UNIJUÍ - UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO CURSO DE PEDAGOGIA
SUSANA PORTELA DE OLIVEIRA
BRINCAR É COISA SÉRIA
IJUÍ, RS 2017
SUSANA PORTELA DE OLIVEIRA
BRINCAR É COISA SÉRIA
Trabalho de conclusão de Curso apresentado a Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUI - Departamento de Humanidades e Educação no curso de Pedagogia como requisito parcial a obtenção do grau de Licencianda em Pedagogia.
Orientadora: Prof.ªIselda Terezinha Sausen Feil
Ijui, RS 2017
RESUMO
Este estudo apresenta resultados da pesquisa realizada sobre a importância do brincar na infância, bem como apresentar um levantamento de práticas que possam ser desenvolvidas através da brincadeira sendo fundamental para o desenvolvimento infantil. A partir da revisão bibliográfica foi possível fazer uma análise da experiência da autora no que se refere o brincar na infância. Expondo reflexões acerca de experiências que foram vivenciadas através de observações participadas de situações registradas com fotografias de crianças brincando, usou-se como material de apoio bibliografias que tratam o tema, e os resultados apontam que o brincar além de proporcionar a diversão, leva as crianças a criar e recriar o seu mundo de imaginação, procurar soluções, a viver coletivamente e criar suas próprias regras.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO 04
1 RECORDANDO A MINHA INFÂNCIA PARA SIGNIFICAR O BRINCAR 06
2 BRINCAR É COISA SÉRIA: SER CUIDADA, BRINCAR E APRENDER:
DIREITO DE TODAS AS CRIANÇAS 10
3 ATENÇÃO! CRIANÇAS BRINCANDO! 23
CONCLUSÕES: Brincar continua sendo uma coisa séria (?) 35
REFERÊNCIAS 38
INTRODUÇÃO
A presente pesquisa objetiva evidenciar de forma argumentativa a importância do brincar na vida da criança, seja no seu desenvolvimento, suas aprendizagens e, principalmente no seu modo de ser e estar no mundo, vivendo de forma mais intensa e, verdadeira, a sua infância entendida, neste contexto, como condição de criança. Para tal optei pela análise de cenas de observações participadas,fotografias e leituras bibliográficas. O processo permitiu além de consolidar e fortalecer concepções já construídas ao longo do processo de formação - seja em estudos na universidade ou estágios nas escolas, construir novos significados e sentidos os quais me autorizam, hoje, argumentar de modo mais seguro o quanto a organização da prática educativa voltada para as crianças precisa considerar o brincar como um eixo imprescindível.
O brincar é, fundamentalmente, um meio para a criança construir determinadas competências como, por exemplo, a socialização. Ela é capaz de lidar com complexas dificuldades psicológicas através do brincar, pois, elas, segundo Bettelheim (1988, p.67), procuram integrar experiências de dor, medo e perda, lutam com conceitos de bom e mal. E, com base em tal argumentação, é possível afirmar que o brincar é umaestratégia pedagógica que os educadores podem/devem utilizar para enriquecer o processo de ensino aprendizagem, tornando mais prazeroso e significativo para a criança.
O primeiro capítulo caracteriza-se pela reflexão sobre o brincar tendo como referência a minha própria história. ‘’Recordando a minha infância para significar o brincar’’, é o título do capítulo e nele apresento um breve histórico sobre minha infância, resgatando algumas brincadeiras e brinquedos que evidenciaram a importância do brincar nesta etapa da minha vida.
O segundo capítulo adentra o contexto bibliográfico, evidenciando as práticas do brincar na educação infantil e suas contribuições para o desenvolvimento e a aprendizagem da criança no qual escrevo: ‘’Brincar é coisa séria...Ser cuidada, brincar e aprender: direitos de todas as crianças’’, trago elementos teóricos com as principais contribuições de cada autor em relação ao brincar e temas recorrentes.
No terceiro capítulo apresento as práticas para a utilização do brincar na infância, abordando as principais brincadeiras que podem ser desenvolvidas neste
espaço. Para ilustrar e comprovar, ou não, os “depoimentos/testemunhos fornecidos pelos diferentes autores e pesquisadores da infância e mais especificamente do brincar na infância, socializo a pesquisa de campo realizada junto a uma turma de crianças da Educação Infantil, na qual constatei através de observações que a brincadeira, efetivamente, é atividade imprescindívelna infância (e não apenas nela). É isso que escrevo no terceiro capítulo, denominado: „’Atenção crianças brincando’’, no qual me certifico que o brincar é primordial para uma aprendizagem significativa de qualidade. Finalmente faço considerações gerais e reforço a tema da pesquisa que brincar é coisa séria!
1 RECORDANDO A MINHA INFÂNCIA PARA SIGNIFICAR O BRINCAR
Por que à medida que avançam os segmentos escolares se reduzem os espaços e tempos do brincar e as crianças vão deixando de ser crianças para serem alunos? Borba, 2006.
Escrever sobre minha história, inicialmente, parecia ser tarefa fácil, mas quando comecei a escrever percebi que não é bem assim, pois nós, adultos, geralmente esquecemos a criança que fomos. O que faz o adulto esquecer que um dia foi criança? Onde ficou a infância do adulto? O que fez o adulto não viver mais as múltiplas linguagens com que foram presenteados na infância? O tempo passa e acabamos anestesiados e não nos damos conta da importância desta recordação, pois só assim teríamos condições de entender com maior clareza qual foi à importância do brincar, por exemplo, na constituição do adulto que somos hoje e qual a infância que existe em nós. Percebendo isso, após ler vários autores que tratam do brincar, admito que escrever sobre minha infância não é tarefa tão fácil, mais necessária para nós pedagogas que queremos contribuir na constituição de crianças, sujeitos de direitos.
Comparo a minha vida como um livro que vai sendo escrito, estando sempre por escrever. Assim, a cada dia, escrevo uma página e são algumas destas páginas que desejo compartilhar, relembrando aspectos da minha infância que possam ilustrar um pouco da trajetória da minha vida, pelo viés do brincar.Assim com escreve Snyders (1993, p. 34):
A infância não é uma coisa que morre em nós e seca assim que cumpre seu ciclo. Não é uma lembrança. É o mais vivo dos tesouros e continua a nos enriquecer sem que o saibamos. A infância deita raízes e ramos até em nossas mais entrincheiradas construções de pedra e aí se dá uma invasão deliciosa.
Nesta mesma direção, Andrade e Marques (2003, p.44) afirmam que as pessoas guardam a infância e o seu brincar em “uma caixinha, às vezes tão bem guardada, que desembrulhá-la pode ser uma boa empreitada”.
Concordando com estas afirmações, destaco algumas lembranças de brincadeiras e dos brinquedos que constituíram minha infância e que considero importantes. Ah, quem dera poder voltar a ser criança! Quem não gostaria não é
mesmo? A infância para mim é lembrada com alegrias, emoções e muitas saudades, o que é bom. Triste seria não encontrar razões para lembrar com emoção o que este tempo representou.
Lembro-me que sempre fui uma criança muito calma e que adorava brincar, preferencialmente com minha irmã gêmea (Simone) que sempre esteve comigo e sempre foi minha companheira em tudo. Nós sempre fomos muito parecidas até mesmo nas vontades, sempre tivemos um amor imenso por bonecas, então em primeiro momento de vida que me lembro, foi que brincávamos dentro de casa, sempre nós duas juntas e com nossas bonecas, fazendo casinhas em baixo da mesa, fazendo comidinha e cuidando das nossas filhas (às bonecas). Até então minhas brincadeiras eram tipicamente “de meninas” e os brinquedos, limitados por bonecas e aconteciam em espaços internos.
