7'
Maria
daConceição
PasseggiZella
deBrito
Fabri
Demartini
Adelina
deOliveira
Novaes
(Organizadoras)
^
I
N
FANCIAS,
JUVENTU
DES,
u
N
|VERSOS
(AUTO)BtOGnÁfl
COS
E
NARRATIVAS
EDITORA CRV
Curitiba
-
Brasil2018
Copyright O da Editora CRV Ltda.
Editor-chefe;
RailsonMoura
Diagramação
e Capa: Editora CRVArte
da capa:Mauro
SérgioNeri
da SilvaRevisão: Os Autores
DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÄO NA PUBLICAÇÃO (CIP)
CATALOGAÇÄO
Na
FONTE t43Infâncias, juventudes, universos (auto)biográficos e narativas / Maria da Conceição
Passeggi, Zeila de
Brito
Fabri Demartini, Adelina de Oliveira Novaes (organizadoras) Elizeu clementino cle souza (direção) Jorge Luiz da cunha, Ecleide cunico Furlanetto, Maria da Conceição Passeggi (coordenadores)-
Curitiba: CRV 2018.222
p.
(Coleção: Pesquisa (auto)biográfica, mobilidades, inceftezase
refiguraçõesidentitárias. v. 3).
Bibliografia
rsBN coLEÇ
Ão
gts-as-qq4-2s7s-4rsBN
voLLrME
97 8-8 s - 4 4 4 -258 | -7DOI 10.24824 197 88s 4442s81 .7
l. Educação 2. Infância 3. Metodologias 4. Literatura 5. Narrativas I. Passeggi, Maria
da Conceição. org. II. Demartini, Zeila de Brito Fabri. org. III. Novaes, Adelina de Oliveira. org. IV. Souza, Elizeu Clementino de. dir. V. Cunha, Jorge Luizda. coord. VI. Furlanetto, Ecleide Cunico. coord. VIL Passeggi, Maria da Conceição. coord. VIIL Título. IX. pesquisa
(auto)biográfica, mobilidades, inceftezas e refigurações identitárias. v. 3.
CDI] 37 CDD 370
Indice para catálogo sistemático
1. Educação 370
ESTA OBRA
TAMBÉM
ENCONTRA-SE DISPONÍVBI,EV
FORMATODIGITAL.
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Conselho
Editorial:
Aldira Guimarães Duarte Domínguez (UNB) Andréia da Silva Quintanilha Sousa (UNIRruFRN) Antônio Pereira Gaio junior (UFRRJ) Carlos Alberlo Vilar E$êvão (UMINHOiPT) Carlos Federico DominguezAvila (Unieuro) Camen Tereæ Velanga (IJNIR) Celso Conti(UFSCat) Cesar Gerónimo Tello (Univer Nacional Três de Febrero/Argentina) Eduardo Femandes Barbosa (JFMG)
Elione Maria Nogueira Diogenes (UFAL) Élsio José Corá (UFFS) Elizeu Clementino de Souza (UNEB) Femando Antônio Gonçalves Alcofomdo (lPB) Francisco Carlos Duarte (PUC/PR) GloLia Fariñas León (Universidade de La Havana/Cuba)
Guillermo Arias Beatón (Univenidade
de La Havana/Cuba) Jailson Alves dos Santos (UFRJ)
Joâo Adalberto Campato Junior (t.lNESP)
Josania Portela (JIPI) Leonel Severo Rocha (UNISIN0S) Lídia de Oliveira Xaviet (UNIEURO) Lourdes Helena da Silva (UIV)
Maria de Lourdes Pinto deAlmeida (UNOESC) Maria Lília Imbiriba Sousa Colares (UFOPA) Maria Cri$ina dos Santos Bezena (UFSCa$ Paulo Romualdo Hemandes (IJNIFAI,MG)
Rodrigo Pratte-Santos (UFES) Sérgio Nunes de Jesus (IFRO) Simone Rodrigues Pinto (UNB) Solange Helena XimenesRocha (UFOPA) Sydione Santos (UEPG) Tadeu Oliver Gonçalves (JFPA) Tania Suely Azevedo Brasileiro (UFOPA)
Comitê Científico:
Ana Chrystina Venancio Mignot (UERJ) Andréia N. Militâo (UEMS)Diosnel Centurion (Univ Americ. de Asunción/þ) Cesar Gerónimo Tello (Universidad Nacional
de Três de Febrero/Argentina) Eliane Rose Maio (uEM)
Elizeu Clementino de Souza (UNEB) Fauston Negreiros (UFPI) Francisco Ari de Andrade (tFC)
Gláucia Maria dos Santos Jorge (JFOP) Helder Buenos Aires de Carvalho (UFPI) Ilma PasosA. Veiga (LINICEUB) Inês Feneira de Souza Bragança (UNICAMP)
José de Ribamar Sousa Pereira (UCB)
Jussara Fraga Portugal
Kilwangy Kya Kapitango-a-Samba (Unemat) Lourdes Helena da Silva (UFV)
Lucia Marisy Souza Ribeiro de Oliveira (UNIVASF) Maria de Lourdes Pinto deAlmeida (LNOESC) Maria Eurácia Baneto de Andrade (UFRB) Maria Lília Imbiriba Sousa Colares (LIOPA)
Mônica Pereira dos Santos (UFU) Najela Tavares Ujiie (UTFPR) Sérgio Nunes de Jesus (lFR0) Sonia Maria Feneira Koehler (IJNISAL) Suzana dos Santos Gomes (UFMG) Vera Lucia Gaspar (UDESC)
DtsPoNlvEL No
Play
2018
Foi feito o depósito legal conf.
Lei
10.994 de 1411212004Proibida a reprodução parcial ou total desta obra sem autorização da Editora CRV
Todos os direitos desta edição reservados pela: Editora CRV Tel.: (41) 3039-6418 - E-mail: [email protected]
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Sobre
a
coleção
A
Coleção, Pesquisø (øuto)biográfca: mobilidades, incertezas, e refgurøções identitáriøs, tem como propósito socializar resultados de pesquisas que interrogamdo ponto de vista teórico-epistemológico as narrativas biográficas e autobiográficas como fontes de pesquisa e de formação. As discussões focalizam modalidades orais, escritas, fílmicas, digitais, históricas, literárias e artísticas, inscritas na experiência cotidiana e nos processos humanos de configuração e refiguração identitária, face as
incertezas postas no cenário contemporâneo sobre a educação,
A
temática, conforme proposta na coleção, desdobra-se, em modos como ossujeitos se movem nas organizações, desorganizações, reorganizaçoes territoriais, de
paisagens internas e externas, decorrentes das atuais conjunturas sociais, econômicas, ambientais, culturais, religiosas e políticas, provocadoras de experiências vivenciadas
em novos horizontes (auto)biogríficos. Tais movimentos ancoram-se em discussões
sobre contextos e conjunturas das mobilidades e processos de refigurações identitárias que se implicam como deslocamentos territoriais, assim como das diversas formas
como os sujeitos experienciam, numaperspectivabiográfica, reorganizações impostas
pelas fronteiras políticas, econômicas, culturais e humanas que se vinculam aos deslo-camentos externos e internos vividos pelos sujeitos.
