• Nenhum resultado encontrado

DOUTORADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2019

Share "DOUTORADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS"

Copied!
238
0
0

Texto

(1)

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

PUC-SP

SÃO PAULO

Maria Helena Petrucci Rangel de Azevedo

Controle e Resistência em uma Penitenciária Feminina:o

caso do Talavera Bruce.

(2)

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

PUC-SP

SÃO PAULO

Maria Helena Petrucci Rangel de Azevedo

Controle e Resistência em uma Penitenciária Feminina:o

caso do Talavera Bruce.

DOUTORADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

(3)

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

PUC-SP

SÃO PAULO

Banca Examinadora:

---

---

---

---

(4)

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

PUC-SP

SÃO PAULO

AGRADECIMENTOS

Agradeço aos meus pais por terem me dado um ambiente propício para, parafraseando Weber, “escutar a música da fé”. E mais ainda a Deus, em quem sempre acreditei, por essa “música” - privilégio de poucos que seguem a vida acadêmica - ser bem diferente daquela captada pelos meus progenitores.

À minha querida orientadora Professora Doutora Silvana Tótora agradeço primeiramente por ter aceitado enfrentar o desafio dessa empreitada. Sou grata, também, pela confiança que em mim depositou e por me ajudar a tomar tantas decisões para a realização deste trabalho, pelo seu profissionalismo em todas as intervenções que tanto contribuíram para a concretização dessa tese, me auxiliando, me encorajando diante das dificuldades encontradas.

(5)

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

PUC-SP

SÃO PAULO

À Professora Doutora Tânia Maria Dahmer Pereira sou grata por todo apoio dado durante a minha pesquisa, pela participação em minha banca de defesa de projeto, por suas ricas e meticulosas sugestões.

À todas as presas do Talavera Bruce pelo carinho com que me receberam e se dispuseram a dar tantas informações preciosas para a realização deste trabalho.

Aos funcionários do Talavera Bruce, especialmente às assistentes sociais meu agradecimento por todo auxílio durante a pesquisa.

À querida Eliane pelo carinho dispensado à nossa família.

Aos meus irmãos e irmãs, por todo apoio dado e pelas alegrias que juntos temos compartilhado.

À minha querida Carminha, que mais que uma irmã, me apoiou durante todo o doutorado.

(6)

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

PUC-SP

SÃO PAULO

Às minhas queridas filhas, Maria Letícia, Maria e Sophia que, apesar das inúmeras demandas por atenção, me ofereceram tantos sorrisos capazes de renovar minha energia para dar continuidade a este trabalho.

(7)

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

PUC-SP

SÃO PAULO

(8)

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

PUC-SP

SÃO PAULO

Controle e Resistência em uma Penitenciária Feminina: o caso do Talavera Bruce.

Maria Helena Petrucci Rangel de Azevedo

A tese tem por objetivo analisar diferentes instrumentos de “controle” das autoridades e os mecanismos de “resistência” das presas em um ambiente extremamente assimétrico de poder, definindo como objeto de pesquisa o Instituto Penal Talavera Bruce (TB), cuja escolha se justifica em função do número relativamente pequeno de pesquisas em penitenciárias femininas e por ser o TB um “presídio modelo” do Rio de Janeiro.

A hipótese central da tese é de que os instrumentos de resistência das presas são os mesmos utilizados, pelas autoridades, para garantir o controle na penitenciária, como os que priorizam a coerção e os castigos, como aqueles, em princípio, voltados para ampliar a qualidades de vida das presas (regalias, eventos lúdicos, trabalho, religião e visitas, entre outros).

Na tese, utilizamos vasta bibliografia, mas o núcleo duro do nosso modelo analítico baseia-se na conjunção de contribuições de Michel Foucault (“redes de poder”), Alessandro Pizzorno (“Sistemas de Interesses”, “Sistemas de

Solidariedades” e “Arenas de Igualdades”) e Jessé de Souza (“habitus

primário” e “habitus precários” ).

Além das entrevistas, que foram realizadas com funcionários, autoridades e presas, e das conversas livres com pessoas desses segmentos, por mais de seis meses, buscou-se, também, realizar um consideráveis levantamentos bibliográfico e documental sobre o tema.

As presas utilizam diversas estratégias de resistência, buscando mitigar os diferentes processos de controle das autoridades, sendo que a mais abrangente delas é a de buscar tornar as atividades desenvolvidas internamente mais próximas possíveis daquelas existentes na “sociedade livre”, seja no trabalho, nas relações afetivas, mercado, religião, eventos lúdicos, visitas, comunicação, comida, entre outras.

(9)

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

PUC-SP

SÃO PAULO

ABSTRACT

Control and Resistance in a Penitentiary for Women: The case of Talavera Bruce

Maria Helena Petrucci Rangel de Azevedo

The thesis aims to analyze different "control" instruments that prison authorities are utilizing and other “resistance” mechanisms of the imprisoned women, in an extremely asymmetric power environment. The theme of this research is defined as Criminal Talavera Bruce Institute TBI, and the choice is justified by the relatively small number of actual research on women's prisons as well as for the fact of the TBI being “the” Model Prison of Rio de Janeiro.

The central hypothesis of the thesis is that the instruments of resistances of the women there imprisoned are the same used by authorities to ensure the control in the Penitentiary. Authorities prioritize the coercion and punishment, within a close relationship with those resistance mechanisms that, in principle, intended to enlarge the qualities of life of these women in prison (perks, entertainment events, work, religion and visits, among others).

In this research we have used a wide bibliography, being the hard nucleus of our analytical model a conjunction based on the contributions of Michel Foucault ("Power Networks "), Alessandro Pizzorno ("Interests", "Solidarity Systems” and "Arenas of Equalities") and Jessé de Souza ("Primary Habitus” and "Precarious Habitus”). In addition to the numerous interviews that were conducted with employees, authorities and detainees, as well as non-restrained conversations with other officers for more than six months, it was also sought to achieve a considerable bibliographical and documentary research on the topic.

Imprisoned women use various strategies of resistance, seeking to mitigate the various processes of control authorities are implementing. The most extended of these strategies seek to match those activities developed internally, as closest as possible with those existing in the "free society", whether they are labor, or affective, or market relations, religion, entertainment events, visits, communication, food, among others.

KEYWORDS

(10)

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

PUC-SP

SÃO PAULO

SIGLAS E EXPRESSÕES UTILIZADAS NA PENITENCIÁRIA TALAVERA BRUCE

ALMOÇO PAGO, almoço que foi distribuído ou servido

BOLADO, mal humorado

BONDE um grupo de presas que chegam ao TB juntas vindas de outro(s)

estabelecimento (s) prisional.(ais).

.

CADEIA GRANDE. Presa com muitos anos de pena para cumprir.

CADEIA ABRIU. , momento em que pela manhã, após o “confere, as presas

têm permissão para circular pelas dependências do Talavera Bruce permitidas pelas normas internas

.

CADEIA FECHOU, é a volta ao regime fechado, em razão da regressão de

regime, sem possibilidades de retornar à casa nos fins de semana.

CONFERE,, instrumento disciplinador, realizado em diferentes momentos

durante o dia, no qual as presas ficam diante de suas celas e a inspetora as vai chamando para se certificar se estão todas presentes

COMARCA, Espaço separado por panos dentro das celas, como forma de

individualizar espaços internos.

CTC, Comissão Técnica de Classificação. Comissão cujo objetivo é avaliar

infrações cometidas dentro da Penitenciária e definir sanções internas. Em casos de delitos graves, cabe a Comissão propor a abertura de Inquérito.

.CV, Comando Vermelho, uma das facções mais antigas do Tráfico de

(11)

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

PUC-SP

SÃO PAULO

DESIPE, Departamento do Sistema Penitenciário do Rio de Janeiro

ETAPA, “parte que cabe a cada um,” e só esta!

DEPEN, Departamento Penitenciário Nacional.

