INSTITUTO DE ESTUDOS SUPERIORES MILITARES
CURSO DE ESTADO-MAIOR CONJUNTO
2011/2012
TII
O ESPETRO CONTEMPORÂNEO DAS DISPUTAS E
CONFLITOS
DOCUMENTO DE TRABALHO
O TEXTO CORRESPONDE A TRABALHO FEITO DURANTE A FREQUÊNCIA DO CURSO NO IESM SENDO DA RESPONSABILIDADE DO SEU AUTOR, NÃO CONSTITUINDO ASSIM DOUTRINA OFICIAL DA MARINHA PORTUGUESA / DO EXÉRCITO PORTUGUÊS / DA FORÇA AÉREA PORTUGUESA / DA GUARDA NACIONAL REPUBLICANA
Pedro Miguel Moreira Ribeiro de Faria MAJ INF
INSTITUTO DE ESTUDOS SUPERIORES MILITARES
O ESPETRO CONTEMPORÂNEO DAS DISPUTAS E
CONFLITOS
MAJ INF Ribeiro de Faria
Trabalho de Investigação Individual do Curso de Estado-Maior Conjunto
2011/2012
INSTITUTO DE ESTUDOS SUPERIORES MILITARES
O ESPETRO CONTEMPORÂNEO DAS DISPUTAS E
CONFLITOS
MAJ INF Ribeiro de Faria
Trabalho de Investigação Individual do Curso de Estado-Maior Conjunto
2011/2012
Orientador:
MAJ INF João Vasco da Gama de Barros
Agradecimentos
Ao Major Gama de Barros, Camarada de longa data, não só pela sua orientação esclarecida e agradável, mas sobretudo pela partilha sincera e estimulante de conhecimentos e visões de inquestionável qualidade ao longo dos últimos anos, que muito contribuíram para a elaboração deste estudo.
Aos meus pais, por tudo.
À minha mulher, por todo o apoio e paciência demonstrados, sem os quais não teria sido possível ultrapassar estes longos meses.
Por fim, aos meus filhos, por tê-los privado de muitas horas de companhia e de brincadeira nos últimos meses.
Índice
Agradecimentos ... I Índice ... II Índice de figuras ... III Índice de tabelas ... III Resumo ... IV Abstract ... V Palavras-chave ... VI Lista de abreviaturas, siglas e acrónimos... VII
Introdução ...1
1. As teorias da atual Revolução dos Assuntos Militares ...5
a. O emprego do instrumento militar ...5
b. Retrospetiva histórica das RAM ...8
c. A atual RAM e as suas diferentes correntes teóricas ... 14
2. A tipologia das disputas e conflitos: uma visão contemporânea ... 19
a. Porquê e como classificar as disputas e conflitos? ... 19
b. Critérios de classificação ... 21
(1) Quanto aos intervenientes ... 21
(2) Quanto ao nível tecnológico dos intervenientes ... 22
c. Análise estatística dos conflitos contemporâneos e o Espetro da Guerra... 23
3. Construção do Modelo de Análise... 26
4. Os conflitos contemporâneos e a RAM ... 28
a. Análise dos conflitos contemporâneos ... 28
(1) Guerra do Golfo (1990-1991) ... 28
(2) Primeira Guerra da Chechénia (1994-1996) ... 31
(3) Guerra do Kosovo (1999) ... 33
(4) Segunda Guerra da Chechénia (1999-2003) ... 34
(5) Intifada de Al Aqsa (2000-2003) ... 35
(6) Invasão do Afeganistão (2001) ... 36
(7) Invasão do Iraque (2003)... 38
(8) Guerra do Afeganistão (2001-presente) e Guerra do Iraque (2003-2011) ... 41
Conclusões ... 45 Bibliografia ... 49
Índice de figuras
Figura 1 – Possíveis RAM segundo Murray (1997) ... 10 Figura 2 – Classificação quanto ao nível tecnológico dos intervenientes ... 23 Figura 3 – Classificação dos conflitos contemporâneos (1990-2007) quanto aos intervenientes ... 24 Figura 4 – Classificação dos conflitos contemporâneos (1990-2007) quanto ao nível tecnológico dos intervenientes ... 24
Índice de tabelas
Tabela 1 – Variáveis e Critérios do modelo de análise ... 26 Tabela 2 – Aplicação do modelo de análise ... 44
Anexos
A – Critérios de Classificação das Guerras
B – Lista de Conflitos e Disputas do período de 1990 a 2007 C – Lista de Guerras Tecnológicas do período de 1990 a 2007 D – Modelo de Análise
Resumo
É profusamente discutida na comunidade internacional uma nova conflitualidade mundial, caracterizada por conflitos internos, assimétricos e irregulares. Esta nova conflitualidade surge em paralelo, segundo vários teorizadores, com um novo paradigma de como fazer a guerra, a que normalmente se chama a Revolução dos Assuntos Militares (RAM). Este estudo incide sobre a problemática da conflitualidade contemporânea e a preconizada RAM em curso que, supostamente, alterou o caráter das guerras de hoje.
A metodologia de trabalho baseou-se na consulta de fontes bibliográficas, nomeadamente publicações de autores de referência, bem como em trabalhos e estudos publicados de diversos autores que abordam tanto a tipologia dos conflitos como as teorias da RAM, o que permitiu uma conceptualização dos modelos utilizados no seguimento da investigação. Depois de classificados os conflitos contemporâneos segundo os espetros selecionados, compararam-se as suas características com os fundamentos da principal corrente da atual RAM, de forma a determinar se os conflitos e disputas contemporâneos realmente confirmam a existência de uma RAM que tenha alterado a forma de fazer a guerra.
O estudo conclui que a principal corrente teórica da RAM se baseia na inovação tecnológica e no que esta acarreta, tendo como principais características a presença de avançados sistemas de vigilância, sistemas de comando, controlo, comunicações e informações (C3I) digitais, armas de precisão, operações conjuntas simultâneas e de elevado ritmo, extensa utilização de Operações de Informação e unidades de baixo escalão com integração de armas combinadas na sua constituição base; que as disputas e conflitos contemporâneos são preponderantemente internos e envolvem atores com baixo índice tecnológico; que os fundamentos tecnológicos da RAM estão presentes em apenas 12% dos conflitos e disputas contemporâneos e que a aplicação integral do preconizado pela RAM apenas se verifica em 4% do total dos mesmos.
O estudo termina demonstrando que as características predominantes da RAM estão marginalmente presentes na generalidade das disputas e conflitos contemporâneos, não se constituindo como fatores fundamentais dos mesmos, mantendo-se os fundamentos do sistema moderno de combate atuais e com caráter preponderante. Os fundamentos da RAM representam uma evolução extraordinária na forma de conduzir a guerra, resultando em aumentos de eficiência sem precedentes em várias dimensões do instrumento militar, mas representam uma mera evolução e não uma revolução nos assuntos militares.
Abstract
A new character of conflict, characterized by internal, asymmetric and irregular wars, is profusely discussed by the international community. According to some authors, this new type of conflict appeared simultaneously with a new way of waging wars, normally called the Revolution in Military Affairs (RMA). This study elaborates on contemporary conflict and on the so called RMA, which supposedly altered the character of modern warfare.
The investigation was based on several publications of well-known authors, as well as reports and papers concerning the spectrum of conflict and the different RMA theories, which allowed a conceptual construction of the models used on the following stages of the investigation process. After classifying contemporary wars according to selected spectrum of conflict models, their characteristics were compared with the elements of the main current RMA theory, in order to determine if the contemporary conflicts and disputes actually confirm the existence of a RMA which has altered the character of warfare.
The study concludes that the main theory of the current RMA is based on technology, and its main characteristics are the presence of advanced surveillance, command, control, communications and intelligence digital systems, precision weapons and munitions, high tempo simultaneous joint operations, extensive use of Information Operations and low echelon units permanently organized in accordance with the combined arms concept. It also concludes that contemporary conflict is mostly intrastate and involves actors with a low technological capability, with only 12% of these conflicts incorporating characteristics of the so called current RMA, and only 4% actually seeing the full implementation of these characteristics.
