UNIJUÍ - UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
DACEC - DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS ADMINISTRATIVAS, CONTÁBEIS, ECONÔMICAS E DA COMUNICAÇÃO
JUSSIANO REGIS PACHECO
ANÁLISE DA CADEIA DA RECICLAGEM
Ijuí/RS 2012
JUSSIANO REGIS PACHECO
ANÁLISE DA CADEIA DA RECICLAGEM
Monografia apresentada ao Curso de Economia, pertencente ao Departamento de Ciências Administrativas, Contábeis, Econômicas e da Comunicação (DACEC) da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ, como requisito parcial à obtenção do título de Economista.
ORIENTADOR: Dr. David Basso
Ijuí/RS 2012
RESUMO
Os estudos das Cadeias Produtivas proporcionam um entendimento mais completo do comportamento dos seus agentes econômicos e das tendências dos mercados. Este estudo tem a pretensão de contribuir com o entendimento sobre o ―contexto econômico da reciclagem‖, buscando conhecer a estrutura e a dinâmica de cada uma de suas etapas, desde o consumo das embalagens até a reutilização destes pela indústria. Para isso, utilizou-se como meio de pesquisa, entrevistas com os agentes interligados aos catadores do município de Ijuí, além dos próprios catadores. Também foram realizadas seleção de bibliografia e documentos afins à temática em meios físicos e na Internet. Os resultados apontam que, apesar de existirem avanços significativos para o volume reciclado, ainda persistem importantes desafios a serem superados no que diz respeito a organização da cadeia da reciclagem, às estratégias de inovação tecnológica e gerencial e, sobretudo, às interações dos atores.
LISTA DE TABELA E GRÁFICO
Tabela 1: Estimativa da participação dos programas de coleta seletiva formal .... 14
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 6
1. PADRÃO DE CONSUMO E PRODUÇÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS 10 2. CARACTERIZAÇÃO DA CADEIA DA RECICLAGEM ... 12
2.1. Coleta de resíduos sólidos ... 12
2.2. Triagem ... 15
2.3. Intermediação ... 16
2.4. Indústria da reciclagem ... 17
3. ANÁLISE DA CADEIA DA RECICLAGEM EM IJUÍ ... 20
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 27
INTRODUÇÃO
Na maioria das cidades brasileiras podem ser vistos contingentes de trabalhadores cuja condição histórica social, educacional, cultura, lhes proporcionam permanente exclusão do mercado de trabalho formal. Em busca da sobrevivência esses sobrantes vivem nas margens da economia legal, trabalhando com toda sorte de ‗bicos‘ que proporcionem a próxima refeição. Pode-se afirmar que no Brasil o alto nível de miséria é um dos fatores que estimularam o desenvolvimento da reciclagem, na concepção de Lemes (2009)
[...] boa parte do desenvolvimento da reciclagem no Brasil, que é considerado um dos países que mais recicla no mundo deve-se a uma combinação perversa de elevadas taxas de pobreza e miséria na sociedade, sobretudo nos grandes centros, onde se encontram também ilhas de riqueza que apresentam elevado padrão de consumo (LEMES, 2009, p. 138)
Essa grande quantidade de excluídos do mercado formal no sistema capitalista impulsionou o mercado da reciclagem, transformando o lixo em matéria prima para as indústrias. A renda gerada por esse processo de catação e venda de materiais recicláveis contribui de forma significativa na renda dos catadores.
Nesse mercado, o agente catador é visto como o elo mais fraco, enfrentando exploração, como afirma Lemes (2009)
Na prática, os benefícios da reciclagem são prioritariamente para as grandes indústrias. Em menor medida, no caso brasileiro, para o meio-ambiente e para as zonas urbanas. Os catadores são os que menos ganham com sua atividade (LEMES, 2009, p. 138)
Mesmo possuindo grande responsabilidade sobre a cadeia produtiva, o catador torna-se explorado, trabalhando por longas horas, puxando pesadas cargas de material coletado por longas distâncias e recebendo valores mínimos na venda deste produto. Medeiros e Macedo (2007) apresentam em seus estudos:
[...] o catador de material reciclável participa como elemento base de um processo produtivo bastante lucrativo, no entanto, paradoxalmente, trabalha em condições precárias, subumanas e não obtém ganho que lhe assegure uma sobrevivência digna (MEDEIROS; MACEDO, 2007, p. 81)
Além disso, inúmeros agentes, popularmente conhecidos como atravessadores, se colocam entre o catador e a indústria na cadeia produtiva, apropriando-se de significativa parte do valor gerado pelo material reciclável.
Para Viana (2000), a existência dos atravessadores pode ser explicada por dois fatores principais: primeiro, pela ―dificuldade de locomoção‖ dos catadores de lixo para entregar o material nas indústrias de reciclagem e, segundo, pelas vantagens que esse sistema oferece às indústrias. (MEDEIROS; MACEDO, 2007, p. 80)
No caso de Ijuí a situação apresenta um fator agravante para o trabalhador catador, devido à distância em que se encontra dos grandes centros. Sobre isso Lemes (2009)explica
Pode-se ver claramente que na base da reciclagem estão os catadores, mas que estes se relacionam com um conjunto diferenciado de atravessadores. Desde pequenos comerciantes que complementam suas atividades na reciclagem, passando por pequenos atravessadores descapitalizados, médios atravessadores com maior volume de capital e mercados diversificados até grandes atravessadores, existentes apenas em municípios como Ijuí ou maiores, com elevado nível de capitalização e negociando diretamente com indústrias.
