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Análise da bioética na Coréia

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Academic year: 2021

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(1)PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO. KUN YOUNG YU. ANÁLISE DA BIOÉTICA NA CORÉIA. MESTRADO EM DIREITO. São Paulo 2010.

(2) 2 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO. KUN YOUNG YU. ANÁLISE DA BIOÉTICA NA CORÉIA. MESTRADO EM DIREITO. Dissertação apresentada à banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para a obtenção do título de Mestre em Direito, sob a orientação da Prof. Maria Celeste Cordeiro Leite dos Santos.. São Paulo 2010.

(3) 3. BANCA EXAMINADORA. _________________________________ Examinador 1. _________________________________ Examinador 2. _________________________________ Examinador 3.

(4) 4. Dedico este trabalho à memória do meu falecido pai. Dedico também às minhas irmãs e mãe pelo apóio e compreensão..

(5) 5. Agradeço a Deus pela oportunidade de realizar este estudo quando não tinha oportunidade nem condição financeira e de saúde para tal. Agradeço à Maria Kim, tradutora de língua coreana, pela ajuda com os textos em língua coreana. Agradeço à querida Professora Maria Celeste pela paciência e por acreditar em mim até o fim..

(6) 6. Resumo A presente pesquisa tem por objetivo analisar a bioética coreana através da análise dos elementos históricos, sociais, culturais e filosóficos do país para entender como tais elementos influíram na constituição da bioética naquele país. Inicia-se o trabalho através do estudo do escândalo protagonizado pelo maior cientista do país na área, o Professor Hwang Woo Suk, e analisando a implicação social e política de tal evento, aprendemos sobre os valores que nortearam a bioética local, que são o pragmatismo e o seu forte apelo social. Veremos como esta ciência foi habilmente manuseada para fins propagandísticos pelo governo local, ao atribuir caráter patriótico ao seu desenvolvimento e a cumplicidade com que toda uma nação abraçou este “projeto nacional” sob o qual depositaram anseios muito além dos benefícios médicos que se propunha alcançar inicialmente. Na análise dos fatores que participaram na formação desta bioética singular analisaremos a vinculação das pesquisas bioéticas aos planos econômicos do governo, a influência de vários elementos sociais e filosóficos como o hedonismo cultural, a filosofia local de cunho pragmática e empírica, o Silhak, a influência econômica das pesquisas pelo capitalismo comunitário praticado no país, e o apelo patriótico atribuído ao mesmo pelos fatores históricos e princípios como o Darwinismo Social. A análise dos elementos mencionados acima ajuda a entender como um país tão avançado nas pesquisas na área de biotecnologia, possui uma bioética tão fraca em conteúdo ético, que em última análise foi a responsável pela eclosão da fraude nas pesquisas de clonagem de célulastronco.. Palavras-chave: Bioética, células-tronco, Hwang Woo Sook, Coréia do Sul, Confucionismo, Utilitarismo, Silhak, Darwinismo social, Capitalismo comunitário, Declaração de Helsinke..

(7) 7. ABSTRACT The present research aims at analyzing the Korean bioethics through the analysis of the historical, social, cultural and philosophical elements of the country to understand how such elements influenced in the constitution of bioethics in that country. The work is started through the study of scandal perpetrated by the major scientist of the country in the area, Professor Hwang Woo Suk, and by analyzing the social and political impact of such event we learnt about the values that guided the local bioethics, which are pragmatism and its strong social appeal. We will see how this science was skillfully handled for propagandistic purposes by the local government, upon attribution of a patriotic character to its development and the complicity with which an entire nation embraced this "national project" under which they placed expectations much beyond the medical benefits initially targeted. In the analysis of the factors that participated in the formation of this unique bioethics, we will analyze the association of the bioethical researches to the economic plans of the government, the influence of the several social and philosophical elements such as cultural hedonism, the local culture of pragmatic and empiric nature, the Silhak, the economic influence of the research for the community capitalism practiced in the country, and the patriotic appeal attributed thereto by the historical factors and principles such as Social Darwinism. The analysis of the aforementioned elements helps us to understand how a country so advanced in the researches on the biotechnology area, has a bioethics that is so weak in ethical content, that in last analysis it was responsible for the outbreak of the fraud in the stem cells cloning research. Keywords: Bioethics, stem cells, Hwang Woo Sook, South Korea, Confucianism, Utilitarism, Silhak, Social Darwinism, Community Capitalism, Declaration of Helsinki..

(8) 8 SUMÁRIO INTRODUÇÃO. 11. 1. O DESENVOLVIMENTO DA BIOTECNOLOGIA NA CORÉIA DO SUL 1.1. Os planos econômicos do governo e o progresso científico do país. 16. 1.2. O investimento em biotecnologia. 18. 1.3. Da análise do desenvolvimento científico da Coréia. 21. 2. O ESCÂNDALO HWANG WOO SUK 2.1. O sucesso de Hwang na biotecnologia. 23. 2.2. O escândalo ético de Hwang nas pesquisas genéticas. 27. 2.3. A repercussão política e social do escândalo. 31. 2.4. Sobre a violação da Lei de Bioética e da Declaração de Helsinque. 34. 3. A ANÁLISE DA EVOLUÇÃO HISTÓRICA E POLÍTICA DA BIOÉTICA NA COREIA 3.1. O surgimento dos comitês éticos. 42. 3.2. A criação da lei de bioética e biossegurança da coréia. 47. 3.2.1. Cronograma da elaboração das leis de bioética na Coreia. 48. 4. ANÁLISE DA LEI DE BIOÉTICA E BIOSSEGURANÇA COREANA 4.1. Da visão geral da lei. 54. 4.2. Do Comitê Nacional de Bioética e das “Institutional Review. 58. Boards” 4.3. Das pesquisas embrionárias e das instituições de produção e pesquisa de embriões. 61.

(9) 9. 4.4. Das instituições médicas de produção de embriões. 62. 4.5. Das instituições médicas de pesquisa de embriões. 63. 4.6. Das instituições de produção e pesquisa de clones de embriões de. 64. células somáticas 4.7. Das pesquisas de DNA. 65. 4.8. Da proteção e uso das informações genéticas. 68. 4.9. Das terapias genéticas. 71. 4.10. Da fiscalização e controle das pesquisas. 72. 4.11. Normas suplementares. 74. 4.12. Das cláusulas penais. 75. 4.13. Disposições gerais. 80. 5. ANÁLISE CONCEITUAL DA BIOÉTICA COREANA 5.1. Visão geral. 82. 5.2. Da descontinuidade do pensamento ou “filosofia” coreana. 85. 5.3. Do hedonismo e da felicidade terrena. 87. 5.4. A filosofia do Silhak e o pragmatismo coreano. 89. 5.5. O capitalismo comunitário. 96. 5.6. O darwinismo social. 100. 5.7. O cristianismo na Coréia. 104. 6. A BIOÉTICA NO ORENTE 6.1. Princípios da filosofia Confucionista. 107. 6.2. Traços gerais da bioética na Ásia. 110. 6.3. Da visão utilitarista da bioética na Ásia. 114.

(10) 10. 7. EVOLUÇÃO DA ÉTICA MÉDICA NO LESTE ASIÁTICO 7.1. História ética dos profissionais da saúde. 119. 7.2. A ética dos profissionais do ocidente. 119. 7.3. A ética dos profissionais da saúde do leste asiático. 121. 8. A EVOLUÇÃO DA PROFISSÃO MÉDICA NA COREIA. 125. 9. CONCLUSÃO. 135. 10. ANEXO. 138. 11. BIBLIOGRAFIA. 166.

