UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO SÓCIO ECONÔMICO - CSE
DEPARTAMENTO DE ECONOMIA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS CURSO DE GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS ECONÔMICAS
Luiza Reichert
Sistema Tributário Brasileiro e Regressividade: como os impostos afetam as mulheres?
Florianópolis 2021
Luiza Reichert
Sistema Tributário Brasileiro e Regressividade: como os impostos afetam as mulheres?
Trabalho Conclusão do Curso de Graduação em Ciências Econômicas do Centro Sócio Econômico da Universidade Federal de Santa Catarina como requisito para a obtenção do título de Bacharel em Ciências Econômicas.
Orientadora: Profª. Drª. Brena Paula Magno Fernandez.
Florianópolis 2021
Ficha de identificação da obra elaborada pelo autor,
através do Programa de Geração Automática da Biblioteca Universitária da UFSC.
Reichert, Luiza
Sistema Tributário Brasileiro e Regressividade: como os impostos afetam as mulheres? / Luiza Reichert ;
orientadora, Brena Paula Magno Fernandez, 2021. 47 p.
Trabalho de Conclusão de Curso (graduação) -Universidade Federal de Santa Catarina, Centro Sócio
Econômico, Graduação em Ciências Econômicas, Florianópolis, 2021.
Inclui referências.
1. Ciências Econômicas. 2. Economia Feminista. 3. Sistema Tributário Brasileiro. 4. Desigualdade de gênero. I. Magno Fernandez, Brena Paula. II. Universidade Federal de Santa Catarina. Graduação em Ciências Econômicas. III. Título.
Luiza Reichert
Sistema Tributário Brasileiro e Regressividade: como os impostos afetam as
mulheres?
Florianópolis, 11 de maio de 2021.
O presente Trabalho de Conclusão de Curso foi avaliado e aprovado pela banca examinadora composta pelos seguintes membros:
Profa. Brena Paula Magno Fernandez, Dra. Universidade Federal de Santa Catarina
Prof. Guilherme de Oliveira, Dr. Universidade Federal de Santa Catarina
Profa. Liana Bohn, Dra.
Universidade Federal de Santa Catarina
Certifico que esta é a versão original e final do Trabalho de Conclusão de Curso que foi julgado adequado para obtenção do título de Bacharel em Ciências Econômicas por mim e pelos demais membros da banca examinadora.
____________________________ Profª., Drª. Brena Paula Magno Fernandez
Orientadora
Para aqueles que sempre estiveram comigo e contribuíram para a minha formação de alguma forma: meus pais, minha família, meus amigos e professores(as).
AGRADECIMENTOS
A minha família, que sempre esteve ao meu lado em todos os momentos, de insegurança, de felicidade e que são minha que são minha fonte de inspiração.
A minha mãe Elisângela que, através de sua dedicação e de seu amor, me ensinou à ser independente, ser forte e nunca desistir.
Ao meu pai Luciano que sempre me deu forças para estudar, me ensinou a lutar contra grandes coisas (internas e externas) e que foi crucial para a minha trajetória na graduação.
A minha irmã Luciana, que sempre foi minha referência na vida, me ensinou a ter grandes sonhos e buscá-los.
A minha avó Maria, que não está mais aqui, mas que estaria muito orgulhosa de ver suas netas crescerem e realizarem seus sonhos.
A todos os meus colegas e amigos, em especial as minhas amigas da graduação para a vida: Amanda, Barbara e Ketlen, que me acompanharam durante toda a trajetória na universidade, pela amizade e cumplicidade que construímos durante todos esses anos, dentro e fora da universidade.
A minha orientadora Brena, agradeço profundamente por me apresentar a Economia Feminista e por estar ao meu lado durante a -desafiadora- trajetória para este trabalho de conclusão de curso.
A todos os professores, a UFSC e aos funcionários que, direta ou indiretamente, fizeram parte do meu cotidiano e da minha formação.
RESUMO
À luz da economia feminista, o presente estudo tem por objetivo discorrer acerca da característica de regressividade do sistema tributário brasileiro e de como isso se relaciona com o fato de as mulheres pagarem mais impostos do que os homens. A pesquisa analisa o período compreendido entre 2008 e 2019, utilizando dados empíricos retirados da Receita Federal do Brasil. No Brasil, os altos impostos são pagos principalmente pela população de baixa renda, em que as mulheres são a maior parte. Tal característica é devida ao fato de elas serem mal pagas, à sua pior inserção no mercado de trabalho, que são alguns dos objetos de estudo da economia feminista. Os conceitos de economia feminista e do sistema tributário fundamentam o referencial teórico, em que o primeiro demonstra o ponto de vista de gênero, no espaço econômico, que homens e mulheres possuem diferenciação e as mulheres são discriminadas devido ao papel social caracterizado ao longo da história e, no segundo ponto, em que a carga tributária do Brasil cresce de forma contínua e com baixa arrecadação sobre patrimônio e renda e, além disso, os impostos são arrecadados principalmente sobre os bens e serviços, estimulando a regressividade do sistema, uma vez que a população com menor poder aquisitivo é a parcela mais afetada. Desta forma, utilizamos da economia feminista para a pesquisa com foco na equidade de gênero sobretudo no que diz respeito aos problemas enfrentados pelas mulheres no sistema tributário.
Palavras-chave: Economia Feminista. Sistema Tributário Brasileiro. Desigualdade de
ABSTRACT
In the light of feminist economics, the present study aims to discuss the regressive characteristic of the Brazilian tax system and how it relates to the fact that women pay more taxes than men. The research analyzes the period between 2008 and 2019, using empirical data taken from the Federal Revenue of Brazil. In Brazil, higher taxes are paid mainly by the low income population, in which women are the majority. This characteristic is due to the fact that they are underpaid, due to their worse insertion in the labor market, which are some of the objects of study of feminist economics. The concepts of feminist economics and the tax system underlie the theoretical framework, in which the first demonstrates a gender-based point of view, in the economic space, that men and women are treated differently and women are discriminated against due to the social role characterized throughout history and, in the second point, in which the tax burden of Brazil grows continuously and with low collection on assets and income, and, moreover, taxes are collected mainly on goods and services, stimulating the regressivity of the system, since the population with the lowest purchasing power is the most affected portion. In this way, we use the feminist economy for research with a focus on gender equity, especially with regard to the problems faced by women related to the tax system.
Keywords: Feminist Economics. Brazilian Tax System. Gender inequality.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 - Relação entre carga tributária e concentração de renda (países selecionados em 2010 e no Brasil em 2011) ... 25
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1 - Rendimentos tributáveis, isentos e exclusivamente na fonte (2019) ... 31 Gráfico 2 - Proporção de declarantes de IRPF por sexo no Brasil em 2019 ... 32 Gráfico 3 - Proporção da média de rendimento tributáveis dos declarantes por sexo no Brasil em 2019 ... 32 Gráfico 4 - Proporção de bens e direitos declarados por sexo no Brasil em 2019 ... 33 Gráfico 5 - Alíquota efetiva média de IRPF por faixa de salário mínimo no Brasil em 2019 . 34 Gráfico 6 - Alíquota efetiva média de IRPF por faixa de salário mínimo e por sexo no Brasil em 2019 ... 35 Gráfico 7 - Distribuição das despesas mensais das pessoas de referência por sexo, segundo tipo de despesa, Brasil (2017-2018) em % ... 39
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 – Receita Tributária por Base de Incidência nos anos de 2008 e 2018 ... 27 Tabela 2 - Receita Tributária por Base de Incidência nos anos de 2008 e 2018 ... 29 Tabela 3 - Tributos sobre os produtos (em %) ... 37 Tabela 4 - Carga Tributária por tipo de despesa dos representantes dos domicílios, por sexo, Brasil, 2017-2018 - (% da renda) ... 40
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 15
2 ECONOMIA FEMINISTA ... 17
3 SISTEMA TRIBUTÁRIO BRASILEIRO: REGRESSIVIDADE E DESIGUALDADE ... 23
4 IMPOSTO DE RENDA DE PESSOA FÍSICA E SEUS ASPECTOS DISCRIMINATÓRIOS ... 30
5 IMPOSTOS SOBRE BENS E SERVIÇOS ... 35
5.1 “PINK TAX” E O CONSUMO FEMININO ... 38
6 CONCLUSÃO ... 42
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1 INTRODUÇÃO
Historicamente, a desigualdade social (de gênero, raça e classe) é uma das marcas características da sociedade. A desigualdade de gênero é caracterizada pelo ambiente produtivo, definindo o lugar em que mulheres e homens irão ocupar na sociedade (VIECELI, AVILA, CONCEIÇÃO, 2020).