Os principais centros de transformação final dos produtos coletados na região são nas fabricas de celulose e papel de Santa Catarina, as indústrias químicas e de embalagens da Serra Gaúcha e região metropolitana, no caso dos derivados do petróleo e os ferros e sucatas de metais na região metropolitana, sobretudo na indústria Gerdau. Em nível nacional, o sudeste, sobretudo São Paulo, é o grande centro de reaproveitamento de materiais reciclados do país, sendo para lá que vai grande parte dos materiais coletados em outras regiões (LEMES, 2009, p. 141)
Para sobreviver nesse processo e minimizar o grau de exploração, alguns catadores se unem formando associações ou cooperativas. Com uma quantidade maior de material estes possuem um poder de negociação maior com os atravessadores, e conseqüentemente preços pagos pelo material reciclável um pouco acima do valor de mercado local.
A falta de informações sobre o funcionamento da cadeia produtiva da reciclagem é um dos principais fatores que impedem ações que valorizem o trabalho do catador e agregação de valor.
Para Carmo (2005), os catadores desconhecem completamente os aspectos que envolvem a logística do processo de reciclagem, desconhecimento, muitas vezes, atribuído ao baixo nível de escolaridade. Carmo (2005) e Magera (2003) concordam que esse pouco conhecimento do circuito da reciclagem é um forte impedimento para que catadores obtenham ganhos melhores nessa atividade (MEDEIROS; MACEDO, 2007, p. 80)
Os estudos das Cadeias Produtivas proporcionam um entendimento mais completo do comportamento dos seus agentes econômicos e das tendências dos mercados, descrevendo os segmentos mais importantes e com maiores possibilidades de competitividade.
Este estudo tem a pretensão de contribuir com o entendimento sobre o ―contexto econômico da reciclagem‖ visto que a literatura existente sobre o tema não é muito vasta, sendo assim, a elaboração deste tipo de documento pode auxiliar na compreensão ou mesmo motivar novas pesquisas.
Estudou-se por meio de pesquisas com os agentes interligados aos catadores do município de Ijuí, além dos próprios catadores. Buscando conhecer a estrutura e a dinâmica de cada uma de suas etapas, desde o consumo das embalagens até a reutilização destes pela indústria.
A pesquisa tem caráter descritivo-exploratório. A coleta de dados ocorreu na forma de entrevistas semiestruturadas com os participantes. Estas foram feitas via perguntas abertas, pois permitem ao entrevistador ir criando novas questões de acordo com o que vai sendo respondido. O recurso de entrevistas, conforme Triviños (1987, p. 146), ―(...) ao mesmo tempo em que valoriza a presença do investigador, oferece todas as perspectivas possíveis para que a informação alcance a liberdade e a espontaneidade necessárias, enriquecendo a investigação‖.
Estas entrevistas foram realizadas junto aos atores envolvidos com a cadeia produtiva reversa. Foram realizadas entrevistas com catadores tanto ligados às associações como os que trabalham individualmente recolhendo materiais das ruas e também atravessadores que se localizam no município.
Além das entrevistas foram realizadas seleção de bibliografia e documentos afins à temática em meios físicos e na Internet, capazes e suficientes para que o pesquisador construa um referencial teórico coerente sobre o tema em estudo, responda o problema proposto e atinja os objetivos propostos na pesquisa.
Além desta introdução e das considerações finais o presente estudo está dividido em três partes. Na primeira é feita uma discussão sobre a evolução no padrão de consumo, identificando elementos geradores de modificações no comportamento dos ofertantes e demandantes que culminam com o aumento na produção de resíduos sólidos.
Na segunda parte faz-se uma caracterização da cadeia produtiva da reciclagem observando-se aspectos do funcionamento e de problemas existentes em cada uma das etapas da cadeia: coleta, triagem, intermediação e industrialização. Na terceira parte analisa-se aspectos estruturais da cadeia e o comportamento dos agentes que atuam em diferentes etapas da cadeia da reciclagem no município de Ijuí-RS.
1. PADRÃO DE CONSUMO E PRODUÇÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS
Os problemas relacionados ao lixo vêm se agravando desde a revolução industrial, mas assumem proporções significativas nas últimas décadas. O lixo jogado nas ruas, terrenos baldios e lixões a céu aberto está provocando desastres ambientais, poluindo o meio ambiente e proliferando doenças, resultado de um crescimento acelerado da produção bens atrelado ao continuo aumento populacional.
Segundo o IPEA (2012), o Brasil produzia, em 2008, diariamente cerca de 183 mil toneladas de resíduos sólidos. Isto significa que a produção de cada brasileiro no dia a dia é próxima a 1kg de lixo. A população mundial vem aumentando significativamente, e só nos últimos 50 anos, o numero de habitantes mais que dobrou. Este acelerado crescimento populacional aliado a um modelo econômico baseado no consumo teve como efeito direto a elevação na demanda de bens e conseqüentemente a produção de lixo em larga escala.
Segundo Figueiredo (1992, p. 124)
Os problemas associados aos resíduos decorrem de duas componentes principais: a crescente geração de resíduos e sua evolução ―qualitativa‖. A rapidez do processo de urbanização da população humana, principalmente nos países em desenvolvimento, no século atual, e a disseminação dos padrões de consumo e produção ocidentais, além do surgimento de produtos de longos ciclos de vida, concentraram e potencializaram o poder de degradação ambiental dos resíduos sólidos domiciliares e comerciais no meio em que são dispostos.
