JOGOS TRADICIONAIS E DESENVOLVIMENTO MOTOR DA CRIANÇA
Rui Mendes1,2 & Gonçalo Dias1
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Escola Superior de Educação – Instituto Politécnico de Coimbra, Coimbra, Portugal
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CIPER, FMH.UTL
Resumo
Os jogos tradicionais podem ser definidos como actividades lúdicas e recreativas praticadas por crianças, jovens e adultos que são perpetuadas ao longo de gerações pela oralidade, observação e imitação (Bragada, 2002; Dias, Mendes et al., 2012). Estes jogos revelam a expressão graciosa da alma popular e tradicional que se traduz na necessidade do lazer (Cabral, 1985, 1998). Neste sentido, o presente trabalho tem como objectivo principal identificar as potencialidades dos jogos tradicionais no desenvolvimento motor infantil. Face ao estado da arte, constata-se que estes jogos permitem à criança expressar os seus sentimentos, assumir papéis sociais e transfigurar o mundo que a rodeia. Conclui-se que esta actividade é muito importante para a criança na medida em que permite desenvolver as suas capacidades físicas, cognitivas, afectivas e linguísticas.
Palavras-chave: Jogo tradicional, Criança, Desenvolvimento motor.
1. Introdução
Os jogos tradicionais têm acompanhado várias épocas e culturas, funcionando como um espelho que reflecte o perfil colectivo de um povo e a maneira de viver das gentes (cf. Cabral, 1985; Guedes, 1991; Cabral, 1998). Referimo-nos, em concreto, a uma das mais belas formas de expressão da alma popular com marcada relevância social e cultural (Cabral, 1985; Serra, 2004).
Estes jogos são descritos como actividades recreativo-culturais praticadas por crianças, jovens e adultos que se perpetuam ao longo de gerações pela oralidade, observação e imitação (Bragada, 2002). Nesta base, podem ser classificados em função da idade dos praticantes, género, número de jogadores, acessórios e materiais utilizados, espaço onde se realizam, bem como pelas habilidades e capacidades que desenvolvem (cf. Guedes, 1991; Cabral, 1998; Serra, 1999; Bragada, 2002).
Além disso, a importância social, cultural e patrimonial dos jogos tradicionais está bem expressa na Lei de Bases da Actividade Física e Desportiva,
designadamente no artigo 30º, onde se reconhecem: (…) “Os jogos tradicionais,
como parte integrante do património cultural específico das diversas regiões do País” (cf. Dias, Mendes, Clemente, & Martins, 2012).
O jogo permite à criança transformar o mundo real num universo imaginário e fictício (Chateau, 1987). A utilidade e aplicabilidade desta actividade emergem enquanto experiência de “invenção” e espontaneidade que resulta como pedra basilar no desenvolvimento motor infantil (Kishimoto, 2002). Neste sentido, o jogo tradicional consegue reunir todos estes atributos e oferece à criança a possibilidade de desenvolver harmoniosamente as suas capacidades psicomotoras (Dias & Mendes, 2010). Perante o exposto, o objectivo deste estudo é identificar as potencialidades dos jogos tradicionais no desenvolvimento motor infantil.
2. Definição e classificação de jogo
O “jogo” pode ser definido como uma actividade livre, incerta, regulamentada e fictícia que é realizada num espaço e tempo circunscritos (Caillois, 1990). Através deste, a criança assimila novos conhecimentos, experimenta várias experiências motoras e actua enquanto mediador de regras, simulações ou “faz-de-conta”. Nesta óptica, o jogo estimula o prazer, o convívio e a criatividade, permitindo-lhe mostrar os seus sentimentos, identificar papéis sociais e conhecer o mundo que a rodeia (Chateau, 1987; Vasconcelos, 1989, 1992; Neto, 1997).
Ao longo dos tempos, vários investigadores foram definindo o conceito de jogo e apresentaram diversas classificações do mesmo, suportando-se em diferentes correntes psicológicas ou teorias desenvolvimentistas (cf. Cabral, 1985, Kishimoto, 2002; Dias & Mendes, 2012). Nesta base, autores como Huizinga, Caillois, Piaget, Vygotsky e Chateau têm sido frequentemente citados quando se enquadra a classificação de jogo.