É necessário elucidar uma distinção sutil, mas importante, sobre sexo e gênero. O sexo é utilizado para explicar as diferenças biológicas entre homens e mulheres. Por outro lado, o gênero se refere aos estereótipos, associações e padrões sociais da cultura com base nas diferenças entre o homem e a mulher (NELSON, 1995).
É a partir desta concepção do conceito de gênero que a crítica feminista à economia é formulada: características tradicionalmente atribuídas por um lado aos homens e por outro às mulheres como naturais (no sentido de biológicas) são características, em última instância, comuns a toda espécie humana, sendo sua identificação como tipicamente “masculinas” ou “femininas” uma questão muito mais histórica e cultural do que propriamente relativa à natureza.
(FERNANDEZ, 2018, p. 562)
Capraro (2016) discute que, para abrandar a desigualdade de gênero, faz-se necessária a redistribuição de renda por meio da política tributária, que ocasionará em justiça fiscal. Ainda, afirma que a redistribuição garante que renda e riqueza sejam compartilhadas de forma mais justa e que isto aumenta a voz e poder das mulheres e homens desfavorecidos em questões fiscais e políticas, e também fortalece a prestação de contas de quem está no poder.
No Brasil, a carga tributária é extremamente regressiva, provocando ainda mais desigualdade de gênero. De acordo com Gomes (2016), o caráter regressista é a marca essencial do sistema tributário brasileiro, quem tem mais paga menos. O sistema tributário regressivo acarreta na baixa inserção da mulher no mercado de trabalho, em salários desiguais, nível alto de desemprego e de não utilizar inteiramente da força de trabalho da mulher no mercado de trabalho. As mulheres acabam sendo enxergadas como aquelas que fazem apenas o trabalho doméstico não remunerado, por mais que atuem no mercado de trabalho como os homens. Além disso, é possível perceber que a desigualdade entre as mulheres está representada nos poucos cargos de liderança ou de poder político por mulheres e nos índices altos de violência doméstica.
A carga tributária brasileira está voltada para os impostos indiretos, ou seja, para os bens e serviços, afetando as classes mais baixas e desiguais, e com índice baixo sobre a renda,
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os lucros, sobre o patrimônio e os ganhos de capital. Capraro (2016) aponta que os impostos podem ser uma ferramenta poderosa para atingir a igualdade substantiva. Assim, para que se verifique a diferença entre os gêneros, seria importante a realização de uma análise sobre os impostos indiretos, que afetam mais as mulheres, mas não há dados o suficiente para uma comparação na cesta de consumo de homens e mulheres. Portanto, será realizada a análise sobre o Imposto de Renda de Pessoa Física (IRPF), que possuem dados atualizados e visíveis para contrastar a diferença entre os homens e as mulheres, mesmo que esses possuam maior proporção na arrecadação desse imposto por estarem mais presentes no mercado de trabalho, com atividades remuneradas, ou receberem salários mais elevados que as mulheres em cargos similares (HOFBAUER; VINAY, 2012, p. 45).
Ademais, nos últimos anos vêm sendo apresentada críticas sobre a “tax women” ou “pink tax” que, de acordo com Barboza (2019), são as taxas pagas por produtos que são destinados a mulheres, e que geralmente são mais caros do que os produtos para homens. A “pink tax” não implica necessariamente em taxas/impostos, mas na diferenciação de preços dos produtos, entretanto, tem relação com a tributação. Além de as mulheres serem discriminadas no mercado de trabalho, acabam recebendo menos que os homens. Esse é o resultado da tributação regressiva instaurada no Brasil, que insere os maiores impostos sobre renda e consumo e afeta principalmente as mulheres.
Desta forma, a monografia pretende desenvolver e entender a seguinte questão: “como os impostos afetam as mulheres? “. O principal objetivo é analisar o Sistema Tributário Brasileiro e as distorções da carga tributária regressiva sob o olhar da Economia Feminista.
O estudo descreve os problemas enfrentados pelas mulheres através da desigualdade entre homens e mulheres, principalmente perante os impostos, de forma a contribuir para o desenvolvimento cientifico, com base nos conceitos e dados coletados.
A fim de responder o problema de pesquisa, será realizada uma pesquisa bibliográfica descritiva e de análise de dados, através de material já elaborado, como impressos diversos e publicações periódicas referente ao tema (GIL, 2002). Logo, as informações já publicadas serão analisadas e discutidas, preservando e destacando os principais argumentos referentes a composição do trabalho.
A realização da pesquisa deu-se através da internet, base de dados como Portal CAPES, Scielo e dados da Receita Federal do Brasil entre 2008 e 2019. Com base nesses
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dados, a pesquisa analisa os dados disponibilizados pela Receita Federal do Brasil sobre o Imposto de Renda de Pessoa Física e dos Impostos sobre Bens e Serviços.
Para alcançar o objetivo deste trabalho, a monografia está organizada em quatro capítulos, além desta introdução. No primeiro capítulo, apresenta-se a visão da economia feminista, expondo a igualdade de gênero e as evidências da desigualdade entre homens e mulheres.
No segundo capítulo é descrito o Sistema Tributário Brasileiro e sua regressividade, que afeta principalmente as mulheres devido aos salários mal pagos, a baixa inserção no mercado de trabalho, tema esse que é pouco discutido na economia tradicional.
Em seguida, no terceiro capítulo é realizada a análise dos dados do Imposto de Renda de Pessoa Física (IRPF) e as diferenças entre os sexos e cor/raça, apresentando os aspectos discriminatórios.
Por fim, no quarto e último capítulo analisa-se os impostos sobre bens e serviços no Brasil, especialmente a “pink tax”.
2 ECONOMIA FEMINISTA
A economia feminista surge como um contraponto para a economia tradicional de viés androcêntrico, ao refletir o marco teórico das ciências econômicas. Primeiramente, a economia feminista forma-se diante das diferentes escolas de pensamento econômico, reconsiderando os conceitos já existentes e ampliando os novos entendimentos sobre o modo de ver e analisar o mundo social e econômico. A base da economia feminista tem por objetivo apresentar as falhas do método tradicional, principalmente no que se diz respeito à não abordagem das questões da desigualdade de gênero (FERNANDEZ, 2018).
As abordagens científicas – métodos e teorias – alternativas propostas pela economia feminista seriam justamente aquelas que incorporam outros valores, códigos culturais de conduta, práticas e normas tradicionalmente associados às mulheres, os quais vêm sendo subjugados, marginalizados e/ou cerceados. (FERNANDEZ, 2018, p. 565)
O ponto inicial da economia feminista é a crítica sobre a definição econômica com foco no homo economicus, em que o agente econômico é formado por preferências e decisões baseadas na racionalidade e busca maximizar sua utilidade pela busca do seu próprio
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interesse, originário do pensamento da economia tradicional que dispõe de teorias mainstream (FERNANDEZ, 2018).
Nos modelos econômicos tradicionais, além de distanciar-se das subjetividades de quem a faz, as mulheres foram omitidas, caracterizando ainda mais nas desigualdades de gênero. Desta forma, a economia feminista traz maior clareza e objetividade sem diferenciar o “público/privado, mercado/família, homem/mulher, razão/emoção, mente/corpo, história/natureza, objetividade/subjetividade”, como o homo economicus é fundamentado desde sua origem histórica (GRECCO, 2018, P. 126).
Para Grecco (2018), o conceito do homo economicus é importante para a ciência econômica, principalmente sobre a visão neoclássica, entretanto, sob o olhar da economia feminista, o homo economicus é entendido como um apreciador do capital e do lucro, desta maneira considerado como a representação do individualista e egoísta.