DISSE QUE, nome pelo qual se designa ás sessões da CTC, pois nos relatos

formais das mesmas aparece por diversas vezes - antes das transcrições das respostas das presas - a expressão: fulana “disse que”..

FAXINA. presas que devido as suas habilidades e comportamento

desempenham funções não gratificadas, junto à Administração do Presídio. Elas se responsabilizam por trabalhos similares a de um funcionário administrativo ou a de uma secretária executiva.

KAÔ, significa engodo ou mentira.

LEP, Lei de Execuções Penais, Lei N° 7.210 de 11 de Ju lho de 1984

.

SOE, Serviço de Operações Externas. Grupo formado por Inspetoras

Penitenciárias lotadas no Talavera Bruce especializadas em serviços de escolta das presas, seja para participarem de processos ou julgamentos, ou, ainda, para realizarem seus “Parlatórios”. Cabe, também,.ao SOE agir preventivamente no Talavera Bruce, como forma de coibir diferentes tipos de contravenções internas.

(12)

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

PUC-SP

SÃO PAULO

PARLATÓRIO, Encontro amoroso quinzenal autorizado oficialmente, em

ambiente íntimo, nos quais as presas podem ter relações sexuais com seus respectivos companheiros- previamente autorizados pelas autoridades - seja no Talavera Bruce para os que são livres, seja nos diversos presídios masculinos do estado para os que se encontram cumprindo penas.

PISTA, partes externas das celas, pátios, corredores, quadras etc.

PROVA de Silêncio é um tempo inicial de chegada da presa, em que ela fica

sozinha na solitária, por três dias, como forma de “aprender” a obedecer as regras da instituição.

QUIETOS, Paredes internas da pano que formam as “Comarcas” nas celas.

SEAP/RJ, Secretaria de Estado de Administração Penitenciária do Rio de

Janeiro.

TB, Penitenciária Talavera Bruce

TRANCA, significa solitária.

UMI, Unidade Materno Infantil, órgão autônomo estadual localizado dentro da

TB, onde as presas ficam com os seus filhos até eles completarem seis meses.

VALORES DE CUSTÓDIA. Trata-se de dinheiro das presas sob guarda da

(13)

SUMÁRIO

Preâmbulo_________________________________________________01 Introdução________________________________________________ 03

1. Objetivos_________________________________________________03 2. A prisão: pena privativa de liberdade ___________________________05 3 A prisão em números no exterior e no Brasil: um breve balanço

________________________________________________________19 4. O Sistema Penal Brasileiro: as assimetrias como regra

___________________________________________________________28 5. As trajetórias dos crimes e castigos e as penitenciárias 31 6. PressupostosTeóricos_______________________________________41 7. Metodologia______________________________________________ 52

Capítulo 1 O controle do espaço e do tempo na prisão____________55

1. O Espaço como Sujeição e Resistência________________________ 57

1.1Chegando à prisão________________________________________ 67 1.2 A Prisão como mini mundo_ ________________________________ 70

2.O controle do tempo na prisão_________________________________72

Capítulo 2 Sociabilidade e Desigualdades na Prisão_______________80

1 O mercado na prisão :os efeitos ambíguos_______________________83

2.O instituto da “faxina” assujeitamento ou privilégio?________________94

3 Funcionários e Internas: o famigerado “Disse que”_________________99

Capítulo 3.A vida afetiva das presas__ ________________________ 110

1. O namoro n TB__ ________________________________________ 119

2. A visita íntima_____________________________________________125

3. Status derivado____________________________________________131 4. A alternativa homossexual___________________________________132

5. O abandono familiar e as visitas escassas ______________________139

Capítulo 4.- A maternidade na prisão:__________________________147

1.Desigualdades de sexo e diferenças de gêneros________________147

2.Aleitamento e amor materno________________________________157

3. As “Olgas Benario” que não fazem chorar._______________________163

4. As visitas dos filhos_________________________________________170

5. Mãe e filha na prisão________________________________________171

Capítulo 5 - Hoje é Dia de Festa!______________________________176

1 Festival da Canção ________________________________________.177

2“Garota TB”______________________________________________ 181

(14)

LISTA DE TABELAS

TABELA 1

População Prisional por países do G.20*, por 100

mil /hab. e Índice de Desenvolvimento Humano 22

TABELA 2

População Prisional por Regiões, por 100 mil/ hab e Índice de Desenvolvimento Humano

26

TABELA 3

População Prisional Brasileira por Gênero e Tipo de Prisão, 2009

26

TABELA 4

Evolução da População Prisional no Brasil por Gênero (2004 / 2009

27

TABELA 5

Perfil das Presas do Talavera Bruce por Tipos principais de Delitos e Anos.

28

(15)

LISTA DE APÊNDICES

I. População Prisional por países com melhor e pior IDH---219

II. População Prisional por estado; presos por 100/hab e IDH-- 220

III. Evolução da População Prisional /RJ-Gênero (2004 /2009)----221

IV Evolução da População Prisional /SP-Gênero (2004 /2009)---222

ANEXO

(16)

PREÂMBULO

Minha chegada ao TB foi de início, cercada por muitas dificuldades, a

primeira delas foi exatamente como chegar lá, nunca tinha ido à Bangu,

não sabia como ir e não conhecia ninguém que soubesse. Através de

funcionários da própria Secretaria de Administração Penitenciária, com

endereço no prédio da Central do Brasil, fui informada que o jeito era

tomar o trem e, posteriormente, pegar uma “Kombi” que fazia o percurso

até o presídio.

Fiz exatamente como haviam sugerido e percebi que a Kombi também era

um local de extrema riqueza de informações sobre o tema. Tive

oportunidade de conversar com diferentes mulheres a cada viagem -

sempre com suas diversas sacolas com itens de alimentação e de higiene

para os seus parentes presos. - que sem o menor problema me relataram

suas “vias crucis”, pois - ao contrário do que pensava - necessitavam falar

(ou desabafar) sobre a questão penitenciária.

“É uma pena! Esses biscoitos vão ficar todos quebrados depois da

revista, essa comida vai ser toda revirada, mas é o jeito, e ele come

muito, ta vendo essas duas marmitas aqui, só ele come as duas,

trouxe coca-cola, mas se a mãe dele estiver lá ela que pensa que vai

comer da minha comida, não vai comer nada, não leva nada pra ele

e ainda quer comer da minha comida”

O local era cercado por outras instituições, de um lado é o Sanatório

Penal e do outro um batalhão da PM e o TB fica ao fundo, em uma rua

sem saída. Ao chegar lá, apresentei minha autorização para pesquisa, e

foram averiguar no serviço social. Depois tive somente que abrir minha

bolsa, que era revistada, porém sem muita devassa, e passei por um

detector de metais, logo depois fui encaminhada ao Serviço Social.

Quando cheguei ao corredor inicial, fiquei bastante confusa para identificar

quem era presa e quem não era. Acho que, inicialmente, meus

(17)

imaginar que uma moça vestida elegantemente e levando consigo uma

bolsa “Lois Vuitton” era uma presa condenada a mais de 100 anos!

Na sala de serviço social não foi diferente, pois lá chegando fui recebida

pela assistente social e sua gentil secretária que logo me ofereceu café e

água. Ela abria gavetas, procurava processos e identificava problemas

com tanta desenvoltura e eficiência que me surpreendi ao saber que se

tratava também de uma presa que atuava naquele setor como “faxina”,

instituto a ser tratado mais adiante.

Neste dia, tive oportunidade de visitar quase todos os prédios, as salas de

trabalho, o interior de algumas celas coletivas e ouvir muitas presas.

Todas sempre estavam com vontade de falar, algumas diziam que nunca

davam entrevista, e sequer percebiam que aquela conversa informal já

(18)

Introdução

1. Objetivos

A tese se propõe analisar diferentes instrumentos de “controle” das

autoridades e mecanismos de “resistência” das presas em um ambiente extremamente assimétrico de poder, mas que se organiza em nome de uma determinada ordem.

