UNIVERSIDADE DE PERNAMBUCO UPE
PROGRAMA DE MESTRADO EM HEBIATRIA
JAKELLINE CIPRIANO DOS SANTOS RAPOSO
BEBER EM BINGE E USO DE DROGAS ILÍCITAS ENTRE
ESTUDANTES ADOLESCENTES
CAMARAGIBEPE 2015JAKELLINE CIPRIANO DOS SANTOS RAPOSO
BEBER EM BINGE E USO DE DROGAS ILÍCITAS ENTRE
ESTUDANTES ADOLESCENTES
Dissertação apresentada ao programa de mestrado em Hebiatria da Universidade de Pernambuco como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Hebiatria. Orientadora: Profa. Dra. Carolina da Franca Coorientadora: Profa. Dra. Viviane Colares
CAMARAGIBEPE 2015
AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente ao Senhor Jesus pelo dom da vida e por me apoiar e amparar em todo o meu caminho. . Em especial a minha tia, Roziete Cipriano dos Santos, pela educação, dedicação e amor. À minha mãe, Maria Luzia dos Santos, pelos momentos de descontração e por me ensinar que é mais fácil sorrir do que chorar. Ao meu marido, Ricardo Jorge Cardoso da Silva, pela compreensão, apoio e companheirismo. A minha sogra, Maria José, pelo apoio, inclusive o financeiro. Aos adolescentes do Instituto Federal de Pernambuco, aprendo todos os dias com eles. À minha chefia, Departamento de Desenvolvimento Educacional, que viabilizou meu afastamento total, sem o qual não poderia ter me dedicado às atividades acadêmicas. À minha parceira de pesquisa, Ana Carolina Costa, pela companhia, lanches, dedicação, sem você eu não teria conseguido.
Agradeço a minha orientadora, Professora Dra. Carolina da Franca, pela paciência, dedicação e ensinamentos. À minha coorientadora, Professora Dra. Viviane Colares, pela sabedoria e reflexões. Às “anjas”, Paula Valença e Fernanda Soares, pelos momentos divertidos e abrigo em Recife. Ao grupo de pesquisa, pelos momentos de aprendizagem. A minha avó, Marina Conceição (in memoriam), por me ensinar o que é ser solidário e amar ao próximo. A todos os colegas da pósgraduação pelos momentos vividos e compartilhados. Aos professores do mestrado pelo aprendizado compartilhado. Por fim, agradeço a todos que contribuíram para a realização desta pesquisa.
“Tudo quanto fizerdes, fazeio de todo o coração, como para o Senhor e não para os homens...”. Colossenses 3:23
RAPOSO, J. C. S. Beber em binge e uso de drogas ilícitas entre estudantes adolescentes. 2015. 101f. Dissertação (Mestrado). Universidade de Pernambuco, Camaragibe, PE, 2015.
Introdução: A prática de beber em binge é prevalente na população adolescente e está associada a diversos agravos à saúde, assim como o uso de drogas ilícitas. O uso paralelo de álcool e essas drogas está associado ao aumento desses agravos. O objetivo desta investigação é verificar a associação entre o beber em binge e o uso de inalantes, maconha e cocaína entre estudantes adolescentes. Métodos: Tratase de um estudo transversal. Para o cálculo amostral foram considerados os seguintes parâmetros: nível de confiança de 95%, um poder (β) de 80%, frequência do desfecho de 50%, razões de chance de 1.5, efeito de delineamento de 1.2 e perdas de 10%, resultando em uma amostra de 1175 estudantes. Optouse por um amostragem probabilística por conglomerado em duas etapas, sendo a primeira o sorteio das escolas e na segunda, o das turmas. Os dados foram coletados por meio do Youth Risk Behavior Survey, validado para o Brasil. Para este estudo os valores do teste kappa variaram de 0,642 a 1,00. Foi realizado a análise descritiva dos dados, através da distribuição de frequências. Para a análise inferencial utilizouse o teste do Quiquadrado e análise de regressão de Poisson para estimar razões de prevalência (RP), admitindose para ambos os níveis de significância de 5,0% e com intervalos de confiança (IC) de 95% para a regressão. As variáveis que apresentarem valor de p≤0,20 na análise bivariada foram incluídas na análise multivariada, além daquelas que apresentam respaldo na literatura. Foram utilizados os programas estatísticos Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 21 e o Stata 11.0. Resultados: Participaram desse estudo 1139 adolescentes. A prevalência do beber em binge foi de 23,3% e entre os consumidores atuais de álcool essa prevalência foi de 72,7%. A
análise multivariada demonstrou que a probabilidade de um adolescente beber em binge foi quase três vezes mais elevada (IC: 2,283,63) nos usuários de maconha e duas vezes (IC: 1,572,54) nos que usaram inalantes. O uso de cocaína não permaneceu significativo no modelo ajustado. Os fatores demográficos permaneceram na regressão apenas como ajuste. Conclusão: A prática de beber em binge esteve associada ao uso de maconha e inalantes.
Palavraschave: adolescente, comportamento do adolescente, bebedeira, drogas ilícitas.
RAPOSO, J. C. S. Binge drinking and illicit drugs use among teens. 2015. 101f. Dissertation (Master). University of Pernambuco, Camaragibe, PE, 2015.
Background: The practice of binge drinking is prevalent in the adolescent population and is associated with many health problems, as well as the use of illicit drugs. The parallel use of alcohol and these drugs is associated with increased this problems. The purpose of this research is to verify the association between binge drinking and in the use of inhalants, marijuana and cocaine among adolescents. Methods: This was a crosssectional study. For sample calculation the following parameters were considered: a confidence level of 95%, a power (β) of 80%, often the outcome of 50%, odds ratio 1.5, 1.2 design effect and losses of 10%, resulting in a sample 1175 students. We opted for a probabilistic cluster sampling in two stages, the first being the draw of schools and in the second, that of classes. Data were collected through the Youth Risk Behavior Survey, validated in Brazil. For this study the kappa test values varied from 0.642 to 1.00. Descriptive analysis was performed through the distribution of frequencies. For the inferential analysis used the chisquare test and Poisson regression analysis to estimate prevalence ratios (PR), assuming for both significance levels of 5.0% and confidence intervals (CI) 95% for the regression. The variables that present value of p≤0,20 in the bivariate analysis were included in multivariate analysis, as well as those who have supported in the literature. Statistical programs were used Statistical Package for Social Sciences (SPSS) version 21 and Stata 11.0. Results: Participants were 1139 adolescents. The prevalence of binge drinking in was 23.3% and among current alcohol consumers this prevalence was 72.7%. Multivariate analysis showed that the probability of a teenage binge drinking was almost three times higher (CI: 2.28 to 3.63) in marijuana users and twice (CI: 1.57 to 2.54) in that used inhalants. Cocaine use has not remained significant in the adjusted
model. Demographic factors remained in the regression just like setting. Conclusion: The practice of drinking in binge was associated with the use of marijuana and inhalants.
