Sloterdijk, Bauman, Žižek e
Di Felice, correspoderam 3 problemas fundamentais:
1. É possível considerar certos conceitos (esferas, líquidos e habitar, por exemplo) como articulações teóricas diagramáticas?
2. A noção peirceana de diagrama, quando empregada na investigação de objetos da comunicação, pode colaborar com a delimitação de uma
semiótica da comunicação?
3. De que modo a razão diagramática favorece a interpretação crítica de fenômenos midiáticos?
Montaigne (2010:60), citando Sêneca, dá-nos a deixa: “transcurramus solertíssimas nugas6”.
29
VINCULOGRAMAS: UMA ABORDAGEM DIAGRAMÁTICA
DOS OBJETOS DA COMUNICAÇÃO
(U
MAI
NTRODUÇÃO)
“As ideias novas provêm do deserto, dos anacoretas, dos solitários, daqueles que se
retiram e que não estão mergulhados no ruído e furor da discussão, repetitiva”.
Michel Serres em Luzes: cinco entrevistas com Bruno Latour
O título designado no cume da página não é o mesmo que o indicado na capa. Naquele lugar, antecedem os dois pontos o termo “Midiagramas”. Arthur Schopenhauer, no que pode ser considerado seu breve curso sobre o ofício da escrita, ensina: “(...) o título deve ser
significativo e, como é constitutivamente curto, deve ser conciso, lacônico,
expressivo, se possível um monograma do conteúdo”
(SCHOPENHAUER, 2009:62). Se ignoramos o maior quinhão das suas
lições, será preciso reconhecer o empenho para reunir ― sob o abrigo de um único termo ―as lições que nos são próprias. Assim, “midiagramas” e “vinculogramas” serão denominadas noções comutáveis e a dupla
menção, nesta introdução, atenderá àquilo que é o substrato de ambas: a abertura dialógica ― ou, de maneira bastante honesta, certa disposição para ser abalroado pelas coisas do mundo. Disposição anterior à redação
que dirige loas aos últimos cânones, às leituras entretidas com o comentário7― “quando Fulano escreveu tal, quis dizer tal² ou tal-1 ou +/-
7“A regra, em toda parte do mundo, é a corja de pessoas infames que estão sempre
30 tal”, à catalogação das genealogias com vistas ao diagnóstico do
fenômeno e sua propulsão ad infinitum ― “x remete a y e, sem demora, pode ser chamado pós-z” ―, à subserviência aos livros em cujas páginas
encontramos o que será chamado de “programa8”.
Devemos parte das observações acima a Hans Ulrich Gumbrecht e seu Modernização dos Sentidos. Gumbrecht (1998) ― dispensando-se da
apresentação da sua coleção de ensaios ― conduz seus apontamentos em direção à maneira como lidamos com a alteridade histórica; desde a prensa de Gutemberg ― “(...) o descobrimento da América teria sido possível sem a invenção e a institucionalização da imprensa?” (ibid.:111)
―, atravessando o regime semiótico das festas revolucionárias
celebradas em Paris ― “se, por um lado, o imaginário pode tomar na ficção uma forma expressiva, por outro lado, aquele ‘autodesnudamento’
da ficção (...) deve cumprir a função de distinguir da utilização cotidiana a utilização ficcional de signos linguísticos ou icônicos” (ibid.:143) ―, até
ibid.:59). Há outro trecho, também esclarecedor, desta feita em Honoré de Balzac
(2004:96): “este crítico pouco fecundo [o universitário] pega um livro, o lê, o estuda,
percebe o pensamento do autor, examina-o sob a tripla relação da ideia, da execução e do estilo. Ao fim de um mês, põe-se a escrever seus três artigos, analisando previamente sua própria obra. (...) Refugiado nas alturas do quartier Latin, nas profundezas de uma biblioteca, este velho viu tantas coisas que não se preocupa em
olhar o tempo presente”.
