A NATUREZA DO CONCEITO DE REGIÃO EM MILTON SANTOS
Thiago Macedo Alves de Brito Mestrando em Geografia IGC-UFMG
Para desenvolver o conceito de região em Milton Santos, faz-se necessário seguir os passos do autor que constrói a sua abordagem teórica partindo do universal em direção ao particular. No caso, a região, o particular, deve estar contida no contexto totalizante do desenvolvimento do capitalismo. A região, conseqüentemente, não representa mais uma unidade analítica independente, harmônica e equilibrada. Cada vez mais ela está sendo influenciada pela lógica da expansão mundial do modo de produção capitalista.(SANTOS, 1978a, p.23).
A busca de uma estrutura teórica dentro da qual possa se compreender a especificidade regional envolve a analise da realidade atual. O conteúdo das suas categorias fundamentais tem que ser entendido conforme a gênese do mundo capitalista contemporâneo. Em função desse pressuposto, este artigo começa por uma análise da estrutura espacial contemporânea, no período denominado por Milton Santos de técnico-científico-informacional, e de suas conseqüências sobre a escala regional.
O Meio Técnico-Cientifico-Informacional1
A técnica sempre fez parte das sociedades, mesmo antes da construção de artefatos ou da montagem das maquinas mais elaboradas, o homem se utilizava da técnica para transformar a natureza. Santos (1988, p. 10) considera as técnicas ...
como o conjunto de meios de toda a espécie de que o homem dispõe, em um dado momento, e dentro de uma organização social, econômica e política, para modificar a
1Segundo Santos (1996, p. 35), ele já vinha trabalhando com esse tema desde 1980, porém era utilizado apenas o nome de período Técnico-Cientifico. A partir da década de 90 ele incorporou o informacional ao conceito, o que não significa que ele não considerasse, anteriormente, a sua importância.
natureza, seja a natureza virgem, seja a natureza já alterada pelas gerações anteriores .
No período industrial, com o advento da maquina a vapor e, posteriormente, com a expansão da oferta de energia elétrica e outras fontes energéticas, como o petróleo, cresceu a importância das técnicas na produção e na configuração do espaço (SANTOS, 1997b, p. 187). Porém, ... nesse período os sistemas técnicos eram apenas locais, ou regionais, e tão numerosos quanto eram os lugares ou regiões e não estavam ainda distribuídos uniformemente pelo mundo (SANTOS, 1994, p. 125). Limitava-se aos países desenvolvidos e, mesmo assim, estavam circunscritos a determinados espaços, distantes ainda de uma articulação internacional (SANTOS, 1997b, p. 189-190).
Já a ciência, que fundamenta o progresso dos sistemas técnicos, desenvolveu-se ao longo do tempo com intuito de ampliar o conhecimento sobre o homem e a natureza. Esse saber sempre esteve pautado pela produção humana, material e imaterial (subjetiva), onde se prestava às transformações das técnicas, dos meios de trabalho, produzindo benefícios ou malefícios dependendo das circunstancias. Porem, quando a ciência se influencia somente pela técnica e pelo processo produtivo, deixando de lado os interesse sociais, ela se torna puramente econômica, um instrumento do processo hegemônico.(SANTOS, 1997a, p. 17).
No período logo após a Segunda Guerra Mundial, há uma presença marcante das ciências e da tecnologia na configuração do espaço humano, ambas exercendo um papel primordial no processo produtivo, onde as duas se tornaram indivisíveis (SANTOS, 1997a, p. 15). A ciência e a tecnologia, voltadas exclusivamente para a produção, transformaram-se num único componente de alcance mundial posto a serviço do capital. E difundiram-se, internacionalmente, através de um outro componente - a tecnologia da informação -, quando as qualidades naturais de um lugar deixam de ser premissas fundamentais para a disposição de novas técnicas, estabelecidas em outros locais ou países (SANTOS, 1997a, p. 17).
Emerge, então, o meio técnico-científico-informacional, configurando-se no vórtice de um conjunto de tendências históricas:
a mundialização das firmas e a internacionalização da produção e do produto; a generalização do fenômeno de credito, que reforça as características da economização da vida social; os novos papeis do Estado em uma sociedade e uma economia mundializadas; o frenesi de uma circulação tornada fator essencial da acumulação; a grande revolução da informação que liga instantaneamente os lugares, graças aos progressos de informática (SANTOS, 1994, p. 123).
