Teresa Azevedo Alves da Nóbrega
Mestrado em Direito das Empresas e do Trabalho
Orientadora: Doutora Maria Luísa Teixeira Alves,
Professora Auxiliar do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa
Novembro, 2022
Departamento de Economia Política
Os Acidentes de Trabalho adaptados à nova realidade laboral
Teresa Azevedo Alves da Nóbrega
Mestrado em Direito das Empresas e do Trabalho
Orientadora: Doutora Maria Luísa Teixeira Alves,
Professora Auxiliar do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa
Novembro, 2022
iii Primeiramente à Doutora Maria Luísa Teixeira Alves por todo o apoio, disponibilidade e conhecimento transmitido ao longo do curso de mestrado.
À família, amigos e colegas/amigos de trabalho, pela motivação.
À Dra. Beatriz Cardoso e Dra. Carla Bandeira pela constante partilha de conhecimentos e por me terem dado as bases que me permitem, hoje, pensar criticamente sobre este tema.
Por fim, ao Bernardo pela imensa paciência.
iv
v Nos mais basilares princípios de Direito, temos desde logo a necessidade de leis que se mantenham atemporais, sendo abstratas o suficiente para que possam acompanhar a natural evolução dos tempos; é fundamental que se evitem leis desfasadas da realidade, com áreas cinzentas que vêm a criar brechas legislativas e incertezas na sua aplicação.
Uma das realidades que carece de análise atenta e adaptação à rápida evolução é precisamente o regime dos acidentes de trabalho, que ocupam uma fatia substancial dos litígios dirimidos pelos tribunais de trabalho portugueses, motivo pelo qual merecem especial atenção.
Por isso, começaremos por uma abordagem teórica à figura, olhando à sua evolução legislativa até ao regime atualmente consagrado, tanto à luz da legislação e jurisprudência portuguesas como dos demais ordenamentos jurídicos.
De seguida, importa refletir sobre a nova realidade laboral, em particular ao nível da gestão de tempo e local de trabalho, com especial foco na temática do Teletrabalho.
Com essa análise pretendemos interligar esses conceitos com o regime vigente, equacionando problemas e analisando as atuais soluções.
Propomo-nos, assim, a tratar o regime dos acidentes de trabalho não só com uma perspetiva atual, mas, igualmente, com um olhar num futuro, quiçá, este, mais próximo que o que se antecipava, ressalvando, porém, que face à atualidade do tema, ainda não se encontram decisões judiciais a assinalar a este respeito.
Palavras-chave: Acidente de trabalho; teletrabalho; pandemia Covid-19; dano.
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vii Abstract
As one of the founding principles of Law is the need for a somewhat timeless legislation, abstract enough that it may accompany the natural evolution of tim, it is detrimental that laws detached from reality are avoided, which carry gray areas that create legislative gaps and uncertainty upon its enforcement.
One of such realities, which requires special and careful consideration, as well as adaptation to a rapidly changing evolution, is the work-related accidents’ legislation and arising judicial conflicts, which comprise a substantial segment of litigation in Portuguese courts.
We shall therefore begin with a more theoretical approach to this topic, examining the legislative evolution under the current legal regime, not only regarding Portuguese law and jurisprudence, but also with regards to other legal systems.
It is also important to reflect on the new labor reality, particularly concerning time and workplace management, taking a special look at teleworking.
With this analysis we intend to connect said concepts to the present legal framework, pondering problems and reviewing existing solutions.
We therefore propose a look at work-related accidents’ not only from a present-day perspective, but also trying to look into the future, which seems to be closer than anyone anticipated, noting, however, that considering the currentness of the topic, there are yet to be published judicial rulings on the matter.
Keywords: Work-related accidents; teleworking; Covid-19; damages
viii
ix Glossário de Siglas
Ac. – Acórdão Art. – Artigo CC – Código Civil Cit – Citada
CRP – Constituição da República Portuguesa CT – Código do Trabalho
Ed. – Edição L. – Lei
LAT – Regime de Reparação de Acidentes de Trabalho e de Doenças Profissionais N.º – Número
Ob. – Obra P. – Página
x
xi Agradecimentos………III Resumo………...….. IV Abstract………...……….. V Glossário de Siglas………..…..VI
Introdução………..……….1
Capítulo 1 – Enquadramento e Evolução Histórica dos Acidentes de Trabalho………...3
1.1. O Caso do Ordenamento Jurídico Português………...……….5
Capítulo 2 – Regime Jurídico dos Acidentes de Trabalho……….…….………11
2.1. Conceito de Acidente de Trabalho………..….………....14
2.1.1. Conceito de Acidente de Trabalho em Países Europeus (O caso de Espanha, França e Itália) ………...…..………...……...…….14
2.2. Elementos caracterizadores do conceito de Acidente de Trabalho…....…….……….15
2.2.1. Elemento Espacial………….………....……….……..16
2.2.2. Elemento Temporal………..………...……….…19
2.2.3. Elemento Causal………...………21
2.2.3.1. A presunção de causalidade………..…………...………….24
2.3. Extensão do conceito de Acidente de Trabalho………...………25
2.3.1. Acidentes verificados no trajeto de ida para o local ou de regresso do trabalho………...……….…………...26
2.3.2. Acidentes verificados na execução de serviços espontaneamente prestados pelo trabalhador e de que possa resultar proveito económico para o empregador…...29
2.3.3. Acidentes verificados fora do local ou tempo de trabalho, quando verificado na execução de serviços determinados pelo empregador ou por ele consentidos……….30
2.4. Descaracterização dos Acidentes de Trabalho………...30
xii
3.1. Nota Introdutória……….33
3.2. O Teletrabalho………...34
3.2.1. Evolução do regime e enquadramento legislativo…………....………...34
3.2.2. Noção………...………...35
3.2.3. Regime jurídico e principais alterações………....…………36
Capitulo 4 – Acidentes de trabalho e nova realidade laboral………39
4.1. Nota Introdutória……….39
4.2. O local de trabalho………...39
4.3. O tempo de trabalho ………...…41
4.4. Os riscos domésticos………...…...44
4.5. Os acidentes in itinere………...……….44
Conclusão………...………...45
Referência Bibliográfica………...………...………...46
1 Introdução
Citando o Filósofo Heraclito, “a única constante das nossas vidas é a mudança”. Tal afirmação emprega-se perfeitamente nos dias de hoje: vivemos num mundo pautado pela mudança, que se reflete desde a alteração de mentalidades, à evolução das tecnologias e à forma como interagimos uns com os outros.
A acrescer à evolução natural e intrínseca decorrente do avançar do tempo, a pandemia provocada pelo vírus SARS-CoV-2 impulsionou, consideravelmente, a transição para a era digital, impactando diretamente, entre outros aspetos, com a nossa realidade laboral. Já não nos podemos cingir aos conceitos tradicionais de local ou tempo de trabalho, havendo, em certos casos, uma quase negação de tais noções.
A este propósito, recentemente e no seguimento do protagonismo que esta figura mereceu nos últimos tempos, foi publicada a Lei 83/2021 de 06 de dezembro que vem modificar o regime de teletrabalho, alterando o Código do Trabalho e a Lei 98/2009, de 04 de setembro, tendo entrado em vigor a 01 de janeiro de 2022.
Mas como não poderia deixar de ser, e na sua missão atemporal de se manter a par das mudanças constantes, o Direito tem-se vindo paulatinamente a ajustar, em especial e no que diz respeito à presente dissertação, no sentido de fazer face às adaptações necessárias ao regime dos acidentes de trabalho e a sua relação com o teletrabalho.
Poderemos verdadeiramente, nos dias de hoje, continuar a falar de acidentes no trajeto, se este se consubstanciar nos metros que distam entre a secretária improvisada na sala de casa, e o espaço de refeição? Fará sentido continuar-se a exigir, num acordo de teletrabalho, que conste o local habitual da prestação de trabalho? Em termos de nexo de causalidade, estamos realmente perante um duplo nexo, ou há, quiçá, espaço para um terceiro eixo que merece análise?