Os diferentes volumes desta Coleção reúnem contribuiçoes relevantes sobre
o estado atual de estudos desenvolvidos no funbito da pesquisa (auto)biográfica
por
pesquisadores brasileiros, europeus e latino-americanos, que têm se dedicado a con-solidar redes de pesquisa-formação internacional, apontando novos horizontes de
in-vestþção
em educaçãg numa perspectiva epistêmico-política, que dão visibilidade elegitimidade à pesquisa científica com narrativas, histórias de vida e memórias pessoais
e coletivas que se produzem e circulam em contextos contemporâneos e históricos.
A
questão fundante consiste em sabercomo
o humano retraça,narrativa-mente, as experiências vividas na diversidade de suas condições socioculturais,
geracionais, étnicas, profissionais, de gênero, de saúde, de doença, de sofrimento
e de superação. Narrativas que se deixam ler, ver,
ouvir
e sentir como modos detomada de consciência, formas de resistências e de empoderamento ao biografar
tramas e enredos das histórias de sua vida.
A
intenção é,portanto, ampliar
o
debate sobreo
enfoquebiográfico
nasCiências Humanas e Sociais, ao apresentar contribuições sobre práticas de
pes-quisa e desafios atuais
no
campo dos estudos (auto)biográficos em educação esuas interfaces pós-disciplinares.
Elízeu Clementino ile Souzø
Uniuersidade do Estado da Bahia
lorgeLuíz
dø Cunha[Jniuersidade Federal de Santø Maria
Ecleide Cunico Fuilønetto
[Jniversidade Cidade de São Paulo
t
niu er s i d a d e#;:
:ål:
ii""
åi
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Coleção
Pesquisa (auto)biográfica, mobilidades, incertezas e refigurações identitárias
Elizeu Clementino de Souza
I
arï,iïl,i"O"
do Estado da Bahia I BrasilCoordenação
Jorge Luiz da Cunha I Universidade Federal de Santa Maria I Brasil Ecleide Cunico Furlanetto I Universidade Cidade de São Paulo I Brasil Maria da conceição Passeggi I universidade Federal do Rio Grande do Norte I Brasil
Adair Mendes
*"..:":lii1lî:;iiif'å.
FranciscoI Brasil
Ana Chrystina Mignot I Universidade do Estado do Rio deJaneiro I Brasil Andrés Klaus Runge Peña I Universidade de Antióquia I Colômbia
Aneta Slowick I Universidade da Baixa Silésia I Polônia
Antonio Bolívar I Universidad de Granada I Espanha
Carmen Teresa Gabriel I Universidade Federal do Rio deJaneiro I Brasil Marie Claude Bernardl Université de Laval I Canadá
Christine Delory-Momberger I Université de Paris 13 | França Christophe Wulf I Universidade Livre de Berlim
I Alemanha
Daniel Hugo Suárez I Universidade de Buenos Aires I Argentina DanielJohnson Mardones I Universidade do Chite I Chile Dislane Zerbinatti Moraes I Universidade de São Paulo I Brasil Ercília Braga de Olindal Universidade Federal do Ceará lBrasil
Filomena Maria de A¡ruda Monteiro I universidade Federal de Mato Grosso I Brasil GabrielJaime
Murillo,{rango
I Universidade de Antióquia I ColômbiaGaston Pineau I Université de Tours I França Hervé Breton I Universidade de Tours I França
Inês Ferreira de Souza Bragança I Universidade Estadual de Campinas I Brasil
José Antonio Serrano Castañeda I Universidad Pedagógica Nacional I México
José Contreras Domingo I Universidad Barcelona I Espanha
José Gonzalez Monteagudo I Universidad de Sevilla I Espanha
José Machado Pais I Universidade de Lisboa I Portugal
Juan Mario Ramos Moarales I Universidad Pedagógica Nacional I México
Laura Formenti I
Universitá degli Studi di Milano-Bicocca
IItália
LeonorArfuch I Universidade de Buenos Aires I Argentina Luciane De Conti I Universidade Federal do Rio Grande do Sul I Brasil
Maria da Conceição Leal da Costa I Universidade de Évora I Portugal Maria Helena Menna Barreto Abrahão I universidade Federal de pelotas
I Brasil
Maria TeresaJacinto Sarmento I Universidade do
Minho
I Portugal Maria Teresa Santos Cunha I Universidade do Estado de Santa Catarina I BrasilPaula Perin Vicentini I Universidade de São paulo I Brasil
PeterAlheit
I Universidade de Göttingen I Alemanha
RiciaAnne Chansþ | Universidade de Porto Rico I Porto Rico Rodrigo Matos de Souza I Universidade de Brasília I Brasil Rosemeire Reis da Silva I Universidade Federal de Alagoas I Brasil Terezinha Valim C)liver Gonçalves I Universidade Federal do Pará | Brasil Verbena Maria Rocha Cordeiro I Universidade do Estado da Bahia I Brasil Zeila de Brito Fabri Demartini I Universidade Metodista de São Paulo I Brasil
Sumário
Prefacio
Antonio Bolíuar
Apresentação
Aguisa
deintrodução.
Universos
narrativos
dainfância
e daiuventude
Maria da Conceiçao Passeggi
Zeila de Brito F abri D emartini Adelina de Oliveira Novaes
11 17 27
4r
57 81JUVENTUDES
EINFÂNCIAS
:ENTRE
SUBJETIVIDADES, ESCOLHAS
ERITUAIS
Trajetórias biográficas e novas configurações subjetivas
José Machado Pais
Parole d'élèves et
subjectivation
du parcoursscolaire et
dbrientations
AnneDizerbo
Infâncias e narrativas autobiográficas: cenários
subjetividades e experiências escolares
Simone Maria da Rocha
Maria dø Conceiçao Passeggi
Escolarização prolongada e
futuro:
percepções apartir
de histórias de
vida
M ør íø Ter es a Viannø Van Acker
Móximo Augusto Campos Masson
Estudos com jovens/estudantes e pesquisa biográfica
Rosemeire Reis
Narrativa e infância.