As críticas aos pensamentos da economia tradicional iniciaram-se na economia feminista por volta dos anos 1960/1970, considerando desde o paradigma neoclássico ao marxista, examinando a maneira como apresentava-se a situação socioeconômica das mulheres (CARRASCO, 1999). Na teoria neoclássica, é apresentado o papel tradicional, ou seja, os homens trabalhavam no espaço público com remuneração e valorização do mercado, enquanto as mulheres realizavam as atividades não remuneradas, de caráter privado e invisível para o mercado. Para a teoria marxista, o entendimento sobre proletariado, exploração, produção e reprodução são vistos com neutralidade quando associado ao gênero, como se ocorresse uma convergência natural de interesses econômicos entre homens e mulheres da classe trabalhadora. Além disso, o trabalho doméstico, que geralmente é realizado pelas mulheres, não é remunerado, portanto, não pertence ao movimento de valor de troca, desta forma, é improdutivo. Assim, fica visível que ambas as vertentes abordam a divisão por sexo no trabalho e na família como se existisse uma determinação biológica para tal (CARRASCO, 1999; QUINTELA, 2006).
Como a economia tradicional não “enxerga” o trabalho doméstico, diz-se que ele é “invisível”. Essa metáfora é bastante significativa, levando-se em consideração que aquilo que não se vê parece de fato não existir… O problema é que esse trabalho, invisível do ponto de vista econômico, e por isso mesmo desvalorizado, além de repetitivo e exaustivo, é imperativo e iminente (levar uma criança acidentada ao médico ou amamentar e trocar as fraldas de um bebê, por exemplo), cotidiano (levar e buscar as crianças da escola, cozinhar, limpar e arrumar a casa, lavar a louça, tratar da roupa) e, além disso, consome muito tempo de cada dia, de todos os dias.. (FERNANDEZ, 2018, p. 570)
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Um dos debates da economia feminista é a mulher caracterizada por um papel definido na reprodução biológica com ênfase na maternidade e na realização de afazeres domésticos, enquanto o homem que é visto como o responsável econômico da família, baseado nos velhos estereótipos aplicados ao longo do tempo para o papel feminino na sociedade (MELO; CONSIDERA; SABBATO, 2007).
Em diversos momentos, as mulheres passaram por práticas discriminatórias que as baniam da polícia, de cargos de liderança e dos empregos reputados como “masculinos” no mercado formal de trabalho. Após décadas de movimentos feministas, foi possível conquistar diversos direitos humanos que possibilitaram o início da independência feminina no que se diz respeito às desigualdades entre homens e mulheres, tanto no que diz respeito ao caráter econômico quanto ao cultural (CASTAÑO, 1999; GRECCO, 2018; TEIXEIRA, 2008).
Sob o olhar da perspectiva feminista, há dois fenômenos associados ao trabalho invisível. O primeiro diz respeito às desigualdades de salários entre homens e mulheres com igual formação e que desempenham funções idênticas ou muito semelhantes, e o segundo refere-se à discriminação sob a forma de segregação – seja ela horizontal ou vertical – por gênero no mercado de trabalho (FERNANDEZ, 2018, p. 571).
Com a inclusão das mulheres no trabalho assalariado, as diferenças salariais passam a ser mais evidentes, mesmo quando houvesse ocupação de cargos idênticos. A acentuação dessa diferença é notória quando a mulher passa a ser a única provedora de renda (COSTA et
al, 2005).
A pressão das obrigações domésticas determina que uma considerável parcela das mulheres aceite aquele tipo de emprego precarizado (em tempo parcial, informal, pior remunerado) que permita compatibilizar ambas as atividades, fora e dentro de casa, ao invés de desenvolver plenamente as suas aptidões em alguma atividade profissional. (FERNANDEZ, 2018, p. 571)
O conceito de segregação ocupacional por gênero é muito importante para explicar as diferenças salariais entre homens e mulheres, a concentração das mulheres em empregos secundários, menos qualificados, pior pagos, nos setores produtivos mais atrasados, com especializações obsoletas, enfim, a sua posição de subordinação no mercado de trabalho. As mulheres são a mão de obra preferencial em muitos empregos e ocupações. E como o universo laboral preferencial das mulheres é limitado a determinadas ocupações bem específicas, há uma grande procura por parte delas para uma oferta pequena de empregos nesses setores, o que faz com que o nível dos salários caia. Mas a desigualdade não se deve somente a isso, como acima referido: deve-se também ao fato de as mulheres serem as responsáveis pelo cuidado da casa e dos filhos, ou seja, à dupla jornada de trabalho. (FERNANDEZ, 2018, p. 575)
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De acordo com dados divulgados, as mulheres contribuem mais com as tarefas de reprodução/domésticas, dessa forma, possuem maiores adversidades para confrontar o mercado de trabalho em relação aos homens, devido à carga horária total de trabalho ser maior e isso demonstra que as mulheres não possuem total acesso e oportunidades como no mundo do homo economicus. Aliás, enquanto os homens estão disponíveis totalmente para o trabalho público, as mulheres precisam se dedicar às responsabilidades domésticas (MARÇAL, 2017; SUCUPIRA, FREITAS, 2014; TEIXEIRA, 2017).
A economia feminista abrange questões que integram diferentes abordagens e níveis de ruptura com outros paradigmas já determinados. Assim como os outros paradigmas, a economia feminista debate críticas e reconstruções teóricas com incertezas e constatação para ressaltar o conhecimento (CARRASCO, 2006).
Além disso, a economia feminista propõe a igualdade de gênero por meio da perspectiva de que homens e mulheres são livres para aprimorar suas capacidades e tomar decisões, de forma a corrigir as desigualdades (PEREIRA, RAMBLA, 2010).
Castaño (1999) afirma que a economia feminista é uma ciência diversificada que desaprova a pouca importância que é dada às questões de gênero nas análises econômicas, mesmo que a perspectiva considera e reconheça a contribuição das teorias neoclássicas e marxistas.
Diante disso, o que a economia feminista propõe, em resumo, é uma avaliação e uma reconstrução dos paradigmas predominantes e dominantes da Ciência Econômica, especialmente as concepções de trabalho, tempo de trabalho, formação de valor e outras categorias analíticas circunscritas a este tema. Isto é, as economistas feministas não propõem uma simples junção das análises de gênero às análises econômicas estabelecidas. Não se trata de uma receita diante da qual basta “acrescentar as mulheres e mexer” [add women and stir] (Ferber e Nelson, 1993, p. 06), mas as economistas feministas pretendem uma teoria em que as próprias ferramentas analíticas sejam reinventadas. (GRECCO, 2018, p. 126-127)
E, segundo Fernandez (2018, p. 579), a economia feminista tende a tornar visível a contribuição das mulheres para a economia. Além da necessidade da revisão dos conceitos e preceitos da economia ortodoxa frente à economia feminista e do princípio ético e moral da igualdade de gênero.
De acordo com Vieceli, Avila, Conceição:
A desigualdade social é uma das marcas das sociedades mercantis, e é transpassada por relações de gênero, raça e classe, bem como a maneira como as diferentes sociedades se organizam produtivamente. A desigualdade de gênero se relaciona com o contexto produtivo, definindo os espaços em que as mulheres e os homens vão ocupar na sociedade. (VIECELI, AVILA, CONCEIÇÃO, 2020, p. 02)
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Além disso, as autoras afirmam que o sistema tributário é uma das formas de atenuar as desigualdades sociais:
Uma das maneiras de mitigar as desigualdades sociais e redistribuir renda é por meio da política tributária, o que é tema de diversos estudos que correlacionam a forma como a sociedade tributa com a manutenção ou diminuição das desigualdades sociais. No entanto, poucas são as pesquisas que incorporam a questão de gênero como importante marcador para a definição das posições relativas entre homens e mulheres e como a estrutura tributária pode afetar nestas relações (VIECELI, AVILA, CONCEIÇÃO, 2020, p. 02)
É importante salientar que políticas específicas não são neutras ao gênero e que é necessário transversalizar o gênero nestas políticas, reconhecendo, por exemplo, os impactos diferentes da tributação sobre homens e mulheres.