Nestas ultimas décadas, diversas transformações tecnológicas promoveram um consumo maior de produtos. Fogões, geladeiras, carros, aparelhos de som deixaram de serem itens de luxo, para tornarem-se consumo de populares. A produção de equipamentos em larga escala, reduziu o custo e o preço mais baixo incentivou a compra desses bens.
A obsolescência planejada é outro ponto relevante, os produtos passaram a ser melhorados em períodos cada vez menores, proporcionando que o consumidor troque constantemente seus produtos perfeitamente utilizáveis, por um mais ―moderno‖. A quantidade de materiais descartada periodicamente no lixo elevou-se muito. 99% do que é consumido vira lixo em menos de seis meses (TIDES FOUNDATION, 2005).
Além disso, ocorreram mudanças nas embalagens, como por exemplo, as caixas de ovo e os litros de leite. Materiais como alumínio, plástico ou papelão substituíram recipientes que até pouco tempo era reutilizáveis.
O plástico passou a ser utilizado amplamente nos produtos. Segundo Laignier (2001), devido à relação custo benefício favorável, os plásticos foram ganhando mercado e hoje são encontrados em diversos produtos, desde o copo descartável até dentro dos motores de automóveis. O acúmulo deste material de difícil decomposição, como borrachas e plásticos ficam no ambiente por muito tempo, tornando-se um grave problema ambiental.
Laignier (2001) afirma também
Esses fatores contribuem para tornar a vida nas cidades cada vez mais complexas. O crescimento da geração de resíduos, da diversidade dos materiais descartados e a dificuldade cada vez maior de coletar esses resíduos, tratá-los e fazer sua disposição final sanitariamente segura faz com que a gestão de resíduos sólidos urbanos tenha maior importância e espaço nas discussões técnicas da área de saneamento e meio ambiente. A reciclagem, a reutilização de materiais, a redução do descarte de resíduos e a contínua reavaliação da gestão são fundamentais para a otimização da limpeza urbana, a preservação do ambiente e a melhoria da qualidade de vida, bem como da saúde pública.
Assim, o lixo acompanhado de diversos outros fatores do cotidiano urbano colocam-se como um desafio a ser enfrentado nas ações que visam o desenvolvimento local sustentável.
2. CARACTERIZAÇÃO DA CADEIA DA RECICLAGEM
Cadeia produtiva é um conjunto de etapas consecutivas de produção, desde a manipulação da matéria prima até formação do produto final. No caso da reciclagem a cadeia começa como resultado da fase final de outras cadeias de produção, ou seja, a partir da aquisição de bens para a satisfação de necessidades dos consumidores. Por isso se diz que na reciclagem a cadeia é reversa, que começa com a coleta de materiais recicláveis, passa pelas fases de triagem e de intermediação até chegar à fase da industrialização. Este capítulo busca caracterizar cada uma dessas etapas.
2.1.
Coleta de resíduos sólidos
O aumento do consumo dos indivíduos, e a montante desses, é fator relevante na elevada produção de lixo na sociedade hoje. Principalmente a parcela de indivíduos que tinham acesso restrito a produtos como os industrializados. O aumento da renda ampliou o poder de compra da população. Assim sendo, a produção de lixo tende a aumentar não apenas pelo aumento da população, mas também pelo aumento do consumo, que consequentemente eleva a produção per capita de resíduos sólidos.
Essa situação impõe desafios, exigindo medidas em longo prazo que incentivem uma melhoria no produto consumido, produtos com ciclo de vida com menor impacto ambiental. E principalmente em curto prazo, com ações visando ampliação da coleta e a disposição desses materiais que atinja toda a população e não cause danos ao meio ambiente.
Neste ponto, desde 2000 percebe-se uma significativa melhora do quadro. No caso do serviço de coleta de resíduos sólidos, em 2009, 90% dos domicílios tinha acesso à coleta. Na área urbana essa taxa de cobertura alcançava 98%, no entanto na área rural, somente 33% das residências tinham esse serviço disponível (IPEA, 2012).
A disposição dos resíduos sólidos coletados também obteve melhoras, porém a situação ainda é bastante frágil. Há ainda 2.810 municípios brasileiros com lixões a céu aberto, representando 50,5% do total. Segundo a divulgação Comunicados IPEA - Plano Nacional de Resíduos Sólidos: diagnóstico dos resíduos urbanos, agrosilvopastoris e a questão dos catadores, das 183 mil toneladas/dia de resíduos sólidos 90% são destinadas
a aterros sanitários, aterros controlados e lixões. Deste total, a maior parte, 3/5, são alojados nos aterros sanitários. Mas ainda fica 40%, cerca de 74 mil toneladas/dia, em aterros controlados (que não impede que o resíduo contamine o meio ambiente) e lixões.
Grande parte dos resíduos sólidos, praticamente metade do total, é de materiais orgânicos. O destino adequado desse material seriam as usinas de compostagem, onde se transformariam em adubo para ser utilizado na agricultura. No entanto, por esses resíduos não serem coletados separadamente, não é possível transformá-los e acabam sendo enterrados junto com os demais materiais nos aterros. Apenas 1,6% do material orgânico são destinados para usinas de compostagem.
Além de todas essas formas de destinação do resíduo sólido, há uma que não utiliza o aterramento em seu processo. A reciclagem é considerada o processo mais viável de ser implementado, pois gera diversos benefícios no campo ambiental, econômico e social entre elas, diminuição da quantidade de lixo a ser desnecessariamente aterrado, preservação dos recursos naturais, economia proporcional de energia, diminuição da poluição ambiental e geração de empregos diretos e indiretos.