LISTA DE QUADROS Quadro 1 – Alunos por turma e modalidade matriculados no ensino médio no turno diurno da rede pública estadual da Cidade de Olinda – PE de acordo com o SIEPE em 201331 Quadro 2 – Critérios estabelecidos para o cálculo amostral32 Quadro 3 – Valores do teste Kappa 34 Quadro 4 – Variáveis dependentes e independentes por tipo de variável e definição operacional 35
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS CDC – Centers for Disease Control and Prevetion SNC – Sistema Nervoso Central YRBS – Youth Risk Behavior Survey SIEPE Sistema de Informações da Educação de Pernambuco IDH – Índice de Desenvolvimento Humano IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística OR – Odds Ratio PE – Pernambuco TCLE Termo de Consentimento Livre e Esclarecido SM – Salário mínimo SPSS Statistical Package for Social Sciences RP – Razão de Prevalência SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO14 2 REFERENCIAL TEÓRICO18 2.1 Artigo de revisão19 3 PROPOSIÇÃO30 3.1 Objetivo geral31 3.2 Objetivos específicos31 4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS32 4.1 Delineamento33 4.2 Local de estudo33 4.3 População alvo33 4.4 Amostra34 4.4.1 Cálculo amostral34 4.4.2 Procedimento de amostragem34 4.4.3 Critérios de inclusão35 4.4.4 Critérios de exclusão35 4.5 Coleta de dados35 4.5.1 Instrumento para a coleta de dados35 4.5.2 Estudo piloto36 4.5.3 Procedimento de coleta37 4.7 Análise estatística38 4.7.1 Definição das variáveis38 4.7.1 Tabulação e testes estatísticos41 4.8 Considerações éticas42 5 RESULTADOS43 5.1 Artigo 1 – Beber em binge e uso de drogas ilícitas entre adolescentes escolares44 5.2 Artigo 2 – Prevalência e fatores associados à prática de beber em binge entre estudantes adolescentes58 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS79 REFERÊNCIAS81 APÊNDICE A – TERMO DE CONSENTIMENTO NEGATIVO87 APÊNDICE B – TERMO DE ASSENTIMENTO89 APÊNDICE C – QUESTIONÁRIO SOCIOECONÔMICO92
ANEXO 1 – QUESTIONÁRIO YOUTH RISK BEHAVIOR SURVEY – YRBS BRASIL93
ANEXO 2 – APROVAÇÃO DO COMITÊ DE ÉTICA100
ANEXO 3 – APROVAÇÃO DO TERMO DE CONSENTIMENTO NEGATIVO PELO COMITÊ DE ÉTICA101
1 INTRODUÇÃO
Os padrões de consumo do álcool podem ser a experimentação (uso na vida), configurando o primeiro contato com a droga; o uso atual, que corresponde ao uso nos últimos 30 dias e o consumo excessivo, que no caso do álcool também é conhecido como binge drinking ou beber em binge e referese ao consumo de 5 ou mais doses em um curto intervalo de tempo para homens e 4 ou mais doses para mulheres (CENTERS..., 2014a).
Mais da metade da população brasileira já consumiu álcool e desses, 22,1% já relataram ao menos um episódio de consumo excessivo no mês (WORLD..., 2014). Entre os adolescentes brasileiros o consumo excessivo foi de 9,1%, o que representa 1,3 milhão de pessoas (PINSKY et al., 2010).
A prática de beber em binge apresenta alta prevalência entre a população de adolescentes e jovens (CASTRO et al., 2012; CENTERS..., 2014a; STICKLEY et al., 2013). Quase 90% de todo o álcool consumido nos Estados Unidos por jovens é feito na forma de binge (CENTERS..., 2014a). Mais de seis em cada dez adolescentes que consumiram álcool, o fizeram em binge (MILLER et al., 2007).
O consumo excessivo de álcool é responsável por quase 1 em cada 10 mortes e por mais de 1 em cada 10 anos potenciais de vida perdidos (STAHRE et al., 2014). O consumo em binge durante a adolescência é preditor para dependência alcoólica na idade adulta, consumo regular excessivo de álcool, doenças psiquiátricas, abandono escolar, acidentes e uso de drogas ilícitas (VINER; TAYLOR, 2007).
Dentre as drogas ilícitas no Brasil, se destacam a maconha, a cocaína e os inalantes, que são as três primeiras drogas (nessa ordem) mais utilizadas por adolescentes (LARANJEIRA, 2014).
Em relação à maconha, estimase que 125 a 203 milhões de pessoas no planeta sejam usuários dessa substância (DEGENHARDT; HALL, 2012). É a droga ilícita mais consumida no mundo e nas Américas (PERUGA; RINCÓN; SELIN, 2002; DEGENHARDT; HALL, 2012) e seu uso vem aumentando entre os adolescentes brasileiros (MADRUGA et al., 2012; LARANJEIRA, 2014). Quanto aos inalantes, o Brasil apresentava a maior prevalência de uso de substâncias voláteis (inalantes) na vida entre estudantes adolescentes em comparação aos seus pares nos países da América do Sul (HYNESDOWELL et al., 2011). No que diz respeito à cocaína, o Brasil foi apontado como uma das nações emergentes aonde o uso dessa droga vem aumentando, enquanto em outros países esse consumo está diminuindo (MADRUGA et al., 2012; LARANJEIRA, 2014). E seu uso apresentou um aumento significativo entre estudantes adolescentes das capitais do nordeste brasileiro entre os anos de 1987 (0,5%) a 2010 (2,5%) (CARLINI et al., 2010; DUAILIBI; RIBEIRO; LARANJEIRA, 2008). O uso dessas drogas é associado ao consumo excessivo de álcool, transtornos mentais e de dependência, alterações morfológicas no sistema nervoso central (SNC) em adolescentes e aumento da mortalidade entre os jovens (BATALLA et al., 2013; DEGENHARDT; HALL, 2012; GOSSOP; MANNING; RIDGE, 2006; MILLER et al., 2007; SILVAOLIVEIRA et al., 2014). O uso paralelo de drogas ilícitas com o álcool atinge um em cada dez adolescentes e seu uso entre jovens é de três em cada dez (OLIVEIRA et al., 2013). Esse padrão de uso está associado a declínio no desempenho escolar, direção perigosa, sexo não planejado, perda temporária de consciência (blackout) (MCCABE et al., 2006).
Apesar de ser um comportamento prevalente entre os adolescentes e ter efeitos negativos a curto e longo prazo, uma recente revisão apontou uma baixa produção brasileira
científica em relação ao consumo em binge no período de 1999 a 2010 (ARANTES, 2012). No nordeste esse quadro é pior, pois não foi encontrada nenhuma pesquisa que investigou esse padrão de consumo entre estudantes adolescentes e sua associação com drogas ilícitas. Diante do exposto, o objetivo desta pesquisa é verificar a associação entre a prática de beber em binge com o uso de maconha, cocaína e inalantes entre estudantes adolescentes matriculados na rede pública estadual da cidade de Olinda, Pernambuco.
