MESTRADO EM LITERATURA BRASILEIRA
A FOME:
UM ROMANCE DO NATURALISMO?
Gildênia Moura de Araújo Almeida
A FOME:
UM ROMANCE DO NATURALISMO?
Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Letras, da Universidade Federal do Ceará como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Literatura Brasileira.
Orientador: Prof. Dr. Rafael Sânzio de Azevedo
Biblioteca de Ciências Humanas – UFC_____
A447f Almeida, Gildênia Moura de Araújo.
A fome [man uscrito] : um romance do naturalismo? / por Gildênia Moura de Araújo Almeida. 2007.
107 f. : il ; 31 cm.
Cópia de computador (printout(s)).
Dissertação(Mestrado) Universidade Federal do Ceará,Centro de Humanidades, Programa de Pós-Graduação em Literatura, Fortaleza(CE),06/09/2007.
Orientação: Prof. Dr. Rafael Sânzio de Azevedo. Inclui bibliografia.
1-TEÓFILO, RODOLFO,1853-1932.A FOME CRÍTICA E INTERPRETAÇÃO.2-NATURALISMO NA LITERATURA.3-ROMANTISMO - BRASIL. I-Azevedo,Rafael Sânzio de, orientador.II.Universidade Federal do Ceará. Programa de Pós-Graduação em Literatura. III- Título.
CDD(21ª ed.) B869.33
Dissertação apresentada como requisito final necessário para a obtenção do título de Mestre em Literatura Brasileira, pelo Curso de Mestrado em Letras, da Universidade Federal do Ceará (UFC).
Dissertação aprovada em: 06/ 09/ 2007
______________________________________________________ Gildênia Moura de Araújo Almeida
B
ANCAE
XAMINADORA__________________________________________________ Prof. Dr. Rafael Sânzio de Azevedo
Orientador
__________________________________________________ Profª. Drª Vera Lúcia Albuquerque de Moraes
1º Examinador
_________________________________________________ Prof. Dr. Francisco Tarcísio Cavalcante
2º Examinador
____________________________________________________________ Professora Doutora Fernanda Maria Abreu Coutinho
Primeiramente a Deus, por estar aqui com saúde;
Ao professor Rafael Sânzio de Azevedo, pelas orientações preciosas;
Aos professores do Mestrado em Letras (UFC), pelos conhecimentos divididos;
À professora Vera Moraes pelas observações a este trabalho no Exame de Qualificação;
Aos colegas da Secretaria de Educação de Maracanaú em especial ao Prof. Mauro Braz de Aquino pelo apoio;
Aos colegas da E.M.E.F. Presidente Tancredo Neves pela compreensão do meu horário;
Aos colegas do CREDE 1 Maracanaú, pelo incentivo, desde da minha seleção para o Mestrado;
Aos meus amigos por estarem dispostos a me ajudarem em minhas pesquisas.
Ao meu marido, companheiro e incentivador, Hélcio Silva; Às minhas filhas, Estefânia e Letícia, pela paciência;
Aos meus pais, Iracema e Nonato, por tantos dias que estive ausente;
INTRODUÇÃO ... 9
1 NATURALISMO ... 13
1.1 NA FRANÇA... 14
1.2 EM PORTUGAL... 19
1.3 NO BRASIL... 20
1.4 NO CEARÁ... 22
1.4.1 Rodolfo Teófilo... 23
1.4.2 Obras ... 28
2 A FOME... 36
2.1 UMA INTRODUÇÃO... 36
2.2 A FOME: UMA ANÁLISE LITERÁRIA... 38
2.2.1 A ação... 40
2.2.2 O tempo ... 61
2.2.3 O espaço ... 63
2.2.4 Os personagens ... 64
2.2.4.1 A importância do nome das personagens ... 68
2.2.5 O ponto de vista/ foco narrativo... 73
2.2.6 Os recursos narrativos ... 75
2.3 IMAGENS, SÍMBOLOS, MITOS, SUPERSTIÇÕES, COSTUMES E REFERÊNCIAS EM A FOME... 85
2.3.1 Sobre o Capítulo Êxodo ... 85
2.3.2 Sobre o Capítulo A Casa Negreira... 88
2.3.3 Sobre o Capítulo Misérias ... 89
CONCLUSÃO... 91
INTRODUÇÃO
O presente trabalho estuda a obra literária A Fome, de Rodolfo Teófilo. Para chegar ao autor cearense de coração, como o próprio escritor gostava de definir sua naturalidade, visto que é baiano por acidente, foi necessário um estudo histórico-literário do Realismo-Naturalismo desde a França, passando por Portugal, chegando ao Brasil, e finalmente ao Ceará.
Originados na França na segunda metade do século XIX, Realismo e Naturalismo representaram repúdio ao Romantismo e caracterizaram-se pelo espírito de exatidão, objetividade científica, precisão na descrição e tentativa de imitação da realidade.
Com o Realismo temos a defesa da razão, sofrendo influência do Positivismo, sobretudo na busca do conhecimento dos fatos através da experiência. Os escritores deste movimento literário seguem a linha filosófica determinista de Taine (o comportamento humano, na obra de arte que o investiga, é determinado pela confluência de três fatores: meio, no qual está inserido o personagem; raça, com sua origem e povo; e momento histórico em que ocorre o enredo). O novo ideal científico se encarna no conceito da evolução de Darwin, na idéia de evolucionismo social de Spencer. O escritor realista assemelha-se aos homens de ciência quando escreve seus textos com a minuciosa observação dos fatos, análise psicológica das personagens, estudo de costumes, põe de forma impessoal e objetiva a representação do mundo, e escolhe uma linguagem que seja mais próxima da realidade.
um aspecto sociológico, às vezes político, quando não psíquico. No Realismo o autor é indireto na interpretação, deixa subentendido, e é o leitor que tira suas conclusões. No Naturalismo o autor é direto na interpretação, expõe conclusões e cabe ao leitor aceitá-las ou discuti-las.
Com todas essas idéias surge na França o Realismo-Naturalismo: Madame Bovary,
de Gustave Flaubert, em 1857 (o Realismo) e 10 anos depois, em 1867 Thérèse Raquin, de Émile Zola (o Naturalismo).
O Realismo português inicia-se em 1875 com O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, e em 1891 o Naturalismo com O Barão de Lavos, de Abel Botelho.
No Brasil as idéias do Realismo-Naturalismo deram continuidade ao ideal francês e português. Em 1881, Machado de Assis publica Memórias Póstumas de Brás Cubas, romance realista, e no mesmo ano houve a publicação de O Mulato, de Aluísio Azevedo, com idéias naturalistas.
Focalizando a Literatura Cearense, os movimentos Realismo e Naturalismo surgiram na década de 1880, com o Clube Literário, que teve como órgão na imprensa a revista A
Quinzena, que circulou de 1887 a 1888, fazendo um total de 30 números. Participaram desse
periódico: João Lopes, Antônio Martins, Abel Garcia, José de Barcelos, José Olímpio, José Carlos Júnior, Oliveira Paiva, Antônio Bezerra, Justiniano de Serpa, Paulino Nogueira, Martinho Rodrigues, Farias Brito, Pápi Júnior, Ana Nogueira, Francisca Clotilde, Álvaro Martins, Juvenal Galeno e outros. O Realismo despontava com os contos de Oliveira Paiva e os de Rodolfo Teófilo. A prosa naturalista consolidava-se com a publicação em 1890 do romance A Fome, de Rodolfo Teófilo. O Realismo-Naturalismo na prosa cearense fortalecia-se com, além dos dois escritores já citados, Adolfo Caminha e Pápi Júnior.
A fundamentação maior desta dissertação é sobre a obra A Fome, de Rodolfo Teófilo. Nascido na Bahia, em 6 de maio de 1853, contudo foi no Ceará que passou toda sua vida, exercendo as atividades de cientista e escritor até a sua morte em 2 de julho de 1932, aos 79 anos de idade. Foi caixeiro, farmacêutico, professor, sanitarista, um defensor das causas abolicionistas, escritor e o último Padeiro-Mor da Padaria Espiritual. Homem respeitado pelo seu trabalho, até numa obra de ficção é mencionada a sua luta contra a peste da varíola: em
Realiza-se nesta dissertação um estudo histórico desde o início do Realismo-Naturalismo, da França até ao Ceará com aprofundamento no autor Rodolfo Teófilo e suas obras; em seguida uma análise literária da obra A Fome, focalizando principalmente a linha interpretativa de Vladimir Propp (sabendo-se que não há obrigatoriedade em encontrar todas as características da tipologia estrutural de uma narrativa).