(11) 11 INTRODUÇÃO. Biotecnologia é um termo cunhado no século passado para tratar do avanço da medicina através da aplicação de grandes descobertas tecnológicas e científicas no tratamento da saúde do homem.. Diz Guy1 que a biotecnologia, através da aplicação dos avanços da ciência, trouxe soluções ao homem que melhoraram e prolongaram a sua vida, contudo tais soluções criaram novos problemas inexistentes até então, nunca antes enfrentados pelo homem. São exemplos de tais problemas questões como eutanásia, eugenia, manipulação genética, bebês de provetas, discriminação genética e racial, a experimentação de remédios em humanos, clonagem, entre outros2.. Assim, com o desenvolvimento da medicina, a sociedade passou a conviver com o medo da manipulação antiética da biotecnologia, seja na aplicação física no ser humano, seja na sua utilização econômica e social, mas principalmente na possibilidade de permitir ao ser humano “brincar de Deus”, fazendo uso dos avanços da genética para usos vis e maléficos, conforme as várias possibilidades vislumbradas atrás3.. Diz Freud 4 que o ser humano nunca aceitou bem a limitação de uma vida mortal, frustrando-se com a restrição imposta pela sua natureza transitória, vindo a buscar subterfúgios para burlar a sua limitação de uma forma ou de outra, assim diz que desde cedo criou deuses imaginários aos quais atribuía capacidades supra-humanas, espelhando neles os seus sonhos de imortalidade e felicidade.. 1. Guy DURAND, Introdução geral à Bioética, p. 28 Ibid., p. 28 e seg., p. 40 e seg. 3 Eduardo de Oliveira LEITE, O direito, a ciência e as leis bioéticas. Biodireito Ciência da vida, os novos desafios. Organizadora Maria Celeste Cordeiro Leite dos Santos. São Paulo. Editora Revista dos Tribunais. 2001. Pg.107 4 Sigmund FREUD, O mal esta da civilização, pg. 25 2.

(12) 12 Hoje, com os avanços da ciência, o homem se tornou um “Deus de Prótese”5 tendo conseguido chegar mais perto de seu ideal, seja aumentando a expectativa de sua vida, seja melhorando a qualidade com que a desfruta, satisfazendo assim em parte os seus anseios de transcender a sua mortalidade e as limitações a que a transitoriedade o sujeitou.. Para o grande mestre da psicanálise a motivação de todos os atos do homem origina-se no ato da busca da felicidade, contudo diz que apesar de todos os avanços e conquistas, tal fato não aumentou o prazer do homem6, pois afirma que a felicidade do homem é subjetiva, ou seja, variável, não havendo uma definição definitiva a respeito do que em última análise pode trazer a completa e verdadeira felicidade7.. Uma visão religiosa sobre o assunto também vê o problema da biotecnologia ligada diretamente com a busca da felicidade e o prazer. Segundo afirma Christian8 com o tempo o conceito de felicidade mudou, pois antigamente a felicidade estava relacionada com elementos imateriais ou ainda em elementos pós-vida como a busca do paraíso, mas com a modernização, a felicidade passou a ter um caráter mais imediato e materialista.. Agora o homem busca a felicidade não no além ou em valores morais e⁄ou religiosos, mas na própria terra e nesta vida, ou ainda no seu corpo e não mais na próxima vida ou na sua espiritualidade. O culto ao espírito e à alma mudou para o culto ao corpo e à vaidade.. Para remediar esta crise de valores muito tem sido discutido a respeito de uma ética universal a este respeito, e a bioética, neste contexto, tem sido provocada de forma incessante, seja nos meios acadêmicos, seja nos meio políticos e sociais em geral, contudo até a presente data não foi possível chegar a uma ética verdadeiramente única, que pudesse abordar todas as particularidades da complexa natureza humana de forma satisfatória.. 5. Ibid., pg.44 Ibid., pg. 39 7 Ibid., pg.33 8 Christian de Paul de BARCHIFONTAINE e Leo PESSINI. Bioética – Alguns desafios. Edições Loyola.2002. pg. 116 e seg. 6.

(13) 13 Na busca de um entendimento comum, muitas fórmulas tem sido propostas, mas a grande diversidade de pensamentos e valores presentes na sociedade tem sido o obstáculo para o sucesso de tal empreitada.. Frustrado com o fracasso de se determinar uma ética singular para toda a sociedade, Enghelhardt lembra que o ocidente tem buscado definir uma ética universal através do uso da razão, contudo o autor faz crítica a tal empreitada, pois diz que este não tem a capacidade de entender a grande complexidade que o assunto envolve9.. Segundo este autor o ocidente sempre buscou unificar o conhecimento humano ao longo da história. Inicialmente conseguiu isso com a imposição do pensamento cristão como base de todo o conhecimento ocidental até a Idade Média, mas com o enfraquecimento do cristianismo e o seu poder de influência com o advento do racionalismo e empirismo através do iluminismo, o sonho de unificar o pensamento ocidental através do cristianismo fracassou10.. Com o iluminismo tentou-se substituir o pensamento cristão pelo pensamento racional, contudo devido à diversidade do pensamento racional a pretendida unificação do pensamento ocidental continuou distante11. O que hoje existe é a coexistência de diversos pensamentos racionais que se conflitam mutuamente, comprometendo o desejo de se alcançar um entendimento único e definitivo sobre o pensamento humano.. Christian concorda com Enghelardt de que a razão foi incapaz de harmonizar a diversidade intelectual da humanidade, apontando ainda que alguns pensadores duvidam que a religião também possa fazer o mesmo, criando uma ordem à ética universal12.. 9. Engelhartd Jr, H. Tristram. Fundamentos da Bioética. Edições Loyola. 1998. Pg.34 Ibid., Pg.24 11 Ibid., Pg.29 12 Christian de Paul de BARCHIFONTAINE e Leo PESSINI. Bioética – Alguns desafios. Edições Loyola.2002. pg. 93. 10.

(14) 14 Contudo, enquanto continua a discussão por uma ética universal aceitável por todos, a medicina continua avançando dia a dia, criando novas realidades que desafiam os arcabouços legais da sociedade, exigindo das autoridades uma postura rápida e efetiva para adaptar as leis às novas realidades que a ciência traz às nossas vidas13.. Nestes termos, está correta a observação que afirma que não é a ética que está atrasada em relação à ciência, mas são os cientistas que tentam praticá-la em um contexto no qual as leis não foram estabelecidas14, referindo-se indiretamente aos interesses sociais e corporativos que promovem e sustentam o avanço rápido e sistemático da ciência, para atender interesses que na maioria das vezes pouco priorizam os interesses sociais.. Assim, estão certos todos aqueles que desde a gênese da biotecnologia, tem apregoado dos males que ela pode causar, apesar de suas vantagens, e exigido desde então a adoção de medidas preventivas para possíveis malefícios que esta pode causar ao homem.. A bioética, neste contexto, tem o papel decisivo de fixar os limites legais e morais para a prática segura e ética da biotecnologia no mundo em que vivemos.. A Coréia do Sul é hoje uma dos países mais avançados do mundo na área de biotecnologia, tendo alcançado descobertas significativas que a destacaram no cenário científico internacional neste ramo. Contudo os louros alcançados por anos de esforço e pesados investimentos foram comprometidos pelo episódio protagonizado por seu maior cientista na área, o Dr. Hwang Woo Suk.. Como já foi devidamente noticiado pelo mundo, o Dr. Hwang protagonizou uma das maiores fraudes na história da ciência, ao admitir falsamente perante a comunidade internacional, que havia conseguido realizar a clonagem de células tronco de 11 pacientes,. 13. Eduardo de Oliveira LEITE. O direito, a ciência e as leis bioéticas. Biodireito Ciência da vida, os novos desafios. Organizadora Maria Celeste Cordeiro Leite dos Santos. São Paulo. Editora Revista dos Tribunais. 2001. Pg.104 14 Maria Celeste Cordeiro dos SANTOS. O equilíbrio do pêndulo. A bioética e a lei. Implicações médico-leais. Ícone Editora. 1998. Pg.26.

