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IV. Turismo em Cabo Verde

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Academic year: 2021

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ÍNDICE

INTRODUÇÃO ... 1

I – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA E METODOLÓGICA ... 3

1.FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ... 3

2. FUNDAMENTAÇÃO METODOLÓGICA ... 5

II. LOCALIZAÇÃO GEOGRÁFICA E MEIO NATURAL ... 7

2.1.AS OFERTAS GEOGRÁFICA E NATURAL ... 7

III. ANTECEDENTES HISTÓRICOS ...10

3.1.DESCOBERTA E POVOAMENTO DE RIBEIRA GRANDE ...10

3.2.PARTICIPAÇÃO DE RIBEIRA GRANDE NO COMÉRCIO INTERNACIONAL ...14

3.3.RIBEIRA GRANDE BERÇO DA SOCIEDADE CABO-VERDIANA ...16

IV. TURISMO EM CABO VERDE ...19

4.1.ASPECTOS GERAIS ...19

4.2.OPAPEL DAS INSTITUIÇÕES POLÍTICAS E ADMINISTRATIVAS ...21

4.3.POTENCIALIDADES TURÍSTICAS DA CIDADE VELHA ...23

4.3.1.TURISMO DO MAR ...23

4.3.2.TURISMO DE CAMPO E DE MONTANHA ...25

4.3.3.TURISMO CULTURAL E RELIGIOSO ...27

4.3.3.1.CONSIDERAÇÕES GERAIS ...27

4.3.3.2.OS MONUMENTOS HISTÓRICOS ...29

4.3.3.3.AS FESTIVIDADES DE ROMARIAS ...33

4.3.3.4.AARTE ...34

4.3.3.4.1.AGASTRONOMIA ...35

4.3.3.4.2ARTESANATO ...37

A)APANARIA CABO-VERDIANA ...37

B)ACERÂMICA ...39

C)ACESTARIA ...39

D)AESTEIRA ...40

E)AMÚSICA DE CABO VERDE...41

V. O TURISMO E OS SECTORES ECONÓMICOS ...51

5.1.OTURISMO E O SECTOR PRIMÁRIO ...51

5.1.1.AGRICULTURA,PECUÁRIA,SILVICULTURA ...51

5.1.2.APESCA ...54

5.2.OTURISMO E O SECTOR SECUNDÁRIO ...56

5.3.OTURISMO E O SECTOR TERCIÁRIO ...58

VI. A PROCURA E OS FLUXOS TURÍSTICOS...65

VII. CONSTRANGIMENTOS AO DESENVOLVIMENTO DO TURISMO NA CIDADE VELHA ...68

7.1. RECOMENDAÇÕES COM VISTA À SUPERAÇÃO DOS CONSTRANGIMENTOS ...72

CONCLUSÃO ...79

BIBLIOGRAFIA ...81

ANEXOS...85

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INTRODUÇÃO

O objectivo deste trabalho não é preservar a memória e nem relembrar o passado. É contribuir para que se tenha uma nova visão em relação à Cidade Velha, hoje Cidade de Santiago, como potencial turístico, fazendo com que as pessoas vejam através das rochas, das águas cristalinas do mar, do sol, do solo agreste, do horizonte montanhoso, dos vales, das encostas; das muralhas antigas e dos sorrisos das suas gentes, atractivos turísticos de grande dimensão a desabrochar.

Numa perspectiva histórica e tomando como suporte teórico a corrente inscrita na denominada História Actual ou Imediata defendida pela História Nova, pretendemos que este nosso contributo tenha uma perspectiva actualizante, virada para o futuro.

Tendo em conta que o turismo é um sector económico em constante valorização e crescimento no mundo inteiro, não podemos deixar de considerar as ideologias já produzidas pelos doutos como a forma mais correcta de enquadrar o nosso trabalho.

Apesar da diversidade de opiniões, começamos pela definição de alguns conceitos cuja versão achamos mais adequada às características da Cidade Velha como potencial área para o desenvolvimento turístico.

O meio ambiente é um factor imprescindível para o desenvolvimento do turismo.

Assim sendo quisemos demonstrar que o espaço ambiental da Cidade Velha constitui oferta turística muito importante que deve-se preservar, proteger e potencializar. Mas, falar do ambiente como recurso natural inclui o homem que não se valoriza sem a sua obra. Daí que o legado histórico que nos foi deixado obriga-nos a recuar no tempo desde os primórdios da descoberta, do povoamento e colonização para que o homem cabo-verdiano possa ser identificado e, desta forma, analisar o contributo que a Cidade de Ribeira Grande

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deu para o surgimento e evolução do mesmo e da sociedade cabo-verdiana e, ao mesmo tempo, sugerir propostas de melhorias para que este legado histórico seja potencializado como uma oferta turística.

As condições ambientais, geográficas, históricas, económicas e sociais nos persuadem a propor o desenvolvimento dos seguintes tipos de turismo: Turismo do Mar, Turismo do Campo e da Montanha, Turismo Cultural e Religioso.

Considerando o carácter interdisciplinar deste sector económico somos obrigados a correlacioná-lo com outras actividades económicas dos mais diversos sectores existentes.

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I – Fundamentação Teórica e Metodológica

1. Fundamentação Teórica

O turismo pode ser considerado uma deslocação de pessoas para lugares fora do seu local normal de trabalho e residência e todas as actividades desenvolvidas durante a sua estadia que possibilitam ou viabilizam viagens, hospedagem, alimentação e lazeres às pessoas que se deslocam de suas residências para satisfazer os seus interesses e objectivos vários.

Segundo a opinião de Douglas Foster2 o turismo é uma actividade que envolve uma mistura complexa de elementos materiais e psicológicos. Os elementos materiais são o alojamento, o transporte, as atracções e diversões disponíveis e os factores psicológicos incluem um largo espectro de atitudes e expectativas

Roberto C. Boullon, ao responder a questão Turismo é uma Ciência? Chegou a seguinte conclusão:

”Sem pesquisa não pode haver ciência. E a pesquisa turística é escassa e se mantém na superfície. Nada se opõe a que se aceite o turismo como um fenómeno socio-económico se transferirmos este critério ao campo do planejamento, temos que reconhecer a necessidade de estudar aquele com uma visão interdisciplinar; que poderia incluir a economia, a engenharia, a arquitectura, o urbanismo, o desenho urbano, o marketing, a administração dos recursos humanos, as matemáticas, a estatística, as ciências da comunicação, a contabilidade, a administração pública, e comercial etc., como disciplinas auxiliares. (.)

