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ALANNA SIQUEIRA SIMONETTI OLIVEIRA

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Academic year: 2022

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS

DEPARTAMENTO DE DIREITO PROCESSUAL E PROPEDÊUTICA BACHARELADO EM DIREITO

ALANNA SIQUEIRA SIMONETTI OLIVEIRA

O ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL NO ÂMBITO DA JUSTIÇA FEDERAL: UMA ANÁLISE DO PERFIL INFRACIONAL E DA INCIDÊNCIA DO

INSTITUTO DO DIREITO NEGOCIAL

NATAL-RN 2021

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ALANNA SIQUEIRA SIMONETTI OLIVEIRA

O ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL NO ÂMBITO DA JUSTIÇA FEDERAL: UMA ANÁLISE DO PERFIL INFRACIONAL E DA INCIDÊNCIA DO

INSTITUTO DO DIREITO NEGOCIAL

Monografia apresentada ao curso de graduação em Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Direito.

Orientador: Prof. Dr. Walter Nunes da Silva Júnior.

NATAL-RN 2021

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FICHA CATALOGRÁFICA

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS

DEPARTAMENTO DE DIREITO PROCESSUAL E PROPEDÊUTICA BACHARELADO EM DIREITO

A monografia intitulada “O acordo de não persecução penal no âmbito da justiça federal: uma análise do perfil infracional e da incidência do instituto do direito negocial”, de autoria da graduanda Alanna Siqueira Simonetti Oliveira, foi avaliada e aprovada pela seguinte banca examinadora:

BANCA EXAMINADORA

____________________________________________________

Prof. Dr. Walter Nunes da Silva Júnior Presidente da banca

_________________________________________________________

Prof. Dr. Morton Luiz Faria de Medeiros 1º Examinador

____________________________________________________

Prof. Dr. Ivan Lira de Carvalho 2º Examinador

Natal-RN, 16 de setembro de 2021.

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ALANNA SIQUEIRA SIMONETTI OLIVEIRA

O ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL NO ÂMBITO DA JUSTIÇA FEDERAL: UMA ANÁLISE DO PERFIL INFRACIONAL E DA INCIDÊNCIA

DO INSTITUTO DO DIREITO NEGOCIAL

Monografia apresentada ao Curso de Direito, do Centro de Ciências Sociais Aplicadas, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito para obtenção do título de Bacharel em Direito.

Aprovada em: 16/09/2021.

BANCA EXAMINADORA

_______________________________________

Prof. Dr. Walter Nunes da Silva Júnior

Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) Orientador

______________________________________

Prof. Dr. Morton Luiz Farias de Medeiros Examinador

_______________________________________

Prof. Dr. Ivan Lira de Carvalho Examinador

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A Deus, pelo dom da vida, pela oportunidade de melhoramento moral e intelectual e por me permitir sonhar.

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AGRADECIMENTOS

A conclusão do curso de direito é para mim a realização de um sonho que sempre almejei, mas que, pelos diversos caminhos que a vida nos conduz, não tinha ainda conseguido realizar. A minha gratidão é imensa por ter conseguido concretizar esse sonho. Em primeiro lugar, a Deus, pois tudo só ocorre conforme a Sua vontade, por ter permitido que eu tivesse saúde, pois sem ela nada podemos ou fazemos. Depois, ao meu anjinho guardião (acredito piamente que cada um de nós tem um guia, um protetor espiritual que nos conduz nessa jornada terrena) que esteve ao meu lado sempre, que não me deixou fraquejar nem nos momentos mais difíceis em que pensei em desistir.

Ele sempre me inspirava e eu parecia ouvir nitidamente: “eu estou aqui, vai dar certo!”.

À minha família; ao meu pai, cuja inteligência me inspira a buscar conhecimento; à minha mãe por sempre acreditar e torcer por mim; às minhas irmãs, que são inspirações pelas grandes empreendedoras que são e que me motivam a aceitar desafios. Ao meu esposo Luís Henrique e às minhas filhas Deborah e Darah. A ele por sempre apoiar meus sonhos e meus projetos, mesmo que isso signifique mais atribuições e mais responsabilidade para ele em relação às nossas filhas. A elas, por toda compreensão e por todo carinho, por ouvirem, de forma compreensiva, todos os “não posso, pois tenho que estudar”, por todas as vezes que tinham que sair de um cômodo da casa para não fazer barulho, por todas as vezes que torceram por mim e foram tantas vezes! Pelas inúmeras vezes que disseram: “mãe, vai dar certo, você se esforçou muito!”. Enfim, por tamanho amor que foi capaz de fazê-las ouvir tantos “nãos” e, ainda assim, torcerem por mim do fundo do coração.

Aos amigos que são anjos encarnados aqui na Terra. Àquelas que compõem nosso grupinho: Ju, Bibi, Jaci, Dena, Jhose e Marcinha (minha amiga de outras vidas que reencontrei nessa graduação). Sem essas pessoas eu não teria conseguido, foram apoio, carinho, fortaleza, amizade, união e amor. A Sêmely, outro anjo que fala com o coração e tem a capacidade de fazer com que nos sintamos capazes. Ela é desprendimento, é gentileza e é sabedoria. E aos tantos outros amigos que inúmeras vezes seguraram a minha mão e que não vou nominá-los aqui, porque são muitos e não quero correr o risco de esquecer alguém.

À UFRN, que é para mim uma segunda casa, que além de ser meu local de trabalho há quase dez anos, foi onde eu consegui realizar mais um sonho. Tenho muito orgulho de fazer parte de uma instituição como a UFRN, que é referência por prestar um ensino de excelência e por democratizar a educação permitindo que inúmeros sonhos se concretizem.

Aos tantos professores da UFRN que servem de inspiração para os seus alunos e que lecionam por amor. Quando isso ocorre, é notório e inspirador. A cada semestre,

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nós, como alunos, conseguimos identificar aqueles que amam passar o conhecimento e isso é muito gratificante.

Dentre esses tantos professores que inspiram, minha gratidão ao meu orientador, Professor Walter Nunes, por quem tenho profunda admiração, não só pelo conhecimento que tem, que dispensa comentários, mas também pelo homem íntegro e justo que é e que faz com que enxerguemos o direito penal de uma forma mais humana.

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“As pessoas creem que o processo penal termina com a condenação e não é verdade; as pessoas creem que a pena termina com a saída do cárcere e não é verdade; as pessoas creem que o cárcere perpétuo seja a única pena perpétua e não é verdade: A pena, se não mesmo sempre, nove vezes em dez não termina nunca”.

(As misérias do processo penal, 1995).

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RESUMO

A presente pesquisa tem como finalidade investigar, considerando o cenário de encarceramento em massa e a realidade dos presídios brasileiros, o impacto da aplicação do acordo de não persecução penal (ANPP), em âmbito federal, por meio da análise dos dados disponibilizados pelos sistemas de gestão e aferição da atividade judiciária. Em busca da mensuração desse impacto, analisaram-se os indicadores do Poder Judiciário tomando por base os dados fornecidos pelo Relatório do “Justiça em Números 2020” do CNJ, o qual contém informações sobre o fluxo processual do sistema de justiça brasileiro, buscou-se a identificação do perfil infracional que enseja a celebração do ANPP, bem como se examinaram os dados estatísticos de execução penal fornecidos pelo Sistema Eletrônico de Execução Unificado – SEEU com vistas a mensurar o quantitativo infracional que possibilita a aplicação de penas alternativas as quais podem ensejar, se cumpridos alguns requisitos, a efetivação da justiça negocial. Na metodologia, foi realizada uma pesquisa bibliográfica acerca do tema, foi feita a análise dos dados dos relatórios dos sistemas de aferição e gestão judiciária, numa perspectiva quali-quanti, bem como foi avaliada a capacidade de abrangência do instituto que se deu por meio de mensurações de probabilidade, haja vista a quantidade pouco significativa de dados específicos acerca do ANPP. Evidenciou-se que a aplicação factual do ANPP encontra percalços para sua efetivação, sobretudo pela falta de consenso no tocante aos requisitos para sua celebração, por repercutir em inúmeras modificações, bem como por estar inserida em um cenário ainda atrelado aos resquícios do sistema inquisitório.