A importância
dos contos noritual iniciático
das criançasAlberto FilipeAraújo
Fernando Azeuedo
67
NARRATIVAS
DA
INFÂNCIA:
IINI\IERSO
ESCOLAR
ECUIDAD
OHOSPITALAR
Escuelas del
futuro
como escuelas del presente en imágenes-relatos:el
método
documental en lainterpretación
de experiencias conjuntivas de ungrupo
de niños y niñas deMedellín
Andrés Klaus Runge Pena Carlos Ospina Cruz
Narrativas
infantis
sobre seus (des)encontros com ooutro
nocotidiano
escolarLuciane De Conti
Escolas da infância.
O
que contam os professores sobre elasIduina MontAlverne Braun Chøves
Márcio Mori
O que dizem as crianças do campo sobre a escola
Gilcilene Lélia Souza do Nascímento
Criança indígena e a educação nos grupos-referência
na comunidade Boca da Mata
-
RoraimaGiluete deLima Gabriel
Sobre as
organizadoras
Sobre os
autores
Narrativas de e para crianças: sobre compartilhamentos de representações
sociais no contexto do cuidado
hospitalarinfantil
L99Érica Nayla Harrich Teibel
Daniela Barros da Silua Freire Andrade
115
t39
151t67
r85
2t5
zt7
Y
Trajetórias biográficas e
novas
confi
g u
raçöes
su
bjetivas
José Machødo PaisApolifonia
do
tempo:
gerações
esubietividades
Costuma dizer-se que cada época tem o seu tempo
-
havendo mesmo quemaluda a
um
"espírito dotempo"
a cada época inerente. Nesta concepção, que égrata a
Durkheim,
otempo
objetivar-se-ia na sua externalidade em relação aosindivíduos, impondo-se
deforma
mecânica e coerciva atodos
eles.Tipificado
por
sua mensurabilidade,o tempo
apareceriacomo
padrão de mediçãoquan-titativa de uma
linearidade
histórica.
Georg
Wilhelm Pinder
(ISZS-LO+Z),historiador
de arte,foi
dosprimeiros
pensadores acriticar
esta concepção dotempq
insensível às diferenças geracionais, submergidasno espírito
do tempode cada época. Para captar essa
pluralidade
geracional,Pinder
(tgZS)
propõeque seja valorizada a temporalidade
polifónica
onde ecoam as vozes de distintasgerações.
E o
queidentificaria
cada geração?Nada
maisnaila menos
do
queuma enteléquiø propúa,
um
sentimento e atitude perante avida
e omundo
quesingularizaria cada
unidade
geracional.É
estaunidade
geracional que Pinder contrapoe a uma pretensaunidade do
tempo, frequentemente ancorada a um "espírito do tempo'lNo
caso das gerações, tomadas em sua diversidade, teríamosassim uma não contemporaneidade entre contemporâneos.
Contudq
preocupado em sinalizar diferenças geracionais entre distintasge-rações demográficas, Pinder não deu ouvidos às diferentes vozes que se fazem
ouvir
numa mesma unidade geracionaf desse modo desvalorizando as diferenças
intrage-racionais.
No
entantq teve omérito
-
aliás, reconhecido porIGrl
Mannheim-
dechamar à equação da problemática das gerações o tempo vivido subjetivamente, um
tempo interior, não mensurável, qualitativo.
É
estetempg
subjetivamentevividg
que faz com que aproblemática das gerações deixe de ficar con-finada a uma sucessào
linear de gerações, tomadas num sentido demográficq para passar a contemplar uma temporalidade interior, vivenciaf subjetiva. No entanto, ao jogar as subjetividades na
equação da problemática das gerações, Pinder deixou escapar dessa mesma equação
a historicidade do social, perdendo também a oportunidade de assumir o fenómeno
geracional
como
um
fator
intrínsecodo
dinamismo histórico.Por
isso mesmo,Mannheim (
tæl
ItlZS])
criticou Pinderpor desconsiderar a possibilidade de uma28
Uma incógnita não
satisfatoriamenteresolvida
na
equaçãoda
proble-mática
das gerações respeita aomodo
como
assubjetividades entram
nessaequação. É sabido que
conceito
de subjetividade aparecevinculado
a umarea-lidade subjetiva, a uma maneira de ser e de fazer, de pensar e de sentir,
própria
de cada um de nós. Falar de subjetividades é falar de experiências de vida que fazemdespontar uma consciência de si. Para dar conta
do mundo
das subjetividades impõe-se um deslocamento de fuga em relação a perspectivas heterológicas quefalam do
outro
desprezandoo
queo outro
frequentemente cala.O outro
nãopode
apenas sertomado como
um
mero objeto
de estudo.As
subjetividadesdescobrem-se
no
sujeito que se escondepor
detrás da fachada do que aparentaser.
Contudo,
háuma outra
realidade que se abrigano
esconderijo dassubje-tividades.
Por
detrás das consciênciasindividuais,
razãode
ser dassubjetivi-dades, o que descobrimos são matizações sociais que
legitimam
a relevância dassubjetividades na
problemática
das gerações. Por isso mesmo, as configuraçoessubjetivas não podem dissociar-se das configurações sociais. O mapeamento de
ambas permite-nos dar conta de distintas disposiçÕes geracionais e de possíveis
novos rumos societais. Assim sendg se quisermos explorar novas configuraçoes
subjetivas entre os jovens de hoje, temos de ver
como
elasfluem no
caudal do tempo histórico. E mais, temos de ver como as subjetividadesindividuais
seen-trecruzam com os scripts ou roteiros culturais.
Um
exemplo. Sabemos da relevância da corporalidade, dos afetos, doena-moramento
e da sexualidade na construção das subjetividades juvenis. Mesmo emdomínios como
este, nos quais sejogam
os sentimentos de si, assubjetivi-dades não deixam de se construir em sua relação com o mundo. Os seja, se é certo
que
as subjetividades reclamamuma
consciênciade si,
essa autoconsciênciaapenas emerge quando o
mundo
àvolta
começa a ser pensado e questionado.Pode parecer estranho, mas evocando experiências da
minha
própria
adoles-cência, somente comecei a questionar seriamente a ditadura salazarista quando,
aos 15 anos, me encontrava com a minha namorada de adolescência num banco
de
jardim,
de mãos dadas. Inocentemente, de mãos dadas.Nisto
acercou-se umpolícia,
com voz ameaçadora, ante a suspeita afetividade das mãos dadas. Estaexperiência subjetiva, algo traumatizante, fez crescer em
mim
um sentimento derevolta em relação aos homens de farda. Porém, eles eram apenas a cara visível
de um regime repressor.