2 FOSTERS, Douglas. Viagens e Turismo - Manuel de Gestão. Portugal. Edições CETOP. Apartado 72726. Mem Martins Codex.1992

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Turismo não é ciência pois não emprega nenhum método próprio, mas exige conhecimentos científicos de diversas áreas.”3

O turismo não se enquadra no sector primário pois mesmo utilizando os atractivos naturais, não os extrai e nem os produz; não pertence ao sector secundário porque não é um produto de indústria e de construção. A construção produz obra física que presta serviços sociais e económicos. A indústria é uma actividade transformadora que utiliza numerosos recursos, entre os quais matéria-prima e, outros produtos industriais intermediários.

“É uma actividade económica pertencente ao sector terciário e consiste em um conjunto de serviços que se vendem ao turista. Ditos serviços estão necessariamente interrelacionados, de maneira que a ausência de um deles obstaculiza e até impede a venda ou prestação de todos os outros. Tem, além disso, uma característica muito peculiar que só é possível produzi-la em locais geográficos rigidamente predeterminados aos quais leva-se o turista, ainda que a sua venda possa realizar-se no lugar de produção ou fora dele, isto é, no ponto da origem da demanda.

A diferença do habitual, em turismo não se realiza uma distribuição física do produto pois o consumidor é quem viaja até o local de produção”4.

O produto turístico é composto de bens e serviços diversificados e essencialmente relacionado entre si, tanto em razão da sua integração com vistas ao atendimento da demanda quanto pelo factor de unir os sectores primário, secundário e terciário de produção económica.

3Universidade Católica de Pernambuco. Terminologia do Turismo brasileiro. Pernambuco, SL.1996.ps.13,14

4 Idem, Op.cit. ps.19, 20

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2. Fundamentação Metodológica

Para a realização deste trabalho utilizaremos o método de investigação científica aplicável na elaboração da História:

Pesquisa dos documentos dos arquivos;

Pesquisas das fontes monumentais e arqueológicas que constituem ofertas turísticas;

Entrevistas com entidades competentes e com o sector privado;

Propomos a observação do espaço físico para a elaboração de inventário das atracções e recursos turísticos naturais, culturais e patrimoniais da região, investigação e análise documental; análise da situação das infra-estruturas existentes, análise e avaliação da situação e das necessidades dos recursos humanos em turismo existentes em cabo Verde;

análise dos possíveis impactos no ambiente natural e humanizado, fazendo recomendações para a conservação e o reforço da qualidade ambiental; identificação das oportunidades para utilização de circuitos pedonais e outras utilizações das regiões do interior do concelho para o turismo ligado à natureza; análise dos dados estatísticos; elaboração da síntese tendo sempre presente o sentido crítico. Tendo em conta a temática, a nossa visão será sempre em perspectiva.

O espaço geográfico e o meio ambiente constituem ofertas turísticas imprescindíveis e indiciem os tipos de turismo que se possam desenvolver. Daí que vamos iniciar o estudo pela Localização Geográfica e Meio Ambiente da Cidade Velha como potencial oferta para o desenvolvimento do turismo em Cabo Verde e daí definir as prioridades.

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Figura 1:Mapa da ilha de Santiago

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II. Localização Geográfica e Meio Natural

2.1. As Ofertas Geográfica e Natural

A sua construção iniciou-se na segunda metade do sec. XV logo após à descoberta em 1460.

Devido à sua posição geoestratégica, a meio caminho entre o continente africano, a Europa, as Américas e o Oriente, cedo começou a desempenhar o papel de placa giratória no comércio triangular e como porto de escala, fornecendo aos navios frescos e água. Estes factores contribuíram para que a Ribeira Grande se transformasse rapidamente num centro comercial de certa projecção e, em 1533, ter sido levado à categoria de cidade.

A superfície decretada património nacional é de 50 hectares e a área

total de

protecção é de 250 hectares. É uma área semi- urbana

distribuída em zonas e lugares:

Figura 2:Parte de Cidade velha onde se encontra inserido a Sé catedral.

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Laranjeira, Rua Banana, Rua Calhau, São Braz, São Sebastião, S. Marta, Sucupira, Rua Careira, Lem Cachorro, Beco, Porto Baixo. Elegemos ainda para o nosso trabalho, como espaço de expansão de cidade e do desenvolvimento a freguesia do Santíssimo Nome de Jesus: Calabaceira, João Varela, Djobe, Bota Rama, Ponta Baixo, Salineiro, Costa Achada Calheta, Calheta S. Martinho, Costa Achada; zonas e lugares que pertencem à freguesia de S.

João Baptista: Beatriz Pereira, Alfarroba, Lém Bá Sá, Belém, Calabaceira, Chã Chatinho, Julangue, Lém Freire, Mato, Mato Sanches, Tambarina, Tanque/Chão de Tanque, Lém Esprinda, Chã de Igreja, Chã Gonçalves, Delgado, Gouveia, Loura, Cancelo, Dacabalaio, Dirres, Hortelão, Loura, Chã de Abelha, Pizarra, Campanária, Mosquito de Horta, Achadinha, Montinho, Redondeira, Curral, Mosquito Grande, Pico Leão, Bataria, Chã de Riba, Chã Grande, Cutelinho, Cutelo Cabral, Furna, Galego, Laranginha, Monte Branco, Ponta Romão, Rochinha, S. João Riba, Areal, Chuva Chove, Cutelo Moreira.

As achadas áridas, as florestas, a temperatura do ar, o vento que sopra das montanhas húmidas e a brisa marítima conferem ao ambiente uma beleza paisagística exótica; orla costeira, as encostas, os fiordes, os desfiladeiros, as praias e enseadas constituem elementos de atracção turística que podem ser transformados em oferta. Mas é preciso ter cuidado para não destruir a biodiversidade e pôr em causa o ecossistema da região. Para evitar tal situação há que haver estudos que orientem a ocupação dos territórios para exploração dessas riquezas turísticas e deve haver uma forte e contínua acção educativa e formativa que envolve toda a comunidade residente e turistas na preservação do ambiente.

Além do vale da Ribeira Grande, os espaços verdes são escassos. Tem uma grande importância ecológica e grande valor estético-paisagístico e desempenham função de espaço de recreio e lazer. Não há um plano do município para criação de espaço verde.

O solo é um outro elemento imprescindível dado a múltiplas funções e usos. Na condição de espaço tem de ser ordenado e para tal, primeiramente, tem de constituir objecto de estudo e depois definido como suporte de actividades económicas diversas.

A Cidade Velha possui, no fundo do vale terras férteis muito boas para o desenvolvimento das actividades agro-pecuárias que vêm sendo desenvolvidas desde o início da colonização e que podem ser potencializada.