Para tal, serão analisados tanto diferentes tipos de violência e desigualdades, como alguns eventos do chamado “mundo da vida” 1 (religiosos, musicais e

relacionamentos afetivos, entre outros), presentes no Talavera Bruce (doravante, TB), penitenciária feminina soit disant “modelo” pelas autoridades

do Estado do Rio de Janeiro. Este estabelecimento penal possui cerca de 300 (trezentas) presas, diferentemente de outras instituições similares, é conhecido pela utilização de mecanismos de diversas “regalias seletivas” e eventos considerados lúdicos, como o “Festival da Canção” e o concurso de “Miss Talavera Bruce”.

Nossa hipótese central é que os instrumentos de resistências das presas são os mesmos utilizados pelas autoridades penitenciárias para garantir o controle na Penitenciária, sejam eles os que priorizam a coerção e os castigos, como aqueles, em princípio, voltados para ampliar a qualidade de vida das presas (regalias, eventos lúdicos, trabalho, educação, religião, visitas, entre outros), mas, também, utilizados indiretamente para reforçar e garantir o equilíbrio na Penitenciária.

1 A utilização do desse conceito habermasiano, visa apenas explicitar que além das análises de

(19)

Os “castigos” e “privilégios” formam uma díade que têm como objetivo garantir o maior controle sobre as presas, sendo esse tipo de instrumento utilizado em todo o mundo ocidental, ainda que de diferentes formas (GOFFMAN, 2007). No caso brasileiro, a LEP, Lei de Execuções Penais, estabelece diversos “privilégios” que podem ser utilizados nesse sentido, sendo que a legislação estadual transfere para dos diretores dos diferentes estabelecimentos penais a responsabilidade de aplicar tais mecanismos, a partir do entendimento das diversidades de contextos e das idiossincrasias locais. Isso significa que o poder discricionário dos diretores é muito grande, comparado com os dirigentes dos demais órgãos públicos do mesmo nível.

O Talavera Bruce, fundado em 1943, teve Lemos de Brito como encarregado pela elaboração do projeto de reforma penitenciária. A concepção inicial era de um reformatório especial, com tratamento específico para mulheres, orientado por uma postura sexista, referindo-se à “natureza” da mulher, sob o ponto de vista da moral tradicional imposta às mulheres perante a sociedade (SOARES & ILGENFRITZ, 2002).

A formação das desigualdades no Presídio - ainda que influenciada pela origem social anterior vai depender fortemente dos “recursos críticos” que a presa ou o grupo a que ela pertença controlem dentro da cadeia. Como se verá ao longo deste trabalho, procurar-se-á mostrar que as práticas de violência física ou simbólica apoiam-se tanto em formas de sociabilidade dominantes, exacerbadas por diferentes tipos de desigualdades e assimetrias existentes — sejam entre presas ou envolvendo funcionários e essas últimas —, como em decorrência da própria formatação da Penitenciária, vista como uma “instituição total” (GOFFMAN, 2007).

(20)

polarização entre demanda urgente de construção de um grande número de novos presídios versus o clamor ao Judiciário e ao legislativo para o esvaziamento dos Presídios, através de penas alternativas, prisão domiciliar, regime semi- aberto etc.

Além desses atores (autoridades e presas), que evidentemente possuem clivagens internas a serem analisadas, pretendemos incorporar a participação de outros atores intervenientes como a dos familiares dos internos.

2. A prisão: pena privativa de liberdade.

Há um virtual consenso que a prisão, pena privativa da liberdade, é uma instituição moderna, se propagando no mundo ocidental de forma diferenciada, mas crescente a partir da segunda metade do século XVIII.

É certo que em todas as grandes civilizações antigas - como na Babilônia, no Império Persa, no Egito, na China, na Grécia e no Império Romano há tanto relatos de prisioneiros, como de códigos de conduta que permitiam o encarceramento de pessoas por diferentes motivos: guerras, escravidão, dívidas, ofensa às autoridades civis, militares ou religiosas. Entretanto esse tipo de encarceramento, que vai continuar na Idade Média e no início da era moderna ocidental, não apenas na Europa, mas também no chamado “Novo Mundo” – quase sempre de forma mais caricatural e perversa na periferia do nascente sistema capitalista – tinha como objetivo a detenção provisória até que fosse definida a punição dos infratores. Essa punição poderia não acontecer, por perdão da autoridade responsável, ou variar de determinado número de açoites, tortura limitada, amputação de uma parte do corpo (mão, orelha, dedos, por exemplo), degredo, trabalho forçado em minas ou nas galeras, escravidão ou a execução, muitas vezes, através de suplício

devidamente regulamentado2 (GARCIA, 2001).

2 Tanto o trabalho forçado, como a escravidão ou o degredo poderiam ser por tempo

(21)

Nesse sentido, esse tipo de encarceramento praticado desde as civilizações antigas, passando pela “Idade Média” e alcançado o início do sistema capitalista moderno se aproximaria do que denominamos hoje de “Casas de Custódia”. No caso da periferia do sistema capitalista essas reformas demoraram mais tempo para serem implementadas, inclusive no Brasil

(CHAZKEL, 2009).

Uma das primeiras iniciativas de impacto internacional que serviria de parâmetro para uma análise crítica na construção de complexos prisionais foi a experiência da Pensilvânia, quando em 1822 iniciou-se as obras da, então chamada, Penitenciária Estadual Cherry Hill. Essa construção monumental até para os dias de hoje necessitou de sete anos para ser aberta (1829) e de quatorze para estar totalmente concluída (1936). Tanto o tempo das obras, como os custos da construção excederam em muito os previstos.Foi a primeira vez que foi adotado o nome “Penitentiary” para estabelecimentos prisionais de grande escala, que terminou por se difundir para outras cidades e países. A idéia embutida no nome explicita por um lado um local de penitência para aqueles que cometeram faltas e, por outro, a possibilidade de expiar esses pecados (PAVARANI, 1980).

Essa construção foi fruto de uma árdua e longa luta de uma das mais antigas associações norte-americanas denominada “The Pennsylvania Prison Society”, cujo lema é “Justiça e Compaixão desde 1787”.No início do século XIX os membros da referida Associação acreditavam que a forma para solucionar a desordem e corrupção que se alastravam nas cadeias norte-americanas seria um sistema de celas individuais. Para alcançar esse objetivo foi necessário mudar a legislação em vigor e convencer as autoridades estaduais que as celas deveriam ser amplas de tal maneira que permitisse ao preso realizar trabalhos individuais, eventualmente estudar, e ter todas as qualidades e serviços para uma vida agradável, incluindo uma varanda para realizar exercícios físicos. Partia-se do princípio que, com uma privacidade que

(22)

evitasse conflitos com outras pessoas, e uma boa infraestrutura física pudesse permitir ao preso refletir e se penitenciar espiritualmente dos seus delitos, de modo a estar apto ao terminar sua pena e se reintegrar com mais facilidade na sociedade (DANIFO, 2007).

.

Eles acreditavam que celas individuais pequenas e em quantidade insignificantes somente pioravam a situação, pois acabariam por se transformar em “solitárias”, ou seja, em locais de castigos para os presos reticentes e de mal comportamento. Nesse sentido, para realizar o modelo idealizado, em primeiro lugar, teria que ser construído um prédio arquitetonicamente voltado para esse fim, ou seja, um Presídio somente com celas individuais de tamanho adequado. Isso significava não só a impossibilidade de aproveitar imóveis já existentes, readaptados – método comum em diversos países e épocas históricas – como também um alto custo de construção e de manutenção. Foram utilizadas as técnicas mais avançadas disponíveis (1820-1830) para a construção do prédio, com serviços muito acima dos melhores prédios públicos. Entre esses avanços, destaca-se aquecimento central (antes do Capitólio dos EEUU), vaso sanitário com descarga e um banheiro com chuveiro em cada cela, uma raridade no país (DANIFO, 2007).