Propõe-se que a forma de atuação no contexto da justiça negocial seja bem delineada com vistas a propiciar uma atuação regulada da aplicação do instituto e que seja buscada a resolução dos dissensos evitando a aplicação assimétrica da lei. Aliado a isso, sugere- se a inserção de diagnósticos externos nos relatórios dos sistemas de gestão judiciária em busca de conclusões mais fidedignas e o aprimoramento do elemento humano com vistas a sanar os equívocos na alimentação dos sistemas. Esses apontamentos oriundos de reflexões buscam corroborar para a efetivação da aplicação do ANPP que tende a desafogar a justiça criminal contribuindo para a superação do estado de coisas inconstitucional dos presídios brasileiros e fortalecendo a efetivação do princípio da dignidade da pessoa humana.

Palavras-chave: acordo de não persecução penal; justiça criminal; justiça negocial.

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ABSTRACT

The present research aims to investigate, considering the scenario of mass incarceration and the reality of Brazilian prisons, the impact of the application of the Non Prosecution Agreement (NPA), at the federal level, through the analysis of data provided by management systems and benchmarking of judicial activity. In the search for measuring this impact, the indicators of the Judiciary were analyzed, based on the data provided by the CNJ's Justice in Numbers 2020 Report, which contains information about the procedural flow of the Brazilian justice system. We also examined the statistical data of penal execution provided by the Unified Electronic Execution System (UEES) in order to measure the number of offenses that allow the application of alternative sentences, which may lead, if certain requirements are met, to the implementation of negotiated justice. In the methodology, a bibliographic research about the theme was carried out, the analysis of the data from the reports of the benchmarking and judicial management systems was made, in a quali-quanti perspective, as well as the evaluation of the institute's coverage capacity, which was done through probability measurements, considering the small amount of specific data about the NPA. It became evident that the factual application of the NPA faces obstacles to its effectiveness, especially due to the lack of consensus regarding the requirements for its conclusion, for having numerous modifications, as well as for being inserted in a scenario still linked to the remnants of the inquisitorial system. It is proposed that the form of performance in the context of negotiated justice be well delineated in order to provide a regulated performance of the application of the institute and that the resolution of disagreements be sought, avoiding the asymmetric application of the law. In addition, it is suggested that external diagnoses be inserted into the reports of the judicial management systems in search of more reliable conclusions, and that the human element be improved in order to correct mistakes in the feeding of the systems. These points arising from reflections seek to corroborate for the effectiveness of the application of the NPA that tends to unburden the Criminal Justice contributing to overcome the unconstitutional state of things of the Brazilian prisons and strengthening the effectiveness of the principle of human dignity.

Keywords: non-prosecution agreement; criminal justice; negotiated justice.

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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

ADPF – Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental ADI – Ação Direta de Inconstitucionalidade

ANPP – Acordo de não persecução penal AMB – Associação dos Magistrados do Brasil

CCR – Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal CF – Constituição Federal

CFOAB – Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil CGMP – Corregedoria-Geral do Ministério Público

Cn – Casos novos

CNJ – Conselho Nacional de Justiça

CNMP – Conselho Nacional do Ministério Público

CNPJ – Conselho Nacional de Procuradores-Gerais dos MPs dos Estados e da União CP – Código Penal

CPC – Código de Processo Civil CPP – Código de Processo Penal DF – Distrito Federal

DMF – Departamento de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e do Sistema de Execução de Medidas Socioeducativas

DPA - Deferred Prosecution Agreement

GMF – Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário

GNCCRIM – Grupo Nacional de Coordenadores de Centro de Apoio Criminal GT – Grupo de trabalho

GTANPP – Grupo de Trabalho sobre Acordos de Não Persecução Penal HC – Habeas Corpus

IAD – Índice de atendimento à demanda ICPR – Institute for Crime & Justice Research IPC – Índice de Produtividade Comparada JECrim – Juizado Especial Criminal MP – Ministério Público

MPF – Ministério Público Federal

MPSP – Ministério Público do Estado de São Paulo NPA – Non Prosecution Agreement

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Pb – Processos baixados Pp – Processos pendentes

PGJ – Procuradoria-Geral de Justiça PL – Projeto de lei

PL – Partido Liberal

SEEU – Sistema Eletrônico de Execução Unificado

SISDEPEN – Sistema de informações do Departamento Penitenciário Nacional STF – Supremo Tribunal Federal

STJ – Superior Tribunal de Justiça TC – Taxa de Congestionamento

TpCpCrim - Tempo médio dos processos criminais pendentes na fase de conhecimento TpDecPen – Tempo médio das decisões em execução penal

TpPrisProv – Tempo médio de julgamento em primeira instância dos presos provisórios TRF5 – Tribunal Regional Federal da 5ª Região

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ... 13 2 O SISTEMA DE JUSTIÇA NEGOCIAL NO ÂMBITO DO PROCESSO PENAL BRASILEIRO ... 17 2.1 CONTEXTO, SURGIMENTO E EXPANSÃO DO SISTEMA DE JUSTIÇA NEGOCIAL ... 19

2.2 PARADIGMA DA JUSTIÇA NEGOCIAL E OS INSTITUTOS

DESPENALIZADORES NO PROCESSO PENAL BRASILEIRO ... 28 3 O ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL E SUA INSTITUIÇÃO A PARTIR DO DENOMINADO PACOTE ANTICRIME (LEI Nº 13.964, DE 2019)...38 3.1ANTECEDENTES E A OFICIALIZAÇÃO COM A PROMULGAÇÃO DA LEI Nº 13.964, DE 2019 (PACOTE ANTICRIME) ... 38 3.2CONCEITO, NATUREZA JURÍDICA E REQUISITOS NECESSÁRIOS ... 44 4 ANÁLISE DOS DADOS ESTATÍSTICOS DOS INDICADORES DO PODER JUDICIÁRIO E AS POSSÍVEIS CORRELAÇÕES COM O ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL ... 66 4.1 ANÁLISE DOS DADOS DISPONIBILIZADOS PELO PROGRAMA JUSTIÇA EM NÚMEROS DO CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA (CNJ) ... 66 4.2APLICAÇÕES PRÁTICAS DO ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL EM ÂMBITO FEDERAL ... 76 4.3 REFLEXÃO SOBRE A APLICABILIDADE DO ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL NO SISTEMA DE JUSTIÇA BRASILEIRO A PARTIR DOS DADOS COLETADOS ... 84 5 CONCLUSÃO ... 90 REFERÊNCIAS...94

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1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho aborda o acordo de não persecução penal (ANPP), instituto relativamente novo no Brasil, que veio para somar aliando-se aos demais mecanismos despenalizadores, como a transação penal, a suspensão condicional do processo e a composição civil dos danos, já previstos na Lei 9.099, de 1995, ensejando um novo paradigma para a justiça criminal e buscando a redução do modelo penal encarcerador.

O interesse sobre o tema surgiu a partir do amadurecimento da ideia de que ainda se efetiva no Brasil uma visão punitivista e policialesca do processo criminal, haja vista, sobretudo, a conjuntura na qual foi elaborada o Código de Processo Penal brasileiro, o que se deu sob a batuta da Constituição de 1937, influenciada, sobremaneira, pelos ideais fascistas da Constituição polonesa de 1935.