A água é a vida, assim sendo é indispensável como factor do desenvolvimento de tudo na natureza. Ela é obtida através de galerias subterrâneas, furos e poderia ser adquirida por

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meio de destilação da água do mar, construção de diques e depósitos de retenção, correcção dos solos, lagos artificiais, barragens etc.

O mar, de água transparente, cristalina e tépida durante o ano é um dos principais factores do desenvolvimento turístico. Para além das pequenas praias de arreia preta e calhau rolado, os turistas podem desfrutar da beleza da costa escarpada, dos desfiladeiros e fiordes e ainda serve como via de transporte e comunicação com a capital e com as mais diversas zonas de interesse turístico; para os desportos náuticos, pesca desportiva, etc.

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III. Antecedentes Históricos

3.1. Descoberta e Povoamento de Ribeira Grande

Inferir sobre a descoberta e povoamento de Ribeira Grande é relembrar os primórdios da Historia de Cabo Verde, o início da formação da sociedade cabo-verdiana e da cultura crioula, germe da Cabo-verdianidade.

Segundo rezam os documentos, sem descartar hipóteses de ter sido conhecido antes, todos os descobridores oficialmente reconhecidos e os pressupostos afirmaram que cabo Verde foi descoberto antes da morte do Infante D. Henrique, 1460.

“Sam Jacobo, e Filipe, e da ilha de las Maias e (da) ilha de Sam Cristóvão, e da ilha liana, assim aparecem mencionadas, pela primeira vez, em documento de doação régia ao infante D. Fernando datada de 3 de Dezembro de 1460. (...) A doação seria confirmada por outra carta de 19 de Setembro de 1462, (...) atribuindo-se a sua descoberta a António da Noli”5

Na primeira ilha a ser povoada, S. Tiago, foram instituídas duas capitanias: António da Noli recebeu a Capitania do Sul que funcionou com sede na ribeira Grande; Diogo Afonso recebeu a Capitania do Norte cuja sede foi instalada nos alcatrazes e as ilhas de Maio e Boavista. Os dois donatários foram honrados com prémio de mérito das descobertas pela Carta de Doação de 1462, ostentando todos poderes. As únicas restrições impostas aos donatários referem-se a alçada sobre o crime de morte ou talhamento de membros. Ficaram também com a incumbência de povoar e promover o desenvolvimento económico da ilha.

5 VÁRIOS. História Geral de Cabo Verde, Praia-Lisboa, Instituto de Investigação Científica Tropical -Direcção Geral Do Património Cultural De Cabo Verde.1991, Vol. I p.10.

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Mas os incentivos não foram suficientes para atiçar os interesses dos europeus ávidos de riquezas e dado à distância da Coroa ausência de recursos minerais; intempéries do clima e não adaptação das plantas que lhes serviam de base de sobrevivência, não quiseram vir. Para contrariar essa tendência dado que as comunidades rurais não se sentiram motivados nesta aventura, a coroa adoptou uma outra estratégia: concedendo aos futuros potenciais moradores a oportunidade de poderem usufruir de abastados lucros através da exploração comercial com a costa d’África numa época em que se revelava muito rentável tanto para os portugueses como para os africanos tendo em consideração as diferenças entre a oferta e procura e valores entre os dois mercados tão distante na época. Tal oportunidade foi oficialmente concedida pela Carta régia de 1466 nestes termos:

“outrossy nos praz e lhe outorgamos que os moradores da dita ylha que daquy em diamte pera sempre ajam e tenhã liçença pera que lhes pruuver poderem hyr com navios a trautar e reguatar em todollos nossos trautos das partes de Guynee reseruando desto o nosso trato d’Arguym honde nom queremos que outrem possam trautar nem fazer outra alguuua cousa em o dito trauto com suas demarcações, senão quem nós quisermos e por bem teuermos, por nossa liçença e lugar, todallas mercadorias que elles ditos moradores da dita ylha tiuerem e quiserem leuar, salvo armas e farrementas, navios e aparelhos deles,(...)”.6 Como se pode deduzir do extracto citado, aos moradores foram concedidos largos privilégios de poderem comercializar livremente na costa africana, podendo levar todas espécies de mercadorias, salvo armas e ferramentas, navios e aparelhos que constituíam mercadorias de defesa do Rei e que só poderiam ser utilizado mediante a sua autorização.

As mercadorias resgatadas poderiam ser comercializadas livremente depois de pagos um quarto sobre o resgate.

A Carta Régia constituía um trunfo para os povoadores de S. Tiago. O resgate, neste período constitua monopólio real, o sistema utilizado era o da exploração directa, aos vassalos era interdito. Assim sendo a localização, as isenções fiscais, a prioridade concedida colocava a ilha de Santiago em vantagem em relação às outras regiões do reino. Sendo o objectivo central dos mercadores de então era de atingir a costa africana, quem estivesse em São Tiago estaria mais bem localizado para realizar poupanças nos custos de transportes, tempo, alimentação e ainda correria menos riscos que alguém residente na ilha da Madeira, Açores e no reino.

A carta de 1466 impulsionou e incrementou uma imigração de mercadores e armadores que instalaram na Ribeira Grande acompanhados de funcionários régios: tributadores,

6ALBURQUEQUE, Luís & SANTOS, Maria Emília Madeira e outros. História Geral de Cabo Verde, Corpo Documental.Vol.I.p.20.Lisboa. Instituto de Investigação Científica Tropical - Direcção Geral Do Património Cultural De Cabo Verde.1989

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escrivães, almoxarifes e recebedores. Mas a mesma frustrou um pouco o objectivo e a tentativa de povoar Santiago tendo em conta que os primeiros povoadores se instalaram utilizando Ribeira Grande apenas como porto de escala entreposto para as suas relações comerciais com a costa d’ África e Portugal.

Como regularizador do processo, o Rei interfira sempre que houvesse conflitos entre os mercadores que disputavam zonas preferenciais. Essa situação agravou-se com a mudança no processo de exploração.

Em 1469 D. Afonso V arrendou, ao Fernão Gomes o direito de exploração da região de Serra Leoa, por um período de cinco anos, em troca de 200.000 reais (cf. Correia e Silva, 2004:27) ficando o mesmo com a incumbência de descobrir cem léguas da costa anualmente.

Essa medida deveu-se à incapacidade financeira do Rei em continuar com o sistema de exploração directa e à concorrência de certos países europeus que se mostravam interessados neste comércio.

O conflito entre os moradores e o arrendatário, por ser o segundo nobre, obrigou o Rei a tomar medidas restritivas em relação à carta de 1466. Em 1472 o rei redigiu uma carta limitando as acções mercantis dos moradores na costa africana pondo em causa a essência da carta de privilégios de 1460.