Os orçamentos públicos não são documentos técnicos neutros: são um reflexo das opções da governação quanto ao financiamento das políticas públicas, e estas opções podem ampliar ou diminuir as desigualdades. Um “Orçamento sensível ao género” resulta de um processo através do qual se avalia o contributo dos orçamentos públicos para a realização da igualdade entre mulheres e homens (PpDM, 2018, p. 02)
Na sociedade, os direitos, acesso a recursos e poder ainda é tratado de forma desigual entre homens e mulheres, na maior parte das vezes, os homens possuem condições favoráveis em comparação às mulheres (PpDM, 2018).
Em Portugal, de acordo com indicadores publicados pela Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género:
- Em cada 100 pessoas sem escolarização 71 são mulheres e 29 são homens (2015); - A taxa de emprego dos homens é superior à das mulheres em 6,8 pontos percentuais (2016);
- O emprego a tempo parcial das mulheres é superior ao dos homens em 5,4 pontos percentuais (2015);
- As mulheres auferem em média uma remuneração base mensal inferior à dos homens em 16,7% (2015). O diferencial aumenta à medida que aumenta o nível de qualificação, atingindo 26,4% nos quadros superiores (2015);
- As mulheres continuam a dedicar diariamente mais 1 hora e 45 minutos do que os homens às tarefas domésticas e de cuidado (2015);
- A taxa de risco de pobreza das mulheres em Portugal é superior à dos homens em 1,4 pontos percentuais (2015);
- As mulheres representam apenas 33% das/os deputados/as à Assembleia da República (2015) (PpDM, 2018, p. 02).
Ainda de acordo com PpDM (2018), essas diferenças são discordantes com o compromisso político da igualdade entre homens e mulheres, visto que, essa desproporção
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provoca na impossibilidade de os indivíduos desenvolverem suas competências e escolhas sem serem limitados devido aos papeis de gênero socialmente atribuídos a eles.
[...] todas as políticas públicas devem desempenhar um papel na realização do objetivo político, económico e social da igualdade entre mulheres e homens. E as opções dos governos no que respeita à alocação de recursos públicos às diversas políticas, ao respetivo financiamento e à sua efetiva aplicação podem ampliar ou diminuir as desigualdades.
Em geral, os governos e as/os cidadãos/cidadãs consideram que os orçamentos são instrumentos de política neutros em termos de género, ou seja, encaram-nos como não tendo impactos diferenciados para as mulheres e os homens. No entanto, devido ao facto de as mulheres terem menor poder económico, social e político do que os homens, diferentes opções quer em matéria de despesa pública, quer no domínio das diferentes modalidades de receita podem resultar em impactos diferenciados para as mulheres e os homens (PpDM, 2018, p. 03-04).
Além disso, é preciso entender a situação real das mulheres em relação aos homens na sociedade, suas diferenças salariais, menores oportunidades de emprego etc. Por isso, é importante que o gênero deve ser destacado perante aos orçamentos públicos.
[...] ignorar o impacto de género dos orçamentos não é neutralidade: é tornar invisível uma dimensão fundamental dos valores sociais que afirmamos manter. Os orçamentos públicos não são meros documentos técnicos; eles refletem a forma como os governos estabelecem as suas prioridades e moldam e implementam as suas políticas. Portanto, os orçamentos são indicadores do compromisso de um governo em atender às necessidades das mulheres e alcançar a igualdade de género. (PpDM, 2018, p. 04).
O “Orçamento Sensível a Gênero” não é um assunto muito explorado nas discussões sobre orçamento público, entretanto, está sendo pesquisado e estudado em muitos países, principalmente na América Latina e tem sido visto como uma forma de promover a equidade entre homens e mulheres. Para isso, há um empenho para fragmentar o orçamento do governo para entender quais são os impactos do gasto público, como também os benefícios diferenciados aos homens e as mulheres em múltiplas situações, de acordo com Hofbauer e Vinay (2012, pg. 28):
Esta desagregação é importante porque, contrariamente ao que supõem as principais correntes da economia, os orçamentos públicos não são neutros a gênero. Todo gasto público tem algum impacto, e este não é necessariamente igual para mulheres e homens. Ignorar este impacto diferenciado, assim como as implicações que deveriam ter para o projeto das políticas públicas e a designação de recursos, não significa “neutralidade”, mas desconhecimento das diferenças de gênero.
PpDM (2018, p. 05) enfatiza que os orçamentos sensíveis ao gênero não são orçamentos exclusivos para as mulheres:
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Os orçamentos sensíveis ao género não são orçamentos separados para mulheres, não assentam em análises parciais do orçamento, nem se traduzem em mais despesa e menos impostos. São, isso sim, instrumentos para analisar o orçamento em função dos seus impactos para as mulheres e os homens, para incluir a perspetiva de género em todo o orçamento, incluindo em linhas orçamentais aparentemente neutras em termos de género, e para redefinir as prioridades e orientações ao nível das receitas e despesas públicas.
Os orçamentos sensíveis ao género visam ainda outros importantes objetivos, nomeadamente: aumentar a participação das mulheres na tomada de decisões económicas e no processo orçamental, promover uma mais alargada consulta pública e participação na preparação e acompanhamento da execução do orçamento, e aumentar a responsabilização dos governos pelos compromissos assumidos em relação à igualdade de género.
Com isso, também pode-se afirmar que há um vínculo entre o mainstreaming de gênero e os orçamentos sensíveis ao gênero:
No contexto da UE, o mainstreaming de género significa a inclusão, pelos governos e agentes institucionais da UE, da dimensão da igualdade entre mulheres e homens em todas as políticas e programas, de modo a possibilitar, não só a análise dos seus efeitos sobre as mulheres e sobre os homens antes da tomada de decisão, mas também a implementação, avaliação e revisão de políticas e processos políticos levando em consideração as questões de género.
O orçamento sensível ao género traduz-se, como vimos, na introdução da dimensão da igualdade entre mulheres e homens nos procedimentos orçamentais e na sua avaliação, e na mudança dos orçamentos públicos para que estes contribuam de forma efetiva para o objetivo da igualdade entre mulheres e homens. Um compromisso sério para com o mainstreaming de género implica, assim, a existência de orçamentos sensíveis ao género (PpDM, 2018, p. 09-10).
Visto isso, a seção seguinte tem como objetivo apresentar as implicações da configuração do sistema tributário brasileiro sobre a desigualdade de gênero.
3 SISTEMA TRIBUTÁRIO BRASILEIRO: REGRESSIVIDADE E DESIGUALDADE
O Brasil é conhecido por sua concentração de renda e das desigualdades sociais, que é refletido através do caráter regressivo da alta carga tributária do país. O sistema tributário brasileiro tem sua característica de ser uma ferramenta que auxilia na concentração de renda, que leva ao agravamento dos impostos dos mais pobres, por consequência, reduzindo os impostos para a classe alta (SALVADOR, 2014).
O financiamento do Estado é debatido sobre dois conflitos: a distribuição da carga tributária na sociedade e o tamanho do Estado. De acordo com Salvador (2014), “as bases da atual matriz teórica têm sua origem no pensamento dos economistas clássicos e são
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consolidadas na vertente neoclássica, que orientou as “reformas” neoliberais nos sistemas tributários dos países centrais a partir da década de 1980”.
De acordo com a literatura de finanças públicas, os tributos podem ser regressivos, progressivos e proporcionais (MUSGRAVE, MUSGRAVE, 1980). Um tributo pode ser considerado regressivo quando há uma relação inversa com a renda do indivíduo na sociedade, ou seja, há uma piora na distribuição da renda, assim ocasiona numa maior concentração de renda gerada, que prejudica o cidadão com menor poder aquisitivo. Em contrapartida, um tributo progressivo é associado à um percentual do imposto pago que aumenta de acordo com o aumento no nível de receita de cada indivíduo e, após a tributação, gera uma melhor distribuição de renda na sociedade (FERNANDEZ, 2012). Desta maneira, analisa-se que quando há uma carga fiscal progressiva, há mais justiça fiscal, pois, cada membro da sociedade paga os impostos de acordo com o seu nível de renda.