Quanto da análise dos personagens foi dado destaque a Inácio da Paixão, como um personagem plano do qual nos fala Forster (1974), pois a ação praticada por Inácio, mesmo sendo um personagem secundário, dá ao enredo uma mudança total na vida dos outros participantes: a sua dependência à jogatina, motivo por que aposta todo o dinheiro de Manuel de Freitas, deixando este e sua família na miséria, faz com que analisemos o modo como Inácio não cuida de si mesmo e o quanto sua ação prejudica o outro. O cuidar do ser e do cuidar de si mesmo numa interpretação do sujeito, em relação ao personagem Inácio da Paixão. É um trabalho de questionamento e investigação, que não trata de resolver cientificamente a ambigüidade do texto literário, e sim problematizá-la através de um diálogo entre o texto, a obra em si, e o intérprete.
A partir do trabalho com a interpretação do texto, podem-se ter outras possibilidades de estudos para ampliar a visão do fenômeno literário. Exemplos: uma complementação intertextual fazendo uma correlação da obra analisada com outras obras do mesmo autor ou do mesmo período, comparando com produções de outras épocas e/ou outros autores, em função de semelhanças ou contrastes. Como exemplificação, na obra A Seca de 1915, de Rodolfo Teófilo (no capítulo 10, página 63) refere-sea Medeiros de Albuquerque, que faz um comentário sobre o livro do escritor norueguês Knut Hamsun, que publicou no mesmo ano (1890). O livro Fome. É realizado um trabalho de interpretação textual fazendo um estudo comparativo entre as duas Fomes.
Para uma interpretação do texto, utilizaram-se estudos sobre mitos, superstições e simbologias que há na obra A Fome. Rodolfo Teófilo utiliza a verdade em relação à seca cearense, mas também usa costumes nordestinos para deixar sua obra com característica de uma ficção regionalista.
Seu amigo, Antônio Sales, na primeira edição de Aves de Arribação (1914), dedica esse seu romance ao escritor: A Rodolfo Teófilo, o fiel e poderoso intérprete da alma cearense, com viva admiração e profundo afeto é dedicado este livro. Em Geografia da Fome o autor Josué de Castro faz semelhante homenagem: À memória de Euclides da Cunha e Rodolfo Teófilo das áreas de Fome do Brasil.
Dadas as várias leituras interpretativas que uma obra literária permite, os estudos aqui desenvolvidos pretendem ser mais uma interpretação e também um meio de resgatar este autor para a nossa sociedade. Ele pode não ter sido um escritor de esmerado estilo, contudo, Rodolfo Teófilo procurou através de suas obras um valor documental da verdade e da vida, principalmente, do povo cearense.
1 NATURALISMO
A temática sobre o que é o real tem sido re-estudada várias vezes pelos pensadores. A doutrina filosófica conhecida por Realismo é a que afirma a existência de uma realidade propriamente dita, opondo-se à realidade subjetiva e interior do Idealismo.
Em Literatura, o Romantismo é o oposto do Realismo. O ponto principal do eu e a exaltação dos sentimentos muito vista na era romântica, passam a ser substituídos por algo que está fora do eu: o que nos rodeia, a verdadeira realidade. Portanto, o Realismo literário é uma reação contra o idealismo romântico.
Os romances mudam de temática e de foco, não existe mais o mundo perfeito, puro e ingênuo. A nova vida é demonstrada como realmente é com suas alegrias, tristezas e mazelas. Os romances realistas são considerados verdadeiras obras de tese.
Deste movimento literário real surgiu outro mais forte nas suas descrições verídicas: o Naturalismo. Os escritores naturalistas, em seus romances de tese, preocuparam-se mais com os aspectos científicos, e patológicos (homossexualismo, lesbianismo, incesto, taras, entre outros)
Enquanto os realistas fazem suas teses direcionadas a um aspecto sociológico, às vezes político e psíquico, os naturalistas acentuam os aspectos fisiológicos, científicos e patológicos.
Fala-se que [...] o Naturalismo começa onde pára o Realismo, ou seja, os naturalistas exploram uma análise até o final, enquanto os realistas a deixam em suspenso. Contudo, no geral, Realismo e Naturalismo se confundem, tanto que [...] todo naturalista realista é, mas nem todo realista é naturalista. (MOISÉS, 2004, p. 379)
Tomemos um esquema para as características do Realismo-Naturalismo:
1. Objetividade: o narrador está fora da cena;
2. Ocorrência da verdade e não a verossimilhança;
3. Interpretação da vida: causas e efeitos;
5. O homem é um caso a ser estudado;
6. Concepção materialista do homem;
7. Atitude crítica (é o mesmo que Reformismo), por exemplo: Castro Alves atacava a escravidão através das poesias, os realistas-naturalistas queriam mudar a sociedade através dos romances;
8. Detalhes específicos;
9. Problema moral;
10. Retrato da vida contemporânea;
11. Determinismo social;
12. Determinismo genético.
1.1 N
AF
RANÇAPara se entender o Naturalismo é necessário fazer uma retrospectiva na história literária, desde o final do Romantismo francês até o Realismo.
O Realismo literário teve como precursor, não um escritor, mas um cultor das artes plásticas. Um dos grandes responsáveis por esta mudança na pintura foi Gustave Courbet que expõe no salão de 1850-1851 a pintura o Enterro em Ornans, e em 1853 uma tela considerada escandalosa, As Banhistas. Ambas as telas foram recusadas em 1855, na Exposição Universal. Então, Gustave Courbet, revoltado com o fato ocorrido, resolve abrir sua própria exposição e põe na fachada o anúncio: Le Réalisme G. Courbet / Exhibition de Quarente Tableaux de son Oeuvre (O Realismo G. Courbet/ Exibição de Quarenta Quadros de sua Obra). O manifesto do pintor marca o início de uma campanha pela sinceridade na arte (oposta à romântica: pela liberdade na arte). A sinceridade na arte foi acrescida da idéia de que a arte deveria educar e retratar a sociedade.
O artista rebelde enfatiza sua manifestação contra o Romantismo, em 1861, numa conferência na Antuérpia, dizendo que [...] o núcleo do Realismo é a negação do ideal. O
Neste mesmo ano, Karl Marx inicia uma longa obra de análise da burguesia e do capitalismo com O Manifesto Comunista. Também neste período Renan escreve O Futuro da Ciência, valorizando a Ciência e as idéias de Augusto Comte, o qual escreveu Curso de Filosofia Positiva (1950). As idéias positivistas influenciaram os escritores naturalistas. Os realistas adotam as concepções filosóficas inspiradas no Positivismo (de Auguste Comte) e no Determinismo (de Hippolyte Taine); a arte representa o homem condicionado pelo meio, pelo momento histórico e pela herança.
De acordo com o positivismo de Comte no seu Curso de Filosofia Positiva, só devem ser considerados como existentes os fatos que podem ser analisados cientificamente (cultua a ciência e valoriza o método científico):
O Estado Positivo é, pois, o termo fixo e definitivo em que o espírito humano descansa e encontra a ciência. As sociedades evoluem segundo essa lei, e os indivíduos, em outro plano, também realizam a mesma evolução. Partindo do princípio de que o objeto da ciência é só o positivo, isto é, o que pode estar sujeito ao método da observação e da experimentação, Augusto Comte só reconhece as ciências experimentais ou positivas, que tratam dos fatos e das suas leis. (RIBEIRO, 2003, p. 19)
No determinismo histórico e geográfico de Taine, o comportamento humano e, portanto, da obra de arte que investiga este comportamento, é determinado pela confluência de três fatores: meio, raça e momento histórico. Doutrina que afirma que todo agir humano é determinado por variáveis biológicas, ou seja, que todas as suas vontades e ações não são livres de uma determinação do sujeito e sim como resultado de mecanismos biológicos, por exemplo, o determinismo genético (raça), em que uma pessoa é determinada pelos seus gens. Outra idéia do determinismo é o meio influenciando na ação de um indivíduo (meio), como também o fator histórico (momento). É a teoria segundo a qual tudo está determinado pelo meio onde o indivíduo convive, pela raça através da genética e pela época, momento histórico. Sendo assim, os fatores externos determinam a personalidade do indivíduo. Para Taine o homem é uma presa do ambiente em que vive, ao qual se soma a hereditariedade.
