MULTIRRESISTÊNCIA DO Staphylococcus sp ISOLADO DO
BICO DE CALOPSITA (Nymphicus hollandicus) À
ANTIMICROBIANOS
Staphylococcus
sp
MULTIDRUG
RESISTENCE
TO
ANTIMICROBIAL OF ISOLATED OF BEAK COCKATIEL
Bruno Cabral Pires Pollyanna Mafra Soares Dayane Olímpia Gomes2 Ligia Pinho Cuccato Jandra Pacheco dos Santos2 Anna Monteiro Correia Lima
Resumo
O objetivo deste trabalho foi relatar um caso de multirresistência à antibióticos do
Staphylococcus sp isolado no bico de calopsita. Desta forma, foi realizada a coleta do material
biológico das secreções do bico da calopsita com um suabe estéril, para a determinação do agente etiológico de cultura bacteriana em ágar sangue e ágar MacConkey. Após este procedimento realizou-se também o teste de susceptibilidade a antimicrobianos. As culturas isoladas da amostra biológica coletada foram Escherichia coli, Streptococcus spp.,
Staphylococcus spp. e verificou-se também a presença de fungo Candida albicans. No teste
de suscetibilidade a antimicrobianos verificou-se que a apenas o Staphylococcus sp apresentou resistência a todos os antibióticos testados, demonstrando desta forma, a importância do uso deste teste para a seleção de drogas efetivas no tratamento, evitando-se a progressão da resistência entre os micro-organismos.
Palavras-chave: Bactérias. Resistência. Antibióticos.
Abstract
The objective of this study was to report a case of multidrug resistance to antibiotics of
Staphylococcus sp isolated on cockatiel’s beak. Thus, the collection of biological material
from the secretions of cockatiel's beak with a sterile swab was performed to determine the causative agent of bacterial culture in blood agar and MacConkey agar after this procedure also performed the susceptibility testing to antibiotics . The isolated cultures of the collected biological sample were Escherichia coli, Streptococcus sp, Staphylococcus sp, Also verified the presence of the fungus Candida albicans. In the antimicrobial susceptibility testing it was
found that only the Staphylococcus sp was resistant to all antibiotics tested, thus demonstrating the importance of the use of this test for the selection of effective drugs in the treatment, avoiding the progression of the resistance between microorganisms.
Key words: Bacteria . Resistance. Antibiotics.
Introdução
Atualmente, a criação de aves exóticas como animais de estimação vem crescendo mundialmente, inclusive no Brasil. A comercialização de algumas espécies é permitida, desde que estas estejam na lista oficial IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), órgão que fiscaliza e controla a comercialização de aves da fauna silvestre nacional e exóticas (SILVA, 2013).
Os psitacídeos são as aves de estimação mais populares e incluem papagaios australianos, calopsitas, agapornis, periquitos, papagaios, cacatuas e araras-vermelhas (FLAMMER, 1999). A calopsita (Nymphicus hollandicus) é uma ave de origem australiana, pertencente à ordem Psittaciforme, família Psittacidae (IUCN, 2012). É a segunda espécie de psitaciforme, perdendo somente para os periquitos australianos (Melopsittacus undulatus), mais criada no mundo como ave de estimação (JUNIPER; PARR, 1998).
As aves criadas domesticamente, principalmente as calopsitas, se destacam no mercado “pet” pelo baixo valor comercial, baixo custo de criação, emissão de sons, docilidade, inteligência e facilidade de manutenção da espécie em pequenos ambientes (GRESPAN, 2009; SILVA, 2013). Porém, a ausência de ambientes adequados gerados pelo confinamento pode predispor esses animais a quadros característicos de estresse, levando-os ao desencadeamento de várias doenças (DUGLOSZ, 2015).
As bactérias mais frequentemente isoladas e causadoras de doenças em psitacídeos são: como bactérias patogênicas mais comuns, estão a Escherichia coli, Klebsiella,
Pseudomonas e Chlamydia psittaci; bactérias patogênicas moderadamente comuns, estão
outras enterobactérias (e.g., Salmonella, Citrobacter, Proteus, Serratia) e Staphylococcus
aureus; bactérias patogênicas importantes, mas infrequentes Bordetella, Mycobacterium, Megabacterium, Pasteurella multocida; e bactérias patogênicas pouco relatadas, como Actinobacillus, Aeromonas, Campylobacter, Clostridium, Erysipelothrix rhusiopathiae, Haemophillus, Listeria monocytogenes, Mycoplasma, Nocardia, Streptococcus (patogênica) e
Yersinia; sendo as bactérias gram-negativas a causa mais comum de doença bacteriana
sintomática (FLAMMER, 1999).
