RESPONSABILIDADE
CIVIL
CONCEITO: “É a obrigação que pode incumbir uma pessoa de reparar o prejuízo causado a outra, por fato próprio, ou por fato de pessoas ou coisas que dela dependam.”1
FUNÇÕES: A responsabilidade civil tem duas funções:
a) Restabelecer o equilíbrio violado pelo dano, restituindo o prejudicado com o status quo ante; b) Servir como sanção civil compensatória, punindo o lesante e inibindo a prática dos atos lesivos. PREVISÃO LEGAL:
Art. 927. “Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.” Parágrafo único. “Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem.”
Art. 186. “Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.”
Art. 187. “Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes.”
ESPÉCIES DE RESPONSABILIDADE CIVIL: Conforme a adoção de critérios diversificados, a responsabilidade pode ser considerada:
1) Quanto ao fundamento: Responsabilidade civil subjetiva ou objetiva
2) Quanto ao fato gerador: Responsabilidade civil contratual ou extracontratual (aquiliana) 3) Quanto ao agente: Responsabilidade civil direta ou indireta
4) Quanto ao ramo do direito: Responsabilidade civil ou responsabilidade penal RESPONSABILIDADE CIVIL OBJETIVA E SUBJETIVA
RESPONSABILIDADE SUBJETIVA RESPONSABILIDADE OBJETIVA
Regra adotada pelo CC Exceção (só incide quando houver risco
2
ou nos casos expressos em lei)
Previsão legal - Art. 927 CC - Art. 186 CC - Art. 187 CC cláusula geral3 da responsabilidade civil subjetiva - Art. 927, parágrafo único, CC cláusula geral da responsabilidade civil objetiva
Fundamento Deriva de culpa/dolo
- Baseada na teoria do risco, quando a resp. obj. será própria/pura (a culpa é irrelevante) - Baseada na lei (a lei presume a culpa, invertendo-se o ônus da prova), quando a resp. obj. será imprópria/impura
Requisitos
- Conduta - comissiva ou omissiva (do agente, de terceiro ou de coisa/animal)
- Culpa/dolo (do agente)
- Nexo causal (entre a conduta e o dano) - Dano (experimentado pela vítima)
- Conduta - Nexo causal - Dano
Conduta:
Comportamento humano que se exterioriza por uma ação (conduta
Culpa/dolo: Culpa: Comportamento dissociado do dever geral de
Nexo causal:
Relação de causa e efeito entre a conduta do agente e o
Dano:
Prejuízo experimentado pela vítima. Sem prova do
1
René Savatier, apud Silvio Rodrigues (Direito Civil: Responsabilidade Civil. 20. ed. v. 4. São Paulo: Saraiva, 2003, p. 11)
2
Teoria do risco: Quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem (art. 927, parágrafo único, CC - Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos
especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem).
comissiva) ou uma omissão (conduta omissiva)4.
O comportamento pode ser voluntário ou involuntário.
Não há necessidade de
discernimento para que se realize uma conduta (incapazes podem realizar condutas, que podem gerar responsabilidade).
A conduta pode ser:
Do agente (responsabilidade por ato próprio)
De terceiro (responsabilidade por ato de terceiro, que ocorre nos casos de danos causados pelos filhos, curatelados, tutelados, empregados, educandos, hóspedes)
De evento relacionado à coisa
(esta responsabilidade é, em regra, objetiva, independendo de prova de culpa)
De evento relacionado a animal
sob guarda (também esta
responsabilidade é, em regra, objetiva, independendo de prova de culpa)
cautela, apoiado na falta de diligência. Art. 186 CC - “negligência ou imprudência”.
Dolo: Vontade de cometer uma violação de direito. Art. 186 CC - “ação ou omissão voluntária”.
Graus da culpa5: Levíssima6
: Falta só
evitável com atenção
extraordinária, com especial habilidade ou conhecimento singular. A pessoa teve todas as atitudes de cautela que a ela cabiam, mas mesmo assim acabou gerando algum dano á alguém.
Leve: Falta evitável com atenção ordinária.
Grave: Falta imprópria ao comum dos homens, é a modalidade que mais se avizinha ao dolo.