Esse processo de inovações tecnológicas se expande internacionalmente, partindo do centro para a periferia, perpassando todas as relações sociais e influenciando enfaticamente as formas de produção. Essas mudanças fazem do próprio espaço o meio técnico-científico-informacional (SANTOS, 1985, p. 37-49), agente produtor e reprodutor do acelerado processo de inovações tecnológicas.
Nesse novo contexto, quanto maior for à inovação dos instrumentos de produção, maior será a sua penetração no desenvolvimento global do capitalismo e, consequentemente, maior será a incorporação de novos espaços pelo capital (SANTOS, 1997b, p. 191). As áreas de produção se expandem sem, contudo, expandirem, na mesma proporção, os processos produtivos (SANTOS, 1994, p.
144). Em outras palavras, cresce a produção, porem não cresce, na mesma velocidade, o volume de trabalho incorporado, substituído pelo capital fixo e constante na geração de mercadorias. O espaço industrial, na perspectiva tradicional do fordismo, diminui, mas crescem as suas áreas de influência ou de abrangência de sua difusão tecnológica. Em conjunto com isso, surge a necessidade de intensificar a circulação: os fluxos de mercadorias, inclusive de trabalho, de dinheiro e de informação (SANTOS, 1994, p. 127).
O meio técnico-científico-informacional constitui o que Santos chamou de tecnoesfera e psicoesfera. Por um lado, gera uma constante artificialização da natureza reconstruída permanentemente através das novas técnicas e, por outro, as suas transformações alcançam a subjetividade humana influenciando os desejos e as crenças.
O espaço que já foi natural, depois se transformou em técnico-científico, agora é técnico-científico e informacional (SANTOS, 1994, p. 32). Esse espaço, embora tenha se espalhado ao redor do mundo através de suas inovações na tecnologia e na informação, não fez dele um todo homogêneo. A questão do tempo torna-se importante para essa analise, pois possibilita compreender como cada região, com
suas singularidades, se adaptam ao longo da sua história a essa nova tendência mundial, onde a lógica global do capital, na maioria das vezes, se impõe à realidade regional (SANTOS, 1985, p. 21).
O desenvolvimento da circulação das mercadorias e da informação depende do espaço e do tempo que percorrem. Cada localidade ou sociedade age, ou reage, de forma diferenciada diante da circulação e, ainda mais, a velocidade de circulação das mercadorias e da difusão das informações não são as mesmas em todo espaço (SANTOS, 1994, p. 166). Como se sabe, o desenvolvimento contemporâneo do processo produtivo, fundado na fusão do progresso científico e tecnológico, procede do centro para periferia, deixando as regiões mais periféricas sempre em desvantagem em relação aos lugares centrais. Em um país em desenvolvimento, sobretudo, normalmente as suas diferentes áreas não acompanham uniformemente os avanços recentes do capitalismo, transformando-se num aglomerado de tempos distintos sobrepostos num mesmo espaço. Uma mesma área pode comportar espaços naturais, espaços técnicos e espaços técnicos-científicos e informacionais, desencadeando, assim, vários processos e relações de produção diferentes num mesmo lugar.
O processo de globalização , como também é denominado o período técnico- científico e informacional pelo próprio Santos (1994, 1997a), cria novas atividades conforme as necessidades dos países desenvolvidos, difusores de tecnologia e de informação. A inserção dos diferentes países, e até mesmo das suas próprias regiões, dentro do processo de globalização ocorre de maneira diferenciada segundo as suas vantagens comparativas para o desenvolvimento do capitalismo em escala mundial. Em outras palavras, os espaços não se circunscrevem do mesmo modo, nem no mesmo tempo, dentro dos processos de inovação tecnológica e de difusão de informação.
Segundo Santos (1985, p. 40):
Ao mesmo tempo em que os espaços produtivos conhecem especializações mais indiscutíveis, as disparidades ganham uma natureza nova, são cada vez menos presididas pelas condições de aproveitamento direto das condições naturais e cada vez mais pelas possibilidades de aplicação da ciência e da técnica à produção e à circulação geral .