The study ends by demonstrating that the current RMA’s predominant characteristics are only marginally present on the generality of the contemporary conflicts, and are not preponderant in their conduct, with the fundamentals of the modern ground combat system still playing a central role on contemporary warfare, both up-to-date and prominent in modern combat. The fundamentals of the current RMA represent an extraordinary evolution in warfare, resulting in unprecedented efficiency gains on the different dimensions of the military, nonetheless representing a mere evolution, not a revolution in military affairs as often propagated.
Palavras-chave
- Conflitos - Disputas - Espetro - Guerra
Lista de abreviaturas, siglas e acrónimos
ADM – Armas de Destruição Massiva
AWACS – Airborne Warning and Control System C3 – Comando, Controlo e Comunicações
C3I – Comando, Controlo, Comunicações e Informações
C4IVR – Comando, Controlo, Comunicações, Computadores, Informações, Vigilância e Reconhecimento
CoW – Correlates of War
EUA – Estados Unidos da América GPS – Global Positioning System
IVR – Informações, Vigilância e Reconhecimento
JSTARS – Joint Surveillance and Target Attack Radar System OEF – Operation Enduring Freedom
OIF – Operation Iraqui Freedom ONU – Organização das Nações Unidas RAM – Revolução dos Assuntos Militares RMA – Revolution in Military Affairs RMC – Revolução Militar em Curso TO – Teatro de Operações
TTP – Técnicas, Táticas e Procedimentos UAS – Unmanned Aerial Systems
Introdução
É profusamente discutida na comunidade internacional uma nova conflitualidade mundial surgida após o derrube do muro de Berlim e a passagem de um sistema internacional bipolar para um sistema unipolar, com os Estados Unidos da América (EUA) como única potência global. De facto, assiste-se a uma diminuição dos conflitos interestatais em detrimento dos conflitos intraestatais, levando à fragmentação de vários estados, aumentando tensões regionais há muito latentes e estabilizadas por um equilíbrio baseado no controlo dos dois blocos predominantes do pós 2ª Guerra Mundial. Mas existirá, de facto, uma nova tipologia de conflitos, ou não será antes a frequência relativa dos mesmos que se alterou, fruto das novas condições de instabilidade? Torna-se assim interessante determinar qual a tipologia predominante dos conflitos das últimas duas décadas, partindo de um espetro da conflitualidade baseado em critérios de análise que possibilitem uma classificação objetiva.
Segundo vários teorizadores, esta nova conflitualidade surge paralelamente a um novo paradigma de como fazer a guerra, a que normalmente se chama a Revolução dos Assuntos Militares (RAM). De facto, já no final da década de setenta do século XX, analistas russos mencionaram a génese de uma revolução na forma de fazer a guerra, ideia que alastrou no início da década de noventa aos EUA (Metz & Kievit, 1994). A teoria da RAM preconiza uma alteração significativa na natureza1 da guerra provocada pela aplicação inovadora das novas tecnologias que, combinadas com mudanças dramáticas da doutrina militar, dos conceitos operacionais e de organização das forças, altera fundamentalmente o caráter e a conduta das operações militares (DoD Cit. por Andrews, 1998). A teoria da RAM apresenta várias correntes, mas todas elas têm como base o impacto profundo da sofisticação dos armamentos e da era da informação na forma de conduzir a guerra. Telo (2002, p. 224) caracteriza a RAM, a qual apelida de Revolução Militar em Curso (RMC), a partir de seis vetores: um novo conceito da guerra, uma diferente ligação entre Forças Armadas e sociedade, um superior domínio da informação e da sua transformação em conhecimento, o espaço como quarta dimensão da guerra, uma nova geração de armas e uma ampla revisão das forças, dos conceitos de operações e das táticas. Diferentes teorizadores da RAM oferecem-nos as guerras do Golfo em 1991 e 2003 como exemplos paradigmáticos da nova forma de fazer a guerra, mas os preceitos do
1 É frequente uso da expressão “warfare nature” por parte de autores anglo-saxónicos que, se traduzida
literalmente, pode desvirtuar o sentido das palavras do autor. Este é normalmente o da forma de conduzir a guerra, ou seja, o caráter da mesma, e não a sua natureza, que, segundo a maioria dos autores, é imutável.
combate terrestre moderno bem característicos destes conflitos – forças conjuntas, armas combinadas, manobra, dispersão, surpresa, flexibilidade, sincronização e ímpeto – são fruto da evolução da forma moderna de fazer a guerra. Estes conflitos foram, nesse sentido, tipicamente convencionais (Jordan, et al., 2009, p. 114), revelando pouco do caráter revolucionário advogado pelos teorizadores da RAM2. Por outro lado, os longos conflitos contrassubversivos em que as forças ocidentais se viram envolvidas nesta última década, nomeadamente no Iraque e no Afeganistão, trouxeram para a discussão pública a falta de preparação dos exércitos altamente tecnológicos e treinados para o combate convencional quando confrontados com um inimigo que conduz uma guerra irregular e opera de forma assimétrica, com vista a mitigar as enormes vantagens tecnológicas dessas forças, realçando assim muito claramente a importância do combate de infantaria, aos mais baixos escalões, em terreno complexo, de alta intensidade, instintivo e brutal – longe do preconizado pela RAM.
Estaremos então perante uma RAM – mudança profunda, brusca e violenta como a definição da palavra revolução preconiza – ou antes perante uma simples evolução da forma de fazer a guerra, na continuidade das mudanças verificadas desde os grandes conflitos do século XX? A análise do espetro atual da conflitualidade e dos conflitos das últimas duas décadas, sempre associada ao respetivo emprego do instrumento militar, poderá confirmar ou infirmar a presença das características principais da teoria da RAM nos mesmos, contribuindo para o debate sobre esta temática.
Assim, tendo em conta uma possível ligação desta nova conflitualidade a um novo paradigma de fazer a guerra, o objeto de investigação é a relação entre a tipologia contemporânea dos conflitos e a RAM. A investigação limitou-se, temporalmente, ao período de 1990 a 20073 e, quanto à tipologia, aos conflitos centrados no ambiente terrestre (Land Centric Warfare). Como consequência de tal delimitação na caracterização do emprego do instrumento militar, abordou-se primordialmente o instrumento terrestre; contudo, dado que o instrumento aéreo é fator indissociável nas operações atuais, também o tivemos em consideração4.
2 Se bem que possamos identificar algumas das suas caraterísticas, tais como o superior domínio da
informação na descrição de Telo.
3 Esta delimitação temporal tem em conta, igualmente, a existência de dados estatísticos objetivos e tratados
dos conflitos mundiais, disponibilizados pelo projeto Correlates of War (CoW).
4 Não ignoramos que a utilização do instrumento naval é hoje de capital importância para a projeção de força
em terra, nomeadamente através de porta-aviões e mísseis de cruzeiro. Não obstante, entendemos no âmbito deste estudo o emprego destes meios na perspetiva dos seus efeitos e não das suas plataformas de
A presente investigação, seguindo o método hipotético dedutivo, visou como objetivo geral confirmar se na generalidade dos conflitos e disputas contemporâneos se verificam as características predominantes da RAM. Teve igualmente objetivos específicos que concorreram para o objetivo geral. Primeiramente, identificou-se a corrente predominante da teoria da RAM, assim como as características preponderantes da mesma. O segundo objetivo específico consistiu em determinar um modelo contemporâneo de espetro dos conflitos e disputas, tendo como base de análise os conflitos ocorridos de 1990 a 2007, que nos permitiu identificar as características do tipo de conflitos preponderante. Por fim, o último objetivo específico visou a confirmação ou infirmação da presença dos elementos característicos da RAM na tipologia de conflitos preponderante nas duas últimas décadas.
Para o desenvolvimento do presente trabalho de investigação enunciou-se a seguinte Questão Central (QC):
QC: De que forma as características da tipologia preponderante dos conflitos e disputas contemporâneos confirmam a existência de uma RAM?