Espécies de culpa: Imprudência: Se exterioriza pelo fazer7.
Negligência: Se revela pelo não fazer quando se devia agir8.
dano verificado.
Se o nexo não for constatado, a culpa é irrelevante (só há a necessidade de discutir a culpa, se do ato do agente se verifica um evento danoso em uma relação de causa e efeito).
Teorias:
Teoria da equivalência dos antecedentes (condicio sine qua
non):
- Não há distinção entre causa e condição.
- Se várias condições concorrem para o mesmo resultado, todas têm o mesmo valor, a mesma relevância, todas se equivalem. Não se indaga se uma delas foi mais ou menos eficaz.
- Para se saber se uma determinada condição é causa, elimina-se mentalmente essa condição, através de um processo hipotético. Se o resultado desaparecer, a condição é causa, mas, se persistir, não o será.
- Critica-se essa teoria pelo fato de conduzir a uma exasperação da causalidade e a uma regressão infinita do nexo causal.
Teoria da causalidade adequada:
- Teoria adotada pelo CC9 - Causa é o antecedente não só
necessário mas, também, adequado à produção do resultado. Causa será apenas
aquela que foi mais
determinante, desconsiderando-se as demais.10
Concausa: Outra causa que, juntando-se à principal, concorre para o resultado. Não inicia nem interrompe o nexo causal, apenas reforça. É circunstância que concorre para o agravamento do dano. Pode
ser preexistente11 ou
superveniente/concomitante12.
dano, ninguém pode ser responsabilizado
civilmente.
O dano pode ser
material ou moral.
O dano é dispensado em casos excepcionais. Nestes casos, há obrigação de indenizar independente de prejuízo:
a) Cláusula penal – o credor não precisa provar prejuízo para pedir e obter pagamento de uma cláusula penal (art. 416 CC) b) Demanda por dívida já paga. Em tal situação, a lei prevê que o autor da ação deve pagar ao devedor o dobro da quantia cobrada (art. 940 CC)
c) Juros de mora (arts. 404 – 407 CC)
d) O segurador que, ao tempo do contrato, sabe estar passado o risco de
que o segurado se
pretende cobrir, e, não
obstante, expede a
apólice, pagará em dobro o prêmio estipulado (art. 773 CC)
e) Reprodução fraudulenta de obra literária, científica ou artística, não se conhecendo o número de exemplares que constituem a edição fraudulenta, pagará o transgressor o valor de três mil exemplares além dos apreendidos (Lei
9.610/98, art. 103,
parágrafo único)
4
A rigor, da omissão não se gera responsabilidade civil. Contudo, a omissão será punida se precedida de dever jurídico de agir, de praticar um ato para impedir o resultado.
5
Esses graus de culpa não tem consequência diferenciada no CDC. Havendo dano, tem o dever de reparar.
6
Na responsabilidade extracontratual subjetiva, a mais ligeira culpa produz obrigação de indenizar (Gonçalves, Carlos Roberto. Comentários ao Código Civil: parte especial: direito das obrigações. Volume 11. São Paulo: Saraiva, 2003, p. 34).
7
Ex: Dirigiu excedendo a velocidade permitida.
8
Culpada por omissão será a pessoa tinha o dever de agir e não agiu.
9
Sustentam os doutrinadores que enquanto a teoria da equivalência dos antecedentes prevalece na esfera penal, a teoria da causalidade adequada prevalece na órbita civil.
10
Logo, se várias condições concorreram para determinado resultado, nem todas serão causas, mas somente aquela que for a mais adequada à produção do evento. Além de se indagar se uma determinada condição concorreu concretamente para o evento, é ainda preciso apurar se, em abstrato, ela era adequada a produzir aquele efeito.
Exclusão do nexo causal: Culpa exclusiva da vítima: O
agente, aparente causador direto do dano, é mero instrumento do acidente. Não há relação de causalidade se houver culpa exclusiva da vítima. Houve dano, mas não houve culpa do agente. Não há dever de indenizar por parte do agente13.
Fato de terceiro: Terceiro é qualquer pessoa, além da vítima e o responsável, que não tem
nenhuma ligação com o
causador aparente o dano e o lesado.