(15) 15 vindo posteriormente a ser desmascarado nos feitos, além de ter cometido conduta antiética na coleta dos óvulos utilizados nas suas pesquisas.. O episódio serviu de alerta para o mundo, pois era a primeira vez que um escândalo ético de tamanha proporção acontecia, e embora não fosse o pior dos crimes bioéticos em potencial, era um grande indício de que os temores quanto a condutas antiéticas poderiam se tornar realidade, se a sociedade não tomasse as medidas preventivas necessárias.. Mesmo após a eclosão do triste evento, o ocidente ainda pouco conhece do desenvolvimento da biotecnologia coreana, adquirindo o pouco que sabe nas informações esparsas da mídia. Contudo, afastado dos países do ocidente, a Coréia do Sul vem desenvolvendo a sua tecnologia na área biotecnológica baseado em princípios próprios, embebidos de valores e tradições locais, que ao formar uma bioética singular, foi capaz de permitir uma atmosfera social e política propícia ao surgimento de eventos da natureza do praticado pelo Dr. Hwang.. Neste contexto, a experiência vivida por este país tem valiosas lições a dar ao mundo, devendo ser analisada e estudada para servir de subsídio material às intermináveis discussões bioética que ainda acontecem, até mesmo aqui no Brasil.. Para podermos nos aprofundar no estudo da bioética coreana e com isso cumprir com o escopo deste estudo, precisamos analisar profundamente o contexto histórico-cultural, econômico-social, ético-religioso e filosófico do país, que contribuíram para a formação desta bioética particular.. Assim, iniciemos o estudo da experiência coreana com a abordagem histórica do desenvolvimento da pesquisa biotecnológica no país, através da análise da política de desenvolvimento da ciência e biotecnologia do país, e o escândalo protagonizado pelo cientista Hwan Woo Suk, interpretando-as posteriormente sob o contexto histórico, social, e principalmente filosófico do país..

(16) 16 1. O DESENVOLVIMENTO DA BIOTECNOLOGIA NA CORÉIA DO SUL 1.1. Os planos econômicos do governo e o progresso científico do país. O desenvolvimento da biotecnologia na Coréia do Sul deve-se fundamentalmente aos planos governamentais de desenvolvimento econômico, que tirou o país do estado de miséria que o acometia desde o fim da guerra da Coréia em 1953.. De fato, até a adoção dos primeiros planos qüinqüenais na década de 60, a Coréia do Sul havia passado da situação de colônia japonesa, de 1908 a 1945, a um país em guerra até 1953, quando terminou a Guerra da Coréia, o que o colocou no mesmo nível de desenvolvimento dos países mais pobres do continente africano 15.. Como forma de reverter a situação de pobreza, o recém constituído governo ditatorial do general Park Chung Hee (1961), visionou a criação de diversos planos estratégicos de fim econômico, que tinham por fim realizar investimentos concentrados em áreas específicas da economia, para o fim de habilitá-la para o desejado desenvolvimento econômico.. Assim, os primeiros planos qüinqüenais criados pelo governo (assim chamados por compreenderem períodos de planejamento de 5 anos cada um) dos anos 50 e 60 focaram na criação de indústrias de manufatura leve e de uso intensivo de mão-de-obra; nos anos 70 e 80 foi investido esforço na criação e fortalecimento da indústria pesada e química, e nos anos 90 em setores da economia de maior conteúdo tecnológico e de alta especialização16.. O investimento governamental nas áreas de tecnologia e pesquisa científica avançada inicia-se com destaque a partir dos planos econômicos da década de 80, com a criação do Programa Nacional de P&D, com ênfase no desenvolvimento de tecnologias de chave, consideradas essenciais para habilitar as empresas coreanas a gerar conhecimento tecnológico suficiente para se manterem competitivas no novo cenário da economia mundial. Desta forma 15. Byung Nak SONG. The rise of the korean economy, Third edition. Oxford university press. 2003. PG53 Renato BAUMANN. Coréia: Uma opção pelo mercado externo. IPRI (Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais). 2000. PG.4 16.

(17) 17 passa a investir em tecnologia nas áreas de eletroeletrônica, química industrial, construção naval, informática e biotecnologia, entre outros.. O importante a se notar nos planos econômicos implementados pelo governo coreano é que os investimentos na área de ciência e tecnologia realizados até hoje, nunca objetivaram alcançar fins exclusivamente acadêmicos, mas principalmente econômicos, vindo a servir de meio de avanço e desenvolvimento do parque industrial do país, ou seja, servir de meio para capacitar as empresas e a mão-de-obra coreana, com conhecimento tecnológico suficiente para se tornarem competitivas no cenário econômico internacional.. Tal iniciativa procurou substituir a filosofia do “lerning by doing” praticado até então, através do qual procurava criar o conhecimento científico através da cópia de know-how industrial importado do exterior, pela nova filosofia do “learning by research” dos anos 80, através do qual o conhecimento industrial seria alcançado não mais pela mera imitação, mas pela pesquisa e desenvolvimento de tecnologia própria17.. Assim, entre os vários projetos realizados, os planos quinquenais do país adotaram medidas estratégicas na área da pesquisa e da ciência como a criação do ministério da ciência e tecnologia em 1962, a criação de leis promoção da ciência, capacitação e educação de técnicos e engenheiros do país e criação de institutos de pesquisa financiados pelo governo, entre outros18.. O esforço de aumentar a qualidade da pesquisa científica no país contou também com a criação de outros quatro grandes projetos nacionais19:. 17. Helio G. BARROS. Política científica na Coréia: evolução da máxima tecnologia contida na educação à máxima ciência contida o conhecimento. IPRI (Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais). 2000. Pg,4. 18 Ruy de Araújo CALDAS. O setor e a política de biotecnologia na Coréia. IPRI (Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais). 2000. pg.2,3 19 Ibid., Pg.14.

(18) 18 a) Projeto HAN (Highly Advanced National Project) – Criado em 1992 promoveu a listagem das tecnologias chaves a serem desenvolvidas pelo país para a prosperidade do seu futuro (dentre os quais a Biotecnologia); b) Projeto CRI (Criative Research Initiative) – Procurou incentivar o avanço da pesquisa em dois níveis: Ciência fundamental extremamente criativa (Bud-Type Project), e pesquisa básica no fluxo da fronteira da ciência (Branch-Type Project); c) Projetos Nacionais Estratégicos de P&D – Criada em 1998, estabeleceu uma lista de áreas diferenciadas da ciência cuja pesquisa deveria ser priorizada e apoiada de forma especial para o desenvolvimento da economia coreana; d) Projetos Nacionais de Laboratórios de Pesquisa – Projeto lançado em 1999 com o fim de apoiar pequenos centros de pesquisas e laboratórios de empresas e universidades melhorando assim o nível da infra-estrutura de pesquisa do país.. 1.2. O investimento em biotecnologia. O desenvolvimento da biotecnologia na Coréia iniciou-se com a criação do “Programa Nacional de P&D” em 1982, que ao reconhecer a importância da pesquisa científica como forma de tornar as empresas coreanas competitivas para a nova era da economia mundial (baseado no conhecimento tecnológico ⁄ knowledge-based economy), colocou a biotecnologia, como uma das áreas da ciência responsáveis pelo futuro desenvolvimento econômico do país.. Assim, reconhecida a importância da biotecnologia como parte do futuro da prosperidade da nação, centros de pesquisa na área começaram a ser criados dentro de universidades, cabendo-lhes o papel de iniciarem de fato a pesquisa na biotecnologia. Contudo, por ser este uma medida inicial, a medida mostrou-se limitada, provando ser insuficiente para cumprir o fim pretendido, exigindo do governo e das lideranças empresariais o esboço de uma nova política nacional para a área biotecnológica..