Ainda que o chamado “Modelo da Pensilvânia”3 tenha se transformado,

naquela conjuntura, em um ícone com repercussão mundial, não surpreende que – apesar do sucesso no estrangeiro onde inspirou inúmeras penitenciárias - em nenhuma parte dos EEUU foi replicada experiência análoga dessa magnitude. Seguramente, tanto em virtude dos altos custos, mas também, em um segundo momento, porque passando alguns anos percebeu-se que o

isolamento do indivíduo mostrou-se extremamente doloroso e

contraproducente, pois mesmo em “solitárias confortáveis” ocorreram inúmeros casos de distúrbios mentais graves, alguns irreversíveis (PAVARANI, 1980).

3 Os nomes dessa experiência apresentam algumas variações, tais como: “Modelo

(23)

Não se deve desmerecer a história e o papel relevante da “The Pennsylvania Prison Society”, nas visitas aos presos, fiscalização dos seus direitos, apoio a reinserção social depois de libertados, entre outras atividades (DANIFO, 2007).

Entretanto, no que concerne a experiência em foco, deve-se reconhecer que, infelizmente, como diz o ditado popular, “o inferno está cheio de pessoas com boas intenções” (DANIFO, 2007).

Aliás, essa crítica ao “Modelo da Pensilvânia” é a mesma que hoje se pode fazer aos chamados “Presídios de Segurança Máxima” no Brasil e no exterior, ou seja, são presídios extremamente caros e desumanos, uma espécie de “tortura a conta gotas”.

Uma proposta alternativa ao “Modelo Pensilvânico” de grande impacto começa paulatinamente a tomar forma a partir dos anos 20 do século XIX, no Sistema Penitenciário de Auburn, na cidade de Nova York. Esse modelo tinha em comum com o primeiro, o isolamento noturno dos prisioneiros, sendo que as chamadas celas individuais de “Auburn” – comparativamente as da “Pensilvânia” – eram na verdade cubículos (PAVARANI, 1980).

(24)

comunicavam apenas por gestos), acarretou, tal como ocorreu na Pensilvânia, o surgimento de diversos distúrbios, inclusive suicídios (PAVARANI, 1980).

As críticas a essa forma de tratamento dos presos, por parte de setores da sociedade organizada foi crescendo de forma lenta, mas constante e exercendo pressão sobre o governo estadual que iniciou uma regulamentação cada vez maior sobre os instrumentos e formas de castigos físicos, ainda que muitas vezes burlada pelos guardas. Nos últimos anos do século XIX, quando o “Modelo de Auburn” já tinha perdido muita de sua legitimidade, o governo proibiu formalmente toda forma de castigo físico nas prisões.

Chama atenção a simpatia de Alex Tocqueville e de seu colega Beaumont que acompanharam de perto a implementação das experiências de presídios norte americanos no século XIX, a simpatia que tinham pelos dois modelos no referente aos lados que consideravam benéfico de isolamento dos presos.

Les deux systèmes, contraires entre eux sur des points importans, ont cependant une base commune sans laquelle il n'y a point de système pénitentiaire possible; cette base, c'est l'isolement des détenus . Quiconque a étudié l'intérieur des prisons et les mœurs des détenus, a acquis la conviction que la communication de ces hommes entre eux rend impossible leur réforme morale, et devient même pour eux la cause inévitable d'une affreuse corruption. Cette observation que justifie l'expérience de chaque jour est devenue aux États-Unis une vérité presque populaire; etles publicistes qui s'entendent le moins sur le mode d'exécution du système pénitentiaire, s'accordent sur ce point qu'aucun bon système ne saurait exister sans la séparation des criminels. (BEAUMONT &TOCQUEVILLE,1833)

Entretanto ao comparar os dois modelos, os clássicos autores se inclinam mais pelo Sistema de Auburn, não pelo fato do trabalho em si, pois segundo eles, também, em Filadelfia todos os presos realizavam trabalhos individuais em suas celas, tampouco, porque o modelo auberniano permitisse “menor” isolamento em relação ao seu concorrente, mas sim em virtude da possibilidade desse modelo de interiorizar uma verdadeira postura disciplinar aos presos, a partir da resposta à seguinte questão:

(25)

C'est de lui donner des habitudes sociables, et d'abord de lui apprendre à obéir. La prison d'Auburn a sur ce point, disent ses partisans, un avantage manifeste sur celle de Philadelphie.

La réclusion perpétuelle dans une cellule est un fait irrésistible qui dompte le détenu sans combat, et dépouille ainsi sa soumission de toute espèce de moralité; renfermé dans cette étroite enceinte, il n'a point, à proprement parler, de discipline à observer. Quand il se tait, il garde un silence obligé; s'il travaille, c'est pour échapper à l'ennui qui l'accable : en un mot il obéit bien moins à la règle établie qu'à l'impossibilité physique d'agir autrement.

A Auburn au contraire le travail, au lieu d'être une consolation pour les détenus, est, à leurs yeux, une tâche pénible à laquelle ils seraient heureux de se soustraire. En observant le silence, ils sont incessamment tentés d'en violer la loi. Ils sont soumis à la discipline, et pourtant ils peuvent ne pas l'être. Ils ont quelque mérite à obéir, parce que leur obéissance n'est pas une nécessité. C'est ainsi que le régime d'Auburn donne aux détenus des habitudes de sociabilité qu'ils ne trouvent point dans la prison de Philadelphie

On voit que le silence est la base principale du systèmed'Auburn ; c'est lui qui établit entre tous les détenus cette séparation morale qui les prive de toutes communications dangereuses, et ne leur laisse des rapports sociaux que ce qu'ils ont d'inoffensif.(BEAUMONT & TOCQUEVILLE,1833, p. 45 -46.)

Os dois modelos citados que tiveram proeminência em grande parte do século IXX, influenciando direta ou indiretamente a forma de pensar a penitenciária no mundo vão perdendo legitimidade social e força política ao longo da primeira metade do século XX, para uma visão que busca o controle dos presos através da conjugação da repressão coma implantação de sistemas penais progressivos, vinculados a “regalias” de vários tipos para os presos de bom comportamento.

Ressalte-se que no Brasil há relatos de repercussão positivas desses dois modelos, bem antes de 1840 como se pode constatar pelo relato abaixo.

(26)

judiciário, entre outros problemas4. Entretanto, não deixa de ser interessante que mesmo com todas essas dificuldades concretas, acima citadas, as Comissões discutiam questões de reforma institucional envolvendo temas como trabalho dos presos e regimes de isolamento, fortemente influenciados pelas experiências da Filadélfia e de Auburn. (Salla, 1999).

Experiências pioneiras de regimes progressivos - que se tornariam majoritárias da partir de meados do século XX até hoje – ocorreram de forma pontuais durante o século XIX em vários países, como a Inglaterra e Irlanda, entre outros, que também repercutiram no Brasil

Em suas diversas variantes, a lógica do sistema progressivo é a divisão da pena em várias fases: que se inicia em um regime fechado e paulatinamente o preso de bom comportamento vai amealhando “regalias” incrementais e mudanças de regime (por exemplo, visitas nos fins de semana, semi-aberto, liberdade condicional) até alcançar a tão sonhada liberdade5.

No caso brasileiro, como na maioria dos países latino-americanos, as prisões modernas – baseada na privação da liberdade em virtude da “gravidade” do delito previsto em Lei – ocorre tardiamente, quando comparado com os EEUU e os países europeus, especialmente os mais desenvolvidos. Ao longo do período colonial brasileiro utilizaram-se as Ordenações Afonsinas, Manuelinas

e Filipinas, sendo que adentrando no século XIX essa última ainda continuava

em vigor, especialmente no que se referia à legislação penal que previa - como legislações análogas citadas – degredo, trabalho forçado nas galés, açoites, amputação de membros e pena de morte, entre outros suplícios (CHAZKEL, 2009, SALLA,1999).

Ressalte-se que durante muito tempo a cadeia esteve umbilicalmente vinculada às câmaras locais e além de não possuírem práticas padronizadas, normalmente as condições dos encarcerados eram muito ruins, em alguns

4Isso corrobora a posição reiterada de Foucault, lembrando que estudos realizados no início

das Penitenciárias já mostravam o fracasso das mesmas.