Sentindo-se ameaçado nos seus interesses pela concorrência que os moradores vinham fazendo, o rei resolveu com a referida carta limitar o poder comercial dos moradores e ao mesmo tempo incrementar o povoamento da ilha.

“Nós outorgamos ao Infante d. Fernando meu irmão, que deus aja, numa carta de privilégio, franquezas e liberdades e merces para moradores da sua ylha de Santiago que he junto com Cabo Verde, nas partes do mar oceano, por se a dita ylha, por causo dello milhore mays asinha povoar (.) o capitam moradores da dita ylha pera sempre outras nenhuas mercadorias mandar resgatar, por bem da dita nossa carta, senõn aquelas que eles das suas novydades e colheitas da dita ouverem: porque estas taes somente queremos e mandamos que lá possam levar se quiserem e outras alguas nam” 7

É mais que evidente que limitar as mercadorias a ser utilizados pelos moradores, proibir a comercialização de parceria com estrangeiros, estaria a coroa a «matar dois coelhos com uma cajadada»: evitar a concorrência tanto dos moradores como dos estrangeiros e ao mesmo tempo obrigar a produzir as suas próprias mercadorias se pretendessem continuar a usufruir dos privilégios que lhes foram concedidos.

7Idem, Op. cit . p. 25

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Ainda que for de boa intenção as medidas agravaram profundamente a acção dos moradores que viram privados de conseguir o financiamento externo e de mercadorias para troca directa. Pois a capacidade produtiva dos moradores condicionada por falta de meios financeira, condições naturais da ilha, distância da metrópole, deficiência dos meios de transporte e comunicação, era limitada nesse momento.

Aos moradores restavam duas hipóteses: obedecer o espírito da carta e perecer;

desobedecer e continuar as suas actividades mercantis sofrendo represálias.

Com determinação os moradores assumiram a segunda hipótese e foram designados de

«lançados ou tangomaos», alvo a bater por ter desobedecido à Coroa. Por outro lado incrementou – se uma economia baseado no sector primário mas virado para o comércio. Por não haver mão- de - obra suficiente recorreu se aos escravos negros da costa africana.

Ao mencionarmos os moradores, referimo-nos aos primeiros povoadores brancos que se instalaram em Santiago. Será que não havia já comunidades residentes antes da chegada dos europeus? É uma questão polémica cuja afirmação e refutação advém de dois grupos de historiadores: os historiadores portugueses negam a possibilidades de as ilhas serem povoadas antes da chegadas dos europeus e os historiadores africanos e sobretudo os mais conceituados cabo-verdianos acreditam na hipótese de as ilhas serem povoadas por uma comunidade negra, ainda que pouco influente na estrutura social cabo-verdiana. O principal problema tem a ver com a escassez da documentação e documentação pouco esclarecedora. O que não se pode negar é que a sociedade cabo-verdiana tenha a sua origem no cruzamento entre brancos e negros de várias etnias que se fixaram já no sec. XV na Ribeira Grande, mais tarde Cidade Velha. Contamos abordar essa questão mais adiante.

Os moradores de Ribeira Grande, pelas razões já apontadas, logo no início, interessou-se pelo o tráfico de escravos e pela posição que Ribeira grande ocupa, passou a servi como porto de escala para os navios que aportavam ao seu porto e de interposto comercial na costa d’

Àfrica Ocidental.

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3. 2. Participação de Ribeira Grande no Comércio Internacional

O comércio internacional começou-se a incrementar a partir do sec. XII com o advento do período de paz na Europa, as inovações introduzidas na agricultura e transporte, incremento do comércio e o desenvolvimento e crescimento urbano. A proliferação dos centros urbanos promoveu o desenvolvimento de uma economia de mercado com intensificação das trocas comerciais, surgimentos de mercados, feiras, associações de mercadores, melhorias dos transporte terrestres e marítimos, a necessidade dos instrumentos de pagamentos e de troca. Foi precisamente neste período que a Europa restabelece o comércio com o extremo oriente, servindo-se do Mediterrâneo, ao mesmo tempo que, através dos movimentos das cruzadas, disputa aos muçulmanos a posse de territórios no próximo oriente. Foi ainda nos finais do sec. XIII que, com toda probabilidade, se saiu do Mediterrâneo para o Atlântico, através do Estreito de Gibraltar, permitindo a ligação da Itália à Flandres por via marítima que até aí se fazia por terra. Essa não alternativa teve a continuidade no sec. XIV por causa da grande crise em que a Europa se emergiu, rareando o ouro, a prata, os cereais, matérias-primas e mão-de-obra.

No sec. XV, a economia europeia reanima-se as carências acima citadas aumentaram-se.

A solução seria o alargamento do comércio internacional, o contacto directo com as fontes fornecedoras dos recursos necessários ao desenvolvimento.

Várias tentativas levadas ao cabo pelos italianos, espanhóis, Marco Pólo, chineses, Ibn Batuta, nos sécs. XIII e XIV, não contribuíram para melhorar o relativo conhecimento da costa ocidental africana e do Oceano Atlântico Sul.

A iniciativa coube a Portugal que conquistou Ceuta em 1415, seguido de viagens pelo Oceano Atlântico, colonizou os Açores e Madeira; estabeleceu relações comerciais com a costa africana e descobriu e colonizou o arquipélago de cabo Verde (1460); dobrou cabo de Boa Esperança 1487-88, descobriu o caminho para a Índia, (1498), iniciou a exploração comercial da Índia; chegou e colonização do Brasil (1500). Deu-se, deste modo, a expansão do comércio internacional, arranque do comércio triangular e do comércio colonial.

É nesta encruzilhada do comércio Triangular, colonial e internacional que Cabo verde começou a desempenhar o seu papel como ponto de escala e entreposto comercial. Pois o oceano Atlântico deixou de ser fronteira entre os continentes para passar a ser elo de ligação

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importantíssimo e obrigatório e o valor geo-estratégico de Cabo Verde passou a constituir um elemento atractivo concorrencial para os países europeus cuja economia se encontrava em plena expansão procurando explorar comercialmente o mercado africano, as Índias Orientais e Ocidentais.

“A importância do porto de Ribeira Grande é meio sec. após o início do povoamento, bem vincada pelos oficiais da Câmara, os quais, em carta endereçada ao poder central, em 1512,afirmam que ele é «grande escala para os navios e naus da Sua Alteza e assim para os navios de S. Tomé e ilha do Príncipe e para os navios que vão do Brasil e da Mina e todas as partes da Guiné”8

É neste contexto que Ribeira Grande ganhou importância no comércio transatlântico, intercontinental, triangular e a concorrência fez crescer a Cidade Velha. Aparecem formas concentradas de habitat, infra-estrutura administrativas; serviços fiscais, sanitários, judiciais económicos ligados ao transporte, industrias artesanais; sofrendo um crescimento rápido em termos demográfico. A sociedade diversifica-se reestrutura-se, albergando no seu seio uma grande heterogeneidade social assente na multiplicidade de origens geográficas e étnicas com modos de vida diversificados: funcionários, mercadores, artesãos, contrabandistas, marinheiros, aventureiros prostitutas, mendigos etc. Ribeira Grande torna-se cosmopolita.