A reciclagem é o resultado de uma série de atividades através das quais materiais que se tornariam lixo, ou estão no lixo, são desviados, sendo coletados, separados e processados para serem utilizados como matéria – prima na manufatura de outros bens, feitos anteriormente apenas com matéria prima virgem.
A reciclagem, no entanto, não pode ser vista como a principal solução para o lixo. É uma atividade econômica que deve ser encarada como um elemento dentro de um conjunto de soluções ambientais. A separação de materiais do lixo aumenta a oferta de materiais recicláveis. Entretanto, se não houver demanda por parte da sociedade, o processo é interrompido e os materiais podem abarrotar os depósitos ou serem enterrados em outro lugar (GRIPPI, 2001, p. 52).
Mesmo com esse potencial econômico e ambiental que a reciclagem contribui, menos de 10% é destinado para este fim. A responsabilidade está em grande parte na coleta. Se o material reciclável não for separado, é bastante oneroso realizar a triagem deste material. A contaminação gerada pela mistura com outros materiais, como por exemplo, o orgânico, faz com que seja necessário um processo mais complexo de separação e descontaminação, o que torna o custo alto demais.
A coleta seletiva seria o processo ideal para a reciclagem. Esta consiste em um serviço que transporta separadamente o material orgânico dos outros. A responsabilidade é das prefeituras, que possuem veículos próprios ou terceirizam o serviço para empresas privadas. O material reciclável, buscado nas residências, pode ser
encaminhado para aos pontos de triagem, enquanto que o orgânico vai para as usinas de compostagem. No entanto, apenas 994 municípios desenvolvem algum projeto de coleta seletiva no país, menos de 20% dos municípios.
Apesar da reconhecida relevância da coleta seletiva, dados do IPEA (2012), apontam que não vem dela a principal parte do material reciclado, apenas uma pequena parte, como ilustra a figura abaixo.
Figura 1: Estimativa da participação dos programas de coleta seletiva formal (2008)
Fonte: Comunicados do IPEA – n°145, 2012.
Pelos dados apresentados, menos de 5% do material é proveniente da coleta seletiva. O restante chega às indústrias de diversos outros meios. O principal deles é pelos catadores, que coletam diretamente nos residências, nas empresas ou nos lixões. São os catadores os principais responsáveis por alimentar a cadeia da reciclagem no país.
Diante disso é possível observar que a coleta, elo inicial da cadeia da reciclagem possui deficiências. A coleta seletiva, programa necessário para o avanço da reciclagem, está crescendo, mas vagarosamente. Assim há uma coleta seletiva realizada em grande escala tendo como os principais agentes, os catadores. São esses trabalhadores que estão na base do vigoroso crescimento dos índices de reciclagem pós-consumo no país e garantem a consolidação do mercado de reciclagem.
Esta base, no entanto, não é sólida. Segundo o documento feito pelo Instituto Ethos, Vínculos de Negócios Sustentáveis em Resíduos Sólidos, o que incentiva esses agentes a alimentar a cadeia não está associado à educação ou a conscientização ambiental e sim pelos altos níveis de pobreza e desemprego. Foram a falta de oportunidades de emprego e a necessidade de sobrevivência que o colocou nesta atividade.
As condições não se encontram melhores atualmente, o trabalho oneroso, a baixa remuneração, além da instabilidade preços das sucatas são problemas que fazem com que o trabalhador se mantenha enquanto não houver outras oportunidades de trabalho.
2.2.
Triagem
Triagem é o processo em que ocorre a separação dos materiais recicláveis segundo suas características, além disso, remove os rejeitos não passiveis de comercialização. São dezenas de tipos diferentes de materiais aceitos pelo mercado, e quanto mais segmentado maior o valor agregado na venda
Os atores responsáveis por esse processo são os catadores, tanto os que se organizam em associações e cooperativas, como os que trabalham de forma individual. Acredita-se que há entre 400 a 600 mil catadores no país (IPEA, 2012). A grande parte trabalha individualmente em espaços como lixões e nos domicílios urbanos. O processo de trabalho consiste em coletar os materiais diretamente das lixeiras e realizar a separação destes.
Calderoni (1998, p. 112) fala sobre a atividade do catador assim:
A atividade de separar e catar lixo nas cidades apresenta-se como uma forma de ocupação antiga e conhecida: coletando resíduos diretamente da rua, em monturos, em pilhas de rejeitos ou em ―lixões‖ — nos locais onde estes ainda subsistem —, os catadores informais atuam em condições de trabalho extremamente insalubres, precárias e desagregadas. Carregando até 200kg de material em cada viagem, seu rendimento depende, em grande parte, do tipo e da quantidade de lixo urbano, variável conforme o tamanho de cada cidade e a época do ano. O material reciclável recolhido por eles, principalmente papel, papelão e alumínio, é repassado a sucateiros — intermediários no processo de coleta e reciclagem de materiais —, que exploram o trabalho dos catadores de rua, cuja remuneração pelo material coletado se mantém próxima ao nível de subsistência.
Como alternativa para os catadores obterem maiores benefícios com a sua participação na cadeia da reciclagem, utiliza-se como caminho a organização deles em associações ou cooperativas. Estima-se que aproximadamente 1.100 organizações coletivas de catadores estão em funcionamento em todo o país, contando com o trabalho de 40 a 60 mil pessoas.