5 A discussão sobre a lógica desse sistema será aprofundado ao longo da tese a partir da

(27)

casos dependendo de amigos, parentes ou da caridade alheia para comer e sobreviver no cárcere.

Somente após a chegada da família real em 1808, em sintonia com a busca de modernização em diversos setores (abertura dos portos, criação de um embrionário sistema financeiro, melhorias da infraestrutura urbana, entre outras) procurou-se superar o retrógrado sistema penal colonial inspirado nas Ordenações Afonsinas e Manuelina, e abolir certos tipos de punição violentas como a pena de morte prevista para algumas “ofensas aos costumes”, através da criação de legislação, baseadas em ideários liberais, como a recuperação do criminoso e sua reintegração à sociedade. Em relação aos impactos sobre o Sistema Prisional, Amy Chazkel, chama atenção, que logo após a nossa independência, em 1822,“juristas, políticos e intelectuais brasileiros já se orgulhavam dos avanços que o país havia alcançado na área da legislação criminal. O Código Criminal de 1830 e o Código do Processo Criminal de 1832

serviram de modelo para todo o hemisfério6 e a Casa de Correção do Rio de

Janeiro esteve entre as primeiras instituições penais modernas da América Latina” (CHAZKEL, 2009, P.9-10).

Entretanto, não foi apenas o Rio de Janeiro, capital do País, que de destacou em instituições penais consideradas embriões de instituições modernas A Casa de Correção de São Paulo, também, teve papel relevante na história das prisões no Brasil. Foi em São Paulo, a partir de 1852, que se oficializou o discurso moderno que definia o papel da prisão não para punir, mas para ressocializar e reintegrar os condenados à sociedade. Ainda que – como afirma Salla, a retórica tendia a se afastar da realidade – a legitimidade oficial desse discurso colocava a instituição em um patamar diferente daquele da era colonial e das primeiras décadas após a independência. Obviamente nesse período a Casa de Detenção era, também, o local onde se alojavam escravos rebeldes, estrangeiros falidos, negros livres desocupados. (SALLA, 1999).

6 Ressalte-se que fenômeno semelhante ocorre hoje em termos de legislação brasileira

(28)

Essa tendência modernizante seletiva do século XIX continua a ganhar força após a independência, em contraste com a visão - durante muito tempo dominante - de focar esse período histórico somente nas suas dimensões mais “atrasadas”, sem perceber que ocorreram, também, inovações em várias áreas, mesmo que de forma incremental e, por vezes, com ocasionais recuos (SOUZA, 2000).

Marcos César Alvarez, Fernando Salla e Luís Antônio F. Souza em um artigo instigante mostram como o Código de 1890, possibilitou, pelo menos formalmente, a montagem de um sistema progressivo, inspirados em parte nos dois grandes modelos de encarceramento do século XIX (Filadélfia e Auburn):

O Sistema conhecido como irlandês ou progressivo, muito bem detalhado por Bandeira Filho (apud ALVAREZ, SALLA e SOUZA, 2003)

compunha-se de três estágios. No primeiro - penal stage – durante alguns meses o preso deveria ficar recolhido à cela, no total isolamento, ali trabalhando e submetido a uma dieta rigorosa. O segundo período era chamado de reformatory stage e nele os presos pernoitavam na cela e durante o dia trabalhavam em comum. Neste estágio, os presos eram classificados em quatro categorias, progressivas, de acordo com a sua conduta. Já no terceiro estágio - testing stage - o condenado passa para uma prisão intermediária onde desfruta de alguma liberdade. Trabalha em conjunto, tem suas próprias vestimentas, habitação diferenciada e pode ainda ter concessões de saída e circulação fora da prisão. De acordo com o seu procedimento, pode obter licença para sair da prisão e viver em algum lugar fixo, apresentando-se regularmente a uma autoridade policial (liberdade condicional). O Código nada mais fez do que fixar na letra da lei esse modelo de funcionamento da prisão e de cumprimento de pena”.

Art. 45. A pena de prisão celular será cumprida em estabelecimento especial, com isolamento celular e trabalho obrigatório, observadas as seguintes regras:

a) se não exceder de um ano, com isolamento celular pela quinta parte de sua duração;

b) se exceder desse prazo, por um período igual à quarta parte da duração da pena e que não poderá exceder de dois anos; e nos períodos sucessivos, com trabalhos em comum, segregação noturna e silencio durante o dia.

(...)

Art.50. O condenado a prisão celular por tempo excedente a seis anos e que houver cumprido metade da pena, mostrando bom comportamento, poderá ser transferido para alguma penitenciaria agrícola, afim de aí cumprir o restante da pena.

Parágrafo 1º - Se não perseverar no bom comportamento, a concessão será revogada e voltará a cumprir a pena no estabelecimento donde saiu.

(29)

“Parágrafo 2º - Se perseverar no bom comportamento, de modo a fazer presumir emenda, poderá obter livramento condicional, contanto que o restante da pena a cumprir não exceda de dois anos.

(ALVAREZ, SALLA e SOUZA, 2003: 18-19)

Como havia por parte do legislador a consciência que seria improvável o Código, através dos artigos acima citados, ele achou por bem para evitar ilegalidades formais, resolveu estabelecer “Disposições Gerais do Código, com o seguinte teor:

Enquanto não entrar em inteira execução o sistema penitenciário, a pena de prisão celular será cumprida como a de prisão com trabalho, nos estabelecimentos penitenciários existentes, segundo o regime atual; e nos lugares em que os não houver, será convertida em prisão simples, com aumento da sexta parte do tempo(Cf. art. 490).

(ALVAREZ, SALLA e SOUZA, 2003: 20)

.

Com a promulgação do Código Penal de 1940 e mais uma vez seguindo as experiências dos países europeus e do EEUU, foi possível implementar o sistema progressivo, que do ponto de vista da retórica já tinha hegemonia entre especialistas e autoridades. Isso não significou, evidentemente, avanços consideráveis, tanto em função da carência de recursos, das fortes assimetrias do país- tanto social como regional- como também por uma questão estrutural ligado as idiossincrasias da própria prisão, que mesmo nos países de ponta nunca foram instituições de sucesso.

A promulgação da Lei de Execuções Penais, em 1984, e algumas inovações decorrentes da reforma do Código Penal Brasileiro, ainda que positiva não foram capazes de mudar muito a precariedade do sistema penitenciário, ressaltando sempre a existências de algumas exceções, que confirmam a regra.

(30)

etc.), sobre a necessidade de amplas transformações do sistema jurídico e penal.

Diante da necessidade de reformas que viabilizassem a democratização da justiça surgem propostas que buscavam simplificar o teor processual do direito, como, por exemplo, à criação de políticas penais de absolvição sumária no momento do juízo de admissibilidade da acusação e da defesa do acusado antes do recebimento da denúncia7 ou da queixa8. Profundas inovações

também foram inseridas na forma de se conduzir o interrogatório, objetivando a garantia de uma defesa mais eficiente e efetiva ao acusado. Em suma, segundo especialistas, “o país precisa de um estatuto que prime pela eficiência, evitando formalismos e procrastinações inúteis, de modo a tornar o processo penal mais

célere, desburocratizado e aberto”. (GRINOVER, 2001:16).9

Entre os três poderes da República, o Judiciário é sem dúvida o que apresenta maior resistência a qualquer tipo de reforma que inclua mecanismos de controle externo à instituição ou forte aumento de instâncias infrajudiciais de resolução de conflitos, priorizando, em contrapartida, a melhoria das condições operacionais e mudanças na legislação processual.

Nesse sentido, em pesquisa realizada no Judiciário, 72.9% dos Juízes brasileiros consideraram que um dos motivos da “crise da Justiça” estaria associado à falta de modernização de suas estruturas que tendiam a tornar os seus serviços morosos e caros. Ressalte-se, ainda, que o segundo fator mais citado, como um dos que estariam contribuindo para a referida “crise”, foi o anacronismo do nosso Direito Processual (VIANNA; CARVALHO; MELO; BURGOS, 1997: 277).