Tinham
sidodoutrinados
para issomesmg cumpriam
ordens,frequentemente
com
excessode
zelo.A
ordem
era assegurada,vim
depois asabeJq
através de severas coimas queevitariam
atentados,perversa-mente imaginados,
contra
amoral
pública.As multas
aumentavamsucessiva-mente,
numa
escala dedelitos morais
que, justamente, começavaem
mão nømao e evoluíapara mao nac1uilo fórgão sexual
feminino];
aquilo[pénis]
na møoj øquilo naquílo; aquilo øtrás døquilo e com a língua naquilo, o mais penalizado delnfâncias, juventudes, universos (auto)biog ráficos e na rrativas 29
todos os atentados ao
pudor.t Mas
acreditem, eu estava apenascom
a mão na ÍÍtão, e longe demim
aintenção
ou tentação de ali,num
banco dejardim,
darinício a uma Potencial carreira de delinquente moral.
Por aqui vemos que a subjetividade não corresponde a uma experiência
que apenas se circunscreve ao
indivíduo. É
antes o reflexo deum
olhar para omundo
de umaforma
simultaneamentevivida
e sentida,dando
ensejo a que,reflexivamente, o possamos
interpretar
e criticar, potenciando também o desejode o transformar.
E
isso aconteceporque
subjetivamente se ganha umacons-ciência de
si
edo
queobjetivamente
se passano
mundo
àvolta. É
essa refle-xividade, entreo
eu e omundo
àvolta
demim,
que arma as subjetividades deuma capacidade crítica e potencialmente transformadora, como aconteceu com
os
movimentos contra culturais
protagonizadospela
chamada geração de 60.Porém, se nessa época as subjetividades juvenis de algumas vanguardas contra
culturais
tinham por
baseum conflito
geracional, umaruptura
em relação aosscripts culturais então dominantes,
hoje
o que sobretudo sobressai não é tantouma ruptura em relação ao passado, mas antes a valorização da experiência como condição
primordial
à
descobertade
si (TOURAINE;
KHOSROKHAVAR,
2000).
O
quemais conta
é aprodução
reflexivade
subjetividades mediadas pelas "técnicasdo
eu",como diria Foucault
(ZOOS). Característicasíntimas
davida
pessoal abrem-se a novas experiências, àreivindicação do
prazer sexual,à escolha
de
orientações sexuais diversasque
se associam amúltiplas
cons-truções de
subjetividade
(nOZOry 2001). Qrando
anível cultural
os scriptsdominantes são questionados é
porque
anível intrapsíquico
surgeuma
capa-cidade desejante que
conflitua com
esses scripts(SIl,lON; GAGNON,2005).
A
afirmação daindividualidade
é movidapor
essa capacidade de desejar. Entreos jovens, o princípio do desejo incentiva gramáticas de vida abertas à
experimen-tação, à afirmação da
individualidade.
Daí que as novas configuraçoes subjetivasse abram a uma enorme variedade de possibilidades. Os jovens de hoje,
muito
mais escolarizadosdo
que os deoutrora,
envolvem-se emmúltiplas
ediversi-ficadas experiências de
vida.
Q¡ranto mais reflexivas são essas experiências devida tanto mais as subjetividades se afirmam.
Horizontes profissionais
enovas
culturas
de
trabalho
Nos
últimos
anos reacendeu-seo
debate sobreo futuro do
trabalho,
oseu
sentido
evalor,
as suas transformações possíveis, a suacentralidade
ounão na
vida
das pessoas.Ao discutirem-se
as novas culturas etrabalho
nãopo-demos deixar de questionar, entre os jovens de hoje, o
surgimento
de um novoethos criatiuo
(f
tOrunR,
2002) ,outrora
associado aomundo
das artes, masY-30
que agora marca presença em amplos segmentos
juvenis
(AI-n4ftOe;
PAIS,2012;
CANCLINI; M,{RITZA,
ZOI2).
Jovenscriativos laboram
no
campodas artes, dos
livros,
da música e das tecnologiasdigitais, explorando
redes decooperação que prevalecem nas chamadas
indústrias culturais.
São jovens quefazem
parte
deuma
categoriaparticular
de trabalhadores, nempermanente-mente
assalariadosnem plenamente
independentes.Muitos
delestrabalham
emprojetos
decurta
duração,frequentemente mal
pagos,intermitentes,
semcontratos de trabalho, sem carreiras estruturadas. Os
limitados
ganhos queau-ferem,
por falta
de encomendas e decontratos
de trabalho, favorecem acom-binação
intermitente
de
tarefascriativas
com
atividades
secundáriasrcomo
constateinuma
pesquisa sobrejovens criadores
debanda
desenhada(fatS,
20I2a).
Ao
convidá-los para
escreverem as suashistórias
de
vida em
qua-drinhos verifiquei
que a tensão entre vocação e profissão baliza os seusrumos
biográficos.
A
oportunidade
de
secontarem
asi
mesmosdeu-lhes
tambémensejo de se conceberem enquanto se contavam.
Ou
seja, osquadrinhos foram
analiticamente usados
como
decifradores dasubjetividade
dos seus criadores-
tomando-se asubjetividade
comoum
espaço de representação consciencia-lizada.No
fundo,pretendia
saber em que medida osquadrinhos
que os jovensproduziam
acabavampor
osproduzir.
O
que descobrifoi
que a criatividade dos jovensprodutores
de banda de-senhada se baseia numa capacidade-
feita de astúcias e sagacidades-
para in-terconectar ocorrências, circunstâncias, ideias, oportunidades. Da mesmaforma
que a banda desenhada é uma arte sequencial, também as trajetórias dos jovens exploram sequências que atingem, por obliquidade, inesperadas consequências.
O
agir daobliquidade,
que épróprio
dacriatividade
edo
saberinterpretativo
dos mundos ficcionais das histórias aos quadrinhos, é uma estratégia explorada
por
jovens que procuram profissionalizar a sua criatividade.Isto
não obstante adesconfiança de pais e professores. Nas palavras de um jovem
produtor
dequa-drinhos, confessar aos pais o sonho de ganhar a vida fazendo bonecos significou
dizer "mãe e pai, sou drogado!" Os professores também não eram encorajadores:
"ó pá, isso não
tem
saída! Escolheoutra
coisa!"Enfim,
diferentes perspetivasgeracionais sobre inserçÕes profissionais.
Nas histórias aos
quadrinhos
como nas histórias devida
surge a tentaçãoda linearidade.
Mas
avida comporta
descontinuidades,movimentos
derever-sibilidade, turning points, saltos de
vida
quereivindicam
destreza e astúcias.Há
que dominar a ørte d ø pirueta
(MCCLOIJD,
1993, p. I 06 ) em que se ap oia o agirde obliquidade
(fats,
20IZa).