8O termo é empregado conforme a definição de Vilém Flusser. Na sua “Filosofia da
Caixa Preta” ([1985]2014:15), o programa é o conjunto de “superfícies simbólicas”
previamente determinadas. No caso do aparelho fotográfico, o programa reúne “a soma
de todas as fotografias fotografáveis por este aparelho” (ibid.). Cabe ao funcionário a
tentativa de exceder as possibilidades inscritas, muito embora, a exemplo de um
programa “rico”, a superação seja irrealizável. Do ponto de vista que nos é de interesse,
o da ciência, escreve Flusser (2007:28): “(...) as formas não são descobertas nem
invenções, não são ideias platônicas nem ficções; são recipientes construídos
31 culminar com o que nos é de particular interesse: um modelo de representação das coisas de frequência sistemática nas pesquisas acadêmicas ― com protagonismo para os trabalhos brasileiros ―
devotadas aos objetos da comunicação. Lá, o tempo é um manuseador de marionetes, um contabilista ou um rearranjador episódico. No primeiro caso, parece empenhado em fazer-nos saltar de um “bios 4” para o “bios 5S”9. No segundo, obriga-nos ao cômputo daquilo que alcançamos com
os olhos, confundindo “a realidade midiática com a realidade sócio -histórica” e inaugurando o que Muniz Sodré (2002:233) chama “midiacentrismo” ― as diversas representações de donas de casa em
capas de revistas portuguesas, a discursiva da nouvelle cuisine: uma análise em seis pratos e outras surpreendentes minúcias10. A figura do
escrevinhador desenhada por Balzac (2004:31) nunca foi tão oportuna: “de generalizador sublime, de profeta, de pastor das ideias que era
outrora, o Publicista é agora um homem ocupado com os compassos flutuantes da Atualidade”. Por fim, certa visão mecanicista, cuja tarefa é
fazer encaixar os fenômenos numa sequência histórica linear, conforme observa Gumbrecht (1998:23).
9Erick Felinto (2005:7-8) chama “imaginário tecnológico” ao “conjunto de representações
sociais e fantasias compartilhadas que informam nossas concepções sobre as tecnologias. (...) Esse princípio parece ser bastante evidente no campo de estudos
daquilo que se convencionou chamar ‘cibercultura’ ― uma forma de cultura na qual as
novas tecnologias de informação e comunicação desempenham papel central”.
10Sodré (ibid.:37) não se ocupou do imbróglio na sua Antropológica do Espelho, muito
embora tenhamos esbarrado em um excerto que nos esclarece o ponto de maneira
32 “Pelo menos, no nível da epistemologia, é possível alegar que o equivalente de um fluxo temporal mais vagaroso e de um presente mais dilatado é uma mudança de hábito ― moderno ― de organizar as múltiplas representações de fenômenos idênticos como evoluções históricas para o hábito ― pós-moderno ― de trata-las como variações que estão simultaneamente disponíveis. (...) Num movimento similar, a história está sendo mudada da concatenação narrativa de períodos diferentes de tempo para aquilo que os eruditos europeus denominam
‘antropologia histórica’, ou seja, a reconstrução de um
vasto leque de modelos possíveis que podem moldar e
organizar a vida humana”.
Aqui, neste agora, o tempo é o caldo primordial, um preparado de
possibilidades pretéritas, futuras e presentes, capaz de sugerir modos de abalroamento contra as coisas que nos oferecem resistência e, por isso mesmo, capturam nossa atenção. Ou, para falarmos como Alain Badiou (2007:11) e no período de cem anos, “o século é o lugar de
acontecimentos tão apocalípticos, tão apavorantes, que a única categoria com que seja apropriado pronunciar sua unidade é a de crime”. De fato,
iniciamos nossas reflexões com a seção “Acerca do cemitério epistemológico”, contando os mortos, os pensamentos silenciados11 por
perspectivas totalitaristas ― o número de páginas, de artigos científicos
publicados, a classificação de periódicos, o desempenho quantitativo, a inflação de dados ― instauradas no núcleo da prática acadêmica. Para tanto, e de novo como Badiou (ibid.:17), “utilizamos método de máxima interioridade”. Daí os eventuais acentos teatrais e a (pretendida)
linguagem que, por vezes, quer sobre-exceder os constrangimentos da linha e comungar com a “loucura da descrição” (BARTHES, 2008:34).
