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Ara inédita a Júpiter Optimo Máximo

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Academic year: 2022

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Ara inédita a Júpiter Optimo Máximo Autor(es): Plácido, Luís

Publicado por: Imprensa da Universidade de Coimbra URL

persistente: http://hdl.handle.net/10316.2/45758

DOI: https://dx.doi.org/10.14195/1647-8657_17_5 Accessed : 28-Oct-2022 21:44:28

digitalis.uc.pt impactum.uc.pt

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Luís Pl á c i d o

ARA INÉDITA A JUPITER ÓPTIMO MÁXIMO

«Conimbriga» (Coimbra), XVII, 1978, p. 55-58.

Re s u m o: Na Capela da Senhora da Estrela, freguesia de Enguias, concelho de Belmonte, encontra-se uma pequena ara consagrada a Júpiter Óptimo Máximo por Gaio Júlio Rufino, provavelmente um indí­

gena romanizado de fresca data.

Ré s u m é: Dans une petite église près de Belmonte se trouve, inédit, un

autel consacré à Jupiter Optimus Maximus. Le dédiant, Gaius Julius Rufinus appartient probablement à une famille indigène dont la romanization ne doit pas remonter très loin.

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ARA INÉDITA A JÚPITER ÓPTIMO MÁXIMO

Quem, da povoação de Enguias, sede da freguesia do mesmo nome, concelho de Belmonte, seguir a estrada para o lugar de Trigais encontra, muito próximo do ramal para Olas, um pequeno caminho à sua direita, que conduz à Capela da Senhora da Estrêla.

Há alguns anos, ao ser mudada a posição do altar da capela, apareceu, dentro do mesmo e servindo-lhe de suporte, uma «pedra com letras», até então viradas para a parede. A pedra continua na capela, mas agora com a função de peanha da imagem ali venerada.

Trata-se de uma ara dedicada a Júpiter, em granito amare­

lado de grão fino. A parte frontal da cornija, que deverá ter sido igual à das restantes faces do monumento, como acontece na base, foi toscamente cortada, o mesmo acontecendo à parte superior, onde foi cavado um buraco rectangular, descentrado e oblíquo em relação às faces e medindo cerca de 7 X 8 cm, com a profundidade de 9,5 cm. Dada a função de suporte do altar, que na parte restante era de madeira, pensamos que a mutilação terá tido por objecto a adaptação da ara àquela função. Com ela terá desaparecido toda a parte superior do monumento. Na mesma altura terá sido cavado o buraco já referido, cuja finalidade não podemos descortinar.

A inscrição ocupa toda a face frontal do fuste.

Dimensões: altura — 124 cm; largura — na cornija 52 cm

— no soco 50 cm; espessura — na cornija 40 cm — no fuste 35 cm — na base 52 cm. Campo epigráfico: 67 x 38 cm.

Conimbriga, 17 (1978), 55-58

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L. plácido, Ara inédita a Júpiter Optimo Máximo 57

IOVI. O(ptimo). M(aximo) / G(aíiw)- IVLIVS / RVFINVS / / G(aii). IVLI(¿) / 5RVFI. F(ilius) / W(otum). S(olvit). A(nimo).

L (ibens).

Gaio Júlio Rufino, filho de Gaio Júlio Rufo, de boa mente cumpriu o seu voto a Júpiter Óptimo Máximo.

A altura das letras é sensivelmente constante em todas as linhas, oscilando entre 7,5 e 8,5 cm.

Espaços — 1: 2,5; 2 a 5: 2; 6: 2,5 e 7: 6 cm.

As letras, do tipo capital actuário, com incisão em bisel, denotam um bom lapicida. Notem-se o G com haste superior;

os M, N e V com as linhas oblíquas ligeiramente ondeadas; o R em que a «cauda» não toca a haste vertical; o L da linha 4 com a haste horizontal inclinada para baixo; o A sem travessão e os pequenos travessões nos vértices das letras.

O campo epigráfico foi bem ocupado, com o alinhamento de todas as linhas à esquerda e em dois grupos de três à direita.

Os epítetos Óptimo e Máximo encontram-se abreviados, como é de uso. Na linha 4, o I final de IVLI representa II, como também não é raro (*).

Pela existência dos «tria nomina», verifica-se que o dedicante e seu pai poderão ser cidadãos romanos ou, mais provavelmente, indígenas romanizados de fresca data, uma vez que, contrariamente ao comum, se indicam os três nomes do pai (2). De salientar, igualmente, que o nome do filho, Rufino, se forma a partir do do pai, Rufo (3). Todos os nomes são muito vulgares. Aparece mesmo, em Olisipo, um Gaio Júlio Rufo (4), o qual só por casualidade terá alguma coisa a ver com o que aqui nos surge.

Esta ara é mais um documento do culto a Júpiter Óptimo Máximo na Hispânia romana, inserindo-se numa área militari-

H CIL II p. 1187-8.

(2) Para outros exemplos de filiação com os «tria nomina» ver: depois do cognome — GIL II 934, 4201; após o gentilicio — idem p. 1200.

(3) Sobre a transmissão dos nomes ver Cagnat, R., Cours d’épigraphie latine, 4.a ed. Paris 1914, p. 67-72.

(4) CIL II, 227.

Conimbriga, 17 (1978), 55-58

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58 L. plácido, Ara inédita a Júpiter Optimo Máximo

zada (a de Egitânia), onde tais monumentos são mais frequentes (5), dado o carácter guerreiro deste deus. Trata-se de um culto nacional, de apego a Roma, ao qual aderem pessoas de todas as classes e que se propaga em estreita ligação com a urbanização e o munici- palismo, atingindo o seu apogeu no séc. n d.C. (6).

Luís Plácido

(5) Al a r c ã o, J., Portugal Romano, Lisboa 1974, p. 159.

(6) Sobre o culto de Júpiter Óptimo Máximo, ver também Pe e t e r s, F., Le cuite de Jupiter en Espagne d'aprés les inscriptions, «Revue Beige de Philo- logie», XVIII, 1938, p. 853-885 e Le Ro u x, P., e Tr a n o y, A., Rome et les indigenes dans le nord-ouest de la Péninsule Ibérique. Problèmes d'épigraphie et d'histoire, «Mélanges de la Casa de Velazquez», IX, 1973, p. 217-222.

Agradecemos ao Dr. José d’Encarnação todo o apoio que nos prestou na elaboração deste trabalho.

Conimbriga, 17 (1978), 55-58

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Referências

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