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Capítulo 2 – Regime Jurídico dos Acidentes de Trabalho

2.2. Elementos caracterizadores do conceito de Acidente de Trabalho…

2.2.3. Elemento Causal

Observando-se a letra do artigo 8.º da Lei n.º 98/2009 conclui-se que para a verificação de um acidente de trabalho deverá existir um nexo de causalidade entre o acidente e a “lesão corporal, perturbação funcional ou doença de que resulte redução na capacidade de trabalho ou de ganho ou a morte”.46

Assim, apesar de o nexo de causalidade constituir um elemento caracterizador do conceito de acidente de trabalho, o dano per si subsume-se a um pressuposto do dever de reparação47 imposto pelo regime jurídico dos acidentes de trabalho.

Segundo o entendimento de ROMANO MARTINEZ48 verifica-se, assim, uma delimitação do conceito de dano, na medida em que nem todo o prejuízo sofrido pelo trabalhador dá origem à responsabilidade civil por acidentes de trabalho. O autor refere-se a estes danos como “danos típicos”, uma vez que, os danos aqui tutelados, encontram-se tipificados taxativamente na Tabela Nacional de Incapacidades (artigo 20.º da Lei n.º 98/2009). Assim, as lesões que aí não se encontrem incluídas (pequenas lesões), mesmo que ocorridas no local e tempo de trabalho, não são consideradas como dano no âmbito da responsabilidade objetiva por acidentes de trabalho, e devem seguir, ao invés, o regime geral da responsabilidade civil aquiliana consagrado no artigo 483.º e seguintes do código Civil. Acrescenta, ainda, este autor que a responsabilidade por acidente de trabalho exige a verificação de uma causalidade adequada entre o acidente e o dano49.

45 ROMANO MARTINEZ, Pedro, Direito do Trabalho, 10.ª edição, Almedina, 2022, p. 862.

46 Este excerto do preceito não sofreu alterações desde as Leis anteriores (n.º 1 da Base V da Lei n.º 2127/65, bem como n.º 1 do artigo 6.º da Lei n.º 100/97).

47 O dever de reparação poderá comportar dois tipos de prestações: (i) prestação em espécie (alínea a) do artigo 23.º da Lei n.º 98/2009), como cuidados médicos, ajudas medicamentosas, entre outros, e (ii) prestação em dinheiro (alínea b) do artigo 23.º do mesmo preceito legal), que incluiu todas as indemnizações, prestações ou subsídios previstos neste regime.

48 ROMANO MARTINEZ, Pedro, Direito do Trabalho, 10.ª edição, Almedina, 2022, pp. 867 – 868.

49 Sobre o conceito de causalidade adequada, atente-se para o caso presente no (muito recente) Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa, de 12-10-2022, proferido no âmbito do processo 4513/09.0T2SNT-B-4, disponível

22 Para PALMA RAMALHO50, a fim de se verificar o dever de reparação por acidentes de trabalho, importa a existência de um duplo nexo de causalidade, entre (i) acidente e dano físico ou psíquico (a lesão, a perturbação funcional, a doença ou a morte), e entre (ii) este dano físico ou psíquico e o dano laboral (a redução ou a exclusão da capacidade de trabalho ou de ganho do trabalhador”. A falta de algum destes elementos que integram este duplo nexo de causalidade exclui o dever de reparação.

Ainda sobre esta temática, para MENEZES LEITÃO51 não se afigura necessário a verificação de um nexo de causalidade entre a prestação laboral e os danos, uma vez que a lei não o exige, mas sim entre o acidente e os danos. Nas palavras do autor, “a relação entre o acidente e a prestação de trabalho é uma relação diferente, de natureza etiológica, que se estabelece através da ocorrência do acidente no momento em que o trabalhador pratica atos relacionados à sua prestação de trabalho”.

Analisados estes três entendimentos, tendemos a não concordar com o entendimento perfilhado por MENEZES LEITÃO. Como exposto nas subsecções anteriores, a verificação de um acidente de trabalho pressupõe a presença de um elemento espacial e de um elemento temporal. No entanto, a verificação desses elementos comporta ainda a existência de uma adequada conexão com o acidente, bem como com a prestação laboral. Apesar de o artigo 8.º da Lei n.º 98/2009 não consagrar de forma expressa o nexo de causalidade entre acidente e relação laboral, o mesmo decorre intrinsecamente na natureza deste regime. Como já se explanou no capítulo anterior, atualmente o regime dos acidentes de trabalho assenta na teoria do risco de autoridade, pelo que se encontra tutelado o risco genérico relacionado com a autoridade do empregador perante o trabalhador, ou seja, o nexo de causalidade não se restringe apenas entre o acidente e a efetiva prestação de trabalho, devendo igualmente verificar-se entre o acidente e a relação laboral, tal como assim o vem confirmando a jurisprudência. Atente-se para o exposto no Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, de 16-09-2015, relator Mário Belo Morgado, proferido no âmbito do processo 112/09.5TBVP.L2.S1, disponível em www.dgsi.pt, nos termos do qual: “A verificação de um acidente de trabalho demanda a presença de um

