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O contexto da discussão

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Academic year: 2019

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Texto

(1)

Metamorfoses do empirismo:

Hempel e Neurath

ou: A quadratura do Círculo

(de Viena)

Unidade 1

Parte 2

Prof. Dr. Valter Alnis Bezerra

Universidade de São Paulo

Departamento de Filosofia

FLF-0469

(2)

O contexto da discussão

(3)

O contexto da discussão

A concepção standard ou ortodoxa de teorias

científicas

Fonte: John Losee, A Historical Introduction to the Philosophy of Science

(4)

Contexto

A concepção standard ou ortodoxa de teorias

científicas

Uma síntese

(1) Existe uma linguagem de primeira ordem L (passível de ampliação com operadores modais), em termos da qual se formula a teoria, e um cálculo lógico K, definido em termos de L.

(2) As constantes não-lógicas de tipo descritivo e os predicados de L (“termos”) dividem-se em duas classes disjuntas:

(a) um vocabulário observacional VO, que contém somente termos observacionais (VO deve conter ao menos uma constante individual);

(b) um vocabulário teórico VT, que contém os termos não-observacionais ou teóricos.

(Para manter uma terminologia homogênea, pode-se referir à classe dos termos lógicos de L como sendo o vocabulário lógico VL.)

(5)

Contexto

(Parêntese: o teórico e o observacional)

Observáveis Teóricos / inobserváveis

Água Madeira Metal

Núcleo celular Satélite natural

Aglomerado de galáxias Cadeias estímulo-resposta (em psicologia behaviorista)

Campo elétrico Elétron

Átomo

Função de onda quântica 

Ego, superego, id (em psicanálise) Estruturas cognitivas (em psicologia) Big Bang

(6)

Contexto

(Parêntese: o teórico e o observacional)

Observáveis Teóricas / inobserváveis

[No máximo, podemos detectar a sua presença apenas

indiretamente, através dos seus efeitos— se e quando

isso for possível]

Cores (p. ex. vermelho) Quente / Frio

À esquerda de Em contato com Mais comprido que Sobre / sob

Duro / mole

Flutuar / afundar Horário / anti-horário

Dualidade / Complementaridade partícula-onda

(somente se detecta cada um dos aspectos

separadamente, nunca os dois juntos)

Superposição de estados quânticos

(raiz do paradoxo conhecido como o “gato de

Schrödinger”)

(7)

Contexto

(Parêntese: o teórico e o observacional)

Observáveis Teóricas / inobserváveis

Pressão, Volume e Temperatura

(as variáveis termodinâmicas clássicas)

Comprimento de onda Distância

Velocidade Aceleração

Ângulo de espalhamento Grau de adaptação dos organismos

(em teoria da evolução)

Spin de uma partícula

(detectado indiretamente através do experimento de Stern-Gerlach)

Energia

(detectada através do trabalho que ela realiza) Função potencial, p.ex. “V(x)”

Tensor de curvatura do espaço-tempo

(em teoria da relatividade)

(8)

Contexto

A concepção standard ou ortodoxa de teorias

científicas

Uma síntese (cont.)

(3) A linguagem L se divide nas seguintes sublinguagens, e o cálculo K nos seguintes subcálculos:

(a) A linguagem observacional LO é uma sublinguagem de L que não contém quantificadores nem operadores modais, e contém termos de VO, mas nenhum termo de VT. O cálculo associado KO é a restrição de K a LO e deve ser tal que todo termo não-VO (isto é, não primitivo) de LO esteja explicitamente definido em KO; além disso, KO deve admitir ao menos um modelo finito. [Questão da consistência.]

(b) A linguagem observacional logicamente ampliada LOnão contém termos VT e pode ser considerada como formada a partir de LO adicionando-lhe os quantificadores, operadores, etc. Seu cálculo associado KO’ é a restrição de K a LO’.

(c) A linguagem teórica LT é a sublinguagem de L que não contém termos VO; seu cálculo associado KT é a restrição de K a LT.