Por se tornar atractivo o sector terciário, ainda que por pouco tempo, conheceu um certo crescimento: cobrança de impostos vários (imposto de importação, exportação, reexportação, baldeação, depósito, ancoragem, etc.) ou através de prestação de serviços de abastecimento alimentar, reparações navais, fornecimento de água. Isso devido a imigração definitiva e sazonal de mercadores estrangeiros trazendo consigo mercadorias diversas. Os lucros advenientes do comércio funcionaram como impute para o investimento na urbanização da cidade: construção de ruas, estrada, fortalezas, igrejas, edifícios administrativos, etc.

A importância geo-estratégica de Cabo Verde mantêm-se. Se outrora a conjuntura internacional fez crescer a sua importância, hoje, mais de que nunca, a conjuntura actual fará crescer ainda mais a sua importância. Pois Cabo-Verde continua na rota do Atlântico quer por via marítima quer por via aérea, mas torna-se necessário criar condições preferenciais. De entre as preferências destaca-se o turismo. Pois a História terá grande influência no seu desenvolvimento.

8 Vários. História Geral de Cabo Verde, ps.133-134

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3.3. Ribeira Grande Berço da Sociedade Cabo-Verdiana

Ribeira Grande foi o primeiro espaço escolhido pelos portugueses para instalarem-se e dar continuidade ao grande projecto comercial: a procura de mercados e o controle das rotas das Índias. Daí a criação do primeiro embrião social com a fixação de homens brancos de negócios condenados a cruzar-se com as escravas negra trazidas da costa d’África Ocidental.

A escolha de Ribeira Grande tem a ver com as condições ponderadas pelos primeiros visitantes, segundo reza os documentos credibilisados até então:

“Haver ali água corrente em abundância (razão porque tomou esse nome) e um razoável porto de mar mesmo junto à desembocadura da Ribeira Grande, em cujas margens o primeiro povoado iria emergir. Por ser muito fértil, uma agricultura de subsistência para o agregado populacional podia, pelo menos, ser montada ali com relativo sucesso. Para os tão necessários contactos comerciais com exterior havia o porto, que, apesar das suas pequenas dimensões e de ser traiçoeiro em determinadas épocas do ano, satisfazia as necessidades dos moradores”.9

Para além dos alentejanos e algarvios, participaram no povoamento, a ilha da Madeira com um número significativo, espanhóis, franceses ingleses holandeses, flamengos, genoveses, sevilhanos, açorianos e, mais tarde, japoneses, alemães e coreanos. Os brancos nobres, armadores camponeses e degredados, em Cabo Verde, de acordo com a relação que mantinham com os meios de produção subdividiam-se em quatro grupos fundamentais:

Os donatários, senhores do poderio económico, latifundiários com poder absoluto cujos poderes diminuir-se-ão com os agentes administrativos nomeados mais tarde pelo próprio Rei, entre os quais: inquiridor, corregedores, Capitão Geral nomeado para as ilhas de Cabo Verde e Guiné-Bissau; e um Capitão Governador;

Os morgados, senhores das terras, dos escravos;

Os colonos que recebiam as terras em regimes de sesmarias; degredados por motivos vários;

9Vários. História Geral de Cabo Verde. Op. Cit.p. pág.

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Os rendeiros – (contratantes ou proprietários) que arrendavam à Coroa, o direito de explorar ou de tirar benefícios do comércio entre Cabo Verde e as regiões da costa da Guiné.

Para solucionar o problema de falta de mão obra, recorreu-se à importação de escravos negros da costa ocidental d’ África, para trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar, produção de algodão, tecelagem de panos, criação de gado e como escravos domésticos ou de «quintal».

Grande parte dos contingentes de escravos, uns catequizados e ladinizados, eram reexportados, para as Antilhas.

A costa ocidental d’África forneceu, segundo a maior parte dos historiadores, uma grande percentagem de escravos que foram utilizados no povoamento de Cabo Verde. De entre os participantes Senna Barcelos, António Carreira, e P. António Brásio citam:

mandingas, balantas, bijagós, felupes, beafadas, papeis, quissis, Brâmes, banhuns, fulas, jalofos, bambará, bololas, manjacos, etc.

Os europeus, por constituírem um grupo com estatuto superior, tinham como missão orientar e enquadrar os escravos; dirigir os trabalhos, impor as normas e disciplinas, ensinar ofícios.

O escravo era empregado na lavoura, no pastoreio, no apanho do algodão, da tinta e da urzela; nas tarefas domésticas, como tecelão, etc.

Dada a escassez de documentos, pouco se sabe da formação de classes sociais antes do sec. XVIII. Mas tudo leva-nos crer que, nos meados do séc. XV, já se adivinhava uma estrutura social estratificada baseada na relação social de produção entre senhores esclavagistas e escravos.

É um período de apogeu de Ribeira Grande se tivermos em consideração o equilíbrio produção/população, ou que o número de habitantes é ainda reduzido e por haver intensa actividade comercial provocou um certo desafogo económico a determinados grupos sociais.

“Neste período Ribeira Grande vive de facto os seus momentos de fausto, o que é sugerido não só pela documentação apontada mas também pela opulência (...) de algumas construções então projectadas ali. Referimo-nos à Sé Catedral, ao Paço Episcopal, e à Igreja da Misericórdia”.10

O referido desafogo influenciou muito a formação da primeira estrutura social em Cabo Verde se tivermos em conta que os primeiros moradores foram comerciantes e armadores com liberdade e privilégios de poderem fazer o comércio na costa de África Ocidental. Só com a

10Idem. p . 138

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Carta de Restrição de Privilégios de 1472 é que se iniciou a colonização com a fixação do homem na terra criando deste modo uma nova relação de produção (proprietários /escravos e proprietários /camponeses). E daí a formação já no sec. XV de uma sociedade com uma estrutura esclavagista e semi-feudal.

Pouco tempo depois do povoamento de Santiago e Fogo, dá-se o cruzamento dos homens brancos e escravas negras, devido ao facto de haver nas ilhas um número reduzido de mulheres brancas e a condição de escravas das mulheres negras tornavam-nas frágeis e expostas aos homens brancos.

