"CARA INCHADA" (DOENÇA PERIDENTÁRIA) EM BEZERROS MANTIDOS
EM PASTOS DE Panicum maximum'
JihIGEN DOOEREINER , IVAN VALADZO ROSA e ADEMIR A. LAZZARX'
SINoPsE.- Um lote de seis bezerros mestiços zebu com 4 a 5 meses de idade e outro de oito lezerros Nelore com aproximadamente 1 ano de idade, todos afetados por lesões peridentárias da "cara inchada", foam m ntidos, durante 5 e 7 meses respectivamente, em pastos de capim-colonião (Fanicum maxmum Jacq.) limpos de outros vegetais de baixo porte, em duas fazendas de ocorrência da doença na região de Rondonópolis, Mcto Grosso. Através de dois ou três reexames, apis 2 a 8 meses, verificou-se persistência e agravamento das lesões peridentárias em quase todos os animais.
Num desses pastos "limpos" tam'ém forrm introduzidas 67 vacas com bezerros de 3 semanas de idade, posteriormento examinados para verificação da incidência de lesões da 'cara inchada" até terem alcançado 9 meses de id:de. Observou-se incidência de lesões peridentárias em 52,2% destes bezerros.
Concluiu-se que o fator alimentar responsável pela ocorrência da "cara inchada" dos bovinos existe em pastos formados exclusivamente de P. maximum em fazendas positivas para a doença.
Termos de ndexação: Cara inchada, doença peridentária, peridentite, bovinos, bezerros, Panicum maximum, capim-colontão.
1NTOODUÇZO
A "cara inchada" dos bovinos é, como indicam os es-tudos realizados em Mato Grosso, urna doença periden-tária de origem alimentar que afeta os animais durante o período de dentição, comprometendo os dentes premo-lares e mopremo-lares (Dõbereiner et ai. 1974, 197b). A do-ença foi ainda observada nos Estados de Minas Gerais (Gióvine et ai. 1943), São Paulo (Lamounier & Pe-reira 1945), Goiás (PePe-reira 1973) e Acre (Dbcreiner
1978, observações pessoais).
Em face da passibilidade de poder ser um determi-nado vegetal a causa da "cara inchada", foram feitos experimentos com administracão prolongada de folhas dessecadas de Gornphrena hoiosericea Moq., da família Amarantaceae, a três vacas e seis bezerros, que rece-beram também o leite destas vacas. Este arbusto de terra fértil ocorre em fazendas positivas para "cara in-chada" no norte de Mato Grosso e no sul de Goiás. Os experimentos com a planta, porém, resultaram nega-tivos. Observações posteriores revelaram a ausência do arbusto em fazendas positivas para d'cara inchada" no sul de Mato Grosso. Também não pde ser incriminado outro vegetal como possível causa específica da doença. (Di%ereiner & Lazzari 1975, dados não publicados)
Os pastos onde a "cara inchada" dos bovinos está sen-do observada em Mato Grosso são geralmente formasen-dos de capim-coloni ão (Panicum maximum jacq.). O pre-sente estudo ezperimental com bovinos mantidos em pas-tos de P. maximum, limpos de outros vegetais de baixo porte, em fazendas positivas para "cara inchada", foi realizado para esclarecer se o pastejo exclusivo deste ca-pim poderia ser o responsável pela ocorrência da doença.
1 Aceito para publicaçSo em 6 de setembro de 1976. 2 Veterin4rio do Setor de Anatomia Patológica, Pato!ogia Anima', EMBRAPA/RJ, 1Cm 47, Rio de Janeiro, RJ, ZC.26.