Estas sublinguagens, se reunidas, não esgotam L, pois L também

(9)

Contexto

A concepção standard ou ortodoxa de teorias

científicas

Uma síntese

(4) LO e seus cálculos associados recebem uma interpretação semântica que satisfaz as seguintes condições:

(a) O domínio de interpretação consta de eventos ou coisas concretas e observáveis. As relações e

propriedades da interpretação devem ser diretamente oberváveis.

(b) O valor de cada variável de LO deve ser designado por uma expressão de LO.

Segue-se que qualquer das interpretações de LO e KO,

ampliada mediante regras veritativas adicionais apropriadas, se tornará uma interpretação de LO’ e KO’. Pode-se entender as interpretações de LO e KO como interpretações semânticas parciais de L e K, e se requer, além disso, que não se dê

(10)

Contexto

A concepção standard ou ortodoxa de teorias

científicas

Uma síntese

(5) Uma interpretação parcial dos termos teóricos e dos enunciados de L que os contenham pode ser conseguida mediante as seguintes duas classes de postulados:

(a) os postulados teóricos T (isto é, os axiomas da teoria), nos quais só aparecem termos de VT;

(b) as regras de correspondência C, que são enunciados mistos.

As regras de correspondência C devem satisfazer as seguintes condições:

(i) o conjunto de regras C deve ser finito;

(ii) C deve ser logicamente compatível com T;

(iii) C não deve conter termos extra-lógicos que não pertençam a VO ou a VT;

(iv) cada regra de C deve conter, de maneira essencial, ao

menos um termo de VO e ao menos um termo de VT.

(11)

O contexto da discussão

A concepção standard ou ortodoxa de teorias

científicas

(1) FORMALISMO SEM INTERPRETAÇÃO =

TEORIA MATEMÁTICA (2)

FORMALISMO COM INTERPRETAÇÃO =

TEORIA CIENTÍFICA

Conceitos primitivos Conceitos físicos primitivos

Conceitos derivados SISTEMA Conceitos físicos derivados

Postulados ou axiomas DE Leis / hipóteses científicas

Regras de inferência INTERPRE- (idem)

Teoremas TAÇÃO Conseqüências dedutivas

— Conseqüências testáveis

empiricamente 

(12)

O contexto da discussão

Regras de correspondência e base empírica (1)

PRIMEIRA FASE DO POSITIVISMO LÓGICO Definições explícitas Definições operacionais

(13)

O contexto da discussão

Regras de correspondência e base empírica (2)

CARNAP [1936/1937] Sentenças de redução Pares de redução

Sentenças de redução bilaterais Cadeias de redução

INTERPRETAÇÃO PARCIAL

Q1 (Q2 Q3)

S1  (S2 R1)

S4  (S5 R1)

(14)

O contexto da discussão

Regras de correspondência e base empírica (3)

Hipóteses falseadoras

POPPER

Enunciados básicos

Convencionalismo da base empírica

(15)

Contexto

Teses do empirismo lógico que receberam as

maiores críticas

 Empirismo reducionista (criticado por Quine em “Dois dogmas

do empirismo”)

 Critério empirista de significado (criticado por Hempel em

“Problems and changes...”)

 Dicotomia teórico-observacional (criticada por Putnam, Hanson e Feyerabend)

 Dicotomia analítico-sintético (não inventada pelo positivismo lógico, mas essencial para os seus propósitos, e criticada por Quine em “Dois dogmas do empirismo”)

 Distinção entre contexto da descoberta e contexto da

justificação (criticada pelos “amigos da descoberta” nos anos 80)

 Rejeição da metafísica como carente de significado (criticada por Popper e outros)

Tex to cen tral: PUT NAM, H. “O qu e as teo ria s nã o são ”. Em: CAR RILH O, M

. M. (

(16)

Contexto

Teses do empirismo lógico que receberam as

maiores críticas (cont.)

