2005/02/15
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MANOVAPOTÊNCIANUCLEAR?
Alexandre Reis Rodrigues
Há já quase dois anos, em Abril de 2003, foi a própria Coreia do Norte, no âmbito de uma reunião em que participou também a China para tentar uma solução negociada do abandono do seu programa nuclear, que se encarregou de dizer aos EUA que tinha capacidade de fazer o
enriquecimento urânio e que a iria utilizar para construir armas nucleares. Era apenas a confirmação da suspeita que os EUA tinham levantado antes, logo no início do mandato de Bush, sobre o não cumprimento dos compromissos assumidos no tempo de Clinton, em troco dos quais recebeu ajudas.
Alguns especialistas previam que em 2005 já tivessem seis a oito ogivas. De acordo com um relatório do International Crisis Group , revelado a 1 de Agosto de 2003, a Coreia do Norte já tinha nessa altura os materiais e as capacidades para possuir um arsenal de mais de 200 armas nucleares em 2010. O que se passou, no passado dia 10 de Fevereiro, foi apenas o anúncio formal a todo o Mundo de que tem ogivas nucleares, só ficando a faltar de dizer o seu número e em que mísseis as tencionam utilizar.
É um percurso, um tanto ou quanto, estranho! Países candidatos a potência nuclear não anunciam essa aspiração e quando confrontados com interrogações sobre as suas intenções geralmente negam qualquer propósito armamentista para não ficarem sujeitos a medidas punitivas ou sanções e não perderem a vantagem de antecipação em relação a potenciais oponentes. Será esta, por exemplo a situação do Irão. A forma normal de fazer o anúncio é através da realização de um ensaio nuclear, o que a Coreia do Norte, pelo menos para já, dispensou.
Seria importante compreender porque está a Coreia do Norte a seguir uma trajectória diferente da habitual. Depois de ter pisado, aliás impunemente, todas as marcas vermelhas das obrigações a que se tinha comprometido como país signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) desde 1985, e abandonando-o mais tarde, só lhe ficou a faltar a realização de um teste nuclear. Seria interessante saber também porque foi escolhido este momento para fazer o anúncio formal de uma coisa que todo o Mundo já sabia e apenas faltava comprovar com um ensaio.
Só a China é que insistia que a Coreia do Norte não estava tão avançada no seu programa nuclear como as alegações americanas o pretendiam fazer querer, acusando os americanos de exagerarem a avaliação. Pergunta-se, por isso, que poderá ter levado a Coreia do Norte a pôr a China na
situação embaraçosa de que afinal eram os americanos que estavam certos e não a China, quando ela tem sido a única sustentação do regime coreano e a chave da sua sobrevivência. Com este anúncio a Coreia do Norte demonstrou ainda que afinal a China não tem o ascendente regional que se imaginava, ao não conseguir o seu objectivo, tantas vezes anunciado, de uma península coreana sem armas nucleares. E, como se isso não chegasse, destruiu toda a argumentação em que a China baseava a sua estratégia negocial, no âmbito das conversações a seis, procurando que os EUA adoptassem uma postura flexível para ir mais ao encontro das pretensões coreanas.
Será possível que o regime de Kim Jong tinha ido ao extremo de fazer o anúncio sem previamente consultar a China para pelo menos obter o seu assentimento privado? Será possível que não tenha tido em consideração a posição da Coreia do Sul que sempre disse que não toleraria uma Coreia do Norte com armas nucleares mas que, apesar disso, era um dos seis países que insistia com uma posição mais negocial dos EUA? Será possível, finalmente, que tenham sido ignoradas as previsíveis reacções do Japão, onde muito recentemente, mais de cinco milhões de cidadãos assinaram uma petição a pedir sanções contra a Coreia do Norte, e que é o seu terceiro parceiro comercial, depois da China e da Coreia do Sul? [2]
Ainda recentemente, durante uma visita de uma delegação da Câmara de Representantes dos EUA à Coreia do Norte, o regime tinha deixado cair a mensagem de que voltariam a conversações efectivas se o presidente Bush se abstivesse de fazer comentários negativos sobre a Coreia do Norte. Bush fez os discursos, da posse e do estado da União, centrados na promoção da liberdade e democracia no Mundo, condições que o regime norte-coreano nega à sua população mas, contrariamente ao habitual, foi comedido ao referir-se à Coreia do Norte, apenas dizendo que os EUA “continuariam a trabalhar de perto com os governos na Ásia para convencer a Coreia do Norte a abandonar as suas pretensões nucleares”.