Os jovens de hoje encontram-se socializadosnum
jogo
de indeterminações de que, aliás, os criadores de banda desenhada deitam mão na produção das suas histórias, quandoprocuram
umponto
deequilíbrio
entre a imagem e o texto, ovivido
e opercebidg
o sonhado e o realizado.lnfâncias, juventudes, universos [auto)biográficos e narrativas 31
Uma boa
parte
das novasculturas de trabalho envolvem os
chamadosffendsetters, jovens
criativos
que lançam novas tendênciasno
campo da moda,das artes ou do marketing. Caçadores de oportunidades, deslocam-se
continua-rnente de um lado para o
outrq
sem se acomodarem a um emprego estável. Paraalguns deles, a
mobilidade
profrssional corresponde auma
escolha biográficaque não se circunscreve à esfera profissional.,A.
mobilidade
é encarada como ummodo
devida, principalmente
se nãotêm
responsabilidades familiares. Estasnovas culturas de
trabalhq
baseadas num ethoscriativo
e em novas concepçöesdo
trabalhq
levam alguns jovens avalorizar
aflexibilidade
e a natureza do tra-balho,o
ganho que significa não dependerem dehorários rígidos.
Podem atésentir-se confortáveis
com
trabalhostemporários
queintercalam
com viagensde lazer, depois
de
algumas poupanças.Há
quem
apresenteuma
imagemro-mantizada destes
jovens,
tocadospor um
espírito aventureiro que
recusa asnormas do antigo operariado que buscava
um
emprego paratoda
avida
ou do materialismo burguês dos "colarinhos brancos" orientadospor
umavida
aco-modada
(STANDING,20LI).
Estarebeldia
einconformismg
tão
presentes em amplos sectoresjuvenis
dehoje,
constituemum
traçocultural
de naturezapós-materialista que os distingue de gerações predecessoras,
muito
maisorien-tadas por valores materialistas. Para estes segmentos de jovens, a valorização da
segurança de emprego cede em relação à valorização da realização profissional,
da
autonomia,
daliberdade
de exercício de uma atividadeprofissional liberta
da
tirania
do trabalho subordinado.As
chamadas classes criativas prezam estesvalores
(rLorula,
zoo2).
Como
quer que seja,no universo
dos trabalhadorestemporários
há quedistinguir entre
osprecários
por
opção e osprecários
por
exclusã0,provavel-mente a maioria deles.
No
entanto, num ounoutro
caso, a criatividade não deixade ser
um
apelo à profissionalização. Tome-seo
exemplo deum jovem,
com-panheiro de uma doutoranda brasileira que há tempos
orientei no
Instituto
deCiências Sociais da Universidade de Lisboa. Ela usufruía de uma bolsa de curta
duração (bolsa sanduiche, como se
diz
no
Brasil).Agora já
é doutorada epro-fessora universitária.
O
seu companheiro, sociólogo sem bolsa de estudo, nemestudava
nem
tinha
emprego. Poderia serinjustamente
classificadocomo
umnem-nem. Na verdade, ajudava a companheira na confecção das refeições.
Como
bom companheiro
virou
cozinheiro etomou-lhe
o gosto. Não só da comida, mas das artesde
afazer.No perfil
traçadono
seu blog.,Marido
Sønduíche2, vemoscomo a sua passagem
por
Portugalfoi
determinante para acalentar uma vocaçao.Foi
em Lisboa que descobriu os
saboresda culinária portuguesa
e, apartir
daí,
decidiu
queo
seufuturo
profissional
seriajogado no universo
dagastro-nomia. Passado
um
ano regressou com a sua companheira a Porto Alegre, onde 2 Disponivel em: <http://maridosanduiche.blogspot.pt/>. Acesso em: 30 maio 2018.32
realizou
um
curso
de cozinheiro.Depois
seguiu-seum
estágionum
dos maisconceituados restaurantes franceses do sul do Brasil. Há temPos enviei-lhe uma
mensagem,
perguntandolhe
como ia a vida. Respondeu-me:"Minha
formaçàoacadêmica
facilitou
muita minha
inserçãono mercado
de trabalho.Meu blog
foi
fundamental
para chegaronde
cheguei.Atualmente
estoutrabalhando
nomelhor
restauranteportuguês do
Rio
de Janeiro, sou Subchefe lá.Além
dissodou aula de cozinha portuguesa também. Estou adorando."
Uma mão na cozinha para ajudar
acompanheira
abriu-lhe
aporta
deacesso a uma inesperada realização
profissional.
Provavelmente a arteculinária
acompanhá-lo-á para toda a vida. Estas estratégias de busca de emprego,
apro-veitando
criativamente
asoportunidades contingenciais da
vida,
merecem reflexãoquando
debatemos as novasculturas do trabalho.
A
enorme
flexibi-lidade, instabilidade
eimprevisibilidade do
mercado de trabalho
épropícia
aodesenvolvimento
destas estratégias.Qre
signifrcadotêm,
por
exemplo, aspolíticas
deformação contínua
aolongo
davida?
Seguramente,uma
neces-sidade de ajustamento da oferta educativa às rápidas mutações do mercado de
trabalho, às transições de
vida
não lineares(fetS,
2001; RAFFE, 2003).
Nãoestou,
porém,
a sugerir que aoferta
educativa tenha deir
atrás das demandas do mercado de trabalho.As
chamadas engenhariassubjetividade
têm também sido
apontadascomo
estratégia de inserçãoprofissional
e de fuga ao desemprego(naSCUaf
etal.,2012).Elas
radicam na vontade dos indivíduos para, autonomamente, for-jarem o seupróprio
destino. Nelas surge a crença de que quem em suas decisõesdemonstra uma reflexividade de açao
(ADAMS,
2003, 2006;THREAD
GOLD;
NILAN,
2009)
está
muito
mais
capacitado
a
fazer escolhas
biográficas(BRANNEN;
NILSE\
2005)
ou a gerir os riscos defuturo
(nrrtOrf,zooz;
LAUGHLAND-BOOY
et
al.,
2015).
Estas engenhariasdø
sub¡etividade po-derão estarredundando
em inesperadasoportunidades
devida,
balizadaspor
novas culturas detrabalhg
onde se destacam valores deautonomia,
improvi-saçãqcriatividade,
expertlse, expressividade eludicidade
(aIUfmA;
nAtS,Z0I2). Um
sugestivoexemplo
éo
dosjá
referidosjovens
trendsefters.Muitos
deles
têm
conseguido esquivar-se aos dissaboresdo
desemprego.E
mais,ca-pazes de
trilharem
trajetórias de vida marcadaspor
algumas opções biográficas,eles procuram
valorizar
otrabalho como domínio
de realízação pessoal.A
suacriatividade é um
trampolim
para transcenderem o presente e se projetarem nofuturo,
dessemodo tornando
presente ofuturo.