Para procurarmos dar resposta a estas questões e outras, analisaremos o conceito de acidente de trabalho, focando no regime jurídico atual e contrapondo a sua evolução, olhando também à jurisprudência, mas sempre atentando e propondo um possível caminho a seguir.
2
3 Capítulo 1 - Enquadramento e Evolução histórica
A temática dos acidentes de trabalho assume uma grande importância no âmbito do direito laboral, consubstanciando um elevado número dos litígios dirimidos nas instâncias laborais. Tal importância manifesta-se, igualmente, no âmbito sócio-económico, face aos elevados números de sinistralidade1,e aos diversos impactos que os mesmos podem causar a um trabalhador, sejam físicos e funcionais, psicológicos, familiares e sociais, financeiros, entre outros.
Face ao reconhecimento da relevância desta matéria foi conferida dignidade constitucional ao direito de justa reparação por danos derivados de acidentes de trabalho, no artigo 59.º, n. º1, alínea f) da Constituição da República Portuguesa, sendo este regime entendido como um direito análogo aos direitos, liberdades e garantias, através do processo especial previsto nos artigos 99.º e seguintes do Código Processo do Trabalho2. Esta garantia constitucional advém da consciencialização do trabalhador enquanto ser portador de direitos, liberdades e garantias e não apenas como mão de obra para a realização de uma determinada função.
Foi esta perceção de tutela sobre o trabalhador que esteve na génese da criação do regime dos acidentes de trabalho.
Tal preocupação emergiu do período da Revolução Industrial, uma vez que o trabalho que outrora se produzia manualmente, foi gradualmente substituído por maquinaria inovadora, de complexa utilização, conduzindo a um aumento substancial de acidentes relacionados com a prestação de trabalho3.
Este aumento na elevada sinistralidade, que se repercutiu diretamente na perda da capacidade de ganho dos trabalhadores à época, levou a cabo quer a emissão de normas sobre segurança, higiene e saúde no local de trabalho, de forma a minimizar os infortúnios laborais, quer ao delinear de um sistema de reparação de danos emergentes dos acidentes de trabalho.
Esta situação revestiu extrema importância para o instituto da responsabilidade civil, uma vez
1 Segundo informação retirada da PORDATA, em 2020 registaram-se 156.040 acidentes de trabalho. Em 2019 registaram-se 196.202 e em 2018 195.761 (Estes valores referem-se a todos os acidentes de trabalho participados às entidades seguradoras, incluindo os ocorridos com trabalhadores deslocados no estrangeiro. Exclui os acidentes ocorridos com subscritores da Caixa Geral de Aposentações (CGA) e os acidentes que ocorram no percurso para o local de trabalho ou no regresso deste (acidentes de trajecto).
2 LOUREIRO, Jorge Manuel, Processo Judicial de Acidente de Trabalho – Momentos Prévios e a Fase Conciliatória – Notas Práticas Essenciais, Almedina, 2021, p. 5.
3 LEITÃO, Luís Manuel Teles de Menezes, A Reparação dos Danos Emergentes de Acidentes de Trabalho, Estudos do Instituto do Direito do Trabalho, Volume I, 2001, Pág. 537.
4 que, esse regime que vinha a ser traçado, consubstanciou-se no primeiro sistema de responsabilidade civil objetiva pelo risco4.
A responsabilidade civil objetiva emergente de acidentes de trabalho terá surgido na Alemanha, com a lei de 06 de julho de 1884 5, tendo esta medida sido acompanhada por vários países europeus. A Áustria, em 1887, começou a regular a matéria dos riscos ligados aos acidentes de trabalho e à doença. Mais tarde, em 1898, a Itália, com a Lei de 19 de março, e a França, com a Lei de 09 de abril, emitem os seus primeiros diplomas dedicados aos acidentes de trabalho. Ressalve-se que em França, o regime da segurança e higiene nos estabelecimentos industriais remonta a 1893. Na Bélgica o diploma que regulou a saúde e segurança dos operários entrou em vigor em 1899. Em Inglaterra, o regime jurídico dos acidentes de trabalho remonta a 1897 6.
Pela importância social e laboral que a matéria dos acidentes de trabalho acarreta, o Direito Comunitário preocupou-se, igualmente, a regular esta temática, de forma a minimizar os riscos inerentes à prestação de trabalho e tutelar a responsabilidade em caso de acidente.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) veio regular diversas medidas sobre a prevenção e reparação destes infortúnios, nomeadamente por meio da Convenção n.º 12 de 19217, relativamente a acidentes de trabalho na agricultura; A Convenção n.º 17 de 19258, que versa sobre reparação de acidentes de trabalho; A Convenção n.º18 de 19259, no que concerne à reparação das doenças profissionais; A Convenção n.º 24 de 1927, no que respeita ao seguro de doença dos trabalhadores da indústria, do comércio e domésticos e a Convenção n.º 25 de 192, sobre seguro de doença dos trabalhadores agrícolas.10
Apuraram-se ainda outros instrumentos normativos comunitários que versam sobre a tutela dos infortúnios laborais, como a Carta Social Europeia que, no seu artigo 3.º, de epígrafe
“Direito à segurança e à higiene no trabalho”, prevê um plano de atuação a fim de melhorar a segurança e a higiene profissional, bem como, prevenir acidentes e danos decorrentes de um acidente de trabalho, implementando regulamentos destinados a esses fins e promovendo a implementação de serviços de medicina do trabalho.
4 PALMA RAMALHO, Maria do Rosário, Direito do Trabalho, Parte II – Situações Laborais Individuais, Almedina, 2010, p. 863.
5 ROMANO MARTINEZ, Pedro, Direito do Trabalho, 6.ª edição, Almedina, 2013, p. 768.
6 PALMA RAMALHO, Maria do Rosário, Direito do Trabalho, Parte II – Situações Laborais Individuais, Almedina, 2010, p. 863.
7 Aprovada para ratificação por Portugal pelo Decreto-Lei 42.874 de 15 de março de 1960.
8 Aprovada para ratificação por Portugal pelo Decreto-Lei 16.586 de 09 de março de 1929.
9 Aprovada para ratificação por Portugal pelo Decreto-Lei 16.587 de 09 de março de 1929.
10 PALMA RAMALHO, Maria do Rosário, Direito do Trabalho, Parte II – Situações Laborais Individuais, Almedina, 2010, p. 864.
5 Ainda neste sentido, atente-se no Pacto Internacional dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais, que no seu artigo 7.º, reconhece “(…) o direito de toda pessoa de gozar de condições de trabalho justas e favoráveis (…)”, nomeadamente, nos termos da alínea b), a segurança e a higiene do trabalho.
Também a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, no Título IV – Solidariedade, artigo 34.º, que tem como epígrafe “Segurança social e assistência social”, consagra o direito ao apoio no caso de acidente de trabalho.
Note-se ainda no Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia que definiu, segundo o disposto do seu artigo 153.º, que a União Europeia deve apoiar e complementar a ação dos Estados-Membros relativamente à implementação dos direitos à higiene e segurança dos trabalhadores.
Por fim, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, nos termos do seu artigo 25.º, garante o direito à segurança nas situações de, entre outras, doença e/ou invalidez.
1.1. Ordenamento jurídico português
À semelhança do sucedido em alguns países europeus, o ordenamento jurídico português partilhou da mesma preocupação em tutelar os acidentes de trabalho, merecendo a Lei n.º 83 de 24 de julho de 1913, especial destaque, por ser amplamente reconhecida como o primeiro diploma legal a estabelecer um verdadeiro regime jurídico sobre os acidentes de trabalho em Portugal. Até então, o regime dos acidentes de trabalho encontrava-se integrado no regime comum da responsabilidade civil aquiliana11, pelo que o ónus de provar a verificação de acidente caberia ao trabalhador e apenas cumpria reparação nos casos de culpa ou negligência do empregador12.