Divisão Internacional do Trabalho e a Formação Sócio-espacial2
O desenvolvimento desigual do capitalismo entre os diferentes países e regiões gera uma divisão internacional do trabalho que tem se transformado rapidamente em função da velocidade do progresso científico e tecnológico. Essa divisão provoca mudanças sociais e econômicas profundas que se expressão através das transformações nas relações de trabalho e nas formas de organização espacial da produção.
Essas mudanças provocam uma redefinição das funções de cada região, alterando o seu conteúdo, ou, como diz Santos, o conteúdo dos lugares. Segundo ele a divisão internacional do trabalho explica a seletividade espacial na realização de funções, (...) e a divisão interna do trabalho nos mostra o movimento das sociedades, a criação e os reclamos de novas funções e a maneira como essas funções são abrigadas pelas formas preexistentes ou novas (SANTOS, 1979a, p.
41).
A cada momento do processo histórico de divisão do trabalho, as regiões são conduzidas a acolher formas de produção mais adaptáveis a ela, segundo os interesses externos, ampliando a diversidade das formas espaciais compreendidas em cada lugar. As formas espaciais, inclusive a região, podem comportar, num mesmo momento histórico, varias divisões sociais do trabalho, resultantes de momentos diferentes do capitalismo, que coexistem e se sobrepõem. Segundo Santos (1997b, p. 109): ... em cada subespaço, novas divisões do trabalho chegam e se implantam, mas sem exclusão da presença dos restos das divisões de trabalho anteriores. Isso distingue cada lugar dos demais, essa combinação especifica de temporalidades diversas .
A noção do tempo histórico, ou da temporalidade, é importante em Santos para se compreender a divisão social do trabalho. As sucessivas mudanças no modo
2Milton Santos chamou de formação sócio-espacial, teve como base o que Marx e Engels denominaram de Formação Econômica e Social, e que posteriormente foi retomada pela tradição marxista (SANTOS, 1979a, p. 19).
de produção capitalista geram transformações na divisão social e espacial do trabalho. Mas elas não se anulam no tempo, a atual destruindo a anterior. Pelo contrário, principalmente nos países em desenvolvimento, coexistem diferentes divisões sociais e espaciais do trabalho: são combinações de temporalidades diversas .
As divisões do trabalho pretéritas convivem num mesmo espaço com divisões do trabalho atuais, sobrepondo formações e funções sociais: as divisões anteriores do trabalho permitem rever as formas herdadas segundo uma lógica que as restabelece no momento mesmo de sua produção. As rugosidades, vistas individualmente ou nos seus padrões, revelam combinações que eram as únicas possíveis em um tempo e lugar dados (SANTOS, 1997b, p. 113). De fato, as regiões suportam diferentes etapas das divisões do trabalho reveladas a partir do seu modo presente. A divisão do trabalho, internacional ou interna, em cada um dos seus momentos, permitem compreender, a cada instância, a essência das formas, ou de uma coleção de objetos geográficos, isto é, os seus conteúdos sociais, econômicos e político (SANTOS, 1979a, p. 42).
Entretanto, a divisão do trabalho pode ser compreendida, também, como um processo pelo qual os recursos disponíveis se distribuem social e geograficamente (Santos, 1997b, p. 106). O valor real de cada recurso do mundo não depende de sua existência separada, mas de sua qualificação geográfica, isto é, da significação conjunta que todos e cada qual obtêm pelo fato de participar de um lugar. Fora dos lugares, produtos, inovações, populações, dinheiro, por mais concreto que pareçam, são abstrações (SANTOS, 1997b, p. 107). Por isso a formação sócio-espacial e não o modo de produção pois esse só se torna concreto a partir de uma base territorial historicamente determinada constitui o instrumento adequado para se compreender a história e o presente de um país (SANTOS, 1997b, p. 107). Somente há produção ou inovação territorializadas , pertencentes a um lugar, sem o espaço não existe a historia e vice-versa.
Essa é a razão da importância de se compreender a realidade dos países, ou de suas subdivisões ou regiões, através das sucessões das formas, ou de formações sócio-espaciais3, que cada área assume, diferencialmente, em relação às outras.