Como possível resposta a esta questão, decorrente das leituras iniciais, formulou-se a seguinte hipótese, que se procurou confirmar ou infirmar:
H: As características predominantes da RAM estão marginalmente presentes na generalidade dos conflitos contemporâneos, não se constituindo como fatores fundamentais dos mesmos.
Para focalizar a investigação nos objetivos específicos, como forma de responder cabalmente à QC, formularam-se as seguintes Questões Derivadas (QD):
QD1: Qual a corrente teórica preponderante entre os teorizadores da RAM?
QD2: Quais as características da tipologia preponderante de disputas e conflitos contemporâneos?
QD3: Que elementos característicos da RAM estão presentes na tipologia de disputas e conflitos contemporâneos?
O percurso metodológico iniciou-se com a recolha de informação, para a qual se recorreu, no capítulo das fontes, a publicações de autores de referência e a trabalhos e estudos publicados de diversos autores que abordam tanto a tipologia dos conflitos como as teorias da RAM, procurando argumentos e perspetivas de análise que permitiram uma conceptualização dos modelos utilizados no seguimento da investigação.
Após a recolha dos dados e da sua análise passou-se à construção de um modelo de análise, com base no espetro de conflitos contemporâneo selecionado, caracterizado e trabalhado estatisticamente para o período em estudo, e numa concetualização multidimensional da teoria da RAM, identificando as suas características preponderantes como indicadores de medida.
Por fim, efetuou-se a análise dos conflitos selecionados (segundo os espetros trabalhados) aplicando o modelo de análise construído, procurando verificar a presença dos indicadores previamente levantados nos diferentes conflitos. No âmbito da formatação do documento é de referir a utilização de software para referenciação automática, nomeadamente o Microsoft Word 2010, utilizando o estilo Harvard-Anglia 2008.
Tendo em conta o percurso metodológico seguido, e adotando este relatório a sequência coerente do mesmo, apresentaremos no primeiro capítulo, depois de uma abordagem ao emprego do instrumento militar e à teoria das RAM, as principais correntes da atual RAM, assim como as características base que integram o modelo de análise. No segundo capítulo, abordaremos a problemática dos espetros da guerra, dos critérios para a sua seleção e apresentaremos os espetros que servem de base para o modelo de análise dos conflitos contemporâneos, baseados numa classificação das guerras segundo a natureza dos intervenientes e do seu grau tecnológico. O terceiro capítulo centrar-se-á na descrição do modelo de análise, definindo as suas variáveis e os seus critérios. Por fim, no quarto capítulo apresentar-se-á o resultado da aplicação do modelo de análise aos conflitos previamente selecionados para o período delimitado. O relatório termina com as conclusões, que apontam para uma preponderância dos seguintes tipos de conflitos: os intraestatais e os que envolvem atores com baixo índice tecnológico. Nos restantes, nos quais participam atores com elevada capacidade tecnológica, as características presentes da preconizada RAM não podem ser consideradas como fatores fundamentais.
1. As teorias da atual Revolução dos Assuntos Militares a. O emprego do instrumento militar
O emprego do instrumento militar evolui com o tempo, acompanhando as inovações tecnológicas e técnicas, assim como as mudanças de caráter político, social e económico. Por vezes, os avanços verificados são tão significativos, alterando drasticamente o caráter do emprego do instrumento militar, que se fala de uma revolução em vez da normal evolução gradual, permanente e tão incontornável quanto a evolução do conhecimento humano.
Assim, o instrumento militar terrestre encerra, acima de tudo, a capacidade de obter, manter e explorar o controlo do terreno e da população. Esta capacidade traduz-se nas possibilidades de impor a vontade a um inimigo no meio terrestre, de estabelecer e manter um ambiente estável, de apoiar o restabelecimento, ou de restabelecer infraestruturas e serviços básicos após uma calamidade e apoiar e garantir uma base de projeção para o domínio dos restantes ambientes (IESM, 2010, p. 23). Por sua vez, o instrumento militar aéreo - ou aeroespacial - no âmbito das operações centradas no ambiente terrestre, tem a capacidade de apoiar a manobra, através do apoio de fogos, transporte e informações, vigilância e reconhecimento (IVR), nos níveis tático e operacional, potenciando as capacidades do instrumento militar terrestre. O poder aéreo permite assim, no combate conjunto, obter o controlo do ar, atacar alvos em qualquer parte do teatro, fornecer IVR persistente e transportar pessoal e equipamento para qualquer ponto do teatro5 (IESM, 2012).
A 1ª Guerra Mundial trouxe-nos o problema central do sistema moderno de combate terrestre: como conduzir operações militares significativas face a um poder de fogo tremendamente elevado? (Biddle, 2004, p. 28). De facto, o enorme aumento do poder de fogo à disposição dos contendores, bem patente no desenvolvimento da artilharia e das armas de tiro tenso, com destaque para a metralhadora, obrigou a alterações no sistema de combate terrestre que permitissem enfrentar estas armas sem a ocorrência de números de baixas inaceitáveis. “No final da guerra, a resposta apareceu na forma de métodos que se focavam na redução da exposição ao fogo hostil, permitindo o movimento das nossas forças ao mesmo tempo que se retardavam as do inimigo” (Biddle, 2004, p. 28).
5 É ainda fator distintivo dos meios aéreos da componente aérea, em relação aos das outras componentes, a
capacidade de conduzir operações estratégicas, independentes, transversais ao Teatro de Operações (TO), de menor importância para o objeto de estudo.
Segundo Biddle (2004, p. 43), as mudanças tecnológicas desde 1918 tiveram três consequências principais:
- Aumento continuado do poder de fogo e letalidade do armamento; - Maior mobilidade e maiores alcances operacionais;
- Maior capacidade de ver, comunicar e processar mais informação em áreas cada vez maiores.
Assim, de modo a contrariar estas capacidades, surgem como elementos chave do sistema moderno ofensivo, no nível tático, a cobertura, a dissimulação, a dispersão, a manobra independente de pequenas unidades, a supressão e a atuação segundo o modelo de armas combinadas (Biddle, 2004, p. 35). Na defesa, aplicam-se os mesmos elementos chave, se bem que adaptados à especificidade da manobra defensiva, de forma a contrariar a aplicação dos mesmos pelo atacante (Biddle, 2004, pp. 44-45). No nível operacional, o sistema de combate moderno explora, na ofensiva, uma de duas formas de emprego do instrumento terrestre: 1. A Penetração do dispositivo do inimigo e a posterior Exploração do Sucesso, com vista a evitar o forte do inimigo e explorar as suas vulnerabilidades defensivas, resultando no colapso sistémico da sua defesa; 2. As operações de Objetivos Limitados, através da concentração de potencial de combate num determinado ponto com vista a conquistar terreno ou a derrotar pontos específicos das defesas do inimigo, contribuindo para a continuação das operações subsequentes e minimizando o risco. Na defensiva, os conceitos de Profundidade, de utilização de Reservas e de Contra-ataques para garantir a coesão e restabelecimento do dispositivo encontram-se na génese do sistema moderno de combate, constituindo-se ainda hoje como elementos fundamentais de emprego operacional das doutrinas modernas dos exércitos desenvolvidos (Biddle, 2004, pp. 39-48).
A evolução iniciada na Grande Guerra atinge a sua maturidade durante o período da Guerra Fria, em que a Guerra da Manobra, focada no combate em profundidade, nas armas combinadas, nas operações conjuntas e de elevado ritmo, segue essencialmente os conceitos já aplicados na 2ª Guerra Mundial. O sistema moderno de combate terrestre incorpora, assim, uma evolução contínua de conceitos, não se traduzindo numa revolução preconizada por muitos, assente no aparecimento de novas e avançadas tecnologias que conferem aos exércitos novas capacidades nunca antes possíveis de empregar (Jordan, et al., 2009).
grande proteção e poder de fogo, capazes de conduzir operações sincronizadas e simultâneas a grandes distâncias. No instrumento militar aéreo, surgem aeronaves com maior alcance e velocidade, dotadas de armamentos com elevada capacidade de destruição e extremamente precisos, o que possibilitou passar dos bombardeamentos estratégicos da 2ª Guerra Mundial, de elevada destruição colateral, para os bombardeamentos de precisão como aqueles a que assistimos na 2ª Guerra do Golfo, em 2003. Acima de tudo, as novas tecnologias, nomeadamente no campo das comunicações e precisão dos sistemas de armas, permitiram uma elevada integração destes dois elementos, fazendo emergir as operações conjuntas como uma das pedras basilares do sistema moderno de combate.