A referida atuação punitivista finda por ensejar um encarceramento em massa consolidando uma realidade deplorável nos presídios brasileiros. Nesse sentido, a opção por uma condução negocial no âmbito criminal se mostra como uma solução para a diminuição da população carcerária e, consequentemente, para efetivação da celeridade processual penal, bem como para a preservação de direitos e garantias fundamentais salvaguardados constitucionalmente.

Não é de hoje que se busca uma mudança no estigma que, há muito, é carregado pelo direito penal na perspectiva da política criminal nacional. O referido ramo conserva um status de excessivamente punitivo, não resolutivo, moroso e burocrático, que é fomentado pelo sufocamento pelo qual passa a justiça criminal. A demasia de demandas, o modelo repressor excessivo, não raras vezes por crimes cometidos sem violência ou grave ameaça e de menor potencial ofensivo, permite enxergar como a nossa sociedade opta pela solução de contendas tradicional, morosa e estigmatizante por meio da judicialização, fechando as portas à negociação. Esse modelo de resolução de contendas, aliado à política de encarceramento, finda por ensejar um dos maiores problemas que há de ser arrostado pelo Estado e pela sociedade: a superlotação dos presídios brasileiros.

Dessa forma, imperiosa se faz a mudança de paradigma em busca da conscientização da sociedade acerca de quão importante se perfaz a solução consensual dos conflitos que pode se efetivar por intermédio dos institutos despenalizadores, que em muito contribuem para o desafogamento da justiça criminal, permitindo que a atuação dos magistrados, do Ministério Público e da advocacia se volte para os crimes organizados e para as infrações penais mais graves.

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Nesse contexto, e considerando a importância de se investigar um instituto com a probabilidade de abrangência do ANPP, o presente trabalho tem como objetivo geral investigar o impacto da aplicação do ANPP, em âmbito federal, por meio da análise dos dados disponibilizados pelos sistemas de gestão e aferição da atividade judiciária.

Levando-se em conta que para analisar os dados fornecidos pelos referidos sistemas, será necessária uma correlação das informações disponíveis, bem como um exame voltado para probabilidades em razão do diminuto quantitativo específico sobre ANPPs. Pretendendo a realização do objetivo geral, far-se-ão indispensáveis: (a) uma análise minuciosa dos indicadores do Poder Judiciário com base nos dados fornecidos pelo Relatório do “Justiça em Números 2020” do CNJ, com vistas a trazer informações sobre o fluxo processual no sistema de justiça brasileiro; (b) a identificação do perfil infracional que permite a celebração do acordo em âmbito federal; e (c) a análise dos dados estatísticos de execução penal fornecidos pelo Sistema Eletrônico de Execução Unificado – SEEU, tencionando mensurar o quantitativo infracional que possibilita a aplicação de penas alternativas, haja vista seus requisitos englobarem, dentre outros, a aplicação de pena privativa de liberdade não superior a quatro anos e a ausência de violência ou grave ameaça.

Visando essa construção, o referido trabalho abordará, inicialmente, o contexto do surgimento da justiça criminal e perpassará brevemente seu caminhar evolutivo balizado pelos ensinamentos de Beccaria. Serão trazidos dados dos presídios brasileiros com o intuito de ensejar uma reflexão acerca da necessidade de desencarceramento considerando a realidade dolorosa daqueles que habitam os cárceres que, não raras vezes, estão ali pelo cometimento de crimes sem violência ou grave ameaça, presos preventivamente e ali esquecidos, ou, pior ainda, são inocentes, e que levarão consigo os estigmas e reflexos advindos do processo penal e da prisão.

Estudar-se-á ainda, no capítulo, a mudança de paradigma propiciada pela solução consensual por meio dos institutos despenalizadores cuja base é fomentada pelo plea bargain americano e que foi sobremaneira fortalecida com a chegada do ANPP, oficializado com a promulgação da Lei 13.964, de 2019, também denominada de Pacote Anticrime.

O segundo momento versará especificamente sobre o ANPP, será abordado o caminho percorrido pela sua tramitação legislativa, com ênfase nas Resoluções de nº 181/2017 e 183/2018 do Conselho Nacional do Ministério Público – CNMP, que serviram de base para materialização dessa nova opção estatal de política criminal e cuja constitucionalidade foi questionada, bem como a oficialização do ANPP por meio da Lei 13.469, de 2019. Ademais, nesse capítulo serão discutidas as regras jurídicas em vigor acerca do instituto despenalizador

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debruçando-se sobre o conceito, a natureza jurídica e os requisitos necessários para aplicação do ANPP.

No último capítulo, será traçado um panorama de aplicação prática do ANPP em âmbito federal por meio da análise dos dados disponibilizados pelo Programa Justiça em Números, fazendo uma correlação com o relatório do ano anterior possibilitando inferir o caminho que o Poder Judiciário vem traçando em busca de celeridade e de transparência.

Ademais, serão analisados os dados disponibilizados pela 2ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal – MPF (2ª CCR), propiciando o fornecimento de informações acerca de quantitativo e perfil infracional, bem como serão trazidos dados do Sistema Eletrônico de Execução Unificado – SEEU, que é uma ferramenta que centraliza e uniformiza a gestão de processos de execução penal em todo o Brasil. O referido delineamento por meios dos dados do SEEU irá propiciar uma projeção acerca da possibilidade de aplicação do ANPP frente às infrações cuja reprimenda se deu por intermédio das penas alternativas.

Por fim, será feito um recorte com os dados referentes aos estados do Rio Grande do Norte e da Paraíba, pois, dentro do cenário do TRF5, esses dois estados guardam identidade maior entre si no tocante à demanda processual, servindo como parâmetro para outros levantamentos de dados, a exemplo das análises feitas pelo Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário – GMF/5ªR. Com vistas a subsidiar o referido recorte, será abordada a estatística processual de litigiosidade por meio do Portal do TRF5, bem como serão trazidos dados do sistema carcerário dos referidos estados, propiciando um comparativo e ensejando reflexão acerca da necessidade de diminuição da população carcerária. A leitura conjunta dos dados coletados, por sua vez, possibilitará a capacidade de analisar criticamente a efetivação desse instituto despenalizador sob os pontos de vista teórico e prático.

Com o intuito de ver cumprido o supracitado objetivo, serão efetivadas as etapas de levantamento bibliográfico para fomentação de um referencial teórico, bem como a análise dos dados colhidos pelos sistemas gestão judiciária.

Desse modo, o estudo se efetiva como crítico-dialético por entender o encarceramento seletivo em massa como uma violação à dignidade da pessoa humana contra a qual se perfaz a aplicação do ANPP uma forma efetiva de enfrentamento. Outra classificação na qual se enquadra é o método estatístico, haja vista buscar traçar percentualmente o perfil infracional dos beneficiados pela celebração do acordo e a capacidade de abrangência do instituto por meio de mensurações de probabilidade.

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No tocante à abordagem metodológica, a presente pesquisa caracteriza-se como quantitativa e qualitativa que, segundo Jardim e Pereira, possibilita a coleta de dados com pormenores descritivos sobre as pessoas, objetivando estimar o fenômeno em toda sua complexidade e em contexto natural1. Impende registrar que o foco quantitativo abrangeu a análise da quantidade de ANPP celebrados, o tempo médio de tramitação dos processos, os percentuais de aplicação das penas alternativas, bem como a estatística processual de litigiosidade dos estados do Rio Grande do Norte e da Paraíba.

A abordagem qualitativa, que possibilita descrever as qualidades de determinados fenômenos ou objetos de estudo sendo possível elaborar tipologias ou categorizações e construir variáveis nominais e ordinais2, teve como foco a delimitação do perfil infracional, bem como a mensuração da aplicabilidade do instituto considerando os dados coletados.