A descoberta dos antibióticos foi um grande avanço para a aplicação terapêutica na veterinária, os quais são amplamente utilizados em tratamentos e muito importantes no controle de doenças infecciosas (MOTA et al., 2005). São largamente utilizados na prática aviária no tratamento de infecções bacterianaspois as aves de estimação geralmente são pequenas, tornando o custo menor do medicamento a ser administrado e os veterinários especializados nessas espécies de aves podem escolher antibióticos a partir de um grande número de drogas de uso veterinário e humano (FLAMMER, 2006).
A resistência a antibióticos e outras drogas antimicrobianas foi, e provavelmente continuará, sendo um dos grandes problemas na área da saúde animal, pois é causada pela mutação espontânea e recombinação de genes, que criam variabilidade genética sobre a qual atua a seleção natural dando vantagens aos mais aptos. As drogas atuam como agentes seletivos (SOUZA, 1998), principalmente em decorrência do uso indiscriminado de antimicrobianos na clínica veterinária, contribuindo com o aumento progressivo da resistência bacteriana (MOTA, 2005).
Diante dos problemas ocorridos de resistência à antimicrobianos, objetivou-se neste estudo relatar um caso de multirresistência à antibióticos do Staphylococcus sp isolado no bico de calopsita (Nymphicus hollandicus).
Material e Métodos
Para este estudo foi feita a coleta de material biológico das secreções infecciosas do bico de calopsita, com o auxílio de um suabe estéril, para o procedimento de cultura bacteriana com identificação do agente etiológico e teste de suscetibilidade a antimicrobianos. O material coletado foi armazenado no caldo tioglicolato de enriquecimento bacteriano, encaminhado a laboratório de análise, onde foi mantida em estufa a 37°C por 24 horas.
Após esse período, foi observada a turvação, sendo, então, semeadas em placas contendo ágar sangue e meio seletivo estéril MacConkey, sendo incubadas novamente à mesma temperatura e tempo, citados anteriormente, para crescimento bacteriológico.
Colônias bacterianas de cada meio foram submetidas a estudo microscópico por meio de esfregaços corados pelo método de Gram e testes bioquímicos, para a identificação de cada colônia de crescimento.
Para o teste de suscetibilidade a antimicrobianos foi usado o método de difusão em agar descrito por Kirby e Bauer (ano), no qual as amostras isoladas foram desafiadas aos seguintes antibióticos: eritromicina (15 µg), amoxilina e clavulanato (30 µg), cefazolina (30 µg), sulfametoxazol e trimetropim (23,75 / 1,25 µg), azitromicina (15 µg), tetraciclina (30 µg), norfloxacina (10 µg), penicilina (10 µg), ciprofloxacina (5 µg), clindamicina (2 µg), ceftriaxona (30 µg), enrofloxacina (5 µg), gentamicina (10 µg), imipenem (10 µg), amicacina (30 µg), doxiciclina (30 µg), ceftiofur (30 µg), neomicina (30 µg), ampicilina (10 µg), e cefalexina (30 µg).
As amostras utilizadas no teste de suscetibilidade foram cultivadas em agar Mueller Hilton. Para isso, retirou-se uma colônia recente (18-24h) de cada amostra isolada das placas de cultura com auxílio de uma alça bacteriológica de platina devidamente flambada e resfriada, logo após estas colônias foram suspendidas em solução salina estéril (NaCl 0,85%) até se obter uma turvação compatível com o grau 0,5 da escala Mac Farland (1x106 UFC/mL). Em seguida, um suabe estéril foi colocado em cada suspensão bacteriana e semeado em cada placa de agar Mueller Hilton, procurando abranger toda a superfície da placa até ficar homogênea. Após essa etapa, depositaram-se os discos contendo os antibióticos utilizados no estudo, e por fim, incubaram-se as placas a 37 °C por 24 horas, realizando-se a leitura após este período (CLSI, 2012).