Porém, a natureza estrutural do desempregocontinua
a ameaçar jovens que de maneira nenhuma poderão seracusados de padecerem de uma patologia da vontade. Se a vontade dos jovens
é determinante para,
com
autonomia,forjarem
o seupróprio
destino, nãopo-demos menosprezar as condições sociais que criam ou
bloqueiam
as estruturaslnfâncias, juventudes, universos (auto)biográficos e na rrativas 33
de
oportunidade
-
sobre as quais as políticas de emprego não podem deixar deatuar. Tenha-se em
conta
queo
desempregotem
duas faces: é uma realidadeindividual,
subjetivamentevivida;
mas ésobretudo
uma realidadecom
deter-minantes sociais.
Redes
sociais
esubietividades cosmopolitas
No
mosaico das novas configurações subjetivasproporia uma
distinçãoerrtre subjetividades
egocentrødase
sociocentrqdas.As
primeiras tendem
acentrar-se
em si
mesmas,ainda que
possamreclamar
uma
projeção
social,como acontece
com
as subjetividades narcísicas. Nestecasg
as subjetividades projetam-seno
social paramelhor
afirmarem uma singularidade decunho
in-clividualista.
Em
contrapartida, as subjetividades sociocentradøs singularizam-sepor uma adesão a causas sociais. Tais subjetividades reforçam reflexivamente a
consciência de si ao projetarem-se numa consciência social. Em uma de minhas
pesquisas sobre subjetividades
juvenis
ehorizontes
profissionais, acompanheium jovem
brasileiro
que, emigrado em Lisboa, vendia nummotociclo
hambúr-gueres vegetarianos.
Dizia
eleque
a escolhado
negócio
tinha
correspondidoa uma opção ideológica,
pois
sabia que para seproduzir um
quilo
de carne segastavam dois
mil litros
de água enquantovinte litros
bastavam paraproduzir
um
quilo
detrigo.
Eram preocupações ambientalistas que o levavam a venderhambúrgueres vegetarianos, argumentando ainda que eram mais saudáveis para
quem os consumia
(fatS,
20I2a,p.177-l8I).
Como
vemos,o
crescenteindividualismo
contemporâneo nãoimpede
oressurgimento, particularmente entre jovens, de formas coletivas de participação
social
que permitem
a
afirmaçãode
subjetividades sociocentradas. Podemosdar o exemplo dos mutirões que, em suas origens, envolviam trabalhos agrícolas
recíprocos e coletivos, gerando sentimentos de coesão e reforço de laços
comu-nitários. Estas formas colaborativas entraram depois em declínio
por
colidirem
com novas racionalidades económicas baseadas no individualismo.
No
entanto, aconsciência das desigualdades e injustiças sociais atualmente existentes
originou
o ressurgimento dessas ações coletivas, agora já não centradas numa base de ajuda
ou
sobrevivência económica.Hoje,
osmutirões
transformaram-seem
mobili-zações de natureza
política tendo
em vista a resolução de problemas oureivin-dicações de natureza social.
No
Brasil, descobri várias açoes coletivas orientadaspor causas ambientais, como é o casq de mutirões agroflorestais para plantação de árvores e cuidado das florestas; mutirões para a remoção de
lixo
nas vias públicasou mutirões para a reciclagem de lixo electrónico. Também descobri mutirões para ocupação de terras; para a pavimentação de ruas; para cirurgias hospitalares; para
34
a vítimas da chuva; para investigar os gastos excessivos e ilegais dos deputados.; para a retificação de nomes de transexuais e travestis; para banho a animais
caren-ciados, etc.
Muitos
destesmutiröes
contamcom
a participação ativa de jovens.As subjetividades sociocentradas movem-se nestes coletivos sociais, buscam
so-luções coletivas para os problemas da vida cotidiana, exploram novos espaços de
autorrealizaçãg na base de compromissos ético e sociais.
Um dos traços mais marcantes das novas configurações subjetivas refere-se
ao facto de os jovens de
hoje
integrarem uma geração mais desterritorializada: viajammuito
mais, saem frequentemente aos fins-de-semana,têm
uma grande familiaridade com as novas tecnologias da comunicação, movimentam-se numa mais alargada constelação de redes sociais.A
participação nestas redes sociais,gerando
múltiplas
trocas e interdependências,tem
tido um
crescente impactona
produção
de subjetividades quebeneficiam
deum
mais alargado universode experiências. Os jovens de
hoje
distinguem-sepelo
seucosmopolitismo,
aoenvolverem-se em
formas
departicipação
social epolítica
de naturezatrans-nacional,
frequentemente mediadas pelas novastecnologias de
comunicação(ntcr,
2oo6;coHEN;
\{ERTovEC,
2oo8).
É certo que existe um
cosmopolitismo
banal que poderíamos caracterizar,como
diria
Guattari
(tggø ltggZ]),
por
umaprodução
massiva de subjetivi-dadesembrutecidas
einfantilizadas pelos meios de
comunicação de massas.Neste
figurino,
a solidezrelacional
é substituídapela
contingência, a unidadeidentitária
pela fragmentaçãq a autenticidade pelo artifício. A sinceridade perdesignificado
e
dilui-se na indeterminação, dando lugar a
uma
"personalidadepastiche" que,
como
a define Gergen(|OZZ),
tomapor
empréstimo fragmentosde
identidade
dequalquer origem,
adequando-os às circunstâncias. Nestere-gistg
a existência joga-se nas fronteiras da aparência. Estacultura
da simulaçãoé o suporte de subjetividades simuladas, submetidas às tiranias da
visibilidade
(eUnEnf;
HAROCHE,Z01I).
Ou
seja, as novas configurações subjetivas não se traduzem, necessariamente, em emancipação social.No
entanto, aocosmo-politismo
banalhá
que contrapor
um
cosmopolitismo reflexivo,
da natureza crítica, libertadora,participativa (BECK,
2006).Trata-se de umcosmopolitismo
enraizado em valores e ethos sociais, atreito a subjetividades sociocentradas. Osjovens são protagonistas destas subjetividades cosmopolitas, expressão de uma consciência
de si vinculada
auma
consciênciacosmopolita da
humanidade.Como bem sublinhou Guattari
(l.OOøltOOZl,
p.