Hoje, os elementos chave preconizados por Biddle, tanto ao nível tático como ao nível operacional, mantêm-se solidamente presentes nas doutrinas e Técnicas, Táticas e Procedimentos (TTP) utilizados pelos exércitos dos países desenvolvidos e, em grande parte, ao nível tático, pelas forças irregulares que proliferam nos conflitos atuais. De facto, a cobertura, a dissimulação, a dispersão e a manobra independente de pequenas unidades são características da atuação desta tipologia de forças nos teatros modernos.
Os exércitos evoluíram tecnologicamente, adaptando os conceitos de emprego e a sua organização às novas capacidades conferidas pelos novos armamentos e equipamentos, nunca se alterando, contudo, os elementos chave do seu emprego. Todavia, a conjuntura mundial alterou-se, mudando drasticamente o cenário de emprego das forças, logo colocando em dúvida a utilidade dos exércitos industriais, organizados e armados para a tipologia de combate típica da guerra fria. Smith (2008, pp. 313-314) defende que a partir de 1991, o exército industrial tornou-se efetivamente obsoleto. Não fora utilizado, a Guerra Fria tinha acabado sem um único tiro e a grande máquina deixou de ser útil – os exércitos eram grandes, muitos dependiam da conscrição e dispunham de meios industriais (carros de combate, canhões, caças bombardeiros, navios) e das indústrias para os manter. Reduziu-se o número, mas mantiveram-se os equipamentos, por vezes substituídos por modelos similares ou envelhecendo por causa da pouca prioridade dada à sua substituição. E avança como justificação que com o fim da guerra fria, as nações europeias quiseram desfrutar da paz, sendo as suas forças empregadas apenas em manutenção de paz (2008, p. 314). Assim sendo, não se justificava alterar a sua natureza, o que resultou numa redução drástica das forças, mantendo-se a sua organização e os seus equipamentos praticamente inalterados. Como hoje combatemos inimigos não estatais, ideologicamente motivados e com armamento ligeiro, que recorreram a táticas oriundas da antítese da guerra industrial,
mas muito mais desenvolvidas (Smith, 2008, p. 268), os nossos exércitos estão completamente desajustados face às ameaças que encontram no campo de batalha.
Esta evolução do emprego do instrumento militar não se verificou apenas no campo técnico. Os próprios objetivos assim como a estratégia para os atingir evoluíram, adaptando-se a novas conjunturas políticas, sociais e económicas. Rupert Smith (2008, p. 313) diz que o fim da guerra fria “eliminou as balizas nas quais os conflitos emergentes tinham sido mantidos pelos interesses dos dois blocos”. A maior parte destes conflitos são, atualmente, intraestatais (entre o povo) (Smith, 2008, p. 313).
Caracterizando a conjuntura do emprego do instrumento militar moderno, Rupert Smith (2008, pp. 315-316) define as seis tendências básicas que constituem o paradigma do que designa por guerra entre o povo:
- “Os objetivos pelos quais combatemos estão a mudar, de objetivos concretos que determinam um resultado político para o estabelecimento de condições dadas as quais o resultado possa ser, então, decidido;
- Combatemos entre o povo, não no campo de batalha;
- Os nossos conflitos tendem a ser intemporais ou mesmo infindáveis;
- Combatemos para preservar a força, não arriscando tudo para atingirmos o objetivo;
- Em cada ocasião, descobrem-se novas utilizações para armas e organizações que são produto da guerra industrial;
- Os beligerantes são maioritariamente não estatais, compreendendo uma ou outra forma de agrupamento multinacional contra um ou mais adversários não estatais”.
b. Retrospetiva histórica das RAM
Uma RAM é definida pelo Dr. Andrew Marshall, antigo Diretor do Office of Net Assessment do Departamento de Defesa dos EUA, como“…a major change in the nature of warfare brought about by the innovative application of new technologies which, combined with dramatic changes in military doctrine and operational and organizational concepts, fundamentally alters the character and conduct of military operations" (Andrews, 1998). Como veremos adiante esta definição não é consensual, mas espelha bem a natureza revolucionária e inovadora de um processo de transformação do
instrumento militar e da forma como este é utilizado, que é normalmente apelidado de RAM.
Embora esta definição identifique claramente vários parâmetros presentes numa RAM, nomeadamente novas tecnologias, mudanças doutrinárias e conceitos operacionais e organizacionais, coloca a ênfase na inovação tecnológica, o que pode ser redutor para o conceito e dificultar a distinção entre uma verdadeira RAM e uma simples evolução de conceitos já existentes, potenciados por avanços tecnológicos, algo que é uma constante ao longo da história da guerra.
Cooper (1994, pp. 12-13) identifica três tipos de RAM que se revelaram ao longo dos tempos:
- Puramente tecnológicas, apoiadas em novas tecnologias militares, baseadas em avanços científicos ou tecnológicos (Ex: Introdução da pólvora, do Arco Curvo e do Nuclear);
- De inovação operacional e organizacional, que podem não envolver mudanças nos objetivos estratégicos, mas representam mudanças significativas na aplicação do instrumento militar (Ex: Guerra da manobra - Blitzkrieg);
- Apoiadas em mudanças fundamentais de natureza económica, social e política, que levam não só a mudanças na forma de aplicação do instrumento militar, como no caráter da guerra (Revolução Napoleónica). Embora se perceba a tentativa de isolar parâmetros que possam explicar mudanças revolucionárias na forma de conduzir a guerra, dificilmente se concordará que os três tipos elencados se possam manifestar isoladamente. A introdução da pólvora no campo de batalha implicou, inexoravelmente, a adoção de novos conceitos operacionais e organizacionais, e alterou profundamente o caráter da guerra. E tal levanta uma outra questão: tendo a introdução da pólvora originado novas organizações e conceitos operacionais, cingir-se-á a revolução à introdução da mesma? Ou a revolução não é mais do que a combinação das mudanças sequenciais e interligadas de todas estas dimensões, independentemente da moldura temporal que as abarque? A definição que abre o presente ponto é, neste campo, interessante, já que não inclui uma dimensão temporal, assumindo a possibilidade de uma RAM, id est, a total implementação do que a mesma preconiza, se prolongar por um período alargado de tempo.
Murray (1997), por outro lado, identifica uma lista de possíveis RAM, acompanhadas das forças motrizes para cada uma (Fig. 1). Tal abordagem identifica vários
fatores que podem contribuir para uma RAM, mas infelizmente Murray não explica no seu artigo o modo como os determinou na abordagem histórica que efetuou, o que retira algum valor ao ensaio para uma possível definição do fenómeno.
Figura 1 – Possíveis RAM segundo Murray (1997)
De uma forma geral, os teorizadores identificam quatro componentes de uma RAM: inovação operacional, adaptações organizacionais, sistemas militares evoluídos e inovações tecnológicas (Cooper, 1994, p. 12).
Uma revolução, independentemente da sua natureza, implica descontinuidade e mudança. No caso de uma RAM, o que a distingue da natural evolução das capacidades militares é o aumento descontínuo – isto é, superior à evolução normal – dessas capacidades, assim como da eficiência, quer pela introdução de novas tecnologias, quer pela inovação operacional (Cooper, 1994, p. 13) – podendo estar, e normalmente estão, interligadas.
