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A pauta do comércio exterior brasileiro e os acordos comerciais.

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Texto publicado na Revista Conjuntura Econômica de junho de 2010

A pauta do comércio exterior brasileiro e os acordos

comerciais.

Lia Valls Pereira FGV/IBRE/Centro de Estudos do Setor Externo

As dificuldades que rondam o término da negociação da Rodada de Doha na Organização Mundial do Comércio (Omc) tem levado a um debate sobre o papel do multilateralismo no atual cenário internacional.

As decisões da Omc são por consenso. Até a Rodada Uruguai (1986/1994), o consenso era construído pelos países desenvolvidos — Estados Unidos, Japão, Canadá e União Européia (Quad). A importância do Quad no comércio mundial significava que as negociações espelhavam principalmente os interesses desses países. Isso mudou. A emergência de um novo grupo de países com peso no comércio internacional levou a criação de novos grupos com capacidade efetiva de influência nas negociações. A constituição do G-20 — grupo liderado pelo Brasil, China e Índia — durante a rodada de Doha é um marco divisor nas negociações multilaterais comercias.

A concepção que a ordem criada no pós-guerra precisa ser reformada não é um debate exclusivo da esfera financeira. No comércio mundial, propostas de mudanças na Omc estão em discussão. Independente desse debate, entretanto, a formação de acordos bilaterais e/ou regionais continuam a proliferar. Segundo a Omc, 271 acordos de preferências estão em vigor. A formação desses acordos, embora aceitos pela Omc, ferem o princípio multilateral que requer tratamento comercial igual para todos os países.

O fracasso até o momento da Rodada de Doha levou a críticas por parte de representantes empresariais e de ex-diplomatas da estratégia brasileira que teria apostado na Omc em detrimento de negociações com os países desenvolvidos, em especial. Aqui não se fará uma análise detalhada desse tema. Chama-se atenção somente que, no caso da União Européia, por exemplo, as modestas ofertas na área agrícola em 2004 para o

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Mercosul refletiam cautela em função dos desdobramentos da negociação multilateral. A proposta de re-iniciar as negociações em julho do presente ano são motivadas em parte pela falta de resultados da rodada, além da presidência da Espanha na União Européia. Os países ibéricos são mais propensos a defenderem um acordo com países latinos em função de laços culturais e econômicos do que os outros membros da União. Não está certo, porém, o sucesso da negociação. A França, Irlanda e alguns países do leste europeu rechaçam a negociação na área agrícola. Os acordos que a União Européia fechou são com países que não são grandes exportadores agrícolas (países da América Central, Peru e Colômbia).

O que está em negociação ou já foi negociado? São citados apenas os acordos comerciais que já são ou tem por objetivo criar uma área de livre comércio. Nesse caso, o Brasil sempre negocia como membro da união aduaneira do Mercosul. Antes, um mapeamento da pauta de comércio exterior brasileira auxilia na avaliação da agenda.

A pauta de comércio exterior brasileira — A pauta brasileira é de um global trader. São apresentados os resultados para o primeiro quadrimestre de 2010.

A participação da América Latina e Caribe e da Ásia nas exportações brasileiras são similares, quase 25%. Nas importações, a Ásia é o principal fornecedor (30%) e a América Latina, o segundo com 27,4%. O elevado percentual da Ásia é explicado em grande medida pela China. A participação chinesa nas exportações brasileiras foi de 13,2% e foi a mesma nas importações. O país é o principal mercado de destino das exportações, superando os Estados Unidos com percentual de 10,7%. Nas importações, os Estados Unidos é o principal fornecedor (14,7%). Na América Latina e Caribe, o comércio com os países sul-americanos é preponderante — 18,7% das exportações e 14,6% das importações.

A União Européia é o terceiro principal parceiro nas exportações e importações e os Estados Unidos, o quarto. A diferença da participação das exportações entre os mercados dos países em desenvolvimento e desenvolvidos é de 13 pontos percentuais. O primeiro grupo explicou 55,5% do total exportado pelo Brasil no primeiro quadrimestre. Excluindo a China, o percentual cai para 42,3%, quase igual ao dos países desenvolvidos. Nas

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importações, os países desenvolvidos representaram 51,2% e os em desenvolvimento, 48,7%.

A descrição dos fluxos de comércio por produtos aponta diferenças entre os mercados (ver tabela). Ásia e União Européia são os principais compradores de produtos básicos e semimanufaturas. América Latina explica 44% das vendas de produtos manufaturados brasileiros. Desse total, 83% representam exportações para a América do Sul. o segundo mercado em ordem de importância é a União Européia, seguido dos Estados Unidos.

Há uma grande diferença da importância da Ásia no comércio de manufaturas. A região explica 7% do total exportado e 35,5% do importado. Na América Latina, o mesmo ocorre com menor intensidade. As exportações de 44% são contrastadas com as importações de 13,5%. No caso europeu e dos Estados Unidos, os percentuais são próximos. O conjunto dos países desenvolvidos participa com 41% do total das compras de manufaturas brasileiras e os em desenvolvimento com 59%. Logo, ambos os mercados são importantes.

A estrutura das pautas bilaterais de comércio mostra o elevado percentual das importações (acima de 90%) de manufaturas na União Européia, Estados Unidos e Ásia (ver tabela). Nas exportações, Estados Unidos e União Européia apresentam fluxos relativamente equilibrados. Na Europa. o percentual exportado de manufaturas foi de 40% e nos Estados Unidos de 53%. Na Ásia, as exportações estão concentradas nos produtos básicos — 69%. Os resultados para a América Latina e Caribe sugerem a presença de um comércio intra-indústria — o percentual exportado foi de 78% e o importado de 64%.

