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VII

Radiol Bras. 2016 Mar/Abr;49(2):VII–VIII

Pneumonite por hipersensibilidade engloba um conjunto de doenças de acometimento pulmonar com predomínio dos acha-dos histopatológicos (infiltrado inflamatório linfocitário, granulo-mas não caseosos e focos de bronquiolite obliterante, além de fi-brose nas fases mais crônicas)(1–3) predominantemente

distribuí-dos em torno das pequenas vias aéreas, conforme demonstrado no excelente artigo de correlação publicado por Torres et al.(4) neste

número da Radiologia Brasileira. Esta localização dos achados reflete resposta à inalação repetida de diversas substâncias anti-gênicas, usualmente orgânicas, como fungos, bactérias termofíli-cas e penas de pássaros(1,2). Pulmão do fazendeiro e pulmão dos

criadores de pássaros são formas consagradas de pneumonite por hipersensibilidade, no entanto, a cada dia novas e curiosas expo-sições são descritas, como o pulmão do saxofonista, que ocorre com a exposição a fungos residentes no bocal deste instrumento. Clinicamente, a doença pode se apresentar nas formas aguda, subaguda ou crônica. Formas aguda e subaguda apresentam sin-tomas sistêmicos, simulando um quadro gripal ou asmático. A forma crônica ocorre nos indivíduos com maior reexposição anti-gênica e cursa com fibrose intersticial mais acentuada, dispneia, hipoxemia, baqueteamento digital e restrição funcional pulmonar. Esta forma geralmente está associada à falta de identificação do antígeno e inclui-se no diagnóstico diferencial com outras pneumo-patias intersticiais idiopáticas(1,5), sendo muitas vezes impossível

esta diferenciação, mesmo com estudo histopatológico. Os estudos epidemiológicos internacionais de pneumonite por hipersensibilidade são muito variáveis. No Brasil, estima-se uma ocorrência de 3% a 13% entre as doenças intersticiais pulmona-res(3). Estudo realizado em São Paulo, SP, com 99 casos

confir-mados por biópsia pulmonar, aponta para a exposição a fungos domésticos e pássaros como agentes causadores mais frequen-tes(6). Também em nossa experiência em Santa Catarina

encon-tramos a doença mais frequentemente ocorrendo com a exposi-ção antigênica a fungos, com destaque para mofo domiciliar, e em criadores de pássaros.

0100-3984 © Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem

Pneumonite por hipersensibilidade: a importância

do radiologista na abordagem multidisciplinar

para este diagnóstico

Hypersensitivity pneumonitis: the importance of the radiologist in the multidisciplinary

approach to its diagnosis

Luiz Felipe Nobre1, Leila John Marques Steidle1

1. Doutores, Professores Adjuntos de Radiologia e Pneumologia do Departa-mento de Clínica Médica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Flo-rianópolis, SC, Brasil.

Autor correspondente: Dr. Luiz Felipe Nobre. E-mail: [email protected].

Editorial

Não existem critérios definidos para o diagnóstico da pneu-monite por hipersensibilidade. Na prática, a correlação entre his-tória clínica e funcional compatível, exposição identificada, linfo-citose acentuada no lavado broncoalveolar, biópsia compatível e achados sugestivos na tomografia computadorizada de alta reso-lução do tórax são fundamentais(1,3,7).

O afastamento do antígeno é decisivo para o tratamento da pneumonite por hipersensibilidade. Alguns autores têm tentado chamar a atenção para a importância da exposição a mofo no ambiente doméstico, causa de PH certamente subestimada uni-versalmente. Uma inspeção detalhada do ambiente é a etapa mais importante para a determinação da localização específica da ex-posição e para o desenvolvimento de estratégias de controle.

Desta forma, a abordagem multidisciplinar é definitiva para o diagnóstico desta doença, conforme muito bem frisado por Torres et al.(4), sendo fundamental a correlação entre as características

clínicas, nexo causal de exposição, achados tomográficos e as-pectos histopatológicos.

Neste contexto, a tomografia computadorizada exerce papel fundamental na demonstração de achados sugestivos da doença. Embora não patognomônicos, devem sugerir a possibilidade de pneumonite por hipersensibilidade no diagnóstico diferencial, e o radiologista, atento e conhecedor desses achados, deve sempre buscar história compatível de exposição respiratória. Sobretudo na fase aguda/subaguda da doença, a presença de nódulos centro-lobulares em vidro fosco e o padrão de atenuação em mosaico sem redistribuição vascular devem levantar a suspeita de pneu-monite por hipersensibilidade. No primeiro caso, o principal diag-nóstico diferencial é com a bronquiolite respiratória dos fuman-tes, o que facilita o raciocínio, uma vez que a pneumonite por hipersensibilidade raramente ocorre em tabagistas. No segundo caso, o principal diagnóstico diferencial é com a pneumonia in-tersticial não específica, que também costuma ter associação com dados clínicos diversos da pneumonite por hipersensibilidade.

Conforme também discutido no artigo de Torres et al.(4), a

pre-sença de hiperinflação focal de lóbulos pulmonares secundários de permeio a alterações pulmonares difusas reforça a suspeição de pneumonite por hipersensibilidade, traduzindo bronquiolite celular ou constritiva, secundária às alterações bronquiolocêntricas. Esta

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VIII

Radiol Bras. 2016 Mar/Abr;49(2):VII–VIII é uma daquelas doenças em que o radiologista aumenta sua

cre-dibilidade junto aos colegas de outras especialidades, pois a sus-peição diagnóstica pode ser feita no serviço de radiologia, a partir de um achado tomográfico sugestivo, buscando-se uma história de exposição compatível, que não raramente pode ter passado des-percebida em anamnese não dirigida. Uma sugestão diagnóstica criteriosa, baseada num achado de imagem indicativo, pode fazer um radiologista famoso!

REFERÊNCIAS

1. Selman M, Pardo A, King TE Jr. Hypersensitivity pneumonitis: insights in diagnosis and pathobiology. Am J Respir Crit Care Med. 2012;186:314–24.

2. Girard M, Lacasse Y, Cormier Y. Hypersensitivity pneumonitis. Allergy. 2009;64:322– 34.

3. Rubin AS, Santana ANC, Costa AN, et al. Diretrizes de doenças pulmonares inters-ticiais da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. J Bras Pneumol. 2012;38(Supl 2):S1–S133.

4. Torres PPTS, Moreira MAR, Silva DGST, et al. Aspectos tomográficos e histopato-lógicos da pneumonite por hipersensibilidade: ensaio iconográfico. Radiol Bras. 2016;49:112–6.

5. Lacasse Y, Selman M, Costabel U, et al. Classification of hypersensitivity pneu-monitis: a hypothesis. Int Arch Allergy Immunol. 2009;149:161–6.

6. Bagatin E, Pereira CAC, Afiune JB. Doenças granulomatosas ocupacionais. J Bras Pneumol. 2006;32(Supl 1):S69–S84.

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