2 REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 1 CONSUMO DE ÁLCOOL EM BINGE POR ADOLESCENTES E JOVENS ESTÁ ASSOCIADO AO USO DE DROGAS ILÍCITAS? – UMA REVISÃO SISTEMATIZADA BINGE DRINKING AMONG ADOLESCENTS AND YOUTH ARE ASSOCIATED WITH THE USE ILLICIT DRUGS? – A SYSTEMIZED REVIEW RESUMO Esta revisão da literatura investigou a associação entre o consumo de álcool em binge e uso de drogas ilícitas entre adolescentes e jovens. Foi consultada a base PubMed usando os descritores: “binge drinking”, “marijuana smoking”, “inhalant abuse”, “cocaine”. Foram incluídos os artigos publicados entre 2010 a 2014, em português, inglês e espanhol e que trataram do objetivo dessa revisão. O consumo de álcool em binge foi associado ao uso de inalantes (OR: 1,66 a 5,02) e maconha (OR: 1,23 a 6,68), mas foram encontrados poucos artigos que investigaram essa associação entre adolescentes e jovens. Palavraschave: Comportamento do Adolescente; Adolescente; Bebedeira; Drogas Ilícitas. ABSTRACT This literature review investigated the association between binge drinking and illicit drug use among youth. It was referred to the PubMed database using the keywords: "binge drinking", "marijuana smoking", "inhalant abuse", "cocaine". Articles were included published between 20102014, in Portuguese, English and Spanish and addressed the objective of this review. Consumption of alcohol was associated with binge use of inhalants (OR: 1.66 to 5.02) and marijuana (OR: 1.23 to 6.68) but found few articles that investigated the association between adolescents and young.
Keywords: Adolescent Behavior; Adolescent; Binge Drinking; Street Drugs.
INTRODUÇÃO
Mais da metade da população mundial já consumiu álcool alguma vez na vida (WHO,
2014), sendo esse consumo prevalente entre os adolescentes e jovens (BEZERRA ET AL., 2009; FRANCA; COLARES, 2008; WHO, 2014), principalmente no que se refere ao consumo excessivo dessa substância. Alguns estudos têm definido o consumo excessivo como binge drinking ou beber em binge, que representa a ingestão de aproximadamente 5 ou mais doses de bebida alcoólica para homens e 4 ou mais doses para mulheres (CDC, 2014; NUNES ET AL., 2012; WECHSLER ET AL., 1995). A prevalência de beber em binge é um pouco mais alta na faixa etária de 15 a 24 anos em comparação com os adultos (CDC, 2014; KEYES; MIECH, 2013; WHO, 2014). A prática de beber em binge é particularmente nociva, pois aumenta rapidamente os níveis de alcoolemia, diminui a capacidade de discernimento e provoca euforia, favorecendo o envolvimento com outras drogas, principalmente as ilícitas (BUU ET AL., 2014; CDC, 2014). Entre as diversas substâncias consideradas ilícitas, as mais utilizadas entre os adolescentes e jovens são os inalantes, a maconha e a cocaína (ALMEIDA ET AL., 2014; DEGENHARDT; HALL, 2012; FRANCA; COLARES, 2008; HYNESDOWELL ET AL., 2011; UNODC, 2014).
É importante conhecer o quanto a prática de beber em binge pode estar associada ao uso de outras drogas, sendo um dado importante para o planejamento de pesquisas e programas de saúde com foco na prevenção do uso de drogas. Diante do exposto, o objetivo desta pesquisa foi sistematizar as informações de base científica abordando a associação entre beber em binge e o uso de drogas ilícitas (maconha, inalantes e cocaína) entre adolescentes e jovens por meio de um levantamento de artigos publicados nos últimos cinco anos.
MATERIAL E MÉTODOS
Este estudo é uma revisão sistematizada da literatura realizada através dos seguintes passos: 1. definição da pergunta norteadora, 2. elaboração dos critérios de elegibilidade dos artigos, 3. seleção dos descritores, 4. escolha da base de dados, 5. cruzamento dos descritores
na base de dados e utilização de alguns filtros, 6. seleção dos artigos levantados no cruzamento seguindo os critérios de elegibilidade e 7. elaboração desse estudo de revisão com os artigos selecionados.
A pergunta norteadora foi “Existe associação entre o consumo de álcool em binge e a utilização de maconha, inalantes ou cocaína entre adolescentes e jovens?”. O levantamento dos artigos foi realizado na base de dados eletrônica PubMed, utilizandose descritores na seguinte estratégia de busca: "binge drinking" AND "marijuana smoking" OR "inhalant abuse" OR "cocaine".
Após o cruzamento dos descritores foram aplicados os filtros: presença de abstract, período entre 01/01/2010 e 31/12/2014, espécie humana, idioma (inglês, português e espanhol), adolescentes (13 a 18 anos) e adultos jovens (19 a 24 anos).
Os critérios de elegibilidade dos artigos desta revisão foram: resumos que abordassem a associação entre beber em binge (BB) e drogas ilícitas (DI) com adolescentes e jovens na faixa etária de 12 a 25 anos. Foram excluídos os resumos repetidos, que abordavam avaliação de programas, pesquisas qualitativas, grupos específicos comumente expostos a um maior risco de uso de drogas, como moradores de rua e profissionais do sexo.
Foi realizada a leitura dos resumos e exclusão dos artigos não elegíveis de acordo com os critérios de inclusão. Na sequência, foram lidos os artigos completos dos resumos selecionados na etapa anterior e realizada novamente a verificação dos critérios de elegibilidade. Três artigos foram selecionados após essa fase. A seleção dos artigos poderia ter sido encerrada com esses três artigos, no entanto, optouse por retornar a base de dados para buscar os artigos relacionados a cada um desses três artigos. Esse recurso de buscar os artigos relacionados a uma referência é oferecido pela base de dados Pubmed. Na sequência, foram seguidos todos os passos anteriormente descritos: utilização dos mesmos filtros para cada busca, leitura dos resumos de acordo com os critérios de elegibilidade e em seguida dos artigos na íntegra. Após essas etapas foram incluídos mais dois artigos. O processo de busca está sintetizado na figura 1.
PubMed 1ª busca Descritores: "binge drinking" AND "marijuana smoking" OR "inhalant abuse" OR "cocaine" 35.996 Após filtrosa: 1.037 Excluídos após a leitura dos resumos: 1.009 Não aborda BB e DI:998; Faixa etária: 08; Avaliação de programa:02; Grupo específico: 01 Excluídos após a leitura dos artigos na íntegra Faixa etária: 04; Não associa BB a DI: 21 1a. seleção: 03 (STICKLEY ET AL., 2013; TUCKER ET AL., 2013; NEUMARK; BARHAMBURGER, 2011) 2ª busca Citações relacionadas: 151 (STICKLEY ET AL., 2013)+140 (TUCKER ET AL., 2013) +94 (NEUMARK; BAR‐HAMBURGER, 2011)= 385 Após fitrosa: 58 (STICKLEY ET AL., 2013)+65 (TUCKER ET AL., 2013)+23 (NEUMARK; BAR‐HAMBURGER, 2011)= 146 Excluídos após a leitura dos resumos Não aborda BB: 66; Não associa BB a DI: 55; Repetido: 20; Faixa etária: 03 Seleção final: 05
RESULTADOS
Fizeram parte deste estudo cinco artigos, dos quais três investigaram a prevalência, fatores de risco e proteção para a prática de beber em binge e nos outros dois foi investigado a prevalência e fatores associados ao uso de inalantes.