Como a Reforma do Judiciário é questão complexa e que coloca em xeque diferentes tipos de interesses cristalizados - muitas vezes conflitantes - torna-se difícil alcançar um consenso entre os três poderes, tanto sobre os tipos de

7 Peça inicial nos crimes de ação penal pública. 8 Peça inicial nos crimes de ação privada.

9 Ada Pellegrine Grinover é presidente da comissão de juristas do Instituto Brasileiro de Direito

(31)

mudanças, como os ritmos de implementação das mesmas, especialmente no que diz respeito às reformas constitucionais.

Ressalte-se, entretanto, que após a redemocratização do país, o papel de magistrados e procuradores ganha destaque, seja defendendo novas propostas políticas para o setor, seja reinterpretando a legislação já existente dentro de uma perspectiva que busca transformar em prática o “universalismo de procedimentos” já existente formalmente nos textos legais. Esse processo – que apresenta diferenças entre os estados da federação, em virtude das idiossincrasias regionais - estaria “associado à mudança na composição social de seus quadros – renovação social e de geração -, à crescente autonomia dos juízes e procuradores públicos face ao governo central, à transformação das atividades do Judiciário em objeto de interesse dos meios de comunicação” (SORJ, 2000: 115).

O surgimento dos Juizados Especiais Criminais deve ser visto como decorrência do processo de democratização e buscava, entre outras finalidades, diminuir o número de presos condenados por delitos que previam pen a de até dois anos e com isso diminuir a pressão sobre o Sistema Prisional.

Todas essas normas exigiram adaptações e reformulações dos atores envolvidos. Essas ações - em função de acarretarem maior legitimidade do sistema - levaram a um enorme aumento da demanda judicial por parte da população nas últimas décadas. Assim os “novos processos” que em 1988 eram da ordem de 350 mil, dez anos mais tarde (1998) já atingiam a marca de 8,5 milhões. (VIANNA; CARVALHO; MELO; BURGOS, 1997).

(32)

Nesse contexto é que ocorre a criação dos primeiros tribunais especiais cíveis e criminais, visando a celeridade e a democratização da justiça para causas e contravenções menores, mas que afetam um número elevado de pessoas (VIANNA; CARVALHO; MELO; BURGOS, 1999:155).

Algumas das autoridades responsáveis pelos JECrins dizem que parte desse desempenho preocupante decorre do próprio “sucesso” do Juizado que teria, segundo essa interpretação, desencadeado um aumento da demanda represada, ao permitir o acesso de setores populares antes sem possibilidade de recorrer à Justiça tradicional.

Vale, ainda, sublinhar que quando levado em conta o tempo de Justiça global, ou seja, do registro de ocorrência até o encerramento do procedimento, o desempenho só não é ainda mais dramático devido ao elevadíssimo índice de “renúncia” das vítimas.

Se do ponto de vista da celeridade o JECrim apresenta sérias limitações, em termos qualitativos o seu desempenho enfrenta dois tipos de constrangimentos: primeiro, a falta de pessoal e de instalações físicas para absorver a demanda existente; e segundo lugar, as dificuldades de preparação técnica adequado do pessoal de apoio, especialmente dos conciliadores, para a realização de um trabalho de qualidade.

Vejamos, como exemplo, o discurso de um Juiz de Comarca do Rio de Janeiro, que considera o poder público despreparado para realizar uma política desse porte, especialmente no referente à formação técnica dos conciliadores:.

Eles (os conciliadores) não auferem nenhuma vantagem, nenhuma remuneração, são voluntários. O Estado com isso demonstra pouco caso com o público – alvo do Juizado Especial. Não remunera os conciliadores e não há esperança que venha a mudar essa política. Não temos especialistas para essa importante função. As pessoas possuem outras ocupações profissionais, ser conciliador é uma atividade complementar de entrega à causa da justiça. Infelizmente, as estratégias da conciliação não são cultivadas como produto de um aprendizado sistemático para alcançar o prático.(AZEVEDO, 2004)

(33)

últimos – possuem um discurso absolutamente homogêneo na busca prioritária pelo consenso, mesmo a custa da renúncia da vítima.

No que se refere à negação do conflito, o que se pode notar são similaridades nas duas atuações que se explicaria, a nosso ver, por uma permanência de práticas culturais e de certas condições de ordem cognitivas que cortam transversalmente a sociedade brasileira. Resgatando as palavras de Kant de Lima: a “nossa cultura associa, há séculos, a existência de conflitos à ausência da ordem, ao caos e à violência” (KANT, 1998).

Poder-se-ia argüir a possibilidade de ser essa uma especificidade do estado do Rio de Janeiro, ou da Região SUDESTE, mas a retórica de um Juiz do Rio Grande do Sul reproduz fielmente o mesmo discurso.

Enquanto a figura do julgador na Justiça tradicional adota uma postura bastante rígida, com relação ao fato de presidir um processo criminal... nos Juizados Especiais Criminais, a figura do Juiz se transmuda, o Juiz passa a ser uma espécie de conciliador, uma espécie de aconselhador até mesmo das partes. Muitas vezes se pacificam os ânimos das pessoas, e aí um dos desejos do legislador, ao editar a Lei 9.099, que é justamente o de restabelecer a harmonia nas relações. (AZEVEDO, 2001: 105).

Por fim, deve-se salientar que a questão de reformas e mudanças NO Sistema Penal envolve, entre outras variáveis, a tensão permanente entre a busca concomitante da eficiência e a da manutenção ou ampliação de valores democráticos (legitimidade e inclusão social, democratização de acesso aos serviços públicos e a justiça, entre outros).

(34)

Um dos desafios a ser enfrentado pelo dilema acima seria de como evitar que o mesmo se transforme em um perigoso “jogo de soma zero”. Ainda que não haja receitas prontas, o mais indicado seria apostar em uma combinação que evitasse tomadas de posições parciais ou unilaterais no referente à tensão básica analisada.

3. A prisão em números no exterior e no Brasil: um breve

balanço

A péssima situação das prisões e penitenciárias brasileiras têm sido documentadas nos últimos anos em reportagens, documentários, filmes e entrevistas. Em 2008 o Relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara dos Deputados confirmou todas as mazelas conhecidas: superlotação, alimentação de baixa qualidade, grande número de presos provisórios sem formalização de denúncia, dificuldades de assistência jurídica e médica, violência e uso arbitrário de autoridade, inexistência ou deficiências graves de programas voltados para incentivar o aumento dos baixos índices de trabalho (apenas 30%) e de formação educacional (somente 20%) dos presos, corrupção e delitos perpetrados por diferentes segmentos de servidores públicos, poder excessivo dos Diretores10 entre outros problemas. (CPI, 2009).

Além disso, o referido Relatório destaca uma tendência de militarização das Penitenciárias, na contramão do movimento de profissionalização defendidos por servidores e especialistas da área,11pois em “diversas unidades da federação a polícia militar tem o comando do Sistema Prisional... (como exemplo) destaca a reunião dos diretores de escolas penitenciárias em Brasília em que de todos os diretores presentes só havia um profissional do Serviço

10Como se verá mais adiante essa característica, discrepante das demais instituições estatais,

apontada pela CPI como um “problema” na verdade está calcada nas idiossincrasias da prisão e na busca de maior controle sobre os detentos.

(35)

Penitenciário. Os demais eram servidores das polícias militares (CPI, 2009, p.418).

No final da CPI o relator apontou explicitamente 32 (trinta e duas) autoridades que teriam cometidos faltas gravíssimas, encaminhando os, respectivos, dossiês aos diversos órgãos estaduais e federais competentes para que apurassem as denúncias levantadas pela Comissão..