No que diz respeito aos objetivos, o trabalho caracteriza-se como exploratório documental, o qual visa proporcionar maior familiaridade com o problema por meio do levantamento bibliográfico acerca do tema e da análise dos relatórios dos sistemas de gestão judiciária.

No tocante à modalidade de tratamento de dados, a análise das informações referentes aos ANPPs está inserida nas técnicas de análise qualitativa de dados precisamente na análise de conteúdo que se configura mais quantitativa por investigar a frequência com que aparecem certas palavras, símbolos ou temas e cujo trabalho se dá com materiais resultantes de comunicações verbais, sejam eles documentos escritos (documentos oficiais, livros, periódicos, documentos pessoais), sejam orais, sejam atividades que possam ser decompostas ou classificadas3.

Nessa perspectiva, em sede de justificativa, o presente trabalho tem o intuito de contribuir para traçar um perfil da aplicação do ANPP em âmbito federal a partir de dados coletados do sistema de justiça possibilitando à sociedade e à comunidade acadêmica uma visão acerca desse instituto despenalizador ressaltando a sua importância para a diminuição do encarceramento, bem como incentivando pesquisas e estudos no âmbito do direito criminal e da segurança pública.

1 JARDIM, Anna Carolina Salgado; PEREIRA, Viviane Santos. Metodologia qualitativa: é possível adequar as técnicas de coleta de dados aos contextos vividos em campo? In: CONGRESSO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ECONOMIA, ADMINISTRAÇÃO E SOCIOLOGIA RURAL (SOBER), 47., 2009, Porto Alegre. Anais [...]. Brasília, DF: SOBER, 2009. p. 1-12. Disponível em:

https://cursodegestaoelideranca.paginas.ufsc.br/files/2016/03/Artigo-sobre-Pesquisa-Qualitativa.pdf. Acesso em: 15 dez. 2020.

2 CORTES, Soraya M. Vargas. Técnicas de Coleta e Análise Qualitativa de Dados. Cadernos de Sociologia, [s.l.], v. 9, n. 9, p. 11-47, 1998.

3 Ibidem.

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2 O SISTEMA DE JUSTIÇA NEGOCIAL NO ÂMBITO DO PROCESSO PENAL BRASILEIRO

O sistema de justiça negocial brasileiro tem, a despeito das diferenças existentes, como inspiração o sistema adversarial dos Estados Unidos cujo instituto do plea bargain ocupa lugar de destaque. A sedimentação dessa justiça negocial nos Estados Unidos da América teve como palco de desenvolvimento os anos 20 do século XX em decorrência de duas alterações importantes4: o aumento efetivo dos casos levados ao judiciário em virtude do boom populacional, e a complexificação do processo a qual ensejou a busca por um atuar mais simples do sistema americano buscando atender os interesses dos atores judiciais.

Essa possibilidade de seleção dos casos que devem ou não ser salvaguardados pelo judiciário passa a permear os ordenamentos jurídicos de outros países, dentre eles, o Brasil.

Além das duas alterações referidas ocorridas em solo americano, outras podem ser elencadas para corroborar com a necessidade de uma justiça mais célere cuja persecução penal deve ser voltada para os crimes de grande monta desafogando, dessa forma, a justiça criminal, quais sejam: o alto custo para movimentar a máquina judiciária, a superpopulação carcerária e as mazelas decorrentes dessa situação, bem como a morosidade do processo penal fomentada pelas mudanças na legislação criminal que acarretou o aumento das possibilidades de recurso haja vista a profissionalização e a complexidade da atuação dos sujeitos processuais.

É importante registrar que foi a política criminal law and order criada para o combate às drogas o fator responsável pela consolidação do plea bargain nos Estados Unidos. O intuito principal da referida política foi a segregação racial, acarretando um encarceramento em massa dos negros americanos que tiveram a raça aliada ao cometimento de crimes, retrato que foi sustentado por forte exposição midiática que fez com que as comunidades negras passassem a ser vistas como inimigas do Estado.

Fazendo um paralelo com o cenário brasileiro, é importante ressaltar que o combate às drogas também se perfaz aqui um modus operandi de encarceramento da parcela

“indesejável” da sociedade – negros e pobres – que hoje são a maioria dos habitantes dos cárceres brasileiros, totalizando os negros, em 2020, consoante o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2021, o percentual de 66,3% dos custodiados no Brasil5.

4 MELO, Caio Vanuti Marinho de. Parâmetros constitucionais da colaboração premiada. Dissertação (Mestrado em Direito) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, RN, 2020.

5 Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2021. Fórum brasileiro de segurança pública. Evolução da população prisional por cor/raça. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp- content/uploads/2021/07/anuario-2021-completo-v6-bx.pdf Acesso em: 20/07/2021.

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Nesse contexto, o referido capítulo perpassa o cenário do surgimento da justiça criminal abordando a evolução da forma de pensar o direito penal que teve como sustentáculo o filósofo Beccaria, que se antecipou ao seu tempo trazendo lições atemporais na sua obra

“Do delito e das penas” fornecendo bases principiológicas para a justiça criminal em diversos países, a qual deve ser fundada sob a ótica de um Estado Democrático de Direito impondo limites à persecução penal.

A necessidade de eficiência e celeridade do processo penal também é demonstrada, é feito um contraponto com as mazelas do cárcere e com a premente necessidade de ressocialização – que teve como um de seus expoentes Marc Ancel6, magistrado francês – que, ao menos por ora, não se perfaz uma realidade nos presídios brasileiros. Aliás, longe disso, o encarceramento é visto como um propiciador da marginalização.

Os dados alarmantes da população carcerária fomentam essa necessidade de mudança de paradigma da política criminal que tem como uma de suas bases a busca por soluções que não ensejem a pena privativa de liberdade sendo a justiça negocial o sustentáculo desse pensamento desencarcerador que vai resvalar, efetivamente, na celeridade processual que a sociedade atual almeja.

A mudança de paradigma perpassa pela aplicação de um sistema acusatório dando adeus ao sistema misto com forte sotaque inquisitivo que perdurou durante anos e serviu de alicerce para a interpretação do Código de Processo Penal. Aliado a essa mudança, necessária se faz a modificação do pensamento dos atores do processo judicial cujo atuar deve ser pautado na certeza do erro histórico da pena de prisão buscando, dessa forma, a aplicação de medidas alternativas e contribuindo para a redução da marginalização que é própria do sistema prisional. Corroborando com essa assertiva, o capítulo perpassa os institutos da transação e da suspensão condicional do processo trazendo algumas características e requisitos se atendo, de forma pormenorizada, à análise do ANPP em capítulo posterior.

É nesse contexto que resta patente a importância e necessidade dos institutos despenalizadores cuja aplicação é imprescindível para efetivação do Estado Democrático de Direito, consolidando a mudança de paradigma do sistema processual penal brasileiro. O ANPP surge para ampliar sobremaneira a área de atuação da justiça negocial no Brasil, é

6 “Ele não pretendia criar um dogma, mas um movimento no sentido de humanização do direito penal.

Possibilitando o ingresso das outras disciplinas e o debate em torno da questão da delinquência, Marc Ancel nunca poderia imaginar que estava criando espaços para o que depois Michel Foucault chamou de invasão das disciplinas na prisão, uma luta por poder no terreno abandonado do campo penitenciário”. COELHO, Luís Carlos Honório de Valois. Conflito entre ressocialização e o princípio da legalidade na execução penal.

Dissertação (Mestrado em Direito) – Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, São Paulo/SP, 2012.

p. 83.

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pautado na renúncia do direito de ação pelo Ministério Público, tem como protagonista o acusado, além de conferir também à vítima um papel de destaque7.