Os empreendimentos autogestionários, na sua maioria, além de catar e separar realizam o processo de prensagem do material reciclável. Conseguem com isso vantagens econômicas maiores do que o trabalho individual, entre elas a agregação de
valor. Há também outros benefícios que o catador adquire trabalhando de forma cooperada, como:
Espaço e instrumentos de trabalho, galpão, prensa, esteira, mesas fixas de classificação;
Encaminham materiais para setores mais altos da cadeia produtiva;
Melhores preços;
Prática de venda conjunta; Maior escala de comercialização
Muitas oportunidades de financiamento público; Renda mais elevada;
Potencial para estabelecimento de parcerias com empresas privadas.
É importante salientar que os catadores mesmo trabalhando em conjunto, continuam sendo o elo mais fraco da cadeia produtiva da reciclagem. Segundo Gonçalves
Os integrantes da cadeia de reciclagem que menos se beneficiam com esta atividade são os catadores. Isso ocorre porque as indústrias que compram materiais recicláveis são poucas, formando um mercado oligopsônio, ou seja, com poucos compradores que puxam o preço dos recicláveis para baixo. Além disso, as indústrias só compram materiais em grandes quantidades e com boa qualidade (GONÇALVEZ, 2003, p.73).
2.3.
Intermediação
Os intermediários, também conhecidos como sucateiros, aparistas e/ou atravessadores, são agentes que se apresentam na cadeia produtiva da reciclagem fazendo a ligação entre os catadores e a indústria. Este adquire a produção do catador e realiza o beneficiamento, deixando nas condições exigidas pela indústria para ser negociado.
O sucateiro se constitui, pois tem o capital necessário para trabalhar o lixo (tipo balanças, prensas, trituradores, caminhões, galpão, telefone, capital). Este compra de catadores e cooperativas pequenas quantidades de materiais reciclados. Com esses
materiais realiza o beneficiamento adequado (agregando mais valor aos mesmos) e assim consegue transportar e vender em grandes volumes as indústrias.
É no espaço, em que o catador não consegue atuar por não ter recursos para investir e também por a indústria não considerar viável, que o intermediário nasce. Assim os principais aspectos que estabelecem o atravessador na cadeia, são referentes ao armazenamento e manipulação de grandes volumes de material reciclável. Além de possuir capital de giro suficiente para tirar proveito das flutuações de mercado.
Há diversos níveis de intermediários ao longo da cadeia, que se diferenciam pelo sua quantidade de capital. Estes agentes negociam uns com os outros até chegar à indústria. Segundo Lemes (2009, p. 141)
Pode-se ver claramente que na base da reciclagem estão os catadores, mas que estes se relacionam com um conjunto diferenciado de atravessadores. Desde pequenos comerciantes que complementam suas atividades na reciclagem, passando por pequenos atravessadores descapitalizados, médios atravessadores com maior volume de capital e mercados diversificados até grandes atravessadores, existentes apenas em municípios como Ijuí ou maiores, com elevado nível de capitalização e negociando diretamente com indústrias.
A quantidade de intermediários que se encontram entre a coleta e a transformação influência no preço pago ao catador pelo material comercializado. Quanto mais agentes, menor o preço de comercialização. O preço também diminui, quanto maior for a distância dos atravessadores em relação aos grandes centros.
2.4.
Indústria da reciclagem
A indústria de reciclagem, também conhecida como recicladora, é o elo final da cadeia produtiva reversa. É ela que transforma o material reciclável em matéria prima para as demais indústrias. Como, por exemplo, as embalagens de plástico que foram jogadas no lixo, voltam a serem transformadas em pellet’s, pequenos grãos plásticos, base para a produção de novas embalagens. Assim, a indústria da reciclagem é responsável por recolocar o produto no mercado.
Para a transformação do material reciclável em matéria prima é necessário pesada infraestrutura, que envolve diversas máquinas e grandes galpões para suportar. Devido a isso, a estrutura de mercado é oligopolizada, poucas indústrias dominam toda
a produção. Além disso, estas se concentram na sua maioria nos grandes centros, como na região metropolitana de São Paulo (LEMES, 2009).
Outro aspecto é a especialização produtiva, devido às características físicas e químicas dos produtos, cada ramo das indústrias tem sua produção concentrada na transformação de poucos tipos de materiais. Cada tipo tem um processo de transformação diferenciado, uns com maior capital tecnológico empregado na produção que outros.
É importante salientar que as informações encontradas sobre indústria da reciclagem são escassas. Os poucos textos estudados apresentam o assunto de forma desagregada, falando sobre empresas de regiões específicas ou especializadas em determinado tipo de material. O que impede uma análise consistente do setor.
Em alguns casos a capacidade da indústria de reciclagem é alta em relação à quantidade de materiais disponíveis. No caso das indústrias de reciclagem do PET, por exemplo, operam com cerca de 20% de capacidade ociosa em função da falta de matéria prima no mercado (OLIVEIRA, 2008).
Este segmento se encontra em franca expansão, até com negócios para fora do país, no entanto, há dificuldades de recicladoras se comprometerem já que não há perspectivas claras de aumento na oferta de garrafas PET.
Em entrevista com um atravessador local, que vende diretamente para a indústria, ele alega que o PET se encontra num momento muito favorável, este é o principal produto, no qual se obtém melhor faturamento. No entanto, não se observa o mesmo comportamento com outros materiais, tipo o Papel Branco e Papelão. As indústrias não estão interessadas, o preço está baixando e algumas vezes está sendo mais viável deixar estocado material do que vendê-lo. Para o atravessador o crescimento da demanda se encontra abaixo do que ocorre com a oferta.
Para o PET há uma ampla gama de produtos desenvolvidos com este tipo de plástico, desde balde, vassouras, tecidos. É um material com potencial enorme de produção, o que explica sua expansão.