Quanto ao evolucionismo de Darwin (A origem das espécies 1859), em sua teoria na evolução das espécies, há uma seleção natural que faz os mais fortes derrotarem os mais fracos.
O evolucionismo social do filósofo e sociólogo Spencer (Princípios de Moralidade
desconhecer a doutrina darwiniana, foi evolucionista, expondo em seus livros com clareza a teoria da origem das espécies.
Proudhon foi um dos pensadores que se deixaram seduzir pela doutrina positivista, com idéias voltadas para as questões sociais, era contra a Igreja Católica, o Comunismo e pregava a anarquia e a abolição da propriedade privada. Suas obras são: Sistemas das Contradições (1846), Do Princípio da Arte e sua Destinação Social (1865), Teoria da Prosperidade (1866).
Com o socialismo científico de Marx e Engels na luta de classes, o poder burguês tende a ser superado pelo poder do proletariado. Karl Marx, mais do que um filósofo, tornou-se uma espécie de mito que, conforme o grupo social despertou e desperta profunda simpatia ou violentos rancores. Em setembro de 1844, Marx conheceu em Paris, Friedrich Engels, e juntos participaram de diversas atividades políticas e escreveram várias obras com os temas sociais e movimentos do mundo operário. A doutrina filosófica formulada por Marx e Engels denomina-se materialismo dialético, preocupando-se em destacar a importância dos seres objetivos como elementos constitutivos da realidade do mundo. No plano social esses seres objetivos formam a base material da sociedade que é constituída pela estrutura econômica que garante a manutenção da existência coletiva.
A negação do Cristianismo de Renan (O Futuro da Ciência 1848) resulta na crença absoluta nas conquistas das ciências. Joseph Ernest Renan desliga-se da Igreja e propaga suas idéias racionalistas, não poupando nem mesmo Jesus Cristo. Pelo estilo aprimorado e originalidade científica, contribuiu para o desenvolvimento da Academia Francesa.
O surgimento dessas escolas de fundo realista já demonstrava no final do Romantismo que se caracterizava por uma postura crítica e social. As chamadas narrações de costumes burgueses, que destacaram Balzac e Stendhal, exemplificam a passagem do Romantismo para o Realismo, sendo mais uma continuidade evolutiva que uma ruptura. Tanto os romances de Balzac (Comédia Humana 1839-1842) e Stendhal (O Vermelho e o Negro 1830) representavam a sociedade francesa, e tendo como tema o dinheiro que simbolizava a união dos fatores econômicos e sociais da época:
De repente Julien parou de falar em Napoleão; anunciou o plano de se tornar padre, e passaram a vê-lo constantemente, na serraria do pai, empenhado em decorar uma Bíblia latina emprestada pelo cura. O bom velho, maravilhado com seus progressos, passava noites inteiras ensinando-lhe teologia. Julien exibia apenas sentimentos piedosos. Quem teria adivinhado que aquele rosto de mocinha, tão pálido e tão doce, escondia a resolução inquebrantável de se expor a mil mortes, contanto que fizesse fortunas! (STENDHAL, 2003, p. 42)
Contudo, quem mais influenciou as idéias realistas e é considerado o verdadeiro filósofo do Realismo é Taine. Ele deu a idéia do positivismo em matéria literária, preconizando a dependência da Psicologia à Fisiologia (segundo a qual três leis regeriam o produto da criação estética: herança, ambiente e momento).
A arte literária, absorvendo tais ensaios de positividade científica, voltou-se agressivamente contra o Romantismo: os realistas preconizavam um enfoque objetivo do mundo, em oposição ao subjetivismo romântico. Para tanto, propunham substituir o sentimento pela Razão, ou pela inteligência, o egocentrismo romântico pelo universalismo científico e filosófico, o culto do eu pelo do não-eu, entendido como sinônimo de realidade objetiva. Rechaçavam a Metafísica e a Teologia, em favor de uma visão científica da realidade, atenta mais ao como que ao por que dos fenômenos: o conhecimento positivo, suscetível de ser experimentado, verificado, analisado, em lugar do mistério, a indeterminação, o vago romântico. Quanto à psicologia, desejavam-na científica, entendendo-a não como alma ou espírito, mas como manifestação fisiológica. Republicanos, por vezes socialistas, combatiam a Monarquia, a Burguesia e o Clero. (MOISÉS, 2004, p. 379)
Madame Bovary, considerado um romance de tese, inaugura em 1857 o romance realista que deu o golpe final no Romantismo. Gustave Flaubert colocou como tema central, nesta obra, o adultério feminino. O autor questiona os valores burgueses relacionados ao casamento e demonstra que o mundo ilusório romântico levava à decomposição moral.
Passados 10 anos, Émile Zola, com Thérèse Raquin, inaugura o romance naturalista. Sabe-se que o Romantismo foi a expressão própria de ascendência da burguesia, e o Realismo-Naturalismo o de sua decadência.
em busca de um mundo real, que pudesse ser explicado pela ciência. Conforme as idéias de Comte, o imaginário misterioso e alegórico do romantismo passou a ser substituído por fatos observáveis, que pudessem ser documentados, analisados e experimentados. Os realistas procuravam uma arte na qual eles poderiam comportar-se como verdadeiros cientistas, visto que eles faziam estudos e pesquisas para falarem sobre um assunto relacionado com a ciência.
Para os escritores realistas-naturalistas o tema do casamento é uma peça importante para ser atacada, porque ele é considerado a célula-mater da sociedade burguesa. Nos romances destes movimentos literários focaliza-se muito o adultério, para exatamente vir confrontar com as idéias românticas: em que o casamento é o enlace burguês, todos sonham com esse lar feliz, os casais são os eternos apaixonados e a família a mais perfeita possível. Nas idéias realistas-naturalistas há essa quebra de harmonia, o lar é desfeito, a mulher é vista como a causadora do adultério, e a família não é mais o modelo de amor e união:
De onde, torpedear o casamento significa, para os realistas, trazer à luz as falhas das instituições que o sustentavam e nele se apoiavam: a Burguesia, como sistema de vida, a Monarquia, como sistema de governo, e a Igreja, como sistema ideológico. (MOISÉS, 2001, p. 24)
Para os escritores deste movimento a obra literária passou a ser considerada uma arma de combate, voltada para a transformação do corpo social. Os mais ortodoxos consideravam que a arte deveria ser compromissada ou engajada. Eles faziam obra de observação e acusação. De acordo com Zola (1972, p. 174), o romance deixava de ser fabulação de ordem sentimental para ser experimental e de denúncia:
1.2 E
MP
ORTUGALA primeira manifestação contra o Romantismo português veio de um grupo de estudantes da Universidade de Coimbra, que mantinha contato com Paris.
Houve polêmica em relação às novas idéias literárias do Realismo-Naturalismo. Alguns escritores não queriam aceitar o novo modo de escrever dos jovens universitários. Antônio Feliciano de Castilho faz críticas ao novo movimento e refere-se especificamente aos poetas Teófilo Braga e Antero de Quental:
Foi a estes dois jovens autores que Castilho se referiu, prefaciando os
Poemas da Mocidade, de Pinheiro Chagas, em 1865, de forma irônica, acusando-os de exibicionismo e obscuridade, anatematizando-os com o que chamava, depreciativamente escola coimbrã. Assim começou o que viria a ser a Questão Coimbrã, de que participariam as mais destacadas figuras das letras portuguesas. (SODRÉ, 1965, p. 44)
Em 1871, os jovens intelectuais, Eça de Queirós, Antero de Quental, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Augusto Soromenho, Adolfo Coelho e outros organizam uma série de Conferências Democráticas, que seriam realizadas no Cassino Lisbonense. Porém, depois da quinta conferência, o cassino foi fechado por decreto real: por causa das críticas feitas ao catolicismo e pelas idéias revolucionárias. Apesar das polêmicas e o fechamento do local, as idéias realistas-naturalistas foram divulgadas, iniciando assim, a renovação da cultura portuguesa, no final do século XIX, principalmente nas décadas de 70 e 80.
O Realismo português iniciou-se com as poesias de espírito revolucionário, idéias científicas e sociais, seus autores principais são: Antero de Quental, Cesário Verde, Gomes Leal e Guerra Junqueiro.