24),'î.
nossa sobrevivência nesteplaneta
está ameaçadanão
somentepor
degradações ambientais, mastambém pela degeneração
do tecido
de solidariedades sociais e demodos
devida
psíquicos que convémreinventar'l As
novas configurações subjetivaspa-recem estar abertas a esta "refundação do
político"
que, segundo Guattari, devepassar pela valorização das ecologias do ambiente,
do
socius e da psique.I nfâncias, juventudes, universos (auto)biográficos e narrativas 35
Por ocasião das manifestações dos jovens indignados em Lisboa e
Madrid
nosinícios da presente década, particularmente nas acampødas de 2011, eram
abun-dantes os folhetos, cartazes e cânticos reclamando uma nova ordem sociaf novas
éticas de vida, novas sensibilidades culturais: apelos à defesa do meio ambiente e
dos produtos biológicos, com mostras de produtos naturais, hortas biológicas e
ma-teriais reciclados; reivindicação do "di¡eito à semente", do cuidar da terra, de uma
vida em comunidade; defesa de uma cultura da partilha, mesmo no carnpo
gastro-nómicq
com workshops e bancas multiculturais de sabores; apologia dos direitosdos animais; murais com mensagens transformando o espaço público numa arena
de comunicação; apelos à defesa dos direitos dos imigrantes; defesa da liberdade
sexual e das minorias estigmatizadas; apelos aos valores do amor e da espiritualidade
(DAGNAUD
2011; PAIS,2ol2b ,p.269).
Manifestações destetipo
condensamexperiências múltiplas, vozes
de protestg
memórias, aspirações coletivas, tudoapontando para uma refundação do político e a redescoberta novos sentidos de vida.
As
subjetividadescosmopolitas decorrem de
processosde
socializaçãoonde as singularidades
individuais
se afirmam tanto mais quanto mais inscritasem círculos alargados de socialização. Esta correlação foi evidenciada por Simmel
(|OZZ ILOOA),p.425-478 e
p.741-80S)
em sua teoria dos círculos sociais.Ain-dividualidade do ser e do fazer cresce, em geral, à medida que se ampliam oscír-culos sociais em que se
participa.
Qranto
mais um jovemparticipa
em círculossociais alargados, tantas mais possibilidades existem para a afirmação de
subjeti-vidades enriquecidas
por
experiências interativas em diferentes mundos sociais.Avida
em círculos alargados de ação recíproca produz umadistinta
consciênciade si, de um si cosmopolita
(ABoULAFIA,2001;
GÉRÔlr/rB,2012).
Rematando
Nas suas trajetórias biográfrcas os jovens vivem num campo de jogo de
possi-bilidades indeterminadas lnas possíveis, entre predestinação e autodeterminação,
ordem
estabelecidae
aleatoriedade. Nessemundo
de
incertezas, os possíveisemergem de brechas de
oportunidade
que, obliquamente,possibilitam
interco-nectar ocorrências, circunstâncias, ideias, ressonâncias. Este agir da obliquidade, que encontramos em vários quadrantes
do
universojuvenil,
traduz-se nacapa-cidade de os jovens se adentrarem, olharem para si mesmos, a
partir
deum
foraenriquecido por experiências cosmopolitas e, ao mesmo tempo, de se projetarem
para fora a
partir
de dentro. Esta reflexividade éatributo
de novas configuraçõessubjetivas que permeiam
múltiplos
percursos juvenis.No
entantg
tas biografiasreflexivas não caminham à revelia dos constrangimentos sociais
O
universo dasescolhas encontra-se desigualmente distribuído e, ademais, os jovens são
36
Como
quer que seja as novas configurações subjetivas que pautam as tra-jetórias biográficas demuitos
jovens parecem sinalizar novosrumos
societais enovos horizontes de profissionalização. Tenha-se em conta que, para os pais de
muitos
dosjovens
dehoje, possuir uma
carreiraprofissional
significava deteruma identidade estável e reconhecida. Em contrapartida, as experiências
profis-sionais dos jovens são atualmente feitas de percursos ziguezagueantes, variáveis
e indetermináveis. Os jovens confrontam-se assim
com
o
desafio de seadap-tarem a circunstâncias de
vida
mutáveis-
o que pressupoe uma capacidade deajuste, um saber caçar oportunidades, uma mão cheia de perícias para ultrapassar
a contradição entre a calculabilidade do
futuro
e aprevisibilidade
dofortuito.
As políticas
de empregotêm
sidg
regra geral,políticas
de remendagem.Ora
sedirigem
aofuncionamento do
mercado detrabalhg
promovendo,
por
exemplg uma
maior
flexibilizaçao contratual, ora
seorientam
parauma
for-mação compensatória cujos reais efeitos nãotêm sido
devidamente avaliados.Faltam políticas criativas que
tomem
os jovenscomo
agentes de inovação e demudança social,
políticas
que não selimitem
a ficar amarradas às persistênciasdo
mercado de trabalho, mas que atuem
fora
delepara que nele
melhor
sepossam repercutir. Refiro-me a políticas económicas e culturais que, articuladas
às ciências e às tecnologias, deem suporte aos desafios de
criatividade
a que osjovens são sensíveis.
Voltando
aMannheim,
as geraçoes inscrevem-se numa dinâmicahistórica
que favorece a aparição degrupos
de jovens que sediferenciam
radicalmentedos seus antepassados. Especialmente em tempos de crise
(MANNHU}y'r,
1946ItO+l)),
os jovens perfilam-se como potenciais agentes da mudança social. Elesdesafiam-nos a questionar a realidade
muito
para alémdo
que a pressupomos.No
entanto, os jovens apenas constituem uma geração de mudança quando elaprópria
éproduto
emotor
de mudança. SegundoMannheim
(1993ltg}Sl),hâ
umfator
determinante na transformação de uma geraçãopotencial
em geraçàoefetiva: a
participação
no
destino comum
deuma unidade histórica
e social.Para o
efeitg
não basta que os jovenspartilhem
de uma mesma situação dege-ração. Nessa situação, eles apenas conseguiriam ser tragados
pelo redemoinho
das transformaçÕes sociais.
A
possibilidade para que surja uma nova enteléquiade geração decorre de
uma
característica dostempos
quecorrem:
umaacele-ração no
ritmo
das transformações sociais e culturais de que aliás os joverrs têmsido protagonistas, ao abraçarem subjetividades cosmopolitas que estão na base
de novas configurações subjetivas. Estaremos num
ponto
de viragem?fâncias, juventudes, universos (auto)bìográfìcos e na rrativas
ln 37
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deInvestigaciones
Sociológicas,
138, p.4I -62,4br.-Jun.
20 12.Sobre
os
autores
Alberto FilipeArauio
Professor
Catedrático do
Instituto
de Educação da
Universidade
doMinho
(Braga,Portugal).