11Avisadamente, escreve Julio Cortázar (2006:8): “o silêncio é uma cabine de
33 Julgamos conveniente uma breve digressão e cujo valor é, senão, a exibição de um duplo avesso das coisas: abrandar o ânimo daquele que
se vê melindrado diante das notas sobre a prática da ciência e da
pesquisa e reconhecer nosso próprio percurso pelos corredores da academia. “Ciência” e “pesquisa” considerados termos correlatos; dado
que um exercício de distinção nos arremessaria de volta ao ponto de partida, sem que nada de notável pudesse ser dito. Aos que viram seus
objetos projetados para dentro do círculo crítico pronunciado parágrafos acima, uma observação de cunho epistemológico. Em consonância com o que escreve Slavoj Žižek (2008:24), sobre a “experiência acadêmica cotidiana”, passamos ao largo do que poderá ser tomado como um insulto
despropositado ou o desabono de abordagens diversas das nossas. O “encarregado dos elogios”, distraído com a edificação da crítica em uma “loja de leite puro”, nada pode com aquilo que desconhece; a não ser, e
para sermos transigentes, reunir os seus confrades em torno das suas
“tartines ázimas” (BALZAC, 2004:100). Pesquisamos por
desconhecermos algo, a coisa, daí a necessidade de engavetarmos o incensório e a bonomia em nome da mínima diferença entre as nossas convicções íntimas ― transformadas em hipóteses e em tudo mais o que prescrevem os manuais de metodologia científica ― e o descer da caneta
sobre o papel.
No ano de 2009, defendemos a monografia intitulada Outro(s) lugar(es) de enunciação: a emergência do dialogismo em ambientes hipermidiáticos. Em 2014, apresentamos estes Midiagramas: uma
34 cinco anos, assistimos à transição do “midiacentrismo”12 ― assoberbado
pela performance da autorreferência e crédulo nas maravilhas sugeridas pela digitalização de nexos associativos ou “módulos de informação”
(SANTAELLA, 2007:85) não-lineares ― para os “midiagramas”, nossa aventura epistemológica. Não nos concentraremos na ossatura, nos pormenores técnicos da figura conceitual estampada na capa. Ela será apresentada como nos veio: um pensamento forçado a falar, construído
sobre as bases daquilo que conhecemos e comprometido com o que nos foge.
Pois, recobremos um assunto anterior. Pound (2009:90) reafirma Gumbrtecht. O “vasto leque de modelos possíveis que podem moldar e organizar a vida humana” deve sua circunstância de surgimento e
invenção à experiência radical. É também nossa a opinião de Badiou (apud ŽIŽEK, 2011:70): “mieux vaut un desastre qu’um désêtre”,
“(...) isto é, mais vale correr o risco e engajar-se em fidelidade num Evento-Verdade, mesmo que essa fidelidade termine em catástrofe, do que vegetar na sobrevivência hedonista-utilitária sem eventos daqueles
que Nietzsche chamou ‘últimos homens’” (ŽIŽEK, 2012:16).
12Ver o esclarecedor artigo de Santaella (2007), As linguagens como antítodos ao
midiacentrismo.Santaella atenta para o que há de específico nos termos “midiatização”,
35 Do campo aberto onde nos colocamos, não enxergamos alternativa13. “Os homens não chegam a compreender os livros enquanto
não chegam a ter certa dose de experiência de vida. Ou, de qualquer
modo, homem algum consegue compreender um livro profundo enquanto não tenha visto e vivido pelo menos parte do seu conteúdo”. Todavia, o “estar-no-mundo” de marceneiros, cientistas e escritores, por exemplo, e
como veremos, é aquilatado desde o lugar hierárquico para onde cada
qual é ― cultural e historicamente ― exilado. O paradeiro das três figuras pode ser localizado no dentro das molduras com as quais nos habituamos; nos dicionários, enciclopédias, almanaques, programas de
TV, nos quadros-negros pendurados em salas de aula, nas revistas, no diálogo entabulado nas esquinas, nos anuários científicos. Que imaginemos os espaços, os instrumentos e os “para que serve”
associados àqueles personagens e ― num átimo ― reconheceremos o embotamento da nossa própria capacidade fabulatória. Principiamos nós. Um marceneiro, um martelo, uma oficina, construir objetos em madeira.