referido ao Irão como “outpost of tyranny” mas esclarecera mais tarde, já em funções, que “os EUA não tinham qualquer intenção de atacar ou invadir a Coreia do Norte”. É verdade que Bush também disse que os regimes que continuassem a procurar obter armas de destruição maciça não
deixariam de sofrer consequências, mensagem geralmente interpretada como dirigida ao Irão. Porquê então subir a parada e como que desafiar os EUA a mostrarem-se prontos a passarem das palavras para os actos? O que é que poderá ter mudado na avaliação da situação pelos norte-coreanos que os levou a não hesitar hostilizar abertamente vizinhos de quem depende a
sobrevivência do país? Não existem respostas para estas perguntas e é difícil tentar descortinar a estratégia de um país que prima por ser imprevisível e não reger-se pelos padrões normais de convivência internacional. Em qualquer caso, calcula-se que a principal prioridade, aconteça o que acontecer, será sempre a sobrevivência do regime; depois, pretenderão negociar a partir de uma posição de força, preferentemente apenas com os EUA; finalmente, quererão ajudas que evitem a catástrofe do colapso nacional, que de outra forma é inevitável.
Sabe-se que a anunciada saída das conversações a seis [3] não é definitiva, pois foi deixada uma porta aberta para o regresso se para tanto houver razão e condições apropriadas. [4] Que condições serão essas é a questão que importa esclarecer. Para uma corrente de opinião, passa muito provavelmente, por uma generosa oferta de contrapartidas e inequívocas garantias de que o regime de Kim Jong será respeitado. Foi essa a política adoptada por Clinton, mas cujos termos a Coreia do Norte não cumpriu. Bush que sempre se recusou no primeiro mandato a tomar a iniciativa de dar esse passo, tinha mostrado recentemente sinais de maior flexibilidade quanto a à exigência de ser a Coreia do Norte a comprometer-se primeiro com a suspensão das suas actividades nucleares. Pergunta-se, por isso, se a Coreia do Norte terá visto aí um sinal de fraqueza e decidiu tentar pôr-se num novo patamar de força. Em relação à pretensão de que as conversações sejam a dois, apenas entre a Coreia do Norte e os EUA, estes já deixaram claro não tencionar alterar a sua política; argumenta-se que o assunto em causa é de natureza fundamentalmente regional e não apenas de interesse bilateral. Na verdade, é de natureza mundial e como tal deveria ser encarado no âmbito da ONU; já veremos essa hipótese.
Não foi até agora possível saber se a evolução da situação tem qualquer relação com a situação no Irão. Fica a dúvida se terá havido alguma coordenação de estratégias; num momento em que se aguardam inequívocas provas de que o Irão vai cumprir os compromissos assumidos no acordo feito em Novembro com a França, o Reino Unido e a Alemanha (UE3), o facto consumado do anúncio feito pela Coreia do Norte, sem consequências à vista, é mais um precedente que o favorece ou pelo menos estimula a continuar a desafiar o Mundo. Já há, aliás, indícios disso, quer endurecendo a posição contra os EUA quer dificultando a consolidação e o prosseguimento do acordo com a UE3; agora recusa parar a construção de um reactor de água pesada (que pode produzir urânio já em condições de utilização em bombas nucleares) por troca com a construção de um outro reactor sem essa possibilidade, mas cumprindo o mesmo tipo de requisitos em produção de energia. [5]
A situação, em qualquer caso, é diferente. A Coreia do Norte, com um sem armas nucleares, é um país dependente da China e da ajuda alimentar que as Nações Unidas lhe têm continuado a fornecer, não obstante as dúvidas que se levantam sobre a forma como gere internamente a sua distribuição e a oposição a que isso seja fiscalizado; está a beira da falência como Estado, numa situação sem escapatória possível, a menos que se disponha a contradizer todas as políticas em que o regime assenta, o que não é provável que aconteça. O Irão, por outro lado, é um país com muito importantes reservas de recursos naturais (petróleo e gás), que sempre teve o objectivo de ser a potência regional da sua área e que não quer sujeitar-se, mais uma vez, a ser apanhado sem um apropriado sistema de dissuasão perante eventual ataque com armas de destruição maciça, como os que sofreu na guerra Iraque/Irão com armas químicas.