Com seis anos de idade fomos morar no interior, onde começava uma infância com novas descobertas e maneiras diferentes de brincar, construir, destruir, inventar e se aventurar, continuar vivendo na imaginação de uma maneira diferente, pois ali descobri um mundo novo, descobri que no interior os pais tinham mais segurança de deixar seus filhos brincar livremente, sem medo de acontecer alguma coisa de ruim, então podíamos brincar aos arredores de casa, brincávamos em baixo de árvores, brincávamos de fazendinha com cavalos de pedaços de pau, brincávamos com barro, subíamos em árvores, brincávamos nos monte de areia e deslizávamos nos barrancos em pedaços de papelão. Foi um mundo de novas descobertas, pois, lembro que ali comecei a interagir mais com outras crianças e fazer novas amizades, saindo da zona de conforto de brincar somente dentro de casa e somente com minha irmã, ali tínhamos vários vizinhos e brincávamos o dia todo, só parávamos nas horas que as mães chamavam. Aí, já vai uma reflexão importante: Estas duas experiências evidenciam que o espaço cultural entre duas realidades são também diferentes e oportunizam experiências diferentes e, que, no caso de pensarmos nas práticas pedagógicas e nos curriculares estas diferenças, necessariamente precisam ser consideradas.
No ano de 1995, ingressei na escola que também ficava no interior, no mesmo local em que morávamos. Não me recordo do nome da escola, lembro-me perfeitamente da minha professora a “tia” Suzana. No início, pela novidade, fiquei tomada por medos e entre eles, o medo de não poder mais brincar. Nós, que estávamos acostumados a brincar em qualquer hora e qualquer lugar e, agora
teríamos que, segundo nossos pais, largar das brincadeiras para estudar. Aliás, agora recordando disso, vejo que esta cultura se repete. Sãocomuns os pais, falarem para seus filhos, ao ingressarem no Ensino Fundamental, dizerem: acabou a brincadeira. Agora é estudar! Esta afirmação certamente está reforçando o lugar “inferior” que a brincadeira ocupa na formação das pessoas. No entanto, este medo, dissipou-se quando conhecemos a professora a qual nos mostrou que poderíamos estudar e brincar, estudar brincando, e brincar estudando o que proporcionou o gosto de ir para a escola e realizar o que ali era proposto. Refletindo sobre este tempo e esta experiência e, trazendo isso para o presente, posso afirmar que aprendi com esta professora – e quero trazer para profissão, de que brincar não é perder tempo, mas é ganhá-lo, que brincar não é oposto de estudar, que ambos podem acontecer de forma organizada e interdisciplinar, que o estudar/aprender para a criança pode ser tão lúdico quanto brincar e que ao brincar, a criança está construindo e ampliando suas representações de mundo, está recriando o mundo dos adultos. A “tia” Suzana não precisou tirar nossas brincadeiras, e sim fez com que aprendêssemos a importância que ela teria para nosso desenvolvimento integral, nos desafiar a descobrir outros mundos, mediou à conquista de novas amizades e novas experiências. Lembro-me de algumas brincadeiras, brincávamos no pátio, brincávamos de roda, gato e rato, pulava sapata, jogava caçador entre outras brincadeiras, todas aparentemente “inúteis” ou “fúteis”, mas hoje entendo e concordo com Kishimoto (1998, p. 115).
Dizer que a atividade infantil é lúdica, isto é, gratuita, não significa que ela não atenda as necessidades do desenvolvimento. Embora “inútil”, “fútil”, do ponto de vista imediato, ela tem enorme importância ao longo prazo. A necessidade de garantir espaço para o gesto “inútil” adquire enorme importância.
Refletindo sobre o modo como a professora brincava conosco, hoje se a encontrasse, diria: Obrigado, professora “tia” Suzana, por ter brincado junto com a gente!
Considero que a minha infância foi à coisa mais bacana da minha vida, vivi cada momento, cada sim, cada não com a mesma intensidade. Foi tudo muito bem vivido, cada momento, cada amigo, cada brincadeira e a escola foram fundamentais nesse caminho, não como divisora, mas sim como uma ponte que uniu as duas
coisas, o aprender com o brincar. E, neste contexto, voltando ao presente, destaco o papel da professora neste processo. Qual é mesmo o seu papel? Como e quando pode ou deve interferir no brincar das crianças? Se o brincar está intrinsicamente ligada à liberdade e a criação, dirige-se, ou não as brincadeiras? Oliveira (1992) In: Kishimoto (1998, p. 102), afirma que mesmo concordando com o acima afirmado, não significa, no entanto, a participação dos adultos, ao contrário:
O educador pode desempenhar um importante papel no transcorrer das brincadeiras se consegue discernir os momentos em que deve só observar, em que deve intervir na coordenação da brincadeira, ou em que deve integrar-se como participante das mesmas.
Era exatamente assim, que professora Suzana interagia conosco. Ora ensinava uma brincadeira, ora nos instigava a criar as nossas próprias brincadeiras e nossos brinquedos e, agora sei, o quanto ela mostrou e me faz compreender que brincar e estudar se complementam, e que brincar não é perder de tempo, e sim ganhá-lo, que o brincar é muito importante para o desenvolvimento integral da criança, pois nascemos e crescemos com a necessidade de brincar, esta é uma das atividades importantes na vida de cada indivíduo é através da brincadeira que desenvolvemos potencialidades, bem como trabalhamos nossas limitações com as habilidades, físicas, afetivas e sociais. O brincar é também uma forma de união com o outro. É por meio do brinquedo que a criança, constrói seu universo, de onde traz para a sua realidade, situações inusitadas de seu mundo imaginário e é nestas brincadeiras que possibilita o seu desenvolvimento.
De acordo com minha conclusão trago agora no segundo capítulo elementos teóricos que evidenciam a importância do brincar na vida das pessoas, sejam elas crianças ou adultos e principalmente crianças com adultos, afinal crianças e adultos não vivem em sociedades separadas, estanques, mas partilham o mesmo mundo.
2 BRINCAR É COISA SÉRIA... SER CUIDADA, BRINCAR E APRENDER: DIREITOS DE TODAS AS CRIANÇAS
Brincar com a criança não é perder tempo, é ganhá-lo: se é triste ver menino sem escola, mais triste é vê-los sentados, tolhidos e enfileirados em uma sala de aula sem ar, com atividades mecanizadas, exercícios estéreis, sem valor para a formação dos homens críticos e transformadores da sociedade. Carlos Drummond de Andrade, 1984.
Brincar é coisa séria! É uma afirmação que nem todos concordam, pois brincar para muitos representa, exatamente, o contrário, devido à associação com a inconsequência, improdutividade, e o prazer. Ao menos nas sociedades ocidentais, a brincadeira ainda é considerada irrelevante ou de pouco valor do ponto da educação formal. Borda (2007, p.33), afirma:
A significação de oposição ao trabalho, tanto no contexto da escola quanto no cotidiano familiar, a brincadeira é uma palavra estreitamente associada à infância e às crianças. Porém, ao menos nas sociedades ocidentais, ainda é considerada irrelevante ou de pouco valor do ponto de vista da educação formal, assumindo frequentemente a significação de oposição ao trabalho, tanto no contexto da escola quanto no cotidiano familiar.
A autora enfatizao equívoco desta postura e defende o brincar como “um modo de ser e estar no mundo”, Em razão disso, se torna fundamental que o profissional da educação da infância tenha sólida formação sobre criança, infância e sobre „‟a importância da brincadeira na constituição dos processos de desenvolvimento e de aprendizagens‟‟, pois apesar de inúmeras pesquisas acerca desta temática, não se percebe mudanças significativas nas escolas, dando ao brincar um lugar privilegiado. Ainda se percebe um lugar periférico do mesmo nas práticas educativas. As crianças brincam na escola, isso não se nega, mas o problema é como esta atividade é entendida e desenvolvida. Geralmente é proporcionado como atividade de recreio, de ocupar o tempo e ainda de assumir um caráter instrumental, institucionalizando o brincar, assim como a escola vem institucionalizando outras práticas sociais e culturais. Em razão disso as brincadeiras, sempre são orientadas, dirigidas e vigiadas pelos adultos. Em outras palavras, ainda tomando Borba, as práticas pedagógicas ainda não estão incorporando o brincar como dimensão cultural do processo de constituição do conhecimento ou da formação humana, pois no imaginário de muitas pessoas ainda
está presente à inutilidade do brincar, evidenciado em frases, tipo: Brinca quem não tem o que fazer.