2.1 CONTEXTO, SURGIMENTO E EXPANSÃO DO SISTEMA DE JUSTIÇA NEGOCIAL

Quando se perpassa a evolução histórica do Direito Criminal, verifica-se que a despeito de refletir um cenário de lutas e conquistas em busca da valoração do homem como pessoa, essa história não é linear8. Além de faltar linearidade, falta-lhe também constância evolutiva, o caminhar da justiça criminal é permeado de idas e vindas – avanços e retrocessos – apesar de se perfazer uma busca constante pela valorização do ser humano lastreada pelo princípio da dignidade da pessoa humana.

A tradição do sistema de justiça criminal tem início com as Ordenações Filipinas, as quais se iniciam em 1603 perdurando por mais de 200 anos – até 1830 – cuja atuação reproduzia o modelo inquisitório da Coroa, que tinha como baliza o controle do corpo do acusado por meio de suplícios e execuções públicas com vistas a ensejar o temor ao poder central. Como exemplo da crueldade desmedida da época, citem-se o enforcamento e o esquartejamento de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Em 1830, surge o Código Criminal do Império acompanhado, posteriormente em 1832, da edição do Código de Processo Penal, visando à manutenção da estrutura escravocata conservando a natureza inquisitória das Ordenações9.

É nesse contexto inquisitorial que surgem os Códigos Penal e de Processo Penal sob a tutela de Francisco Campos10 dando continuidade às práticas inquisitoriais, racistas, classistas e elitistas visando à manutenção, a qualquer custo, da propriedade privada. É o retrato da segregação que permeia a nossa sociedade até os dias atuais encarcerando aqueles que não são bem quistos aos olhos do corpo social que detém o poder.

7 “Há que se ressaltar que os acordos penais privilegiam a recuperação do bem jurídico violado e abrem espaço ao protagonismo da vítima, de maneira que a persecução penal ordinária não realiza” (Temas do Ministério Público: Acordos no sistema de justiça e liberdade de expressão. Brasília: anpr, 2019. p. 174).

8 LIRA, Sêmely Clície Rodrigues Batista Lira. O direito ao julgamento dentro de um prazo razoável no âmbito da justiça criminal: um estudo à luz do Estado Democrático Constitucional. Dissertação (Mestrado em Direito) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, RN, 2020. p. 21.

9LOPES JÚNIOR, Aury; PINHO, Ana Cláudia Bastos de; ROSA, Alexandre Morais da. Pacote Anticrime: um ano depois: Análise da ineficácia das principais medidas penais e processuais implantadas pela Lei n.

13964/2019. São Paulo: Saraiva Educação, 2020. E-book. p. 13.

10 “cuja simpatia pelo nazi-fascismo era decantada aos quatro ventos” (LOPES JÚNIOR, Aury; PINHO, Ana Cláudia Bastos de; ROSA, Alexandre Morais da. Pacote Anticrime: um ano depois: Análise da ineficácia das principais medidas penais e processuais implantadas pela Lei n. 13964/2019. São Paulo: Saraiva Educação, 2020. E-book. p. 14).

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Contextualizando a história evolutiva, impende enfatizar o surgimento da ciência criminal que se deu a partir da segunda metade do século XVIII sob a condução dos pensamentos do filósofo liberal Cesare Beccaria, que tinha como pano de fundo esse cenário do Estado absolutista cuja persecução penal era permeada por incontáveis tipos de arbitrariedades subjugando fisicamente o indivíduo à força do Estado.

Nesse contexto de crítica aos excessos imperantes da legislação penal, o Iluminismo surge com um sentimento comum de reforma do sistema punitivo. Esse movimento representou uma tomada de posição cultural e espiritual de parte significativa da sociedade da época cujo objetivo se perfazia na difusão do uso da razão e na orientação do progresso da vida em todos os seus aspectos11.

Inserido na realidade do pensamento iluminista, Beccaria observou que a falta de limites do poder do Estado se mostrava sobremaneira mais abrangente no exercício do direito de punir no qual se efetivavam os maiores desrespeitos aos direitos básicos dos indivíduos, não havendo, sequer, um conjunto de regras para limitar a atuação estatal12. Insurgindo-se contra esse cenário e inspirado pelas ideias do movimento iluminista, o filósofo, na sua obra Dos Delitos e das Penas, asseverou a imprescindibilidade do desenvolvimento do poder de punir estatal balizado por regras garantidoras de direitos fundamentais que são molas mestras do Estado Democrático de Direito.

A referida obra faz parte do processo filosófico humanitário e parece ter se antecipado ao seu tempo, permanecendo atual até os dias de hoje, opondo-se contra um cenário de vingança privada, permeado por punições superiores e terríveis aos males produzidos, bem como à tortura, à pena de morte e a prisões desumanas e degradantes. Essa limitação à persecução penal encabeçada por Beccaria influenciou a declaração de direitos fundamentais da Constituição americana, bem como a Declaração de Direitos da Revolução Francesa.

A obra de Beccaria abarcou diversos princípios utilizados nos ordenamentos jurídicos de inúmeros países e trouxe a primeira manifestação veemente contra a desumanidade e crueldade das penas, para Beccaria, humanização é palavra de ordem. O autor identificou como problema no sistema penal vigente a utilização das leis em benefício de uma minoria e, como solução, reivindicou o uso de boas leis para impedir esse contexto de abuso das minorias e promover o bem-estar das pessoas em prol da justiça social (princípio da

11 BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: Parte Geral 1. 23. ed. São Paulo: Saraiva, 2017.

p. 92.

12 SILVA JÚNIOR, Walter Nunes da. Curso de direito processual penal: Teoria (constitucional) do Processo Penal. 3. ed. rev., ampl. e atual. Natal: Editora Jurídica OWL, 2021.

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igualdade, legalidade, anterioridade, e a defesa de um julgamento justo), pregando uma sensata regulamentação do direito de punir.

Quando da abordagem “Das medidas dos delitos”, vê-se a antecipação da proporcionalidade das penas afirmando ser o prejuízo causado à sociedade a real medida de um crime, não devendo, portanto, qualquer outra variante pesar sobre a pena quando da sua mensuração e aplicação. Impende registrar essa proporção entre os crimes e as penas abarcada por Beccaria (princípio da proporcionalidade), o filósofo afirmou que “o interesse geral não é apenas que se cometam poucos crimes, mas ainda que os crimes mais prejudiciais à sociedade sejam os menos comuns”, dessa forma, mostrou imprescindível essa proporcionalidade delito X punição13.

Ao abarcar “Dos meios de prevenir um crime”, Beccaria enfatiza a necessidade de leis claras, coesas e simples combatendo as leis imprecisas, arbitrárias e parciais existentes à sua época advindas da rigorosidade das instituições de direito até então existentes, como a Igreja, e seus órgãos policialescos, como a Santa Inquisição14.

Outra abordagem de Beccaria que se faz sobremaneira atual tem relação com a necessidade de educação para fazer dos homens pessoas melhores. O autor afirmou que

“Finalmente, a maneira mais segura, porém ao mesmo tempo a mais difícil de tornar os homens menos propensos à prática do mal, é aperfeiçoar a educação15”. Tal citação é outro presente do filósofo que se configura atual até os dias de hoje, corroborando para afirmar a atemporalidade da sua obra e ratificando de forma consistente a máxima de Pitágoras: “É preciso educar as crianças de hoje, para não precisar punir os homens de amanhã”16.

Como se pode observar, Beccaria serviu de grandiosa inspiração e apresentou um olhar humanizado17 sobre os delitos e sua forma de punição, bem como despertou, em diversos aspectos, a sociedade para a criação de um Estado Democrático de Direito.