Em relação à prosa de ficção, o desenvolvimento do romance é de denúncia social, de crítica à mentalidade burguesa e romântica. Os escritores portugueses foram inspirados pelos autores franceses, Flaubert, com Madame Bovary; pelos ideais positivistas, como suas obras de teses, que demonstravam a falência da sociedade monárquica; pela corrupção do clero; pela decadência da Igreja Católica e pelas hipocrisias da vida burguesa:
mostra o declínio completo da instituição burguesa, os realistas atacaram de frente o seu núcleo; o casamento, trazendo a nu as misérias que o destroem como alicerce da Burguesia, misérias essas condenadas no adultério, tornado lugar-comum elegante. (MOISÉS, 1985, p. 235)
Em Portugal, o primeiro romance realista aparece em 1876 com O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós; e o Naturalismo, em 1891, com o Barão de Lavos, de Abel Botelho.
1.3 N
OB
RASILPercebem-se as diferenças cronológicas entre o Realismo e Naturalismo na Europa: na França são 10 anos (R 1857; N 1867)1 e em Portugal 16 anos (R 1875; N 1891). No Brasil, porém, não houve essa distância de tempo, há uma coincidência cronológica entre as duas escolas: Machado de Assis publica em 1881, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Aluísio Azevedo torna público O Mulato o primeiro representando o romance Realista e o segundo, o Naturalismo.
Com Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis (considerado o maior
escritor em prosa da literatura brasileira) dá um salto para a modernidade literária, que antecipa em vários aspectos a crítica da linguagem tradicional da narrativa: com microcapítulos digressivos; enredo não-linear; constante metalinguagem; estilo anti-retórico; análise psicológica anunciando a psicanálise das personagens; humor sutil e permanente; ironia fina e corrosiva; visão metafísica relativista de todos os valores humanos, considerada pessimista; e uma linguagem repleta de ambigüidade. A narrativa de Memórias Póstumas de Brás Cubas é contada por um defunto autor, ou seja, Brás Cubas (defunto) conta a sua vida.
Em O Mulato, de Aluísio Azevedo, percebe-se uma mistura dos elementos
naturalistas com os elementos românticos, mostrando assim que o processo de conversão do escritor para o novo estilo ainda não estava amadurecido. A interpenetração de estilos ocorre nos episódios de tragédia romântica com mortes passionais e de violências que lembram o estilo romântico.
O determinismo é evidenciado nas obras realistas-naturalistas quando os narradores se movem ao trabalhar seus personagens em relação ao agir destes sendo determinado por variações biológicas como resultados de mecanismo, ou seja, ocorre um determinismo genético. Por exemplo: quando o personagem Bilinha em Aves de Arribação, de Antônio Sales (1979), segue o mesmo instinto da mãe e de todas as mulheres de sua família, entregando-se aos prazeres da carne:
Ora, até que afinal chegou a tua vez, minha donzelinha das dúzias! Agora vai acabar-se o meu cativeiro. De hoje em diante hás de abaixar a grimpa diante de mim! Ah! Ah! Mulher de nossa raça não mente fogo... Eu sabia que havia de cair também, mesmo com a tua proa e com a tua sabença... Já não hás de sentir tanto desprezo e tanta vergonha de tua mãe, a quem tratas como a uma cadela. Agora falaremos de igual a igual... Tão bom como tão bom! Muitas felicidades, senhores noivos! Estejam à vontade, e até amanhã. (p. 104)
A neutralidade não existe nesta escola literária, como ocorre no Romantismo, o escritor carrega de tom sombrio seus personagens realistas-naturalistas. Do Romantismo ao Realismo-Naturalismo houve uma passagem do vago ao típico, do ideal ao real, de caixa de surpresas para objetividade do ambiente e da estrutura moral dos personagens:
Neles espia-se o avesso da tela romântica: Macedo e Alencar faziam passear as suas donzelas nas matas da Tijuca ou nos bailes da Corte; Aluísio não sai das casas de pensão e dos cortiços. O sertanejo altivo de Alencar não sofria das misérias que nos descrevem A Fome, de Rodolfo Teófilo, e Luzia-Homem, de Domingos Olímpio. Os costumes regionais tão castos em Taunay e em Távora, tornar-se-ão licenciosos na selva amazônica, a ponto de transviar o missionário de Inglês de Sousa. A adolescência, fagueira e pura na pena de Macedo, conhecerá a tristeza do vício precoce no Bom-Crioulo, de Caminha, e na Carne, de Júlio Ribeiro, sem contar as angústias sexuais da puberdade que latejam no Ateneu, de Raul Pompéia. Mas a suma, depurada e sóbria, do precário em que se resume toda a existência se espelharia no romance e no conto de Machado de Assis. (BOSI, 1985, p. 192-193)
1.4 N
OC
EARÁA década de 1880, quando não tinha sido fértil e produtiva, no domínio da literatura, como a que se lhe subseguiu, não deixou, entretanto, de ter, naquele setor do pensamento, irrecusável realce, graças a manifestações coletivas ou a labores isolados em prol das letras. (BARREIRA, 1948, p. 115)
No Ceará, o Realismo surgiu na década de 80, com o Clube Literário, agremiação foi fundada por João Lopes em 1886. Participavam da associação alguns escritores que também fizeram parte da Academia Francesa e outros que já eram conhecidos pela dedicação à arte literária, como: Juvenal Galeno, Antônio Bezerra, Antônio Martins, Justiniano de Serpa e Virgílio Brígido, mas a maioria deles começou no Clube Literário; Oliveira Paiva, Antônio Sales, Rodolfo Teófilo, Farias Brito, José Carlos Júnior, Xavier de Castro (X. de Castro) e mais outros. A revista A Quinzena era o meio de circulação das criações realizadas no Clube Literário.
De acordo com Sânzio de Azevedo (1976, p. 91):
Ao lado de poemas românticos de Juvenal Galeno e das narrativas, igualmente românticas, de José Carlos Júnior ou Jane Davy (Francisca Clotilde), surgiam os contos cientificistas de Rodolfo Teófilo; o Realismo despontava, porém, com mais força e arte através dos contos de Oliveira Paiva.
O Realismo cearense tem sua origem com os contos de Oliveira Paiva; são doze ao todo, merecendo destaque: Corda Sensível, O Ar do Vento, Ave-Maria, A Melhor Cartada e Ódio. A obra A Fome de Rodolfo Teófilo foi a introdutora do Realismo-Naturalismo no Ceará, conforme afirma Sânzio de Azevedo (1982, p. 151):
São escritores em prosa do Realismo-Naturalismo cearense: Oliveira Paiva, Rodolfo Teófilo, Adolfo Caminha, Pápi Júnior, Domingos Olímpio, Antônio Sales, Gustavo Barroso, Herman Lima, e outros. Contudo, neste trabalho, não serão estudados outros autores realistas-naturalistas, além de Rodolfo Teófilo.
1.4.1 Rodolfo Teófilo
RODOLFO Marcos TEÓFILO é filho do Dr. Marcos José Teófilo (médico) e de D. Antônia Josefina Sarmento Teófilo. Nasceu em Salvador (BA), no dia 6 de maio de 1853, e faleceu em Fortaleza, no dia 2 de julho de 1932. Como no Ceará ainda não tinha a Faculdade de Medicina e Dona Josefina estava com uma gravidez de risco, pois já havia sofrido um aborto, o Dr. Marcos Teófilo considerou que seria melhor viajar a Bahia para sua mulher dar à luz. Ele conhecia bem os professores da faculdade, pois foi naquela instituição que se formara, e não queria que a esposa passasse por dificuldades na hora do parto.
Conveniente é que se frise que Rodolfo Teófilo deixou a Bahia com um mês e quinze dias de idade e veio com a família para o Ceará, terra a que se dedicou durante toda a sua existência, a ela se entregando inteiramente, participando, como poucos, das suas tragédias e da solução dos seus problemas e interferindo, com decisão e firmeza, no seu destino. (SOMBRA, 1997, p. 20)
Defendeu tanto sua naturalidade cearense que permitiu no seu livro A Seca de 1915
uma biografia que fazia menção ao seu nascimento ser no Ceará, publicada a 1ª vez no jornal
Tribuna, de julho de 1917, do Rio de Janeiro:
RODOLFO MARCOS TEÓFILO, filho legítimo do Dr. Marcos José Teófilo, médico, e D. Antônia Josefina Sarmento Teófilo, nasceu no Ceará, no dia 6 de maio de 1853. Batizou-se no dia 1º de outubro do mesmo ano na igreja do Rosário, em Fortaleza. Fez o curso de humanidades no Atheneu Cearense, onde se matriculou em 1865. (TEÓFILO, 1980, p. 7)
cólera, pois o ácido destruía a bactéria. Essa tragédia Rodolfo Teófilo narra em Violação
(1979), como uma denúncia social, pelo que ele viveu e presenciou.