A Lei n.º 83 de 24 de julho de 1913 veio assim, alterar a génese do princípio da reparação dos infortúnios laborais, que já não seria mais a culpa do empregador, mas sim o risco associado
11 Veja-se o Título IV, Artigo 2398.º do Código de Seabra, onde se poderá ler: “Os emprehendedores, ou executores de edificações, quer proprietários, quer empreiteiros da obra, os donos de estabelecimentos industriaes, commerciaes ou agrícolas, e as companhias, ou indivíduos construtores de estradas e de caminhos de ferro, ou de outras obras publicas, bem como os empresários de viação por vapor, ou por qualquer outro systema de transporte, serão responsáveis, não só pelos damnos, ou prejuízos causados á propriedade alheia, mas também pelos accidentes, que, por culpa sua, ou de agentes seus, ocorrerem á pessoa de alguém, quer esses damnos procedam de factos, quer de omissão de factos, se os primeiros forem contrários aos regulamentos geraes, ou aos particulares de similhantes obras, industrias trabalhos, ou empresas, e os segundos exigidos pelos dictos regulamentos”.
12 PEREIRA, David Teles,Breve Síntese Histórica da Tutela dos Acidentes de Trabalho no Ordenamento Jurídico Português: O Seguro de Acidentes de Trabalho em Especial (1913-2000), Departamento de Política Regulatória e Relações Institucionais, p, 8.
6 à prestação de trabalho (teoria do risco profissional)13. De notar que esta nova teoria do risco profissional não foi uma inovação do legislador português, uma vez que já se encontrava consagra nas legislações especiais sobre acidentes de trabalho em outros países, como Inglaterra, França, Itália e Bélgica.
A Lei n.º 83 de 24 de julho de 1913 consagrou a responsabilidade do empregador por acidentes de trabalho sucedidos “por ocasião do serviço profissional e em virtude desse serviço”. Note-se que o artigo 17.º desta norma consagrava que “[q]uando se prove que o acidente foi dolosamente provocado pela vítima ou que esta se recusa a cumprir as prescrições clínicas do médico que a trate, deixarão ela e os seus representantes de ter direito a qualquer indemnização”. Assim, a responsabilidade do empregador pela reparação do acidente apenas era excluída por dolo do trabalhador e nas situações de força maior14.
Outra mudança implementada por este diploma legal, foi precisamente a obrigatoriedade das entidades empregadoras transferirem o risco infortunístico emergente de acidentes de trabalho para “sociedades mútuas de patrões ou companhias de seguros autorizadas e para associações de socorros mútuos pelas indemnizações e tratamento clínico devidos em caso de incapacidade temporária”, tornando-se, assim, indiretamente obrigatória a transferência da responsabilidade do empregador para outra entidade, conforme n.º 2 do artigo 13.º deste diploma. Caso não o fizessem, nos termos do disposto do artigo 11.º, a entidade empregadora teria de depositar na “Caixa Geral de Depósitos, à ordem do Conselho de Seguros, as reservas de que se tenham tornado responsáveis, em virtude de desastres que ocasionem a morte ou a incapacidade permanente de trabalhar”, o que colocaria em causa a liquidez de muitas indústrias15.
Em boa verdade, a obrigatoriedade na constituição de um seguro de acidentes de trabalho, apenas veio a ser consagrada de forma direta e explicita no Decreto n.º 5.637 de 10 de maio de 1919. No preâmbulo de tal decreto pode ler-se o seguinte: “O seguro social obrigatório contra desastres no trabalho fica sendo agora, também, um dos sólidos fundamentos em que tem de assentar o novo estado social criado pela República, para tornar menos tormentosa a vida dos
13 Como alerta DAVID TELES PEREIRA, em Síntese Histórica da Tutela dos Acidentes de Trabalho no Ordenamento Jurídico Português: O Seguro de Acidentes de Trabalho em Especial (1913-2000), Departamento de Política Regulatória e Relações Institucionais, p. 10, “apesar da Lei n.º 83 ter consagrado “a formulação mais restrita e elementar da teoria do risco profissional”, apenas o fez relativamente a um elenco de atividades restrito e taxativo, consagrado no próprio texto normativo”.
14 GOMES, Júlio Manuel Vieira, O Acidente de Trabalho – O acidente in itinere e a sua descaracterização, Coimbra Editora, 2013, pp. 47-48.
15 PEREIRA, David Teles, Breve Síntese Histórica da Tutela dos Acidentes de Trabalho no Ordenamento Jurídico Português: O Seguro de Acidentes de Trabalho em Especial (1913-2000), Departamento de Política Regulatória e Relações Institucionais, p. 12.
7 que só no trabalho intelectual ou no seu braço encontram a única garantia da manutenção da existência”. O artigo 1.º do mencionado Decreto vem consagrar a tal obrigatoriedade na constituição do “seguro social contra desastres no trabalho”, esclarecendo que o mesmo se aplica a todas as profissões e abrange todos os indivíduos ao serviço da entidade empregadora que “recebam salário, ordenado ou remuneração de qualquer ordem”. O conceito de “desastres no trabalho” é ampliado, passando a incluir “todos os casos de doenças profissionais devidamente comprovadas”, conforme parágrafo 3.º do artigo 3.º do Decreto em análise.
No entanto, DAVID TELES PEREIRA explica que a extensão do conceito às doenças profissionais, bem como a instituição da obrigatoriedade da constituição de seguro, ficaram apenas pelo plano teórico, não se tendo verificado na prática a aplicação de tais medidas16.
Posteriormente, a Lei n.º 83 foi substituída pela Lei n.º 1942 de 27 de julho de 1936, que veio consagrar a teoria do risco de autoridade, em detrimento da teoria do risco profissional, que até então vigorava17. Esta nova teoria focava-se na assunção do risco dos acidentes pela entidade empregadora nas tarefas realizadas a mando desta, ou no âmbito de tarefas das quais o trabalhador esperava um proveito económico18. Isto é, com esta lei a tutela relativa aos acidentes de trabalho passou a incluir as situações em que o trabalhador se encontrava sujeito à autoridade do empregador e não apenas enquanto desempenhava atos próprios da sua profissão19.
Acrescente-se ainda que a Lei n.º 1942, apesar de, como se viu, ampliar o conceito de acidente de trabalho, alargou igualmente as possibilidades de descaracterização do acidente (ainda que sem a designação de “descaracterização”). Conforme estatuído no artigo 2.º, os acidentes provocados (i) intencionalmente pelo sinistrado, (ii) por ato ou omissão do trabalhador de ordens expressas, (iii) por ofensas corporais voluntárias, (iv) por privação do uso da razão do trabalhador e (v) por casos de força maior, não se subsumiam ao conceito de acidente de trabalho.
Curiosamente, em consequência da não aplicação do previsto no Decreto n.º 5.637 de 10 de maio, relativamente à obrigatoriedade na constituição de seguro, a Lei n.º 1942 seguiu o
16 PEREIRA, David Teles, Breve Síntese Histórica da Tutela dos Acidentes de Trabalho no Ordenamento Jurídico Português: O Seguro de Acidentes de Trabalho em Especial (1913-2000), Departamento de Política Regulatória e Relações Institucionais, p. 14.
17 GOMES, Júlio Manuel Vieira, O Acidente de Trabalho – O acidente in itinere e a sua descaracterização, Coimbra Editora, 2013, p. 53.
18 PEREIRA, David Teles, Breve Síntese Histórica da Tutela dos Acidentes de Trabalho no Ordenamento Jurídico Português: O Seguro de Acidentes de Trabalho em Especial (1913-2000), Departamento de Política Regulatória e Relações Institucionais, p. 15.
19 GOMES, Júlio Manuel Vieira, O Acidente de Trabalho – O acidente in itinere e a sua descaracterização, Coimbra Editora, 2013, pp. 52-56.
8 consagrado inicialmente na Lei n.º 83, isto é, uma obrigatoriedade indireta na celebração do seguro (seguro voluntário)20.