Já com os demais tipos de materiais, não há um comportamento semelhante. O baixo crescimento da demanda em relação à oferta, motivado pela escassez de novos mercados, baixa o preço do produto.
A falta de mercado para produtos reciclados é um sério entrave para o desenvolvimento da reciclagem. Com o material não tendo saída, toda a cadeia fica comprometida. Os empreendimentos, sem obterem benefícios econômicos acabam por
não reciclarem esses produtos. Os materiais ficam dispostos no meio ambiente e os benefícios ambientais não acontecem.
3. ANÁLISE DA CADEIA DA RECICLAGEM EM IJUÍ
O município de Ijuí se encontra um passo a frente em relação à maioria dos municípios brasileiros nas questões ambientais, pois já possui a coleta seletiva implantada desde o ano de 2007. Produz em torno de 46.780 kg por dia de resíduos sólidos, para uma população de 78.920 habitantes, o que dá algo em torno de 0,653 kgRSU/habitante ao dia (PLAMSAB Ijuí, 2012).
A coleta seletiva conta com o apoio de uma empresa terceirizada que faz a coleta pelos bairros da cidade e também na zona rural. A coleta tem um alcance de 26.560 residências atendidas, Isto representa 97% das residências da zona urbana do município. As cargas de materiais reciclados são encaminhadas para as duas associações de catadores existentes, a ACATA (Associação de Catadores de Materiais Recicláveis de Ijuí e ARL6 (Associação de Recicladores da Linha 6) . Já o material orgânico e o rejeito recolhido pelos caminhões são transportados para o aterro municipal.
No entanto, o descaso da população prejudica o serviço prestado. Segundo documento da PLANSAB (2012) de cada carga de caminhão encaminhada ao aterro, apenas 60% é composto de matéria orgânica e rejeito. O restante são materiais recicláveis que vêm misturados erroneamente. Tanto a matéria orgânica quanto o plástico, papel e alumínio ainda poderiam ser aproveitados se estivessem em estado possível para tal. Devido a isso a matéria orgânica fica comprometida pela presença de diversos materiais, assim como o material reciclável perde seu valor agregado por estar totalmente contaminado e sujo com matéria orgânica.
Na figura abaixo se apresenta a composição relativa dos diferentes tipos de materiais em uma carga de coleta seletiva destinada ao aterro municipal, que a priori deveria ser composta por rejeitos e orgânicos.
Figura 2: Composição de carga de coleta seletiva destina ao aterro municipal
Fonte: PLAMSAB Ijuí – Diagnóstico do Saneamento Básico
O mesmo problema acontece com as cargas de materiais recicláveis, destinadas às Associações. Esta situação compromete o trabalho dos catadores associados além de prejudicar a remuneração dos mesmos. Já que o material contaminado não pode ser vendido.
Mesmo com o serviço de coleta seletiva funcionando em Ijuí, há grande presença de catadores individuais no município. Segundo a prefeitura de Ijuí, há aproximadamente 170 famílias, com elevada vulnerabilidade social, que vivem da coleta e comercialização de resíduos recicláveis. Estes estão divididos em catador de rua e catador do lixão.
Os catadores tem presença significativa na coleta de materiais do município. São eles os principais fornecedores de materiais para os atravessadores locais. Alimentam em torno de uma dezena de empresas intermediarias.
Estes trabalhadores trabalham mais que 12 horas por dia recolhendo e transportando o material coletado. Para sobreviver diante da concorrência e obter uma renda melhor, o trabalho começa cedo, para fazer a coleta antes dos concorrentes e dos caminhões da coleta seletiva. Além disso, o catador tem acordos com empresas comerciais e residências para disponibilizar o material reciclável que lhe interessa somente a ele. Há também ruas dominadas por alguns catadores, não sendo permitido que outros coletem.
O catador na atividade da coleta seleciona o material nas lixeiras observando critérios como limpeza do material, valor de venda e volume. Os principais materiais recolhidos são PET, Latinhas e Papelão. É importante salientar que alguns anos atrás mais tipos de materiais eram coletados, mas com a redução de valor não estão sendo mais rentáveis recolher, tipo o jornal, caixas de leite (tetrapak), entre outros.
O armazenamento é feito geralmente em seu próprio domicilio. É no fundo do seu terreno em que são dispostos os objetos recolhidos, separados por tipo. O tempo de armazenamento é diferenciado para cada trabalhador, podendo ser vendido em semanas ou até meses. O período varia muito mais pela necessidade de obter a renda do que pela quantidade acumulada.
Para alguns catadores o deposito serve também como uma forma de obter um melhor preço no futuro. Como os preços variam constantemente, o produto é mantido até obter um preço adequado. Isso geralmente acontece para os que têm na catação uma atividade complementar. Não podendo fazer o mesmo para os que têm na coleta sua atividade principal.
Na comercialização o atravessador se desloca com seu veículo até a residência do catador, onde é feita a pesagem e o pagamento. Um ponto a se destacar é a relação entre o atravessador e o catador. Há trabalhadores que comercializam somente com o mesmo intermediário, enquanto que outros realizam pesquisa de mercado antes de negociar.
A exploração do catador pelo atravessador decorre de muitas formas. Utilizam da falta de conhecimento de mercado para pagar valores abaixo do comum, negociam individualmente com cada catador, exigem que todo o material coletado seja vendido somente para ele, alugam carrinhos de coleta com a condição de venda exclusiva e compram os diversos tipos de materiais reciclados misturado pagando um preço médio abaixo do que o catador poderia obter se o negociasse separadamente.