Esse mapeamento dos fluxos de comércio mostra que o Brasil tem interesses distintos em termos de demandas, mas que a agenda deve incorporar a perspectiva multilateral.

Os acordos negociados — A descrição dos acordos foi obtida no site do departamento de Negociações Internacionais da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento.

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Na América do Sul já estão em vigor acordos de livre comércio com todos os países. Os mais recentes foram com a Colômbia, Equador e Venezuela (em vigor desde fevereiro de 2005) e com o Peru (janeiro de 2006). Esses acordos foram criticados pelos setores industriais brasileiros por incorporarem prazos muito diferenciados de liberalização. O Brasil, em geral, dá livre acesso imediato ao seu mercado para grande parte dos produtos, porém a recíproca não é verdadeira. Os prazos de liberalização plena nos mercados dos países andinos são de 5 a 10 anos (ver análise desses acordos no site do IBRE no Centro de Economia Aplicada – Estudos do Setor Externo).

Um acordo de livre comércio com Israel entrou em vigor em abri de 2010.

O acordo com a Índia em vigor desde junho de 2009 engloba até o momento apenas 450 produtos. Um acordo restrito de preferências fixas tarifárias (cerca de 1000 produtos) foi assinado com os países do Sacu (união aduaneira formada pela África do Sul, Namíbia, Botsuana, Lesoto e Suazilândia), mas ainda não foi para aprovação no Congresso.

As negociações com o México foram iniciadas em 2002 para a formação de uma área de livre comércio, mas até o momento ainda não foi fechado. Há um acordo do setor automotivo que negociou redução recíproca de alíquotas de importações (março d 2003).

O acordo com a União Européia para a criação da área de livre comércio foi assinado em 1999. Em 2004, as negociações avançaram e o acordo parecia próximo. No entanto, as ofertas européias na área agrícola foram consideradas insuficientes — em geral, ampliação das cotas vigentes e com reduções nas alíquotas extra-cotas. Ademais, os ganhos ficaram concentrados nas exportações de etanol. Uma análise detalhada dessa oferta foi realizada por H. Kume e outros (Texto para Discussão IPEA nº 1054 e Texto para Discussão IPEA nº 1296. Disponível no site

www.ipea.gov.br em Publicações –Textos para Discussão).

Como mencionado no início desse artigo, será preciso que os europeus cheguem antes a um acordo com os países defensores do protecionismo agrícola. Num momento de crise européia, ofertas de

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liberalização podem ser mais difíceis. É preciso considerar o que será demandado do Brasil. Na negociação de 2004, demandas no setor de serviços e de compras governamentais não foram bem aceitas pelos setores brasileiros.

Em negociação, estão os acordos com a Jordânia, Turquia, Marrocos, Egito, Conselho de Cooperação do Golfo e Paquistão.

Logo, existe uma pauta extensa de negociações. Seria importante, entretanto, definir as prioridades. O Mercosul e a integração sul-americana, embora formalizadas, carecem de um aprofundamento das negociações para campos além das mercadorias. Um acordo amplo com o México seria importante, pois pode consolidar o comércio intra-indústria das empresas translatinas. Acordo com a União Européia, se possível é bem vindo. Nesse caso, uma aproximação com os Estados Unidos para que se evite desvio de comércio seria importante.

O enfraquecimento das negociações multilaterais coloca um ônus nas transações nas relações econômicas internacionais. Um país com comércio “global” como o Brasil tem que alargar a sua rede de acordos.

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Participação no comércio exterior brasileiro: janeiro/abril 2010 em percentagem 6,2 18,7 4,3 24,9 10,8 4,7 22,2 42,5 55,5 2,8 14,6 7,1 30,0 14,8 2,7 21,7 51,2 48,7 Am éric a C entra l e C arib e Am éric a do Sul Afri ca Asia Est ados Uni dos Orie nte Méd io União Eur opéi a Paí ses dese nvol vido s Páis es e m d esen volv imen to Exportações Importações Fonte: SECEX/MDIC Elaboração: IBRE/FGV

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Estrutura do comércio exterior brasileiro por regiões/grupos de produtos

Produtos/Regiões

Exportações

Importações

Básicos 100,0 100,0

Asia 41,6 5,6

União Européia 23,8 2,3

América Latina e Caribe 10,9 31,8

Estados Unidos 8,1 6,4 Africa 2,9 34,2 Demais 12,7 19,7 Países desenvolvidos 42,1 Países em desenvolvimento 57,9 Semimanufaturados 100,0 100,0 Asia 34,1 3,7 União Européia 23,3 19,4

América Latina e Caribe 6,1 44,4

Estados Unidos 11,8 8,4 Africa 5,6 2,7 Demais 19,1 21,6 Países desenvolvidos 53,6 Países em desenvolvimento 46,4 Manufaturados 100,0 100,0 Asia 7,0 35,5 União Européia 21,1 25,2

América Latina e Caribe 44,0 13,5

Estados Unidos 13,6 16,6

Africa 5,4 2,6

Demais 9,0 6,6

Países desenvolvidos 41,0

Países em desenvolvimento 59,0

Fonte: SECEX/MDIC, www.desenvolvimento.gov.br E laboração IBRE/FGV

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Exportações Importações Exportações Importações Exportações Importações Exportações Importações Exportações Básicos 69,0 2,7 44,3 1,5 18,6 26,2 30,8 6,2 28,3 Semimanufaturados 18,9 0,5 14,5 3,5 3,4 10,1 15,1 2,2 18,0 Manufaturados 12,0 96,8 40,3 94,9 77,8 63,7 53,3 91,6 53,5 Fonte: SECEX/MDIC Em percentagem Africa Asia União Européia América Latina e C aribe Estados Unidos

Referências

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