Dois anos depois, o Dr. Marcos Teófilo não resiste ao beribéri e falece em Pacatuba, deixando a viúva com seis filhos. O tio e padrinho, José Antônio da Costa e Silva, responsabilizou-se pelos estudos de Rodolfo, matriculando-o no Ateneu Cearense. Na mesma escola estudaram Capistrano de Abreu, Paula Ney, Rocha Lima, Domingos Olímpio e João Lopes. Ao concluir o primeiro ano, os parentes consideraram que já era tempo do garoto ingressar no comércio, pois o tio não queria mais arcar com as despesas do jovem. O diretor do Ateneu, João de Araújo Costa, não aceita esta decisão da família e deixa Rodolfo estudar por mais 2 anos, sem ônus algum para sua família. Em contrapartida, o rapaz ministrava aulas de reforço às turmas atrasadas. Apesar das dificuldades enfrentadas, Rodolfo conclui seus estudos e forma-se em Farmácia.
O autor de A Fome foi professor do Liceu do Ceará, por durante quase 30 anos. Lecionou Biologia, Ciências Naturais, Meteorologia, Mineralogia e Geografia. Como sempre foi um questionador e fiel às suas convicções ideológicas; em seus escritos, Rodolfo Teófilo denunciava o governo cearense, o descaso do órgão público com o povo. Por sua sinceridade, não foi compreendido, e como resultado foi perseguido pela oligarquia Acióli, chegando até a perder o cargo de professor do Liceu Cearense. Fatos que o escritor expõe em seu livro de memórias, Violência (TEÓFILO, 1979, p. 4, 15, 55) 2:
A actual reforma do Lyceu do Ceará não teve por fim melhorar o ensino, mas a collocação de parentes do sr. Presidente do Estado e de seus filhos, o que me comprometto a provar. [...] Agora o governo do Estado na pseudo-reforma que fez, entendeu demitir-me e chamou-me para reger uma cadeira extranha ao meu curso. [...] O meu crime vem da publicação a meu livro Seccas do Ceará em que tratando das administrações que tem sido o Estado durante as seccas, tive o atrevimento de criticar, com muita benevolencia, é verdade, a passada administração do actual Presidente do Estado.
Rodolfo Teófilo fez parte de movimento abolicionista cearense, com participação em Pacatuba. Foi homenageado, neste município, recebendo a comenda do Oficialato da Rosa (Ordem da Rosa) de Sua Majestade D. Pedro II.
Na tipografia dO Libertador, Rodolfo Teófilo publica História da Seca do Ceará
(1883). Com as pesquisas realizadas para escrever a história da seca cearense, Rodolfo Teófilo ficou com mais nojo da política brasileira, descobriu que o problema da varíola na
seca do Ceará era político e não de doenças. Era por causa do poder e da ganância dos seres humanos que a saúde pública ia tão mal administrada. Com a publicação desta obra ele foi admitido em 1890 como membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, na condição de sócio correspondente.
Gustavo Barroso, em Mississipi (1996, p. 183), narra o trabalho de Rodolfo Teófilo, contudo o autor foi infeliz na afirmação de que Rodolfo [...] assistira em menino às devastações da varíola de 1877. E não é verdade, o que ele assistira quando menino foi a peste da cólera, em que seu pai era médico e saía tratando dos doentes, e ele, Rodolfo, por seu problema gástrico, foi o único da casa que não adoeceu como foi dito anteriormente. Em 1877, Rodolfo contava seus 24 anos, tinha concluído a faculdade de Farmácia e estava ajudando o povo cearense contra a peste da varíola. No restante Barroso (op. cit., p. 183) está correto:
O escritor Rodolfo Teófilo, todas as manhãs, montado no seu cavalinho branco, magro como D. Quixote e tão idealista como o herói de Cervantes, percorria as vielas dos morros do Moinho e do Croatá, vacinando gratuitamente crianças e adultos. Assistira em menino às devastações da varíola na seca de 1877 ou dos dois setes, e jurara a si próprio dedicar a vida a combater o flagelo.3Como pertencesse ao partido da oposição, o governo,
em lugar de auxiliá-lo no benemérito mister, metia-o a ridículo nos seus jornais e fazia caluniosa propaganda contra ele, declarando que sua vacina era ruinosa. Não teve, porém, ânimo de proibi-la.
Em 15 de novembro de 1886 é fundado o Clube Literário. Um mês depois, Rodolfo Teófilo participa da agremiação e começa a escrever para o jornal A Quinzena, que divulgava o trabalho do clube. Além de livros históricos, escreve tratados científicos, contudo, pretendia iniciar um romance. Em 1890 publica A Fome, na qual o autor descreve cenas horripilantes. Às vezes lia para Dona Raimundinha, que não gostava de ouvir, porque tinha desgraça demais. Rodolfo explicava para a esposa que o trabalho do escritor tinha de ser semelhante ao de um cientista, tinha que estudar o homem como quem estuda a natureza, características do Realismo-Naturalismo, um romance de tese.
Participa da segunda fase da Padaria Espiritual. Inicialmente a Padaria tinha um espírito de pilhéria, depois, na segunda fase, ficou menos boêmia e tomando um ar de seriedade. Neste período, a partir de 1894, a Padaria teve mais produções literárias: Versos
(Antônio de Castro 1894), Flocos (Sabino Batista 1894), Contos do Ceará (Eduardo Sabóia 1894), Cromos (X. de Castro 1895), Trovas do Norte (Antônio Sales 1895), Os
Brilhantes (Rodolfo Teófilo 1895), Vagas (Sabino Batista 1896), Dolentes (Lívio Barreto 1897), Marinhas (Antônio de Castro 1897), Maria Rita (Rodolfo Teófilo 1897), Perfis Sertanejos (José Carvalho 1897) e Violação (Rodolfo Teófilo 1898). O Paroara, de Rodolfo Teófilo, editado em 1899, quando já estava extinta a Padaria, contudo foi impresso na obra a indicação Biblioteca da Padaria Espiritual (AZEVEDO, 1996). Em destaque4, o autor que mais teve produção literária na Padaria Espiritual nesta fase foi Rodolfo Teófilo.
Conforme Sânzio de Azevedo (1996, p. 65):
Foram seus Padeiros-mores Jovino Guedes (de 1892 a 1894), José Carlos Júnior ( de 1894 a 1896) e Rodolfo Teófilo (de 1896 a 1898) Antônio Sales, idealizador da sociedade, ocupou as funções de Padeiro-mor apenas interinamente, na sessão inaugural e, mais tarde, em 1894, antes do início da gestão de José Carlos Júnior. Fez questão de ser sempre Primeiro-Forneiro.
Com a morte de alguns companheiros, mudanças de outros, a Padaria Espiritual foi ficando desfalcada e aos poucos ia definhando até chegar a sua última sessão, dia 20 de dezembro de 1898. Com o fechamento da Padaria Espiritual, Rodolfo Teófilo participou do Centro Literário no qual atuou desde 27 de setembro de 1894 até o final de 1904, ou início de 1905.
Rodolfo Teófilo dedica-se mais aos trabalhos como sanitarista que como literato. Em 1900, outra seca toma de conta do Ceará. Mais uma vez a varíola chega aterrorizando as pessoas, principalmente no mês de agosto. E o governo, como sempre, passando a seca, engavetava todos os projetos que seriam para solucionar ou amenizar os problemas da emigração dos retirantes. Não havia no Estado um vacinogênico e a linfa vacínica que era enviada do Rio de Janeiro raramente tinha bons resultados, pois ela perdia o efeito por causa da viagem e do clima quente do Ceará. O sanitarista escreveu para o amigo Garcia Redondo, em São Paulo, solicitando que enviasse doses de material para preparar a vacina no Ceará, apesar de ninguém acreditar que daria certo, devido ao clima do solo cearense. Ao receber o material, Rodolfo Teófilo foi realizar a inoculação. Após três dias, pústulas apareceram na pele dos bezerros, dois dias a mais, então as feridas estariam prontas para colheita. Vacinou alguns voluntários e em poucos dias, nos braços dos vacinados apareceram algumas pústulas que logo murcharam. O antídoto estava feito, Rodolfo conseguiu fabricar em Fortaleza a vacina contra a varíola.