Não é só na escola, que o brincar vem tendo esse entendimento e, por isso seus usos diversos e reducionistas. No contexto familiar, por exemplo, as brincadeiras também se tornam cada vez menos presentes e, quando estas, acontecem são desvestidas do seu maior significado que é o de humanizar, agregar pessoas e o de criar sentidos. As brincadeiras e, principalmente os brinquedos, atendem muito mais aos apelos da mídia e da publicidade produzida para a infância sobre a importância do brincar e muito menos como forma de integrar, divertir e constituir uma infância feliz e saudável.
A família prefere dar brinquedos ao invés de brincar com seus filhos. Prioriza suas atividades e, para compensar a sua ausência compra brinquedos.
Redin (1998) produziu um livro com um título bastante revelador do quanto o brincar não é visto como prioridade ou como necessário para a vida da criança: “Se der tempo a gente brinca: o espaço e o tempo da criança” é o nome do livro. Neste, o autor escreve sobre a necessidade e importância do brincar na constituição da criança e o papel da família, do adulto nesta constituição. Preocupa-se com a omissão da família na sua tarefa de interagir com seus filhos através do brincar, conversar, cantar, ler... Enfatiza que o adulto não brinca mais – pois, segundo a maioria deles, brincar é coisa de criança, “coisa para quem não tem o que fazer” e com isso brinca cada vez menos (ou nem brinca) com seus filhos. O autor afirma que durante sua pesquisa, ouviu com frequência que o adulto, mesmo ter gostado de ter sido criança e ter brincado e gostado muito, afirmar que não brincam mais e, confessam que muitas vezes quando seus filhos pedem para brincar, dão realmente esta resposta: Se der tempo à gente brinca! E neste contexto, podemos questionar: E se este tempo não chegar? E se o tempo chegar e a criança já não se importa mais?
A cultura familiar é, muito, resultado da cultura da sociedade em que vive. Velasco (1996) faz uma análise importante da história do brincar e a relação do modelo de sociedade- civilização e a relação entre o adulto e a criança. Escreve que o progresso da sociedade gera mudanças nas relações entre as pessoas, principalmente do adulto em relação à criança. Segundo o autor, na antiguidade, as crianças participavam de todas as festas, lazer e jogos dos adultos, mas em ambientes diferentes. Estes ocorriam em praças públicas, espaços livres sem a
supervisão dos adultos, as crianças se misturavam em grupos de diferentes faixas etárias e de ambos os sexos. (p. 39). A brincadeira era considerada um elemento da cultura, do riso e do folclore, era um fenômeno social, onde todos participavam e, somente mais tarde, ela perdeu os vínculos comunitários, tornando-se individual.
E neste retrospecto histórico, o autor reflete sobre as causas da ruptura deste modo de viver. Afirma que a ruptura se deu, principalmente pelas demandas do progresso e do desenvolvimento da sociedade as quais desconsideram as pessoas. Hoje, segundo o autor pode-se afirmar que a criança está separada da vida dos adultos naturalizada pela institucionalização da criança bem como de suas práticas sociais, e, como consequência, as atividades lúdicas reduziram-se em instrumento de aprendizagem e o brincar, principalmente, transformou-se em atividade infantil, lembrando que o termo “infantil”, para muitos ainda tem uma compreensão de menor, inferior.
Esta redução do brincar produziu e vem produzindo importantes impactos- negativos, na formação da criança, na estrutura familiar e social o que vem preocupando os educadores e pesquisadores da infância que defendem o brincar como “um modo de ser estar no mundo” (Borba, 2007, p. 33) e que asseguram fundamentados em suas pesquisas, que o brincar tem um papel importante, se não imprescindível na vida e na constituição das subjetividades e identidades das crianças e, que por esta razão há um movimento em recolocar o lugar das brincadeiras, dos brinquedos como atividade essencial da criança, sob o risco da morte do brincar.
Além de Borba, também Fortuna (2004) alerta para o perigo desta “morte do brincar” e questiona: Por que as crianças, à medida que crescem, não brincam mais? Por que à medida que avançam os segmentos escolares se reduzem os tempos e os espaços do brincar e as crianças vão deixando de serem crianças para serem alunos? A brincadeira está morrendo? Por que essas crianças não priorizam o brincar? O que os educadores têm a ver com isso? Onde fica o brincar quando a infância acaba? (p. 47).
Velasco, conforme já destacado, afirma que atualmente, com a evolução das civilizações, das grandes cidades, da mudança de hábitos, o ato de brincar sofreu várias mudanças. Houve redução de espaço físico, não há segurança para as crianças brincarem, o ritmo da vida moderna diminuiu o tempo para as atividades lúdicas e as tecnologias desestimulam as brincadeiras e brinquedos tradicionais,
tanto que pesquisas já estão apontando que o “objeto de desejo infantil, por excelência, não é, mais o brinquedo” (Fortuna, p.47). Tais questões exigem reflexão sobre o lugar do brincar na infância e qual o papel da sociedade, família, escolas, especialistas, pois não cuidar da criança é também descuidar-se com o futuro da própria civilização. A preocupação de Fortuna (assim como outros pesquisadores) é de que se perdeu, ou deixou-se de refletir sobre o entendimento do brincar e porque se brinca- sua importância. A autora, em seu artigo, destaca várias razões, as quais também são defendidas por outros educadores. Entre estes, escolho uma, não por considerar a mais importante, mas por estar me chamando atenção durante a realização dos estágios e também para a realização desta pesquisa. As crianças deixaram de brincar pipa, esconde-esconde, bolinha de gude, bate mãos, amarelinha, cincomarias..., ou seja, brinquedos e brincadeiras tradicionais ou antigas. A autora escreve porque é importante não deixar de brincar com as brincadeiras e brinquedos tradicionais (p.50): Experimentamos jogos, brinquedos, brincadeiras tradicionais ou antigas porque isso nos dá um senso de continuidade, permanência, pertencimento, mergulhando-nos na história e reportando-nos aos nossos antepassados e sua cultura.
Apesar das críticas e preocupações de muitos educadores, Velasco (1996. p. 43), afirma que o brincar nunca deixará de ter o seu papel importante na aprendizagem e na terapia, “daí a necessidade de não permitirmos suas transformações negativas e estimularmos e permanência e existência da atividade lúdica infantil‟‟.
O brincar, segundo o autor, propicia um crescimento saudável à criança. A criança que brinca vive sua infância na essência e torna-se um adulto mais equilibrado tanto físico quanto emocionalmente, suportando as pressões da idade adulta com maior criatividade para resolver os problemas que venham a surgir. Já a criança que é privada dessa atividade, por qualquer motivo, terá marcas profundas da falta desta vivência.
Ao realizar uma brincadeira, a criança se torna um ser criativo, responsável e trabalhador. São lições que ela aprenderá sozinha, pois ninguém poderá ensiná-la. Essas lições são retomadas na sua vida adulta frente a diferentes situações tendo o discernimento para resolvê-las.
Nesta direção é possível estabelecer uma relação entre as colocações de Velasco e Fortuna. Esta, ao perguntar, onde fica o brincar quando a infância acaba, responde que (embora não deveria acabar) a herança do brincar é a criatividade.