Resultados e Discussão
As culturas isoladas da amostra biológica coletada do bico da calopsita foram
Escherichia coli, Streptococcus sp, Staphylococcus sp. Também foi verificado a presença do
fungo Candida albicans.
Muitas bactérias causam infecções primárias e secundárias em aves de estimação (GERLACH, 1994; PHALEN, 2003). Dentre as bactérias que acometem as aves de estimação, estão as Gram negativas, as quais se destacam Escherichia coli, Salmonella sp,
Já as bactérias Gram positivas mais comuns são Staphylococcus sp, Streptococcus sp,
Enterococcus sp, Bacillus cereus e Clostridium sp (CUBAS; GODOY, 2004).
Infecções por Escherichia coli são comuns e podem causar doenças clínicas em aves imunossuprimidas, sendo esta bactéria frequentemente identificada como agente etiológico responsável por causar infecções do trato respiratório, trato alimentar e infecção de múltiplos órgãos. Além disso, essa bactéria está algumas vezes associada a outras enterobactérias ou leveduras oportunistas como a Candida sp. Algumas cepas de E. coli apresentam um grau maior de patogenicidade e são consideradas agentes primários nas infecções (BURR, 1987;; CUBAS; GODOY, 2004; FLAMMER, 2006; FOWLER; MILLER, 2008).
O Staphylococcus sp é encontrado na flora bacteriana da pele e do trato respiratório de animais sadios e frenquentemente identificada nas infecções de pele, das vias respiratórias superiores (CUBAS; GODOY, 2004; FLAMMER, 2006). Para a doença ocorrer, é necessário um desequilíbrio nas defesas naturais do organismo e que haja condições propícias, tais como lesões na pele ou mucosa e depleção do sistema imunológico (BURR, 1987; CUBAS; GODOY, 2004).
O Streptococcus sp, em passeriformes, bem como em outras aves, estão associados a doenças como dermatites, conjuntivites, sinusites, artrites e pneumonias (DORRESTEIN, 2009).
Neste estudo foram isoladas colônias bacterianas Gram positivas (Staphylococcus sp e
Streptococcus sp) e Gram negativas (Escherichia coli), corroborando com os achados em
trabalhos anteriores, inclusive com relação a presença de leveduras oportunistas, como é o caso da Candida albicans.
Dentre as bactérias isoladas, as três podem ser encontradas na região do bico, causando processos infecciosos (BURR, 1987; CUBAS; GODOY, 2004; DORRESTEIN, 2009; FLAMMER, 2006), principalmente em virtude do estresse gerado a este tipo de aves de estimação, devido à falta de um ambiente adequado para a criação deste animal, levando-o a uma imunossupressão do sistema imune com desencadeamento de doenças, tais como o processo inflamatório do bico ocorrido na calopsita deste estudo.
Além disso, os psitacídeos estão cada vez mais próximos do homem, como animais de companhia, devido à facilidade de manutenção que a espécie demanda. Portanto, a preocupação sanitária deve ser crescente, uma vez que as aves são reservatórios naturais de micro-organismos patogênicos, podendo albergar agentes causadores de doenças
que, a transmissão de agentes infecciosos de humanos para animais também ocorre (bibliografia).
Quanto ao teste de suscetibilidade, pôde-se observar que apenas o Staphylococcus sp apresentou multirresistência a todos os antibióticos utilizados neste estudo, enquanto a
Escherichia coli e o Streptococcus sp apresentaram sensibilidade a alguns antibióticos, como
mostra a Tabela 1.
Tabela 1. Resultados do teste de suscetibilidade a antimicrobianos realizado em culturas bacterianas isoladas de secreções infecciosas do bico de uma calopsita.
Antibióticos utilizados Cepas isoladas
Escherichia coli Streptococcus sp Staphylococcus sp
Amoxilina + clavulanato - - + Amicacina NR NR + Ampicilina - + + Azitromicina NR + + Cefalexina + NR + Cefazolina NR + + Ceftriaxona + NR + Ceftiofur NR NR + Ciprofloxacina - + + Clindamicina NR NR + Doxiciclina NR NR + Eritromicina NR + + Enrofloxacina NR NR + Gentamicina NR NR + Imipenem NR NR + Neomicina + NR + Norfloxacina - - + Penicilina NR NR + Sulfametoxazol + trimetropim - - + Tetraciclina - - +
Legenda: + (resistente); - (sensível); e NR (não realizado)
Os agentes antimicrobianos são amplamente utilizados no tratamento e controle das infecções causadas por Staphylococcus sp. Entretanto, ainda são poucos estudos que têm determinado a ocorrência da resistência antimicrobiana e a presença de genes de resistência de isolados de aves (AARESTRUP et al., 2000).