em www.dgsi.pt, no qual consta que se encontra “subjacente ao nosso direito, muito concretamente a partir do disposto no Artº 563º do CC, a teoria da causalidade adequada da qual emerge que para que exista nexo de causalidade entre o facto e o dano não basta que o facto tenha sido em concreto causa do dano, em termos de conditio sine qua nom, sendo necessário que, em abstrato, seja também adequado a produzi-lo. E assim, será através de um juízo de prognose póstuma que se averiguará da adequação abstrata do facto à produção do dano, através de um juízo de previsibilidade.”

50 PALMA RAMALHO, Maria do Rosário, Direito do Trabalho, Parte II – Situações Laborais Individuais, Almedina, 2010, p. 877.

51 MENEZES LEITÃO, Luís Manuel Teles de, Direito do Trabalho, 6.ª edição, Almedina, 2019, p. 416.

23 elemento espacial (em regra, o local de trabalho) e de um elemento temporal (que em regra se reconduz ao tempo de trabalho) que expressem uma adequada conexão com a prestação laboral (...) a menos que se demonstrem factos que claramente demonstrem que o acidente ocorreu à margem da autoridade patronal”.

Observe-se ainda o caso presente no Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa, de 19-10-2011, relatora Paula Sá Fernandes, proferido no âmbito do processo 128/8.9TBHRT.L1-4, disponível em www.dgsi.pt, no qual uma trabalhadora, no local e tempo de trabalho, acabou por falecer por asfixia provocada por uma pastilha elástica presa na sua orofaringe. O resultado da autópsia demonstrou que a asfixia foi a única causa da morte, não tendo sido encontrada mais nenhum motivo que justificasse tal infortúnio. Para a decisão da causa ainda foi tido em consideração que a tarefa desempenhada pela trabalhadora (funcionária de escritório) não exigia esforços cardio-respiratórios. Desta forma, a questão que se suscitava, e que teria de ser decidida pelo Tribunal da Relação, relacionava-se com a subsunção, ou não, dos factos expostos ao conceito de acidente de trabalho. Ora, o acidente ocorreu em tempo e local de trabalho, pelo que o elemento espacial, bem como o temporal, encontram-se preenchidos, residindo a dúvida quanto ao elemento causal. Entre outras considerações, para a decisão da causa, o Tribunal da Relação teve em consideração que a causa da morte da trabalhadora, que se deveu à circunstância de a mesma ter engolido inadvertidamente uma pastilha elástica, não se trata de

“algo exterior à vítima com ligações ao trabalho prestado”, verificando-se, assim, apenas uma relação relativamente aos elementos espácio-temporais, mas não quanto ao nexo de causalidade entre acidente e prestação laboral – “trata-se de um acto voluntário da mesma – mascar a pastilha – imputável à vida corrente, e sem qualquer relação com a actividade desempenhada pela falecida ao serviço da ré, não correspondendo por isso a qualquer risco potenciado pela sua actividade profissional ou pelas suas condições de trabalho”. Desta forma, o Tribunal da Relação decidiu pela não qualificação do acidente como de trabalho, o que tendemos a concordar52.

Por tudo o exposto, a nosso ver, em boa verdade, poderá falar-se que o conceito de acidente de trabalho comporta um triplo nexo de causalidade: um nexo entre (i) o acidente e a relação laboral, (ii) o acidente e a lesão (iii) e entre a lesão e a incapacidade ou morte. Apenas com a

52 Seguindo, igualmente, este entendimento, veja-se, a título ilustrativo, os casos presentes no Acórdão do Tribunal da Relação do Porto, de 28-05-2007, relator Ferreira da Costa, proferido no âmbito do processo 0711446 e no Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, de 14-04-2010, relator Sousa Grandão, proferido no âmbito do processo 459/05.0TTVCT.S1, ambos disponíveis em www.dgsi.pt.

24 verificação do primeiro nexo enunciado é que poderemos estar perante um acidente de trabalho, reportando-se os seguintes ao surgimento do direito à reparação dos danos emergentes.