Para que isso se torne realidade, há de se reconhecer a necessidade de resgatar e recolocar o brincar nesta perspectiva, pois como salientarei, neste mesmo capítulo, o brincar assim como é importante para a constituição da subjetividade, identidade e autonomia, acaba por constituir-se em um forte instrumento de alienação e inculcação, dependendo do seu uso e o interesse de quem o propõe. Em razão disso, trago, além dos já citados, educadores e pesquisadores que nos trazem os seus entendimentos sobre o brincar, na perspectiva de construir argumentos em defesa do brincar e de tematizar e construir pedagogias pautadas na criança, como sujeito de direitos, produto e produtora de cultura e, com a certeza de que as condições em que é possível brincar são aquelas em que o indivíduo que brinca é sujeito da brincadeira e não mero espectador, passivo, como também provocado, desafiado, pois, segundo Fortuna (p. 51):
A rigor, nenhum brinquedo ou jogo pode ser assim designado sem a ação de quem brinca. Está condenado a ser apenas um objeto qualquer enquanto não for “jogado”. O que faz um brinquedo ser brincado é a ação de quem brinca.
Há a necessidade de consolidar a importância da brincadeira no desenvolvimento da criança em sua fase inicial da educação, pois todos nascem e crescem com a necessidade de brincar e, esta, é uma das atividades mais importantes na vida de cada indivíduo. É através da brincadeira que a criança desenvolve potencialidade, bem como trabalha as limitações como as habilidades físicas, afetivas e sociais, entendo que o brincar é também uma forma de união com o outro. É por meio do brinquedo que a criança, constrói seu universo, do qual, trazpara a sua realidade, situações inusitadas de seu mundo imaginário. E, é durante estas brincadeiras é que seu desenvolvimento ocorre. Santin, (2001, p.523), afirma que:
Pode-se afirmar que o Brincar; “é de fundamental importância para a aprendizagem da criança por que é através da brincadeira que a criança aprende gradualmente, desenvolve conceitos de relacionamento casuais ou sociais, o poder de descriminar, de fazer julgamentos, de analisar e
sintetizar, de imaginar e formular e inventar ou recriar suas próprias brincadeiras.
Ou ainda conforme Ferreiro (1988, p. 139), brincar é:
[...] divertir-se e entreter-se infinitamente em jogos de criança [...] o lúdico que tem caráter de jogos, de aprender brinquedo e divertimento; é uma necessidade básica da personalidade, do corpo e da mente, faz parte das atividades essenciais da dinâmica humana.
Desta forma, o brincar é sem dúvida a dimensão de interação mais freqüente e mais efetiva, caracterizando-se como uma atividade de alta prioridade para a criança, pois é através das brincadeiras que acontecem as interações das crianças com os outros (reais ou imaginários) e com o meio (real ou simbólico), mediadas pelos brinquedos. E nesse processo se torna capaz de aprender, ensinar, recriar. Almeida (2012, p. 33), reforça esta idéia quando afirma que dentre as inúmeras possibilidades de produzir cultura, um dos meios mais presentes na vida da criança é o brincar. É brincando que a criança recria o que entende do mundo e transforma em cultura lúdica. Em outras palavras, o brincar possibilita a criança, conhecer o mundo e estabelecer relações no universo da fantasia. Isso se torna relevante no processo de conhecimento de si e do outro.
Os estudos da psicologia baseados em uma visão histórica e social dos processos de desenvolvimento infantil apontam que o brincar é um importante processo Vygotsky (1987), segundo Borda (2007, p.35) um dos principais representantes dessa visão, afirma que:
O brincar é uma atividade humana criadora, na qual imaginação, fantasia e realidade interagem na produção de novas possibilidades de interpretação, de expressão e de ação, assim como de novas formas de construir relações sociais com outros sujeitos, crianças e adultos.
Ainda segundo Vygotsky o faz-de-conta, também chamado de jogo simbólico, é a primeira oportunidade de contato das crianças com as regras, sendo também um aprendizado fundamental sobre qual é o seu papel na sociedade. Além disso, nesse tipo de brincadeira, as crianças têm a oportunidade de desenvolver a imaginação, o que vai permitir que concretizem um pensamento sem a necessidade da ação. Ao brincar, a criança internaliza os diferentes papéis sociais que assume na relação
com os outros. O que na vida real passam despercebidos pela criança torna-se uma regra de comportamento no brinquedo.
Portanto, segundo Vygotsky, é no ato de brincar que a criança aprende a atuar no âmbito cognitivo, dependendo das motivações e tendências internas, ao invés dos incentivos fornecidos pelos objetos externos, ou seja, ao se inserir no meio social, a criança está mergulhada e num contexto cultural, facilitando a exploração da imaginação, memória e de suas experiências vividas.
Além disso, o brincar carrega consigo inúmeras aprendizagens ao longo do desenvolvimento pessoal, social e cultural das crianças. Assim, as aprendizagens são de diversos âmbitos: cognitivos, motores, construção de autonomia e identidade, desenvolvimento da linguagem, como meio de comunicação e socialização, construção de conhecimento, ampliação de repertório de experiências, estímulo de criatividade e imaginação.
Pelo que é possível perceber entre os diferentes autores é que todos são enfáticos em afirmar que o brincar é uma prática social e cultural importante e que através dela, a criança constitui sua subjetividade, identidade e autonomia, Brincar para a criança não é apenas uma questão de diversão, embora importante, mas também de educação, construção, socialização e desenvolvimento de suas potencialidades. Que ao brincar, a criança aprende pela experiência.Lopes (2006, p. 110) assim coloca:
Brincar é uma das atividades fundamentais para o desenvolvimento da identidade e da autonomia. (...) Nas brincadeiras, as crianças podem desenvolver algumas capacidades importantes, tais como a atenção, a imitação, a memória, a imaginação. Amadurecem também algumas capacidades de socialização, por meio da interação, da utilização e da experimentação de regras e papéis sociais.
Bettelhein e Winnicott (1987, p. 26) contemplam a ideia de que as brincadeiras estabelecem a relação entre o mundo interno do indivíduo – imaginação, fantasia, símbolos – e o mundo externo, a realidade compartilhada com os outros. Ao mesmo tempo, as crianças, ao brincarem, vão criando condições de separar estes dois mundos e tendo o domínio sobre eles.
Então é a partir da brincadeira que a criança se apropria da realidade que vive, criando espaços de aprendizagem, onde expressa suas fantasias, desejos, medos e sentimentos, onde elas possam inventar, criar e recriar novas e inusitadas situações.
Cabe aí uma reflexão: Como a escola, efetivamente, vem tratando o brincar? Será que as professoras que trabalham com crianças, seja na Educação Infantil ou nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, têm este entendimento? Do que as crianças brincam na escola? (e em casa?) Como as Políticas Públicas vem definindo a inserção do brincar no currículo como eixo fundante? Afinal, qual é mesmo o papel da Educação Infantil? E neste contexto o brincar tem seu valor?
As crianças têm o direito de ter um brincar de qualidade, considerando os espaços planejados para elas, os objetos e materiais propostos e disponibilizados e o tempo proporcionado para as situações lúdicas, dando às crianças a liberdade de expressão para ir e vir nas suas brincadeiras, de forma a ajudá-las a desenvolver identidade, autonomia e conhecimento.
Segundo RCNEI, Brasil (1998), brincar é uma das atividades fundamentais para o desenvolvimento da identidade e da autonomia.
Além disso, a importância do brincar está relacionada ao favorecimento do desenvolvimento físico, cognitivo, moral, motor e afetivo das crianças. Por isso, ele deve ser contemplado na rotina das crianças.
Portanto, o brincar é inerente à cultura da infância e para que seja garantido com qualidade, dessa forma, é necessário que sejam planejadas as situações de brincar e, sobretudo os cenários e o tempo delimitado para que se possa oferecer um brincar de qualidade.
Como salienta (BRASIL, 2009, p.06).
A criança, centro do planejamento curricular, é sujeito histórico e de direitos que se desenvolve nas interações, relações e práticas cotidianas a ela disponibilizadas e por ela estabelecidas com adultos e crianças de diferentes idades nos grupos e contextos culturais nos quais se insere. Nessas condições ela faz amizades, brinca com água ou terra, faz de conta, deseja, aprende, observa, conversa, experimenta, questiona, constrói sentidos sobre o mundo e sua identidade pessoal e coletiva, produzindo cultura.