Hundley (1999, p. 9) afirma que uma RAM envolve uma mudança de paradigma na natureza e na condução das operações militares que (1) torna obsoletas ou irrelevantes uma ou mais competências chave6 de um ator dominante e/ou (2) cria uma ou mais competências chave, numa qualquer nova dimensão do instrumento militar. O autor defende que “se um desenvolvimento na tecnologia militar não torna obsoleta uma competência chave de um ator dominante ou não cria uma nova competência, então não estamos perante uma RAM. Se tal acontece, então esta verifica-se” (Hundley, 1999, p. 11). Hundley (1999, p. 11) cita ainda Krepinevich, relembrando a definição de RAM proposta por este em 1994: "Uma RAM é o resultado da aplicação de novas tecnologias num número significativo de sistemas, combinada com conceitos operacionais inovadores e adaptações organizacionais, resultando na alteração do caráter e da conduta de um conflito”. Ao citar Krepinevich, Hundley deixou de fora da sua definição algo interessante. Krepinevich diz que uma RAM altera o caráter e a conduta de um conflito através de um aumento drástico do potencial de combate e da eficiência militar das forças armadas (Gray, 2005b). Gray (2005b) discorda de Krepinevich neste ponto, já que advoga que uma RAM não acarreta, forçosamente, tais aumentos de potencial ou de eficiência. Assim, na sua definição, apenas menciona que uma RAM significa “uma mudança radical no caráter ou na conduta da guerra”.
Sobre este assunto, Cohen (1996, p. 44) escreve que a transformação do combate significa mudanças nas relações fundamentais entre ofensiva e defensiva, espaço e tempo, fogo e manobra. Até ao advento dos porta-aviões, as frotas navais defrontavam-se à vista, em grandes formações, com salvas das suas peças de artilharia. Com os porta-aviões, as frotas começaram a confrontar-se à distância de centenas de milhas, através de ataques sucessivos das suas esquadrilhas de aviões. De igual forma, a revolução do poder de fogo no final do século XIX baseou-se na adoção do cano estriado e das subsequentes melhorias da pólvora sem fumo, da retrocarga e do cartucho metálico. O campo de batalha densamente povoado, típico da guerra civil americana, passou rapidamente a um espaço vazio, com pequenos grupos de soldados a progredirem de cratera em cratera, mudando as táticas que dominaram os campos de batalha nos dois séculos precedentes.
Assim, Cohen (1996, p. 46) defende que não é tanto a tecnologia que marca a mudança revolucionária da guerra, mas as organizações que a utilizam. A invenção do
6 Competência Chave: uma capacidade fundamental que fornece a base para um conjunto de capacidades
militares. Por exemplo, a capacidade de detetar alvos móveis através de meios aéreos e atacá-los com armas de precisão é hoje uma competência chave da Força Aérea dos EUA (Hundley, 1999, p. 9).
carro de combate não causou uma revolução do combate mecanizado. Apenas a adoção de outras tecnologias complementares, como os rádios que os equipam, novas organizações das forças, novos conceitos operacionais e um ambiente propício de cultura de comando permitiram tal revolução levada a cabo pelos alemães na 2ª Guerra Mundial. O autor defende, ainda, que uma transformação numa área dos assuntos militares não significa a irrelevância de todas as outras; as armas nucleares não tornaram o poder convencional obsoleto (Cohen, 1996, p. 51).
Diferentes atores defendem a existência de várias RAM ao longo da história da humanidade. Cooper (1994), assim como Arquilla e Ronfeldt (1997), propõem a seguinte lista das revoluções mais marcantes desde o século XIX:
- Guerras Napoleónicas, tendo como base uma industrialização que permitiu equipar e apoiar um exército de massas, apoiada por mudanças económicas, políticas e sociais drásticas, que permitiram a nação em armas e a possibilidade de realizar campanhas em teatros de grande dimensão e sustentar as mesmas por longos períodos de tempo;
- Guerra Civil Americana/Guerra Franco-Prussiana – apoiada no caminho-de-ferro e no telégrafo para aumentar, no plano estratégico, o alcance, a mobilidade, as comunicações e o apoio logístico das forças, permitindo as operações num teatro continental;
- Grande Guerra, que incorporou a produção em massa de tecnologia que permitiu equipar exércitos de milhões de homens com tecnologias industriais como a metralhadora e a artilharia, assim como a mecanização dos meios de apoio logístico. Esta revolução transformou uma guerra com grande mobilidade das forças, como foram as anteriores, numa guerra estática, de atrito, caracterizada por um enorme poder de fogo e grande número de combatentes alimentando continuamente as fileiras depredadas pelo combate;
- Revolução "dual" (entre guerras), com a introdução do motor de combustão, da capacidade aérea tática e estratégica e do rádio, reintroduzindo a mobilidade estratégica e operacional, a manobra e a iniciativa como elementos essenciais do combate;
- Nuclear/Armas de longo alcance, que combinou as armas nucleares com capacidade balística intercontinental, possibilitando a destruição dos centros
económicos, políticos e sociais de um estado, assim como as suas forças armadas.
Se bem que qualquer uma destas revoluções propostas sejam historicamente verificáveis, pode argumentar-se que pecam por ser extremamente abrangentes. Na chamada revolução dual inserem-se a Blitzkrieg, verdadeira inovação tecnológica, organizacional e operacional no combate aeroterrestre e a revolução naval norte americana, com a introdução do porta-aviões, da capacidade anfíbia e dos submarinos de longo alcance, resultando em novos conceitos operacionais e organização das forças que lhe garantiram a vitória no Pacífico na 2ª Guerra Mundial. Embora seja relativamente fácil identificar elementos que resultaram numa descontinuidade na evolução das capacidades militares de um ator, é discutível se tal evolução representa um real avanço exponencial dessas capacidades, resultando numa verdadeira revolução, e não apenas uma evolução natural intimamente ligada à evolução tecnológica da humanidade. Neste campo, o conceito de Hundley de competências chave tornadas obsoletas assume especial interesse, se bem que nem sempre se afigure claro determinar tais competências chave de um ator dominante, já que não existe tal conceito doutrinário e o autor não define critérios para a sua definição.
Assim, podemos identificar alguns elementos chave numa RAM: - Introdução de novas tecnologias;
- Adoção de novas organizações de forças;
- Adoção de novos conceitos operacionais de emprego das forças;
- Competências prévias na mesma área operacional tornadas irrelevantes e/ou introdução de novas competências.
Desde a revolução nuclear, que se estendeu por mais de duas décadas, período necessário para o desenvolvimento da arma nuclear utilizada pela primeira vez no final da 2ª Guerra Mundial e do armamento balístico intercontinental, o mundo não assistiu a um avanço substancial no domínio militar que mudasse radicalmente a forma de conduzir a guerra. Com o advento da Guerra do Golfo de 1991, a estratégia da Coligação, e principalmente dos EUA, baseou-se nos bombardeamentos de precisão, elevadas capacidades de comando, controlo e comunicações (C3) e novas tecnologias de recolha e disseminação de informação. Muitos analistas concluíram que o mundo entrou numa nova RAM, focada na guerra da informação e nos bombardeamentos de precisão (Andrews, 1998, p. 6). Mas as bases para que tal acontecesse em 1991 foram lançadas muito antes, no decorrer da guerra fria, como veremos adiante.
c. A atual RAM e as suas diferentes correntes teóricas
A génese da ideia de uma nova RAM baseada na tecnologia que conferiria ao armamento convencional uma eficiência operacional comparável à de armas nucleares táticas data do início dos anos oitenta do século XX, em que o Marechal Nicolai Ogarkov, na altura Comandante Supremo das Forças Armadas Soviéticas, e a sua equipa identificaram a capacidade tecnológica militar dos EUA que permitia detetar e destruir rapidamente forças blindadas com mísseis convencionais a uma distância de centenas de milhas. Tal observação trouxe grande preocupação, já que a estratégia soviética para um conflito na Europa Ocidental se baseava na ofensiva de grandes unidades mecanizadas e blindadas em sucessivas vagas (Cohen, 1996). Tais ideias migraram eventualmente para o Departamento da Defesa dos EUA, onde Andrew Marshall as explorou e desenvolveu como forma de combater a ameaça soviética no teatro europeu.