Ressalte-se que a substância da obra de Beccaria ensejou um teor inovador e pioneiro na área processual penal, ocasionando a processualização do direito de punir e impondo

13 MATA JÚNIOR, Aelson Lopes et al. A 13ª Emenda: Um documentário Netflix. Resenha Crítica produzida como parte do conteúdo avaliativo da primeira unidade da disciplina Direito Processual Penal I, ministrada pelo docente Professor Doutor Walter Nunes da Silva Junior no curso de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

14 Ibidem.

15 BECCARIA, Cesare. Dos Delitos e das Penas. Trad. Torrieri Guimarães. São Paulo: Editora Martin Claret, 2017. p. 111.

16 Ibidem.

17 “A prisão como pena foi concebida com o propósito de humanizar a punição. Apresentou-se como a pena do futuro, tendo como finalidade tratar o preso e curá-lo para o retorno à vida em sociedade.” (SILVA JÚNIOR, Walter Nunes da; HAMILTON, Olavo (orgs.). Criminalidade, violência e segurança pública: apontamentos para uma política de estado. Natal: Editora Jurídica OWL, 2021. p. 166).

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limites à persecução penal que, até aquele momento, se perfazia ilimitada. A referida doutrina beccariana permeia as constituições americana, alemã, italiana, espanhola e portuguesa, bem como a constituição brasileira, mostrando-se atemporal, haja vista prever, já naquela época, princípios nunca antes consignados expressamente a exemplo da presunção de não culpabilidade ou de inocência, do direito ao silêncio, da publicidade e até o da celeridade, o qual foi preceituado por meio da EC nº 45 de 200418.

Ademais, objetivos e outros princípios corroboram com essa ideia de necessidade de limitação da atuação da justiça criminal. Consoante explicado por Walter Nunes, um dos objetivos fundamentais – erradicação da pobreza e da marginalização e redução das desigualdades sociais – reforça o caráter subsidiário do direito penal, que só deve atuar quando os demais ramos do direito não dispuserem de resposta suficiente ao problema, essa é a consagração do princípio da intervenção mínima, haja vista a ideia de caráter marginalizante do sistema criminal concebida desde essa época de Beccaria. O mesmo se configura com o princípio da promoção do bem de todos, sem preconceitos que reforça a identidade do sistema democrático-constitucional com a ideia ressocializadora. Nesse cenário, espera-se do sistema jurídico uma atuação voltada para transformação social cujo objetivo é buscar a reorientação do delinquente19.

A já referida abordagem com vistas à eficiência se coaduna com a realidade social atual que se efetiva sobremaneira diferente da época da gênese do direito criminal, a qual se configurava excessivamente lenta. Hodiernamente, impulsionada pelos avanços tecnológicos, a eficiência passa a ser palavra de ordem influenciando demasiadamente naquilo que se espera da justiça criminal, que deve caminhar em consonância com a sociedade que clama por celeridade.

A preocupação com o andamento processual não é recente, Brandalise cita como exemplo as Ordenações Afonsinas e chama atenção para o fato de que a celeridade do processo decorre da presunção de inocência ensejando, o processo que tarda, um sofrimento para o arguido prejudicando e determinando sua estigmatização20.

Essa rotulação já há muito retratada (abordada inclusive por Beccaria) perdura até os dias de hoje. Ana Cláudia Bastos de Pinho, ao tratar acerca da constituição do sistema de justiça criminal brasileiro, definiu-o como uma estratégia muito bem montada para fazer

18 SILVA JÚNIOR, Walter Nunes Da. Curso de direito processual penal: Teoria (constitucional) do Processo Penal. 3. ed. rev., ampl. e atual. Natal: Editora Jurídica OWL, 2021.

19 SILVA JÚNIOR, Walter Nunes Da. Curso de direito processual penal: Teoria (constitucional) do Processo Penal. 3. ed. rev., ampl. e atual. Natal: Editora Jurídica OWL, 2021.

20 BRANDALISE, Rodrigo da Silva. Justiça Penal Negociada: negociação de sentença criminal e princípios processuais relevantes. Curitiba: Juruá, 2016.

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“rodar” a máquina estatal contra um grupo específico de pessoas, as quais ela denominou

“indesejáveis da vez”21. Nessa perspectiva, observa-se quão antigo é esse estigma trazido pela justiça criminal, o fato de ter o nome vinculado a um processo penal, independente de ser ou não culpado, já enseja uma mácula na reputação do indivíduo que, frise-se, não se apaga, ainda que seja considerado inocente posteriormente.

A referida categorização agora retratada como “indesejáveis da vez” há muito se faz presente, a segregação se configurou em inúmeras passagens da “evolução” social, a guerra às drogas no estado norte-americano, fomentada na década de 70, distinguiu a população em cidadãos e inimigos e fomentou, sob a perspectiva da law and order, a contenção dos movimentos políticos da época que buscavam a igualdade modulando a política com contornos raciais travestidos da criminalização de condutas praticadas pelos “indesejáveis” da época22.

É a realidade criada pela criminologia midiática que, a despeito de não ter comprovação científica, desempenha um papel crucial na construção do olhar que a sociedade tem em relação ao crime, à repressão, ao desvio e à aplicação da pena23. É nesse cenário de pseudoconceituação que se configura a separação do eles (inimigos do Estado) do restante da sociedade que passa a clamar pelo encarceramento dessa parcela da população, pouco importando se isso vai significar uma violação sistemática e generalizada de direitos fundamentais.

No pensamento criminal humanista que deu ensejo aos ideais trazidos por Beccaria, a pena de prisão buscava garantir um tratamento mais digno, haja vista ter substituído os açoites, a tortura, as mutilações e, sobretudo, a pena de morte, os quais eram praxes àquela época24. Nos dias atuais, a sociedade, em uma visão mais democrática, enxerga o direito criminal em si como um direito de exceção, o que faz da pena privativa de liberdade a exceção da exceção, a qual só deve ser aplicada em último caso, quando da impossibilidade

21 LOPES JÚNIOR, Aury; PINHO, Ana Cláudia Bastos de; ROSA, Alexandre Morais da. Pacote Anticrime:

um ano depois: Análise da ineficácia das principais medidas penais e processuais implantadas pela Lei n.

13964/2019. São Paulo: Saraiva Educação, 2020. E-book.

22 MATA JÚNIOR, Aelson Lopes et al. A 13ª Emenda: um documentário Netflix. Resenha Crítica produzida como parte do conteúdo avaliativo da primeira unidade da disciplina Direito Processual Penal I, ministrada pelo docente Professor Doutor Walter Nunes da Silva Junior no curso de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

23 SILVA JÚNIOR, Walter Nunes da; HAMILTON, Olavo (Orgs.). Criminalidade, violência e segurança pública: apontamentos para uma política de estado. Natal: Editora Jurídica OWL, 2021. p. 273.

24 “O sofrimento físico, a dor do corpo não são mais os elementos constitutivos da pena. O castigo passou de uma arte das sensações insuportáveis a uma economia dos direitos suspensos. Se a justiça ainda tiver que manipular e tocar o corpo dos justiçáveis, tal se fará à distância, propriamente, segundo regras rígidas e visando a um objetivo bem mais ‘elevado’” (FOUCAULT, Michael. Vigiar e punir: nascimento da prisão.

Tradução de Raquel Ramalhete. 27. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1987. p. 15).

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de quaisquer outras medidas alternativas25. É essa visão, cuja baliza é a busca constante pela preservação dos direitos fundamentais e pela atuação justa do poder de punir estatal, que deve ser fomentada continuamente.

É princípio reitor da execução penal a assertiva de que o preso mantém todos os direitos que não sejam atingidos com a decisão que determina o recolhimento à prisão26. Essa impossibilidade de manutenção dos direitos é um dos fundamentos que corroboram com a necessidade de a pena privativa de liberdade ser tida como a exceção da exceção. É imprescindível o respeito dos direitos dos custodiados preceituados no artigo 41, da Lei nº 7.210, de 1984, Lei de Execução Penal27.