Essa concepção traz a criança como um sujeito em processo de desenvolvimento, um ser que capaz de protagonizar suas ações e produzir significados a partir delas. Portanto, uma escola que tem em sua proposta
pedagógica criança como foco na sua concepção, parte do princípio de que ela se torna um indivíduo participante do seu processo de aprendizagem.
Assim, a escola visa formar o seu aluno como um indivíduo ativo, reflexivo e autônomo nas suas práticas cotidianas,Vygotsky (1991, p. 117) ao tratar do papel do brinquedo no desenvolvimento, expõe a presença de um mundo ilusório e imaginário no qual os desejos não realizáveis se tornam possíveis de se realizar, denominando esse mundo como: brinquedo. Tal relação brinquedo - desenvolvimento se dá por meio de:
(...) o brinquedo fornece ampla estrutura básica para mudanças das necessidades e da consciência. A ação da esfera imaginativa, numa situação imaginária, a criação das intenções voluntárias e a formação dos planos da vida real e motivações volitivas tudo aparece no brinquedo, que se constitui assim, no mais alto nível de desenvolvimento pré-escolar. A criança desenvolve-se, essencialmente, através da atividade de brinquedo. Somente neste sentido o brinquedo pode ser considerado uma atividade condutora que determina o desenvolvimento da criança.
Assim, Vygotsky traz a brincadeira como um fator relevante para o desenvolvimento da criança, a qual além de ampliar a sua comunicação via linguagem, também é capaz de, por meio de uma situação imaginária, desenvolver o pensamento abstrato, ou seja, a essência do brincar é a criação de uma nova relação entre situações no pensamento e situações reais.
O brinquedo traz a possibilidade da criança, conhecer o mundo e estabelecer relações no universo da fantasia. Isso se torna relevante no processo de conhecimento de si e do outro quando a criança imita, inventa, representa e cria ao brincar. É por esse caminho que Vygotsky estabelece que uma situação imaginária faça com que a criança desenvolva a aprendizagem através do brinquedo, auxiliando assim o seu processo de desenvolvimento.
A partir dos princípios e objetivos já anunciados nas DCNEI – Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil (2009), considera-se que seis grandes direitos deaprendizagem devem ser garantidos a todas as crianças nas turmas de creche ou pré-escolas. Senão vejamos o que as Bases Curriculares apontam como eixos:
CONVIVER democraticamente, com outras crianças e adultos, com eles interagir, utilizando diferentes linguagens, e ampliar o conhecimento e o respeito em relação à natureza, à cultura, às singularidades e às diferenças entre as pessoas. BRINCAR cotidianamente de diversas formas e com
diferentes parceiros, interagindo com as culturas infantis, construindo conhecimentos e desenvolvendo sua imaginação, sua criatividade, suas capacidades emocionais, motoras, cognitivas e relacionais. EXPLORAR movimentos, gestos, sons, palavras, histórias, objetos, elementos da natureza e do ambiente urbano e do campo, interagindo com diferentes grupos e ampliando seus saberes e linguagens. PARTICIPARcom protagonismo, tanto no planejamento como na realização das atividades recorrentes da vida cotidiana, na escolha das brincadeiras, dos materiais e dos ambientes, desenvolvendo linguagens e elaborando conhecimentos.COMUNICARcom diferentes linguagens, opiniões, sentimentos e desejos, pedidos de ajuda, narrativas de experiências, registros de vivências e de conhecimentos, ao mesmo tempo em que aprende a compreender o que os outros lhe comunicam.CONHECER-SE e construir sua identidade pessoal e cultural, constituindo uma imagem positiva de si e de seus grupos de pertencimento nas diversas interações e brincadeiras vivenciadas na instituição de Educação Infantil.
Como é possível perceber, o brincar se constitui num eixo importante na organização das práticas educativas da Educação Infantil. Então retomando o que está previsto nas Diretrizes para Educação Infantil, no que se refere ao brincar destacamos os objetivos da aprendizagem, nos quais define a necessidade de:
Brincar com diferentes parceiros e envolver-se em variadas brincadeiras, como as exploratórias, as de construção, as tradicionais, as de faz-de-conta e os jogos de regras, de modo a construir o sentido do singular e do coletivo, da autonomia e da solidariedade.Explorar materiais, brinquedos, objetos, ambientes, entorno físico e social, identificando suas potencialidades, limites, interesses e desenvolver sua sensibilidade em relação aos sentimentos, às necessidades e às ideias dos outros com quem interage.
Analisando, tanto as Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil, quanto a Base Curricular Nacional, ambas destacam no que se refere ao brincar, que o mesmo não se caracteriza uma atividade descolada do processo de desenvolvimento e aprendizagem da criança e que se constitui num elemento imprescindível neste processo, pois o brincar é da natureza da criança e em razão disso, imprescindível também privilegiar o brincar no currículo da Educação Infantil e também dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental.
É importante lembrar que a brincadeira é uma maneira privilegiada de as crianças se expressarem, representarem, compreenderem e transformarem o mundo. Portanto, educar crianças pequenas requer que os professores incluam e valorizem os muitos „‟brincares‟‟ como escreve Friedmann (2013) no cotidiano da Educação Infantil. Aos olhos das pessoas que não compreendem a importância do brincar para o desenvolvimento humano, as brincadeiras nas instituições de
educação infantil podem dar a impressão de desorganização, bagunça, por isso, serem incompatíveis com o processo educativo. No entanto, a aprendizagem e a organização estão nas próprias brincadeiras. Nestas, as crianças criam situações que precisam solucionar, entender, e isso não pode ser menosprezado pelos adultos, principalmente pelos professores, que têm na brincadeira a oportunidade de observar e intervir nas interações, propor novas situações, ensinar novas brincadeiras, potencializar a aprendizagens e ampliar as experiências (PARANÁ, SEED, 2006, p.31).
A nós professores, cabe favorecer a criação de um ambiente escolar onde a infância possa ser vivida em toda a sua plenitude, um espaço e um tempo de encontro entre os seus próprios espaços e tempos de encontro entre os seus próprios espaços e tempos de ser criança dentro e fora da escola. Portanto, cabe ao professor (a), ser mediador das relações entre as crianças e os diversos universos sociais nos quais eles vão interagir. Considerando esta perspectiva, fica evidente que o brincar é imprescindível no currículo da Educação Infantil e também dos Anos iniciais, tendo clareza, no entanto, sobre que concepção de brincare de que crianças estamos falando quando organizamos a nossa prática educativa. Caso estivermos nos referindo à criança enquanto sujeito de direitos de aprendizagem, que o brincar é um destes grandes direitos e estivermos visando a formação de nossos alunos como indivíduos ativos, reflexivos e autônomos nas nossas práticas cotidianas, estaremos sendo coerentes tanto no que as atuais pesquisas que apontam sobre a importância do brincar e das Políticas Públicas que orientam a Educação Infantil.
Nesta pesquisa, constata-se que não é apenas possível e bastante relevante considerar o brincar, mas necessário. Garantir um espaço de brincadeira é garantir a educação numa perspectiva de um lugar de socialização, de construção de relação com o outro, de apropriação e produção da cultura, de exercício de decisão e escolhas e de ampliação de imaginação e criatividade.
Uma vez que a criança é produtora do seu próprio conhecimento e para isso é fundamental que o espaço e o tempo permitam esse desenvolvimento por meio de ações observadas, registradas e planejadas pelo professor, sendo ele o responsável por construir cenários, considerar o tempo e disponibilizar os materiais adequados para cada brincadeira.
As crianças têm o direito de ter um brincar de qualidade, considerando os espaços planejados para elas, os objetos e materiais propostos e disponibilizados e o tempo proporcionado para as situações lúdicas, dando às a liberdade de expressão para ir e vir nas suas brincadeiras, de forma a ajudá-las a desenvolver identidade, autonomia e conhecimento.