(19) 19 Assim, para atender mais especificamente às necessidades da área da biotecnologia, lança-se em 1994 o programa “BIOTECH 2000” que previa o investimento de valores na ordem de US$ 15 bilhões de dólares, entre fundos privados e públicos, na pesquisa científica em biotecnologia até o ano de 2007. O plano, que compreende período de 14 anos, dividia-se em 10 planos de ações, 6 programas de P&D e 6 de infra-estrutura de apoio.. Entre os 10 planos de ações propostas pelo governo coreano valem destacar:. a) Criação de cooperação interministerial no desenvolvimento da pesquisa biotecnológica (Ministérios da Saúde, Ciência e Tecnologia, do Comércio, das Finanças, entre outros);. b) Criação da “Bio Techno-Belt” criando uma área que concentra empresas especializadas na pesquisa biotecnológica, como a “Daeduc Science Town”;. c) Estabelecimento de plano de intercâmbio e cooperação internacional onde o MOST (Ministério da Ciência e Tecnologia) é recomendado a destinar 10% de suas verbas de pesquisa na área de biotecnologia para projetos de cooperação com países em desenvolvimento como a China, Malásia, Tailândia, Brasil e a Europa Oriental;. d) Investimento em infra-estrutura e equipamento de pesquisas, assim como a elevação da quantidade e qualidade dos pesquisadores da área, através de programas como o programa “Brain Korea 21” que apoiou programas de pós-graduação e pós-doutorado em biotecnologia;. e) Criação do programa “Brain Pool” que patrocinou a repatriação de cientistas e pesquisadores experientes atuando em centros de pesquisa fora da Coréia do Sul;. f) Definição dos projetos estratégicos em diversas áreas da biotecnologia como:.

(20) 20 1) Biomateriais – Desenvolvimento de novos biomateriais funcionais. Aplicação industrial das funções biológicas; 2) Saúde – Tecnologia de engenharia biomecânica. Biotecnologia humana. Análise genômica; 3) Agricultura – Genética molecular e tecnológica de culturas de tecidos. Tecnologia de alimentos. 4) Ambientes, Biossegurança e Biodiversidade – Biotecnologia ambiental e Biodiversidade. Biossegurança ambiental; 5) Energia Alternativa – Tecnologias para produção de bioenergia.. Os 6 programas de apoio à infra-estrutura são os seguintes: a). Programa de Banco de Genes – Programa de coleta, conservação e distribuição de recursos genéticos, assim como dos dados de sequenciamento de DNA;. b). Programa de Recursos Biológicos – Objetiva ampliar a capacidade do país de manter “strains” de animais de laboratório e de insetos internacionalmente registrados. Apóia também os projetos de conservação de animais domésticos, utilização e distribuição de animais de laboratório e de insetos.. c). Programa de Plantas Piloto – o Programa apóia a internalização de “know how” na área de facilidade de bioprocessamento, principalmente no desenvolvimento de bioengenharia.. d). Programa de Informação em Biotecnologia – O programa apóia o desenvolvimento, gestão e catalogação de base de dados, fontes de informação e bibliotecas eletrônicas relevantes para o desenvolvimento da biotecnologia.. e). Programa de Avaliação da Biossegurança e Eficácia – As duas missões centrais do programa são: coordenar ações de análise de segurança e eficácia de bioprodutos na Coreia e; ampliar a capacidade nacional em testes préclínicos de novos biofármacos. Envolve, para sua realização três institutos governamentais: o Korean Research Institute of Bioscienceand Biotechnology.

(21) 21 (KRIBB); o Screening and Safety Research Institute of Chemical Technology (KRICT) e o National Institute of Safety Research (NISR). f). Programa de Testes Clínicos – O programa desenvolve ações para a formação de recursos humanos em testes clínicos nas escolas de medicina e hospitais para ampliar a credibilidade internacional do país. Neste contexto, o programa vê a criação de redes de cooperação interministerial.. Como seguinte passo ao avanço da pesquisa tecnológica no país, é lançado em 1997 a “Lei Especial para Inovação Científica e Tecnológica” que visava elevar o padrão da pesquisa científica coreana para os padrões dos países do G-7. Tal ato focou em medidas pragmáticas para aumentar a qualidade da pesquisa científica coreana, adotando assim, medidas como o aumento de número significativo de pesquisadores e engenheiros, fortalecer as escolas de engenharia local, fortalecer programas de pós-graduação na área científica, ampliar as bolsas de pós-doutoramento, criação de novos parques tecnológicos, melhorar a infra-estrutura das universidades 20, entre outros.. Foi nesta ocasião que o governo coreano escolheu no campo da biotecnologia as tecnologias ligadas à genoma, proteoma, bioinformática, biologia molecular e celular e novos biomateriais como foco de suas pesquisa na área em questão.. 1.3. Da análise do desenvolvimento científico na Coreia. Da análise histórica do desenvolvimento científico e biotecnológico do país, verificase que a ciência na Coréia nunca foi tratada de maneira meramente acadêmica, mas como instrumento de desenvolvimento social e econômico do país.. Aqui já se vislumbra a principal característica da bioética coreana, que é a sua marcante preocupação como o progresso do país, servindo este como elemento de política de desenvolvimento nacional. 20 20. Ruy de Araújo CALDAS. O setor e a política de biotecnologia na Coréia. IPRI (Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais). 2000. Pg.12.

(22) 22. Como se verá mais adiante neste estudo, a partir de um determinado momento na história coreana, a noção do bem estar da nação passa a se identificar com o desenvolvimento de sua pesquisa científica, criando a partir de então a noção de unidade entre estes dois elementos para o resguardo da prosperidade e segurança do país.. Assim, já no início deste estudo começamos a vislumbrar traços de características utilitaristas na sociedade coreana, que possui forte preocupação com o bem estar (felicidade) da coletividade, além de pragmatismo na forma de alcançar os seus objetivos.. Contudo a ênfase na busca da felicidade não deriva diretamente do conhecimento da filosofia utilitarista pelos coreanos, do qual nunca chegaram a ter conhecimento direto antes, mas pela conjunção direta de determinados fatores históricos e sociais, e principalmente pela evolução de sua história política, que posteriormente viria a cria a filosofia local de natureza pragmática, chamado de Silhak.. Embora seja assunto a ser abordado capítulo posterior, adianta-se momentaneamente que o Silhak é uma filosofia originária da Coréia com forte conteúdo político e social, cujo fim derradeiro é a busca do bem estar do povo através da prosperidade social e política do país, e para esta finalidade enfoca basicamente no pragmatismo político e filosófico do país.. Como se verá a seguir, esta visão pragmática foi o grande responsável pelo rumo que a bioética tomou no país, que em vez de zelar pela prática ética da pesquisa científica no país, priorizou o aspecto econômico e social da pesquisa..

(23) 23 2. O ESCÂNDALO HANG WOO SUK. 2.1. Os sucessos de Hwang na biotecnologia. O cientista Hwang Woo Suk formou-se em veterinária pela Universidade de Seul, obtendo posteriormente o título de doutorado na mesma área nesta mesma instituição. A Universidade de Seul é a instituição de ensino superior de maior prestígio do país.. Após a obtenção do título de doutorado, veio a praticar a profissão veterinária por um breve período de tempo, passando a se dedicar então à pesquisa científica, na área da clonagem de animais posteriormente. Segundo revelam as entrevistas concedidas durante a época de seu prestígio, revelou que na época havia optado em se especializar em clonagem animal, pois tinha o desejo de criar um “Super boi” coreano, através da técnica de manipulação genética.. Assim, no ano de 1999 realiza o seu primeiro grande trabalho científico na área da genética, ao anunciar ao mundo que havia conseguido clonar um boi, transformando com isso a Coréia do Sul no 5° país do mundo a realizar tal façanha.. Posteriormente a este feito o Dr. Hwang continuou a realizar a clonagem de outros animais com sucesso como porcos, mas tais feitos tiveram os seus méritos postos em dúvida, pelo simples fato de que este não se preocupava em providenciar provas concretas dos sucessos que alegava ter conseguido. Até então o cientista Hwang fornecia apenas fotos dos animais que dizia ter clonado, sem se importar em providenciar prova material dos sucessos que tanto alardeava.. Um dos grandes trabalhos que Hwang alegava ter realizado nesta época foi o desenvolvimento de um boi resistente a doenças no ano de 2003, com a colaboração de uma cientista da Universidade Nacional de Sunchon, a bióloga Ki Young Park, que devido a seus vínculos com as esferas políticas iria se tornar uma das mais importantes aliadas políticas de.