Mas o período áureo terminou na segunda metade do sec. XVI, com a intensificação de uma forte concorrência estrangeira, sobretudo a desencadeada pela Inglaterra que começou a afirmar-se como maior potência mundial, tendo em conta o desenvolvimento das suas manufacturas. Assim a Coroa e os moradores sentiram-se lesados nos seus interesses e não revelaram capacidade para a inversão da situação, tendo em consideração a diversificação das mercadorias utilizadas pelos franceses, holandeses e ingleses. A situação agravou-se muito mais com os sucessivos ataques levados a cabo pelos piratas dos referidos países;

excessiva vulnerabilidade e especialização da sua economia que não resistiram à perda do monopólio comercial da costa de África; o abandono a que foi legado durante o governo dos reis Filipes de Espanha em Portugal; as secas e fomes que provocaram a fuga e a mortes dos moradores brancos e a fixação da população no interior da ilha de Santiago; transferência da sede do governo e da diocese para Praia; a perda definitiva da sua importância comercial, política, militar e religiosa.

Assim sendo, Ribeira Grande perde a sua importância geoestratégica como porto de escala devido a insegurança e os navios passaram a operar directamente no continente africano para aprovisionar-se de escravos, contribuindo para a diminuição das receitas cobradas.

O colapso económico e financeiro irá reflectir-se profundamente na estrutura social ora iniciada com a redução dos fluxos dos colonos e contratadores e armadores e dos escravos trazidos do continente africano. Ribeira Grande torna-se Cidade Velha.

Acreditamos que, com aquisição da autonomia económica, financeira e administrativa, o desenvolvimento do turismo contribuirão para que a Ribeira Grande venha assumir um novo papel como roteiro das mais variadas culturas e nações ligadas ao turismo.

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IV. Turismo em Cabo Verde

4.1. Aspectos Gerais

Em Cabo Verde, de modo geral são consideradas atracções turísticas: sol, praia, mar, montanha e cultura. Assim sendo, podem ser consideradas atracções turísticas as cadeias montanhosas, as escarpas rochosas, os fiordes, a escassa vegetação, pássaros e plantas indígenas, parques e reservas naturais, vistas panorâmicas, zonas vulcânicas, microclimas de altitudes

Segundo estudos elaborados pelo PROMEX, Cabo Verde tem sido procurado como destino turístico, sobretudo a partir de 1996. Contudo, o investimento estrangeiro, o melhoramento das infra-estruturas e das condições de acolhimento apontam para um futuro promissor para o turismo.

De acordo com os dados fornecidos pela referida instituição a entrada de turistas estrangeiros em Cabo Verde triplicou de 1990 a 2000, com cerca de 21. 695 e 145. 076 visitantes. O tempo médio de permanência no país é de 8 dias.

Os últimos dados fornecidos pelo Instituto Nacional de Estatística referente às entradas e dormidas nas estalagens nacionais revelam:

Quadro nº 1. Evolução de Hóspedes e Dormidas de 2000 a 2004

2000 2001 2002 2003 2004

Hóspedes 145.076 162.095 152.032 178.379 185.276

Dormidas 684.733 805.924 693.658 902.873 867.665

Fonte: INE NE

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Nota-se um contínuo crescimento com uma ligeira queda nas entradas dos hóspedes e dormidas no ano de 2002. Entre 2003 e 2004 a taxa de crescimento em relação a hospedagem, é de 3,9% e de dormidas é de -3,9%.

A partir de 2000, o crescimento em termos de entradas e dormidas reduziu em relação a década de 90.

Os hóspedes entrados nos estabelecimentos hoteleiros são 185.276 e as dormidas totalizam 868.665 apresentando um crescimento de 4% de entradas em relação ao ano de 2003 e de -4% de dormidas em relação ao mesmo ano.

As ilhas com maiores entradas foram: Ilha do Sal: 685.198 visitantes e taxa de ocupação 47% no 1º trimestre e 45% no segundo semestre; Santiago, 80.830 visitantes e taxa de ocupação 28% no 1º semestre e de 32% no 2º trimestre; S. Vicente, 52.507 visitantes e taxa de ocupação 23% e 21% no 2º semestre; Boavista, 24.669 visitantes e taxa de ocupação 42% e 44% no 2º semestre.

Em relação às infra-estruturas hoteleiras, segundo os dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística, entre 1999 e 2004, os estabelecimentos aumentaram de 79 para108, com capacidade de 3150 quartos, 5804 camas, tendo um crescimento de 2,9% de 2003 a 2004; contrastando com 1825 quartos e 3.165 camas de 1999. Destes, 24% fica na ilha de Santiago; 22% no Sal , 15% em S. Vicente e 15% em S. Antão.

Quadro nº 2: EVOLUÇÃO DOS ESTABELECIMENTOS, CAPACIDADE E PESSOAL AO SERVIÇO

1999 2000 2001 2002 2003 2004 Tx. Crescimento

(2003/2004)

Estabelecimentos 79 88 88 93 105 108 2,9%

Nº de Quartos 1.825 2.391 2.489 2.820 3.146 3.150 0,1%

Nº de Camas 3.165 4.475 4.628 5.159 5.715 5.804 1,6%

Capacidade de Alojamento

3.874 5.249 5.450 6.062 6.682 6.749 1,0%

Pessoal ao Serviço 1.561 1.845 2.046 2.043 2.281 2.165 -5,1%

Fonte: Instituto Nacional de Estatística

Como se pode notar, a oferta hoteleira tem crescido muito, nos últimos anos embora persista o problema de fraca qualidade.

No que diz respeito aos serviços gerais nos estabelecimentos, existem cerca de 71 restaurantes, 7 discotecas, 8 ginásios, 21 salas de reuniões, 22 piscinas, 12 lojas, 74 bares 6 campos de ténis, 8 parkings e 13 sala de jogos.

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As infra-estruturas aeroportuárias e rodoviárias são ainda deficientes e insuficientes.

A rede viária é reduzida e os meios de transportes colectivos rodoviários são ainda poucos seguros e confortáveis. Mas reconhece-se o grande esforço por parte de governo na melhoria das infra-estruturas económicas. Destacam-se o novo aeroporto da Praia, a asfaltagem da estrada que liga Praia à cidade de Assomada, asfaltagem de algumas avenidas na cidade da Praia, asfaltagem da cidade de Mindelo e da ilha do Sal.

4.2. O Papel das Instituições Políticas e Administrativas

Algumas instituições político-administrativas foram criadas para o efeito: Ministério do Turismo e Transportes, Promex, Instituto Nacional de Cultura (INAC), Ministério de Cultura e Direcção Geral do Desenvolvimento Turístico (DGDT).