Segundo Santos (1978a, p. 201):
Essa categoria concerne à evolução diferencial das sociedades em seu próprio quadro em relação com forças externas das quais freqüentemente lhe vem um impulso motor. Acima de tudo, a base fundamental da explicação vem da produção, isto é, do trabalho do homem para transformar, segundo leis historicamente determinadas, o espaço com o qual o grupo se confronta .
A formação sócio-espacial expressa a totalidade representada pelo modo de produção global, caracterizado pelo autor, contemporaneamente, como período técnico-científico-informacional. Ela se concretiza num dado espaço, com suas singularidades, e nele as formações sociais, com suas diferentes temporalidades, se intercalam e se sobrepõem. A lógica do desenvolvimento do capitalismo se concretiza através das formações sócio-espaciais, com suas diferentes formas e funções incorporadas numa especificidade territorial, seja ela o país, a região ou o lugar. Em síntese: as formações espaciais seriam uma linguagem dos modos de produção (SANTOS, 1979a, p. 14).
Santos vai mais além, mostrando a diferença entre os modos de produção e a formação sócio-espacial de forma sucinta e esclarecedora: Os modos de produção escrevem a historia no tempo, as formações sociais escrevem-na no espaço (SANTOS, 1979a: 15). Porém, ambos se tornam interdependentes, ligados pelo espaço e pela historia, ... só a historia da sociedade mundial e a historia da sociedade local podem servir como fundamento à compreensão da realidade espacial e aos esforços para transformá-la, pondo-a a serviço do homem. Pois, a historia não se escreve fora do espaço e o próprio espaço sendo social, não há sociedade a-espacial (SANTOS, 1978a, p. 201).
3Milton Santos denominou de Formação Sócio-espacial, ou Formação Espacial, aparece ao longo de seus escritos também como Formações Sócio-econômico-espacial, ou Formação Econômico Social ou ainda Formação social, pois segundo ele, ambos os três não se realizam sem a presença do espaço, e seu conteúdo já está implícito no conteúdo dessas formações (SANTOS, 1978A, p. 196).
A formação sócio-espacial representa uma sociedade historicamente determinada pelas formas concretas, elas não existem senão pelos seus aspectos concretos, entre os quais os modos de produção concretos que a constituem e que possibilitam chegar a compreender a especificidade de cada sociedade em constante relação com seu espaço... (SANTOS, 1978a, p. 200).
As formações sócio-espaciais apenas podem ser compreendidas, conforme Santos (1978a, p. 200), como uma realidade que comporta uma horizontalidade, relações de produção e sociais internas, e uma verticalidade, um intercambio entre as sociedades, territórios e regiões, tornando claro a interdependência das formações sócio-espaciais e o modo de produção global . A formação sócio-espacial no seu cerne compreenderia uma estrutura técnico-produtiva expressa geograficamente por uma distribuição espacial da atividade produtiva, contendo as relações complexas entre os seus diversos níveis de organização, correspondendo as diferentes etapas da produção localizadas e influenciadas pelo espaço, ou subespaço, que a comporta (SANTOS, 1979a, p. 14).
A divisão internacional do trabalho, resultante de um dado momento histórico do desenvolvimento do modo de produção capitalista estabelece, conforme as suas necessidades, uma nova formação sócio-espacial, uma nova divisão territorial do trabalho. Sem entendê-las, nas suas diferentes temporalidades, não seria possível compreender a historia e o presente de cada país.
No período técnico-científico-informacional as mudanças na divisão do trabalho adquirem uma velocidade mais rápida, tornando as relações entre os países, as regiões ou os lugares, mais interdependentes, redefinindo a própria divisão territorial do trabalho e o espaço global do capital. A organização da produção dos países capitalistas tende a ser cada vez mais globalizada, impondo regras e intervindo na intimidade de cada país (SANTOS, 1994, p. 99).
O aumento da interdependência entre os países tem sido potencializado pela velocidade da circulação e da informação, fruto do intenso progresso técnico na área informacional (SANTOS, 1997b, p. 106; 1994, p. 100). A circulação não se define apenas pelo progresso no transporte de mercadorias, os novos sistemas de informação e de comunicação estabeleceram uma rede de comunicação virtual
entre os diferentes países e regiões, tornando praticamente instantânea a circulação de informações e possibilitando uma inusitada articulação entre as diferentes frações do espaço global.