Todos os estudos analisados foram de base escolar e com amostras representativas da população estudada. Dos cinco artigos, quatro eram transversais (PATRICK ET AL., 2013; NEUMARK; BARHAMBURGER, 2011; SILVAOLIVEIRA ET AL., 2014; STICKLEY ET AL., 2013) e um longitudinal (TUCKER ET AL., 2013).
Todos os artigos demonstraram significativa associação entre a prática do beber em binge com o uso das drogas ilícitas investigadas, exceto cocaína, pois não foi encontrado nenhum estudo somente com os adolescentes e jovens em relação a essa droga (Tabela 1).
DISCUSSÃO
Em relação à metodologia dos estudos, os pontos de cortes utilizados para avaliar o uso de drogas e consumo de álcool em binge variaram em relação ao tempo de uso pois, três estudos investigaram o uso de drogas nos últimos 30 dias e dois o uso na vida. Para avaliação do consumo de álcool em binge, o tempo de uso variou da seguinte forma: consumo nas duas últimas semanas, nos últimos 30 dias, nos últimos 12 meses e alguma vez na vida. Essa variação limita a comparação de resultados.
Em relação ao sexo, os cinco estudos incluídos consideraram consumir álcool em binge como a ingestão de cinco ou mais doses de bebidas alcoólicas para ambos os sexos. No entanto, o consumo em binge para homens é definido como cinco doses ou mais, e para as mulheres é de quatro doses ou mais, o que equivale a aproximadamente a concentração de 0,08g/dL de alcoolemia (CDC, 2014; NUNES ET AL., 2012; WECHSLER ET AL., 1995). Dessa forma, todos os estudos desta revisão subestimaram o binge para o sexo feminino, pois as meninas que consumiram 4 doses não foram contabilizadas nas prevalências do consumo de álcool em binge.Nesta revisão os cinco estudos incluídos consideraram beber em binge o consumo de cinco ou mais doses de bebidas alcoólicas para ambos os sexos, subestimando o binge para o sexo feminino. O uso de maconha associado ao binge foi investigado por três estudos, dois realizados nos Estados Unidos da América – EUA (TUCKER ET AL., 2013; PATRICK ET AL., 2013) e
um na Rússia (STICKLEY ET AL., 2013). Tucker et al. (2013) utilizou dados de um estudo longitudinal que encontrou o consumo de álcool em binge no primeiro levantamento como um dos preditores para a iniciação de maconha (p<0,001) no segundo levantamento e o inverso também foi encontrado, ou seja, o uso de maconha no primeiro levantamento também foi preditor para a iniciação da ingestão de álcool em binge (OR: 2,06; IC: 1,512,82).
O estudo de Patrick et al. (2013) utilizou dados transversais de 2005 e 2011 e investigou três padrões de consumo de álcool em binge, mas só esta revisão só apresentou os resultados relativos à ingestão de 5 ou mais doses de bebidas alcoólicas. Mas o uso de maconha foi associado a todos os padrões investigados (p<0,001). Stickley et al. (2013) foi o único que avaliou essa associação estratificada por sexo, onde as meninas apresentaram 5,45 (IC: 2,2213,35) vezes mais chance de consumirem álcool em binge quando usaram maconha enquanto os meninos, apresentaram uma chance de 6,68 (IC: 1,7225,92) vezes. Apesar disso, essa diferença não foi discutida pelos autores. Contudo, o uso de drogas ilícitas e o consumo de álcool em binge entre o sexo feminino pode ser mais prejudicial, pois as mulheres são mais vulneráveis a desenvolver e manter comportamentos aditivos do que os homens, visto que o estrogênio pode ter efeitos no metabolismo de dopamina, um dos neurotransmissores do sistema de recompensa (BOBZEAN ET AL., 2014).
Em relação aos inalantes, dois artigos avaliaram seu uso e os indivíduos que consumiram álcool em binge foram mais propensos a usar inalantes (NEUMARK; BAR HAMBURGER, 2011; SILVAOLIVEIRA ET AL., 2014). No estudo realizado em Israel (NEUMARK; BARHAMBURGER, 2011) os indivíduos que consumiram álcool em binge apresentaram quase duas vezes (IC: 1,42,5) mais chance de usarem inalantes. Na pesquisa realizada no Brasil (SILVAOLIVEIRA ET AL., 2014) essa chance mais que dobrou (OR: 5,02 IC: 2,579,81).. Entretanto essa diferença entre os estudos pode ser explicada pela
diversidade de variáveis independentes avaliadas por cada uma das pesquisas e da diferença nos pontos de corte para as variáveis de interesse (álcool em binge e inalantes). No que diz respeito à cocaína, a sua associação com o consumo de álcool em binge não foi investigada na população adolescente de forma específica (SANTOS ET AL., 2012; SILIQUINI ET AL., 2012) embora já tenha sido investigado o uso de cocaína e o consumo atual de álcool (OLIVEIRA ET AL., 2013).
O número reduzido de artigos incluídos nessa revisão pode ser explicado, em parte, pela adoção do descritor binge drinking, pois esse termo é relativamente novo. Sua inclusão no Medical Subject Headings foi no ano de 2013 (MeSH, 2014). No entanto, seu uso teve
início na década de 80, apesar de nessa época sua definição ser incerta (DUNBAR ET AL., 1982). Apenas a partir da década de 90 puderamse encontrar artigos com a definição semelhante à atual (WECHSLER ET AL., 1995). Diante disso, optouse pela supressão da leitura dos títulos, partindose para a leitura dos resumos logo após o cruzamento. Essa estratégia foi utilizada para minimizar a perda de artigos que investigassem binge e não informassem no título.
CONCLUSÃO
Dessa forma, podese concluir que a prática de beber em binge esteve associada a uma maior chance de uso de inalantes e maconha entre adolescentes e jovens, assim como a maconha se mostrou associada a uma maior chance de beber em binge. No entanto, não possível verificar essa associação para o uso de cocaína na população definida para esta pesquisa.
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3 PROPOSIÇÃO 3 OBJETIVOS
3.1 Objetivo geral
Verificar fatores associados ao consumo de álcool em binge e drogas ilícitas entre estudantes adolescentes.