À Direcção Geral de Desenvolvimento Turístico e ao Promex cabe assegurar a administração turística. A DGDT apoia o governo na definição de políticas e estratégias do desenvolvimento do sector, na normalização e fiscalização de actividades turísticas, no desenvolvimento de relações com instituições internacionais no sector. O Promex agiliza o investimento externo e promove a imagem do país no exterior, função essa que cabia ao INATUR- Instituto Nacional do Turismo. Aos municípios foram, também, legalmente atribuídas responsabilidade para o efeito.

Foi instalada uma delegação municipal que é assessorada por uma secretaria técnica especializada na planificação, ligada ao Gabinete de Planeamento e Gestão Urbanística (GPGU).

O Instituto Nacional de Cultura (INAC) é órgão coordenador cuja função essencial é salvaguardar o património cultural nacional.

As duas instituições (Município da Praia e INAC) criaram no local uma estrutura comum de intervenção operacional a partir de 1992.

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Esta Secretaria tem por missão: recolher e compilar os documentos históricos e dados físicos da Cidade Velha; garantir a elaboração de planos e documentos preliminares de conservação; responder as demandas da população em matéria de atribuição de terrenos e de projectos e preparar as autorizações da construção.

Acções concretas para o efeito estão sendo realizadas por esse bureau mas de uma forma muito lenta devido às limitações mencionadas anteriormente (falta de recursos financeiros, materiais e humanos).

A partir de 2004, houve uma evolução a nível das instituições responsáveis para o desenvolvimento do turismo e sobretudo para preservação e valorização do património cultural. O PROMEX (Centro de Promoção Turística, de Investimentos e das Exportações) foi extinto e o INAC (Instituto Nacional de Cultura) foi substituído pelo IIPC( Instituto da Investigação e do Património Cultural) cujo estatuto foi aprovado pelo Decreto Regulamentar nº 2/2004 de 17 de Maio (B.O.nº 14 I Série de 17 de Maio de 2004) com as seguintes atribuições: identificação, inventariação, investigação, salvaguarda, defesa e divulgação dos valores da cultura, do património cultural móvel e imóvel, material e imaterial do povo cabo-verdiano, nomeadamente:

a) A recolha, conservação tratamento e divulgação das tradições e histórias orais;

b) A investigação, particularmente nos domínios da história, sociologia, antropologia linguística, psicologia e musicologia, com vista a fomentar o conhecimento da cultura nacional, nas suas mais variadas formas de expressão;

c) A criação de organismos destinados à defesa e valorização do património cultural;

d) A pesquisa, inventariação, cadastro e classificação do património cultural, bem como a sua salvaguarda e conservação;

e) A preservação, defesa, protecção e promoção dos bens pertencentes ao domínio arqueológico nacional.

São órgãos do IIPC: O Presidente, O conselho Administrativo, o Conselho Científico.

O Ministério que tutela o desenvolvimento do Turismo passou a designar-se de Ministério de Economia, Crescimento e Competitividade com as seguintes direcções ligadas ao turismo: Direcção Geral do Desenvolvimento Turístico, Direcção de Fiscalização, Direcção de Turismo.

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4.3. Potencialidades Turísticas da Cidade Velha 4.3.1.Turismo do Mar

A partir do séc. XVIII a burguesia começou a enaltecer os valores curativos da água do mar e teve o apoio do Dr. Russel (1753) elogiando os banhos de mar e a ingestão da sua água. As termas entraram em decadência e os turistas viraram-se para as praias que se transformaram num espaço exclusivo para tratamento de determinadas doenças. As viagens eram longas e caras para a população em geral.

Até 1830, as praias eram um refúgio das classes mais prósperas. A partir de 1830 assiste-se à expansão de caminho de ferro e as viagens tornaram-se mais acessíveis à população.

O caminho-de-ferro, conjuntamente com as mudanças sociais ocorridas no séc. XIX, levou à democratização do turismo.

Com esta democratização do turismo, as classes mais abastadas fizeram o retorno às grandes viagens para marcar a diferença com as outras classes. Cria-se deste modo o turismo internacional com serviços de luxo e o turismo torna-se um privilégio para aristocracia.

A partir dos anos 20, os banhos de sol tornaram-se famosos e o bronzear transformou- se num símbolo de prestígio social e diferenciado para os habitantes dos centros urbanos.

A revolução dos transportes e sobretudo o sector de aviação civil veio conferir ao turismo um impulso sem precedente, apesar dos constrangimentos provocados pelos conflitos localizados a nível mundial

Os países pobres podem beneficiar-se substancialmente com a expansão do turismo mundial, desde que criem condições para que as suas empresas aproveitem das oportunidades que daí resultam e evitem que os direitos das suas populações sejam violados.

Em Cabo Verde desenvolveu-se o turismo balnear, com maior expansão nas ilhas com melhores praias: Sal, Boa Vista e Maio.

A diversidade do produto turístico da ilha de Santiago influencia directa ou indirectamente no desenvolvimento turístico de Cidade Velha que nós escolhemos como um

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dos principais e potenciais centros do desenvolvimento turístico da ilha tendo em consideração as potenciais ofertas a ela inerentes:

A temperatura ambiente tem uma amplitude térmica média reduzida durante o ano: o mínimo 22 graus centígrados e o máximo de 27 graus, sendo a temperatura máxima de 32 graus e mínima de 22 graus registada durante o ano.

O mar oferece óptimas condições para os banhistas: a água encontra-se sempre tépida com uma temperatura média da água na superfície de 23º C, com mínimas de 21º a 23º C e máximas de 26º C; límpida e transparente, satisfaz os desportistas das mais diferentes modalidades do desporto aquático/marítimo tais como:

a) Windsurf/Surf devido a frequência de ondas e vento forte em determinado período de ano;

b) A pesca desportiva deve ser estimulada, pois o nosso país tem condições para sua prática e é uma actividade procurada como um produto turístico. A pesca de altura e submarina também deve ser estimulada.

c) O mergulho deve ser planificado, orientado para as regiões identificadas, evitando a degradação de ecossistemas marinhos e delapidação dos patrimónios arqueológicos que se encontram no fundo dos mares ao longo da costa.

Passeios no mar proporcionados pela limpidez das águas, a beleza das orlas costeiras:

pequenas praias de areia negra e de calhau rolado; as falésias, as enseadas, os golfos os recifes, as encostas escarpadas e os fiordes; as baías rochosas da costa ocidental, as planícies áridas e pedregosas ocidentais e os profundos barrancos; as embocaduras das ribeiras muitas vezes verdejantes com coqueiros tamareiras e árvores de frutos; os vales profundos e os planaltos ressequidos; as montanhas e bem como os peixes voadores que podem ser observados a partir dos barcos de recreio constituem atractivos bastantes para proporcionar aos turistas boas férias em cabo verde. Os golfos e enseadas de difícil acesso por terra, são por vezes procurados pelos turistas estrangeiros em busca de lugares exóticos para repouso, piquenique, etc. são lugares adequados para o turismo de elite.