 Verificacionismo e indutivismo (criticados por Popper via

falseacionismo e dedutivismo)

 Vulnerabilidade aos problemas do holismo teórico (“tese

Duhem-Quine”) e da subdeterminação empírica (o que não é exclusividade do positivismo lógico)

 Excessivo “teoria-centrismo”, dando pouca atenção outros

elementos do sistema do conhecimento científico (analogias, modelos, valores, etc)

 Descoberta dos paradoxos da confirmação (Hempel e Goodman)

 Noções de redução e explicação afetadas pelos problemas da

inconsistência e da variância de significado (apontados por

Feyerabend em Explanation, reduction and empiricism)

(17)

Contexto

Posições do empirismo lógico que sofreram as

maiores revisões

 (Auto-)crítica ao critério empirista de significado demasiado rígido, e posterior migração para uma concepção holista de significado (Hempel)

 “Princípio de tolerância” de Carnap relativo aos diferentes modos de reconstrução filosófica (em Logical Syntax of Language)

 Crítica à noção de teste conclusivo, e formulação da noção de

“quebra de confiança” (Neurath)

 A tese de que a ciência não se limita às teorias, mas se estrutura em sistemas mais ricos e complexos (as

“enciclopédias-modelo”) (Neurath)

 A epistemologia coerentista (não-fundacionalista) de Neurath

 A noção de que mesmo a base empírica da ciência (formada

por “enunciados protocolares”) é revisável (Carnap, Neurath)

 Admissão da função essencial desempenhada pelos termos teóricos na ciência e descoberta da sua redutibilidade

incompleta e do seu “significado excedente” (Carnap)

(18)

Contexto

Principais legados filosóficos / científicos do

empirismo lógico

 Pleno conhecimento e uso intensivo das novas ferramentas da lógica na análise filosófica

 Elevado padrão de rigor e caráter sistemático

 Primeira concepção sistemática de estrutura das teorias científicas adequada às teorias científicas contemporâneas  Primeira concepção sistemática de redução teórica (E.

Nagel)

 Formulação de uma concepção geral de explicação científica

(o modelo D-N, de Carl Hempel) Debate sobre a amplitude do seu âmbito de aplicação (p. ex. História? Sociologia?)

 Colocação, de maneira precisa, do debate sobre o estatuto cognitivo dos termos teóricos e das teorias científicas

(realismo vs. instrumentalismo)

 Identificação de dificuldades inerentes às noções de teste, teoricidade, observabilidade e à estrutura da interface

(19)

Contexto

Principais legados filosóficos / científicos do

empirismo lógico (cont.)

 Estudo aprofundado das questões relativas à lógica indutiva e teoria da probabilidade

 Consolidação de uma agenda de questões epistemológicas como a relação entre teoria e realidade, a base empírica da ciência, o problema do significado, a racionalidade, o

problema da indução

 Uma imagem filosófica de ciência que procurou se adequar às novas teorias científicas do século XX (relatividade, teoria quântica, síntese clássica em Biologia, teoria da informação)

 Contribuiu para consolidar os campos de pesquisa da

filosofia do espaço-tempo, dos fundamentos da mecânica quântica e da filosofia da probabilidade.

 Proporcionou inspiração para uma corrente relevante, a

“Interpretação de Copenhagen” da MQ

 Proporcionou inspiração para outra vertente relevante, a

(20)

W. V. Quine e Donald Davidson

(21)

«Creio que ... pode ser mais útil dizer que a epistemologia segue em frente, embora em uma nova configuração e com um estatuto esclarecido. A epistemologia, ou algo semelhante a ela,

simplesmente encontra seu lugar como um capítulo da psicologia e, portanto, da ciência natural. Ela estuda um fenômeno natural, a saber, um sujeito físico humano. Esse sujeito humano recebe um certo input experimentalmente controlado – por exemplo,

certos padrões de radiação em frequências selecionadas e, após um certo tempo, emite como output uma descrição do

mundo tridimensional e de sua história. A relação entre o input

ralo [meager] e o output torrencial é uma relação que somos

impelidos a estudar, de certo modo, pelas mesmas razões que sempre impulsionaram a epistemologia;a saber, para ver como a evidência se relaciona com a teoria, e de que maneiras a teoria da natureza que alguém possui transcende toda a evidência disponível.»