3.2 Objetivos específicos
x Estimar a prevalência do consumo de álcool em binge, drogas ilícitas entre
adolescente;
x Identificar os fatores associados à prática de beber em binge e drogas ilícitas (sexo, faixa etária, regime de ensino, rendimento familiar e escolaridade materna);
x Verificar se existe associação entre a prática de beber em binge e uso atual e na vida de drogas ilícitas.
4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 4.1 Delineamento Estudo transversal, descritivo e analítico. 4.2 Local do estudo
Olinda é um município pertencente a região metropolitana do Recife. É o menor município em área, mas é a terceira maior cidade de Pernambuco em quantidade de habitantes, com uma população estimada de 377.779 habitantes, sendo 62.025 (16%) adolescentes na faixa etária de 10 a 19 anos. Também apresenta a maior taxa de densidade demográfica do Estado e a quinta maior do Brasil, com cerca de 9063,58 hab./km² e possui um índice de desenvolvimento humano (IDH) de 0,735 (INSTITUTO..., 2013a). 4.3 População alvo Estudantes adolescentes com idade entre 13 a 19 anos, matriculados no ensino médio da rede estadual de ensino no município de Olinda. Cerca de 75% de todos os estudantes do ensino médio de Olinda (INSTITUTO..., 2013a) estão matriculados nas 32 escolas públicas
estaduais que oferecem ensino médio em três regimes de ensino: regular (aula em apenas um turno), semiintegral (aula nos dois turnos em dois dias na semana) e integral (aula nos dois turnos em todos os dias da semana) (SISTEMA..., 2013).
Segundo dados do Sistema de Informações da Educação de Pernambuco – SIEPE (2013), o percentual de alunos matriculados no ensino médio regular, semiintegral e integral nos turnos matutino e vespertino foi de 67% em relação ao total de estudantes. A distribuição dos alunos por série, turno e modalidade de ensino está disposta no quadro 1.
Turma Regular Manhã Regular Tarde Semiintegral Integral Total
1º ano 1.018 1.139 435 531 3.123 2º ano 753 799 343 324 2.219 3º ano 602 550 22 125 1.299 Total 2.373 2.488 800 980 6.641 Quadro 1. Alunos por turma e modalidade matriculados no ensino médio no turno diurno da rede pública estadual da Cidade de Olinda – PE de acordo com o SIEPE em 2013. 4.4 Amostra 4.4.1 Cálculo amostral
A amostra para este estudo foi calculada no site OpenEpi (http://www.openepi.com/Menu/OE_Menu.htm). Para as associações entre o consumo em binge e o uso de drogas foram estabelecidos os critérios descritos no quadro 2.
4.4.2 Procedimento de amostragem
O planejamento amostral foi realizado a partir de uma amostragem probabilística por conglomerado em dois estágios, sendo a unidade primária de amostragem: a escola e a unidade secundária de amostragem: as turmas. Todos os estudantes do grupo (conglomerado) e na faixa etária da pesquisa fizeram parte da amostra. Optouse pela amostra por conglomerados partindo do principio de que estudantes de uma mesma turma guardam entre
si características similares o que prejudicaria a heterogeneidade dos dados. A localização da escola não foi considerada, pois a distribuição dessas por bairro não segue nenhum critério préestabelecido. Foram sorteadas 22 escolas, o que corresponde a 69% das escolas estaduais de Olinda e 60 turmas. A randomização foi realizada por meio do site: http://www.randomizer.org/. Critérios Desfecho Drogas ilícitas Nível de confiança 95% Poder 80% Razão exposto/não exposto 1:1 Frequência do desfecho no grupo não expostos 50% OR (Odds Ratio) 1.5 Efeito de delineamento Total sem perdas 1.2 979 Perdas 20% Total 1175 indivíduos Quadro 2. Critérios estabelecidos para o cálculo amostral. 4.4.4 Critérios de inclusão
x Estudantes adolescentes, de ambos os sexos, na faixa etária de 13 a 19 anos, regularmente matriculados no ensino médio das escolas públicas estaduais de Olinda PE.
4.4.5 Critérios de exclusão
x Apresentar alguma deficiência ou disfunção que impossibilitasse o pesquisado de responder ao questionário.
x Questionários com 20% ou mais de questões não respondidas.
4.5 Coleta de dados
Os dados foram coletados por meio do questionário validado no Brasil Youth Risk Behavior Survey – YRBS/Brasil (GUEDES E LOPES, 2010) elaborado pelo Center for Disease Control and Prevention (CDC), com o objetivo de monitorar seis tipos de comportamentos de risco à saúde de adolescentes e jovens (Anexo 1).
O questionário é autoaplicável e apresenta 87 perguntas. Para esse estudo foram utilizados somente questões dos módulos de consumo de álcool (três questões), maconha (duas questões), outras drogas (três questões) e informações gerais relacionadas a características demográficas (duas questões), socioeconômicos (duas questões) e relacionados à escola (uma questão). (APÊNDICE C).
4.5.2 Estudo piloto
Foi realizado um estudo piloto conduzido com o objetivo de padronizar a coleta de dados. Esse estudo foi realizado com 175 estudantes matriculados em cinco escolas públicas estaduais no município de Olinda.
Durante o estudo piloto foram observados alguns pontos importantes para a realização da pesquisa propriamente dita, como a dificuldade de retorno dos termos de consentimento livre e esclarecido (TCLE). Foram entregues 400 termos com retorno de apenas 175, dado que a maioria dos adolescentes referia que havia esquecido em casa. Isso levou as pesquisadoras a solicitarem ao Comitê de Ética a utilização do termo de consentimento negativo (APÊNDICE A) em substituição ao TCLE, visto que diversas pesquisas nacionais e internacionais que avaliam comportamentos entre adolescentes e jovens já o utilizam (INSTITUTO..., 2013b; CENTERS..., 2014b).
Também foi verificado o tempo total gasto de aplicação em uma sala de aula. No geral, esse tempo variou de acordo com a quantidade de alunos participantes presentes e da série, demorandose mais no 1º ano e nas turmas com maior quantidade de alunos participantes e menos no 3º ano e em turmas menores. No piloto, os alunos não participantes ficavam assistindo aula normalmente, enquanto os participantes ficavam em outra sala para responder ao questionário, no entanto para a pesquisa, os não participantes permaneciam na sala com os participantes durante a aplicação do instrumento. O tempo total gasto em uma aplicação durante o piloto variou de 30 a 90 minutos.
A reprodutibilidade foi realizada por meio de testereteste, com intervalo de nove dias entre uma aplicação e a outra, e conferida através do Kappa, os valores encontrados variaram de 0,642 a 1,00 nas questões investigadas (Quadro 3). Variáveis Valor do kappa Idade 0,944 Sexo 0,958 Escolaridade da mãe 0,642 Rendimento familiar 0,916 Beber em binge 0,702 Uso de maconha na vida 0,728 Uso atual de maconha 0,657 Uso de cocaína na vida Não computou¹ Uso atual de cocaína Não computou¹ Uso de inalantes na vida 1,00 Quadro 3. Valores do teste Kappa. (1) Ninguém informou o uso de cocaína na vida ou atual. 4.5.3 Procedimento de coleta A coleta de dados ocorreu no período de abril a agosto do ano de 2014 nas turmas de ensino médio nas escolas públicas estaduais de Olinda PE. O questionário foi aplicado em sala de aula (sem a presença dos professores), com todos os alunos presentes no dia da coleta, que tiveram o consentimento dos pais, através do termo de consentimento negativo para os menores de 18 anos, e que concordaram em participar do estudo por meio do termo de assentimento (APÊNDICE B).