Dialética Global x Local
Quando se colocam em pauta diferentes conceitos como a geografia geral e a geografia regional; a divisão internacional do trabalho e a formação sócio-espacial; a totalidade e a singularidade; a região ou o lugar e o global, mundial; está embutido neles não uma dicotomia, mas uma intrínseca interdependência analítica entre eles:
são lados de uma mesma moeda conceitual.
No caso, por exemplo, do conceito de região, a lógica da construção teórica de Santos está fundada na relação dialética entre o local e o global. A partir do momento em que ele considera a ineficácia analítica do conceito de região, constituído a partir do locus onde se realiza uma relação harmônica entre o homem e a natureza, abre-se espaço conceitual para a articulação dialética entre o local e o global.
Acostumamo-nos a uma idéia de região como subespaço longamente elaborado, uma construção estável. Agora, nesse mundo globalizado, com a ampliação da divisão internacional do trabalho e o aumento exponencial do intercambio, dão-se, paralelamente, uma aceleração do movimento e mudanças mais repetidas, na forma e no conteúdo das regiões (SANTOS, 1997b, p. 197).
As regiões no período técnico-científico-informacional se encontram inseparáveis da totalidade, onde o todo só pode ser conhecido através do conhecimento das partes e as partes somente podem ser conhecidas através do conhecimento do todo (SANTOS, 1997b, p. 96).
Entretanto, na dialética de Santos, a totalidade prevalece em relação as suas partes, no sentido de que somente a partir do seu entendimento pode-se referir às suas partes e compreendê-las. Através do entendimento das partes não se apreende a totalidade, pelo contrário, sem passar pela totalidade não se alcança analiticamente às partes (SANTOS, 1997b, p. 93).
A totalidade seria constituída por suas formas de produção (estruturas) e por suas relações sociais de produção, mas ela se transforma nesse mundo globalizado veloz e fugaz, cindindo-se em diversos fragmentos que se efetivam diferencialmente:
a totalidade se realiza por impactos seletivos, nos quais algumas de suas possibilidades se tornam realidade (SANTOS, 1997b, p. 100). As regiões ou os subespaços são definidos muito mais pelo movimento do todo, mas se modificam de modos distintos: as determinações do todo se dão de forma diferente, quantitativa e qualitativamente, para cada lugar (SANTOS, 1997b, p. 100).
Quanto mais os lugares se globalizam, mais eles se tornam específicos, singulares, dotados de uma estrutura interna, capaz de integrar vários processos de inovação, porem, estão cada vez mais interligados entre eles através de um nexo único, o modo de produção hegemônico (SANTOS, 1997a, p. 34). Entretanto, tentando fugir do determinismo, Santos recorre a Ideologia Alemã de Marx; a região, ou o lugar, pode ser mostrada tanto na sua totalidade quanto na ação recíproca de seus diversos aspectos (SANTOS, 1978a, p. 194).
A Região
O tempo acelerado transforma as ações e os espaços mais rapidamente, aumentando as diferenças entre eles. O espaço se torna mundial, os subespaços se redefinem e a região se configura num novo arcabouço estrutural dentro do processo de globalização . Agora, exatamente, é que não podemos deixar de considerar a região, ainda que a reconheçamos como um espaço de conveniência... (SANTOS, 1997b, p. 196).
Segundo Santos, a região seria um espaço de conveniência, funcional, de determinadas ações da sociedade global, reproduzidas num dado momento histórico (SANTOS, 1985, p. 66). A região, neste contexto, segundo Santos (1997a, p. 47), assume:
... importante papel nos dias atuais, com a finalidade de compreender as diferentes maneiras de um mesmo modo de produção se reproduzir em distintas regiões do globo, dadas suas especificidades. A região torna-se uma importante categoria de
analise, importante para que se possa captar a maneira como uma mesma forma de produzir se realiza em partes especificas do planeta ou dentro de um país, associando a nova dinâmica as condições preexistentes .
É por isso que o autor denomina as regiões de lugares funcionais do todo (SANTOS, 1985, p. 68), subespaços do capital hegemônico, onde suas características e ações provem de uma realidade externa, dependente do movimento econômico mundial. Compreender a região, então, significaria aprender a espacialidade que o modo de produção adquire na sua inserção na divisão internacional do trabalho.