Perante estes elementos, em 1938, Huizinga, na sua obra “Homo Ludens”, descrevia que os jogos constituíam uma criação e manifestação da cultura humana, sendo mais antigos que a própria civilização. Por seu lado, Caillois (1990), através da obra “Lês jeux et les hommes”, apresentou uma classificação antropológica dos jogos sustentada em quatro elementos principais, os quais serão apresentados de
seguida. Assim, referiu-se a Agon para descrever os jogos direccionados para as actividades competitivas (e.g., jogos individuais e colectivos) e enquadrou o termo
Alea para retratar os jogos do destino e da sorte (e.g., apostas). Além disso,
mencionou os jogos de Simulacro – Mymicri, nos quais identificou a fantasia e a ilusão que desembocam nos jogadores e assistentes. Depois, finalizou a sua classificação com o termo Ilinx, onde abordou os jogos que combinam a vertigem e o êxtase.
O mesmo autor (1990) descreveu ainda o jogo como uma actividade Livre, em que jogador actua deliberadamente, i.e., sem qualquer tipo de obrigação e encontrando prazer no mesmo. Neste seguimento, enquadrou o jogo como uma actividade Delimitada, circunscrevendo-o a um determinado limite, espaço e tempo previamente estabelecidos. Advogou, também, que esta actividade é Incerta, referindo que o resultado do jogo é, normalmente, aleatório e desconhecido para os seus intervenientes. Encarou-o como Improdutivo, destacando que o mesmo não deve ter por objectivo gerar bens, riquezas ou outro tipo de contrapartidas.
Além do mais, encontrou fundamentos teóricos para descrever o jogo como uma actividade Regulamentada, mencionando que o seu desenvolvimento pressupõe a existência de regras que o regem, bem como a acção dos seus jogadores. Finalmente, definiu esta actividade como Fictícia, dotando o jogo de uma realidade própria que funciona como um meio de simulação (Caillois, 1990).
Numa outra perspectiva, Piaget (1975) idealizou uma classificação fundamentada na evolução das estruturas mentais da criança. Para tal, organizou os jogos em três categorias que correspondem a uma fase de desenvolvimento infantil distinta: 1) jogos de exercício; 2) jogos simbólicos; e 3) jogos de regras.
1. Jogos de Exercício – fase sensório-motora (nascimento até aos 2 anos, i.e., aproximadamente). Nesta fase, a criança vive o jogo através da repetição de movimentos com carácter exploratório (e.g., tacto, olfacto, visão e motricidade fina);
2. Jogos Simbólico – fase pré-operatória (2 aos 6 anos, i.e., aproximadamente). Nesta fase, a criança começa a adquirir a noção de regras, sendo que o jogo simbólico surge através de movimentos e gestos que envolvem a imaginação
e imitação, passando também pela transformação de objectos e contemplando ainda o desempenho de papéis, i.e., o “faz-de-conta”. Através destes mecanismos lúdicos, a criança explora as suas fantasias, imita e retrata situações da vida real;
3. Jogos de Regras – fase das operações concretas (7 aos 11 anos, i.e., aproximadamente). Neste período, a criança descobre o conceito de “regras” e começa a jogar em grupo. Esta forma de viver o jogo vai estimular algumas competências sociais na criança que a acompanham até à idade adulta, nomeadamente as que dizem respeito à cooperação e inter-ajuda entre pares.
Por sua vez, Vygotsky (1984, 1998) descreve as experiências quotidianas da criança que são vivenciadas com a família e os seus pares, retratando assim o papel social que o “jogo do faz-de-conta” tem no imaginário infantil. Com base nestes pressupostos, Vygotsky (1984, 1998) mostra que o jogo é muito importante no desenvolvimento motor da criança, uma vez que este potencia níveis de desenvolvimento real, potencial e proximal, reflectindo assim actividades que a criança consegue realizar sozinha, bem como as tarefas que é capaz de efectuar com o auxílio do adulto.