Devido a isso, a remuneração do catador é pequena, muito abaixo de um salário mínimo. Políticas públicas como Bolsa família e distribuição de cestas básicas contribuem para sobrevivência destas famílias.
Como apresentado anteriormente, o município de Ijuí realiza a coleta seletiva e encaminha as cargas de materiais recicláveis para as associações de reciclagem ACATA e ARL6. Estes empreendimentos nasceram através da organização de um grupo de catadores, que com o tempo se constituíram como elos importantes na cadeia local.
A Associação de Catadores de Materiais Recicláveis de Ijuí – ACATA, nasceu em 2005, congregando um grupo de 22 catadores que atuava nas ruas de Ijuí. A formação deste grupo e seu desenvolvimento tiveram o apoio da UNIJUÍ, por meio da Incubadora de Economia Solidária, Desenvolvimento e Tecnologia Social – ITECSOL.
No início, todos realizavam a coleta na rua com carrinhos emprestados por um atravessador local. Como não possuíam galpão depositavam nas residências de alguns associados. Realizavam a comercialização coletivamente. Com o passar dos anos, a associação foi desenvolvendo sua infraestrutura e adquirindo maquinas e equipamentos por meio de recursos, obtidos via projetos sociais. Conseguiram terreno, dois galpões de alvenaria, uma prensa enfardadeira, uma fragmentadora de papeis, entre outros.
A implantação da coleta seletiva elevou a quantidade de material no galpão e possibilitou que os sócios realizassem somente as atividades de triagem e prensagem. O trabalho coletivo, além da obtenção de cargas de coleta seletiva e a conquista de maquinas e equipamentos fizeram com que a remuneração desses trabalhadores aumentassem consideravelmente. No entanto, está longe de ser adequado pelo serviço que prestam.
Segundo Lemes (2009), a Associação de Recicladores da Linha 6 – ARL6 foi criada devido à implantação da coleta seletiva e o fechamento do lixão determinado pela promotoria. Devido a estes fatores, os trabalhadores da reciclagem que atuavam no lixão, juntamente com um comprador estabelecido no local, se organizaram, em forma de associação. Como já existia, informalmente, uma organização, articulada em torno do comprador estabelecido no local e de seus familiares, estes e mais alguns catadores constituíram a associação.
O grupo possui experiência no mercado, um forte nível de capitalização (o grupo possui duas prensas) e um grande volume para processamento (cerca de 40 toneladas por mês). Tudo isso contribui para que este grupo possua renda significativa. Além disso, a ARL6 não depende da coleta seletiva para o trabalho da associação, este representa uma pequena parte do negócio. A maior parte do volume processado vem diretamente do lixão, comprado junto aos catadores que lá atuam. O grupo também compra de catadores na cidade, eventualmente.
As associações de Ijuí conseguiram avançar no aspecto da comercialização. Diferentemente dos catadores individuais que vendem para atravessadores locais. ACATA e ARL6 negociam com intermediários maiores, localizados próximos as
cidades pólos de reciclagem. Esse avanço possibilitou um preço maior pelos materiais e conseqüentemente maior remuneração aos associados.
Mesmo assim, o faturamento obtido não possibilita realizar investimentos nas associações. A receita gerada é destinada totalmente para as despesas de manutenção e para a remuneração dos associados.
Esta carência em investimentos impede que os empreendimentos ampliem suas atividades, realizando outras etapas do beneficiamento dos materiais ou até para melhorar o serviço que prestam. A possibilidade de agregar mais valor fica comprometida. Hoje as principais maneiras utilizadas para conseguir máquinas, equipamentos ou melhorar a infraestrutura são via elaboração de projetos ou com empréstimo de atravessadores. As duas opções tem limitações. As empresas ou entidades governamentais que destinam recursos para a reciclagem, geralmente determinam linhas específicas para utilização dos recursos, e também limitam o tamanho dos projetos, aprovando apenas os de valor baixo em relação as necessidades da associação. No caso dos empréstimos de intermediários, que normalmente é utilizado para aquisição de máquinas e equipamentos, exigem exclusividade das associações na venda do material reciclável.
Os catadores associados também reclamam dos problemas enfrentados devido a coleta seletiva. Um deles é o descaso da população ao separar o material, já dito anteriormente. Há uma grande quantidade de material orgânico e de rejeitos que são encaminhados junto com os resíduos recicláveis. Segundo os catadores essa mistura prejudica o seu trabalho. O material reciclado fica contaminado impedindo que seja utilizado no processo de reciclagem. Há também um forte odor causado pelo apodrecimento dos materiais orgânicos deixando o ambiente inóspito para se trabalhar, além de provocar reclamações da vizinhança. São encaminhados diariamente restos de comida, material hospitalar e até animais mortos junto com produto que poderiam ser revendidos.
Outro problema enfrentado se refere à necessidade de trabalhar com matérias com baixo valor de mercado. Alguns tipos de embalagens tem valor de venda muito abaixo do custo de beneficiamento realizado sobre ele. Mesmo que este chegue à associação sem custo algum, até que ocorra a comercialização há um processo que envolve gastos, como mão de obra, água, luz, entre outros. O custo do trabalho envolvido sobre esse material é maior que a receita obtida com sua venda.
Mesmo o catador sendo considerado um agente ambiental, devido o trabalho que executa para o meio ambiente, este participa da cadeia muito mais pelas necessidades econômicas do que pela consciência ambiental. Assim sendo, os materiais com custo de produção alto, acabam por ser retirados do processo de reciclagem. Não tendo um destino ambientalmente correto.