A grande maioria dos teorizadores defende que a atual RAM é, essencialmente, de caráter tecnológico. Para Hundley (1999), a atual RAM é vista como iminentemente tecnológica, combinando avanços técnicos nos instrumentos de vigilância, sistemas C3I e munições de precisão com novos conceitos operacionais, incluindo a Guerra da Informação, operações conjuntas contínuas e de elevado ritmo, em toda a extensão dos teatros de operações. É, no entanto, geralmente consensual que uma revolução de caráter tecnológico combina a tecnologia com novas organizações e conceitos operacionais a fim de aumentar a eficiência e as capacidades das forças. Se espelharmos tais capacidades numa possível definição, mais facilmente poderemos identificar novos padrões de atuação, que podem acarretar mudanças no caráter da guerra. Assim, Arquilla e Ronfeldt (1997, p. 126) sugerem que uma boa definição para a atual RAM no nível operacional seria “séries paralelas de operações integradas e sincronizadas, altamente letais e de elevada mobilidade, em toda a profundidade e extensão do teatro, com o objetivo de provocar o colapso rápido do poder militar e da vontade do inimigo”.
O desenvolvimento da tecnologia que contribuiu para a alegada nova RAM iniciou-se durante a Guerra Fria, possibilitando as mudanças nas forças norte-americanas para um hipotético confronto com o Pacto de Varsóvia na Europa. Assim, as raízes desta RAM alimentam-se inexoravelmente dos conceitos de um tipo de guerra convencional entre grandes exércitos como a prevista para a Europa na época da guerra fria ou para a Coreia (Chapman, 2003, p. 14). A Guerra do Golfo de 1991 recriou, de certa maneira, o cenário típico para o qual as forças armadas ocidentais se prepararam durante a guerra fria, com
um exército inimigo de grandes dimensões, com grandes unidades mecanizadas e blindadas, apoiadas por uma força aérea que embora tecnologicamente pouco avançada, era de grande dimensão. A operação Desert Storm demonstrou que a capacidade de executar operações de grande envergadura, complexas, simultâneas, com um ritmo elevado constituía uma vantagem primordial que levou ao colapso da capacidade de resposta do inimigo. Esta vantagem baseou-se numa panóplia de modernos sensores, avançados sistemas de armas convencionais e uma moderna estrutura de C3I, que permitiram à coligação liderada pelos EUA ultrapassar obstáculos nas dimensões temporal e espacial (Arquilla & Ronfeldt, 1997, p. 85).
Assim, pode dizer-se que a principal corrente teórica da atual RAM identifica como elementos chave da mesma os seguintes:
- Avançados sistemas de vigilância (terrestres, aéreos e espaciais); - Sistemas C3I digitais;
- Armas de precisão (aéreas e terrestres);
- Operações conjuntas simultâneas e de elevado ritmo; - Operações de Informação;
- Unidades mais pequenas e versáteis (aplicação dos princípios das armas combinadas7 aos mais baixos escalões – Companhia e nalguns casos Pelotão), com maior poder de fogo e mobilidade.
Não obstante a principal corrente teórica dos que advogam a existência de uma RAM se basear nos avanços tecnológicos combinados com mudanças organizacionais e operacionais, outros autores defendem dimensões mais abrangentes para a atual revolução.
Telo (2002, p. 224) denomina-a RMC e caracteriza-a a partir de seis vetores: - Um novo conceito da guerra;
- Uma diferente ligação entre Forças Armadas e sociedade;
- Um superior domínio da informação e da sua transformação em conhecimento;
- O espaço como quarta dimensão da guerra; - Uma nova geração de armas;
7 O conceito de Armas Combinadas é definido como a “aplicação simultânea e sincronizada dos elementos de
potencial de combate para alcançar um efeito sinérgico na ação militar. As armas combinadas utilizam as capacidades de cada uma das funções de combate e informação em complementaridade e em reforço mútuo (…) Em reforço, os sistemas similares são combinados na mesma função de combate para aumentar a sua capacidade. É o caso típico do emprego combinado da infantaria com carros de combate.” (IESM, 2010, p. 58).
- Uma ampla revisão das forças, dos conceitos de operações e das táticas. A sua análise é interessante e abarca três dimensões basilares da atual RAM tal como preconizada por outros autores (introdução de novas tecnologias, adoção de novas organizações de forças e novos conceitos operacionais de emprego das mesmas), salientando a característica basilar mencionada por autores como Gray e Krepinevich, ou seja, alteração do caráter da guerra, se bem que defende, neste caso, uma visão que não corresponde à realidade contemporânea: “A guerra RMC é de curta duração em termos de uma ação militar intensa – mede-se em semanas e não em meses ou anos” (Telo, 2002, p. 227). As recentes experiências no Afeganistão e Iraque demonstram exatamente o contrário, e marcam uma continuidade do conceito de emprego da guerra de guerrilha e das táticas de contrassubversão que contrariam a mudança do seu modo de emprego advogada por Telo (assim como por outros autores). Não obstante, a linha de pensamento de Telo vai de encontro ao que a maioria dos autores propõe como características da atual RAM, no que toca a novas tecnologias, organizações e emprego operacional das forças. E é neste ponto que encontramos um argumento que contradiz liminarmente a teoria das RAM: ao prever a continuidade desta RAM, Telo (2002, p. 246) diz que “Pode ser previsto que a RMC se vai prolongar ainda por muitos anos e o seu ritmo tende a acelerar. A RMC está longe de ser um movimento acabado ou onde a evolução futura seja evidente. Ela deu somente os primeiros passos no último meio século, embora esteja já madura…”. Assim sendo, o que separa então uma RAM da simples evolução tecnológica, organizacional e operacional dos exércitos? Certamente não se poderá dizer que a simples evolução gradual não acabará por levar a mudanças drásticas de paradigmas, sejam quais forem as áreas do conhecimento, pelo que ficamos sem saber se realmente estamos perante uma revolução ou se, pelo contrário, assistimos a uma simples evolução do caráter e da conduta da guerra. Como diz Chapman (2003, p. 2), “há poucas dúvidas de que desenvolvimentos como a pólvora, o poder aéreo e as armas nucleares tenham marcado verdadeiras revoluções nos assuntos militares, mas não existe consenso de que as recentes mudanças no armamento e estratégias militares, tornadas possíveis pelos avanços nas tecnologias da informação, possam constituir uma revolução”.
Mary Kaldor (2006, p. 4) partilha igualmente da ideia de uma RAM, mas enquadra-a nenquadra-a menquadra-ais enquadra-abrenquadra-angente dimensão denquadra-as relenquadra-ações socienquadra-ais denquadra-a guerrenquadra-a, com um novo tipo de violência organizada descrita como uma mistura de guerra, crime organizado e violação massiva dos direitos humanos, num contexto de perda de capacidade económica de um
estado, aumento da criminalidade organizada e, por conseguinte, perda de eficiência e aumento da corrupção. Tal contribui para o aparecimento de grupos paramilitares que, em conjunto com o crime organizado, aumentam a privatização da violência e resultam na perda de legitimidade política. As novas guerras preconizadas por Kaldor (2006, p. 7) contrastam com as anteriores no que respeita aos objetivos, aos métodos de emprego das forças8 e aos modos de financiamento. Quanto aos objetivos, os das novas guerras passaram a ser baseados numa política de identidade, ou seja, na reclamação do poder com base numa identidade particular, seja ela nacional, tribal, linguística ou religiosa. No que respeita à forma de emprego das forças, as novas guerras baseiam-se na experiência prévia da guerra de guerrilha e da contrainsurreição, levada a cabo por forças tão díspares como unidades paramilitares, senhores da guerra, gangues criminosos, forças policiais, grupos mercenários e exércitos convencionais, tipicamente com organizações pouco hierarquizadas e em rede. Quanto ao financiamento, a nova economia de guerra, agora globalizada, é diametralmente oposta ao anterior modelo, altamente centralizado. A economia atual que suporta muitos dos contendores é descentralizada, sendo o financiamento obtido através de inúmeras fontes, de onde se destacam a pilhagem, a tomada de reféns e consequente resgate, o mercado negro e a ajuda externa proveniente das mais variadas origens, como as diásporas com laços aos grupos em questão (Kaldor, 2006, pp. 7-10).