Além disso, a importância do brincar está relacionada ao favorecimento do desenvolvimento físico, cognitivo, moral, motor e afetivo das crianças. Por isso, ele deve ser contemplado na rotina das crianças.
Portanto, o brincar é inerente à cultura da infância e para que seja garantido com qualidade, dessa forma, é necessário que seja planejadas as situações de brincar e, sobretudo os cenários e o tempo delimitado para que se possa oferecer um brincar de qualidade.
Brincar para a criança não é apenas uma questão de diversão, embora importante, mas também de educação, construção, socialização e desenvolvimento de suas potencialidades. Em razão disso, é muito importante, lembrar e considerar de que, até pelo reconhecimento da influência que o brincar e o brinquedo tem sobre a criança, e o quanto a criança pode ser influenciada, o brinquedo também pode ser e, é historicamente utilizado como mercadoria utilizada pela indústria cultural a qual acentua o consumo e a posse e não o brincar propriamente dito. Este recurso de consumir também é utilizado por políticas públicas, que queiram reforçar ou introduzir novos modelos de sociedade. Assim como afirma Kroef (1997, p.13):
As crianças muito cedo são introduzidas nos processos de hogeneização. A precocidade do adestramento da criança implica numa mudança de método. Tende-se a recorrer cada vez menos a sistemas de coerção e castigo e cada vez mais a técnicas de impregnação audiovisuais que fazem um trabalho com suavidade e, em muito mais profundidade.
Borba (2006) e outros autores afirmam que as brincadeiras e os brinquedos são artefatos culturais e alertam aos educadores da infância que o brinquedo pode se constituir numa ação do adulto para a “inculcação” de uma nova cultura e, com isso instigam o brincar, pois o mesmo é o modo como a criança interage sobre e com o mesmo. A autora mostra o quanto à indústria cultural, através da diversidade de técnicas, introduz a criança de forma sutil nos sistemas de representações do capitalismo. Isso é reforçado no Caderno Pedagógico nº 15 da Secretaria Municipal de Porto Alegre (1999, p. 13) consta:
A criança é incitada ao consumo, sendo alvo de propaganda, dos apelos sexuais e da erotização precoce, percebida como adulto em miniatura, reproduzindo modelos estereotipados que transformam-na em mercadoria. A indústria cultural cria necessidade de consumo e estabelece comportamentos que atendem à lógica do mercado.
Senão vejamos um exemplo, fora do espaço familiar e escolar. Caso uma mãe (ou pai) entrasse numa loja de brinquedos e pedisse algo para sua filha, o que os vendedores, em geral mostrariam a ela (ele)? Mostrariam bolas, chuteiras, carros, ou bonecas, casinhas? Com certeza bonecas (brancas, bem vestidas...), casinhas... e todos achariam normal. Será que é normal? O que está sendo consolidado neste momento? Como fica a questão do gênero? Da etnia? Da cultura? Estas “pequenas” atitudes estão na verdade, de forma sutil, incutindo valores e posturas que naturalizam a ordem vigente da sociedade. Logo, sob o ponto de vista educativo, ético e moral não tem nada de normal e, os educadores da educação infantil comprometidos com a lógica da criança precisam resistir as inculcações, pois eles sabem que as crianças vivem em um mundo simbólico, onde os significados são usados pelas pessoas para compreender e agir sobre a realidade e a si mesmas. A criança através das relações que constroem com os adultos vai construindo significados e entendendo esse mundo simbólico, tal como as pessoas o representam, o valorizam, o significam.Portanto esse processo de construção de significados, os adultos são os mediadores entre a criança e o mundo, sendo assim, cabe a eles lhe mostrarem que ninguém é igual a ninguém, e que o mundo é composto por sujeitos de diferentes espécies, e que cada um traz consigo um conjunto de valores, onde cada um tem seu gênero, etnia e cultura. Assim como afirmaMachado (1998,p.30):
A ética do brincar abarca a necessidade de um adulto atento, altivo, altruísta e imperativo para que o brincar possa fluir, requer um adulto capaz de admitir a temporalidade dessa vivência e, ao mesmo, capaz de reconhecer que assegurá-la é sua responsabilidade.
3 ATENÇÃO! CRIANÇAS BRINCANDO!
Dentre as inúmeras possibilidades de produzir cultura, um dos meios mais presentes na vida da criança é o brincar. É brincando que a criança recria o que entende do mundo e transforma em cultura lúdica. Almeida (2012, p. 33).
Em nossa sociedade, é comum, em vários espaços, encontrarmos mensagens nas portas, como: Não perturbe gente estudando; Não perturbe gente trabalhando. E as pessoas as respeitam. Mas, se tivesse uma mensagem dizendo: Atenção! Crianças Brincando! Qual seria a atitude do adulto? Teria, ele a mesma postura frente às mensagens anteriores? Em diversas oportunidades, durante as observações e estágios e, em contatos com profissionais da educação infantil, tenho constatado o crescente interesse das professoras em destacar a importância do brincar como elemento importante de seus planejamentos. No entanto, chama minha atenção, a concepção frequentemente vinculada por estes profissionais, de que brincar na escola infantil deva sempre ser orientada e ser motivada para “ensinar” algum valor, habilidade e até conteúdo. Dificilmente, abrem o espaço para brincadeiras não estruturadas, brincadeiras livres as quais permitiriam que a professora pudesse observar o desenvolvimento e as aprendizagens que as crianças produzem durante o brincar e, principalmente o prazer que esta atividade ou experiência lhe propõe.
Neste capítulo, trago algumas situações de crianças brincando na perspectiva de apresentar algumas questões já defendidas teoricamente, perceber o que a criança produz ao brincar, se estas situações de livre expressão, revelam aprendizagens. Esta pesquisa foi realizada na Escola de Educação Infantil Gente Miúda, localizada na Avenida Constante Luiz Gemelli, nº 659, na cidade de Redentora/RS, na turma da pré-escola I.
O principal objetivo foi o de pesquisar sobre o que as crianças brincam; como e com quem brincam; de que forma o mundo contemporâneo, marcados pela falta de espaço, pela pressa, pela influência da mídia, pelo consumismo e pela violência, se refletem nas brincadeiras. Em outras palavras, confirmar, ou não o que as pesquisas apontam.
A metodologia utilizada foi de observação participada de situações de crianças brincando, sejam em brincadeiras dirigidas ou não. O registro foi realizado durante as ações, documentadas por fotos e posteriormente refletidas.
Brincando com massinha de modelar... Além de importante, é uma delícia!
A atividade/brincadeira com massinha de modelar foi proposta pela professora, e foi dividida em três tempos: O primeiro momento foi o de contar a história de (Avelino Guedes, Editora Moderna):O Sanduíche da Maricota. Para ouvir a história, todos sentaram em uma roda, e prestaram muita atenção, pois, sabiam que em seguida viria à atividade (esse momento eu esqueci completamente de tirar foto, pois estavam todos concentrados que nem pensei em atrapalhar). O segundo momento foi, então, a atividade que consistia em recriar os personagens da história. E, o terceiro momento foi o que eles mais gostaram, pois afinal, era hora de usar a imaginação. As crianças foram desafiadas a brincar com modelagem. Massinhas de várias cores foram distribuídas sobre a mesa e as crianças puderam, livremente,
criar. Será que as crianças irão retomar a história, ou farão o que quiserem? Haverá relações entre os momentos anteriores?
Ao observar essa atividade/brincadeira, pude perceber a importância em oportunizar as crianças soltarem a imaginação, que apesar de ter um peso que é a chamada atividade, para elas ainda é uma brincadeira. Embora tenha se caracterizado como o momento da “atividade”, as crianças interagiram criaram e recriaram cenas explícitas da história -mas de um modo singular- às vezes não perceptível pelos adultos.