Seguiu-se a Lei n.º 2127 de 03 de agosto de 196521 (Lei de bases do regime jurídico dos acidentes de trabalho), com três principais inovações22.
Primeiramente, (i) a determinação do conceito de acidente de trabalho: “É acidente de trabalho o acidente que se verifique no local e no tempo do trabalho e produza directa ou indirectamente lesão corporal, perturbação funcional ou doença de que resulte a morte ou redução na capacidade de trabalho ou de ganho”, conforme n.º 1 da Base V. A segunda inovação prendeu-se, conforme n.º 2 da mesma Base V – complementado pelo artigo 10.º do Decreto n.º 360/71 – com a (ii) ampliação do conceito de acidente como de trabalho, a algumas situações que se verificassem fora do local ou do tempo de trabalho, como por exemplo, os acidentes in itinere (alínea b) do n.º 2 da Base V). Por fim, realce-se a (iii) introdução do conceito de descaracterização do acidente, consagrado na Base VI deste diploma.
O Diploma em causa vigorou durante três décadas, tendo sido substituído pela Lei n.º 100/97, regulamentada pelo DL n.º 143/99 de 30 de abril. Apesar de a Lei n.º 100/97 instituir um novo regime jurídico, as suas semelhanças face à Lei n.º 2127 são bastante notórias. Esta Lei surgiu da necessidade de ajustar o regime que até então vigorava à nova realidade sócio- laboral, bem como à legislação complementar no âmbito das relações de trabalho, à jurisprudência e às convenções internacionais sobre a matéria. Várias foram as alterações com a entrada em vigor da presente lei, como a (i) consagração do cálculo de pensões com base no salário efetivamente auferido e reportado à Seguradora, (ii) o alargamento do conceito acidente in itinere, o qual passou a incluir as deslocações entre o local de trabalho e o de refeição, bem como os desvios ao trajeto habitual motivados por necessidades atendíveis do trabalhador, (iii) o alargamento do conceito de familiar a cargo para efeitos de acréscimo do valor da pensão anual e vitalícia paga por incapacidade permanente absoluta para todo e qualquer trabalho, (iv) a remição de pensões de valor reduzido e a (v) consideração da prestação da assistência psíquica23.
20 PEREIRA, David Teles, Breve Síntese Histórica da Tutela dos Acidentes de Trabalho no Ordenamento Jurídico Português: O Seguro de Acidentes de Trabalho em Especial (1913-2000), Departamento de Política Regulatória e Relações Institucionais, p. 17.
21 Esta Lei apenas entrou em vigor em 1971, uma vez que dependia da entrada em vigor do Decreto regulamentar n.º 360/71, de 21 de agosto, o que apenas se verificou em 19 de novembro de 1971.
22 PEREIRA, David Teles, Breve Síntese Histórica da Tutela dos Acidentes de Trabalho no Ordenamento Jurídico Português: O Seguro de Acidentes de Trabalho em Especial (1913-2000), Departamento de Política Regulatória e Relações Institucionais, pp, 18-19.
23 Conforme Preâmbulo do Decreto-Lei n.º 143/99, de 30 de abril.
9 Ainda no decorrer do ano de 1997, e conforme supra referido, a importância sobre esta matéria justificou a sua referência na Constituição, designadamente no artigo 59.º, n.º 1, alínea f), que consagra o direito à assistência e à justa reparação dos trabalhadores vítimas de acidente de trabalho ou doença profissional.24
Mais tarde, foi publicado o Código do Trabalho de 2003 (Lei n.º 99 de 27 de agosto de 2003), onde o legislador decidiu dedicar um capítulo autónomo aos acidentes de trabalho (capítulo V – artigos 281.º a 308.º). Porém, estas normas apenas teriam aplicação, após a entrada em vigor da legislação especial para a qual remetem, conforme disposto no n.º 2 do artigo 3.º do Código de Trabalho de 2003. Sucedeu que tal regulamentação não chegou a ser implementada, pelo que o capítulo dedicado aos acidentes de trabalho nunca chegou a entrar em vigor, mantendo-se, assim, em aplicação o regime da Lei n.º 100/97.25
Por fim, surge a Lei nº. 98/2009 de 4 de setembro, na época da revisão do Código de Trabalho em 2009, que constitui o atual regime jurídico atual dos acidentes de trabalho e doenças profissionais, e que veio revogar a Lei n.º 100/97. Esta Lei constituiu a legislação específica a que se refere o artigo 284.º do atual Código do Trabalho, focando-se em três grandes aspetos: Prevenção, Reparação e Reintegração. A Lei n.º Lei nº. 98/2009 procurou sistematizar e unificar as fontes sobre esta matéria, que se encontravam dispersas por normas regulamentares.
24 PALMA RAMALHO, Maria do Rosário, Direito do Trabalho, Parte II – Situações Laborais Individuais, Almedina, 2010, p. 865.
25 GOMES, Júlio Manuel Vieira, O Acidente de Trabalho – O acidente in itinere e a sua descaracterização, Coimbra Editora, 2013, p. 89.
10
11 Capítulo 2 – Regime jurídico dos Acidentes de Trabalho
2.1. Conceito de Acidente de Trabalho
No ordenamento jurídico português, o regime jurídico dos acidentes de trabalho, como se viu, encontra-se regulado nos artigos 283.º a 284.º do Código do Trabalho, que remetem para legislação especifica, mais concretamente a Lei n.º 98/2009 de 4 de setembro (com as alterações introduzidas pela Lei n.º 83/2021, de 06 de dezembro), que regula os acidentes de trabalho e doenças profissionais, e o Decreto-Lei n.º 142/99 de 30 de abril (com as alterações introduzidas pelo Decreto-Lei n.º 18/2016 de 13 de abril), que regula o Fundo de Acidentes de Trabalho26. Relativamente aos trabalhadores com vínculo laboral com a administração pública, no âmbito dos acidentes em serviço e doenças profissionais vigora a Lei n.º 19/2021 de 8 de abril (aprovada pelo Decreto-Lei n.º 503/99 de 20 de novembro).
Queda por expor a noção legal de acidente de trabalho.
Sob a epígrafe “conceito”, o artigo 8.º da Lei n.º 98/2009 consagra como acidente de trabalho aquele que “se verifique no local e no tempo de trabalho e produza directa ou indirectamente lesão corporal, perturbação funcional ou doença de que resulte redução na capacidade de trabalho ou de ganho ou a morte”. Pela leitura do preceito, compreende-se que, em bom rigor, o mesmo não apresenta uma verdadeira definição de acidente de trabalho, mas antes a indicação da conjugação de fatores que têm de se verificar para que determinado evento seja considerado acidente de trabalho. Assim, resulta desta norma, que o legislador relaciona a ocorrência do acidente com o local e o tempo de trabalho, bem como com a produção direta ou indireta de lesões corporais, perturbações funcionais ou doenças de que resulte a morte ou a redução na capacidade de trabalho ou de ganho.
Se numa primeira análise o preceito parece não levar grandes questões, cedo se apercebe que queda por esclarecer o que é, desde logo e em boa verdade, considerado um acidente, para efeitos de aplicação desta norma.
26 O Fundo de Acidentes de Trabalho, conforme consta no preâmbulo do Decreto-Lei 142/99, trata-se de um fundo, dotado de autonomia financeira e administrativa, no âmbito dos acidentes de trabalho. Em termos concretos, é através deste fundo, de cariz eminentemente social, que o Estado funciona como o garante das situações que o mercado segurador não contempla, como a atualização das pensões e a sua substituição face a uma entidade responsável que não consiga assumir o pagamento das prestações a que um determinado trabalhador tem direito no âmbito de um processo de acidente de trabalho, entre outras situações.