2.2.3.1. A Presunção de Causalidade

Importa ainda destacar a principal especificidade do instituto do nexo de causalidade em sede de acidentes de trabalho: a presunção53 de causalidade. O n.º 1 do artigo 10.º da Lei n.º 98/2009 consagra uma presunção de causalidade, significando isto que, verificada que seja uma lesão no tempo e local de trabalho (ou, ainda, nas situações previstas na extensão do conceito de acidente de trabalho que veremos no tópico seguinte) esta presume-se como decorrente do evento causador dessa lesão. Porém, tal não desonera do ónus de provar (i) a verificação do acidente de trabalho54 e (ii) que de tal lesão resultou a redução da capacidade de trabalho ou de ganho, ou a morte do trabalhador55, libertando, apenas, da necessidade de se efetuar prova do nexo de causalidade entre o acidente e a lesão em causa. Como apontado por ROMANO MARTINEZ, não se está perante uma presunção da existência do acidente, mas sim de uma presunção de que existe nexo causal entre o acidente e a lesão ocorrida56.

Nos casos em que se verifique tal presunção, compete ao empregador, em caso de desacordo, provar a falta de nexo causal. Porém, o n.º 2 do mesmo preceito legal inverte o ónus da prova nos casos em que a lesão não se tenha manifestado imediatamente a seguir ao acidente, cabendo, nestes casos, ao trabalhador (ou aos seus beneficiários) provar o nexo de causalidade entre a lesão e o acidente. Ressalva-se, contudo, que a presunção não passa de uma ilação que o legislador tira de um facto desconhecido. Assim, apesar de nos casos do n.º 1 do artigo 10.º da Lei n.º 98/2009 o trabalhador não ter de fazer prova para se presumir que a lesão decorreu

53 Segundo o artigo 349.º do Código Civil, entende-se por presunção “as ilações que a lei ou o julgador tira de um facto conhecido para firmar um facto desconhecido”. Completando o n.º 1 do artigo seguinte que: “Quem tem a seu favor a presunção legal escusa de provar o facto a que ela conduz”.

54 Atente-se para o Acórdão do Tribunal da Relação do Porto, de 30-05-2018, relator Rita Romeira, proferido no âmbito do processo 1718/16.1T8MTS.P1, disponível em www.dgsi.pt, que explica: “Não se tendo apurado a causa da lesão que o sinistrado apresenta não pode ter-se por verificada a ocorrência de um acidente de trabalho, nos termos definidos no art. 8º da LAT. A presunção que decorre do art.10º da LAT é uma presunção de nexo de causalidade e não uma presunção de existência do evento”.

55 Veja-se o Acórdão do Tribunal da Relação do Porto, de 17-01-2022, relator Nelson Fernandes, proferido no âmbito do processo 2157/17.2T8MTS.P1, disponível em www.dgsi.pt, no qual se lê: “Não se encontra estabelecida no artigo 10.º, n.º 1, da Lei n.º 98/2009, de 4 de Setembro, qualquer presunção da existência do acidente, mas antes uma presunção de que existe nexo causal entre o acidente e a lesão ocorrida, sendo que, sabendo-se que a reparação dos danos emergentes dos acidentes de trabalho exige a demonstração de um duplo nexo causal, entre o acidente e o dano físico ou psíquico (a lesão, a perturbação funcional, a doença ou a morte) e entre este e o dano laboral (a redução ou a exclusão da capacidade de trabalho ou de ganho do trabalhador), a mesma presunção também não abrange esta segunda relação de causalidade, incumbindo ao sinistrado ou seus beneficiários a sua demonstração”.

56 ROMANO MARTINEZ, Pedro, Direito do Trabalho, 10.ª edição, Almedina, 2022, p. 868.

25 do acidente, a verdade é que a presunção pode ser ilidida mediante prova em contrário (n.º 2 do artigo 350.º do Código Civil).

Diga-se, ainda, que a presunção relativa ao nexo de causalidade não se trata de uma novidade da Lei n.º 98/2009, encontrando-se referência a esta matéria na Lei n.º 2127/65.

Porém, nesse diploma legal, a presunção encontrava-se integrada na Base que se respeitava ao conceito de acidente de trabalho (n.º 4 da Base V), não merecendo destaque autónomo, apesar de a sua aplicação, em termos práticos, se aproximar bastante ao que hoje se encontra consagrado. A mesma fórmula foi aplicada na Lei n.º 100/97, tendo-se integrado, igualmente, a matéria da presunção de causalidade no artigo referente ao conceito de acidente de trabalho (n.º 5 e 6 do artigo 6.º). Este preceito legal veio consagrar de forma expressa a inversão do ónus da prova nos casos em que a lesão se manifesta em um momento temporal posterior à ocorrência do acidente, que, como se viu, cabe ao sinistrado ou aos beneficiários.

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