Ele vacinava a população gratuitamente em sua residência, na rua Visconde de Cauhype, todo dia às 16h. Em 4 meses de trabalho, Rodolfo Teófilo conseguiu vacinar mais de 1.200 pessoas. Contudo, a comunidade de Areias (a parte mais pobre de Fortaleza) não procurava se vacinar o que preocupava o sanitarista, pois a comunidade carente e sem vacinação estava mais propícia a adoecer. A decisão tomada pelo farmacêutico foi a de levar, ele mesmo, a vacina para a população de Areias. Comprou um cavalo e percorreu os subúrbios mais distantes como o antigo bairro do Matadouro, próximo ao Alto Alegre, litoral oeste de Fortaleza. Certamente é baseado nessas andanças que Barroso ressalta o trabalho quixotesco de Rodolfo Teófilo, como mostrado anteriormente.
O ano de 1901 seria concluído com 3.585 pessoas vacinadas por Rodolfo Teófilo, sozinho, sem apoio dos órgãos públicos. Em 1902 o sanitarista fechou as estatísticas com 1.940 pessoas vacinadas na capital cearense. Em 1904, não se deu nenhum caso de varíola em Fortaleza.
O governo do Estado enviou à Assembléia Estadual uma mensagem registrando com satisfação e louvor o trabalho realizado pelo farmacêutico Rodolfo Marcos Teófilo que prestou serviços gratuitamente ao povo cearense na vacinação contra a epidemia da varíola; pôs como obrigatório o uso da vacina no Ceará, e por tudo que o sanitarista realizou em prol da população, o governo federal outorga a Rodolfo Teófilo o título de Varão Benemérito da Pátria.
Dos tempos da Padaria Espiritual, Rodolfo Teófilo fez uma amizade que iria ficar até o último dia de sua vida, com Antônio Sales: Foi Antônio Sales o seu fiel amigo, o companheiro dedicado desde os tempos da segunda fase da Padaria Espiritual, isso em 1894; foram trinta e oito anos de amizade fraternal, de respeito e admiração. (BÓIA,1984, p. 395)
Em seu livro A Seca de 1915, o escritor, à frente do seu tempo, põe como sugestão a construção de reservatórios para amenizar o sofrimento do povo cearense:
Rodolfo Teófilo ao escrever suas obras recebeu várias críticas sobre a qualidade literária das mesmas, os críticos apontavam o estilo não cuidadoso com a gramática, o descuido ao escrever o texto, o exagero em descrições, principalmente relacionadas a doenças e ao enfermo. Cansou o escritor de apenas ouvir o que diziam dele e de suas obras, precisava ele também desabafar, então escreveu e publicou em 1924 Os meus Zoilos, na qual ele faz severas críticas aos seus críticos. Inicia com Osório Duque Estrada (o autor do Hino Nacional do Brasil), critica os seus poemas, dramas e prosas, considerando-os asneiras. Continua com Adolfo Caminha; eles tiveram várias querelas; nem depois da morte deste, Rodolfo Teófilo teve pena, pois colocou na obra os artigos que tinha publicado nO Pão números 19 (1º de julho de 1895), nº 20 (15 de julho), nº 21 (1º de agosto), nº 22 (15 de agosto) e nº 23 (1º de setembro)5 severas críticas àquele. Também fez críticas aos senhores José Rodrigues de Carvalho e Dr. Gomes de Matos.
Sânzio de Azevedo (1985, p. 60-61) sai em defesa de Rodolfo Teófilo:
Na verdade, o admirável pintor dA Normalista não deixa de ter alguma razão no que tange ao aspecto puramente estético, a literariedade em Rodolfo Teófilo, notadamente em seu romance de estréia, mas é evidente a injustiça quanto ao problema da verdade nas cenas descritas nA Fome [...]. Ninguém será tão inadvertido que julgue estarmos esquecendo que existe uma verdade na vida e uma verdade na arte: um escritor de pulso poderá infundir, literariamente, maior dose de verdade num episódio puramente ficcional do que um autor medíocre o fará num fato realmente acontecido. Não é este porém o caso de Rodolfo Teófilo: a falta de um melhor instrumento lingüístico não chega a prejudicar a realidade das cenas descritas nA Fome, como, por outro lado, a falta da verdade científica nA Normalista não a compromete como obra literária.
1.4.2 Obras
Romance:
• A Fome (1890, 2ª edição em 1922)
Objeto de estudo desta dissertação, com análise literária.
• Os Brilhantes (1895, 2ª ed. 1906, 3ª ed. em 1972)
Com o tema do banditismo, Rodolfo Teófilo dá ao herói Jesuíno Brilhante uma característica de o protetor dos fracos e oprimidos. Na terra dos Brilhantes, nos sertões do Nordeste, Jesuíno tem suas andanças como cangaceiro em defesa do sertanejo. Obra com a mesma temática de O Cabeleira, de Franklin Távora.
• Maria Rita (1897)
História que se desenvolve no final do regime colonial. Como enredo o amor entre Maria Rita, filha de um rico português, e o mestiço Joaquim de Queirós. Como a família era contra o namoro dos dois, o vaqueiro Joaquim rapta Maria Rita. O pai da moça manda procurar o casal e consegue, por intermédio do governador Rubim, a prisão do caboclo, ficando assim, Maria Rita a vagar pelos campos até ser encontrada. José Maria, pai da moça, conhece o português Prazeres, e pretende realizar o casamento da filha com o jovem. O padre Bulhões, contra a vontade da noiva, celebra a união dos noivos, sendo que a jovem foge e passa a viver na mata. O pai de Joaquim, um português abastado, através de suborno consegue libertar o filho da prisão. Tem-se um final feliz, Joaquim consegue encontrar Maria Rita e pelas bênçãos divinas e da natureza os apaixonados se unem para sempre.
• Violação (novela 1898)
Considerado conto para uns, mas Rodolfo Teófilo nomeia de novela, e para outros este último gênero, concordando com o autor. São retratadas, nesta obra, cenas da seca. Rodolfo Teófilo narra a ação do cólera-morbo, calamidade de 1862 da qual participou quando criança ele e toda sua família. A história é sobre o sepultamento da irmã do protagonista, um menino, que morre devido à doença. Ao fazer o enterro, a criança tem-se uma suposta idéia que seja Rodolfo Teófilo assiste a um espetáculo horrendo, a violação animalesca do corpo de uma jovem (que também está para ser enterrado) por dois padioleiros bêbados.
• Paroara (1899, 2ª ed. 1974)
(GIRÃO, 2000). O protagonista deixara no Ceará sua esposa Chiquinha e os filhos, na esperança de quando voltar dar a eles uma vida sem fome e sofrimentos. Quando João das Neves consegue juntar uma boa quantia retorna à terra natal, porém ao chegar encontra sua esposa reduzida a peles e ossos, e os filhos mortos devido à fome causada pela seca nordestina. Algumas páginas desse romance foram traduzidas para o francês pelo diplomata Manuel de Oliveira Lima, quando ministro da Bélgica, com a publicação na Revue dEurope et Amérique. O crítico francês e redator de O Fígaro, André Bonnier, fez uma apreciação sobre o romance, que depois Rodolfo Teófilo comentou em Os Meus Zoilos:
Fiquei mais conhecido em um mês, depois do artigo do literato francês, do que em trinta anos de letras no Brasil. Note-se que havia mais de dez anos que O Paroara tinha sido publicado e agora é que a imprensa do Rio de Janeiro noticiava a existência dele e achava o livro muito bom, porque o francês havia achado. O próprio Jornal do Comércio transcreveu a crítica deBonnier, sob a epígrafe em letras gordas Um Romance cearense estudado no Fígaro. (TEÓFILO,1924,p.6)
• Reino de Kiato (1922)
O Reino de Kiato (No País da Verdade) é dentre todas as obras de Rodolfo Teófilo, a mais moralizante. O escritor deseja fazer um mundo perfeito, sem álcool, DST e fumo. Uma verdadeira utopia, onde todos conseguem obter a felicidade total.
Poesia:
• Lira Rústica (1913)
Poemas numa linguagem popular, temas da vida rude dos cearenses. Poesias que lembram o estilo de Juvenal Galeno.
• Telesias (1913)
• Ocaso (1997)
É uma coletânea com 30 sonetos compostos em plena maturidade de Rodolfo Teófilo.