(24) 24 Hwang no futuro, pois neste mesmo ano passa a ser nomeada assessora presidencial para os assuntos relacionados com a ciência e tecnologia do governo.. Park21 foi a grande responsável por abrir os caminhos políticos de Hwang junto ao governo do Presidente Roh Moo Hyun, que escolheu o cientista como um dos símbolos da nova Coréia que procurava promover junto à sua população e ao mundo, incutindo-lhes a idéia de que as incertezas do futuro da nação seriam combatidas com o desenvolvimento da capacidade tecnológica do país, e neste contexto o Dr.Hwang seria uma espécie de “Cristo” ou salvador desta nova era, garantindo prosperidade e riqueza à nova geração de coreanos com as suas pesquisas. E as pessoas aceitavam passivamente esta promessa, pois lhes era agradável.. Em 12⁄03⁄04 ocorre a grande reviravolta de sua carreira científica, ao publicar na revista “Science” uma matéria afirmando que tinha conseguido criar uma linhagem de células de tronco embrionárias humanas, através do processo de transferência do núcleo de células somáticas. O nome do artigo era “Evidence of a Pluripotent Human Embryonic Stem Cell Line Derived from a Cloned Blastocyst” e era a primeira vez na história humana que alguém afirmava ter conseguido tal façanha. A bióloga Park foi mencionada como co-autora do trabalho.. Contudo a publicação deste trabalho teve um efeito paradoxal na carreira do Dr.Hwang, uma vez que ao mesmo tempo que serviu para alçar o nome de Hwang à altura dos maiores cientista do mundo na área de biotecnologia, foi também o início de sua sina, uma vez que questionamentos sobre os procedimentos éticos sobre sua pesquisa começaram a surgir com intensidade a partir deste momento.. 21. Em janeiro de 2006, após a eclosão do escândalo sobre as pesquisas de Hwang, um dos três maiores jornais da. Coréia, o jornal Chosun Ilbo, veio a noticiar nas suas páginas que antes da publicação do primeiro trabalho de Hwang na revista Science, este havia realizado várias doações a Park, no valor total de US$ 250.000,00, entre os anos de 2001 a 2004, mostrando com isso a cumplicidade que havia entre os dois no trato das questões relacionadas com a pesquisa genética..

(25) 25 Isto não quer dizer que antes desta publicação o Dr. Hwang não tenha sofrido questionamentos éticos nas suas pesquisas, mas com a extensa exposição que passa a sofrer na mídia local e internacional a partir de então, novos críticos juntam-se aos que já o criticavam antes, e com mais intensidade e repercussão social.. De fato, mal publicado o artigo de 2004, surge o primeiro grande questionamento a respeito da conduta ética de suas pesquisas, quando na época a revista Science vem a indagar a Hwang sobre aspectos éticos de sua pesquisa, após tomar conhecimento de uma entrevista concedida pelo mesmo onde teria feito afirmações que pesquisadoras femininas do seu grupo haviam doado óvulos para sua pesquisa.. Para a revista, Hwang negou que tenha usado óvulos doados por pesquisadoras de sua equipe, e para evitar maiores questionamentos por parte de seus opositores suspende voluntariamente as suas pesquisas até o início da vigência da lei de biossegurança e bioética do país, que entraria em vigor a partir de janeiro de 2005.. Contudo, não satisfeita com tais providências, a KBA. 22. vem também questionar. Hwang sobre os procedimentos de obtenção dos óvulos utilizados nas suas pesquisas, assim como a origem de seus fundos, e recomenda a Comissão Nacional de Direitos Humanos que realize investigações sobre o caso, mas a comissão desconsidera tais recomendações e deixa de realizar uma revisão profunda dos projetos de Hwang.. Durante a suspensão temporária imposta a si mesmo, Dr.Hwang vem a colaborar com o pesquisador de primatas norte-americano, Dr. Gerald Schatten, da Universidade de Pittsburgh, que fazendo uso da técnica de extrusão do DNA de oócito desenvolvido por Hwang, realizou a primeira clonagem de embrião de macaco, através do qual obteve célulastronco, permitindo à equipe de Schatten desenvolver embriões de macaco ao estagio de blastocistos, contribuindo indiretamente para dar maior credibilidade à técnica desenvolvida por Hwang.. 22. Korean Bioethics Association.

(26) 26 Já em 2005, com a entrada em vigor da Lei de Biossegurança do país, Hwang é o primeiro cientista do país a requerer permissão governamental para realizar pesquisas genéticas, submetendo os documentos necessários para tal. Contudo o período de graça que se concedeu a si mesmo foi apenas um momento de calmaria na grande tempestade que Hwang viria enfrentar a partir da metade do ano de 2005, com a eclosão do escândalo que trouxe à tona a verdade sobre as suas pesquisas.. De fato, já no começo do ano de 2005, precisamente no mês de janeiro daquele ano, Hwang vem a apurar que 4 das 7 colônias de células somáticas que dizia ter criado haviam sido infectadas pelo fungo “fungi” e informa à sua antiga colaboradora, Prof. Park, sobre a contaminação da células, mas esta, mesmo sendo responsável pela implementação das medidas preventivas na área de pesquisas, não relatou o caso às autoridades competentes, mostrando se não conivência, pelo menos uma certa tolerância à fraude de Hwang, em nome de uma política nacional de pesquisa, manipulada para atingir fins propagandísticos e políticos.. Contudo, em maio de 2005 Hwang faz um novo anuncio ao mundo, afirmando desta vez que havia realizado a clonagem de células tronco embrionárias humanas de 11 pessoas diferentes, fazendo uso de 185 óvulos no experimento. Em 17⁄06⁄05 Hwang publica a segunda matéria na revista “Science” a respeito deste novo trabalho.. O nome do artigo é “Patient-Specific Embryonic SCs Derived from Human SCNT Blastocist” e entre os autores estão incluídos os nomes de Gerald Schatten e Sung Il Roh, que futuramente serão os dois principais pivôs do escândalo que vitimou Hwang no fim do ano em questão.. Com a publicação dos dois artigos sobre os seus trabalhos na área da clonagem, Hwang é alçado á posição de maior autoridade mundial na área da clonagem, vindo a ser escolhido pela revista norte-americana “Times” como “People who mattered 2004”, e eventualmente sendo cogitado a receber o prêmio Nobel pelos seus trabalhos..

(27) 27 Na rota de seu prestígio inabalável Dr. Hwang anuncia em 03⁄08⁄05 a clonagem do primeiro cão do mundo, o cão “Snuppy”, e na mesma época vem a ser nomeado chefe do recém criado “World Stem Hub” na Coréia do Sul.. Por todos os sucesso científicos que atribuiu-se a si mesmo durante este tempo, Hwang veio a ser nomeado professor da Universidade Nacional de Seul, e agraciado com generosas verbas públicas do governo coreano para financiar as suas pesquisas de clonagem (US$ 3 milhões por ano)23. .. 2.2. O escândalo ético de Hwang nas pesquisas genéticas. As grandes conquistas científicas alegadas por Hwang Woo Suk até então, passam a ser desacreditados em virtude de vários acontecimentos que trazem à tona, acusações de conduta antiética por parte de Hwang e de seus colaboradores na condução de suas pesquisas.. A crise desencadeia-se a partir de novembro de 2005, quando no auge de seu sucesso, Gerald Schatten, professor da Universidade de Pittsburg associado a Hwang desde o ano de 2003, anuncia inesperadamente que deixa de colaborar com o cientista coreano, devido à existência de problemas antiéticos, relacionados com a coleta dos óvulos utilizado pela equipe de pesquisa de Hwang em 2004.. Posteriormente ao anúncio de Schatten, em 21⁄11⁄05, um antigo colaborador de Hwang e diretor geral do hospital MizMed, Dr. Roh Sung Il, anuncia em entrevista coletiva à imprensa, que a doação dos óvulos utilizados na pesquisa do Dr. Hwang, haviam sido obtidos através do pagamento de valor de US$ 4.000,00 para as clinicas de fertilidade24. Na ocasião Roh afirma perante a imprensa que Hwang não tinha conhecimento de tal fato.. 23. David CYRANOSKY, Veredict:Hwnag´s human stem cells were all fakes, Nature, Publicação online de 10/01/2006 24 John Michael MCGUIRE, Revising the Korean Bioethic and Biosafety Act: Should researchers be prohibited from donating oocytes? Division of International Studies, Hanyang University. pg.85.