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4.3.2.Turismo de Campo e de Montanha

O turismo no espaço rural consiste no conjunto de actividades e serviços realizados e prestados mediante remuneração em zonas rurais, segundo diversas modalidades de hospedagem, de actividades e serviços complementares de animação e de diversão turística, tendo em vista a oferta de um produto turístico completo e diversificado.

Considerando os requisitos acima referidos, o turismo no campo assume as seguintes forma: turismo rural, agro-turismo, turismo de aldeia, turismo de montanha, eco-turismo.

Convém relembrar que o eco-turismo ou turismo de natureza não constitui um ramo específico mas sim uma forma de exploração que respeite o meio ambiente cujo espaço pode ser terrestre e marítimo (observação de fauna e flora marinha e terrestre pode ser atractivo para os turistas).

Agro-turismo é uma modalidade de turismo de natureza, muitas vezes procurado pelos turistas activos que procuram o sossego e tentam recuperar o equilíbrio e eliminar o stress antes do regresso aos grandes centros urbanos.

O turismo no espaço rural, em Cabo Verde, tem expressão relativamente baixa mas vem ganhando incremento rápido, sobretudo em Santo Antão. S. Nicolau, Fogo e Santiago.

A ilha de Santiago, apesar da semelhança climática com as outras ilhas, é a ilha com maior produção agrícola do país. Possui microclimas e importantes comunidades nas zonas litorais. Ocupa uma área de 991 km2 detém cerca de metade da população do país que se encontrava distribuída, até Fevereiro de 2005, em seis municípios: Praia - capital do país e principal centro económico com cera de 25% dos habitantes de Cabo Verde; Santa cruz, Santa Catarina, Domingos S. Miguel e Tarrafal. Pela lei já citada de 22 de Fevereiro aprovada pelo Parlamento, foram criadas mais três municípios: Ribeira Grande com sede em

“Cidade de Santiago”, dos Órgãos e dos Picos.

A paisagem é muito diversificada no seu aspecto natural, humano habitacional, demográfico e histórico-geográfico o que faz com que tenha várias zonas de interesses turísticos.

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O espaço rural cabo-verdiano é tão atractivo como as estâncias balneares das ilhas mais planas. O país pode proporcionar aos turistas o acesso a paisagens únicas. Por isso o turismo no espaço rural deve merecer um forte incremento.

A Cidade Velha tem potencialidades para o desenvolvimento não só do turismo balnear que já mencionamos como para o desenvolvimento de um turismo rural nas suas mais diversas formas e ser centro impulsionador do turismo de montanha. As casas antigas características do meio rural são potenciais produtos turísticos prestar serviços de hospedagem de natureza familiar; as casas particulares utilizadas simultaneamente como habitação do proprietário, possuidor ou legítimo detentor e integrados em explorações agrícolas, e que permitam aos hóspedes o acompanhamento e conhecimento da actividade agrícola, ou participação nos trabalhos aí desenvolvidos podem vir a funcionar como uma oferta turística para prestar serviço de hospedagem aos turistas.

O vale verdejante com árvores de fruto tais como coqueiro, mangueiras, figueiras, cabeceiras, tamareiras e outros arbustos introduzidos desde o início do povoamento, as culturas de cana sacarina, horticulturas, vedadas pelas rochas escarpadas conferem à Cidade Velha um conjunto de características paisagísticas de grande valor turístico.

Como é do conhecimento geral a escolha do destino turístico por parte dos turistas depende normalmente de um conjunto de factores, por vezes contraditórios, como sejam desejos, necessidades, gostos, simpatias e antipatias. A esses factores alia-se outros como por exemplo, a situação socio-económica, a oferta turística disponível e a informação. Entre todos esses factores a aquisição da informação é, no dizer de Mário Baptista11, a que desempenha um papel primordial no concernente à sensibilização, persuasão, apreciação e legitimação da escolha.

Pelo que se torna necessário, a par da promoção do turismo balnear, desencadear e reforçar iniciativas promocionais e publicitários que permitem informar, divulgar esclarecer e motivar os turistas dos principais países emissores e de outros mercados potenciais sobre os produtos oferecidos no espaço rural cabo-verdiano em geral e santiaguense em particular.

Nota-se uma tendência para o despovoamento do meio rural devido ao êxodo rural com consequências imprevisíveis para o turismo.

11 BAPTISTA, Mário. O Turismo na Economia – uma abordagem técnica, económica, social e cultural.

Lisboa. Instituto Nacional de Formação Turística.1990.

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“No período compreendido entre 1990 e 2000, a população do concelho da Praia cresceu de 82.802,para 104.953 habitantes que significa um diferencial de 22.151 habitantes a um rítmo médio de crescimento na ordem dos 2,4%.

Comparando o comportamento entre a cidade e o campo, constata-se uma discrepância significativa. Enquanto que a população urbana aumenta de 61.644 habitantes para 94.161, com o acréscimo de 32.517 habitantes num período de dez anos, a ritmo médio de crescimento de 4.2 ao ano, a população rural diminuiu de 21.158 habitantes para 10.792, ou seja perdeu um efectivo de 10.366 habitantes, num ritmo de crescimento médio de -6,7%.

Atendendo às tendências de crescimento demográfico, estima-se que no horizonte de 10 anos, a Praia urbana contará com 167.217 pessoas, enquanto na Praia rural viverão apenas 4.088 habitantes, com todas as implicações daí advenientes”. 12

O desenvolvimento do turismo rural contribuirá para fixação da população no campo criando mais emprego e melhorando as condições de vida da população.

Não existe um plano urbanístico para as construções no meio rural e as construções anárquicas por vezes, ocupam espaços que deveriam ser preservados para actividades agro- pastoris e outras que contribuem para o desenvolvimento da zona e o bem-estar dos habitantes.

4.3.3. Turismo Cultural e Religioso 4.3.3.1. Considerações Gerais

“Cultura é o complexo de tudo o que o homem exprime em confrontação com a vida, tudo o que constitui a consciência dele próprio e que o identifica em relação aos outros, quer no seu espaço vital como a nível universal. Ela constitui ainda tudo o que o homem, individual ou colectivamente assimilou, interpretou ou traduziu - material ou

12 ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS MUNICÍPIOS DE CABO VERDE. (2003). PLANO AMBIENTAL MUNICIPAL DA PRAIA.p.10 Praia. 2003.

Referências

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