Os tributos precisam ser avaliados para serem considerados regressivos ou progressivos através das bases de incidência, que podem ser a produção, a renda, propriedade, circulação e consumo de bens e serviços (SALVADOR, 2014).
Nas bases de incidência, há dois tipos de tributos: os diretos e os indiretos. Os tributos diretos são aqueles que incidem diretamente sobre os rendimentos ou riquezas, ou seja, incidem sobre a renda e o patrimônio, são esses os tributos que não podem ser transferidos à terceiros e são considerados apropriados no sistema progressivo. O Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) e o Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ), são os exemplos de tributos diretos. Já os tributos indiretos são aqueles que incidem indiretamente sobre os bens e serviços, que atendem às necessidades dos indivíduos e podem ser transferidos para terceiros. Exemplo dessa classe de tributo é o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) (GIAMBIAGI, 2011).
Os tributos indiretos – que são tipicamente regressivos – predominam a estrutura tributária e acarreta em danosos reflexos aos indivíduos da sociedade, principalmente aos trabalhadores e aos mais pobres. Esses tributos auxiliam numa piora na distribuição de renda, com limitada ocorrência dessa distribuição sobre os lucros e também sobre o patrimônio. Para abrandar as desigualdades sociais, seria necessário que os impostos diretos efetuassem maior importância, de acordo com os fatos afirmados pelos países desenvolvidos (OLIVEIRA, 2009).
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No Brasil, a ampliação da carga tributária entre 1995 e 2012 não contribuiu para a diminuição das desigualdades sociais. Em contrapartida, constitui em dificuldade para a redistribuição de renda e riqueza no país (SALVADOR, 2014).
Há diversos estudos sobre a elevada carga tributária no Brasil que apontam a velocidade da melhoria na distribuição de renda, que ocorre a partir de 2003 no país, isto porque, a relação direta da regressividade na composição do sistema tributário brasileiro é representada apenas por 1/3 da arrecadação tributária no país – com 2/3 em tributos indiretos –, visto que, é ao contrário do que se sucede nos países centrais. Observa-se que não há, de fato, uma alta redistribuição na política tributária, a partir de que não há tributação aos rendimentos elevados não provenientes do trabalho, como aluguéis e aplicações financeiras, e o patrimônio (SILVEIRA, 2008).
Na figura 1, Salvador (2014, pág. 11) analisa a relação entre a carga tributária e o índice de Gini – que mensura a desigualdade de renda – numa amostra de países da OCDE em 2010.
Figura 1 - Relação entre carga tributária e concentração de renda (países selecionados em 2010 e no Brasil em 2011)
Fonte: Salvador (2014) com dados da OCDE.
Na tabela 1, apresenta-se informações sobre a estimativa da carga tributária brasileira nos anos de 2008 e 2018 com bases de incidência econômica, como consumo, renda e patrimônio, analisando a conduta da arrecadação dos impostos, contribuições e taxas consideradas pela União, Estados e municípios.
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Os dados da tabela 1 expõe que a carga tributária – indicador que se manifesta entre o valor de recursos do Estado através da sociedade e o PIB (Produto Interno Bruto) – diminuiu minimamente de 33,50% em 2008 para 33,26% em 2018. A diferença mais brusca entre a carga tributária nesses anos é observada através do Tributo sobre a Renda de Pessoas Jurídicas, que caiu de 3,87% em 2008 para 2,83% em 2018 e os Tributos sobre Bens e Serviços tiverem uma queda também, de 15,53% em 2008 para 14,90% em 2018.
Observa-se que os Tributos sobre a Propriedade tiveram um aumento de 1,19% em 2008 para 1,54% em 2018, que equivale a 3,55% e 4,64% da arrecadação tributária nos anos de 2008 e 2018, respectivamente. Essa tributação é quase que irrisório ao país, pois em países com capitalismo central, como o Canadá (10%), o Japão (10,3%), a Coreia (11,8%), a Grã-Bretanha (11,9%) e os EUA (12,15), os impostos representam mais que 10% da arrecadação em seus países, de acordo com dados de OWENS (2005).
Além disso, houve um aumento considerável nas Contribuições Previdenciárias, de 0,02% em 2008 para 0,22% em 2018.
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Tabela 1 – Receita Tributária por Base de Incidência nos anos de 2008 e 2018 Receita Tributária por
Base de Incidência R$ milhões (2008) R$ milhões (2018) % PIB (2008) % PIB (2018) % da Arrecadação Total (2008) % da Arrecadação Total (2018) Tipo de Base Total da Receita Tributária 1.041.894,05 2.291.407,08 33,50% 33,26% 100,00% 100,00% Tributos sobre a Renda 236.895,05 495.355,23 7,62% 7,19% 22,74% 21,62% Pessoa Física 75.840,07 200.875,96 2,44% 2,92% 7,28% 8,77% Pessoa Jurídica 120.478,55 194.813,65 3,87% 2,83% 11,56% 8,50% Retenções não Alocáveis 40.576,42 99.665,62 1,30% 1,45% 3,89% 4,35% Tributos sobre a Folha
de Salários 264.979,71 626.446,84 8,52% 9,09% 25,43% 27,34% Previdência Social 191.920,07 444.583,95 6,17% 6,45% 18,42% 19,40% Empregador 132.851,02 304.613,24 4,27% 4,42% 12,75% 13,29% Empregado 59.069,05 139.970,71 1,90% 2,03% 5,67% 6,11% Seguro Desemprego 50.517,60 125.907,99 1,62% 1,83% 4,85% 5,49% Outros 22.542,04 55.954,90 0,72% 0,81% 2,16% 2,44% Tributos sobre a Propriedade 36.984,38 106.362,95 1,19% 1,54% 3,55% 4,64% Propriedade Imobiliária 14.204,17 44.900,20 0,46% 0,65% 1,36% 1,96% Propriedade de Veículos Automotores 17.035,37 43.120,20 0,55% 0,63% 1,64% 1,88% Transferências Patrimoniais 5.744,84 18.342,55 0,18% 0,27% 0,55% 0,80% Tributos sobre Bens e
Serviços 482.863,93 1.026.336,00 15,53% 14,90% 46,34% 44,79% Gerais 356.850,12 741.642,08 11,48% 10,77% 34,25% 32,37% Seletivos 76.658,10 155.610,42 2,47% 2,26% 7,36% 6,79% Automóveis 6.037,42 5.713,33 0,19% 0,08% 0,58% 0,25% Bebidas 2.492,19 2.767,63 0,08% 0,04% 0,24% 0,12% Combustíveis 44.348,93 90.060,21 1,43% 1,31% 4,26% 3,93% Energia Elétrica 20.567,41 51.861,39 0,66% 0,75% 1,97% 2,26% Tabaco 3.212,13 5.207,86 0,10% 0,08% 0,31% 0,23% Comércio exterior 17.104,00 40.704,10 0,55% 0,59% 1,64% 1,78%
Taxas - Prest. Serviços e Poder Polícia 24.301,21 57.172,07 0,78% 0,83% 2,33% 2,50% Contribuições Previdenciárias 657,41 15.180,00 0,02% 0,22% 0,06% 0,66% Outras Contribuições Sociais e Econômicas 7.293,09 16.027,33 0,23% 0,23% 0,70% 0,70% Tributos sobre Transações Financeiras 21.143,29 36.617,97 0,68% 0,53% 2,03% 1,60% Trib. s/ Débitos e Créditos Bancários 974,81 2,83 0,03% 0,00% 0,09% 0,00% Outros 20.168,48 36.615,14 0,65% 0,53% 1,94% 1,60% Outros Tributos -972,30 288,09 -0,03% 0,00% -0,09% 0,01%
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Já na tabela 2, destaca-se o “ICMS”, que é o imposto de maior arrecadação no país. O ICMS é encarregado por 21,31% do montante da arrecadação tributária no país em 2008 e de 20,92% em 2018. O ICMS é um tributo regressivo, que incide sobre os bens e serviços, prejudicando a população mais pobre do país. Este tipo de tributo é uma singularidade do sistema tributário do Brasil, já que não é natural em outros países o principal imposto do país pertencer ao Estado e não a União. Para Salvador (2014, p. 12-13):
Uma das principais questões sobre este imposto diz respeito às inúmeras alíquotas envolvidas e à falta de harmonização da legislação no país. As alíquotas das operações internas são estabelecidas pelos Estados e pelo Distrito Federal, podendo ser seletivas em relação à essencialidade do bem, isto é, produtos básicos deveriam ter alíquota menores, enquanto os supérfluos deveriam ter alíquotas maiores, conferindo assim maior justiça fiscal.