W. V. O. Quine, “Epistemologia naturalizada”, trad. V. A. Bezerra.

Quine

(22)

Input “magro”

Output torrencial

Foto: Aleksandr Rodtchenko

Quine

(23)

T

1

T

2

T

3

T

N

Base empírica

(Resultados

Observacionais)

Como chegar a uma decisão?

(24)

Quine reencontra Neurath

O analítico e o sintético

A visão tradicional:

(25)

A visão de Quine:

A distinção analítico/sintético não é

uma dicotomia, mas sim uma questão de grau.

Quine reencontra Neurath

(26)

 Primeiro dogma: Distinção analítico/sintético

Podemos dizer que Quine coloca em questão as distinções entre

teoria, formalismo matemático, linguagem e base empírica.

 QUINE, W. v. O. “Dois dogmas do empirismo” (1953). Trad. por Marcelo G. S. Lima. Em: Os Pensadores - Ryle, Strawson, Austin, Quine (2ª ed.), pp.

231-248. São Paulo: Abril Cultural, 1980.

Two dogmas of empiricism”.Em: W. v. O. Quine –From a logical point of

view - Nine Logico-Philosophical Essays (2nd rev. ed.) , pp. 20-46.

Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1980.

Mais tarde, Hilary Putnam (1968) irá perguntar, nessa linha:

A lógica é empírica?”

Lógica Geometria

______________ :: _______________ Mecânica quântica Teoria da relatividade

Quine

(27)

 Segundo dogma: O reducionismo de significado

Hume, Carnap, Wittgenstein Critério de significado

 “Dada uma idéia, somos capazes de mostrar de quais

impressões deriva essa idéia?”

 “Um enunciado possui significado cognitivo se não for

analítico e for { testável em princípio | traduzível para uma linguagem empirista | interpretável empíricamente }

 “O significado de um enunciado é o seu método de

verificação”

A visão de Quine sobre (2):

O todo da ciência é a unidade de significado, e não os enunciados isolados

Notar a conexão com Hempel (ver Unidade 1, Parte 1)

Quine

(28)

A noção de esquemas conceituais que são diferentes não é inteligível

– nem tampouco a noção de esquemas conceituais que são idênticos!

Isso acontece porque a diferenciação entre esquemas conceituais

repousa, em última análise, sobre o “terceiro dogma do empirismo”

(depois do dogma da dicotomia analítico / sintético e do dogma do reducionismo de significado).

Trata-se do dogma do dualismo entre esquema conceitual e realidade.

Donald Davidson

(29)

 Distinção entre esquema conceitual e realidade não-interpretada

conceitos

Conceitos

Esquema conceitual

Conceitos

REALIDADE

DOMÍNIO A CONJUNTO DE ASPECTOS 

CONJUNTO DE ASPECTOS 

CONJUNTO DE ASPECTOS  DOMÍNIO B

Donald Davidson

(30)

Donald Davidson

(31)

Donald Davidson

O terceiro dogma do empirismo

(32)

Donald Davidson

O terceiro dogma do empirismo

Pergunta: que implicações a crítica davidsoniana tem para projetos tais como:

 A distinção entre formalismo e interpretação (cf. acima);

 Regras de correspondência (idem);

 Critério empirista de significado;

 Distinção teórico/observacional;

 A nitidez da distinção entre uma epistemologia empirista e outras epistemologias.

 Que implicações isso tem para a teoria do conhecimento científico?

 Que empirismo será esse se é que ainda se trata de um empirismo?

(33)

Donald Davidson

Uma epistemologia coerencial

A epistemologia de Davidson é um sistema conceitual complexo.

Ela inclui argumentos a respeito das seguintes teses:

 A indeterminação da crença (por analogia com a indeterminação da tradução de Quine);

 O princípio de caridade na interpretação e na atribuição de sistemas de crenças;

 E, com base nas teses acima, estes argumentos:

 A crítica ao terceiro dogma do empirismo;

 Uma estratégia de argumentação contra o ceticismo.

(34)

Endereços

Referências

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