De qualquer modo, independentemente do interesse de abordagens mais abrangentes como as acima descritas, a principal corrente teórica da RAM baseia-se na inovação tecnológica e respetivas consequências, como vimos inicialmente. Assim, no âmbito deste estudo, e com vista à construção do modelo de análise, definem-se como elementos chave da atual RAM os seguintes:
- Avançados sistemas de vigilância (terrestres, aéreos e espaciais); - Sistemas C3I digitais;
- Armas de precisão (aéreas e terrestres);
- Operações conjuntas simultâneas e de elevado ritmo; - Extensa utilização de Operações de Informação;
- Unidades de baixo escalão (Companhia) com integração de armas combinadas na sua constituição base;
8Methods of warfare, no original.
- Conceitos operacionais e táticos do sistema moderno de combate tornados irrelevantes pela adoção de novos conceitos de emprego do instrumento militar.
2. A tipologia das disputas e conflitos: uma visão contemporânea a. Porquê e como classificar as disputas e conflitos?
O homem sempre sentiu a necessidade de classificar os conflitos e as disputas ou, em sentido lato, as guerras9. A classificação permite sistematizar o fenómeno, facilitando a sua análise e o seu estudo. A sistematização de um fenómeno sempre se revelou útil para a sua compreensão, pelo que os estudiosos sempre ensaiaram classificar as guerras de acordo com uma metodologia que lhes servisse os objetivos do seu estudo ou análise. As classificações são feitas de acordo com critérios que se adequam ao objetivo da análise em vista e que, no âmbito das ciências não exatas, se apresentam normalmente de difícil definição, sendo ainda mais complexa a posterior classificação do objeto de estudo, pelas inúmeras variáveis envolvidas10.
Os critérios de classificação podem, assim, ser variados, dependendo do objetivo da análise que se pretende efetuar. Segundo Santos (1983, p. 183), de acordo com o pensamento ocidental, estes critérios podem ser definidos pelas respostas às seguintes questões: Quem? Porquê? Para Quê? Com Quê? Onde? Como? Assim, podem classificar-se as guerras quanto:
- Aos intervenientes (Quem); - Aos motivos (Porquê); - À finalidade (Para Quê);
- Ao nível de coação (Com Quê); - À amplitude (Onde);
- Às restrições (Como).
Na mesma obra, Santos adverte para a possibilidade de existência de outros critérios, dando o exemplo da classificação quanto às características especiais que apresentam; no caso do pensamento soviético refere a classificação baseada no fenómeno
9 Entende-se guerra como um ato de violência organizada entre atores, estatais ou não, em que o recurso à
luta armada constitui, pelo menos, possibilidade potencial, visando um determinado fim político, em que cada um dos adversários procura obrigar o outro a submeter-se à sua vontade (adaptado de EME, 1987, p. 1-2). Entenda-se fins políticos num sentido lato e sujeitos à variedade cultural histórica verificada ao longo dos tempos (id est não apenas no sentido estrito dos objetivos definidos por um estado na prossecução da sua política). Assim, no âmbito deste trabalho, quando se menciona o fenómeno guerra, entende-se como englobando a miríade de disputas e conflitos de maior ou menor dimensão entre grupos armados organizados atuando no quadro da definição proposta, delimitado por parâmetros adiante definidos.
10 No âmbito deste trabalho é apenas estudada a classificação das guerras e não da conflitualidade, conceito
mais amplo, de difícil delimitação pelas inúmeras variáveis e dimensões que encerra. Assim, será proposto um modelo de espetro da guerra com vista à construção do modelo de análise e não um espetro da conflitualidade.
social tal como interpretado pelo marxismo-leninismo. Classificação em guerras justas e injustas, subdivididas em imperialistas, revolucionárias, de libertação, coloniais, entre outras, com base nesse critério, poderiam fazer sentido do ponto de vista da ideologia soviética da altura, mas pouca aplicabilidade prática parecem ter na atual realidade ocidental, relevando, como veremos adiante, a importância de quem classifica as guerras. Acresce o facto de podermos englobar muitas destas subdivisões nos critérios propostos por Santos, que parecem abarcar os aspetos fundamentais enquadrantes de um conflito. Assim, todos as supramencionadas poderão ser classificações segundo o critério da Finalidade, levando a crer que, sob os critérios base, chamemos-lhes assim, propostos por Santos, poderemos levantar inúmeras perspetivas de análise que se enquadrem nos interesses ou necessidades de quem classifica a guerra.
Assim, o objetivo do estudo ou análise associados à classificação ditará o critério a utilizar. Se para um político, que procura respostas para as causas da eclosão dos conflitos, um critério assente nos motivos ou na finalidade se afigura como ajustado, para um militar, que necessita de analisar com que meios uma guerra se poderá travar, um critério baseado no nível de coação e nas restrições será, porventura, mais adequado. Já para o sociólogo, na busca das características dos conflitos e disputas e do seu impacto na sociedade, vários critérios poderão ser utilizados, tais como os tendo como base os intervenientes, os motivos, a amplitude ou, porque não, todos os outros, dependendo na realidade dos objetivos de uma investigação. Assim, qualquer critério de classificação é legítimo, sendo a sua utilidade maior ou menor consoante o objetivo da análise que se pretende fazer. De notar que, independentemente do critério utilizado, o fenómeno classificado é imutável, sendo logicamente possível que uma guerra seja classificada diferentemente quando sujeita a critérios de classificação distintos. Veja-se o exemplo da 2ª Guerra Mundial, simultaneamente uma guerra Internacional ou Interestatal (tendo como critério os intervenientes), uma guerra Mundial (sendo o critério a amplitude) e ainda uma guerra Total (pelo critério do nível de coação).
Outro aspeto da classificação das guerras prende-se com o facto de esta, ainda que baseada no mesmo critério, poder diferir em função do seu autor. De facto, as características e realidades políticas, culturais, religiosas ou ideológicas poderão influenciar a classificação de uma guerra por parte de um autor. Veja-se como exemplo as guerras Israelo-árabes, classificadas pela maioria dos estados ocidentais, assim como por Israel, como guerras Interestatais, e pelo Irão ou Síria como guerras contra uma entidade
não legítima nem soberana, por não reconhecerem o Estado de Israel, logo como uma guerra Extraestatal (no pressuposto de que um dos atores não é um estado).
Por vezes, a classificação das guerras com base apenas num critério pode ser redutora para o objetivo pretendido, pelo que a combinação de vários critérios pode traduzir-se numa classificação sistémica mais completa que poderá fornecer uma imagem mais real, logo menos conceptual, do fenómeno. Cabral Couto (1988, p. 152), no espetro da guerra proposto nos seus Elementos de Estratégia, similar ao apresentado por Santos (1983, p. 185), combina vários critérios para a classificação das guerras, incluindo os intervenientes, a finalidade e os níveis de coação.
b. Critérios de classificação
Por nos parecer que os seis critérios propostos por Santos abarcam a generalidade das variáveis fundamentais do fenómeno da guerra, tomá-los-emos como critérios base para a nossa análise da classificação das guerras, analisando-os e relacionando-os entre si. O Anexo A (Critérios de Classificação das Guerras) apresenta uma análise dos diferentes critérios de classificação das guerras, que o leitor pode consultar para aprofundar o tema. Aqui apresentaremos apenas os critérios que, em resultado dessa análise e tendo em conta os objetivos deste estudo, utilizaremos na construção do modelo de análise.
(1) Quanto aos intervenientes
Sendo a classificação quanto aos intervenientes das mais comuns, já que permite tratar o fenómeno tendo em conta os atores que nele participam e sem os quais não existiria, será o nosso ponto de partida para a análise a efetuar. Sendo a guerra um ato de agressão entre dois ou mais grupos, é crucial poder classificá-los utilizando parâmetros transversais a qualquer conflito e, logicamente, excluindo-se mutuamente. Por tal motivo é necessário partir de uma base comum que descarte ambiguidades, base essa que poderá ser a condição de ator da cena internacional. Sendo o Estado o ator central do sistema político internacional, poderá ser este a figura pivô do sistema de classificação. É exemplo disso o espetro proposto pelo projeto CoW (Sarkees & Wayman, 2010), em que divide as guerras em:
- Interestatais – Entre estados;
- Extraestatais – Entre estados e atores não estatais, em que os primeiros intervêm fora do seu território;
- Intraestatais – Entre atores não estatais ou entre estes e o governo Estatal/Regional, dentro do território de um estado;
- Não Estatais – Entre atores não estatais.