História:
• História da Seca do Ceará de 1817 a 1880 (1883)
Obra que dá ao escritor como prêmio, o ingresso no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. São estudos sobre a geografia da província cearense, as atividades comerciais, problemas da instrução pública e denúncias sobre a impassibilidade dos administradores públicos (relata a seca de 1877 a 1879)
• Secas do Ceará segunda metade do século XIX (1901)
Narra fielmente todas as secas que ocorreram no Ceará na segunda metade do século XIX. Inicia com a seca de 1877, que durou três anos (1877 governo do desembargador Caetano Estelita Cavalcante Pessoa; 1878 Dr. José Júlio de Albuquerque Barros. Dos três anos foi a pior seca com a peste da varíola, ano que ficou conhecido o dia 10 de dezembro por O dia dos mil mortos, morreram nesse dia 1.004 pessoas; 1879 ano menos sofrido com as calamidades, seca que durou até 14 de março de 1880). A seca de 1898, na administração do Dr. Antônio Pinto Nogueira Acióli, foi uma seca parcial. Em 1900 repetem-se os dramas dos retirantes, choveu menos que em 1877, Nogueira Acióli continua governante e deu pouca assistência aos retirantes, revoltando Rodolfo Teófilo que utilizava sua escrita para denunciar o descaso público fatos que levaram Rodolfo Teófilo a ser perseguido pelo então governo. Esta seca termina com o século e também trouxe a certeza da não-preocupação dos órgãos públicos com o seu povo.
• Seca de 1915 (1922)
Em 1914, Franco Rabelo era deposto por não ter apoiado Pinheiro Machado para Presidente da República. Assume o cargo o Coronel Fernando Setembrino de Carvalho (15/03/1914 a 24/06/1914). Em seguida (24/06/1914 a 12/07/1916), Benjamin Liberato Barroso passa a ser o novo administrador. Ano de uma seca que também causou sérios problemas para a capital cearense, que cerca de 130 retirantes, vindos de Iguatu, ficaram confinados no Passeio Público. Em suas visitas ao abarracamento, chamado de Campo de Concentração (Alagadiço), no qual o povo denominou de curral, Rodolfo Teófilo ponderou:
Os retirantes estiveram no Passeio Público até se preparar no Alagadiço o futuro abarracamento, o qual tomou, não sei por que, nome de campo de concentração e o povo batizou de curral. O retirante perdeu o seu antigo e expressivo nome e começou a chamar-se flagelado. Coisas do tempo e da moda. Em todas as secas chamou-se ao sertanejo que emigra retirante e não flagelado. Flagelados somos todos nós durante a calamidade. (TEÓFILO, 1980, p. 54-55)
Rodolfo Teófilo destaca o trabalho realizado pela esposa do Presidente da Província, Dona Maroquinhas, e do sacerdote D. Manuel da Silva Gomes. O religioso viaja para São Paulo a procura de recursos para assistência aos flagelados. Com a ajuda que obteve, o povo cearense fez uma homenagem aos paulistas: a rua da Assembléia, antes Travessa da Tesouraria, Travessa das Balas, passou a ser denominada de Rua São Paulo, em respeito ao gesto de solidariedade recebido6.
• Seca de 1919
É mais um relato sobre a seca com toda sua mazela. Novamente D.Manuel da Silva Gomes vai ao Sul a procura de recursos financeiros. Os flagelados não querem mais trabalhar nas frentes de serviços do governo, querem receber auxílios sem precisar trabalhar. Diante de tanta gente na capital, as autoridades locais providenciam passagens aos que desejam ir a São Paulo e Amazônia. A Loja Maçônica do Rio Grande do Sul, através do Grão Mestre Marechal Mesquita, envia três contos de réis7 para Rodolfo Teófilo, com os quais o farmacêutico consegue vacinar todos os retirantes. Ele consegue passagens de graça com o Dr. Couto Fernandes para os retirantes retornarem às suas comunidades.
• Libertação do Ceará (1914, edição fac-similar em 2001 pela Fundação Waldemar de Alcântara)
Relata a queda da Oligarquia Acióli, que ficou no poder durante 20 anos. Rodolfo Teófilo expõe toda as falcatruas ocorridas na administração de Comendador Dr. Antônio Pinto Nogueira Acióli.
• Sedição de Juazeiro (1922)
Com a queda de Nogueira Acióli, o Coronel Franco Rabelo assume a administração do governo estadual. Há brigas políticas no interior do Ceará, padre Cícero comanda os jagunços quando as forças de Franco Rabelo invadem Juazeiro. Com os ataques dos jagunços a várias cidades: Crato, Barbalha, Jardim, Iguatu, Acopiara, Quixeramobim, Quixadá, Soure (atual Caucaia) e Messejana, os rabelistas fogem diante da pressão dos seguidores de padre Cícero. Coronel Fernando Setembrino é o interventor e Franco Rabelo renuncia. Em 24 de junho de 1914, o coronel Benjamin Liberato Barroso passa a ser o presidente do Ceará, nomeado pelo governo Federal.
Conto:
• O Cunduru (1910)
Antologia com 12 narrativas: O Cunduru; O Graúno; A Tanajura; Sonho Mórbido; O Amor das Flores; Deiscência; Morrer Criança; A Morte; Pior Poderia Ser; O Que é a Felicidade; Lágrimas de Sangue; Epitalâmio.
Ciência:
• Monografia da Mucunã (1888)
Trabalho científico sobre uma raiz tóxica, a mucunã, que era utilizada como alimentação aos retirantes. A ingestão da fécula causava distúrbios tóxicos, como também a cegueira noturna, contudo as pessoas comiam para não morrer de fome.
• Ciências Naturais em Contos (1889)
Livro didático que focaliza 24 temas na área de Ciências.
• Curso Elementar de História Natural (1889)
Compêndio que fez parte da Exposição de Chicago (EUA), em 1893, sob o nº 221, constituído de 137 páginas e 66 ilustrações.
• Botânica Elementar (1890)
Livro adotado nas escolas públicas. O livro foi impresso em Paris, por causa das estampas que tinham um total de 384 ilustrações. Conteúdo de Morfologia e Fisiologia Vegetal, Botânica Descritiva e Paleontologia.
Crônica ou Memorialismo:
• Violência (1905)
Narra a perseguição profissional que Rodolfo Teófilo sofreu de Nogueira Acióli. Alegando reformas educacionais no Liceu do Ceará, o presidente do Estado nomeou Rodolfo Teófilo para lecionar a disciplina de Lógica, que não era da sua área de formação, pois se formara em Farmácia. Como não aceitou, foi exonerado da função, sendo demitido do seu cargo de professor vitalício, após 20 anos de trabalho no magistério.
• Memórias de um engrossador (1912)
Narrado em 1ª pessoa por um advogado desonesto, os fatos ocorrem no governo de Nogueira Acióli. Engrossador significa, na gíria da época de Rodolfo Teófilo, chaleira, bajulador, atualmente o puxa-saco.
• Cenas e Tipos (1919)
As Plantas Assassinas; A Troca de Costela; Por que fui Industrial?; O Suplício da Aranha e O Ópio.
• O Caixeiro (1927)
Rodolfo Teófilo narra a sua história do tempo em que foi empregado do comércio, trabalhando como caixeiro.
• Coberta de Tacos (1931)
São considerações de ordem moral, construtiva e literária. Obra distribuída em 20 capítulos.
Polêmica:
• Os meus zoilos (1924)
Rodolfo Teófilo faz críticas aos seus críticos: Osório Duque Estrada, Adolfo Caminha, José Veríssimo, Rodrigues de Carvalho e Dr. Gomes de Matos.
Relatório de lutas filantrópicas:
• Varíola e Vacinação no Ceará (1904 e 1910)
2 A FOME
2.1 U
MA INTRODUÇÃODa vasta literatura referente à seca de 1877, queremos chamar a atenção de duas obras significantes. Uma, o romance A Fome, de Rodolfo Teófilo, no qual o ilustre farmacêutico e escritor cearense conta as peripécias da vida sertaneja nos anos de inexcedível sofrimento que decorreram de 1877 a 1879. Medeiros e Albuquerque, em crítica que fez a esse trabalho de ficção comparou-o ao célebre romance de Knut Hamsun, Fome, acentuando mesmo tratar-se de uma obra de mais sinceridade que a do romancista norueguês: Se, porém, é mais incorreto e por assim dizer tumultuoso, tem a superioridade de ser mais verdadeiro. Knut Hamsun talvez nunca tivesse de fato sentido sentido ao menos de um modo intenso por dias, meses e anos o que ele pretendia descrever. A Rodolfo Teófilo não faltaram infelizmente os modelos. Por isto o seu livro é vivido. Sente-se que é verdadeiro. É a fome de um povo inteiro, a fome coletiva entre os sertanejos. A referência a esta crítica de Medeiros e Albuquerque serve, no entanto, para mostrar o valor do trabalho nacional, se não como uma obra-prima de estilo ou de técnica ficcionista, pelo menos como um documento honesto daquela época de calamidades. (CASTRO, 2005, p. 210-211)
O título da obra de Rodolfo Teófilo, A Fome, publicada em 1890 coincide com o lançamento de um livro com o mesmo título, de Knut Hamsun. O que há em comum entre as duas obras, além do ano de publicação e o título?