Além disso, Chateau (1987) afirma que o jogo assume um papel importante na educação infantil e defende que este não deve ser utilizado única e simplesmente como uma manifestação de divertimento ou prazer, mas também como uma forma de “trabalho” pedagógico. Este autor refere ainda que o jogo é o “centro da infância”, classificando-o em dois grupos de actividade lúdica distintos: 1) jogos sem regras e 2) jogos regulados ou com regras. Nesta base, retrata os jogos sem regras para descrever o desenvolvimento da inteligência concreta da criança, sobretudo os que dizem respeito às afirmações da sua personalidade. Alude, também, para os jogos
regulados, associando-os à cooperação, inter-ajuda e socialização que ocorre
3. Importância do jogo tradicional no desenvolvimento motor
Como verificámos anteriormente, os jogos tradicionais sustentam a expressão graciosa da alma popular que se traduz na necessidade do lazer (Cabral, 1985, 1998) e constituem um legado que preserva as tradições dos povos (cf. Cabral, 1985; Mariovet, 2002). Estes jogos chegaram até nós, transmitidos de geração em geração ao longo do tempo, com as características próprias de cada região (Cabral, 1985, 1998).
Considerando o objectivo principal deste trabalho, verifica-se que autores como Cabral (1985), Vasconcelos (1989), Guedes (1991), Bragada (2002) defendem que os jogos tradicionais são um veículo privilegiado para o desenvolvimento motor da criança. Tal como advoga Cabral (1985, 1998), entender o jogo tradicional como forma de vida, quer nas crianças em que ele é activamente dominante, quer nos adolescentes e adultos em que vai da projecção do trabalho ao divertimento e ao desenvolvimento das mais diversas competências, nomeadamente as motoras, cognitivas e sociais, parece ser uma ideia a sustentar.
Perante estes elementos, urge referir que o desenvolvimento motor infantil contempla mudanças qualitativas e quantitativas e integra vários factores de ordem cognitiva, física e social. Este fenómeno dinâmico e interactivo abarca as características das morfológicas e funcionais da criança e os seus variados contextos de vida (Neto, 1997).
Assim, Neto (1997) enfatiza que quando se estuda o desenvolvimento motor infantil, procuramos (i.e., maioritariamente) uma explicação integrada da “adaptação” que recai sobre o estudo dos factores influentes nas relações entre desenvolvimento e aprendizagem, ecologia e crescimento, bem como génese dos padrões motores e jogo. Deste modo, os primeiros anos de vida da criança resultam em inúmeras modificações no seu crescimento e desenvolvimento, sendo a infância encarada como um período extremamente importante para o desenvolvimento motor. Por exemplo, o período situado entre os três e os 10 anos de idade é fulcral para aprendizagem das habilidades motoras fundamentais (cf. Neto, 1997; Gallahue & Ozmun, 2005).
Perante o exposto, os jogos tradicionais são um excelente instrumento para desenvolver as capacidades psicomotoras, o domínio corporal, a organização espaço-temporal e a integração sócio-motora da criança (Cabral, 1985). Por exemplo, o jogo do lencinho promove o desenvolvimento da capacidade de reacção; o jogo dos cinco cantinhos fomenta a mesma capacidade e a orientação espacial; o jogo da macaca estimula o equilíbrio, a coordenação óculo-manual, óculo-pedal e o ritmo. Finalmente, o jogo das andas desenvolve o equilíbrio e a percepção da criança face ao que são linhas paralelas.
Para além disso, os jogos tradicionais constituem uma actividade extraordinariamente rica que potencia a integração em grupo, orientação espacial, sentido rítmico, enriquecimento da linguagem e formação da personalidade (Guedes, 1991; Bragada, 2002). Neste seguimento, Vasconcelos (1989), Guedes (1991) e Dias e Mendes et al. (2012) descrevem a importância que o jogo tradicional tem no desenvolvimento motor infantil em vários domínios, nomeadamente: 1)
Cognitivo: através da operatividade, imaginação e raciocínio; 2) Motor: com base no
aperfeiçoamento das habilidades e capacidades motoras e; 3) Sócio-afectivo: por via da interacção e cooperação entre pares.