Um cientista, um tubo de ensaio, um laboratório, desvelar ― com a precisão técnica do discurso iluminado ― a verdade sobre as coisas que não conhecemos. Um escritor, uma Olivetti, um gabinete de leitura, a
desconversa metafísica.
Mas deve haver algo que nos permita ― para fora da “universalidade da interpretação” (JASMIN in: GUMBRECHT, 2010:11),
13“E, no entanto, não há nada a fazer: a troca recupera tudo, aclimatando o que parece
36 do costume hermenêutico ordinariamente atribuído às Humanidades (ibid.:8) ― experimentar o admirável mundo material. Deve haver algo que nos dê a ver ― para além do regime escópico14 ao qual estamos
submetidos ― aquilo que não foi previsto por “protocolos de leitura”; manifestadamente e por sua vez, tributários de um “protocolo de escrita”.
O algo a que nos referimos é a coisa, a res extensa que ― desde Descartes e antes e ainda ― tantas brochuras custou à filosofia. É
indispensável deixar como registro que não nos arrogamos uma cruzada anti- ou contra-hermenêutica. Nosso trabalho, como se viu no prefácio, é o de responder ao chamado do que ― como quiserem ― tem (ainda hoje)
a natureza de uma intuição.
Com a coisa e na primeira seção da tese, damos início às nossas
reflexões. Para a tarefa, convocamos Martin Heidegger, Vilém Flusser; além de autores “das cercanias” que fizeram sua atenção orbitar em torno do tema. À simples vista, recomendaríamos especial atenção para as coisas que dispensam um inventário contável. Não são as coisas um
conjunto de descredenciados à espera de uma concessão que os permita circular nas salas de conferências das universidades. As coisas são objetos que deixam de existir quando arrastadas para fora das suas “modalidades históricas”, quando julgadas ― simultaneamente ―
universais e de conduta regular, (CHARTIER, 1988:78-90), quando
tratadas meros efeitos de sentido.
14“Vison is what the human eye is physiologically capable of seeing (...). Visuality, on the
other hand, refers to way in which vision is constructed in various ways: ‘how we see,
how we are able, allowed, or made to see, and how we see this seeing and the unseeing
therein’ (...). Another phrase with very similar connotations to visuality is scopic regime. Both terms refer to the ways in which both what is seen and how it is seen are culturally
37 “Depois de Foucault, torna-se claro, com efeito, que não
se podem considerar esses ‘objectos intelectuais’ [a
loucura, a medicina, o Estado etc.] como ‘objectos
naturais’, em que apenas mudariam as modalidades
históricas de existência. (...) Por detrás da permanência enganadora de um vocabulário que é o nosso, é necessário reconhecer, não objectos, mas objetivações que constroem de cada vez uma forma original” (CHARTIER, 1988:65).
Daí apresentarmos uma quadratura15, muito remotamente inspirada
em Heidegger: a coisa, a biblioteca, o cálculo e o “quarto princípio” ―
assim chamado por ter-nos aparecido num espasmo.
Há um programa também para os preliminares, o que é evidente. Começaremos com a definição dos “vinculogramas” e dos “midiagramas”
até encerrarmos com a exibição da sinonímia.
“Vinculogramas” é um neologismo formado pelo substantivo “vínculo” e o elemento de composição “-grama”. O último, isoladamente, quer dizer “letra”, “sinal”, “texto”, “registro” (AULETE, 2014). Assim, nossos “vinculogramas” aludem à “inscrição do vínculo”, à dada cultura
gráfica do “estar atado”, do pôr em relação. Se tudo escrevemos. Se tudo lemos. Se a prática da pesquisa parece consoante com aquela do exceder a coisa por meio do inventário que dela fazemos, como, de que modo específico podemos encorajar a razão avant la lettre?