Rodolfo Teófilo, brasileiro, natural da Bahia, mas espontaneamente cearense, quando da publicação de A Fome estava com 37 anos. Knut Hamsun, norueguês, no ano do lançamento de Fome, tinha 31 anos. Ambos eram introspectivos, sisudos; evitavam conversas e lugares boêmios; são idealistas e conservadores, em realidades e continentes tão distintos. Knut Hamsun desprezava a sociedade urbana e acreditava que o homem só poderia ser feliz, vivenciar sua essência, se tivesse contato direto com a natureza. Rodolfo Teófilo também não tinha amores pela vida urbana, considerava ele que o excesso do progresso estava transformando o homem em um ser de degradação, principalmente por causa dos vícios do álcool, fumo e doenças sexualmente transmissíveis.
Numa visão sócio-antropológica, a fome revela vários saberes e práticas relacionadas ao corpo e à comida. Há valores simbólicos no binômio faminto e alimento, pois caracteriza a sociedade, com ou em fome, que representa grupos sociais: pobre ou rico, faminto ou alimentado, com sua dicotomia. Os sentidos e os significados da fome são produtos expressos numa visão histórica com seus valores simbólicos tomados em sua globalidade.
O ser humano é representado como uma realidade imperfeita, aberta e inacabada que vive num mundo sob riscos e ameaças. A liberdade humana é limitada e a vida é marcada por situações que levam o homem ao sofrimento: doenças, dor, injustiças, luta pela sobrevivência, fracasso, velhice e por último, a morte. Por isso o homem sofre de angústia interior e exploração social. Contudo, ele deve ser forte e encarar todos os obstáculos de frente, lutando contra todas as dificuldades que possam aparecer.
No estudo de A Fome, além da análise literária, haverá uma interpretação da fome e do ser, focalizando o personagem Inácio da Paixão e o seu vício na jogatina. Por causa de sua dependência ao jogo, Inácio prejudicou os demais familiares, deixando estes à míngua. Na análise da obra veremos a simbologia, superstições e mitos do povo nordestino.
Em A Fome, Rodolfo Teófilo manifesta o eu faminto com o nós famintos de uma comunidade sofrendo com a fome causada em conseqüência de problemas climáticos sofridos pelo planeta Terra; uma seca assolando o Estado do Ceará nos anos de 1877 a 1879; a seca destruindo o ser racional e transformando-o em irracional; a luta pela sobrevivência modificando o ser humano em um animal bruto, chegando este ao ponto de realizar uma antropofagia. Já a obra Fome, de Knut Hamsun, é uma fome individual, cujo protagonista é um escritor desempregado que fica a lutar consigo mesmo e com toda sociedade para continuar um cidadão, e não em mais um excluído na cidade. O personagem principal relata sua história, se apresenta com nome não verídico a ponto de o leitor chegar ao final do romance sem saber o verdadeiro nome do protagonista. No primeiro romance temos uma luta real, de retirantes fugindo do sertão cearense à procura de salvação na capital. Na segunda obra, temos uma luta existencial e individual, na qual o protagonista utiliza métodos que não são éticos, para sobreviver na cidade de Cristiânia, e procura a salvação fugindo para outra localidade.
comida e moradia. Contudo, na obra de Knut Hamsun os valores éticos não têm sentido para o protagonista. O personagem não possui valores morais e éticos, é um ser errante, sem rumo, sem uma identificação, sem nome próprio, foge de Cristiânia em um navio que vai para Leeds, não importa para ele o destino do navio, contanto que ele vá embora. O final da obra dá ao leitor a idéia de que o protagonista continuará sua vida como errante e sem destino. O oposto ocorre na obra de Rodolfo Teófilo: a família se une cada vez mais, apesar de todas as dificuldades ocorridas na capital (fome e varíola); não há a desintegração de valores éticos, apesar de ser uma obra naturalista.
Esta abordagem serviu para realizar um esclarecimento sobre as duas obras homônimas surgidas no mesmo ano, mas em realidades diferentes, para esclarecer ao leitor a observação de Medeiros de Albuquerque8.
2.2
A F
OME:
UMA ANÁLISE LITERÁRIAPara se fazer uma análise literária a parte fundamental é o texto. Esta é a peça principal de um estudo detalhado sobre uma obra literária. Sabe-se que uma crítica sempre implica uma análise, mas analisar não é fazer uma crítica. Conforme Moisés (2005, p. 15): A análise fornece à crítica os dados indispensáveis a que ela exerça seu mister judicativo, mas nunca a substitui ou a dispensa.
Para realizar uma análise literária é necessário ter uma fundamentação em teoria da Literatura. São diversos tipos de abordagens e métodos críticos (estilístico, sociológico, psicológico, impressionista, temático, entre outros).
O analista estando com o texto, necessita estar seguro de uma orientação crítica na qual irá trabalhar. Com a teoria literária selecionada o pesquisador irá analisar os gêneros literários. Nesta dissertação, a obra selecionada é um romance, no qual serão trabalhadas: a estrutura do texto literário; a linha hermenêutica do sujeito (personagem Inácio da Paixão); e a semiótica especulativa no literário (interpretar a simbologia, superstições e mitos na literatura). O texto sempre traz em sua composição inúmeras questões, então, resta ao analista reconhecer quais são elas e de que forma são postas, pois é o próprio texto que encaminha a sua temática a um ou outro campo de estudo: o contexto no qual está inserido é o próprio
caminho para a análise. O texto conduzirá o analista e este só trabalhará o que o texto propuser, visto que não é o analista que conduz o texto, mas o texto é que conduzirá o trabalho do analista:
Numa palavra: para frutificar, a análise literária pressupõe sempre uma teoria da Literatura, porquanto sem ela conduz a nada, ou a superficialidades. Quer dizer: ao defrontar-se com o texto, o analista há de estar munido da aparelhagem adequada a seu mister, mas ainda necessita apetrechar-se de uma sólida e cristalina fundamentação em teoria e filosofia da literatura.
Acima de tudo, precisará estar seguro da orientação crítica a seguir (ou em que sua análise viria a enquadrar-se) e do conceito e limite dos gêneros literários. Às cegas, a tarefa analítica resulta inútil. 9(MOISÉS, 2005, p. 20)
O analista não pode deixar de adotar qual método será trabalhado na análise da obra. O texto orienta o analista sobre qual caminho este deve seguir para realizar uma análise literária:
Como argumentar em favor de tal flexibilidade metodológica? Primeiro que tudo, há que não perder de vista que nenhum processo analítico, por mais aperfeiçoado que seja, pode servir de panacéia para todas as obras literárias. Em segundo lugar, e muito mais importante, é a própria obra que decreta o procedimento a adotar: o caminho a percorrer inicia-se na obra e termina no método, não o contrário, ou seja, evidencia falta de consciência crítica ou má consciência ideológica aplicar mecânica e aprioristicamente o método a qualquer obra, sem consultar-lhe antes a natureza. Conhecida esta, depreende-se o método a perfilhar. (Ibidem, p. 21)
E a historiografia literária? Ela pode ser utilizada em uma obra literária? Pode-se dizer que em alguns casos existe a necessidade da historicidade para a obra poder ser compreendida no seu contexto. Dependendo da obra, conhecer o período histórico no qual o romance foi escrito é importante, pois a partir deste conhecimento pode-se entender por quais situações a sociedade passava: política, econômica e sociocultural.
Moisés (2005, p. 17) diz que [...] a realidade dos fatos mostra que, notadamente quando se trata do passado remoto, nenhum texto se deixa sondar em profundidade sem o auxílio da historiografia. É que, a rigor, toda análise textual é contextual.
A Fome será analisada pelos aspectos formais que o próprio texto traz como um gênero romance. Também se utilizarão, quando o texto solicitar, elementos extrínsecos da obra: biografia do autor, as relações do texto com a política, a história, a sociologia e a