Ressalte-se, ainda, que a CPI, em pauta, elaborou um “rank” das “piores” e “melhores” prisões do país, ainda que na nossa concepção – que será desenvolvida ao longo da tese, em relação a essas últimas, analiticamente falando, o correto seria utilizar termos assemelhados a “menos ruim” ou “menos cruéis” (ver Anexo I)

Entretanto a crise do Sistema Prisional está longe de ser um problema apenas brasileiro. Pelo contrário, essa questão por sua complexidade envolve diferentes variáveis e havendo muito mais diferenças do que afinidades entre diferentes países e no Brasil entre os diferentes estados, Além disso, quando os números se aproximam entre países , em muitos casos, eles são frutos de causalidades extremamente diferentes.

Com base no relatório do PNUD, 2009 – dados de 2007, percebe-se que uma análise descontextualizada do indicador de presos por 100 mil/hab., pode apresentar distorções, em países (especialmente insulares) cuja população total é pequena – abaixo de um milhão de habitantes. As distorções decorrem, por exemplo, de eventos corriqueiros da administração publica, seja por ação policial mais efetiva, criação ou ampliação de uma nova penitenciária (ver Apêndice I). Da mesma forma, essa situação se repete ao analisarmos, para o caso brasileiro, os estados federados com população inferior a um milhão de habitantes (ver Apêndice II).

A comparação do indicador de presos por 100 mil/habitantes, com outro indicador econômico-social, como o IDH, de acordo com os dados trabalhados, não evidenciou correlação direta. Isso porque existe uma série de variáveis intervenientes no que se refere à questão da violência e criminalidade, como

(36)

diferentes motivos, tanto países desenvolvidos, (à exceção dos Estados

Unidos12) como aqueles de menor desenvolvimento, apresentam índices baixos

de encarceramento. Os primeiros, possivelmente, por apresentarem um padrão de vida elevado, instituições públicas e privadas já consolidadas, aliado a uma sociabilidade mais refratária a conflitos e violência. Já os países com menor IDH, apresentam baixos níveis de vida sócio econômicos, normalmente adicionados a problemas crônicos de estruturação institucional, o que poderia explicar baixa a “eficiência” do sistema prisional, ainda que a polícia possa ser extremamente violenta e discricionária (ver Apêndice I).

Do ponto de vista analítico, considerando as maiores economias do mundo (países do G20), não existe correlação direta entre presos por 100 mil/habitantes e IDH. Saltam aos olhos as distorções proporcionadas pelos Estados Unidos (756 presos por 100 mil/habitantes, com 0,956 de IDH) e pela Rússia (629 presos por 100 mil/habitantes, com 0,817 de IDH), comparados aos demais países. Dentre estes países, os menores níveis de encarceramento ocorrem na Índia (33 presos por 100 mil/habitantes, com 0,612 de IDH), na Indonésia (58 presos por 100 mil/habitantes, com 0,734 de IDH) e no Japão (63 presos por 100 mil/habitantes, com 0,0960 de IDH). Países como a África do Sul (335 presos por 100 mil/habitantes, com 0,683 de IDH), o Brasil (238 presos por 100 mil/habitantes, com 0,816 de IDH) e o México (207 presos por 100 mil/habitantes, com 0,854 de IDH), são os países com maiores índices de encarceramento, do grupo do G20, depois de Estados Unidos e Rússia (ver Tabela 1).

(37)

TABELA 1

POPULAÇÃO PRISIONAL POR PAISES DO G.20*; PRESOS POR 100/Hab.; IDH

PAÍSES População

Estimada Presos Estimados Presos por 100mil hab. Índice de Desenvolvimento Humano 2007

Estados Unidos 303.150.000 2.293.157 756 0,956 Japão 128.250.000 81.255 63 0,960 Alemanha 82.160.000 73.204 89 0,947 Reino Unido 61.800.000 93.215 150 0,947 França Itália Canadá Rússia Brasil** Índia China México África do Sul Arábia Saudita Argentina Austrália Coréia do Sul Indonésia Turquia 62.100.000 59.860.000 33.100.000 141.830.000 198.950.405 1.127.500.000 1.319.700.000 107.400.000 49.000.000 21.700.000 39.300.000 21.370.000 48.400.000 236.000.000 71.330.000 59.655 55.057 38.348 891.738 473.626 373.271 1.565.771 222.671 164.297 28.612 60.000 27.615 47.097 136.017 101.100 96 92 116 629 238 33 119 207 335 132 154 129 97 58 142 0,961 0,951 0,966 0,817 0,816 0,612 0,772 0,854 0,683 0,843 0,866 0,970 0,937 0,734 0,806

Fontes: ICPS, International Centre for Prison Studies, King’S College, World Prison Lista (eighth edition) London, 2009.

PNUD, Programa das Nações Unidas para Desenvolvimento,Índice de Desenvolvimento Humano, IDH,

Relatório de Desenvolvimento Humano, 2009.

*O G-20 é um grupo formado pelo Banco Central e ministros da economia de 19 países mais a União

Européia. Foi criado para o debate entre países emergentes e desenvolvidos acerca de temas como o

desenvolvimento econômico e sistema financeiro mundial.

* *Ministério da Justiça, Departamento Penitenciário Nacional – Sistema Integrado de Informações Penitenciárias – InfoPen – 2005 e 2010.

(38)

Ainda que essa transformação radical do modelo econômico, em curto período de tempo, tenha ocorrido sem “banho de sangue”, obviamente além dos avanços e progressos em vários aspectos, acarretou, também, “efeitos perversos” característicos de sociedades de mercado emergentes: empobrecimento das camadas mais vulneráveis, crescimento do crime organizado e fragilidade das novas instituições democráticas, entre outros.

A situação norte-americana parece se apresentar de forma ainda mais preocupante, por ser a maior economia mundial, país com longa tradição democrática e que dos anos sessenta até meados da década de setenta do século passado vinha em uma trajetória de queda da população carcerária. Nesse momento, “debatia-se então sobre ‘desencarceramento’, penas alternativas e sobre reservar a reclusão apenas para os ‘predadores perigosos’ (isto é, 10 a 15% dos criminosos). Alguns chegavam a anunciar com audácia e crepúsculo da instituição carcerária” (WACQUANT, 2001: 81)

A partir dos anos setenta, a intensificação do processo de globalização, a e concentração de capitais em escala internacional e a crise fiscal dos países do primeiro mundo, acarreta a impossibilidade de assegurar um crescimento que se aproxime do pleno emprego, tendo com conseqüências um processo de desregulamentação da economia, privatizações de empresas públicas e crise do “Welfare State” (OSTRY, 1994; ZINI et al.1997).

(39)

Esse processo teria causado a crise da chamada “sociedade assalariada”, ou seja, desemprego – cada vez menos “work” e mais “job” – novas formas de marginalização e a “desfiliação”, que significa perda do apoio relacional que complementavam as condições de trabalho assalariado (a família , sindicato, o bairro, entre outras). “Essas “perdas” explicariam o porquê de um percentual considerável de trabalhadores desempregados ou mesmo subempregados passariam da vulnerabilidade à exclusão” (CASTEL, 1998)

No caso norte-americano, a partir desse novo contexto de mudanças estruturais, a curva da população carcerária - que até 1975 vinha em queda – se inverte de forma violenta e não para mais de crescer saltado de 740.000 (WACQUANT, 2001:81) para cerca de 2.300.000 de prisioneiros em 2009, como se viu anteriormente (Tabela 1). Isso significa um aumento bruto de 1.560.000 presos, ou seja, a população carcerária mais do que duplicou nesse intervalo de tempo,

Ressalte-se que, nesse mesmo período, a população dos EEUU cresceu de 215 milhões13 (1975) para cerca de 303 milhões de habitantes (2009). Comparando os dados acima se pode concluir que enquanto entre 1975 e 2009 a população norte-americana cresceu cerca de 40%, a população carcerária aumentou, nesse mesmo período, mais de 200%, o que significa um crescimento cinco vezes maior do que a média do país.