15De acordo com Graham Harman (2002), a quadratura (Terra, Céu, Mortais, Divino) não
se refere aos quatro tipos de entidades ou a um “catálogo ôntico”, assim, “Terra=
38 Provisoriamente, e a contrapelo, um rompimento com a letra e com a estrutura lógica que lhe dá sentido. Um rompimento temporário e, certo modo, com vistas a uma nova aglutinação16. Segue-se que, daqui por
diante, subtrairemos as aspas para denomina-los ― os “vinculogramas” e os “midigramas” ― conceitos existentes e de importância capital para as
nossas reflexões ulteriores. A fim de zelar pelo melhor encaminhamento, assumiremos o termo midiagramas; supondo que o seu correlato
permanecerá em constante ― para não dizer insistente e forçosa ― remissão. Midiagramas e vinculogramas. Como Bouvard e Pécuchet17.
Os vínculos, dizíamos, vieram-nos desde a leitura da concisa De los vínculos en general, escrita pelo filósofo italiano Giordano Bruno.
Antes, no tratado de nome Candelaio e publicado em latim no ano de
1582, Bruno descreveu-se de maneira pouco indulgente, o que deverá ser considerado indulgente o bastante18: “(...) esquivo como um velho de
oitenta anos, lunático como um cão que foi esfolado mil vezes, como
16Muito mais tarde do que o recomendado nos manuais de metodologia de pesquisa,
esbarramos na obra Produção de Presença, de Hans Ulrich Gumbrecht (2010). As
“afinidades” são tantas que nossos apontamentos devem ser considerados uma sucursal daqueles.
17
Bouvard e Pécuchet dá nome ao romance inacabado de Gustav Flaubert, publicado
postumamente. Além do que há de explícito na referência, lembramos trecho de Žižek
(2006:127) que, ao comentar a obra O efeito do Real, de Roland Barthes, observa: “(...) Barthes referiu-se a escritores como Flaubert, que mencionavam toda uma série de detalhes supérfluos não funcionais em sua descrição de um aposento, e a ideia é que
esses detalhes produziam um efeito do Real”. De que maneira os “efeitos do Real” ―
que nos fizeram remeter às ambiências de Gumbrecht (apud FELINTO, [2012]2014:4-5)
― poderiam tomar o cargo dos “efeitos de sentido”?
18Se levadas em conta as descrições que aparecem em Cena, parte da sua “filosofia da
natureza”: “a publicação de Cena provocou as primeiras fortes dilacerações, não
somente por causa dos ataques aos teólogos de Oxford (‘em muitos doutores desta
pátria, com os quais ele discutiu questões acadêmicas, encontrou em seu modo bovino de proceder mais grosseria do que pudesse desejar’), mas também por causa das duras
39 quem se alimenta de cebolas” (BRUNO apud ORDINE, 2006:31). Nuccio Ordine, experto em Bruno e no milieu da Renascença, alertou para o trompe-l'œil: “(...) é preciso desconfiar do invólucro para encontrar aquilo que se procura”. E continua:
“a técnica da reversão [Bruno vestia-se como um
‘histrião’, apesar do seu projeto filosófico] inverte os
pontos de vista, liberta os conceitos das séries de uma lógica velha, impõe uma nova dialética entre intus e extra.
Sobre essas bases tem lugar a nossa compreensão do mundo e dos textos que descrevem esse mundo”. (ibid.).
Dizemos o que dissemos para uma sublinha: a participação dos vínculos brunianos está inscrita naquela ambiência19 substancial, na
inclinação filosófica do autor para reunir o que nunca esteve, de fato,
separado. No prefácio para o livro de Ordine, Pierre Hadot vê-se diante de uma declaração feita por Bruno, a saber, “(...) que a sua filosofia é inspirada pelo desejo de voltar à filosofia antiga” (ibid.:XV). Ao que concluiu, mais tarde, “(...) parece-me que o retorno à filosofia antiga quer
ser sobretudo um retorno à relação que existia na Antiguidade entre homem e natureza, para além do cristianismo que a ocultou” (ibid.:XVII).