(28) 28 Roh participou dos dois trabalhos científicos publicados por Hwang na revista “Science” sendo um dos co-autores dos trabalhos. Foi Roh, através do hospital MizMed, que providenciou os embriões utilizados na pesquisa e os manteve guardados em seu laboratório.. Para piorar a situação de Hwang, em 22⁄11⁄05, somente 1 dia após a entrevista coletiva de Roh, um documentário do canal de televisão coreano MBC, a “PD Suchop”, denuncia no ar a possibilidade de prática de conduta antiética de Hwang, veiculando no programa testemunho de membro da equipe científica de Hwang (Kim Sung Jong) onde este afirmava que o cientista conhecia da origem ilícita dos óvulos utilizados nas pesquisas genéticas25.. Contudo, apura-se posteriormente que os produtores do programa haviam conseguido o testemunho de Kim Sung Jong por meios ilegais, coagindo a pessoa a testemunhar contra Hwang, e em 4/12/05 a emissora se vê obrigada a reconhecer em público o erro, desculpandose em publico por ter veiculado o programa sensacionalista contra Hwang.. A exibição do documentário desfavorável à credibilidade do Dr.Hwang desperta o apelo patriótico dos coreanos, que em vez de condenar a possibilidade de prática de conduta antiética o apóiam ainda mais 26 . Os patrocinadores do programa “PD Suchop” retiram o patrocínio ao programa, devido à repercussão negativa do programa junto à população coreana.. Como conseqüência aos eventos ocorridos até então, Dr.Hwang confessa em entrevista coletiva realizada em 24⁄11⁄05, que sabia da origem antiética dos óvulos utilizados pela sua equipe até então, mas que havia mentido sobre o caso para preservar a identidade de suas verdadeiras doadoras, que haviam sido as colaboradoras de sua equipe de pesquisa. Afirmou na ocasião que não sabia que tal conduta violava a “Declaração de Helsinque” e que renunciava a quase todos os seus cargos oficiais que possuía até então.. 25. “Ahn disse ontem que dinheiro foi oferecido a Kim para ajudá-lo a se recuperar do choque causado pela primeira entrevista feita à MBC. Ahn alega que ele tentou se matar depois da confissão que fez para o produtor da MBC. Apesar de sua explicação, ainda permanecem dúvidas se a equipe de Hwang teria tentado subornar Kim para que mudasse o seu depoimento feito inicialmente à MBC em uma entrevista posterior a ser feita à YTN. Separata Ohmynews”. “Hwang Scandal Reveals a Fractured Society”. Jean K. Min. 2005 26 Hwang fans hold out despite indictment, The Chosun Ilbo, 5/12/2006.

(29) 29. Contudo, para estourar de vez a crise que atingia as pesquisa do Dr. Hwang, em 15⁄12⁄05, o Dr.Roh que já havia denunciado a prática de conduta antiética de Hwang na coleta dos óvulos utilizados nas suas pesquisa, vem a público denunciar que o trabalho publicado por Hwang em 2005 na revista “Science”, onde afirmava ter clonado celular tronco embrionárias de 11 pessoas, era falsa, e os dados publicados nela eram fabricados.. Segundo afirmou o Dr. Roh na ocasião, das 11 linhas de células tronco clonadas, apenas 2 eram de fato verdadeiras, e as restantes 9 compartilhavam DNAs idênticos entre si, dando a entender que estas eram células originárias da mesma pessoa, e não clonadas de pessoas diferentes.. Como forma de esclarecer definitivamente a série de eventos que veio a comprometer a credibilidade dos trabalhos realizados pelo Dr. Hwang (assim como a credibilidade da pesquisa científica coreana perante a comunidade internacional) inicia-se em 17⁄12⁄05 uma investigação interna da Universidade Nacional de Seul para determinar definitivamente a extensão dos atos antiéticos praticados por Hwang, e sobre a veracidade de suas pesquisas.. Assim, iniciados os trabalhos de investigação da equipe da Universidade de Seul, apura-se o seguinte quanto aos trabalhos realizados por Hwang:. Sobre a matéria publicada em 2004 na revista “Science”27, três laboratórios diferentes realizam a análise dos DNAs das célula dito clonadas e da célula do doador original e descobre-se que os DNAs não são iguais.. Segundo se apura, o DNA mitocondrial das células clonadas eram idênticas a uma das células do doador original, mas o DNA proveniente do núcleo da célula apresentava. 27. Matéria publicada na revista no dia 12 de março daquele ano..

(30) 30 discrepâncias em determinados pontos. O comitê conclui que a linhagem originou-se de partenogênese e não de clonagem, e que os dados apresentados por Hwang eram fabricados28.. Sobre o trabalho apresentado em 2005, apura-se que de fato 9 das 11 linhagens de célula tronco dito clonadas eram falsas, e que quanto às demais linhagens haviam sérias dúvidas quanto à sua autenticidade, que em vez de reprodução por clonagem teriam sido na verdade produzidas por partenogênese através de fertilização in vitro em hospital.. A equipe da Universidade de Seul afirma que Hwang consegui clonar embriões humanos até o estágio de blastocistos, a partir do qual células tronco podem ser obtidas. Contudo diz que a taxa de sucesso era de apenas 10% e as células obtidas por tal processo resultavam em células de condições muito frágeis29.. Descobre-se também que o Dr, Hwang havia mentido sobre o número de óvulos utilizados nas suas pesquisas, tendo utilizado 2.061 óvulos de 129 mulheres. Hwang reportou que na pesquisa de 2004 havia utilizado apenas 242 óvulos, e na pesquisa de 2005 apenas 185 óvulos. Parte dos óvulos haviam sido obtidos através de coerção de pesquisadoras de seu equipe de pesquisa.. Por fim, afirma que a única verdade existente nas pesquisas de Hwang era a clonagem do cachorro “Snuppy”, que apesar das fraudes cometidas até então, tratava-se de um feito legítimo e extraordinário.. Assim, em 10/01/06, o time de investigação da Universidade Nacional de Seul declara que a clonagem de células tronco embrionárias de 11 pessoas anunciadas por Hwang eram falsas, e que os trabalhos publicados em 2004 e 2005 na Revista Science eram fabricados. Como corolário a Revista Science retira as matérias de Hwang em 11⁄01⁄06.. 28. David CYRANOSKI. Veredict: Hwang´s human stem cells were all fakes. Nature Internatioal weekly journal of Science. 12/01/2006. http://www.nature.com/nature/journal/v439/n7073/full/439122a.html 29 Ibid.,.