Como já foi mencionado, Santos chega a afirmar que a região não tem identidade própria, constituindo-se numa abstração sem a consideração da totalidade. A região seria uma das partes dessa totalidade, cindida pela divisão internacional do trabalho e refletida no espaço. As regiões são lugares funcionais dentro do movimento global do capital hegemônico (SANTOS, 1997b, p. 131).
A região, não mais orgânica como em La Blache, é agora funcional, e adquire, também, no período técnico-científico-informacional, uma nova dimensão em função da reestruturação da estrutura produtiva determinada pelas novas tecnologias da informação, que influenciam tanto o espaço, como suas subdivisões, na sua inserção internacional. As determinações vindas do exterior atribuem funções diferentes a cada lugar ou região, onde se encontra, em movimento, uma sucessão de formas e de modos de produção resultantes de temporalidades distintas. Nessa perspectiva é possível apreender a realidade especifica de cada região, tanto nas suas articulações internas e suas estruturas produtivas, quanto na sua inserção na totalidade (SANTOS, 1985, p. 71).
As formas, transformando-se de modo mais lento e gradual ao longo da sucessão dos modos de produção, podem fazer com que os lugares praticamente permaneçam os mesmos. Mas, no contexto da dinâmica da economia contemporânea, as suas funções, certamente, mudariam com uma maior velocidade (SANTOS, 1997a, p. 52). Nesses lugares, os capitais fixos, por exemplo, segundo a lógica que é própria da sua constituição, obedecem a uma certa inércia (SANTOS,
1985, p. 67), sobrevivendo às mudanças no processo produtivo, ou a elas se ajustando lentamente.
Vale realçar que não é pela presença de formas arcaicas de produção que uma região pode ser considerada desenvolvida ou subdesenvolvida, inserida ou não no processo de acumulação capitalista. O que fornece um sentido hierárquico a elas são exatamente as relações de produção que se desenvolvem nessas formas (SANTOS, 1985, p. 67). Se as relações de produção conseguirem suprir as estruturas antigas de produção, além de estabelecerem processos contemporâneos ao período técnico-científico-informacional, os limites do subdesenvolvimento serão superados.
A região, contudo, com sua especificidade, se configura, conforme Santos (1985 p. 67): como o resultado das possibilidades ligadas a uma certa presença, nela, de capitais fixos exercendo determinado papel ou determinadas funções técnicas e das condições de seu funcionamento econômico , fornecidas por uma serie de relações, redes políticas, econômicas e geográficas.
Os fixos não são apenas formas , eles são dotados de conteúdos, fornecidos principalmente, pelos atores, firmas, instituições nacionais ou multinacionais que configuram suas lógicas, suas necessidades produtivas, suas organizações internas.
Esses capitais fixos podem ocupar a mesma região no espaço, o que não necessariamente significa uma convivência harmoniosa entre eles, a não ser quando fazem parte de uma mesma associação, de um mesmo conglomerado (SANTOS, 1985, p. 68).
Por outro lado, as instituições e firmas devem ser consideradas não apenas por sua lógica interna de produção, mas também pela sua capacidade de gerar a circulação de mercadorias. Ainda existem estruturas produtivas que tem um circuito de produção estritamente regional, no entanto, a maioria precisa de um espaço maior de circulação que ultrapassa as dimensões regionais. O consumo, por exemplo, exige um espaço bem mais amplo (SANTOS, 1985, p. 68). A importância da circulação, dos fluxos, na interconexão entre as regiões, ou lugares, reforça a sua falta de autonomia e a sua dependência em relação a outros subespaços.
A articulação entre diversas frações do território se opera exatamente através dos fluxos que são criados em função das atividades, da população e da herança espacial (SANTOS, 1985, p. 72). O importante é reconhecer as articulações entre as regiões, fornecidas por suas variáveis e por seus processos, variáveis estas que podem ser: intensidade e qualidade dos fluxos, tipos de tecnologia, relações de trabalho, necessidade de consumo entre outras, concebendo a interdependência dessas relações internas e externas (SANTOS, 1997a, p. 48).