As alíquotas das operações internas são estabelecidas pelos Estados e pelo Distrito Federal, podendo ser seletivas em relação à essencialidade do bem, isto é, produtos básicos deveriam ter alíquota menores, enquanto os supérfluos deveriam ter alíquotas maiores, conferindo assim maior justiça fiscal.
Contudo, a situação que predomina no país é exatamente o inverso, com os bens supérfluos sendo menos tributados do que os bens essenciais. O ICMS responde por 45% dos tributos que incidem sobre os alimentos, sendo que a alíquota‑padrão corresponde a 17% ou 18%. Conforme o Estado de origem e em alguns Estados da Federação, chegam a ser estabelecidas mais de 40 alíquotas diferentes para esses produtos. Não há harmonização entre as normas desse imposto e, na prática, o ICMS é regulamentado por 27 legislações. Ademais, é prática usual no Brasil a cobrança por dentro, isto é, os tributos incidem sobre eles mesmos, de tal forma que as alíquotas nominais são menores do que as efetivas.
Os dados da tabela 2 apresentam os dados do “o Imposto sobre Propriedade Territorial Urbana (IPTU), de competência municipal, que, em tese, deveria ser um imposto progressivo visto que incide sobre a propriedade. No entanto, quando se trata de imóveis alugados, em que geralmente é utilizado pela população de mais baixa renda que não possui imóvel próprio, mais uma vez a característica da regressividade aparece, tendo em vista que o imposto é “repassado” para o locatário. Isso significa que, aquele que deveria pagar o imposto a fim de garantir o caráter de progressividade do sistema, o proprietário, transfere essa obrigação para o elo mais fraco da corrente (o locatário), tornando um imposto que antes era progressivo em regressivo.
Esses tipos de impostos acarretam consequências regressivas no sistema tributário brasileiro, que impacta a população de baixa renda, devido à alta tributação indireta. E, mesmo os impostos diretos, possuem menor progressividade e alta incidência sobre a população através de suas rendas.
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Tabela 2 - Receita Tributária por Base de Incidência nos anos de 2008 e 2018
Tributo R$ milhões (2008) R$ milhões (2018) % PIB (2008) % PIB (2018) % da arrec. (2008) % da arrec. (2018) Total da Receita Tributária 1.041.894,05 2.291.407,08 33,50% 33,26% 100,00% 100,00% Tributos do Governo Federal 722.749,41 1.547.402,45 23,24% 22,46% 69,37% 67,53% Tributos do Governo Estadual 265.379,96 593.382,08 8,53% 8,61% 25,47% 25,90% ICMS 222.037,24 479.310,41 7,14% 6,96% 21,31% 20,92% IPVA 17.035,37 43.120,20 0,55% 0,63% 1,64% 1,88% ITCD 1.491,50 7.330,03 0,05% 0,11% 0,14% 0,32%
Contrib. Regime Próprio Previd. Est. 11.380,17 36.124,57 0,37% 0,52% 1,09% 1,58% Outros Tributos Estaduais 13.435,69 27.496,86 0,43% 0,40% 1,29% 1,20% Tributos do Governo Municipal 53.764,67 150.622,55 1,73% 2,19% 5,16% 6,57% ISS 24.988,77 62.125,65 0,80% 0,90% 2,40% 2,71% IPTU 13.802,07 43.481,37 0,44% 0,63% 1,32% 1,90% ITBI 4.253,34 11.012,52 0,14% 0,16% 0,41% 0,48%
Contrib. Regime Próprio Previd. Mun.
4.012,73 11.979,60 0,13% 0,17% 0,39% 0,52% Outros Tributos
Municipais
6.707,76 22.023,41 0,22% 0,32% 0,64% 0,96%
Fonte: Receita Federal (2020). Elaboração Própria.
Salvador (2014), ainda aborda as questões de gênero e raça na regressividade tributária no Brasil, que ainda não é analisada de força correta, visto que são as bases da desigualdade no país.
O critério de gênero não é considerado relevante, o que mostra que a luta por maior igualdade entre os sexos não tem sido associada à incidência tributária. Também é importante observar que, no Pacto Fiscal da Federação, a partilha dos recursos do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), não se levam em conta os aspectos redistributivos de incentivos à construção de equipamentos públicos que possam melhorar de forma significativa as condições de vida de crianças e idosos. (SALVADOR, 2014, p. 22-23)
Segundo um estudo realizado por Salvador através de microdados da PNAD/2011, mostrou-se que, numa visão geral, os 10% mais pobres da população utilizam cerca de 32% da sua renda para pagar tributos, enquanto para os 10% mais ricos, a utilização de seus recursos para o pagamento de tributos cai para 21%. Quando se abre os dados, é visto que, entre os 10% mais pobres, 68,06% são negros e 31,94% são brancos, além disso, 45,66% são
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homens e 54,34% são mulheres. E, entre os 10% mais ricos, 83,72% são brancos e 16,28% são negros e, dentro desta categoria, 62,05% são homens e 31,05% são mulheres.
O estudo ainda analisa que em 2011, no Brasil, 55,74% dos tributos vieram do consumo e apenas 15,64% da renda gerada pelo trabalho, totalizando 71,38%. Visualizando através da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a média de tributos nos países soma 33%. Desta forma, percebe-se que o sistema tributário brasileiro pune mais os pobres do que os ricos, visto que a maior tributação vem sobre o consumo de bens e serviços e dos salários, ao invés de cobrar com maior força sobre o patrimônio e a renda do capital.
As mulheres são afetadas pelos impostos de maneiras específicas devido aos seus padrões de emprego, incluindo salários, sua participação no de trabalho de cuidado não remunerado, seus padrões de consumo e sua posse de bens e propriedades. (CAPRARO, 2016, p. 20)
Para uma análise mais profunda sobre os tributos no país, na seção seguinte será analisado o Imposto de Renda de Pessoa Física, que tem como objetivo apresentar as características do tributo e suas implicações. Esse imposto será analisado por possuírem mais dados disponíveis e visíveis para contrastar a diferença entre os homens e as mulheres, mesmo que esses possuam maior proporção na arrecadação desse imposto por estarem mais presentes no mercado de trabalho, com atividades remuneradas, ou por receberem salários mais elevados que as mulheres em cargos similares (HOFBAUER; VINAY, 2012, p. 45), visto que, não há dados que informem claramente a diferença nas contribuições com impostos entre homens e mulheres no país.
4 IMPOSTO DE RENDA DE PESSOA FÍSICA E SEUS ASPECTOS DISCRIMINATÓRIOS
Com a disponibilização dos dados mais brutos das declarações de Imposto de Renda de Pessoa Física (IRPF) a partir de 2014, é possível realizar análises mais acentuadas quanto às declarações.
As informações apresentadas ao longo do capítulo consideram as declarações realizadas pelos contribuintes pela Receita Federal do Brasil com rendimentos de 2019. Em 2019, a declaração do Imposto de Renda foi-se necessária para pessoa física que recebeu mais
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de R$ 2.379,98 por mês durante o ano, bem como quem possui patrimônio acima de R$ 300.000,00.
Os rendimentos são separados em três categorias de tributos diferentes. O primeiro, chamado de “rendimentos tributáveis” representam cerca de 57,43% e são compostos principalmente por rendas vindas do trabalho, mas também de rendas de propriedade (aluguéis), depois temos os “rendimentos isentos” que são 31,19% e contemplam os lucros e dividendos, saques do FGTS, rendimentos da caderneta de poupança e bolsas de estudos, e, por último, os “tributos exclusivamente na fonte”, que geraram cerca de 11,38% e que são considerados os rendimentos provenientes de aplicações financeiras e 13º salário (VIECELI, AVILA, CONCEIÇÃO, 2020).