(31) 31 Hwang convoca nova entrevista coletiva da imprensa em 12⁄01⁄06 e pede desculpa à nação pela fabricação das matérias, mas diz que a técnica de clonagem de células tronco embrionárias é real e que foi vítima de sabotagem por parte de membros de sua equipe de pesquisa, principalmente o Dr. Roh da Mizmedi, que teria trocado as células clonadas das 11 pessoas diferentes. Por fim pede um prazo de 6 meses, em substituição ao prazo de 10 dias solicitados antes numa entrevista coletiva realizada em 16⁄12⁄05, para provar que a clonagem das células tronco embrionárias podia ser realizada.. Posteriormente à revelação da investigação realizada pela SNU, Dr. Hwang passa a ser investigado pelo ministério público do país por desvio de verbas públicas e em 10⁄07⁄07 é expulso da SNU, e perde todos os fundos públicos dos governos para financiar a sua pesquisa.. 2.3. A repercussão social e política do escândalo. O desenvolvimento da técnica de clonagem embrionária de célula-tronco por Hwnag não foi somente um grande feito científico e tecnológico para o mundo, mas foi principalmente uma grande revolução social e histórica para a Coréia do Sul. Tal afirmação se evidencia quando se analisam a reação social e econômica observada no país após o anúncio das pretensas “descobertas” de Hwang.. De fato, após o anúncio de tais descobertas, o prof. Hwang passa a ser o centro das atenções do país, vindo a convergir em si grande parte do interesse do país, que depositam nele diversos anseios relacionados com futuro da nação.. O assédio experimentado por Hwang veio desde as mais altas cúpulas do governo coreano, até os níveis mais ordinários da sociedade, que viam nele a figura do “salvador da pátria”, para os mais diversos problema existentes no país.. A relação de Hwang com o governo coreano deu-se nos primórdios de sua ascensão social, quando pela primeira vez anunciou que havia realizado com sucesso a clonagem de.

(32) 32 bois e porcos. Deste tal época tem sido favorecido pelo governo, que concedeu-lhe desde honras ao mérito, como o inédito título de “Cientista Supremo” da nação, a generosas verbas de pesquisa para a condução de seu trabalho.. O título de cientista supremo foi criado pelo Ministério das Ciências e Tecnologia da Coréia em 2005, e teve na figura do Prof. Hwang o primeiro agraciado em junho de 2005. Com tal título Hwang recebeu verba de pesquisa de 15 milhões de dólares. Neste mesmo ano havia sido nomeado também titular de uma cadeira de ciência na Universidade de POSCO, uma das mais prestigiosas instituições de ensino e de pesquisa superior do país, recebendo na ocasião valor para financiamento de pesquisa no valor de 1,5 milhões de dólares.. O Prof. Hwang tinha relações estreitas com os principais dignatários do país, como o presidente da república, Rho Mu Hyun, e pessoas o primeiro escalão do seu governo, como o Ministro das Informações e Comunicação “Jin Dae Je”, o Conselheiro Presidencial para assuntos de Informação, Ciência e Tecnologia “Park Ki Young” 30 e o Chefe da Secretaria Nacional de Política “Kim Byung Joon”. A relação deste grupo de pessoas era notória e muito estreita vindo a ser chamado pela mídia local como o “Hwang-Kum-Pak-Chui”, criado a partir da união dos sobrenomes das quatro pessoas e que soava parecido com a frase “morcego dourado” em coreano.. O Prof.Hwang possuía também um grande número de simpatizantes na política, sendo que em 6⁄12⁄05, 45 deputados de diversos partidos do país, criaram o grupo de apoio chamado “Grupo de legisladores de apoio a Hwang Woo Suk” sendo que algumas deputadas deste grupo chegaram mesmo a aderir aos grupos cíveis de doação de óvulos para as pesquisas de Hwang, criado após a eclosão do escândalo em novembro de 2005.. O grupo de legisladores apoiadores de Hwang vieram também a pressionar a Comissão Coreana de Radiodifusão para que este viesse a realizar investigação sobre a. 30. International Herald Tribune. Lesson in South Korea: Stem Cells Aren't Cars or Chips. January 11th, 2006 “O escândalo está tendo uma repercussão ampla. Na terça feira Park Ky Young, co-autora de uma dos principais trabalhos do Dr. Hwang, renunciou ao seu cargo de secretária de assuntos científicos do Presidente Roh Môo Hyun, um mês após a substituição do Ministro da Ciência Oh Myung.”..

(33) 33 possibilidade de existência de má-conduta na equipe de produção do programa de TV “PD Sucheop”, que em 22⁄11⁄05 veio a expor perante o país a prática de atos antiéticos do Prof.Hwang na TV. Posteriormente grande parte dos políticos que vieram a manifestar apoio a Hwang, confessaram que haviam recebido doação de campanha do Prof. Hwang anteriormente31.. A transmissão do programa “PD Sucheop” teve efeito arrasador na sociedade coreana, que baseado em sentimentos de idolatria e patriotismo, criou movimentos sociais e políticos de suporte ao Dr. Hwang, como os mencionados acima 32.. De fato, a idolatria ao Prof.Hwang levou à criação de um grupo de doação de óvulos pela internet, que veio a somar mais de 800 voluntárias, assim como manifestações de apoio a Hwang, que eram na maioria das vezes carregados de apelo patriótico, onde frases de apoio a Hwang eram adornadas com a flor “Rosa de Sharon”33 e a execução do hino nacional da Coréia34.. 31. Chosun Ilbo. Hwang's 'Guardian Angel' Owes Us an Explanation. January 18th, 2006. “O conselheiro presidencial para a ciência e tecnologia, Park Ky Young recebeu verbas para pesquisa de $150 milhões de Won e $100 milhões de Won em 2001 e 2003 para realização de estudos do impacto ético e social da bioengenharia, do descreditado cientista de clonagem Hwang Woo Suk. A pesquisa de 2001 tinha como foco o impacto social resultante da criação de bois com resistência à doença da vaca louca, e o trabalho de 2003 sobre normas éticas e o uso comercial dos bio-órgãos”. 32 Chosun Ilbo. Support for Cloning Pioneer Still Growing. Updated Nov.27,2005 “Apóio ao problemático pioneiro da clonagem, o professor Hwang Woo Suk, em virtude de uma reportagem sobre problemas éticos em seus projetos de pesquisas levada ao ar pela MBC, continuaram inalteradas no sábado. A polícia estima que perto de 100 membros de um grupo online de apoio e outros realizaram 2 horas de vigília na frente do escritório do canal em Yeouido, em Seul, à noite. Eles diziam que a MBC havia ferido o interesse nacional com reportagens ‘distorcidas’ sobre a compra de óvulos pela equipe de Hwand em seu programa ‘PD Diary’, exibido em 22 de novembro, e exigiram que a emissora se desculpasse na segunda feira e punissem os produtores.” 33 Flor símbolo do país. 34 Chosun Ilbo. Support for Cloning Pioneer Still Growing. Updated Nov.27,2005. “Um número crescente de pessoas estão se voluntariando para doar óvulos para as pesquisas de Hwang, desde que ele admitiu que havia problemas na forma como os óvulos foram obtidos, devido à falta de doadores. Uma organização dedicada a coletar óvulos para pesquisa científica, disse no domingo que cerca de 900 pessoas haviam se voluntariado através de sites na internet e chamadas telefônicas. Os números cresceram rapidamente para 200 na quinta feira, depois que o Dr. Hwang fez o anúncio, e desde então aumentou 4,5 vezes depois. O comunidade online `Eu amo Hwang Woo Suk` (café.daum.net/ilovehws) aumentou para 33.996 membros no domingo dos meros 19.000 da semana anterior”..