12 Note-se que a Lei n.º 2127 (Lei de bases do regime jurídico dos acidentes de trabalho), na Base V, definia que: “É acidente de trabalho o acidente que se verifique (…)”; no entanto, o atual artigo 8.º, a fim de não conter o definido na definição, consagra, como vimos, que é
“acidente de trabalho aquele que (…)”27. Assim, apesar da nova estrutura frásica, continua por esclarecer o que é considerado acidente, para efeitos do regime jurídico dos acidentes de trabalho.
No que concerne a este tema, tanto a doutrina como a jurisprudência têm vindo a esforçar- se para consagrar uma definição que, por um lado, preencha os requisitos da lei, e que por outro, não coloque em causa a aplicação prática do regime.
Doutrinariamente, foi ADRIEN SACHET, autor do Traité Theórique et Pratique de la Legialation sur les Accidents du Travail et les Maladies Professionelles, que avançou com uma definição de acidente de trabalho, que veio, mais tarde, influenciar a doutrina portuguesa. Para este autor, acidente de trabalho é o acontecimento anormal, em geral súbito, ou pelo menos de duração curta e limitada, que acarreta uma lesão à integridade ou à saúde do corpo humano28. Para MARIA DO ROSÁRIO PALMA RAMALHO, acidente de trabalho é o “evento súbito e imprevisto, ocorrido no local e no tempo de trabalho, que produz uma lesão corporal ou psíquica ao trabalhador que afecte a sua capacidade de ganho”29.
Segundo PEDRO ROMANO MARTINEZ, na esteira do entendimento perfilhado por CUNHA GONÇALVES e CARLOS ALEGRE, para determinado evento ser categorizado como acidente de trabalho terá de ser súbito, imprevisível e derivar de fatores externos30.
No que concerne a jurisprudência sobre este tema, a título ilustrativo, atente-se para o entendimento perfilhado no Acórdão do Tribunal da Relação de Guimarães de 04-10-2017, proferido no âmbito do processo 1942/16.7T8BRG.G1, no qual pode ler-se o seguinte: “É acidente de trabalho o evento súbito e imprevisto, que provoque lesão na saúde ou na integridade física do trabalhador, que ocorra no tempo e no local de trabalho, por causa do trabalho”.
27 A Lei n.º 83 ainda consagra uma definição mais polémica, ao consignar como acidente de trabalho, no n.º 1 do artigo 2.º, “toda a lesão externa ou interna e toda a perturbação nervosa ou psíquica (do corpo humano) que resulte de uma violência exterior súbita, produzida durante o exercício profissional”.
28 SACHET, ADRIEN, Traité Theórique et Pratique de la Legislation sur les Accidents du Travail el les Maladies Profissionelles, 6.ª edição, L. Tenin, Paris, 1921, cit apud MARIANA GONÇALVES DE LEMOS, Descaracterização dos Acidentes de Trabalho, Dissertação de Mestrado em Ciências Jurídicas Empresariais, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 2011, pp. 21-22.
29 PALMA RAMALHO, Maria do Rosário, Direito do Trabalho, Parte II – Situações Laborais Individuais, Almedina, 2010, p. 867.
30 ROMANO MARTINEZ, Pedro, Direito do Trabalho, 6.ª edição, Almedina, 2013, p. 773
13 Atente-se igualmente para o explanado no Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 13- 01-2010, proferido no âmbito do processo 1466/03.2TTPRT.S1, que ensina que a noção de acidente de trabalho reconduz-se a um “acontecimento súbito, de verificação inesperada e origem externa, que provoca directa ou indirectamente lesão corporal, perturbação funcional ou doença de que resulte a morte ou redução na capacidade de trabalho ou de ganho do trabalhador, encontrando-se este no local e no tempo de trabalho, ou nas situações em que é consagrada a extensão do conceito de acidente de trabalho”.
Analisados os elementos supra expostos, conclui-se que o conceito de acidente de trabalho pressupõe três características fundamentais, a saber: subitaneidade, causa externa, carácter lesivo31.
A primeira característica mencionada, a subitaneidade, prende-se com o facto de o acidente de trabalho ter de ser inesperado para o trabalhador, ou seja, a verificação de um acidente está diretamente interligada com a imprevisibilidade do mesmo. Mais a mais, dir-se-á, igualmente, que a ocorrência do acidente tem de se circunscrever a um momento temporal limitado – isto é, terá de se verificar num espaço curto de tempo –, apesar de, muitas vezes, as suas consequências perdurarem no tempo.
Relativamente à causa externa, MARIA BEATRIZ CARDOSO elucida que a lesão oriunda do acidente não tem de ser física em sentido estrito, podendo ser uma afeção nervosa, mental ou psíquica. No entanto, a sua causa terá de resultar no exterior do organismo do trabalhador, na medida em que, em caso contrário, estaríamos perante a manifestação de uma doença profissional, ao invés de um acidente de trabalho32.
Por fim, a terceira característica mencionada relaciona-se com o carácter lesivo dos acidentes de trabalho, ou seja, para existir um acidente de trabalho é necessário que o mesmo tenha produzido uma lesão no trabalhador, quer física, quer psíquica.
A título conclusivo, o artigo 8.º da Lei 98/2009 não veio consagrar uma definição expressa de acidente de trabalho, mas sim a enumeração de um conjunto de fatores que se têm de verificar para a existência de um acidente de trabalho.
Assim, suprindo esta lacuna, veio a jurisprudência oferecer uma definição de acidente de trabalho, como: “acontecimento súbito, de verificação inesperada e origem externa, que
31 ALEGRE, Carlos, Acidentes de trabalho e Doenças Profissionais, 2ª edição, Almedina. pp 34 e seguintes, cit.
apud Acórdão do Tribunal da Relação de Guimarães de 04-10-2017, relator Vera Sottomayor, proferido no âmbito do processo 1942/16.7T8BRG.G1.
32 CARDOSO, Maria Beatriz, O conceito de acidente de trabalho; Conexão com a relação laboral, Revista Portuguesa do Dano Corporal, dezembro 2015, p. 50.
14 provoca directa ou indirectamente lesão corporal, perturbação funcional ou doença de que resulte a morte ou redução na capacidade de trabalho ou de ganho do trabalhador, encontrando- se este no local e no tempo de trabalho, ou nas situações em que é consagrada a extensão do conceito de acidente de trabalho”33.
2.1.1. Conceito de Acidente de Trabalho em países europeus (o caso de Espanha, França e Itália)
Como vimos, em Portugal a noção de acidente de trabalho encontra-se consagrada no artigo 8.º da Lei n.º 98/2009. Também outros países consagraram no seu ordenamento jurídico o conceito de acidente de trabalho.
Primeiramente, importa expor que, em Portugal, as entidades responsáveis pela gestão do seguro de acidente de trabalho são de natureza privada (seguradoras), ao contrário dos restantes países europeus, que de forma geral integram o regime de reparação dos acidentes de trabalho no sistema de segurança social. Em Portugal, a segurança social apenas responde pelos danos no caso de doenças profissionais.
Vejamos o caso do nosso país vizinho, Espanha, que, no artigo 115 da Ley General de la Seguridad Social34, define acidente de trabalho como “Toda lesión corporal que el trabajador sufra con ocasión o por consecuencia del trabajo que ejecute por cuenta ajena”, isto é, é acidente de trabalho toda lesão corporal sofrida pelo trabalhador por ocasião ou por consequência do trabalho que exerce por conta de outrem. Quanto a esta definição apresentada no ordenamento jurídico espanhol, diga-se que, em boa verdade, também não estamos perante uma verdadeira definição, uma vez que o conceito é remetido para a lesão, ou seja, define-se a causa com o efeito. Importa igualmente notar que a própria definição aparentemente afasta, desde logo, este regime aos trabalhadores independentes.
Já França, que também integra o regime reparatório dos acidentes de trabalho no sistema de segurança social, estabelece como acidente de trabalho, segundo o livro 4 do Code de la Sécurité Sociale, no seu artigo L.411-1, “Est considéré comme accident du travail, quelle qu'en soit la cause, l'accident survenu par le fait ou à l'occasion du travail à toute personne salariée ou travaillant, à quelque titre ou en quelque lieu que ce soit, pour un ou plusieurs employeurs
33 Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 13-01-2010, relator Sousa Grandão, proferido no âmbito do processo 1466/03.2TTPRT.S1, disponível em www.dgsi.pt.