Se Hadot estiver correto, deveremos incluir a leitura das obras de
19Fazemos uso de “ambiência”, sob influência de Felinto que, por sua vez, foi inspirado
por Gumbrecht. “Agrada-me o termo ‘ambiência’, pois, além de apontar para climas e para a materialidade circundante do meio ambiente, possui um caráter dinâmico. Dessa forma, uma ambiência nunca está inteiramente vinculada dos componentes materiais da obra em questão. (...) Ler Stimmungen significa, portanto, que ‘estamos atentos para as dimensões textuais das formas que nos circundam (e a nossos corpos) como realidades
potencialmente físicas, e assim podem desencadear ‘sensações interiores’, sem que
40 Giordano Bruno nos recentes debates sobre a “lógica conectiva e ecossistêmica” (DI FELICE et alii, 2012:83). Veremos, a seguir, que seus
vínculos antecipam a noção de sistema20 com a qual se encarregam
Edgar Morin e seus seis volumes de O Método, composição muitas vezes citada como andar térreo de “novas condições habitativas” (ibid.:84-88).
Há, no entanto, matérias outras precipitadas com a descoberta dos escritos herdados de Bruno e encontráveis nos trabalhos de Alain Badiou e Massimo Di Felice (2009) ― muito embora não devamos fazê-los ingressar na mesma “corrente filosófica”. Ambos fazem remissão aos
antigos para procurar, nos episódios registrados pela cultura ocidental, elementos capazes de deschavear a hermética21 consciência do
pensamento atual. A jornada de visita aos gregos ― e suas narrativas
marítimas e o calendário inventado e a moeda e o comércio e a escrita alfabética e o espaço público da polis e o exercício de reunir particulares sob categorias gerais etc. ― tem o mérito de inventariar a série de instantes originários, desde o problema cosmológico à kínesis, palavra de origem grega que designa “toda modalidade de alteração ou de mudança”
20Morin admitirá, mais tarde, a insuficiência do seu modelo (DI FELICE et alii, ibid.).
21 “Os tratados herméticos, que não raro tomam a forma de diálogos entre mestre e
discípulo, costumam culminar numa espécie de êxtase, no qual o adepto se exalta por ter recebido a iluminação e desata a cantar hinos de louvor. Aparentemente, ele alcançaria a iluminação por meio da contemplação do mundo ou do cosmos, tal como refletido em seu próprio nous [faculdade intuitiva do homem], ou mens, que separa para o discípulo o próprio significado divino, concedendo-lhe mestria espiritual sobre este, tal como na familiar revelação gnóstica, ou a experiência da ascensão da alma pelas esferas dos planetas, a fim de imergir no divino. Eis como essa religião do mundo, subjacente em grande parte ao pensamento grego, especialmente no platonismo e no estoicismo, torna-se, no hermetismo, realmente uma religião, sem culto, nem templos, nem liturgia, seguida apenas mentalmente, uma filosofia religiosa ou uma religião
41 (CHAUÍ, 1994:351). O que fazemos com tais instantes é problema dado. Ao distinguirmos nossas práticas daquelas, assumimos a missão de manter nossos “hóspedes estrangeiros” ordenados (NIETZSCHE apud
DE CERTEAU, 2012:182) em fila cronológica, para, então, homenageá-los por suas excelentes contribuições, outras nem tanto.
“O trabalho sobre as ‘fontes’ recebe elementos depositados no chão de um presente e já rotulados por
uma sociedade como ‘relíquias’ (nos arquivos, museus,
bibliotecas etc.); ele homologa uma geografia do passado como um dado cultural, encontrando ai uma base que lhe é já fixada e que, salvo leves alterações,
não é modificada por ele” (DE CERTEAU, ibid.:183).