À Coreia do Norte, mais tarde ou mais cedo, acabará por suceder o que aconteceu a todos os outros regimes comunistas; é apenas uma questão de tempo que a China quer gerir sem provocar
instabilidade interna que se iria repercutir através da fronteira comum; nesses termos, causa menos preocupação que o Irão, que tem recursos para persistir no actual rumo e ambições regionais. Tenha ou não havido coordenação de políticas entre os dois países, o resultado prático da nova situação é que os EUA se vêm agora confrontados com a necessidade de lidar com ambos os casos simultaneamente, embora tendo que seguir estratégias diferentes em função das situações atrás descritas, o que torna tudo bem mais difícil.
Pouco ou quase nada se tem falado da ONU e do papel que poderia ou deveria ter em todo este processo; provavelmente, já todos interiorizaram a ideia de que aqui, como em muitos outros sectores, é pequena a sua capacidade de influência. O Conselho de Segurança reconheceu em 1992 que a proliferação de armas de destruição maciça é uma ameaça à paz e segurança
internacional, abrindo assim a porta à utilização dos “mecanismos mais persuasivos” que o Capítulo 7º da Carta prevê, mas também se sabe como são extremamente remotas as possibilidades de fazer passar qualquer resolução condenando a Coreia do Norte ou o Irão, porque prevalecerá o direito de veto da China e da Rússia [6] , pelo menos. Enquanto esta questão não for resolvida – o que nem sequer foi previsto no relatório que Koffi Annan recebeu recentemente sobre a reforma das Nações Unidas [7] – não nos resta senão fazer todos os possíveis para que os mais influentes, neste caso os EUA e a UE, adoptem uma estratégia comum, o que ainda não parece ser o caso actual.
À luz das circunstâncias acima postas, não é da maior ou menor eficácia do TNP que poderá depender a solução desta questão, mas é indispensável ter presente os termos em que foi
formulado, o que explica muitas das dificuldades que agora se vivem nesta área. Para uma corrente de opinião o TNP tem sido um instrumento útil na medida em que pelo menos não deixou avançar a proliferação para o patamar que, por exemplo, Kennedy previa em 1963 de cerca de 20 potências nucleares por esta altura. Presentemente, para além das cinco iniciais que já eram potências nucleares, com ensaios nucleares realizados em 1968, quando foi assinado, (EUA, USSR, França, Reino Unido e China) há mais três (Índia e Paquistão com testes feitos, e Israel que não confirma esse estatuto) que aliás não são signatários do tratado. Entretanto, seis países desistiram de ser ou tentar ser potência nuclear: o último foi a Líbia; antes tinha sido a África do Sul, a Ucrânia, a Bielo-Rússia, o Kazaquistão e Taiwan. Portanto, há hoje, no máximo nove países com armas nucleares, já incluindo a Coreia do Norte, bastante abaixo do que se receava.
Se porém medirmos o sucesso do tratado à luz dos seus objectivos específicos, talvez a conclusão não deva ser tão optimista: não tem parado a corrida ao armamento nuclear embora a tenha contido a níveis mais baixos, como vimos acima; não tem impedido a proliferação de armamento de
destruição maciça como ficou demonstrado pela revelação do mercado negro nuclear que o Paquistão manteve por cerca de dezoito anos [8] e em que a Coreia do Norte tem sido um participante activo; pode ter ajudado a promover o uso pacífico de energia nuclear, como se
pretendia, mas sem suficientes mecanismos de segurança para impedir o desvio das capacidades adquiridas para fins militares; não levou, finalmente, as cinco primeiras potências nucleares a dar os passos necessários para cumprir os seus compromissos de desarmamento total, como
inequivocamente exige o tratado. Neste último aspecto, o que se tem passado é exactamente o contrário: a China está a modernizar e presumivelmente expandir o seu arsenal; os EUA têm em curso importantes estudos não apenas para modernização das suas armas como para a construção de novas; a redução que acordaram com a Rússia para reduções dos respectivos arsenais (passando de 6000 para 1200 ogivas) [9] não tem significado prático em termos de perigo de utilização [10] .