Veterinário do Centro Nacional de Pequa8 de Cada de Corte, EMBRAPA, Cx, Postal 154, Campo Graade,, Mato Grosso. ' VeteriMrio do CONDEFE-Projeto Ii e posteriormente da EMATER, R. 15 de Novembro 635, Rondonópolis, Mato Goso'
MATERIAL E MfrFODOS
Na Fazenda S.E., município de Rondonópolis, Mato Grosso, em 10.7.75 foram escolhidos 16 bezerros Ne-lore desmamados, 8 machos e 8 fêmeas, de aproxima-damente 1 ano de idade, portadores de lesões periden-tárias da "cara inchada", os quais foram separados em dois lotes de 8 animais, distribuídos o mais homogenea-mente possível a respeito do estado de nutrição e da gravidade das lesões. Cada animal foi identificado na orelha por brinco numerado. Em 17.7.75, um dos lotes foi colocado num pasto de 7 ha, formado há 5 anos i'om capim-colonião (Panicurn maximum Jacq.), e recém-lim-pado de outros vegetais de baixo porte através de arran-camento com enxadão. A limpeza do pasto foi mantida por repasses sempre que se tornava necessário. O pasto era ligeiramente inclinado e convergia para uma área cen-tral mais baixa (Fig. 1). Havia um bebedouro de cimento localizado na parte mais alta do pasto, abastecido por água de serra próxima, e um cocho coberto para admi-nistração de sal mineral de uso rotineiro na fazenda. O outro lotê de bezerros, servindo de controle, foi mantido em pasto de P. nusrimutn comum da fazenda, que con-tinha plantas invasoras em grau médio. O experimento foi conduzido durante aproximadamente 6 meses, até 4.2.78. Os bezerros foram reexaminados em 29.9.75, 22.11.75 e 4.2.76, levando-se em consideração o estado de nutrição, o aspecto dos pêlos e as lesões peridentárias. Na Fazenda Pc., também situada no município de Rondonópolis, um pasto de 100 ha, formado há 5 anos com P. maxfrnum, foi limpado de Outros vegetais arbus-tivos e rasteiros através do uso de enxadão, em julho de 1975. Repetiu-se a limpeza em novembro do mesmo ano, utihzando-se desta feita enxadão e herbicida Ter-don 101 (lJow). O pasto era bastante elevado na parte central e tinha uma baixada próxima a um córre-go, que supria de água os animais. Na parte mais alta havia um cocho coberto para fornecimento de sal mi-neral. Neste pasto, em 2.10.75, colocaram-se, com as suas respectivas mães, 8 bezerros azebuados com 4 a Pesq, eg?OpCc. bras., Sér. Vet. 11:413-47. 1978
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ROSA e A. A. LAZZARI5 meses de idade, nos quais tinham sido verificadas le- sões peridentárias da "cara inchada". Os bezerros foram a identificados com brinco numerado na orelha. O expe- rimento foi conduzido por um período de aproximada-
;
mente 5 meses, durante o qual os bezerros foram reexa- minados duas vezes, em 5.2.76 e 13.3.713.Na mesma Fazenda Pc. foi realizado, a partir de uffio de 1975, outro experimento que consistiu em loca- lizar 67 vacas, mestiças zebu, com os seus bezerros, no mencionado "pasto limpo". Os animais foram introdu. zidos nesse pasto quando os bezerros tinham atingido idade de aproximadamente 3 semanas. O experimento foi iniciado com 55 vacas paridas, as restantes foram sendo introduzidas à medida que pariam, no período de um mês, até agosto de 1975. Os bezerros foram reexami- nados em 21.11.75, 5.2.76 e 13.3.76, quando tinham idade de 2 a 9 meses. Os animais nos quais havia lesões c peridentárias da "cara inchada" foram marcados na ore- ' lha. A única suplementação que os animais receberam e no "pasto limpo" de capim-colonião foi a de mistura mineral usada rotineiramente na própria fazenda.
RESTJLTADOS
Aos reexames dos dois lotes de bezerros afetados por lesões peridentárias da "cara inchada" e mantidos em pastos de Panicuns mazimum, limpos de outros ve-
de baixo Fazendas SE. Pc.,
getais porte, nas e no mu-
de Rondonópolis,
nicípio Mato Grosso, verificou-se agra-
vamento das lesões; muitos dentes comprometidos pela lesão peridentária ficaram frouxos e, em maior parte, caíram. (Quadros 1 a 3). Em quatro dos oito bezerros .
"cara
com inchada" do lote de controle na Fazenda j.
S.E., mantidos em pasto de E. maxlmurr com manejo da própria fazenda, também se observou agravamento das lesões peridentárias e dois desses animais morreram . em conseqüência da evolução da doença (Quadro 2). Os animais apresentavam estado de nutrição regular a péssimo (Fig. 2).
No experimento em que 67 bezerros, de 3 semanas de idade, foram introduzidos em pasto de P. maximum
limpo" da Fazenda Pc., observou-se uma incidência de 52,2% de lesões peridentárias da "cara inchada" (Quadro 4).
DiscussXo E CONCLUSõES
Pelos resultados dos experimentos realizados, verifica- mos que as lesões peridentárias dos bezerros com "cara inchada", mantidos em pastos de capím-colonião (Pa- e
nicum moximum) limpos de outros vegetais de baixo
porte, ficaram, quase na sua totalidade, ativas, e não ' houve tendência de cura por epitelização. Ao passo que regressão e cura das lesões foram observadas dentro de
"cara
4 a 6 meses, em bovinos com inchada" transfe-
ridos para região indene (Dôbereiner et ai. 1975b) e
em bovinos afetados pela doençaque receberam sob confinamento ração balanceada, nas duas fazendas posi- tivas para "cara inchada", onde foi também realizado o presente estudo (Rosa et ai. 1976).
A incidência de 52,2% de lesões peridentárias encon- trada nos bezerros introduzidos com 3 semanas de ida- de no pasto "limpo" da Fazenda Pc. parece bastante alta, mas provavelmente não corresponderá, mais tarde, ,
à incidência do quadro clínico da "cara inchada" nesses
animais, pois em 9 bezerros as lesões ao nível dos den- tes P, e P, maxilares eram discretas, e sabe-se que pode haver regressão das mesmas, principalmente de lesões
iniciais (Dcibereiner et ai. 1974).