Não é sem razão que Loíc Wacquant afirma que nos EEUU “a atrofia deliberada do Estado Social corresponde à hipertrofia distópica do Estado penal” (WACQUANT, 2001: 80). Lembra, ainda, o autor que no estado da Califórnia cerca de três quartos dos presos são pequenos delinquentes, especialmente toxicômanos. Além disso, esse crescimento anômalo do Sistema Penal n o EEUU transformou o Estado no terceiro maior empregador do país, a custa, evidentemente, de cortes nas verbas e nas dispensas de servidores lotados em programas sociais. Frente a essa situação ímpar no mundo, Wacquant considera que o objetivo da “Nova Penalogia” norte americana “não é mais nem prevenir o crime, nem tratar os delinqüentes

13 Dado extraído da WIKIPEDIA, The free Encyclophedic. Demografia dos Estados Unidos.

(40)

visando o seu eventual retorno à sociedade, uma vez sua pena cumprida, mas isolar grupos considerados perigosos e neutralizar seus membros mais disruptivos mediante uma série padronizada de comportamentos e uma gestão aleatória dos riscos, que se parecem mais como uma investigação operacional ou reciclagem de ‘detritos sociais’ que com trabalho social” (WACQUANT, 2001: 86).

No caso brasileiro, uma análise das cinco regiões do país apresenta, a primeira vista, um alinhamento entre os maiores índices de IDH com maiores índices de presos por 100 mil/habitantes. A região Sul com um maior IDH (0,850), apresenta, também, a maior relação de presos por 100 mil/habitantes (368,19). No outro extremo encontra-se a região Nordeste, com a menor média de IDH, entre as regiões brasileiras (0,749), apresenta um índice de presos por 100 mil/habitantes de 110,58, o menor entre todas as regiões (ver Tabela 2).

Uma análise individualizada por estado da federação mostra em relação ao índice de presos por 100 mil/habitantes, que a maioria dos estados (18), apresenta um índice elevado, acima de 200 presos por 100 mil/habitantes. Dos nove estados restantes, cinco possuem um índice intermediário (acima de 100 e abaixo de 200 presos por 100 mil/habitantes). Os outros quatro estados têm índices baixos de encarceramento, sendo: Bahia (97,62), Piauí (82,38), Maranhão (82,01) e Alagoas (75,38) presos por 100 mil/habitantes (ver Apêndice II). Curiosamente, os três últimos estados são os que apresentam o menor IDH, tal como percebido anteriormente, entre os países menos desenvolvidos (ver Apêndice I).

(41)

TABELA 2

POPULAÇÃO PRISIONAL POR REGIÕES; PRESOS POR 100/Hab.; IDH

Estados População 2009 (Estimada) Presos 2009 Presos por 100mil hab. 2009 Índice de Desenvolvimento Humano 2007 NORTE NORDESTE CENTRO-OESTE SUDESTE SUL BRASIL 15.359.608 67.257.557 13.895.375 80.836.490 21.600.375 198.950.405 30.743 74.373 41.255 247.725 79.530 473.626 200,15 110,58 296,90 306,45 368,19 238,06 0,786 0,749 0,838 0,847 0,850 0,816

Fontes de dados: Ministério da Justiça, Departamento Penitenciário Nacional – Sistema Integrado de Informações Penitenciárias – InfoPen – 2005 e 2010.

Banco Central, Índice de Desenvolvimento Urbano Boletim Informativo, 2009.

A população penitenciária brasileira, para o ano de 2009, era da ordem de 474 mil presos. Deste total, 88% cumprem penas em penitenciárias 12% em casas de detenções. Vale ressaltar que a grande maioria desta população é composta pelo sexo masculino, com mais de 93%. Essa diferença expressiva reflete, dentre outras coisas, relações de gênero, em que o processo de construção da sociabilidade feminina distancia-se muito da formação e do espaço de convivência masculino (ver Tabela 3).

TABELA 3

POPULAÇÃO PRISIONAL BRASILEIRA POR GÊNERO E TIPO DE PRISÃO 2009

Penitenciárias Casas de Detenção (Polícia) População Total Gênero

Tipos de Prisão

Nº abs. % vert. % horiz. Nº abs. % vert. % horiz. Nº abs. % vert. % horiz.

Homens 392.820 94,2 88,8 49.405 87,4 11,2 442.225 93,4 100

Mulheres 24.292 5,8 77,4 7.109 12,5 22,6 31.401 6,6 100

Total 417.112 100 88,1 56.514 100 11,9 473.626 100 100

(42)

Entretanto, conforme se pode perceber, através da Tabela 4, que no período entre 2004 e 2009 ocorreu um crescimento mais significativo da população carcerária feminina (90,6%), um pouco superior ao da masculina, (79,6%).

Esta análise para dois estados importantes da federação, São Paulo e Rio de Janeiro, mostra diferenças significativas, em termos de gênero, para a população carcerária. Enquanto que em São Paulo, ao longo do período analisado, houve um crescimento aproximado de 20% da população carcerária masculina, no Rio de Janeiro, este crescimento foi próximo de 40%. Esta variação se inverte quanto se analisa a população feminina, que em São Paulo cresceu próximo de 35%, enquanto que no Rio de Janeiro, este crescimento foi ao redor de 30% (ver Apêndices III e IV).

TABELA 4

EVOLUÇÃO DA POPULAÇÃO PRISIONAL NO BRASIL POR GÊNERO (2004 / 2009)

2004 2009 Incremento da

População Prisional ANO

Gênero

Nº absoluto % vertical Nº absoluto % vertical Nº absoluto % horizontal

Homens 246.237 93,7 442.225 93,4 195.988 79,6

Mulheres 16.473 6,3 31.401 6,6 14.928 90,6

Total 262.710 100 473.626 100 210.916 80,3

Fonte: Ministério da Justiça, Departamento Penitenciário Nacional – Sistema Integrado de Informações Penitenciárias – InfoPen – 2005 e 2010.

A análise da Tabela 5 evidencia a tipologia dos delitos praticados pelas presas da Penitenciária Talavera Bruce, em três momentos distintos: 1976, 1997 e 2004. Ao se comparar os delitos para décadas de 1970 com a atual, percebe-se que houve uma mudança expressiva no perfil das presas. Ou percebe-seja, pode-percebe-se dizer que, se aproximam mais das práticas dos crimes mais comuns entre os praticados pelos homens.

Enquanto que nos anos 70, o maior percentual dos delitos (cerca de 60%) praticados pelas presas, estava ligado ao “furto”, esse delito, em período mais recente não chega a 4%.

Imagem

FIGURA 1 - Pátio da entrada da penitenciária.
FIGURA 2 - Pátio principal da penitenciária.
FIGURA 3 - Hall do 1º andar.
FIGURA 6 - Lista de serviços oferecidos no salão.
+7

Referências

Documentos relacionados

Informações tais como: percentual estatístico das especialidades médicas e doenças, taxas de ocupação dos principais recursos, tempos de permanência de internação, escores

Os problemas de enfermagem relacionados às complicações associadas à derivação ventricular externa foram: capacidade adaptativa intracraniana diminuída relacionada ao

alfabetizandos. É trabalhando este universo que se escolhem as palavras que farão parte do programa.. Estas palavras , mais ou menos dezessete, chamadas

iv. Desenvolvimento de soluções de big data aplicadas à gestão preditiva dos fluxos de movimentação portuária de mercadorias e passageiros. d) Robótica oceânica: criação

, COM EXPERIÊNCIA, PRETENDE-SE ADMITIR ENCARREGADO DE CONSTRUÇÃO PARA FAZER TODO O SERVIÇO LIGADO À CONSTRUÇÃO CIVIL DE

Dias livres para desfrutar da praia e instalações do hotel, ou realizar visitas opcionais (não incluso) como safári por deserto em 4X4, jantar beduína em deserto, snorkeling, etc..

Dias livres para desfrutar da praia e instalações do hotel, ou realizar visitas opcionais (não incluso) como safári por deserto em 4X4, jantar beduína em deserto,

However, while in the commercial entrepreneurship these pull motivations are more closely associated with extrinsic and hedonic motiva- tion ( Santos, 2012 ), i.e., there is a