A situação do uso indiscriminado de antibióticos no tratamento e prevenção de doenças é um grande problema de saúde animal e humana, uma vez que elevadas taxas de resistência aos antimicrobianos são registradas em estudos realizados nas diferentes espécies animais, inclusive no homem (MOTA, 2005).
A carência de recursos de diagnóstico laboratorial ou a não utilização destes quando disponíveis agravam ainda mais essa situação, principalmente quando os profissionais da área cometem equívocos de conduta e prescrevem antibióticos sem sua devida necessidade, além da indicação de subdosagens ou suspensão do tratamento quando da melhora clínica do animal, sem observar o tempo correto e indicado da antibioticoterapia, contribuem para o aparecimento da resistência bacteriana (MOTA, 2005).
Muitos Staphylococcus aureus isolados em aves são suscetíveis a cefalosporinas de primeira geração; no entanto, ocorre aumento da resistência e isolamento ocasional de estirpes resistentes à meticilina (FLAMER, 2006).
A primeira utilização clínica de um antimicrobiano contra uma amostra de
Staphylococcus aureus, foi a partir da descoberta da penicilina, que teve um bom
funcionamento até a década de 1960, quando começaram a aparecer isolados resistentes a esse antimicrobiano. Na tentativa de resolver este problema, foi criado o beta-lactâmico sintético chamado de meticilina, que era resistente à ação das beta-lactamases que o S. aureus produzia. Entretanto, logo após seu surgimento e utilização, surgiram relatos de amostras resistentes também a esse antimicrobiano, além da expressão de multirresistência. Essas cepas foram denominadas de MRSA (Staphylococcus aureus resistente à meticilina) e são resistentes a todos os antimicrobianos beta-lactâmicos (LOWY, 1998).
Segundo a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), o grupo de antimicrobianos classificados como ß-lactâmicos possui em comum no seu núcleo estrutural o anel ß-lactâmico, o qual confere atividade bactericida, impedindo a formação da parede microbiana causam, com consequente morte da bactéria. Pertencem a este grupo, as penicilinas naturais e semi-sintéticas (ex. penicilina G, oxacilina, ampicilina, amoxicilina, oxacilina, meticilina, entre outras), as cefalosporinas (ex. cefazolina, cefalexina, cefalotina, ceftriaxona, ceftazidima, entre outras), carbapenens (ex. Imipenem, meropenem e ertapenem) e monobactans (ex. aztreonam).
Alguns estudos foram desenvolvidos demonstrando a resistência do Staphylococcus sp a antimicrobianos, destacando-o como multirresistente a pelo menos três classes de antibióticos (SPRINGER et al., 2009; LOEFFLER et al., 2010).
Os antibióticos que determinaram a resistência do Staphylococcus sp nesse estudo, pertenciam a diversas classes de antibióticos, conforme exposto por Springer et al. (2009) e Loefler et al. (2010), sendo que grande parte desses antibióticos pertencem a classe dos
beta-Devido ao crescente número de aves exóticas que se tornam aves de estimação, a criação dessas aves em ambientes inadequados que geram estresse e levam ao desencadeamento de doenças por imunossupressão, e a grande proximidade desses animais com o homem pode favorecer a transmissão destas doenças, determinando a grande preocupação com a saúde pública pelo poder zoonótico de alguns agentes patogênicos encontrados nas aves. Vários são os agentes causadores de doenças, dentre eles, agentes bacterianos que estimulam cada vez mais o uso de antibióticos para o seu controle e prevenção.
Conclusão
Acredita-se que uso indiscriminado de antibióticos tem gerado um quadro de multirresistência, como foi observado nesse estudo no Staphylococcus sp, devido ao uso e indicações errôneas destes antibióticos. Contudo, para um melhor tratamento de doenças infecciosas, sugere-se a descoberta do antimicrobiano ideal através do teste de susceptibilidade, evitando-se assim o uso de drogas resistentes e que não vão atuar de forma efetiva no tratamento, além de serem consideradas instrumentos seletivos de resistência a diversos micro-organismos.
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