À escrita convencional da história (da filosofia, da ciência, da literatura, qual seja) – “(...) lugar de predileção para a crítica escolar que
mede o valor de um texto pela evidência do trabalho que custou” (BARTHES, 2004:59) – sucede uma alternativa, mais sensual, que deposita sua atenção sobre o corpo alheio ― “(...) o corpo é o outro de
que se fala, mas que se é incapaz de fazer falar. É necessário remontar a este corpo ― nação, povo, ambiente―, cuja caminhada deixou os vestígios com os quais o historiador fabrica uma metáfora do ausente”(ibid.:187, itálicos nossos). É a metáfora quem nos desloca da
imagem que fazemos de nós mesmos para o embaciado do outro narrado. Não há coincidência entre “eu” e “não-eu”, mas a ida sistemática
de cá para lá, do eu que escreve para minha própria alteridade. Tal deslocamento abre uma “lacuna irredutível, uma lacuna que postula um limite para o campo da realidade” (ŽIŽEK, 2008:23). E sobre, em cima
42 São ainda incipientes nossos conhecimentos sobre a arrebatante22
arquitetônica de Alain Badiou, razão pela qual nos manteremos com a água na altura do umbigo. Em recente entrevista para Vladimir Safatle e
Giuseppe Bianco, e perguntado sobre a razão pela qual considera relevante o retorno ao platonismo, Badiou (2014) retrucou que “Platão
permitiu à filosofia referir-se a si, independente de toda contemplação acabada do universo”. A despeito das leituras encetadas por Gilles
Deleuze, Martin Heidegger e Friedrich Nietzsche, o platonismo teria carregado para dentro das suas lucubrações a existência de uma verdade
universal, desabilitando a preeminência do sujeito cogitabundo.
Por ora, devem bastar umas poucas notas sobre a construtura de Platão (427 – 347) para que avencemos, com presumido conforto, ao lado
de Badiou. Ao nome do filósofo ateniense, além do mais, não reparamos – como equivalência retribuída – uma figura unívoca. Na sua Carta
Sétima, teria deixado uma mensagem para os seus comentadores. “Os
que escreveram e escreverão sobre ele, imaginando conhecer todo o seu pensamento, enganam-se, pois há assuntos sobre os quais jamais escreverá” (CHAUÍ, 1994:172). Há o Platão de Aristóteles. Há o Platão de
Plotino, chamado Platão neoplatônico. O Platão dos primeiros cristãos, da
22Oportuno rememorar os eventos em que estive ― eu, Maria Ribeiro ― diante da
inteligência generosa de Alain Badiou, em Paris e por ocasião de uma bolsa de estágio sanduíche concedida pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Mas me deterei naquela de alguma utilidade para nós. Uma das principais obras de Platão, A República, foi traduzida pelo filósofo de ascendência marroquina e lida por Grégoire Ingold. A leitura aconteceu no Théâtre Nanterre-Amandiers, em 8 de dezembro de 2013, e foi seguida por um debate em torno do diálogo socrático. O gesto narrativo de Platão, o diálogo ele mesmo, teria aberto para a filosofia, desde sua origem, um clarão de liberdade. A filosofia desdobrada nas ruas, popular,
entre amis. Platão é, ainda, tema da “Meditação Dois”, segundo capítulo da primeira
43 Renascença e o dos românticos de finais do XVIII. O Platão célebre, aquele de Victor Goldschmidt, “(...) o da teoria do conhecimento, da
separação entre opinião e verdade, sensível e inteligível, aparência e
idéia” (ibid.:171). O Platão de Nietzsche (2014:5) é
“(...) o primeiro caráter misto extraordinário, tanto na sua
filosofia como na sua personalidade. (...) Também como homem, Platão mistura em si os rasgos da reserva real e da moderação de Heráclito, da compaixão melancólica do legislador Pitágoras e do dialético perscrutador de almas Sócrates. Todos os filósofos posteriores são caracteres mistos deste tipo; quando neles sobressai algo de unilateral, como acontece com os Cínicos, não se trata de um tipo, mas de uma caricatura”.
Sabidamente, o modelo platônico ― seu paradeigma (SCHÄFER,
2012:165)― é formado por três elementos que compõem o signo: “o nome (ónoma, nómos), a noção ou ideia (eîdos, lógos, dianóema) e a coisa (prágma, ousía)” (NÖTH, 1995:27). Assim, toda verdade que faz
uso da palavra para o próprio anúncio ― e ainda que seja a palavra um quase decalque da coisa ― serão sempre, verdade e palavra, inferiores “ao conhecimento direto, não-intermediado, das coisas” (ibid.:28). O
homem de Platão é um corpo animado, definível a partir das suas três funções psíquicas (apetite, ira e razão) e cuja natureza é “coletiva,
política: só há humanidade numa cidade. Essa humanidade, em razão de suas disposições psíquicas e fisiológicas, é fundamentalmente técnica”
(BRISSON, 2010:45). No diálogo travado entre o Estrangeiro de Eléia e o jovem filósofo Teeteto, Platão ergue, aos pequenos bocados, os esculpidos do sofista e ― por oposição― permite-nos supor o filósofo. É
44 imitador, perito em simulacros e arremedos do real (PLATÃO, [2014]1991:248):
“ESTRANGEIRO
— Assim, o homem que se julgasse capaz, por uma única arte, de tudo produzir, como sabemos, não fabricaria, afinal, senão imitações e homônimos das realidades. Hábil, na sua técnica de pintar, ele poderá, exibindo de longe os seus desenhos, aos mais ingênuos meninos, dar-lhes a ilusão de que poderá igualmente criar a verdadeira realidade, e tudo o que quiser fazer” (ibid.:247).