O fato da professora (embora seja uma atividade orientada por ela) deixar as crianças criarem de forma própria permitiu que as crianças conversassem entre si e, inclusive permitiu a minha intervenção sem alterar o envolvimento das mesmas nabrincadeira. Perguntei ao grupo se gostavam de brincar com a massinha de modelar e todos, em coro, responderam: Simmmm! Continuando com minhas indagações, perguntei: Por que vocês gostam de brincar com massinha de modelar?R. respondeu: porque é legal e S.porque eu faço comidinha prá minhas filhas. Estasforam algumas das respostas, evidenciando que esta ação pode promover a satisfação de manusear, construir, desconstruir, ou seja, a ação de modelar é uma atividade prazerosa. Outros, já veem nesta ação uma possibilidade de criar algo novo com a massinha. Isso se percebeu também durante uma fala de R.para L. vamo fazê um ônibus? L. responde: Que legal, vamo! Ambos começam a combinar como poderiam “fazer o ônibus”. M. chega perto de T. e pergunta: O que é isso? T. responde: é um gato! M. fala: Ah!!! E, assim foram brincando, criando, conversando se ajudando. A professora, também participava da conversa e, durante a mesma, instigava a fazer mais. Na Proposta da Educação Infantil da SMED Porto Alegre (1999, p. 28) encontramos uma afirmação que considero pertinente neste momento:
Estimular a imaginação e a fantasia é ir além da ação educativa, é compreender que todos (crianças, adultos e velhos) têm o direito de imaginar, fantasiar e buscar um mundo melhor, não para o futuro, mas para o presente.
Percebi que momentos, como estes, oportunizam muito mais do que descontração, embora isso também seja importante para eles, mas traz muitos benefícios que contribuem no processo de aprendizagem das crianças.
Ao brincar com a massa de modelar a criança usa a imaginação, cria e recria seus pensamentos. Modelar estimula a criatividade e permite à criança, com seu olhar preciso, suas mãozinhas, dedinhos e com variados acessórios, diferenciar as cores, amassar, amolecer, separar e voltar a unir peças e experimentar tamanhos e proporções podendo brincar com liberdade e confiança, criando sem medo as suas fantasias e imaginações.
Brincadeira de Roda... Quem ainda não brincou?
A brincadeira de roda foi uma escolha das meninas, pois, neste dia, faltaram muitas crianças, principalmente meninos, pois a maioria vem para a escola com transporte escolar, esse dia não teve. A sala ficou só para as meninas! A professora, nesse momento, segundo ela, estava “passando atividade” para levar de tema, e as deixou brincarem do que quisessem, então resolveram brincar de cantigas de roda. Chamou-me a atenção o fato das meninas fazerem esta escolha. Outro dia, eu as
observei na sala de brinquedos e percebi que adoravam brincar ali, criaram muitas situações de brincadeiras de faz-de-conta. Quando ouvi a professora dizer que elas poderiam brincar do que quisessem, logo imaginei que a opção seria esta: brincar lá, mas a escolha delas foi brincar de roda.
As meninas sentaram e começaram a combinar a brincadeira e, com muita tranquilidade chegaram ao consenso sobre quem iria começar e como todas teriam que fazer o que seria combinado.
Essa atividade promoveu uma interação e socialização muito boa, pois cada uma teve a sua vez de escolher qual cantiga queria, e pôde liderar no seu momento. Percebi que há algumas que adoram liderar sempre, mas no fim, elas brincaram sabendo respeitar a sua vez de escolher e respeitar as suas colegas. As crianças mostraram que, dando espaço, elas conseguem criar suas regras e brincar com autonomia. As regras eram construídas em processo e a brincadeira permitiu que todas participassem. P. falou: Agora, é minha vez... Vamo cantar... Roda cutia de noite de dia, o galo cantava e a casa caia... L.Caiu... M. tem que cair também!(todos haviam se deitado, com exceção de M.) ao que todas começaram a exclamar: É! É! M. cai... N. na sua vez de liderar ordenava: Todas prá este lado!Prôotro... Foi observando estas meninas brincar que percebi a pertinência de compreender o lugar da brincadeira na formação da criança, ou como afirma Borba (2006, p. 41): A brincadeira é um lugar de construção de culturas fundado nas interações sociais entre as crianças.
Para Kishimoto (1997, p. 38/39) a brincadeira tradicional infantil, filiada ao folclore, incorpora a mentalidade popular, expressando-se, sobretudo, pela oralidade. Então, ao brincar de roda, a criança exercita o raciocínio e a memória, também estimula o gosto pelo canto.A brincadeira tradicional tem a função de perpetuar a cultura infantil, desenvolver formas de convivência social e permitir o prazer de brincar.
O Faz-de-Conta: Um diálogo entre o universo real e o simbólico...
A brincadeira de faz-de-conta ainda é a mais pedida pelas meninas, é através da imaginação que elas conseguem ser mãe, filha, cozinhar, limpar, passar e viver situações de seu cotidiano, essa é uma brincadeira que elas escolheram brincar, e quase todas as tardes que eu acompanhei, se a professora desse tempo para elas brincar do que quisessem a maioria das vezes era ser aquilo que elas tinham vontade, “imitando” ações que elas veem os adultos realizar.
Percebi que brincar de faz-de-conta instiga as crianças a se relacionarem ao máximo, pois é como se estivessem em um palco e fossem apresentar uma peça, elas entram realmente na brincadeira, elas interpretam uma vida adulta real, imaginam e inventam situações inusitadas, pois é através do faz-de-conta que elas podem imaginar e criar tudo aquilo que têm vontade.
Duas meninas S. e R. conversam: R.Eu sou a mãe. S. Eu quero ser a filha. R. Vamo arrumá a casa? Elas saem, organizam a casa, ambas participam e combinam como ficaria melhor. R. Vamo fazê cumidinha? Pegam panelas e fazem sua “comidinha”! As meninas brincam com a maior seriedade, conversam e vão revelando seus entendimentos, valores, ente outros saberes, evidenciando que a
brincadeira de faz-de-conta promove para a criança um momento único de desenvolvimento, no qual ela exercita sua imaginação, capacitando-as de planejar e de imaginar situações do cotidiano de modo lúdico. Kishimoto (1997, p. 57)afirma que segundo Vieira (1978):
Quando vemos uma criança brincando de faz-de-conta, sentimo-nos atraídos pelas representações que ela desenvolve. A primeira impressão que nos causa é que as cenas se desenrolam de maneira a não deixar dúvida do significado que os objetos assumem dentro de um contexto. Assim, os papéis são desempenhados com clareza: a menina torna-se mãe, tia, irmã, professora; o menino torna-se pai, índio, polícia, ladrão sem script e sem diretor. Sentimo-nos como diante de um miniteatro, em que papéis e objetos são improvisados.
Portanto, o brincar de faz-de-conta permite à criança a construção do mundo real, pois brincando ela trabalha com situações que vive no seu mundo social, podendo assim, compreendê-las melhor. De acordo com Freud apud Bomtempo (1997, pág. 57).
Cada criança em suas brincadeiras comporta-se como um poeta, enquanto cria seu mundo próprio ou, dizendo melhor, enquanto transpõe elementos formadores de seu mundo para uma nova ordem, mais agradável e conveniente para ela.
Por meio dessa brincadeira a criança consegue se comunicar com o mundo. Fontana e Cruz (1997, pág.129) afirmam que segundo Vygostsky:
[...] a brincadeira cria uma zona de desenvolvimento proximal: [...] no brinquedo, a criança sempre se comporta além do comportamento habitual de sua idade, além de seu comportamento diário; no brinquedo é como se ela fosse maior do que é na realidade.
O faz-de-conta permite que a criança utilize o seu mundo imaginário para que possa compreender o mundo real, que está inserida, podendo imitar, imaginar e representar tudo aquilo que ela tem vontade. Kishimoto (1997, p.39), afirma que:
A brincadeira de faz-de-conta, também conhecida como simbólica, de representação de papéis ou sociodramática, é a que deixa mais evidente a presença da situação imaginária. Ela surge como aparecimento da representação e da linguagem, em torno 2/3 anos, quando a criança começa a alterar o significado dos objetos, dos eventos, a expressar seus sonhos e fantasias e a assumir papéis presentes no contexto social.