Gráfico 1 - Rendimentos tributáveis, isentos e exclusivamente na fonte (2019)
Fonte: Receita Federal (2020). Elaboração Própria.
Os dados a seguir são analisados através das declarações de renda por sexo, que indicam por si só a desigualdade entre homens e mulheres, principalmente por considerarmos a desarmonia de declarantes e aos rendimentos. Todas as análises foram realizadas excluindo as declarações conjuntas de pessoas casadas, desta forma, consideramos apenas as declarações individuais. Para isto, para os homens, a pesquisa excluiu 163 mil declarações conjuntas e considerou apenas 17.114 individuais e, para as mulheres, a pesquisa excluiu 17 mil declarações conjuntas e considerou apenas 13.200 individuais, que representa 0,95% e 0,13% de declarações conjuntas excluídas, respectivamente.
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O gráfico abaixo inicia a desigualdade entre homens e mulheres, em que, em 2019, 56,5% dos declarantes eram homens, enquanto 43,5% mulheres.
Gráfico 2 - Proporção de declarantes de IRPF por sexo no Brasil em 2019
Fonte: Receita Federal (2020). Elaboração Própria.
Já no gráfico 3, demonstra-se os rendimentos tributáveis em 2019, em que os homens, mais uma vez permanecem com a maior taxa, de 58,1%, e as mulheres com 41,9%.
Gráfico 3 - Proporção da média de rendimento tributáveis dos declarantes por sexo no Brasil em 2019
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O gráfico 4 confirma, novamente, a desigualdade entre homens e mulheres, visto que, quando se analisa os bens e direitos declarados, a diferença é com maior intensidade: homens são 69,7% e mulheres 30,3%.
Gráfico 4 - Proporção de bens e direitos declarados por sexo no Brasil em 2019
Fonte: Receita Federal (2020). Elaboração Própria.
No capítulo anterior comentou-se sobre a regressividade do sistema tributário brasileiro e um dos tópicos abordados foi a penalização sobre os mais pobres e, principalmente, sobre as mulheres, devido à maior tributação ser sobre o consumo. No gráfico abaixo (5), considerando a razão entre o imposto de renda devido e os rendimentos tributáveis, rendimentos tributados exclusivamente na fonte e os rendimentos isentos, fica evidente a regressiva tributação do país no IRPF, visto que, a partir da faixa de 60 salários mínimos mensais a alíquota paga diminui, ou seja, quem ganha menos, paga mais. A exceção neste ano é a alíquota média acima de 320 salários mínimos que ascende para quase o valor da alíquota entre 40 e 60 salários mínimos.
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Gráfico 5 - Alíquota efetiva média de IRPF por faixa de salário mínimo no Brasil em 2019
Fonte: Receita Federal (2020). Elaboração Própria.
Quando se realiza a mesma comparação, porém com distinção de sexo e utilizando apenas os rendimentos tributáveis e retidos exclusivamente na fonte, no gráfico 6, alerta-se para a alíquota maior de imposto de renda que é paga pelas mulheres em quase todas as faixas por salários mínimos, exceto pelas faixas de 80 a 240 salários mínimos, em que os homens pagam uma alíquota relativamente maior do que a das mulheres.
Essa configuração contributiva sinaliza que os homens possuem maiores rendimentos isentos, ou seja, provavelmente os indivíduos recebedores de lucros são majoritariamente homens, o resultado efetivo é que as mulheres pagam mais IRPF do que os homens. (VIECELI, AVILA, CONCEIÇÃO, 2020)
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Gráfico 6 - Alíquota efetiva média de IRPF por faixa de salário mínimo e por sexo no Brasil em 2019
Fonte: Receita Federal (2020). Elaboração Própria.
Esses estudos mostram que a situação da tributação no Brasil reforça a desigualdade entre homens e mulheres, principalmente quando se trata da renda. Além disso, quando se analisa os tributos sobre o consumo de bens e serviços, o efeito da regressividade do sistema reforçando a desigualdade é ainda mais visível.
[...] a regressividade tributária no Brasil não foi ainda devidamente analisada, considerando as dimensões de gênero e raça, que são estruturantes das desigualdades no país. Assim, as categorias de gênero e raça têm estado ausentes no debate tributário brasileiro [...]. (SALVADOR, YANNOULAS, 2013, p. 13)
5 IMPOSTOS SOBRE BENS E SERVIÇOS
A carga tributária brasileira está voltada para os impostos indiretos, ou seja, para os bens e serviços, afetando as classes mais baixas e desiguais – principalmente as mulheres, e com índice baixo sobre a renda, os lucros, sobre o patrimônio e os ganhos de capital. A incidência tributária, por sexo, nos impostos indiretos demonstra que as mulheres pagam parcelas maiores em comparação a sua renda, reforçando assim a importância da manutenção da isenção de impostos sobre a cesta básica sociedade (VIECELI, AVILA, CONCEIÇÃO, 2020).
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[...] no campo dos impostos indiretos, destaca-se que com a desoneração de ICMS em determinados produtos e serviços, seria possível o aumento do bem-estar social, especialmente para as classes menos privilegiadas, vez que desde o final do século passado cogita-se como relevante o fenômeno da feminização da pobreza, ou seja, as mulheres são as mais pobres entre os pobres, logo eis mais uma característica para serem vulnerabilizadas e discriminadas pelo próprio sistema (MAZZARDO; AQUINO, 2014, p. 9).
O Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação (ICMS) incide sobre diversos produtos, desde eletrônicos até uma bala. Trata-se de um tributo de responsabilidade dos estados, sendo aplicado tanto no comércio nacional quanto em bens importados. Além disso, o ICMS é considerado o principal tributo sobre consumo no Brasil (GASSEN, D’ARAÚJO, PAULINO, 2013).
Na prática, este imposto é cobrado de forma indireta, ou seja, seu valor é adicionado ao preço do produto comercializado ou do serviço prestado. Ao vender uma mercadoria ou realizar alguma operação em que se aplique o ICMS, é efetuado o fato gerador quando a titularidade deste bem ou serviço passa para o comprador. Ou seja, o tributo só é cobrado quando a mercadoria é vendida ou o serviço é prestado para o consumidor, que passa a ser o titular deste item ou do resultado da atividade realizada. (Contabilizei, 2020)
No Brasil, a elevada tributação indireta reflete sobre a população de baixa renda, devido à maior parte da arrecadação tributária vir dos impostos cobrados sobre o consumo.
Como o consumo é proporcionalmente decrescente em relação à renda, as famílias com rendas baixas destinam uma parcela maior de seus ganhos para a aquisição de bens e serviços, enquanto os mais ricos poupam relativamente mais. Assim, os tributos sobre o consumo ou transferidos para os preços de bens e serviços têm características regressivas, pois incidem proporcionalmente mais sobre a renda dos mais pobres do que dos mais ricos. (SALVADOR, YANNOULAS, 2013, p. 13) De acordo com o “Impostômetro”, os acessórios, produtos de higiene e as peças de vestuário recebem taxas relativamente altas de imposto, com destaque para os cosméticos, conforme a tabela 3. Essa tributação influencia na alta de impostos que as mulheres pagam devido aos padrões que a sociedade impõe.
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Tabela 3 - Tributos sobre os produtos (em %)
Produto %
Tributação Produto
% Tributação
Bijuteria 43,36% Boné 35,06%
Bolsa (geral) 39,95% Chapéu de palha 33,95%
Joias 50,44% Cinto de couro 40,62%
Lenço 35,74% Gravata 35,48%
Luva 40,85% Mochilas 39,62%
Bronzeador 49,08% Aparelho de barbear 40,78%
Condicionadores (banho) 37,37% Creme de barbear 57,05%
Cosméticos 55,27% Espuma para barbear 42,56%
Creme de beleza 57,02% Relógio 56,14%
Desodorantes 37,37% Blazer 34,67%
Escova de dente 34,00% Bota 36,17%
Maquiagem (produtos importados) 69,53% Óculos (lentes de vidro) 45,31% Maquiagem (produtos nacionais) 51,41% Óculos de sol 44,18%
Perfume (produtos importados) 78,99% Navalha 43,47%
Perfume (produtos nacionais) 69,13% Sabonete 31,13%
Absorvente higiênico 34,48% Bermuda 34,67%
Shampoo 44,20% Calça jeans 38,53%
Água de colônia (nacional) 50,38% Camisa 34,67%
Biquíni 33,44% Chinelo 31,09%
Calça (tecido) 34,67% Tênis importado 58,59%
Jaqueta 34,67% Tênis nacional 44,00%
Pijama 34,67% Terno (traje) 34,67%
Roupas 34,67% Sapatos 36,17%
Fonte: Impostômetro. Elaboração Própria.