Há em toda esta situação a existência de dois pesos e duas medidas; silêncio em relação a Israel, conformidade com o facto consumado das situações no Paquistão e na China e um grande alarido à volta do Irão e da Coreia do Norte. No entanto, esta realidade não pode nem deve ser argumento para aceitação das situações nestes dois últimos países. Ambos os casos são extremamente preocupantes pela provável corrida a armamento nuclear que vão desencadear nos vizinhos: o Egipto e a Arábia Saudita, pelo menos no caso do Irão; o Japão e a Coreia do Sul no outro caso. Há suspeitas de que o Egipto tenha feito investigação científica nesse sentido e há provas disso no caso da Coreia do Sul.
A actual administração americana, que não é responsável por esta situação, não tem, no entanto, sido tão habilidosa diplomaticamente quanto seria desejável; devia reconsiderar a política de isolamento da Coreia do Norte que tem seguido e tentar balanceá-la com encorajamentos no sentido do desenvolvimento económico do país. Os europeus, por outro lado, também não se têm mostrado tão intransigentes quanto seria recomendável.
Nada há a esperar de concreto das Nações Unidas e da IAEA, não obstante as diligências que o seu director, o diplomata egípcio el Baradei, empreendeu tendo em vista a próxima conferência de revisão do TNP, prevista para 22/27 de Maio deste ano, e em que proporá uma moratória por cinco anos impedindo a construção de infra-estruturas para enriquecimento de urânio. [11] É, por isso, urgente que se acerte uma linha de acção comum entre americanos e europeus.
[1] Artigos relacionados:”A Coreia do Norte, capacidades militares” de 19 Junho 2003, “A Coreia do Norte, antecedentes da crise” de 20 de Junho 2003, “A Coreia do Norte, saídas da crise” de 26 Julho 2003, “A questão nuclear da Coreia do Norte” de 2 Maio 2004.
Outras referências: Council of Foreign Affairs – Nonproliferation, Proliferation Threats por Esther Pan; Foreign Policy, Jan/Fev 2005, “How to be a nuclear watchdog” , por George Perkowitch; entrevista de Scheidnman, do Monterey Institute of International Studies, para o Council of Foreign Relations.
[2] O volume de trocas comerciais com a China em 2004 atingiu mil milhões de dólares americanos; com a Coreia do Sul 724 milhões e com o Japão 259 milhões. Mais de mil navios norte-coreanos visitam anualmente portos japoneses: 1415 em 2002 e 1071 em 2004. É possível que o Japão ponha em vigor uma nova legislação anti-poluição ( Liability for Oil Pollution Damage ) que, na prática, excluiria da possibilidade de visitarem portos japoneses cerca de 97,5% dos navios norte-coreanos que regularmente estão envolvidos em trocas comerciais com o Japão.
[3] Incluem para além dos EUA e da Coreia do Norte, a China, a Rússia, o Japão e a Coreia do Sul. [4] “We will return to the six nation talks when we see a reason to do so and the conditions are ripe”. Declarações do MNE da Coreia do Norte.
[5] IHT, 14 Fevereiro 2005: “ Iran sends US a stern warning ” por Brian Knowlton.
[6] A Rússia diz compreender as preocupações de segurança da Coreia do Norte mas acrescenta que o caminho para resolver essa questão são negociações.
[7] Ver os seguintes artigos: “ONU. Uma estratégia de mudança” de 22 Dezembro de 2004 e “O domínio das ameaças globais”de 27 Janeiro 2005.
[8] Ver o seguinte artigo: “O mercado negro nuclear” de 10 Março 2004.
[9] Algumas fontes admitem que os dois países reúnem um total de 28000 ogivas.
[10] O Brasil, o Egipto, a Irlanda, o México, a Eslovénia, a Nova Zelândia, a África do Sul e a Suécia que se agrupam sob a designação de uma New Agenda Coalition , pretendem a reforma do TNP e sobretudo a concretização do compromisso de desarmamento total a que estão obrigados pelo tratado.
[11] Esta ideia implica a criação de um consórcio internacional que possa assumir a responsabilidade de cedência de urânio enriquecido para fins pacíficos. Os países que
desenvolverem a capacidade de realizar o ciclo completo do urânio e a capacidade de extrair plutónio do urânio depois de utilizado em reactores ficam extremamente perto de poder construir uma bomba atómica. É esta situação que se pretende evitar. Para este efeito, el Baradei designou um painel de alto nível ( Study Group on Multilateral Nuclear Alternatives ) que deve apresentar um relatório em Março.
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