A aplicação do questionário foi realizada por duas pesquisadoras (mestrandas). Inicialmente as pesquisadoras entravam em contato com a direção da escola, essa informava a viabilidade da aplicação dos questionários nas turmas sorteadas. Após a autorização da direção, as pesquisadoras se dirigiam as turmas; se apresentavam aos alunos; informavam sobre os objetivos da pesquisa e entregavam o termo de consentimento negativo para que os pais assinassem.
Após no máximo três dias as pesquisadoras retornavam para recolhimento dos termos negativos e aplicação do instrumento. Neste momento também eram distribuídos os termos de
assentimento; as informações acerca dos objetivos da pesquisa eram repetidas, esclarecendo aos estudantes que as informações fornecidas serão mantidas em sigilo, não influenciando no seu desempenho escolar, que não existe resposta certa ou errada e que as informações dadas só seriam utilizadas para fins de pesquisa.
O tempo de aplicação dos questionários variou de 30 a 60 minutos a depender do número de alunos participantes presentes na sala e da série. À medida que os estudantes finalizavam o questionário, eles podiam sair da sala. As pesquisadoras permaneceram na sala de aula todo o tempo decorrido para aplicação do questionário.
4.6 Análise estatística 4.6.1 Definição das variáveis
Foi considerada variável dependente o uso atual e na vida de drogas ilícitas. O uso atual foi definido como o uso, pelo menos uma vez, de maconha ou cocaína nos últimos 30 dias anteriores à pesquisa. O uso na vida referese ao uso de maconha, inalantes ou cocaína, alguma vez na vida.
As variáveis independentes foram os dados demográficos, socioeconômicos e relacionados à escola (regime de ensino) recategorizadas de acordo com a literatura ou estatística. A prática de beber em binge, definida como o consumo de 5 doses ou mais de bebidas alcoólicas em uma única ocasião nos últimos 30 dias anteriores à pesquisa foi recategorizada de acordo com os resultados do Youth Risk Behavior Surveillance de 2013 (CENTES..., 2014b) (Quadro 4).
Variável Categorias coletadas Definição
operacional Variável dependente
Uso de drogas na vida (maconha, inalantes ou cocaína) Nenhuma vez 1ou 2 vezes 3 a 9 vezes 10 a 19 vezes 20 a 39 vezes 40 vezes ou mais Nenhuma vez 1 ou mais vezes (CENTERS..., 2014b)
Variável Categorias coletadas Definição operacional Uso atual de drogas (maconha ou cocaína) Nenhuma vez 1ou 2 vezes 3 a 9 vezes 10 a 19 vezes 20 a 39 vezes 40 vezes ou mais Nenhuma vez 1 ou mais vezes (CENTERS..., 2014b) Variáveis independentes Sexo Feminino Masculino Feminino Masculino Idade 12 anos ou menos 13 anos 14 anos 15 anos 16 anos 17 anos 18 anos ou mais 1315 anos 1619 anos (MOHANAN et al, 2014)
Grau de escolaridade da mãe Analfabeto ou fundamental incompleto
Fundamental completo Ensino médio incompleto
Ensino médio completo ou superior incompleto Superior completo Não sei informar ≤8 anos de estudo >8 anos de estudo (GEIB et al, 2007; TENÓRIO et al, 2010)
Variável Categorias coletadas Definição operacional Rendimento familiar (em salários
mínimos SM)
Até 1 SM (até R$724,00
Mais de 1 a 2 SM (entre R$725 – R$1448,00
Mais de 2 a 3 SM (entre R$1.448,00 – R$2.172,00)
Mais de 3 a 5 SM (entre R$2.173,00 – R$3.620,00)
Mais de 5 SM (mais de R$3.621,00) Não sei informar Até 1 SM >1 SM (Distribuição de frequências) Regime de ensino Regular Semiintegral Integral Semi integral/Integral Regular
Consumo de álcool em binge nos últimos 30 dias Nenhum dia 1 dia 2 dias 3 a 5 dias 6 a 9 dias 10 a 19 dias 20 dias ou mais Nenhum dia 1 ou mais dias (CENTERS..., 2014b) Consumo atual de álcool (últimos 30 dias) Nenhum dia 1ou 2 dias 3 a 9 dias 10 a 19 dias 20 a 29 dias Todos os 30 dias Nenhum dia 1 ou mais dias (CENTERS..., 2014b)
Variável Categorias coletadas Definição operacional Uso de maconha na vida Nenhum dia 1ou 2 dias 3 a 9 dias 10 a 19 dias 20 a 39 dias 40 a 99 dias 100 ou mais dias Nenhum dia 1 ou mais dias (CENTERS..., 2014b) Uso atual de maconha (últimos 30 dias) Nenhuma vez 1ou 2 vezes 3 a 9 vezes 10 a 19 vezes 20 a 39 vezes 40 vezes ou mais Nenhuma vez 1 ou mais vezes (CENTERS..., 2014b) Uso de cocaína na vida Nenhuma vez 1ou 2 vezes 3 a 9 vezes 10 a 19 vezes 20 a 39 vezes 40 vezes ou mais Nenhuma vez 1 ou mais vezes (CENTERS..., 2014b)
Uso atual de cocaína (últimos 30 dias) Nenhuma vez 1ou 2 vezes 3 a 9 vezes 10 a 19 vezes 20 a 39 vezes 40 vezes ou mais Nenhuma vez 1 ou mais vezes (CENTERS..., 2014b)
Variável Categorias coletadas Definição
Uso de inalantes na vida Nenhuma vez 1ou 2 vezes 3 a 9 vezes 10 a 19 vezes 20 a 39 vezes 40 vezes ou mais Nenhuma vez 1 ou mais vezes (CENTERS..., 2014b)
Quadro 4. Variáveis dependentes e independentes por tipo de variável e definição operacional.
4.6.2 Tabulação e testes utilizados
Os dados foram tabulados por meio do programa EpiData (versão 3.1). Para a análise dos dados foi utilizado o programa Statistical Package for Social Sciences (SPSS) para Windows versão 21 e STATA na versão 11.0.
Realizouse a análise quantitativa das informações através da distribuição de frequências. Para o estudo das associações entre as variáveis categóricas foi realizada análise bivariada, utilizando o teste do Quiquadrado de Pearson.