Merece ênfase o inciso XII28, que versa acerca do tratamento igualitário dos presos, devendo a administração penitenciária se pautar pelo princípio básico encartado na regra 2 das Regras de Mandela29, que versa sobre aplicação imparcial, não devendo haver discriminação baseada em raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou qualquer outra opinião, origem nacional ou social, propriedades, nascimento ou qualquer outra condição.

As regras de Mandela surgiram no ano de 1929, quando da redação acerca dos preceitos sobre o tratamento dos presos pela Comissão Internacional Penal e Penitenciária cuja aprovação pela Liga das Nações se deu cinco anos depois. No ano de 1955, tais diretrizes, intituladas como Regras Mínimas das Nações Unidas para o Tratamento de Presos, foram aprovadas pela ONU no 1º Congresso sobre Prevenção do Crime e Tratamento do Delinquente30. É importante ressaltar ainda que a Assembleia da ONU, em 1971, asseverou

25 SILVA JÚNIOR, Walter Nunes Da. Curso de direito processual penal: Teoria (constitucional) do Processo Penal. 3. ed. rev., ampl. e atual. Natal: Editora Jurídica OWL, 2021.

26 SILVA JÚNIOR, Walter Nunes da. Execução Penal no sistema penitenciário federal. Natal: Editora Jurídica OWL, 2020, p. 205.

27 “Art. 41: Constituem direitos do preso: I- alimentação suficiente e vestuário; II- atribuição de trabalho e sua remuneração; III- Previdência Social; IV- constituição de pecúlio; V- proporcionalidade na distribuição do tempo para o trabalho, o descanso e a recreação; VI- exercício das atividades profissionais, intelectuais, artísticas e desportivas anteriores, desde que compatíveis com a execução da pena; VII- assistência material, à saúde, jurídica, educacional, social e religiosa; VIII- proteção contra qualquer forma de sensacionalismo; IX- entrevista pessoal e reservada com o advogado; X- visita do cônjuge, da companheira, de parentes e amigos em dias determinados; XI- chamamento nominal; XII-igualdade de tratamento salvo quanto às exigências da individualização da pena; XIII- audiência especial com o diretor do estabelecimento; XIV- representação e petição a qualquer autoridade, em defesa de direito; XV- contato com o mundo exterior por meio de correspondência escrita, da leitura e de outros meios de informação que não comprometam a moral e os bons costumes; XVI- atestado de pena a cumprir, emitido anualmente, sob pena da responsabilidade da autoridade judiciária competente”.

28 “XII - igualdade de tratamento salvo quanto às exigências da individualização da pena”.

29 SILVA JÚNIOR, Walter Nunes da. Execução Penal no sistema penitenciário federal. Natal: Editora Jurídica OWL, 2020.

30 BASTOS, Paula; REBOUÇAS, Gabriela. Regras de Mandela: um estudo das condições de encarceramento no Brasil segundo a resolução da ONU. Disponível em: file:///C:/Users/Lenovo/AppData/Local/Temp/4999- 15223-1-PB-3.pdf. Acesso em: 24 jul. 2021.

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que as orientações deveriam ser implantadas pelos governos de todos os Estados-Membros na administração de suas instituições penais.

Enfatize-se que a despeito da disparidade gritante entre os direitos que devem ser garantidos aos presos os quais são embasados pelas regras de Mandela e a realidade carcerária brasileira, há de se considerar que o que se busca efetivamente é a não resignação frente ao cenário atual que mitiga direitos, quando faz da realidade do preso um palco de indignidades e de desrespeito às integridades física, moral e psicológica dos habitantes do cárcere. Essa irresignação perpassa pela possibilidade de condições dignas que ensejem a reinserção do preso na sociedade quando da sua soltura e tais condições são sobremaneira mitigadas com a superpopulação carcerária. Esse contexto reforça a necessidade de a pena privativa de liberdade ser uma exceção dando fôlego à implementação da justiça negocial.

Assim, depreende-se quão dificultosa se faz a efetivação desses direitos no contexto atual do sistema carcerário brasileiro, que deveria ter como sustentáculo a busca pela forma menos gravosa de execução das penas preservando a aplicação do princípio da dignidade da pessoa humana no ambiente penitenciário.

Com a edição da até hoje vigente Constituição democrática de 1988, foi impulsionada a necessidade de releitura do Código de Processo Penal, haja vista a base teórica do ordenamento jurídico criminal ter se tornado os direitos fundamentais configurando o Estado Democrático Constitucional.

Walter Nunes entende que esse sistema processual garantista não enseja a construção de uma ordem impotente frente à macrocriminalidade ou às ações sobremaneira ilícitas que pedem uma maior rigidez em seu combate, até porque o Estado tem o dever de proteção frente a esses direitos fundamentais, fazendo da persecução criminal um instrumento eficiente para tanto. Corroborando com o exposto, referencie-se posicionamento de Luciano Feldens:

“Estado Constitucional de Direito e garantismo são realidades autorreferentes, apontando, em conjunto, para a formulação de técnicas de garantias idôneas destinadas a assegurar o máximo grau de efetividade dos direitos fundamentais”31.

Sendo assim, a prática efetiva de um direito penal garantista não significa um cenário de impunidade frente aos crimes de grande monta que exigem uma maior rigidez estatal, o que se deve buscar é o equilíbrio com a aplicação da penalidade pautada pelo respeito aos direitos e garantias fundamentais corroborando para a efetivação do perfil democrático que sustenta a Constituição Federal de 1988 tendo o processo criminal, sob a sua égide, passado

31 SILVA JÚNIOR, Walter Nunes Da. Curso de direito processual penal: Teoria (constitucional) do Processo Penal. 3. ed. rev., ampl. e atual. Natal: Editora Jurídica OWL, 2021. p. 29.

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por diversas reformas, orientando-se, a partir de então, pela Teoria Constitucional do Processo Penal balizada pelo princípio acusatório e pela máxima proteção aos direitos e garantias fundamentais a despeito dos resquícios deixados pelo modelo inquisitivo32.

É a partir desse pensamento guiado pela preservação da dignidade da pessoa humana em consonância com a necessidade de celeridade processual e da aplicação de medidas diversas da prisão, que começa a se moldar a busca pela justiça consensual a qual tem como sustentáculo os institutos despenalizadores como a transação penal, a suspensão condicional do processo e o recente ANPP, objeto de estudo deste trabalho.

Essa busca pelo consenso é fomentada pela morosidade dos processos, pelo alto custo das prisões, além, sobretudo, dos inúmeros problemas sociais oriundos do encarceramento por não ter a prisão no contexto atual a possibilidade, nem mesmo ínfima, de ensejar a recuperação do infrator33.

As primeiras palavras de Walter Nunes no livro “A Execução Penal no sistema penitenciário federal” fortalecem essa ideia da ausência de ressocialização no ambiente carcerário. Indo além, o autor assevera que todos os sistemas gravitam tendo como coluna vertebral a prisão, chamando atenção para a permanência da crueldade a qual permeou a gênese da justiça criminal e hoje aparece revestida das paredes e grades dos cárceres que são palco de mortes atrozes, a exemplo dos massacres ocorridos nos presídios do Carandiru (1991), Pedrinhas (2010 e 2013) e Alcaçuz (2017)34.