(34) 34 A idolatria a Hwang não se baseava somente no apelo patriótico, mas também no anseio das pessoas quanto ao sucesso de suas pesquisas que viam neste a única esperança que possuíam quanto à de males que os afligiam 35.. 2.4. Sobre a violação da Lei de Biossegurança e da Declaração de Helsinke. Descobertas as fraudes de suas pesquisas, Hwang passa a ser objeto de investigação por parte do ministério público do país que o acusa de crimes de fraude, apropriação indébita e violação à Lei de Biossegurança do país.. Contudo, concluídas as investigações e esgotados todos os processos administrativos e legais, Hwang veio a ser condenado apenas por crimes contra as leis de bioética do país escapando de condenações mais severas na área penal.. Os críticos de Hwang, e a comunidade científica em geral, criticaram a decisão das autoridades coreanas quanto à conclusão do caso Hwang, afirmando que além dos crimes já mencionados, Hwang teria violado também a Declaração de Helsinque, especificamente o Art.23 desta lei, que determina que o consentimento informado de pessoas objeto de pesquisa, com alguma forma de vulnerabilidade em relação ao pesquisador (médico), deve ser obtida de forma cautelosa, através de pesquisador neutro, sem participação direta na pesquisa, e que tivesse conhecimento pleno da pesquisa em andamento.. Conforme mencionado em capítulo anterior, a condenação por prática de conduta antiética atribuída ao professor Hwang estava relacionada com a forma como se deu a obtenção dos óvulos utilizados na sua pesquisa, que foram obtidos de forma onerosa, sem o 35. Chosun Ilbo. Support for Cloning Pioneer Still Growing. Updated Nov.27,2005. “Participantes da vigília noturna incluíam o cantor Kang Won Lae, 36 anos, que é paraplégico desde o acidente de 2000, e sua esposa Kim Song, de 33 anos, que é coreógrafa. Kim já havia realizado extração de óvulo para fins de inseminação e para doação para pesquisas, mas a doação falhou devido a problemas durante o processo. ‘Foram realizadas três extrações de óvulo em mim para fins de inseminação e o processo foi o mesmo para retirada de óvulos para doação para as pesquisas. O hospital me informou a respeito dos potenciais riscos e efeitos colaterais e fui devidamente informada’ disse ela. Kang disse ‘muitos pacientes que sofrem de doenças de difícil cura estão pondo a sua fé na pesquisa de células-tronco. O problema ético é inevitável neste processo. Mas criticar o processo de pesquisa é o mesmo que dizer aos que ainda tem fé de desistirem de suas vidas”..

(35) 35 correto consentimento informado das doadoras, e a possível coação de membros femininos de sua equipe de pesquisa que teriam sido forçadas a doar óvulos.. A investigação da Universidade de Seul verificou que Dr. Hwang havia mentido sobre a quantidade total de óvulos utilizados nas suas pesquisas, excedendo bastante o número oficialmente informado por ele, e que em alguns casos algumas doadoras haviam doado mais de uma vez, de 2 a até 4 vezes.. Apurou-se posteriormente que 20% das doadoras de óvulos apresentaram hipersensibilidade na vagina, despertando com isso a ira de grupos de proteção dos direitos das mulheres do país, que passaram a exigir compensação pelos danos, através de processos judiciais contra as entidades envolvidas nas pesquisas.. Contudo, observa McGuire. 36. que apesar das acusações levantadas pelos seus. opositores, Hwang não teria violado os dispositivos da lei de bioética e biossegurança da Coréia, pois esta lei não estabelece proibições aos atos praticados pelo mesmo, uma vez que a lei não estabelece restrições ou condições para as mulheres doarem seus óvulos, nem mecanismos seguros para coibir a obtenção ilegal dos mesmos, pois não prevê expressamente a forma como o consentimento informado das doadoras deve ser realizado, nem especifica o conteúdo das informações que devem ser fornecidas às doadoras no ato da doação, nem sequer possui mecanismos específicos de proteção contra coação de potenciais doadoras.. De fato, observa o autor que quanto às pesquisadoras da equipe de Hwang, estas teriam confirmado que a doação dos óvulos foi voluntária, motivadas pela vontade das mesmas de contribuir com as pesquisas em andamento, e que a formalidade de obtenção do consentimento informado foi observada na ocasião.. Contudo o que torna tal ato sujeito à crítica ou pelo menos suspeito, é o fato de que o processo de obtenção do consentimento das pesquisadoras teria sido realizado diretamente 36. John Michael MCGUIRE. Revising the Korean Bioethics and Biosafety Act: Should researchers be prohibited from donating oocytes?. Division of International Studies, Hanyang University. Pg.89.

(36) 36 pelo Prof. Hwang, que pelo fato possuir poder de subordinação sobre as pesquisadoras, poderia ter influenciado de alguma forma na decisão das mesmas de doar os seus óvulos.. Assim, a absolvição de Hwang dos crimes de fraude e apropriação indébita, sendo condenado apenas nos crimes de natureza ética, despertou o descontentamento de todos os interessados na questão, seja dos seus opositores, seja dos seus aliados, que receberam com frustração a decisão anunciada pelos órgãos governamentais.. Para aqueles que eram contrários à pesquisa genética no país, esperavam que a condenação exemplar de Hwang fosse o início de uma postura mais conservadora na condução das pesquisas genéticas no país, servindo de ponto de partida de uma nova política de promoção da pesquisa biotecnológica do país.. Contudo, aqueles que apoiavam as pesquisas genéticas de Hwang eram contrários à condenação do cientista por violação de conduta ética, pois entendiam que Hwang não teria violado a lei de bioética do país, nem a Declaração de Helsinque.. De fato, pouco após a eclosão do escândalo protagonizado por Hwang, o deputado coreano, Sr. Kim Hee Jung, membro do “Comitê da Assembléia Nacional para a Ciência, Tecnologia, Informação e Telecomunicação”, entidade parlamentar responsável por fiscalizar a pesquisa biotecnológica no país, afirmou publicamente que a coleta de óvulos de membros femininos da equipe de Dr. Hwang, mesmo que fosse verdadeira, não teria violado qualquer norma legal ou ética37.. No mesmo compasso, escritórios de advocacia dos Estados Unidos especializados na área solicitados a opinar sobre o caso, chegaram à conclusão de que se os óvulos foram doados voluntariamente pelas pesquisadoras, não teria havido violação de qualquer regra ética ou legal por parte de Hwang38.. 37 38. TG KIM. In-house donation not unethical. Korea Times, 15 de novembro de 2005 Chosun Ilbo. Controversial oocyte donation “no breachof ethics”. 17 de novembro de 2005.

(37) 37 Por fim, o Ministério da Saúde da Coréia, entidade conservadora em relação às pesquisas genéticas no país, corroborou com a mesma tese de que tendo havido voluntariedade na doação dos óvulos por parte das pesquisadoras, Dr. Hwang não teria violado qualquer norma legal ou ética39.. McGuire compactua com esta visão favorável a Hwang, esclarecendo que quanto à acusação de violação da regra do art. 23 da Declaração de Helsinque, o cientista não teria violado tal dispositivo pelos seguintes motivos:. O primeiro motivo: o autor diz que Hwang não violou a Declaração de Helsinque, pois afirma que a declaração não proíbe pesquisadores de participarem como objeto de pesquisa, e neste contexto diz que se o Dr. Hwang cometeu alguma violação à declaração, tal violação teria sido com relação à forma como a obtenção do consentimento informado das pesquisadoras femininas foi realizada, pois em vez de ser obtida através de um pesquisador neutro, sem participação direta nas pesquisas, Hwang teria obtido o consentimento pessoalmente das pesquisadoras de sua equipe.. Segundo motivo pelo qual Hwang não teria violado a declaração: a declaração diz que o consentimento informado deveria ser obtido de pessoas que são objeto da pesquisa, mas no presente caso as pesquisadoras não eram alvos ou objeto da pesquisa de Hwang, assim a regra determinada no Art.23 da declaração não se aplicaria ao caso.. Terceiro motivo: a regra determinada no artigo 23 da declaração aplica-se especificamente a atos praticados por médicos, pois na sua redação faz menção específica a médicos (e não a cientistas) alem do que a declaração foi ratificada pela associação mundial dos médicos, contudo, não sendo Hwang médico nem membro desta associação, não estaria sujeito a seguir as normas da Declaração de Helsinque.. Assim, conclui McGuire que pela aplicação literal do dispositivo do Art. 23 da Declaração de Helsinque aos atos praticados por Hwang, estão corretos aqueles que defendem 39. CW KIM. Hwang´s team in ethical minefield over ova. panel. Korea Times. 2 de fevereiro de 2006.

Referências

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