A regressão de Poisson foi usada para verificar a influência das variáveis independentes na ocorrência das variáveis dependentes “uso atual e na vida de drogas ilícitas”. Foram ajustados modelos univariado e multivariado com as variáveis que apresentaram significância inferior a 20% (p<0,20) na análise univariada. Obtevese a razão de prevalência (RP) com seus respectivos intervalos de confiança. A margem de erro utilizada foi de 5% e os intervalos foram obtidos com 95% de confiança.
Para a associação entre as variáveis dependentes “uso atual e na vida de drogas ilícitas” com o consumo de álcool em binge, optouse por agregar as informações das drogas com maiores prevalências, para o uso na vida foram utilizadas as informações sobre o uso alguma vez na vida de maconha, inalantes ou cocaína e para o uso atual foram utilizadas as informações sobre o uso de maconha e cocaína nos 30 dias anteriores à pesquisa, pois o questionário utilizado não dispunha dessa pergunta para o uso de inalantes.
4.7 Considerações éticas
O presente projeto de pesquisa representa parte de um projeto maior, que tem por título “Atenção à saúde do adolescente nos serviços públicos de Olinda”, o qual foi aprovado (Parecer: 672.711) (ANEXO 2) pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Pernambuco, conforme preconizado pelo CONEP através da Resolução do Conselho Nacional de Saúde Nº 466/12.
5 RESULTADOS 5.1 Artigo 12 BEBER EM BINGE E USO DE DROGAS ILÍCITAS ENTRE ADOLESCENTES ESCOLARES BINGE DRINKING AND ILLICIT DRUG USE AMONG SCHOOL ADOLESCENTS RESUMO
Introdução: A prática de beber em binge diminui a capacidade de discernimento e pode aumentar o risco de envolvimento de adolescentes com drogas ilícitas. Objetivos: Investigar a associação entre a prática de beber em binge e o uso de drogas ilícitas (maconha, cocaína e inalantes) em adolescentes escolares. Casuística e Métodos: Estudo transversal, com 175 estudantes, de ambos os sexos, matriculados no ensino médio da rede pública de ensino. A seleção amostral foi probabilística em duas etapas, com sorteio das escolas e turmas, respectivamente. Os dados foram coletados em Abril de 2014 em cinco escolas utilizandose a versão validada em português do Youth Risk Behavior Survey. Foram utilizados os módulos sobre consumo de bebidas alcoólicas, uso de maconha e outras drogas. Foram realizadas análises descritivas, com distribuição de frequências e inferencial, através do teste do Qui quadrado para associações. Resultados: A maioria dos adolescentes era do sexo feminino (56,7%), na faixa etária de 1619 anos (70,2%), matriculados na escola regular (80,7%) e com
renda familiar acima de um salário mínimo (54,3%). O consumo de álcool em binge, inalantes e cocaína não apresentou diferença significativa entre os sexos (p>0,05), ao contrário do uso de maconha, que foi maior nos meninos (p<0,05). Todos os padrões de uso de drogas foram associados ao consumo de álcool em binge (p<0,05). Conclusão: A prática de beber em binge entre adolescentes foi associada ao uso de maconha, cocaína e inalantes.
Descritores: Adolescente; Comportamento do adolescente; Bebedeira; Bebidas alcoólicas; Drogas ilícitas.
ABSTRACT
Introduction: Binge drinking decreases the capacity for discernment among adolescents. For that reason, adolescents who binge drinking may have higher risk of use illegal drugs. Objectives: Investigate the association between the binge drinking and the use of illicit drugs (marijuana, cocaine and inhalants) among adolescent students. Patients and Methods: the Crosssectional study with 175 students, from both genders, enrolled in high school in the public school system. Cluster performed the sample selection with the draw of schools and classes, respectively. Data were collected in April 2014 in five schools using the validated version in Portuguese of the Youth Risk Behavior Survey. Modules on alcohol consumption, use of marijuana and other drugs were used. Results: Most of the students were female (56.7%), aged 1619 years (70.2%) enrolled in regular schools (80.7%) and family income above the minimum wage (54.3%). Binge drinking, inhalants, and cocaine showed no significant difference between the sexes (p>0,05), unlike the use of marijuana, which was higher in boys (p<0,05). All drug use patterns were associated with the binge drinking. Conclusion: The practice of binge drinking among adolescents was associated with the use of marijuana, cocaine and inhalants.
Descriptors: Adolescent; Adolescent behavior; Binge drinking; Alcoholic beverages; Street drugs.
INTRODUÇÃO
No Brasil, o consumo de álcool é permitido por lei somente aos maiores de 18 anos, entretanto quase 35% dos adolescentes com idade entre 14 a 17 anos consomem álcool. E desses, 26% consomem álcool de maneira excessiva, ou seja, em binge(1). Essa prática está
associada a diversos agravos agudos à saúde, como intoxicações, violência e acidentes(24) e,
particularmente nos adolescentes, às alterações neurológicas, pois seu sistema nervoso ainda está em desenvolvimento(56).
O álcool por ser uma droga de fácil acesso(7), também pode representar uma “porta de
entrada” para o uso de maconha e de outras drogas ilícitas(8). E o uso de mais de uma droga
pode potencializar os efeitos negativos no organismo(9), que vão desde a intoxicações, a
transtornos de dependência e morte(1013).
Diante do exposto, o objetivo do presente estudo foi verificar a associação entre o consumo de álcool em binge e o uso de drogas ilícitas entre estudantes adolescentes da rede pública de ensino.
CASUÍSTICA E MÉTODOS
Este foi um estudo transversal e fez parte do projeto maior "Atenção Integral à Saúde dos Adolescentes nos Serviços Públicos de Olinda". Para o cálculo amostral foi utilizado 15% da amostra total do projeto. A seleção da amostra foi realizada por conglomerado em dois estágios: no primeiro, as escolas foram sorteadas e no segundo, as turmas em cada uma das escolas. Fizeram parte da amostra cinco escolas e 12 turmas do turno diurno.
A coleta de dados ocorreu em abril de 2014 por meio da aplicação da versão validada no Brasil do questionário autoadministrado Youth Risk Behavior Survey – YRBS Brasil(14).
Esse instrumento avalia condutas de risco à saúde de adolescentes e jovens e está dividido em 10 módulos. Para esta pesquisa foram utilizados apenas os módulos de consumo de álcool, uso de maconha e uso de outras drogas (cocaína e inalantes). O instrumento foi aplicado em sala de aula, sem a presença do professor, por pesquisadores previamente treinados num período de tempo entre 30 e 60 minutos.
A prática de beber em binge foi avaliada através da questão: “Durante os últimos 30 dias, em quantos dias você tomou cinco ou mais doses de bebida alcoólica em uma mesma ocasião?”, com opções de resposta entre nenhum dia e 20 dias ou mais. O uso de drogas ilícitas foi investigado por meio de cinco questões. Maconha foi investigada com as seguintes questões: “Durante sua vida, quantas vezes você usou maconha?” e “Durante os últimos 30 dias, quantas vezes você usou maconha?”. Para o uso de cocaína as questões foram: “Durante sua vida, quantas vezes você usou qualquer forma de cocaína, incluindo pó, pedra ou pasta?” e “Durante os últimos 30 dias, quantas vezes você usou qualquer forma de cocaína, incluindo pó, pedra ou pasta?”. O uso de inalantes foi investigado pela pergunta: “Durante sua vida, quantas vezes você cheirou cola, respirou conteúdos de spray aerossol (lança perfume), ou inalou tinta ou spray que deixa “ligado”?”. Todas as opções de respostas foram dicotomizadas(15) em nenhum(a) dia/vez e um ou mais dias/vezes para realização da análise de
associação.