34 Ley General de la Seguradad Social, aprovada pelo Decreto Legislativo 8/2015, de 30 de octubre. Disponível em https://www.boe.es/eli/es/rdlg/2015/10/30/8/con
15 ou chefs d'entreprise”, isto é, é considerado como acidente de trabalho, o acidente que, independentemente da causa, do lugar e do tipo de trabalhador, ocorra por efeito ou por ocasião do trabalho. Face à amplitude da definição, coube à jurisprudência e doutrina francesa concretizar os exatos contornos para a verificação de um acidente. Assim, se esta situação, por um lado, permite um maior manuseamento da lei por parte dos tribunais a julgar casos concretos, por outro, vigora uma incerteza jurídica relativamente ao que se encontra realmente tutelado por este regime. Acrescente-se ainda que, à semelhança do regime jurídico português, além da proteção de trabalhadores por conta de outrem, os trabalhadores equiparados, sejam eles praticantes, aprendizes ou estagiários, encontram-se garantidos no regime de reparação de acidente de trabalho35.
No que concerne a Itália, em conformidade com o verificado em Espanha e França, a reparação de acidentes de trabalho também assenta num sistema de segurança social, porém, neste caso, mais concretamente, na subscrição de um seguro social obrigatório junto de uma instituição estatal, o INAL, l'Inail, l'Istituto Nazionale per gli Infortuni sulLavoro (Instituto Nacional de Acidentes de Trabalho). Por acidente de trabalho entende-se “(…) casi di infortunio avvenuti per causa violenta in occasione di lavoro, da cui sia derivata la morte o un'inabilita' permanente al lavoro, assoluta o parziale, ovvero un'inabilita' temporanea assoluta che importi l'astensione dal lavoro per piu' di tre giorni”, ou seja, os acidentes ocorridos por causas violentas no trabalho, com resultado em morte ou incapacidade permanente, absoluta ou parcial para o trabalho, ou incapacidade absoluta temporária com abstenção de trabalho superior a três dias. Analisado o preceito conclui-se que, em boa verdade, também este ordenamento jurídico não confere uma definição expressa de acidente de trabalho, sucumbindo o conceito a pressupostos de verificação do regime.
2.2. Elementos caracterizadores do Conceito de Acidente de Trabalho
Como se observou por tudo o já exposto até aqui, o artigo n.º 8 da Lei n.º 98/2009 não consagra uma definição expressa de acidente de trabalho, pelo que coube à doutrina e jurisprudência a desconstrução do conceito, tendo sido identificados três elementos de verificação cumulativa,
35 Em Portugal, tal previsão legal consta do n.º 3 do artigo 3.º da Lei 98/2009.
16 a saber: (i) elemento espacial, (ii) elemento temporal e (iii) elemento causal36|37. Vejamos, em detalhe, cada elemento.
2.2.1. Elemento Espacial
Para a determinação da existência de um acidente de trabalho, importa muito ter conhecimento do local onde ocorreu o acidente.
A Lei n.º 2127/65, consagrou, na primeira parte do n.º 3 da Base V, o local de trabalho como “toda a zona de laboração ou exploração da empresa”; isto é, segundo esta norma, para efeitos de ocorrência de acidentes de trabalho, o local de trabalho não se circunscrevia apenas ao posto em que o trabalhador prestasse as suas funções, mas sim, a todos os locais em que a empresa pudesse exercer o seu poder de direção e fiscalização direto perante o trabalhador.38
A Lei n.º 100/97 veio alterar esta designação, consagrando, n.º 3 do artigo 6.º, como local de trabalho “todo o lugar em que o trabalhador se encontra ou deva dirigir-se em virtude do seu trabalho e em que esteja, directa ou indirectamente, sujeito ao controlo do empregador”. Tal designação é a que consta atualmente na alínea a), do n.º 2 do artigo 8.º da Lei n.º 98/2009, não tendo sofrido qualquer tipo de alteração39.
Analisando os dois preceitos (o que constava anteriormente na Lei n.º 2127/65 e o que vigora atualmente), constata-se que existiu um alargamento do conceito de local de trabalho para efeitos de acidentes de trabalho. A Lei n.º 2127/65 definia “local de trabalho” de forma mais literal, isto é, circunscrevia literalmente ao local da empresa (ou exploração), ao passo que a redação atual não circunscreve o local de trabalho apenas ao lugar físico da empresa, mas sim
“a todo o lugar em que o trabalhador se encontra”, desde que esteja sujeito ao controlo direito
36 CARDOSO, Maria Beatriz, O conceito de acidente de trabalho; Conexão com a relação laboral, Revista Portuguesa do Dano Corporal, dezembro 2015, p. 52.
37 Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 07-05-2008, relator Mário Pereira, proferido no âmbito do processo 08S0148, disponível em www.dgsi.pt
38 ALEGRE, Carlos, Acidentes de trabalho e Doenças Profissionais, 2ª edição, Almedina. pp 34 e segs, cit apud MARIANA GONÇALVES DE LEMOS, Descaracterização dos Acidentes de Trabalho, Dissertação de Mestrado em Ciências Jurídicas Empresariais, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 201, p. 29.
39 Veja-se que a definição legal de local de trabalho, no domínio dos acidentes de trabalho, expressamente prevista na alínea a) do n.º 2 do artigo 8.º da Lei n.º 98/2009, é mais ampla do que a noção comum presente no artigo 193.º do Código do Trabalho, no qual se circunscreve o local de trabalho àquele que foi estipulado no contrato para o trabalhador para exercer a sua atividade. Esta ampliação tem origem na teoria do risco de autoridade, que analisaremos nos parágrafos seguintes.
17 ou indireto do empregador40. A título ilustrativo, imagine-se o caso de um trabalhador que, durante o horário de trabalho, se desloca a um outro local para assegurar presença em uma reunião em representação da sua entidade empregadora. Em caso de eventual acidente, claro se torna que, apesar de o mesmo não ocorrer no seu posto de trabalho, o acidente encontra-se coberto pela apólice de seguro de acidente de trabalho. O trabalhador em causa apenas se ausentou do seu posto de trabalho, por motivos relacionados com a realização da sua atividade, continuando a estar sujeito – indiretamente – ao controlo do empregador.
Assim, o conceito de acidente de trabalho encontra-se intrinsecamente relacionado com o critério do local da ocorrência do mesmo, conjugado com o critério de autoridade (controlo do empregador sobre o trabalhador)41.
No entanto, ressalve-se que no caso de acidentes ocorridos fora do local de trabalho importa averiguar se o mesmo decorreu de um ato da vida profissional ou da vida privada do trabalhador, uma vez que, neste último caso, compreensivelmente, não estaríamos no âmbito da aplicação do regime de acidentes de trabalho. De mais complexa análise, porém, são os casos de carácter misto, ou seja, os casos em que a vida particular do trabalhador se funde com a sua vida profissional. Atente-se para o caso infra:
O Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa de 24-10-200742, relatora Paula Sá Fernandes, proferido no âmbito do processo 5523/2007-4, disponível em www.dgsi.pt, julgou o caso, em que uma trabalhadora viajou de Lisboa para Amarante, para participar em uma reunião de trabalho, a fim de assegurar a distribuição de vinhos produzidos pela sua entidade empregadora.
Em consequência dessa reunião, pernoitou numa estalagem, onde, no dia seguinte, enquanto se preparava para a dita reunião, ao sair do banho tropeçou, tendo caído e sofrido uma lesão. Uma vez que não se encontrava ainda a laborar, mas sim em ato preparatório, a seguradora entendeu tratar-se de um “evento de natureza pessoal, ocorrido no âmbito da vida privada da sinistrada”.