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48 J.DSBEREINER, IXROSA e A.A.LAZZARX
Fio. I. No primeiro plano, pasto de Panlcurn masimum na Fazrnda S.E., municiplo de Rondcnópo'ia, Mato Cros5o, limpo de
outros vegetais de baixo porte e onde foram mentidos os beze-ros de "cara Inchada" cufts lesões pe ldcntd las se agravaram. No fundo vil-se um pasto de P. maximum ccmum da fazenda. -.
Fio. 2. Animais com lesões peridsnt4cias de 'cara inchada" prrslstentes ou ag-avadas, por ocasido do primeiro riesame após 4 meses de permanilncia nos pastos de P. maximum "limpo" e comum da Faz. SE., apresentando estado de nutrição rrgular
a péssinw.
Quaneo 4. I,cide!ncja de lesões peridenrdrios da "ca-a inrhaa" em bezerras ntto'luzMo, com 3 semana, de Idade, em Vasto de capim-coloni5 "limpo", na Fazesda Pc., município de RandonópoUs,
Mato Grosso
Incid5naia de lesles perlilentárias Nlniero de Ni'mero de Idade p° . __________________________________________________________
Data do bezerros orasjlo bezerr a
examinados do exame sem lesôe
exame
Acentuadas Moderadas Leves Discretas Total perideestárias
21.11.75 67 2 a 4 meses 5 3 14 53
5.276 53 5 a 8 meses 8 2 17 38
13.375 36 8 a 9 meses 1 3 4 32
Total 67 2 a 9 meses li 9 $55 32
O teta] de 33 bezerros positivos para 'cera inchada" corresponde a 52,2% des animais examinados. Diante desses resultados podemos concluir que o
pas-tejo do próprio capim-colonião (1'. maximum) foi res-ponsável pola ocorrência, pela persistência ou pelo agra-vamento das lesões peridentárias nos bezerros dos ex-perimentos em questão. Esta concIuso nos pennitirá, na continuação do estudo da doença, usar P. maximum
como material para análises químicas e outros trabalhos exp,rimentais. Possivelmente a caracterização física e química do solo, em áreas da ocorrência da doença, será mais um passo no esclarecimento da etiologia da "cara inchada". Por outro lado, os nossos achados excluem a possibilidade de que uma outra determinada espécie vegetal existente no pasto seja responsável pela ocor-rência da doença, como foi sugerido anteriormente corno hipótese de trabalho (Dóbereiner & Lazzari 1975, dados não publicados).
As observações até agora feitas em torno da "cara inchada" dos bovinos - os históricos da doença nas várias regiões visitadas, os dados do estudo da sua patologia e os resultados experimentais - permitem su-por que a sua causa deve ser procurada na maneira da formação dos pastns em regiões de mata com certos tipos de solos. Assim foi levantada a hipótese de que o acómu-lo de resíduos oriundos da queima da mata após a derrubada possa ser responsável pela ocorrência das le-sões peridentárias nos bovinos (Dõbereiner et ai.
1975a).
AGRADECIMENTOS
Agradecemos aos proprietários das fazendas onde foram realiza- dos os experimentes, pela preciosa colaboraçáo prestada atrav6s
Pesq. agropec. liras., Sdr. Vet. 11:43-47. 1976
da eesAo dos Fartos O dos eflinisiS utilízadoç no estudo, à Secretra da Agrisultura do Estado de MSto Grosso, pela va-liosa ajuda deda, e à Dr. Gra'ie's Mafel Barroso, Ia dim ao:ânico do Rio de Janeiro, pela identificaçao do material bo-tânico.
REFERáNCIAS
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"CARA INCHADA" EM BEZERROS MANTIDOS EM PASTOS DE Panicum maximum 47
ABSTnACT.- Dobereiner, J.; Rosa, IV.; Lazzari, A.A. ["Cara inchada" (perioclontal disease)
in calves kept on Panicum maximuin pastures]. "Cara inchada" (doença peridentEiria) em bezerros mantidos em pastos de Panicum maximum. Pesquisa Agropecuária Brasileira, Série Veterinária (1976) 11, 43-47 [Pt, en] EMBRAPA/RJ, Km 47, Elo de Janeiro, RJ, ZC-26, Brazil.
Six, 4 to 5 months old calves affected by periodontal lesions were kept on a Guinea grass (Panicttm m.aximum Jacq.) pasture cleared of weeds for 5 mont}is. Another group of eight of about 1 year old calves and also affected by "cara inchada" were kept grazing ou such a cleanpasture for 7 months. The experiments were conducted on two farms where Lhe disease has been observed to be present, in the region of Rondonópolis, Mato Grosso. When the animais were reexamined two or three times within 2 Lo 6 months, it was found that the periodontal lesions had persisted or worsened in almost ali of them.
A number of 87 cows were introdueed onto the clean P. maximum pasture ef one of the two &rms together with their 3 week old calves. Up until the caives reached the age of 9 nionths, periodontal lesions had been found in 52.2% of them.
It was concluded by these experiments that the alimentary factor responsible for "cara inchada" seems to be present in the P. inaximum pastures of farms where the periodontal disease OCCurS.
Index terms: Cara inchada, periodontal disease, periodontitis, cattle, calves, Panicum rnaximum, Guinea grass.