Os dados foram tabulados com dupla entrada utilizando o software Epidata versão 3.1 e os erros detectados foram corrigidos. Foi realizada a análise estatística descritiva e inferencial. Para testar as associações foi utilizado o teste do quiquadrado admitindose significância aos valores de p<0,05. As análises foram realizadas usando o SPSS para Windows.
Esta pesquisa foi aprovada pelo comitê de ética da Universidade de Pernambuco (protocolo: 568.996). Os participantes concordaram em participar da pesquisa através da
assinatura do termo de assentimento e do termo de consentimento livre e esclarecido por seus pais/responsáveis.
RESULTADOS
A amostra foi composta por 175 estudantes, dos quais quatro foram excluídos na fase da análise: três por não informarem o sexo e um por não preencher mais de 20% do questionário. Desta forma, 171 questionários foram analisados.
A maioria dos participantes era do sexo feminino (57%), estava matriculada na escola regular (80,7%), informou renda familiar de mais de um salário mínimo (54,3%), e encontravase na faixa etária de 16 a 19 anos (70,2%).
A prática de beber em binge foi informada por 19,3% dos estudantes e por 65,2% dos que relataram consumir pelo menos uma dose de álcool nos últimos 30 dias. Dentre as drogas ilícitas, o uso na vida de maconha (10,5%) superou o uso de inalantes (6,5%) e cocaína (4,1%). Em relação ao uso atual, a maconha (4,1%) também foi mais referida em comparação com a cocaína (1,2%). O uso atual de inalantes não foi investigado neste estudo.
Na análise estratificada por sexo, apenas o uso de maconha na vida apresentou diferença significativa, com uma maior proporção de uso entre os meninos (Tabela 1). Em relação ao consumo do álcool em binge, observouse associação com o consumo de maconha, cocaína e inalantes (uso na vida e atual). (Tabela 2).
DISCUSSÃO
A prática de beber em binge foi um comportamento relatado por dois em cada dez adolescentes escolares pesquisados. Essa proporção de adolescentes que relataram beber em binge também foi verificada entre estudantes do ensino médio de 14 a 18 anos de escolas
públicas e privadas nas 27 capitais brasileiras, onde 20.9% relataram consumir álcool em binge nos últimos 30 dias(16).
O consumo de álcool em binge foi comum para a maioria dos que relataram consumir pelo menos uma dose de álcool nos últimos 30 dias. Pesquisa realizada com estudantes do ensino médio nos Estados Unidos da América encontrou resultado similar (64,2%)(17). Esses
resultados apontam que a maior parte do consumo de álcool entre adolescentes escolares é feito na forma de binge, e esse padrão de consumo é considerado de risco, pois aumenta rapidamente o nível de álcool no sangue e os efeitos deletérios do álcool de forma aguda.
O uso de maconha e cocaína (na vida e atual) foi relativamente mais elevado do que o encontrado nos últimos levantamentos nacionais com a população adolescente(1,18). Sugerese
que essa diferença se deva ao fato desses levantamentos terem sido realizados em nível nacional, o que pode ter distribuído essa prevalência, visto que o consumo de drogas difere por tipo de escola (pública/privada), por cidade e, região investigada, com uma maior predominância no Sudeste e menor no Norte do País(18). Em relação ao uso de inalantes,
observouse nesse estudo uma prevalência similar à pesquisa realizada com estudantes de 15 a 19 anos em Minas Gerais, Sudeste do Brasil, no qual, 6,4% dos estudantes da rede pública de ensino relataram o uso de inalantes durante a vida(19).
A prática de beber em binge, assim como o uso de drogas ilícitas (na vida e atual) não apresentaram diferenças significativas entre os sexos, em concordância com outros estudos realizados com adolescentes(1920). Esse ainda é um tema controverso pois outras pesquisas
indicam que o sexo masculino ainda representa um fator de risco para o uso de álcool e drogas lícitas(4,2122). Contudo, pesquisa de base populacional alerta para uma tendência do aumento de
87% em um período de seis anos para o consumo de álcool em binge entre as mulheres do Nordeste Brasileiro, sendo o maior aumento em comparação com outras regiões brasileiras(1).
Tabela 1. Distribuição dos participantes de acordo com o sexo, consumo de álcool em binge e uso de drogas ilícitas. Olinda, 2014 Consumo de álcool e drogas Sexo Valor de p Feminino Masculino N (%) N (%) Beber em binge 0,474* Nenhum dia 80 (82,5) 57 (78,1) Um ou mais dias 17 (17,5) 16 (21,9) Uso de maconha na vida 0,009† Nenhum dia 92 (94,8) 61 (82,4) Um ou mais dias 05 (5,2) 13 (17,6) Uso atual de maconha 0,450† Nenhuma vez 94 (96,9) 70 (94,6) Uma ou mais vezes 03 (3,1) 04 (5,4) Uso de cocaína na vida 0,450† Nenhuma vez 94 (96,9) 70 (94,6) Uma ou mais vezes 03 (3,1) 04 (5,4) Uso atual de cocaína 0,847† Nenhuma vez 96 (99,0) 73 (98,6) Uma ou mais vezes 01 (1,0) 01 (1,4) Uso de inalantes na vida 0,421†
Nenhuma vez 92 (94,8) 67 (91,8) Uma ou mais vezes 05 (5,2) 06 (8,2) *Quiquadrado. †Teste exato de Fischer. Tabela 2. Associação entre beber em binge e uso de drogas ilícitas. Olinda, 2014 Binge drinking Valor de p Nenhum dia 1 ou mais dias N(%) N(%) Uso de maconha na vida <0,001* Nenhum dia 130 (94,9) 22 (66,7) Um ou mais dias 07 (5,1) 11 (33,3) Uso atual de maconha <0,001† Nenhuma vez 137 (100,0) 26 (78,8) Uma ou mais vezes 00 (0,0) 07 (21,2) Uso de cocaína na vida 0,003† Nenhuma vez 135 (98,5) 28 (84,2) Uma ou mais vezes 02 (1,5) 05 (15,2) Uso atual de cocaína 0,037† Nenhuma vez 137 (100,0) 31 (93,9) Uma ou mais vezes 00 (0,0) 02 (6,1) Uso de inalantes na vida 0,040† Nenhuma vez 130 (95,6) 28 (84,8) Uma ou mais vezes 06 (4,4) 05 (15,2) *Quiquadrado. †Teste exato de Fischer.