Esta classificação elimina ambiguidades, já que, de um modo geral, classificar um ator como estatal significa que ele é reconhecido como membro da Organização das Nações Unidas (ONU). E dizemos de um modo geral pelo facto de, pontualmente, alguns estados não reconhecerem outros mesmo que sejam membros da ONU (como, por exemplo, o Irão em relação a Israel) o que não obsta ao facto de jurídica e legalmente esse ator se constituir como estado segundo o normativo legal internacional e pela generalidade dos estados membros da ONU.
Assim, esta classificação favorece uma visão clara da tipologia de conflitos tendo como critério os seus intervenientes, razão pela qual se adotará a mesma para análises subsequentes no âmbito desta investigação.
(2) Quanto ao nível tecnológico dos intervenientes
Como vimos anteriormente, embora os seis critérios propostos por Santos abarquem a generalidade das variáveis fundamentais do fenómeno da guerra, outros poderão ser utilizados sempre que se revelarem úteis para o objetivo proposto. Assim, no âmbito deste trabalho, utilizaremos o critério do nível tecnológico dos intervenientes. Poderá argumentar-se que este critério não é mais do que uma classificação quanto ao nível de coação, sendo a classificação feita segundo o grau tecnológico dos intervenientes. Aceita-se tal argumento mas, de forma a não levantar ambiguidades com outros modelos de análise baseados no nível de coação, escolheu-se isolá-lo para o âmbito deste trabalho. Com base neste critério as guerras podem ser classificadas como:
- Guerras Tecnológicas – Envolvem pelo menos um ator com capacidade tecnológica militar avançada (sistemas de C3 digitais, sistemas ISTAR, armamento com sistemas de controlo de tiro digitais/óticos/noturnos); - Guerras Rudimentares – Não envolvem atores com capacidades
tecnológicas militares avançadas.
Tendo em conta que a RAM atual preconizada por muitos teorizadores assenta numa extensa base tecnológica, este critério, embora redutor se utilizado isoladamente, facilitará a análise da conflitualidade contemporânea no âmbito da investigação.
Figura 2 – Classificação quanto ao nível tecnológico dos intervenientes
c. Análise estatística dos conflitos contemporâneos e o Espetro da Guerra Como visto anteriormente, o propósito deste trabalho é determinar se as características dominantes dos conflitos contemporâneos confirmam a existência de uma RAM. Para isso torna-se necessário analisar a conflitualidade contemporânea, classificar os conflitos segundo critérios de análise definidos e estudar as suas características. Assim, analisaremos os conflitos contemporâneos (no período delimitado de 1990 a 2007) e classificá-los-emos segundo os critérios previamente analisados:
- Quanto aos intervenientes;
- Quanto ao nível tecnológico dos intervenientes.
Para tal recorreu-se aos dados do projeto CoW, nomeadamente à sua quarta versão, que analisa os conflitos desde 1816 até 2007, dos quais apenas se utilizam os dados correspondentes ao período delimitado. O projeto define guerra como o “combate continuado entre atores, envolvendo grupos armados organizados, dos quais resultam um mínimo de 1000 baixas relacionadas com o combate”. É esta a delimitação utilizada no âmbito deste trabalho de forma a manter a coerência dos dados estatísticos utilizados.
O levantamento dos conflitos e disputas do período em análise resultou numa lista de 76 ocorrências que podemos consultar no Anexo B (Lista de conflitos e disputas do período de 1990 a 2007).
A classificação destes conflitos quanto aos intervenientes, segundo os critérios definidos no ponto 2.b.(1), baseados no critério de classificação do projeto CoW, revela uma preponderância dos conflitos intraestatais, como podemos ver na figura 3.
Guerras Tecnológicas
Guerras Rudimentares
Figura 3 – Classificação dos conflitos contemporâneos (1990-2007) quanto aos intervenientes (elaborado pelo autor, a partir de Sarkees & Wayman, 2010)
Já a classificação quanto ao nível tecnológico dos intervenientes, utilizando para tal os critérios definidos em 2.b.(2), é feita através da análise dos atores, determinando-se os que possuem capacidade tecnológica militar avançada (sistemas de C3 digitais, sistemas ISTAR, armamento com sistemas de controlo de tiro digitais/óticos/noturnos). Assim, esta classificação aponta para uma esmagadora preponderância de conflitos em que a tecnologia de última geração não é predominante, como se pode confirmar pela Figura 4 e pela lista de guerras tecnológicas constante do Anexo C.
Figura 4 – Classificação dos conflitos contemporâneos (1990-2007) quanto ao nível tecnológico dos intervenientes
9 5 61 1 0 10 20 30 40 50 60 70
Interestatais Extraestatais Intraestatais Não Estatais
Classificação dos conflitos contemporâneos
(1990-2007) quanto aos Intervenientes
67 9 0 10 20 30 40 50 60 70 80 Rudimentares Tecnológicos
Classificação dos conflitos contemporâneos
(1990-2007) quanto ao nível tecnológico dos
A conflitualidade contemporânea revela-se assim predominantemente interna, ou seja, dentro das fronteiras dos estados, envolvendo ou não o próprio governo reconhecido, e recorrendo a organizações militares que carecem de tecnologias de ponta, ou seja, sem acesso às novas tecnologias digitais e da informação.
3. Construção do Modelo de Análise
Com vista à resposta da QD3 (Que elementos característicos da RAM estão presentes na tipologia de disputas e conflitos contemporâneos?), construiu-se um modelo de análise que visa analisar os conflitos do período delimitado segundo determinadas variáveis e critérios.
As variáveis e critérios respetivos selecionados para o modelo, segundo os quais todos os conflitos serão analisados, são os constantes da Tabela 1, devidamente esquematizados no Anexo C – Modelo de Análise.
Tabela 1 – Variáveis e Critérios do modelo de análise
Passo Variáveis do Modelo Critérios de Análise
1 Tipologia do conflito
Grau tecnológico dos intervenientes: Guerras Tecnológicas;
Guerras Rudimentares (descartadas por não possuírem as características de uma RAM).
2 Características da RAM
Presença de:
Avançados sistemas de vigilância (terrestres, aéreos e espaciais);
Sistemas C3I digitais;
Armas de precisão (aéreas e terrestres); Operações conjuntas simultâneas e de
elevado ritmo;
Extensa utilização de Operações de Informação;
Unidades de baixo escalão (Companhia) com integração de armas combinadas na sua constituição base.
3
Elementos chave do sistema moderno de
combate
Verificar se os elementos chave do sistema moderno de combate, ao nível operacional e tático, tal como definido no capítulo 1, se
características da RAM ao conflito: Nível Operacional:
Penetração e Exploração do Sucesso; Operações de Objetivo Limitado;
Profundidade, utilização de Reservas e Contra-ataques;
Nível Tático: Cobertura; Dissimulação; Dispersão;
Manobra independente de pequenas unidades; Supressão;
Integração de armas combinadas.
Assim, iniciar-se-á a análise pela aplicação do modelo de tipologia do conflito baseado no critério do grau tecnológico dos intervenientes, descartando os conflitos classificados como rudimentares, por os intervenientes não possuírem forças com os requisitos necessários para a aplicação da atual RAM tal como esta é caracterizada pela sua principal corrente.
De seguida, os conflitos classificados como tecnológicos são analisados a fim de se determinar se as principais características da RAM estão presentes nos mesmos, não considerando os que não evidenciarem, pelo menos, a presença das seguintes características: Avançados sistemas de vigilância, Sistemas C3I digitais e Armas de precisão.
Por fim, todos os conflitos que transitarem da fase anterior serão analisados verificando-se se na conduta de cada um a aplicação das características da RAM previamente identificadas tornaram irrelevantes alguns dos elementos chave do sistema moderno de combate.