O Tribunal de primeira instância qualificou este evento como acidente de trabalho. A seguradora recorreu da decisão. O Tribunal da Relação, para a decisão da causa, teve em consideração os factos supra expostos, bem como, a circunstância de no quarto onde a
40 O controlo direito decorre da típica relação laboral, na qual o trabalhador encontra-se sujeito ao poder de direção da sua entidade empregadora, ao passo que, o controlo indireto verifica-se, por exemplo, nos casos em que o trabalhador desempenha as suas funções fora da empresa, como as situações de teletrabalho e de vendedores externos – Cfr. ROMANO MARTINEZ, Pedro, Direito do Trabalho, 10.ª edição, Almedina, 2022, p. 858.
41 PALMA RAMALHO, Maria do Rosário, Direito do Trabalho, Parte II – Situações Laborais Individuais, Almedina, 2010, p. 874.
42 Apesar de o Acórdão escolhido ter sido proferido em data anterior à entrada em vigor da Lei atual (Lei n.º 98/2009), a essa data encontrava-se em vigor a Lei n.º 100/97, que, como se viu, continha a mesma definição de local de trabalho que vigora nos dias de hoje.
18 trabalhadora pernoitava, encontrar-se guardado material que seria necessário para a reunião do dia seguinte (brochuras, material de escritório e um retroprojetor), e ter competido à autora colocar essas brochuras no interior de pastas, que seriam distribuídas na reunião (o que fez no seu quarto na véspera do acidente).
Ora, o Tribunal da Relação seguiu o entendimento perfilhado na sentença em crise, tendo qualificado este evento como acidente de trabalho, uma vez que, no entendimento do Acórdão, o mesmo “resultou da relação de trabalho que ligava a sinistrada à sua entidade empregadora”.
No referido Acórdão ainda se pode ler que a sinistrada apenas se encontrava nesse local (estalagem em Amarante) por ordem, direção e sujeita ao controlo da entidade empregadora, com vista a um proveito económico desta última. Na ausência de instalações em Amarante, a entidade empregadora providenciou esse espaço aos trabalhadores, tendo, inclusivamente, incumbindo a trabalhadora de ser detentora de todo o material necessário para a reunião, tendo esta guardado tal material no seu quarto, por ser o único espaço disponível pela entidade empregadora como espaço e local de trabalho. Assim, entendeu o Tribunal da Relação que a trabalhadora “estava sob o poder conformativo da prestação do seu trabalho que lhe havia sido determinado pela sua entidade empregadora, ou seja, as circunstâncias de tempo e lugar em que aquela queda ocorreu não podem considerar-se independentes da sua missão profissional em Amarante naqueles dias”, (destaque nosso) qualificando-se, desta forma, o evento ocorrido como acidente de trabalho.
A decisão seguida pelo Tribunal da Relação socorreu-se do critério de autoridade que já abordámos; isto é, apesar de a trabalhadora não se encontrar no seu posto de trabalho, uma vez que estava sob a autoridade da sua entidade empregadora, tal evento foi qualificado como acidente de trabalho, encontrando-se, dessa forma, no entendimento do Tribunal da Relação, preenchido o elemento espacial da alínea a), do n.º 2 do artigo 8.º da Lei 98/2009 (no caso do Acórdão analisado, n.º 3 do artigo 6.º da Lei 100/97).
Ora, o caso não ficou por aqui, tendo a seguradora recorrido para o Supremo Tribunal de Justiça43. Ao contrário do Tribunal da Relação, este Tribunal não qualificou o evento em apreço como acidente de trabalho, na medida em que o acidente não ocorreu no local, nem no tempo de trabalho, consubstanciando-se, ao invés, num “acontecimento pertinente à vida privada da sinistrada (higiene pessoal), estranho à execução da missão profissional e ocorrido quando actuava com total independência relativamente à empregadora”. Acrescente-se ainda que para
43 Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, de 02-04-2008, relator Pinto Hespanhol, proferido no âmbito do processo 08S529, disponível em www.dgsi.pt.
19 o Supremo Tribunal, não foi considerada a circunstância de o material se encontrar guardado no quarto da trabalhadora, uma vez que o acidente não decorreu do uso de tal material, mas sim do facto de a trabalhadora se encontrar a sair do banho, não existindo, assim, no entender do Acórdão, qualquer risco genérico agravado sobre a generalidade das pessoas que procedem à sua higiene pessoal, imputado pelas condições da estalagem onde se encontrava hospedada.
Analisadas as duas decisões, e salvo melhor opinião, concorda-se com o entendimento perfilhado pelo Supremo Tribunal de Justiça, uma vez que o acidente ocorrido durante a execução de um serviço definido pela entidade empregadora, mas emergente de um ato de vida privada, em que o trabalhador já tenha recuperado a sua independência relativamente à prestação laboral, tal como sucedeu no caso analisado, não poderá ser qualificado como acidente de trabalho, por não se encontrarem preenchidos os elementos caracterizadores do mesmo.
Ainda sobre a temática do local de trabalho, importa mencionar a mais recente alteração legislativa à Lei n.º 98/2009, pela publicação da Lei 83/2021 de 06 de dezembro, que num esforço de se adaptar este regime à nova realidade laboral de muitas empresas imposta pela pandemia origina pela doença Covid-19, isto é, o teletrabalho, vem aditar ao artigo 8.º, n.º 2, a alínea c), a qual consagra que “No caso de teletrabalho ou trabalho à distância, considera-se local de trabalho aquele que conste do acordo de teletrabalho”. A análise desta alínea será aprofundada mais adiante; porém, dir-se-á desde já que sua a introdução se afigura essencial para o esclarecimento da definição de local de trabalho nas situações de teletrabalho.
2.2.2. Elemento Temporal
O elemento temporal subsume-se ao segundo critério essencial e delimitador do conceito de acidente de trabalho, nos termos da alínea b) do n.º 2 do artigo 8.º da Lei n.º 98/2009. Segundo esta norma é considerado tempo de trabalho, “além do período normal de trabalho o que precede o seu início, em actos de preparação ou com ele relacionados, e o que se lhe segue, em actos também com ele relacionados, e ainda as interrupções normais ou forçosas de trabalho”.
O conceito de tempo de trabalho não sofreu alterações de substância significativas relativamente às leis anteriores (n.º 3 da Base V da Lei n.º 2127/65, bem como n.º 4 do artigo 6.º da Lei n.º 100/97). A principal mudança prende-se com a alteração da denominação de
“período de laboração”, que se relacionava com o período de laboração da entidade
20 empregadora, para “período normal de trabalho”, termo utilizado no artigo 198.º do atual Código do Trabalho.
No entanto, analisado o teor do conceito de tempo de trabalho presente na Lei n.º 98/2009, dir-se-á que se trata de um conceito mais amplo do que o consagrado no artigo 198.º do Código do Trabalho, na medida em que não engloba apenas o período em que o trabalhador se obriga a prestar trabalho, mas também (i) atos preparatórios, (ii) os que se seguem ao seu término, (iii) os que se relacionem com a prestação de trabalho e (iv) interrupções normais ou forçosas de trabalho44. Assim, esta definição de tempo de trabalho consagrada na Lei n.º 98/2009 pretende, não só tutelar os acidentes que ocorram durante o período normal de trabalho, mas também aqueles que ocorram no âmbito de atividades que possam beneficiar a entidade empregadora.