Caso fortuito / força maior: Acontecimento que escapa a toda a diligência, inteiramente estranho à vontade do devedor da obrigação; caso fortuito (imprevisível, ex: eventos da natureza) e força maior (inevitabilidade).
Algumas hipóteses
─ Responsabilidade do dono do animal (art. 936)
─ Responsabilidade do dono do prédio em ruína (art. 937)14
─ Responsabilidade do habitante do imóvel do qual caírem coisas (art. 938)15
─ Responsabilidade por ato lícito de dano causado em estado de necessidade
─ Responsabilidade do credor que demanda dívida vincenda (art. 939)16
─ Responsabilidade do credor que demanda dívida já paga (art. 940)17
─ Responsabilidade dos pais, tutor e curador por danos causados pelo menor ou incapaz (art. 932, I e II)18
12
Também não diminuem a responsabilidade do agente (ex: vítima de atropelamento que não é socorrida a tempo, perde muito sangue e vem a falecer). Só terá relevância quando, rompendo o nexo causal anterior, erige-se em causa direta e imediata do novo dano (ex: parturiente que teve a ruptura de um aneurisma cerebral).
13
Ex: Suicida que se atira na frente de carro em movimento. O agente (motorista) é, na verdade, a vítima. Poderá ser indenizado pelo suicida se seu carro for danificado. Caso o suicida morra, o direito de exigir reparação e a obrigação de prestá-la
transmitem-se com a herança (art. 943 CC). 14
Art. 937. O dono de edifício ou construção responde pelos danos que resultarem de sua ruína, se esta provier de falta de
reparos, cuja necessidade fosse manifesta. 15
Art. 938. Aquele que habitar prédio, ou parte dele, responde pelo dano proveniente das coisas que dele caírem ou forem
lançadas em lugar indevido. 16
Art. 939. O credor que demandar o devedor antes de vencida a dívida, fora dos casos em que a lei o permita, ficará obrigado a
esperar o tempo que faltava para o vencimento, a descontar os juros correspondentes, embora estipulados, e a pagar as custas em dobro.
17
Art. 940. Aquele que demandar por dívida já paga, no todo ou em parte, sem ressalvar as quantias recebidas ou pedir mais do
que for devido, ficará obrigado a pagar ao devedor, no primeiro caso, o dobro do que houver cobrado e, no segundo, o equivalente do que dele exigir, salvo se houver prescrição.
- Art. 941. As penas previstas nos arts. 939 e 940 não se aplicarão quando o autor desistir da ação antes de contestada a lide, salvo ao réu o direito de haver indenização por algum prejuízo que prove ter sofrido.
18
Art. 932. São também responsáveis pela reparação civil:
─ Responsabilidade do empregador por danos causados pelos empregados (art. 932, III)
─ Responsabilidade de donos de hotéis ou de escolas pelos danos causados pelos seus hóspedes e educandos (art. 932, IV)
─ Responsabilidade de quem exerce atividade que normalmente implica, por sua natureza, em risco para os direitos de outrem (art. 927, parágrafo único)
─ Fora do CC ainda há hipóteses de responsabilidade objetiva, tal como no CDC19, no Código Brasileiro de Aeronáutica, etc. RESPONSABILIDADE CONTRATUAL E EXTRACONTRATUAL (AQUILIANA)
RESPONSABILIDADE CONTRATUAL RESPONSABILIDADE EXTRACONTRATUAL
(AQUILIANA)
Conceitos
Origina-se da inexecução contratual (de falta de adimplemento ou da mora no cumprimento de qualquer obrigação). Antes de surgir a obrigação de indenizar, já existe vínculo entre o agente e a vítima, que foi firmado por contrato.
O agente não tem vínculo contratual com a vítima, mas tem vínculo legal (responsabilidade de indenizar) por ter causado dano a vítima, por ação ou omissão, com nexo de causalidade e culpa ou dolo. Previsão legal - Art. 389 CC20
- Art. 927 CC - Art. 186 CC - Art. 187 CC
Requisitos
- Conduta Na responsabilidade contratual: por um lado, basta o contrato; por outro, o
ato de contratar e o inadimplemento já podem corresponder à conduta.