Ademais, o quantitativo acerca da população carcerária enseja preocupação. De acordo com os dados de 2020 do Sistema de informações do Departamento Penitenciário Nacional – SISDEPEN, que compila informações estatísticas do sistema penitenciário brasileiro, foi computado, de janeiro a junho do referido ano, o número de 702.069 pessoas custodiadas, dentre as quais 209.257 estão presos provisoriamente35, ensejando uma superlotação do sistema carcerário, que é palco de tratamento degradante, sem conjunturas mínimas de subsistência com ausência de condições de higiene, de alimentação e de infraestrutura

32 LIRA, Sêmely Clície Rodrigues Batista Lira. O direito ao julgamento dentro de um prazo razoável no âmbito da justiça criminal: um estudo à luz do Estado Democrático Constitucional. Dissertação (Mestrado em Direito) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal-RN, 2020.

33 “Um terrível aspecto da condenação à reclusão, também por um período breve, é que ninguém tem certeza, naquele período, de não morrer. Tanto basta dizer que o processo penal, o qual não termina com a condenação, mas segue com a expiação, pode durar até a morte” (CARNELUTTI, Francesco. As misérias do processo penal. 1995. CONAN. p. 57).

34 SILVA JÚNIOR, Walter Nunes Da. Execução Penal no sistema penitenciário federal. Natal: Editora Jurídica OWL, 2020.

35 SISDEPEN. Presos em Unidades Prisionais no Brasil: Período de janeiro a junho de 2020. Disponível em:

https://app.powerbi.com/view?r=eyJrIjoiMjU3Y2RjNjctODQzMi00YTE4LWEwMDAtZDIzNWQ5YmIzM zk1IiwidCI6ImViMDkwNDIwLTQ0NGMtNDNmNy05MWYyLTRiOGRhNmJmZThlMSJ9 Acesso em: 24 jul. 2021.

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adequadas ensejando a proliferação de doenças, sobretudo no contexto pandêmico da Covid- 2019 pelo qual passa o mundo inteiro.

Nos dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2021, consta a ocorrência de 57.619 casos de coronavírus entre os presos, e 21.419 entre os servidores do sistema, o que significa uma taxa de incidência de 7.642 casos a cada 100.000 presos e de 18.323 casos a cada 100.000 funcionários do sistema carcerário. Traduzindo em percentuais, a taxa de presos infectados pela Covid-2019 supera em 3,3% a taxa verificada no país, já na taxa dos servidores essa superação é sobremaneira maior: 147,8%36. O contexto pandêmico agrava a já conhecida realidade das prisões brasileiras, reforçando a necessidade de se prender menos e melhor e buscar, cada vez mais, a recuperação daqueles que habitam os cárceres.

Ratificando o cenário dos presídios brasileiros, relevo merece classificação feita pelo World Prision Brief – banco de dados on-line que fornece acesso gratuito a informações sobre sistemas prisionais em todo o mundo cujos levantamentos são feitos pelo Institute for Crime

& Justice Research (ICPR) – na qual o Brasil é ocupante do terceiro lugar no ranking dos países que mais encarceram a sua população, perdendo apenas para os Estados Unidos e para a China 37.

Nesse contexto de busca pelo direito penal mínimo38, pelo desencarceramento e pela ressocialização, o ambiente democrático passa a perseguir a aplicação de soluções que não ensejem, efetivamente, a prisão do infrator, pois, conforme já pontuado, o cárcere está longe de propiciar a referida ressocialização. Aliado a isso, tem-se a necessidade de celeridade na qual se pauta a sociedade atual que passa a cobrar eficiência também da atuação estatal, tal cobrança se efetiva sobremaneira no âmbito do direito penal contribuindo para a relevância da criação de institutos que permitam essa brevidade do sistema de justiça criminal.

É nesse cenário que eclode o movimento que preza pela efetivação da justiça criminal consensual, haja vista o caráter célere e abreviador e cuja inspiração se dá no modelo anglo- saxão cujo percentual de acordos firmados se sobrepõe a 97%, consoante exposto no documentário 13ª Emenda, da Netflix39. O símbolo da justiça negocial são os Estados Unidos

36 Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2021. Pandemia de Covid-19 dentro das prisões brasileiras.

Disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2021/07/anuario-2021-completo-v6-bx.pdf Acesso em: 19 jul. 2021.

37Disponível em: https://www.prisonstudies.org/highest-to-lowest/prison-population- total?field_region_taxonomy_tid=All Acesso em: 15.07.2021.

38 “O que diferencia o Direito Penal dos outros ramos é a violência da sua intervenção e as consequências jurídicas. O Direito Penal é direcionado pelo princípio da intervenção mínima. É o único que tem como consequência a pena privativa de liberdade” (OLDONI, Airto Chaves Júnior Fabiano. Para que (em) serve o direito penal? Uma análise criminológica da seletividade dos segmentos de controle social. Rio de Janeiro:

Lumen Juris, 2014. p. 19).

39 DUVERNAY, Ada. (Dir.) A 13ª Emenda. Produção: Kandoo Films. 2016.

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da América, o conhecido plea bargain já deixou a circunscrição norte-americana e descortinou, não na mesma proporção, o continente europeu, influenciando sobremaneira os demais sistemas criminais. Sendo assim, merece relevo, ao se estudar o fenômeno da justiça negocial, a abordagem do instituto americano, a qual permite uma análise acerca da função que os mecanismos de consenso podem desempenhar no âmbito do sistema criminal.

2.2 PARADIGMA DA JUSTIÇA NEGOCIAL E OS INSTITUTOS DESPENALIZADORES NO PROCESSO PENAL BRASILEIRO

O sistema adversarial é o berço, por excelência, da negociação da sentença criminal40. Sendo assim, relevante se perfaz percorrer os modelos ou sistemas processuais criminais – inquisitivo, acusatório e misto – que, segundo Walter Nunes, decorrem dos princípios que lhes são inerentes 41. O sistema inquisitivo, que perdurou do Século XII até o XVIII, era fomentado pelas ideias da Escola Positivista com viés punitivo e cujo foco do direito criminal era o Estado.

É importante ressaltar que o sistema adotado pelo Código de Processo Penal brasileiro foi o misto que, segundo Brandalise, teve como marco o Código de Instrução Criminal Francês de 180842, dotado de forte sotaque inquisitivo e que faz do magistrado o protagonista do processo o qual acumula várias tarefas, inclusive a de iniciativa probatória em busca da inalcançável verdade real. Ademais, Walter Nunes assevera que embora como regra geral a iniciativa do processo estivesse vinculada ao ajuizamento da ação penal, para alguns casos – contravenções, homicídios e lesões corporais – o processo poderia ter início por portaria do juiz ou, até mesmo, da autoridade policial, característica própria do sistema inquisitivo43.

Com a promulgação da Constituição Federal de 1988, o princípio acusatório se personifica na competência privativa do Ministério Público para propositura da Ação Penal Pública, consoante o artigo 129, I, da Carta Magna. Ademais, para efetivação de um processo penal condizente com o Estado Democrático de Direito, imprescindível se faz que seja dada ao acusado a titularidade de sujeito de direitos para que atue como parte ao lado do Parquet, ensejando, dessa forma, a efetivação da paridade de armas.

40 BRANDALISE, Rodrigo da Silva. Justiça Penal Negociada: negociação de sentença criminal e princípios processuais relevantes. Curitiba: Juruá, 2016. p. 59.

41 SILVA JÚNIOR, Walter Nunes; D. HAMILTON, Olavo (Orgs.). Pacote Anticrime: temas relevantes. Natal:

Editora Jurídica OWL, 2021.

42 BRANDALISE, Rodrigo da Silva. Justiça Penal Negociada: negociação de sentença criminal e princípios processuais relevantes. Curitiba: Juruá, 2016.

43 SILVA JÚNIOR, Walter Nunes Da. Curso de direito processual penal: Teoria (constitucional) do Processo Penal. 3. ed. rev., ampl. e atual. Natal: Editora Jurídica OWL, 2021. p. 411.

Referências

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