Porém, não obstante a importância atribuída aos jogos tradicionais, ao analisarmos, por exemplo, o programa do 1.º Ciclo do Ensino Básico (i.e., nível de ensino fundamental para o desenvolvimento motor da criança), constatamos que os mesmos não se encontram contemplados nos conteúdos programáticos. Ou seja, existe apenas alusão nas orientações programáticas ao bloco designado por “Jogos”, mas não é descrita nem reconhecida a importância dos jogos tradicionais num documento elaborado pelo Ministério da Educação (Dias & Mendes, 2010).
Posto isto, em nossa opinião, com a inclusão dos jogos tradicionais no programa do 1.º CEB, a área de Expressão e Educação Físico podia ver reforçada o seu leque de competências motoras, fazendo com que, provavelmente, os docentes deste nível de ensino os leccionassem ou promovessem com maior frequência em ambiente educativo (Dias & Mendes, 2010).
Finalmente, salientamos que autores como Cabral (1985) e Bragada (2002) defendem que os jogos tradicionais apresentam semelhanças com os jogos
desportivos colectivos e permitem a aprendizagem de movimentos comuns aos mesmos, tais como: o voleibol, o andebol, o basquetebol, entre outros. Por exemplo, comparam o serviço por baixo usado no voleibol com o jogo da pelota, bem como o passe por cima do ombro em andebol e basquetebol com o jogo do mata. Para os mesmos autores, este tipo de abordagem permite ainda desenvolver as capacidades motoras condicionais da criança (e.g., força, resistência, velocidade) e coordenativas (e.g., reacção, equilíbrio e ritmo).
Neste seguimento, Cabral (1985, 1998) reforça ainda que os jogos tradicionais têm um papel primordial na educação, daí que os professores de Educação Física, i.e., de acordo com os programas escolares, os organizem para além da ginástica, jogos de voleibol, basquetebol, andebol, entre outros desportos. Além do mais, estes jogos tradicionais permitem abordar diferentes conteúdos programáticos que estão associados a movimentos ou habilidades motoras desenvolvidas nas aulas de Educação Física.
Perante estes elementos, consideramos que o jogo tradicional representa um veículo primordial para o desenvolvimento motor da criança, sendo que os professores e educadores podem estimular as suas valências lúdicas, formativas e pedagógicas em contexto escolar, lúdico e pedagógico (cf. Cabral, 1985; Vasconcelos, 1989; Guedes, 1991; Bragada, 2002). Por tudo isto, é uma prioridade transmiti-los às gerações vindouras, perpetuando o seu legado e património cultural ao longo dos tempos.
4. Conclusões
Os jogos tradicionais permitem à criança expressar os seus sentimentos e transfigurar o mundo que a rodeia. Esta actividade lúdica e pedagógica é muito importante para o seu desenvolvimento motor na medida em que optimiza as suas capacidades físicas, cognitivas, afectivas e linguísticas.
Estes jogos são um instrumento privilegiado de educação, socialização e integração sócio-motora da criança, constituindo uma actividade extraordinariamente rica para a integração em grupo, orientação espacial, sentido rítmico e enriquecimento da linguagem corporal.
Os jogos tradicionais permitem à criança avaliar melhor o “mundo” que a rodeia. Deste modo, a repetição de movimentos com carácter exploratório (e.g., tacto, visão e motricidade fina) potencia a imaginação, imitação e transformação de objectos que são usados como brinquedos.
Finalmente, através dos jogos tradicionais, a criança pode retratar situações da vida real individualmente ou em grupo e descobrir o conceito de “regras” que está subjacente ao “mundo dos adultos”. Esta forma de viver o jogo, que vai para além do contexto do desenvolvimento motor em sentido lato, estimula as competências sociais que são importantes para a formação da personalidade da criança.
Referências
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