Atente-se no caso presente no Acórdão do Tribunal da Relação do Porto, de 11-09-2017, relatora Paula Leal de Carvalho, proferido no âmbito do processo 62/15.6Y7PRT.P1, disponível em www.dgsi.pt, no qual, na parte que nos interessa para este tema, uma trabalhadora que se encontrava a desempenhar funções na área comercial da empresa, sentiu uma indisposição e, por esse motivo, interrompeu o seu trabalho e dirigiu-se à área administrativa para se restabelecer. Já nessa divisão, ao sentar-se, caiu e sofreu lesões ao nível do braço e costelas. O Tribunal da Relação, à semelhança da sentença proferida pelo Tribunal de 1.ª instância, veio considerar que o acidente ocorreu no tempo de trabalho, qualificando-o, assim, como acidente de trabalho. A fundamentação baseou-se no facto de que quando a trabalhadora se sentiu mal, encontrava-se no exercício das suas funções, e o circunstancialismo de as ter interrompido pelo motivo já explanado não exclui a verificação de acidente de trabalho no tempo de trabalho, uma vez que estamos perante “as interrupções forçosas de trabalho e, nos termos do CT [Código do Trabalho], as ocasionais determinadas pela necessidade de satisfação de necessidades pessoais e inadiáveis do trabalhador ou resultantes de consentimento do empregador”. Assim, a paragem da trabalhadora, a fim de se sentir melhor, consubstancia uma satisfação de uma necessidade inadiável, subsumindo-se esta situação à interrupção forçosa, prevista na parte final da alínea b) do n.º 2 do artigo 8.º da Lei 98/2009.
Torna-se claro que o Tribunal da Relação seguiu esse entendimento por considerar a interrupção da trabalhadora justificada pela satisfação de uma necessidade inadiável. Como
44 O Professor ROMANO MARTINEZ relaciona as interrupções normais com os intervalos de descanso previstos no artigo 213.º do Código do Trabalho, dando como exemplo a pausa para almoço. No que concerne às interrupções forçosas, a título exemplificativo, menciona as interrupções que decorrem de uma avaria de máquinas impossibilitando o trabalhador de continuar a desempenhar o seu trabalho. – Cfr. ROMANO MARTINEZ, Pedro, Direito do Trabalho, 10.ª edição, Almedina, 2022, p. 861.
21 refere ROMANO MARTINEZ, partilhando-se do mesmo entendimento que o autor, uma interrupção causada por um trabalhador, por exemplo, que se ausenta da empresa para ir comprar cigarros, não se enquadra na previsão legal da alínea b) do n.º 2 do artigo 8.º da Lei 98/2009, pelo que o eventual infortúnio ocorrido, não poderá qualificar-se como acidente de trabalho, uma vez que o trabalhador se encontra fora do controlo, direto e indireto, do empregador45.
2.2.3. Elemento Causal
Observando-se a letra do artigo 8.º da Lei n.º 98/2009 conclui-se que para a verificação de um acidente de trabalho deverá existir um nexo de causalidade entre o acidente e a “lesão corporal, perturbação funcional ou doença de que resulte redução na capacidade de trabalho ou de ganho ou a morte”.46
Assim, apesar de o nexo de causalidade constituir um elemento caracterizador do conceito de acidente de trabalho, o dano per si subsume-se a um pressuposto do dever de reparação47 imposto pelo regime jurídico dos acidentes de trabalho.
Segundo o entendimento de ROMANO MARTINEZ48 verifica-se, assim, uma delimitação do conceito de dano, na medida em que nem todo o prejuízo sofrido pelo trabalhador dá origem à responsabilidade civil por acidentes de trabalho. O autor refere-se a estes danos como “danos típicos”, uma vez que, os danos aqui tutelados, encontram-se tipificados taxativamente na Tabela Nacional de Incapacidades (artigo 20.º da Lei n.º 98/2009). Assim, as lesões que aí não se encontrem incluídas (pequenas lesões), mesmo que ocorridas no local e tempo de trabalho, não são consideradas como dano no âmbito da responsabilidade objetiva por acidentes de trabalho, e devem seguir, ao invés, o regime geral da responsabilidade civil aquiliana consagrado no artigo 483.º e seguintes do código Civil. Acrescenta, ainda, este autor que a responsabilidade por acidente de trabalho exige a verificação de uma causalidade adequada entre o acidente e o dano49.
45 ROMANO MARTINEZ, Pedro, Direito do Trabalho, 10.ª edição, Almedina, 2022, p. 862.
46 Este excerto do preceito não sofreu alterações desde as Leis anteriores (n.º 1 da Base V da Lei n.º 2127/65, bem como n.º 1 do artigo 6.º da Lei n.º 100/97).
47 O dever de reparação poderá comportar dois tipos de prestações: (i) prestação em espécie (alínea a) do artigo 23.º da Lei n.º 98/2009), como cuidados médicos, ajudas medicamentosas, entre outros, e (ii) prestação em dinheiro (alínea b) do artigo 23.º do mesmo preceito legal), que incluiu todas as indemnizações, prestações ou subsídios previstos neste regime.
48 ROMANO MARTINEZ, Pedro, Direito do Trabalho, 10.ª edição, Almedina, 2022, pp. 867 – 868.
49 Sobre o conceito de causalidade adequada, atente-se para o caso presente no (muito recente) Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa, de 12-10-2022, proferido no âmbito do processo 4513/09.0T2SNT-B-4, disponível
22 Para PALMA RAMALHO50, a fim de se verificar o dever de reparação por acidentes de trabalho, importa a existência de um duplo nexo de causalidade, entre (i) acidente e dano físico ou psíquico (a lesão, a perturbação funcional, a doença ou a morte), e entre (ii) este dano físico ou psíquico e o dano laboral (a redução ou a exclusão da capacidade de trabalho ou de ganho do trabalhador”. A falta de algum destes elementos que integram este duplo nexo de causalidade exclui o dever de reparação.
Ainda sobre esta temática, para MENEZES LEITÃO51 não se afigura necessário a verificação de um nexo de causalidade entre a prestação laboral e os danos, uma vez que a lei não o exige, mas sim entre o acidente e os danos. Nas palavras do autor, “a relação entre o acidente e a prestação de trabalho é uma relação diferente, de natureza etiológica, que se estabelece através da ocorrência do acidente no momento em que o trabalhador pratica atos relacionados à sua prestação de trabalho”.
Analisados estes três entendimentos, tendemos a não concordar com o entendimento perfilhado por MENEZES LEITÃO. Como exposto nas subsecções anteriores, a verificação de um acidente de trabalho pressupõe a presença de um elemento espacial e de um elemento temporal. No entanto, a verificação desses elementos comporta ainda a existência de uma adequada conexão com o acidente, bem como com a prestação laboral. Apesar de o artigo 8.º da Lei n.º 98/2009 não consagrar de forma expressa o nexo de causalidade entre acidente e relação laboral, o mesmo decorre intrinsecamente na natureza deste regime. Como já se explanou no capítulo anterior, atualmente o regime dos acidentes de trabalho assenta na teoria do risco de autoridade, pelo que se encontra tutelado o risco genérico relacionado com a autoridade do empregador perante o trabalhador, ou seja, o nexo de causalidade não se restringe apenas entre o acidente e a efetiva prestação de trabalho, devendo igualmente verificar-se entre o acidente e a relação laboral, tal como assim o vem confirmando a jurisprudência. Atente-se para o exposto no Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, de 16-09-2015, relator Mário Belo Morgado, proferido no âmbito do processo 112/09.5TBVP.L2.S1, disponível em www.dgsi.pt, nos termos do qual: “A verificação de um acidente de trabalho demanda a presença de um
em www.dgsi.pt, no qual consta que se encontra “subjacente ao nosso direito, muito concretamente a partir do disposto no Artº 563º do CC, a teoria da causalidade adequada da qual emerge que para que exista nexo de causalidade entre o facto e o dano não basta que o facto tenha sido em concreto causa do dano, em termos de conditio sine qua nom, sendo necessário que, em abstrato, seja também adequado a produzi-lo. E assim, será através de um juízo de prognose póstuma que se averiguará da adequação abstrata do facto à produção do dano, através de um juízo de previsibilidade.”
50 PALMA RAMALHO, Maria do Rosário, Direito do Trabalho, Parte II – Situações Laborais Individuais, Almedina, 2010, p. 877.
51 MENEZES LEITÃO, Luís Manuel Teles de, Direito do Trabalho, 6.ª edição, Almedina, 2019, p. 416.