Apesar das dificuldades metodológicas de se analisar a tributação indireta sobre sexo podemos concluir, a partir dos dados apresentados nesta e na segunda seção, que as mulheres estão mais vulneráveis à situação de pobreza, e por conseguinte a pagar maior carga tributária proporcional. Essa dinâmica ocorre em função da regressividade tributária, que onera mais os indivíduos e domicílios pobres (VIECELI, AVILA, CONCEIÇÃO, 2020).
Além da tributação sobre os cosméticos e outros produtos, na seção seguinte será apresentada a “pink tax”, que define os “produtos femininos” pagos mais caros do que os “produtos masculinos”.
Mas, primeiramente, é preciso diferenciar alguns aspectos:
a) As diferenças entre os preços dos produtos com a mesma função podem estar ligadas à discriminação de preços, ou seja, os produtos femininos e masculinos possuem a
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mesma alíquota, entretanto, o valor do imposto será superior em função do preço maior do bem.
b) Há produtos para homens e produtos para mulheres.
c) Há cestas de consumo diferentes a partir do gênero, o que vai indicar a alíquota média incidente sobre homens e mulheres, ou seja, enquanto um homem utiliza apenas calça, bermuda, blusa, boné, relógio e casaco, por exemplo, a mulher (com todos os padrões definidos pela sociedade), utiliza calça, shorts, vestido, saia, blusa, lenços, joias, relógio, maquiagens etc.
Apenas a “letra a” refere-se a “pink tax” e essa diferenciação é importante para tratarmos sobre o assunto.
5.1 “PINK TAX” E O CONSUMO FEMININO
O sistema tributário brasileiro chama atenção por seus tributos, porém, há a chamada “pink tax” (ou “taxa rosa”), em que mais uma vez traz desvantagens para as mulheres. A pink tax é uma expressão utilizada para referenciar-se aos produtos que são mais caros por serem destinados ao público feminino, mesmo que sejam produtos idênticos aos itens masculinos (KONRAD, 2020).
É indubitável a diferença nos perfis de consumo entre homens e mulheres, advindo de construções sociais imperceptíveis a olhos desatentos. Essas divergências, sem dúvida, se refletem na tributação dos produtos essencialmente femininos ou consumidos majoritariamente por mulheres, pois a carga tributária nessa qualidade de produto é discrepante e se justifica na técnica da seletividade, sem ao menos levar em conta as desigualdades estruturais entre os gêneros. Ressalta-se, de antemão, que, apesar de homens possuíram pequenas atividades intrínsecas ao gênero masculino, como a depilação de pelos faciais, as mulheres também têm uma atividade correlacionada, qual seja a depilação corpórea, muito custosa no orçamento feminino. Nesse sentido, às mulheres são impostos padrões de comportamento em maior quantidade. (NERIS, 2020, p. 748)
De acordo com uma pesquisa realizada pelo grupo de Tributação e Gênero, do Núcleo de Direito Tributário da FGV de São Paulo, itens considerados essenciais para as mulheres apresentam regras desvantajosas, como por exemplo os absorventes que, em média, recebem uma alíquota de 27,5% (18% ICMS, 1,65% PIS e 9,60% COFINS). No geral, a carga tributária sobre produtos direcionados apenas às mulheres é 40% maior do os masculinos (EDUCA+BRASIL, 2021).
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O chamado "pink tax” ou "imposto rosa" é expressivo especialmente em produtos de higiene pessoal: shampoo e condicionador são 48% mais caros; sabonetes são 6% e os desodorantes 3%. Essa diferença nos preços é perceptível desde as mercadorias destinadas para o público infantil. O valor de uma camisa, calça ou outras roupas para meninas chega a ser 13% mais caro. (EDUCA+BRASIL, 2021)
Ademais, os produtos femininos são ainda sobretaxados no Brasil, quando avaliados em comparação com os avanços realizados por outros países. Enquanto se tem uma tradição histórico-social de embelezamento feminino, que não só encoraja, mas pressupõe um gasto maior das mulheres com produtos cosméticos, tem-se, ao mesmo tempo, uma alta carga tributária para tais, com a justificativa da sua essencialidade. (NERIS, 2020, p. 744)
Vieceli, Avila e Conceição (2020) demonstram que, de acordo com dados da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) de 2017 a 2018, as mulheres precisam desembolsar maior percentual da renda mensal para as despesas, desde alimentação até o vestuário, em comparação aos homens, que despendem mais nas despesas de transportes, impostos, investimentos, etc., conforme a o gráfico 9.
Fonte: Vieceli, Avila e Conceição (2020) com dados brutos da Pesquisa de Orçamentos Familiares - POF. Elaboração Própria.
Gráfico 7 - Distribuição das despesas mensais das pessoas de referência por sexo, segundo tipo de despesa, Brasil (2017-2018) em %
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A desigualdades no perfil das despesas tendem a reforçar a disparidade de renda entre os sexos. Isso ocorre porque, comparativamente aos homens chefes, as mulheres despendem maior parcela da renda em bens de consumo, voltados para a manutenção da família e menor percentual em investimentos e aumento do ativo, por exemplo, na aquisição de imóveis. Mesmo nas despesas voltadas para a diminuição do passivo, as mulheres despendem maior parte da renda no pagamento de empréstimos, enquanto eles expedem mais do que elas na prestação de imóveis. (VIECELI, AVILA; CONCEIÇÃO, 2020, p. 56)
As autoras ainda afirmam que, para diminuir as desigualdades sociais, é necessária a alteração dos tributos. Para Vieceli, Avila e Conceição (2020, p. 56) “ainda que a incidência de tributação indireta e regressiva seja alta no Brasil, a desoneração de tributos sobre a cesta básica tende a penalizar menos os domicílios cuja chefia é feminina”.
De acordo com a tabela 4, apresentada por Vieceli, Avila e Conceição (2020), a carga tributária total por representantes nos domicílios demonstra que as mulheres pagam 25,6% de tributos e os homens 27,6%.
Tabela 4 - Carga Tributária por tipo de despesa dos representantes dos domicílios, por sexo, Brasil, 2017-2018 - (% da renda)
CATEGORIAS DE DESPESAS TOTAL MULHERES HOMENS
ALIMENTAÇÃO 2,48 2,57 2,43
HABITAÇÃO 3,30 3,58 3,13
VESTUÁRIO 1,08 1,14 1,05
TRANSPORTE 3,67 3,07 4,01
HIGIENE E CUIDADOS PESSOAIS 1,30 1,42 1,23
ASSISTÊNCIA A SAÚDE 1,10 1,19 1,05 EDUCAÇÃO 0,67 0,63 0,70 RECREAÇÃO E CULTURA 0,40 0,41 0,40 FUMO 0,17 0,19 0,16 SERVIÇOS PESSOAIS 0,19 0,21 0,18 DESPESAS DIVERSAS 0,42 0,41 0,43
OUTRAS DESPESAS CORRENTES 10,72 9,67 11,31
IMPOSTOS 4,67 3,95 5,08
CONTRIBUIÇÕES TRABALHISTAS 3,48 3,20 3,64
AUMENTO DO ATIVO 0,72 0,57 0,80
DIMINUIÇÃO DO PASSIVO 0,59 0,59 0,59
TOTAL 26,81 25,65 27,48
TOTAL SEM IMPOSTOS E SEM CONTRIBUIÇÕES TRABALHISTAS
18,66 18,50 18,76 Fonte: Vieceli, Avila e Conceição (2020) com dados brutos da Pesquisa de Orçamentos Familiares – POF e