Doutor
em Educação pelaUniversidade
doMinho.
Membro do Centro
de Investigação em Educação
(CIEd)
do Instituto
deEducação da
Universidade
doMinho.
Áreas de pesquisacientífica:
Filosofia
da
Educação;
Estudos
do
Imaginário
e História
das Ideias
Educativas. E-mail : afarauj o (Ðie.uminho.Pt
Andrés Klaus
Runge PeñaProfessor
Titular
do Mestrado eDoutorado
en Educación da Universidadde
Antioquia.
Professorconvidado
doDoutorado
en Ciencias Sociales,Niñez
yJuventuã
da Universidade de Manizales.Doutor
en Ciência da Educação pelaUniversidade
Livre
de
Berlin.
Pós-doutorado
no
Programade
Investigación enciencias
Sociales,Niñez
yJuventud (CLACSO).
Coordenador
do
Grupo
de
Investigación sobre Formación
y
Antropología
Pedagógicae
Histórica.
pesquisadãr doGRIFARS-UFRN-CNPq. E-mail:
andres.runge(ôudea.edu.coAnne
Dizerbo
Professora
colaboradora
de
ensino
e de
pesquisada
Universidade
deRouen. Pesquisadora associado dos Laboratórios de pesquisa
CIRNEF (centre
interdisciplinaire
de
Recherche
Normand
en
Education
et
Formation)
eEXPERICE (Centre
de
Recherchelnteruniversitaire Expérience
Ressourcesculturelles Éducation)
da Universidade de Paris 13sorbonne
Pariscité.
seusestudos
interrogam
a experiênciasubjetiva de alunos
apoiando-se sobre suacapacidade
de
reflexão. Pesquisadora associadado
GRIFARS-UFRN-CNPq.
E-mail : dizerbo(E gmail.comCarlos Ospina
Cruz
Doctor
en Educación,Rector
de lalnstitución
Educativa Rodrigo ArenasBetancur del
municipio
deMedellín
y
profesor
dela Maestría
en Educacióny
del Departamento
de Pedagogía dela universidad
deAntioquia
(Medellín,
bolot"Uå).
Miembro
delGrupo
sobre FormaciónyAntropología
Pedagógica eHistórica
(FORMAPH).
E-mail:
[email protected]; carturo.ospina@218
Daniela Barros
da SilvaFreireAndrade
Professora associada
do Departamento
de Psicologia edo
Programa dePós-Graduação em Educação da
universidade
Federal deMato
Grosso, cømpuscuiabá. Doutora em
Psicologia
da
Educação
pela Pontifícia
universidade
católica
de são
Paulo.coordenadora do Grupo
de
Pesquisaem psicologia
da Infância
-
GPPIN.
Pesquisadora associadaao
centro
Internacional
deEstudos
em Representações Sociais eSubjetividade-Educação (CIERS-Ed).
E -mail : fr eir e.d02@ gmail.com
Érica
NaylaHarrich Teibel
Professora substituta do
Departamento
de Psicologia daUFMT.
Doutora
em Educação pela
universidade
Federaldo
Mato
Grosso. Pesquisadoraasso-ciada do
Grupo
de Pesquisa em Psicologia da Infância-
GPPIN
-
UFMT
e doNúcleo
de Educação Permanente em Saúde da secretariaMunicipal
de saúdede Cuiabá-MT. E-mail : [email protected]
Fernando Azevedo
Professor
do Instituto
de
Educaçãoda
Universidadedo Minho
(Braga,Portugal).
coordenador
de unidades curriculares da Pós-graduação emLiteratura
Infantil
e Juvenil,Didática
e Formação de Leitores.orientador do
doutoradoem
Estudosda
criança
f
Literatura
paraa lnfância.
Doutor em
ciências
daLiteratura.
Membro
docentro
de Investigação em Estudos dacriança
(crcc).
coordenador
da linha de pesquisa "Produçôesculturais
para as crianças'l Integra oobservatório
de Literaturalnfanto-Juvenil
(OBLIJ)
e a Rede Internacional deUniversidades Leitoras
(RIUL).
E-mail:
[email protected]Gilcilene
Lélia
Souza doNascimento
Doutora
em Educaçãopelo
Programa de Pós-Graduação em Educação dauniversidade
Federal
do Rio
Grande
do Norte.
pesquisadora
associadado
Grupo de Estudos e
Pesquisascom Narrativas (Auto)Biográficas
em Educação(Cf
nNef
-UFERSA).
pesquisadora do GRIFARS-UFRN-
CNpq.
E-mail :lelianascimento
@ufersa.edu.brGilvete
deLima Gabriel
Professora da
universidade
Federal de Roraima.Doutora
em Educaçãopela universidade Federal do
Rio
Grande do Norte.Líder
doGrupo
de Estudose Pesquisas Autobiográficas, Interdisciplinares e
Interculturais
de Roraima.pós-Doutoranda
em Educação nauniversidade
Federal da Paraíba. pesquisadora doGRIFARS -UFRN- CNPq. E-mail : [email protected]
lnfâncìas, juventudes, universos (auto)biográficos e narrativas 219
Iduína
Mont'Alverne Braun
ChavesProfessora
do
Programa
de
Pós-Graduação
em
Educação
daUniversidade
FederalFluminense
(UFF). Diretora
doColégio
Universitário
Geraldo
Reis(UFF). Doutora
em Educação pelaUniversidade
de São Paulo.Doutorado
Sanduíche
na Universidade
de
Illinois, USA. Líder do Grupo
de Pesquisa
Cultura, Imaginário, Memória, Narrativa
e Educação(CIMNE/
UFF/CNPq).
Pesquisadora
Colaboradora
do
Centre
de
Recherche
enEducation
de
Nantes
(CnfN),
França. Pesquisadora
do
GRIF,q.RS-UFRN-CNPq. E-mail:
[email protected]
José
Machado
PaisProfessor, pesquisador
e
Coordenador
do Instituto de
Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.Diretor
da Imprensa de Ciências Sociais. Professor Visitante em universidades europeias e sul-americanas. Agraciado com o Prêmio Gulbenkian de Ciências Sociais. Obras publicadas: CulturasJuvenis; Sociologiada
Vida Qrotidiana;
Consciência
Histórica e ldentidade;
Ganchos, Tachose Biscates. Jovens
Trabalho e
Futuro; Nos
Rastosda Solidão;
Sexualidade eAfetos Juvenis;
Lufalufa Qrotidiana;
Enredos Sexuais,Tradição
e Mudança. E-mail : machado.pais(ô gmail.comLuciane De
Conti
Professora