Contudo, Santos sugere uma orientação para a análise regional que não se restringe a uma compreensão do processo produtivo e das suas relações sociais de produção, destacando a importância dos fatores políticos e culturais. Ele afirma (SANTOS, 1997a, p. 48):
Num estudo regional se deve tentar detalhar sua composição enquanto organização social, política, econômica e cultural, abordando-lhe os fatos concretos, para reconhecer como a área se insere na ordem econômica internacional, levando em conta o preexistente e o novo, para captar o elenco de causas e conseqüências do fenômeno .
Analisar uma região significa compreender o seu processo histórico, sua sucessão de formas e fluxos que se transformam cada vez em mais em alta velocidade, dando a sua estrutura interna um conteúdo compatível com a sua inserção no período técnico-científico e informacional.
Em síntese:
As condições atuais fazem com que as regiões se transformem continuamente, legando, portanto, uma menor duração ao edifício regional. Mas isso não suprime a região, apenas ela muda de conteúdo. A espessura do acontecer é aumentada, diante do maior numero de eventos por unidade de espaço e por unidade de tempo.
A região continua a existir, mas com um nível de complexidade jamais visto pelo homem (SANTOS, 1997b, p. 197).
Regiões do mandar (produtivas) e Regiões do fazer
As transformações internas regionais ocorrem atualmente, principalmente, pela invasão de inovações técnicas. Porém, essas inovações são restringidas conforme o interesse dos atores e dos países hegemônicos, que detêm o conhecimento e o monopólio do progresso tecnológico de ponta, e só aplicam o seu capital em regiões que sejam do seu interesse e que tragam lucros com seus investimentos (SANTOS, 1994, p. 114).
As técnicas constituem-se, então, um poderoso instrumento de ação dos atores e países hegemônicos, e são somente usadas de forma ativa por essas regiões, enquanto que as outras as regiões do fazer só as utilizam de forma passiva. No período técnico-científico-informacional existem cada vez menos regiões ativas e cada vez mais regiões passivas (SANTOS, 1994, p. 114). Região significa reger, mas, hoje, há cada vez mais regiões que são apenas regiões do fazer, e, cada vez menos, regiões do mandar, regiões do reger. Aquelas que são regiões do fazer são cada fez mais regiões do fazer para os outros (SANTOS, 1994, p. 114).
Para compreender as regiões ativas, produtivas Santos (1985, p. 73) indica duas questões, a primeira é a compreensão do presente, de como as variáveis, seus capitais fixos e seus fluxos se constituem; a segunda é buscar no passado o que possa auxiliar na compreensão do futuro. As variáveis utilizadas na análise aumentam conforme o processo de modernização , porem, em sua maioria continuam as mesmas, adaptando-se as novas exigências produtivas. Partindo do conhecimento dessas variáveis (políticas, econômicas e sociais) e de suas relações com seu exterior ao longo do tempo, é que se descobre o nível de produtividade de cada região (SANTOS, 1985, p. 73).
Nas regiões onde as formas e os fluxos de variáveis se tornam mais, coesas, menos abaladas pela volatilidade da economia global, aí está o centro do poder (SANTOS, 1994, p. 114), e as regiões onde estas relações acontecem de maneira mais precário, menos complexo, dependente de ajuda externa, aí estão as regiões do fazer.
As regiões do fazer contam com uma certa impotência em se auto gerir, sua funcionalidade em relação às regiões do mandar são, atualmente, muito maior. Suas organizações estão cada vez mais alheias a sua estrutura local, vindas de regiões mais distantes e diferentes. Hoje sua racionalidade se baseia em necessidades que são muito mais de fatores externos que comandam seus espaços e até mesmo a vida de sua sociedade (SANTOS, 1994, p. 115).
Como pesquisar e entender essas regiões? Não basta reconhecer apenas suas especificidades, seus objetos, sua lógica interna, segundo Santos (1994, p.115):
É fundamental e indispensável inseri-los no movimento atual do mundo, escapando àquilo que Marx temia, isto é, o erro do século. Ou buscamos entender tudo ou não entendemos nada. Ou enfrentamos o todo em que se incluem, ou os objetos nos escapam em seu entendimento. Essa busca do global é mais exigida do que antes, ainda que a sociedade se repita que chegamos ao fim da teoria, da ideologia e da utopia .
Essa afirmação de Santos expressa com clareza o cerne do e suas principais preocupações, teóricas e metodológicas, em especial, para o entendimento do seu conceito de região.
BIBLIOGRAFIA
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