- Culpa/dolo Conforme alguns autores, este requisito não é necessário na contratual, bastando o inadimplemento.
- Dano Na responsabilidade contratual dispensa-se a prova do dano quando houver cláusula penal (neste caso o dano é presumido).
- Nexo causal Na responsabilidade contratual: entre o dano e o inadimplemento.
Ônus da prova
- Obrigação de resultado21: Presume-se a culpa do devedor inadimplente. Há inversão do ônus da prova, competindo ao devedor comprovar a inexistência de culpa ou a presença de excludente de responsabilidade civil (tal como a força
O ônus da prova é da vítima (a vítima que deve comprovar que o agente causador do dano procedeu de forma culposa).
II - o tutor e o curador, pelos pupilos e curatelados, que se acharem nas mesmas condições;
III - o empregador ou comitente, por seus empregados, serviçais e prepostos, no exercício do trabalho que lhes competir, ou em razão dele;
IV - os donos de hotéis, hospedarias, casas ou estabelecimentos onde se albergue por dinheiro, mesmo para fins de educação, pelos seus hóspedes, moradores e educandos;
V - os que gratuitamente houverem participado nos produtos do crime, até a concorrente quantia. 19
O art. 931 CC estabelece a responsabilidade civil objetiva aos empresários individuais e as empresas pelos danos causados
pelos produtos postos em circulação. Contudo, com o advento do CDC, este dispositivo tornou-se inútil. 20
Art. 389 CC - Não cumprida a obrigação, responde o devedor por perdas e danos, mais juros e atualização monetária segundo
índices oficiais regularmente estabelecidos, e honorários de advogado. 21
Há o compromisso do contratado com um resultado específico, que é o ápice da própria obrigação, sem o qual não haverá o cumprimento desta. O contratado compromete-se a atingir objetivo determinado, de forma que quando o fim almejado não é alcançado ou é alcançado de forma parcial, tem-se a inexecução da obrigação.
maior).
- Obrigação de meio22: O ônus da prova da culpa é da vítima.
Relevância da gradação da
culpa
Determinados contratos só são indenizáveis se o dano houver sido causado a título de dolo/culpa grave, ganhando relevância a questão da gradação da culpa. Ex: contratos gratuitos ou benéficos (art. 392).
A indenização é devida ainda que a culpa seja levíssima.
Responsabilidade de menores e
incapazes
- Contrato foi celebrado com a assistência ou representação do representante legal: O menor ou incapaz tem responsabilidade contratual direta (e não subsidiária), sendo responsável pelo inadimplemento.
- Contrato celebrado sem assistência ou representação do responsável legal: O menor/incapaz não terá responsabilidade nenhuma. O menor púbere23 pode ser responsabilizado pelo contrato celebrado sem assistência se dolosamente ocultou sua idade, ao ser inquirido pela outra parte, ou se, no ato de obrigar-se, declarou-se maior (art. 180 CC24).
O CC/02 ampliou a responsabilidade extracontratual dos menores ou incapazes em relação ao CC/16. A responsabilidade, contudo, é subsidiária. O menor ou incapaz se responsabiliza pelos prejuízos causados à vítima, se as pessoas por eles responsáveis não tiverem obrigação de indenizar ou não dispuserem de meios suficientes (art. 928 CC25).
RESPONSABILIDADE CIVIL E RESPONSABILIDADE PENAL
Responsabilidade civil Responsabilidade penal
Apuração Facultativa.
A vítima pode ou não mover ação indenizatória.
Obrigatória, em regra.
A regra é de que, no silêncio da lei, a ação penal é pública incondicionada, competindo ao Ministério Público oferecer denúncia em face do sujeito ativo do
delito.
Natureza É vedada a prisão, salvo na hipótese do devedor Patrimonial. de alimentos.
Pessoal.
Visa aplicar pena ao delinquente.
Transmissibilidade
Transmissível.
Obrigando os sucessores do causador do dano a indenizar as vítimas, até as foras da herança (arts.
943 e 1.792 CC).
Intransmissível.
Prejuízo (dano) Só há responsabilidade se há dano. Independe de prejuízo experimentado pela vítima.