Além das associações de reciclagem, há também no município as empresas intermediárias. No município de Ijuí há em torno de uma dezena de empresas que realizam a intermediação entre o material coletado na região e sua entrega às indústrias. Por meio de entrevista com um intermediário, locado no município, foi possível perceber elementos que constituem a atuação destes agentes nesta etapa da cadeia.
A maior parte do material comprado é de catadores do próprio município, apenas uma pequena parcela busca em municípios ao redor. Além de buscar o material e entregá-los as indústrias, é realizada a atividade de triagem e prensagem. Para realizar essas atividades, estes necessitam minimamente de caminhão, balança, prensa e um depósito grande para estocar os materiais.
Necessitam de significativa quantia de capital de giro. Isto, pois, na relação com o catador o pagamento é feito na hora, já a indústria paga em torno de 30 dias depois da entrega. O capital de giro também auxilia nos período de baixa de preços, permitindo que o atravessador possa manter em estoque e aguardar para vender em períodos melhores.
Comercializa para diversas empresas, a maior parte indústrias, que estão próximos de regiões metropolitanas. Com maior escala de produção, o intermediário consegue realizar negócios com maior número de empresas. Uma vantagem em relação às associações locais.
Segundo o entrevistado, para sobreviver na atividade é preciso ter escala de produção. Outro fator importante é conseguir grande quantidade de materiais considerados valiosos, com alto preço de venda. Atualmente o PET é considerado o material mais rentável, este tem grande procura no mercado. No entanto, não se encontra facilmente durante todo o ano, o melhor período é durante o verão. Para manter um fluxo constante de dinheiro em caixa, usa como estratégia fazer grandes investimentos de compra de PET no período de auge e ir vendendo aos poucos durante o ano.
Há alguns tipos de materiais que estão sendo inviáveis de comercializá-los, pois preços baixaram consideravelmente. O papel e o papelão são alguns exemplos. Para o
atravessador entrevistado está ocorrendo um crescimento significativo na oferta desses materiais, incentivado pela entrada de novos atravessadores. E no lado da demanda não está ocorrendo um movimento semelhante.
O empresário também acusa as indústrias de estarem organizando um cartel. Segundo ele, entre as empresas da região sul, nota-se pouca diferença nos preços dos produtos.
Outros empecilhos na atividade de intermediação são o custo do frete, o valor dos impostos (ICMS) e preços baixo do material. O imposto cobrado pelo transporte para as empresas beneficiadoras tem alíquota muito alta. O intermediário condena a atitude do governo, considerando que o poder público deveria incentivar o desenvolvimento da reciclagem ao invés de prejudicá-la.
Por fim, afirma que a cadeia produtiva da reciclagem não vive seu melhor momento. Para ele, a época auge da reciclagem foi nos anos de 2002 a 2008, em que havia pouca concorrência, muito material disponível para compra e bons preços na comercialização. Mesmo assim, o atravessador pretende fazer investimentos futuros, como balança para pesar caminhão, caminhão maior e empilhadeira para melhorar a logística dentro do galpão.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo deste trabalho foi possível ampliar o conhecimento sobre a cadeia produtiva da reciclagem. Conhecendo a estrutura, as relações entre os agentes e os problemas enfrentados por cada uma das partes.
Foi possível ver que a atividade produtiva da reciclagem no Brasil vem tendo bons resultados. Os índices de beneficiamento de materiais são altos, os negócios prosperam havendo o interesse até de empresas internacionais em adquirir os produtos feitos pela cadeia. Além disso, a cadeia produtiva gera trabalho e renda para milhares de pessoas.
No entanto, percebe-se que há diversos problemas dentro dessa atividade. Um deles refere-se aos serviços de coleta e disposição do lixo que estão sendo ineficientes. Há ainda uma parcela significativa dos domicílios que não tem acesso a serviços de coleta de resíduos. O lixo produzido acaba sendo disposto em locais inadequados. Assim como, nos municípios que não possuem serviços de coleta seletiva. Uma grande parcela dos municípios descarregam, em lixões e aterros controlados, materiais que poderiam ser reaproveitados. E mesmo nos municípios que possuem serviços de coleta seletiva, há materiais com potencial de reciclagem que são descarregados em aterros onde deveriam ser apenas materiais orgânicos e rejeitos. Causado em grande parte pelo descaso da população na hora de fazer a separação do material consumido em seu domicilio.
Outro ponto de destaque é sobre a sustentação da cadeia da reciclagem que se dá pela pobreza dos catadores. Estes agentes, principais responsáveis por alimentar as indústrias com o material reciclável, suportam o trabalho pesado além de uma remuneração baixa devido a falta de oportunidades melhores para trabalhar. A continuação desta cadeia depende que esses catadores se mantenham na condição de vulnerabilidade social. Uma das alternativas para alterar esse quadro é a inclusão destes catadores em associações ou cooperativas. Isso possibilitaria uma atividade melhor organizada assim como condições de trabalho e renda mais adequadas.
Há também os segmentos de materiais que estão em baixa no mercado. Alguns tipos, como o papel e o papelão, tem seus preços pagos pela indústria em queda. Muito disso devido à oferta estar crescendo mais rapidamente que a demanda. Da forma que a
cadeia da reciclagem está estruturada, os preços baixos tendem a deixar os materiais menos atrativos pelos elos que antecedem a indústria. O que acabará por serem abandonados dentro do processo. Deste jeito a cadeia perde sua efetividade.
Diante disso é possível afirmar que a cadeia da reciclagem, na forma que se encontra, não consegue garantir que os resíduos produzidos pela população tenham um significativo índice de aproveitamento.
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