Jogos de Montar... Um jogo que desafia aprendizagens múltiplas.
A brincadeira com jogos de montar foi proposta pela professora, pois esse dia as crianças tiveram pouco tempo para brincar, pois estavam ensaiando uma apresentação para o dia das mães.A professora distribui os materiais e as crianças foram se organizando, algumas sozinhas e outras em pequenos grupos, mas todas bem à vontade para usar a sua imaginação.
Ao observá-los nessa brincadeira, pude ter a certeza de que essa oportuniza a criança expandir sua criatividade, fazendo-a a assumir um papel de construtor ou planejador de suas vontades. Esta brincadeira também promove a interação total das crianças, pois juntos elas criam, recriam e constroem o que imaginarem. Enquanto fazem sua montagem, conversam socializando o que estão construindo e solicitam ajuda:
R. para L. me ajuda a fazê uma ponte? S. Sim. Como vamo fazê? L. pergunta para T.Vamo fazê um castelo?
T. responde: Eu quero fazê um avião. T.Profe, me ajuda a fazê uma casa?
Para Kishimoto (1997, pág. 40), os jogos de construção são considerados de grande importância por enriquecer a experiência sensorial, estimular a criatividade e desenvolver habilidades da criança.
Nesta mesma direção na Proposta da Educação Infantil da SMED Porto Alegre (1999), Vigotsky (1987, p. 27), afirma:
A atividade criadora da imaginação se encontra em relação direta com a riqueza e a variedade da experiência acumulada pelo homem, por que esta experiência é o material com o qual ele ergue seus edifícios de fantasia. Quanto mais rica a experiência humana, tanto maior será o material que dispõe essa imaginação.
Ao brincar com os blocos de montar uma coisa é certa, a diversão está garantida, mas ainda além de diversão os blocos de montar promovem o raciocínio espacial e consciência de proporções e padrões. Ainda citando Kishimoto (1997, p. 40):
Construindo, transformando e destruindo, a criança expressa seu imaginário, seus problemas e permite aos terapeutas o diagnóstico de dificuldades de adaptação bem como a educadores o estímulo da imaginação infantil e o desenvolvimento afetivo e intelectual. Dessa forma, quando está construindo, a criança está expressando suas representações mentais, além de manipular objetos.
Através da imaginação e da criatividade as crianças podem construir o impossível, além de objetos diversos do cotidiano da criança, tais como: casas, carros, móveis, animais e figuras do grande mundo de contos que as crianças adoram: castelos, heróis, vilões... Ésó deixar as crianças à-vontade para construir e desconstruir as suas criações. Na Proposta da Educação Infantil da SMED Porto Alegre (1999), segundo Kramer (1996, p. 27):
Assim, infância remete à fantasia, à imaginação à criação, ao sonho coletivo, à história presente, passada e futura. Próxima dos mágicos e loucos, contraposta à racionalidade instrumental, a criança monta com cada peça, cada pedrinha que encontra, cada retalho, pau, bloco mônada e masaico, constelação e relâmpago.
Quebra-cabeça... Um jogo para organizar a cabeça.
O quebra-cabeça é uma brincadeira proposta pela professora, pois em seu planejamento está previsto a realização desta, pelo menos uma vez por semana. Ela, a professora, justifica esta decisão por se uma brincadeira ótima para estimular a concentração, a observação, e a persistência. É também uma brincadeira que a professora usa para estimular a cooperação. Para isso organiza pequenos grupos para resolver o quebra-cabeça objetivando que as crianças aprendam a dividir e saber que cada um tem a sua vez para jogar.
Durante os jogos, em pequenos grupos, as crianças levantam hipóteses, experimentam, comprovam ou não, tentam novamente e mostram um desejo de concluir, com êxito, o desafio. T. exclama no meio do jogo: Eu quero vê pronto!!! Pega uma peça, mas L., imediatamente diz: T.é muito grande. Esse, não dá! E assim vão jogando e cada vez que uma peça se encaixa, vibram e se ouve: é muito legal, né?
O uso do brinquedo/jogo educativo com fins pedagógicos remete-nos para a relevância desse instrumento para situações de ensino-aprendizagem e de desenvolvimento infantil. Kishimoto (1997, p. 36).
A professora destaca que há, no mínimo, sete motivos para usar o quebra-cabeça na Educação Infantil, ou seja: estimula a aprendizagem; desenvolve a atenção e o pensamento lógico; desenvolve a coordenação motora e da
possibilidade de dominar o corpo; desenvolve a inteligência; desafia a recontar as histórias; favorece o desenvolvimento da atuação da memória e; desenvolve diferentes habilidades do pensamento como: observar, comparar, analisar e sintetizar.
A autora destaca que o mais importante de tudo isso, é que através do brincar a criança estará aprendendo e desenvolvendo suas habilidades, ainda na (p. 36) afirma que:
Ao permitir a ação intencional (afetividade), a construção de representações mentais (cognição), a manipulação de objetos e o desempenho de ações sensório-motoras (físico) e as trocas nas interações (social), o jogo contempla várias formas de representação da criança ou suas múltiplas inteligências, contribuindo para a aprendizagem e o desenvolvimento infantil.
Chegou à vez da brincadeira da Amarelinha...Saudades!
Chegando à escola, fui recebida com muita alegria. Neste dia brincariam no pátio! Estavam bastante eufóricos e logo me convidaram para brincar. Brincar de Amarelinha foi proposta pela professora, mas é uma brincadeira que todos gostam e todos brincam.
Antes de iniciar a brincadeira cheguei a questionar: Será uma brincadeira que todos irão brincar? Os meninos, com certeza não vão querer brincar! E, para minha
surpresa, foi muito pelo ao contrário. Todos participaram e foi muito divertido. Nesta brincadeira puderam (entender) constatar que para jogar amarelinha, existem regras, as quais precisam ser consideradas, não por que se trata de uma imposição, mas para garantir a participação de todos. Cada um tem a sua vez!
Durante a brincadeira, fiquei tão atenta ao que as crianças faziam que não me detive a registrar as falas das crianças, embora ainda escute gritos como: T. vai perder! É a vez de X.Eu to ganhando! Eu não pisei na linha! É eu agora... E entre estas manifestações, ouvi L. exclamar com entusiasmo: Vô pedi pro meu pai fazê lá em casa uma dessa! Que tarde! As crianças me fizeram relembrar, o quanto é bom brincar de Amarelinha! Fizeram-me refletir o quanto uma brincadeira tão antiga, que faz parte do folclore, ainda fascina a criança. Kishimoto (1997, p.38) escreve:
Por ser um elemento folclórico, a brincadeira tradicional infantil assume características de anonimato, tradicionalidade, transmissão oral, conservação, mudança e universalidade. Não se conhece a origem da amarelinha, do pião, das parlendas, das formulas de seleção.
São brincadeiras que atravessam, rompem as fronteiras do tempo e do espaço e preservam a sua originalidade, o que não quer dizer que não sofram variações, mastem, em sua essência, o uso de regras. De acordo com Kishimoto(1997, pág. 24):
A existência das regras em todos os jogos é uma característica marcante. Há regras explícitas, como no xadrez, ou amarelinha, regras implícitas como na brincadeira de faz-de-conta, em que a menina se faz passar pela mãe que cuida da filha. São regras internas, ocultas, que ordenam e conduzem a brincadeira.
A amarelinha foi a ultima brincadeira observada, a qual como todas as demais permitiram uma reflexão mais aprofundada no desenvolvimento da criança, vindo a consolidar, fortalecer e complementar a que se refere na importância do brincar no desenvolvimento da criança, muitas foram as aprendizagens as quais de modo sistematizado desenvolvo nas minhas considerações finais. Considerações estas que de fato não serão finais, pois tenho certeza que o fim do mundo mágico infantil nunca chega.