Menores
Os menores sempre tem responsabilidade civil subsidiária. São responsáveis pela indenização do dano se os
seus responsáveis legais não tiverem obrigação de indenizar ou não dispuserem de meios
suficientes (art. 928 CC).
Os menores de 18 anos não tem responsabilidade penal.
22
O objeto do contrato é a própria atividade do devedor, cabendo a este enveredar todos os esforços possíveis, bem como o uso diligente de todo seu conhecimento técnico para realizar o objeto do contrato, mas não estaria inserido aí assegurar um resultado que pode estar alheio ou além do alcance de seus esforços.
23
Menor púbere = relativamente incapaz.
24
Art. 180. O menor, entre dezesseis e dezoito anos, não pode, para eximir-se de uma obrigação, invocar a sua idade se
dolosamente a ocultou quando inquirido pela outra parte, ou se, no ato de obrigar-se, declarou-se maior. 25
Art. 928. O incapaz responde pelos prejuízos que causar, se as pessoas por ele responsáveis não tiverem obrigação de fazê-lo
ou não dispuserem de meios suficientes.
Parágrafo único. A indenização prevista neste artigo, que deverá ser eqüitativa, não terá lugar se privar do necessário o incapaz ou as pessoas que dele dependem.
Independência/autonomia das responsabilidades: As responsabilidades civil e penal são autônomas:
o Um ilícito penal pode se caracterizar, ao mesmo tempo, como ilícito civil.
Ex: Suzane Von Richthofen, que matou seus pais, na esfera penal foi condenada pelo crime de homicídio, e na esfera cível perdeu o direito à herança por exclusão por indignidade.
Neste caso, o agente, além de sofrer a pena (do direito penal), também deverá pagar indenização à vítima ou aos seus sucessores (no âmbito civil).
Normalmente o ilícito penal também costuma ser ilícito civil, porém a recíproca não é verdadeira.
o Um ilícito pode ser apenas penal. Admite-se responsabilidade penal sem que haja responsabilidade civil, por exemplo, com o agente que é condenado criminalmente pelo delito de porte ilegal de arma.
o Um ilícito pode ser considerado apenas civil. É possível a subsistência da responsabilidade civil, não obstante a penal. No furto de uso, por exemplo, o agente será absolvido criminalmente, pois o Código Penal não contempla esse fato, remanescendo, porém, intacta a obrigação de indenizar na área cível.
A responsabilidade civil é independente da responsabilidade penal: o É o que dispõe o art. 935 CC26
. Assim, o fato de um ilícito penal ser absolvido na esfera criminal não implica em isenção da obrigação de indenizar na esfera cível.
o Portanto, antes mesmo da instauração de inquérito no processo penal, a vítima pode mover ação de indenização no âmbito civil.
Ação civil de indenização em razão de crime: É possível, ainda, a ação civil de indenização em razão de crime (actio civilis ex delito), mesmo que a ação penal esteja em andamento, mas o juiz cível tem a faculdade de suspender o processo para aguardar o desfecho do processo crime, e vice-versa (arts. 92-94 CPP). Ademais, preceitua o art. 200 CC que “quando a ação [cível] se originar de fato que deva ser apurado no juízo criminal, não correrá a prescrição antes da respectiva sentença definitiva”.
Efeitos da sentença penal na esfera cível: O julgamento da esfera penal pode repercutir na esfera cível.
Sentença penal absolutória: Tem-se que analisar o fundamento da sentença.
- Em regra, a sentença penal absolutória não afasta eventual responsabilidade civil (pode subsistir a responsabilidade civil, quando a irresponsabilidade penal houver sido fundamentada em ausência de provas). Se o fundamento da sentença penal absolutória for por falta de provas, não há repercussão na esfera cível (pode condenar na cível).
- Excepcionalmente, porém, ela fará coisa julgada na esfera cível, inviabilizando a indenização. Esta exceção se dá nas seguintes hipóteses: a) absolvição por inexistência do fato (sem materialidade);
b) absolvição por negativa de autoria;
c) absolvição por excludente de antijuridicidade (legítima defesa, estado de necessidade [defensivo], estrito cumprimento do dever legal e exercício regular de direito).
Se, na esfera penal, se comprovar a inexistência de autoria ou materialidade, ou excludente de antijuridicidade, a repercussão é coisa julgada na esfera cível (não pode condenar na
cível). Anote-se, entretanto, que apenas o estado de necessidade defensivo exclui a obrigação de indenizar (no estado de necessidade agressivo a obrigação subsiste).
─ Estado de necessidade defensivo: Se dá quando, para preservar bem jurídico próprio ou alheio, o agente sacrifica bem jurídico pertencente ao causador da situação de perigo. Ex: O agente, para safar-se das chamas, destrói a porta da casa do causador do incêndio. Nesse caso, não há obrigação de indenizar o dano proporcionado ao causador do perigo (art. 188, II, CC).
─ Estado de necessidade agressivo: Ocorre quando, para preservar bem jurídico próprio ou alheio, o agente sacrifica bem jurídico pertencente a um terceiro inocente27. Nesse caso, o
26
Art. 935. A responsabilidade civil é independente da criminal, não se podendo questionar mais sobre a existência do fato, ou
sobre quem seja o seu autor, quando estas questões se acharem decididas no juízo criminal. 27
Ex: Nayara está andando na calçada e avista uma casa em chamas e uma pessoa lá dentro presa. Nayara tenta ajudar. Destrói a porta e retira a pessoa, salvando-a. Se a pessoa salva for dona da porta (sendo vítima de sua destruição) e não for causadora do incêndio, o CC diz que Nayara tem que pagar a porta (art. 929), mesmo tendo salvado a vida da pessoa. Na Itália prestigia-se
agente deve reparar o dano sofrido pelo terceiro inocente (art. 929 CC28); todavia, ele terá ação de regresso contra o causador do perigo (art. 930 CC29).
Apesar de a lógica recomendar que o terceiro inocente, cujo bem foi sacrificado, movesse ação direta contra o causador do perigo, pleiteando a indenização devida, o CC orientou-se em sentido diferente.
No estado de necessidade agressivo, o agente pratica um fato lícito, e, no entanto, é obrigado a indenizar.
Sentenças penais transitórias:
- A sentença de pronúncia, impronúncia ou desclassificação não eliminam a responsabilidade civil, pois são decisões provisórias.
- Também persiste a responsabilidade civil se houver decisão arquivando inquérito policial, extinguindo a punibilidade do agente, sob o argumento de que o fato imputado não constitui crime (art. 67 CPP). Sentença penal condenatória transitada em julgado:
- Quando, na esfera penal, se afirmar autoria e materialidade, isso não mais se discute na esfera cível.
- Vale como título executivo na esfera cível (art. 475-N, II, CPC). Portanto, o agente condenado na esfera criminal não pode alegar, na cível, excludentes de antijuridicidade, ausência de dolo/culpa, ou outra defesa que elimine a responsabilidade civil.
- Art. 200 CC: Quando a ação [cível] se originar de fato que deva ser apurado no juízo criminal, não correrá a prescrição antes da respectiva sentença definitiva.
Portanto, a vítima tem a opção de aguardar o trânsito em julgado da sentença penal para só depois tomar as providências necessárias à execução civil do julgado penal, porquanto só após o trânsito em julgado da sentença penal é que o prazo prescricional começa a fluir.
Art. 948 CC - No caso de homicídio, a indenização consiste, sem excluir outras reparações: I - no pagamento das despesas com o tratamento da vítima, seu funeral e o luto da família; II - na prestação de alimentos às pessoas a quem o morto os devia, levando-se em conta a duração provável da vida da vítima.
É irrelevante se o homicídio foi doloso ou culposo.
As reparações previstas no art. 948 são rol exemplificativo. Não consta no rol, p.ex., a indenização por dano moral pela perda de um ente querido.
No inc. II, a hipótese prevista no rol é a dos chamados alimentos indenizatórios (pensão por indenização). Segundo jurisprudência esses alimentos não sujeitam a decreto prisional. O prof. criticou esta posição tendo em vista que a finalidade dos alimentos em ambos os casos é a subsistência, afetando diretamente o direito à vida. (Esse tema foi doutorado do prof. Gago!)
RESPONSABILIDADE CIVIL DIRETA E INDIRETA CONCEITO:
Responsabilidade direta: Responsabilidade por ato próprio.
Responsabilidade indireta: Responsabilidade por ato de outrem ou de algo. Há direito de regresso (art. 934 CC30).
ALGUMAS HIPÓTESES DE RESPONSABILIDADE INDIRETA: Responsabilidade por ato de outrem:
Art. 932. São também responsáveis pela reparação
Responsabilidade por dano causado por animal:
Art. 936. O dono, ou detentor, do animal ressarcirá o
o herói, aqui no Brasil o salvador tem que pagar a porta! Se o fogo for causado por terceiro, o herói paga a porta, mas tem direito de regresso contra o terceiro incendiário.
28 Art. 929. Se a pessoa lesada, ou o dono da coisa, no caso do inciso II do art. 188, não forem culpados do perigo, assistir-lhes-á direito à indenização do prejuízo que sofreram.
29
Art. 930. No caso do inciso II do art. 188, se o perigo ocorrer por culpa de terceiro, contra este terá o autor do dano ação
regressiva para haver a importância que tiver ressarcido ao lesado.
Parágrafo único. A mesma ação competirá contra aquele em defesa de quem se causou o dano (art. 188, inciso I).
- Art. 188. Não constituem atos ilícitos: II - a deterioração ou destruição da coisa alheia, ou a lesão a pessoa, a fim de remover perigo iminente.
30
Art. 934. Aquele que ressarcir o dano causado por outrem pode reaver o que houver pago daquele por quem pagou, salvo se o
civil:
I - os pais, pelos filhos menores31 que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia32;
II - o tutor e o curador, pelos pupilos e curatelados33, que se acharem nas mesmas condições;
III - o empregador ou comitente, por seus empregados, serviçais e prepostos, no exercício do trabalho que lhes competir, ou em razão dele;
IV - os donos de hotéis, hospedarias, casas ou estabelecimentos onde se albergue por dinheiro, mesmo para fins de educação, pelos seus hóspedes, moradores e educandos;
V - os que gratuitamente houverem participado nos produtos do crime, até a concorrente quantia.
dano por este causado, se não provar culpa da vítima ou força maior.
- É também hipótese de responsabilidade objetiva. Quem tem que provar a força maior ou culpa exclusiva da vítima é o dono do animal.
- Há culpa concorrente no caso do “cachaceiro” que fica colocando a mão dentro das casas (aí quando chega lá na esquina sem o dedo, percebe que sofreu um dano!!!), e o dono/detentor do animal não tomou as devidas precauções (colocando telas, por exemplo, nas grades de seu portão).
- Há caso fortuito ou força maior se, por exemplo, o muro da casa cai, por força da natureza, e o cachorro foge e morde uma pessoa. O dono/detentor do animal, neste caso, não responde pelo dano.
Art. 933. As pessoas indicadas nos incisos I a V do artigo antecedente, ainda que não haja culpa de sua parte, responderão pelos atos praticados pelos terceiros ali referidos.34
Art. 942. Os bens do responsável pela ofensa ou violação do direito de outrem ficam sujeitos à reparação do dano causado; e, se a ofensa tiver mais de um autor, todos responderão solidariamente pela reparação.
Parágrafo único. São solidariamente responsáveis com os autores os co-autores e as pessoas designadas no art. 932.
INDENIZAÇÃO
Art. 944. A indenização mede-se pela extensão do dano.
Parágrafo único. Se houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano, poderá o juiz reduzir, eqüitativamente, a indenização.
Exemplo: Motorista desvia de bola, perde a direção e bate num ponto de táxi, criando prejuízo à 10 táxis! Gera um passivo de 150 mil. O motorista fica com o prejuízo de 70 mil e o restante é dividido pelos taxistas, pois não seria justo impor a alguém uma indenização que o coloque em situação de penúria, lhe retirando a subsistência.
Art. 945. Se a vítima tiver concorrido culposamente para o evento danoso, a sua indenização será fixada tendo-se em conta a gravidade de sua culpa em confronto com a do autor do dano.
Art. 946. Se a obrigação for indeterminada, e não houver na lei ou no contrato disposição fixando a indenização devida pelo inadimplente, apurar-se-á o valor das perdas e danos na forma que a lei processual determinar.
Art. 947. Se o devedor não puder cumprir a prestação na espécie ajustada, substituir-se-á pelo seu valor, em moeda corrente.
31
Não há direito de regresso contra os filhos.
32 Sob a guarda do pai naquele momento. Casos de separação/divórcio. 33
Discute-se se há direito de regresso em face do tutelados e curatelados. Se o incapaz está ligado a descendente da pessoa que ressarciu (que efetivamente respondeu pelo dano), tem direito de regresso.
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Exemplo: Nayara está dormindo e seu filho menor pega o carro e para no semáforo. Então, Marília bate no carro do filho da Nayara que, apesar de não ter habilitação, por ser menor de idade, estava dirigindo corretamente. Marília é a culpada pelo acidente. Deve-se demonstrar a culpa da Marília para que ela repare o dano, ou para que seu responsável repare por ela. No direito civil, só quem agiu com culpa responde! O fato de o filho da Nayara ter pego o carro pode ser infração administrativa ou penal. No direito civil, coisas como estar sem habilitação, estar com a carta estourada de pontos, estar com a carta vencida, etc, são apurações marginais, que não interessam ao direito civil, podendo ser infrações administrativas, penais, etc.
Art. 948. No caso de homicídio, a indenização consiste, sem excluir outras reparações: I - no pagamento das despesas com o tratamento da vítima, seu funeral e o luto da família;
II - na prestação de alimentos às pessoas a quem o morto os devia, levando-se em conta a duração provável da vida da vítima.
Art. 949. No caso de lesão ou outra ofensa à saúde, o ofensor indenizará o ofendido das despesas do tratamento e dos lucros cessantes até ao fim da convalescença, além de algum outro prejuízo que o ofendido prove haver sofrido.
Art. 950. Se da ofensa resultar defeito pelo qual o ofendido não possa exercer o seu ofício ou profissão, ou se lhe diminua a capacidade de trabalho, a indenização, além das despesas do tratamento e lucros cessantes até ao fim da convalescença, incluirá pensão correspondente à importância do trabalho para que se inabilitou, ou da depreciação que ele sofreu.
Parágrafo único. O prejudicado, se preferir, poderá exigir que a indenização seja arbitrada e paga de uma só vez.
E se o autor do dano não tem dinheiro? O direito não resolve! Vai ser devedor até ter algo para penhorar. Ser credor significa ter direito a crédito, receber só se o devedor tiver dinheiro!
Art. 951. O disposto nos arts. 948, 949 e 950 aplica-se ainda no caso de indenização devida por aquele que, no exercício de atividade profissional, por negligência, imprudência ou imperícia, causar a morte do paciente, agravar-lhe o mal, causar-lhe lesão, ou inabilitá-lo para o trabalho.
- Responsabilidade civil do médico/dentista. Aplica o CC ou o CDC? Há discussão! Esse artigo é desnecessário, pois a cláusula geral já era suficiente.
Art. 952. Havendo usurpação ou esbulho do alheio, além da restituição da coisa, a indenização consistirá em pagar o valor das suas deteriorações e o devido a título de lucros cessantes; faltando a coisa, dever-se-á reembolsar o seu equivalente ao prejudicado.
Parágrafo único. Para se restituir o equivalente, quando não exista a própria coisa, estimar-se-á ela pelo seu preço ordinário e pelo de afeição, contanto que este [preço de afeição] não se avantaje àquele [preço ordinário].
Art. 953. A indenização por injúria, difamação ou calúnia consistirá na reparação do dano que delas resulte ao ofendido.
Parágrafo único. Se o ofendido não puder provar prejuízo material, caberá ao juiz fixar, eqüitativamente, o valor da indenização, na conformidade das circunstâncias do caso.
Art. 954. A indenização por ofensa à liberdade pessoal consistirá no pagamento das perdas e danos que sobrevierem ao ofendido, e se este não puder provar prejuízo, tem aplicação o disposto no parágrafo único do artigo antecedente.
Parágrafo único. Consideram-se ofensivos da liberdade pessoal: I - o cárcere privado;
II - a prisão por queixa ou denúncia falsa e de má-fé; III - a prisão ilegal.