As “palavras mágicas” e as “ficções verbais” que separam o homem da “verdade das coisas” devem ser combalidas pela filosofia ― um “esforço realizado pelo homem, à luz e à imitação do divino, a fim de
fazer governar nele o que lhe dá conhecimento do divino: o elemento imortal de sua alma, o intelecto” (BRISSON, ibid.:41). E quem estaria habilitado para, como o filósofo, contemplar a realidade verdadeira,
compreender as Formas inteligíveis que daquela realidade resultam, lançar mão de dada técnica23 e produzir um conhecimento capaz de
copiar24 a realidade?
23“Platão não distingue os termos ‘técnica’ e ‘ciência’: toda técnica, na medida em que
supõe o conhecimento de seu objeto e do que lhe convém, pode ser considerada uma ciência (...). A episteme ou ciência é, então, o nome e o princípio de uma competência, de uma capacidade de realizar certa atividade; uma técnica é, pois, uma ciência relativa
à produção ou ao uso de dado objeto” (BRISSON, ibid.:37).
24Explica o Estrangeiro para Teeteto: “— A primeira arte que distingo na mimética é a
45 “De certo modo, conhecer por razões profundas vale para
qualquer indivíduo possuidor de uma ciência ou de uma arte; vale, por exemplo, para o médico (um exemplo muito recorrente em Aristóteles), para o matemático e para todo e qualquer indivíduo que, perante uma mera opinião, reivindique o direito de conhecimento” (GADAMER, 2009:37).
Slavoj Žižek é um leitor admirado de Badiou, a quem cita com
muitíssima frequência ― a maneira de um interlocutor reverenciado ― em obras como A visão em paralaxe ([2006]2008) e Arriscar o impossível ([2004]2006); além de Primeiro como tragédia, depois como farsa
([2009]2011) e Vivendo no fim dos tempos ([2010]2012). Não por acaso, Žižek concentra-se na noção de “evento”, igualmente fundamental para
dois outros nomes da filosofia e com os quais compartilhamos certa ambiência: Gilles Deleuze ― “(...) há um ser substancial, obscuro e
impenetrável, e existe a superfície de pura fluidez, o devir do evento de sentido” (ŽIŽEK:2006:167) e Martin Heidegger ―“o destino não se baseia
numa metaentidade que puxe cordinhas. Antes é uma sucessão das
diferentes maneiras pelas quais o ser se revela em constelações históricas específicas” (ibid.).
“Platão considera e avalia toda a mimese sob o aspecto da semelhança maior ou menor
46
Figura 2. Diagrama de Alain Badiou ([1994]2014) sobre o "Trajeto de uma verdade".
Para Badiou, a verdade é o “evento que explode a cadeia do ser; ela é irredutível à ordem do ser” (ibid.). Um “sujeito” não é um ser, “um
sujeito é apenas um ponto de verdade; ou, a dimensão, meramente local, do processo de uma verdade” (BADIOU, [1994]2014). Observemos o
diagrama acima e, antes, aquilo que não vemos traçado. “A situação do saber tal como está, dá-nos apenas a repetição”, escreve Badiou (ibid.25)
no trecho que antecede sua representação gráfica. Há o acaso e há uma verdade a ser afirmada. Há um “suplemento” – “imprevisível”, “incalculável”, “indecidível” (ibid.) –chamado “evento”: