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Academic year: 2021

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TÍTULO: ETNOECOLOGIA DE CAÇÕES NA PRAIA DOS PESCADORES DE ITANHAÉM/SP. TÍTULO:

CATEGORIA: CONCLUÍDO CATEGORIA:

ÁREA: CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E SAÚDE ÁREA:

SUBÁREA: ECOLOGIA SUBÁREA:

INSTITUIÇÃO: UNIVERSIDADE SANTA CECÍLIA INSTITUIÇÃO:

AUTOR(ES): ALINE DOMINISKI DE OLIVEIRA AUTOR(ES):

ORIENTADOR(ES): MILENA RAMIRES ORIENTADOR(ES):

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1. Resumo:

A pesca artesanal pode ser definida como sendo aquela em que o pescador, sozinho ou em parceria, utilizando instrumentos relativamente simples, participa diretamente da captura do pescado. A pesca de cações no litoral sul de São Paulo ocorre em escala artesanal. O objetivo desse estudo foi investigar o conhecimento dos pescadores da Praia dos Pescadores (Itanhaém, SP) sobre espécies de cações capturados na região, bem como, caracterizar a pesca direcionada a este grupo de peixes. A coleta de dados foi realizada através de entrevistas com o uso de questionários semi–estruturados abordando aspectos etnoecológicos das espécies em estudo. Foram entrevistados 13 pescadores artesanais com idade média de 46 anos e experiência de pesca de em média 23 anos, o que comprova que desde cedo estes pescadores desenvolvem a atividade pesqueira. A experiência dos pescadores também foi comprovada através do detalhado conhecimento que estes possuem acerca do ambiente e das espécies de cações por eles capturadas. Espera-se com os resultados desta pesquisa valorizar o conhecimento local e fornecer informações importantes para o estudo e gerenciamento da pesca artesanal na região.

Palavra-chave: Etnobiologia, Etnoecologia, Caiçaras, ecologia humana, pesca artesanal, elasmobrânquios.

2. Introdução

A pesca artesanal é uma das atividades mais antigas do Brasil. É a principal fonte de recursos, gerando renda e alimentação para muitas famílias de diversas comunidades (CAVALCANTE, 2011). Sendo de muita importância, devido ao vasto litoral e suas bacias hidrográficas, que mantêm através da pesca, direta ou indiretamente quatro milhões de pessoas.

Segundo Silva (1993), entre os séculos XVII e até o início do século XX, pode se verificar no Brasil o surgimento de muitas comunidades marítimas e litorâneas que viviam exclusiva ou parcialmente da atividade pesqueira. A partir das mudanças que ocorreram entre as décadas de 1930-1050 surgiram os primeiros pescadores artesanais do estado de São Paulo (BERTAPELI, 2010).

O pescador artesanal é definido pelo MPA (2011) sendo aquele que licenciado devidamente pelo Ministério da Pesca e Aquicultura, realiza a pesca com fins comerciais, de forma autônoma ou em regime de economia familiar, através de

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meios e embarcações próprias de pequeno porte ou mediante parcerias. O conhecimento geralmente é passado de pai para filho ou através dos mais velhos e experientes das comunidades que são conhecedores dos ambientes em que trabalham, como o mar, as marés, os manguezais, os rios, lagoas e os peixes.

A importância de pesquisas cientifica nesse campo tratado como etnobiologia articula novos pontos de vista sobre o conhecimento popular, valorizam as tradições da pesca e trazem a discussão para o campo acadêmico. Desmistificando a imagem marginalizada do pescador e alimentando novas pesquisas, que auxiliarão no desenvolvimento de manejo da pesca artesanal (OLIVEIRA, 2005; BRANDÃO e SILVA, 2008).

As pesquisas em etnoecologia devem servir de suporte para iniciativas de conservação ecológica e de resistência cultural da comunidade pesqueira, uma vez que a pratica do manejo reflete o conhecimento ecológico e ontológico destas comunidades. Os pescadores artesanais possuem um conhecimento peculiar sobre ecologia e comportamentos dos peixes, gerando informações relevantes para a conservação e manejo. Ao reforçar seus valores culturais, o pescador se sente parte de um patrimônio histórico, resgatando sua participação política e estreitando o dialogo entre seus gestores (PORCHER et al., 2010).

Os cações sofrem impacto direto da pesca artesanal, sendo de maior escala o emalhe que atua principalmente nos berçários sobre neonatos e jovens. Aparecendo em primeiro lugar, o cação representa 90% da produção pesqueira, seguido da corvina, o roncador, o bagre, o robalo, a pescada, a pescada cambucu e o camarão sete barbas. Apesar de ser de segunda categoria, e não alcançar bom preço, o cação é o peixe mais pescado, sendo consumido pela população local e turistas (SBEEL, 2005; MOURÃO, 1971).

3. Objetivos

O presente estudo teve como objetivo caracterizar a pesca de cações e analisar o conhecimento ecológico local dos pescadores artesanais de Itanhaém-SP.

4. Metodologia

A presente pesquisa foi realizada na Praia dos Pescadores, localizada no município de Itanhaém, litoral sul do Estado de São Paulo.

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A coleta de dados foi realizada através de entrevistas, e estas, aconteceram nos locais onde esses eram encontrados desenvolvendo alguma atividade relacionada à pesca e/ou manutenção dos apetrechos de pesca. Com o intuito de não inviabilizar as atividades pesqueiras, os locais e momentos de realização das entrevistas foram definidos em acordo com os próprios pescadores.

Os dados obtidos foram analisados qualitativamente e quantitativamente, buscando-se representar o consenso entre os informantes entrevistados. Assim, as respostas foram analisadas na forma de porcentagem de citações sobre cada aspecto abordado. As informações foram comparadas com a literatura científica através de tabelas de cognição comparada (Marques, 1991, 2001) e de revisões bibliográficas.

5. Desenvolvimento

O contato inicial com a comunidade de pescadores foi realizado através de visitas informais no local onde o pescado é desembarcado, com o intuito de esclarecer os objetivos da pesquisa, identificar o número de pescadores residentes e solicitar consentimento dos mesmos para o desenvolvimento dessa pesquisa. Após o contato inicial com os pescadores, foram definidos quais deles participarão das etapas subsequentes da pesquisa e assim foi estabelecido o esforço amostral adequado para alcançar os objetivos.

As entrevistas foram realizadas com o uso de questionários semi–

estruturados, sendo inicialmente entrevistados os pescadores maiores de 18 anos com um questionário base, que nos forneceu dados sobre a atividade pesqueira que nos possibilitou definir critérios para as entrevistas de etnoecologia. Os critérios adotados para as entrevistas de etnoecologia foram: idade igual ou superior a 18 anos e tempo de atividade de pesca igual ou superior a 10 anos.

Este trabalho foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa envolvendo Seres Humanos e aprovado sob o CAAE: 29166114.4.0000.5513.

6. Resultados

Foram entrevistados 13 pescadores artesanais atuantes na pesca de Itanhaém. A idade média é de 46 anos e 100% dos entrevistados é do sexo masculino (Tabela 1).

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Tabela 1: Perfil dos pescadores artesanais e caracterização da pesca de cações de Itanhaém (n = 13 entrevistados).

N %

Tempo médio de pesca 23 anos

Idade média 46 anos

Escolaridade Ensino fundamental

Ensino médio 71 29 Atividades complementares Empresa de transporte Construção civil Serviço público 1 1 1 7,7 7,7 7,7 Principais métodos de pesca Rede de espera Rede de arrasto Rede de caceio Rede de lanço 12 9 1 1 92,3 69,2 7,7 7,7

Pesqueiros utilizados Praia dos pescadores

Praia dos sonhos Gaivota Suarão Peruíbe Cibratel Satélite Laje 8 3 1 1 1 1 1 1 47 17 6 6 6 6 6 6

Freqüência de pesca Diária 13 100

Tipo de embarcação Canoa a motor 13 100

A maioria dos pescadores começou a desenvolver a pesca muito cedo forçando assim a muitos deles a não concluir ensino médio. A maior parte deles sobrevive exclusivamente da pesca e todos os entrevistados mencionaram que não desejam ensinar a profissão para seus filhos por conta das dificuldades atuais da atividade pesqueira, como por exemplo, a diminuição dos recursos pesqueiros.

As principais espécies de cações exploradas pelos pescadores de Itanhaém são o Fígado Branco (Rhizoprionodon lalandii) citado como um dos cações capturados, seguido pelo Martelo/Cambeva (Shyrna sp). Em menor escala também

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foram citados: Rola Rola, Galha Preta, Viola, Mangona, Cabeça Redonda, Tintureira, Pintado, Saltador, Caçoa, Tigre, Anekin e Cação Anjo. Todos os entrevistados disseram que os maiores compradores são os turistas, somente 2 mencionaram também os moradores locais. Apenas três dos entrevistados citou o Cação Viola como sendo proibida sua captura, devido ao risco extinção.

Tabela 2: Comparação das respostas dadas pelos pescadores e as informações correspondentes na literatura científica. Fontes das informações científicas: (Motta, 2006; Gadig, 2001).

Pescadores Literatura Científica

Quando são 61% Verão Menor no Outono capturados 23% Inverno e Inverno

8% Primavera Maior na

8% Outras informações Primavera

e no Verão

Onde vivem 42% Profundidade/fundo Regiões costeiras 25% Superfície e oceânicas 17% Mar

8% Alto Mar 8% Meias águas

Como se reproduzem 58% Relação/variações Duas formas de

42% Não sabem oviparidade

(estendida e retida) e, pelo menos, quatro de viviparidade

Podemos observar que as respostas dos pescadores sobre a reprodução e onde vivem os cações as respostas diferem muito às informações contidas

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em obras de literatura científica. Quanto à época do ano em que mais se captura, as informações entre o conhecimento local e a literatura científica são semelhantes.

7. Considerações Finais

Concluímos que a cultura da pesca artesanal na comunidade da Praia dos Pescadores está se extinguindo. Não se encontram mais jovens desenvolvendo as práticas pesqueiras e devido à diminuição do pescado todos os entrevistados não repassaram a profissão para seus filhos e nem desejam que estes sejam pescadores, pois os mesmo estão abandonando a profissão que desenvolvem há anos para procurar outros meios de sobrevivência.

Sobre os cações, os pescadores demonstram pouco conhecimento detalhado e não muito compatível com a literatura científica. O que existe é uma dificuldade na identificação de alguns cações através da nomenclatura utilizada pelos pescadores. Foi observado também que os pescadores não conhecem muito as espécies que se encontram em extinção, sendo capturados e comercializados naturalmente, demonstrando assim a necessidade de uma implantação de um plano de manejo.

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8. Fontes Consultadas

BERTAPELI, V. O mito do bom selvagem: o caso da comunidade da Praia dos Pescadores, Itanhaém – São Paulo. Revista Habitus: revista eletrônica dos alunos de graduação em Ciências Sociais - IFCS/UFRJ, Rio de Janeiro, v. 8, n. 2, p.117-131, dezembro. 2010.

BRANDÃO, F.C. e SILVA, L.M.A. Conhecimento Ecológico tradicional dos pescadores da floresta nacional do Amapá. Uakari, v.4, n.2, p.55-66, dez. 2008. CAVALCANTE, R.E.S. Caracterização da pesca artesanal exercida pelos pescadores cadastrados na colônia Z-3 do município de Oiapoque-Amapá, Brasil. Monografia apresentada à Coordenação do Curso de Engenharia de Pesca da Universidade do Estado do Amapá, para obtenção de título de Bacharel em Engenharia de Pesca, 2011.

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Biociências da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Campus de Rio Claro, para a obtenção do título de Doutor em Ciências Biológicas (Área de Concentração: Zoologia), 2001.

OLIVEIRA-JUNIOR. S.B. Educação ambiental mediatizando os conhecimentos locais e universais. Dissertação de Pós-Graduação, Cuiabá, UFMT/IE, 2005. MARQUES, J.G.W. Aspectos ecológicos na etnoictiologia dos pescadores do complexo estuarino-lagunar Mundaú-Manguaba, Alagoas. Tese de doutorado, UNICAMP/SP, 291p. 1991.

MARQUES, J. G. 2001. Pescando pescadores: ciência e etnociência em uma perspectiva ecológica. 2ª ed. NUPAUB, USP, São Paulo, Brasil, 258 p.

MOTTA, F.S. Ecologia e Pesca Artesanal de Tubarões na Costeiros no Litoral Centro-Sul de São Paulo. Tese apresentada ao Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Campus de Rio Claro, para a obtenção do título de Doutor em Ciências Biológicas (Área de Concentração: Zoologia), 2006.

MOURÃO, F.A.A. Os pescadores do litoral sul do estado de São Paulo.

Levantamento e dados sobre a área pesquisada – de Santos a Paranaguá – São

Paulo, 1971.

MPA. Ministério da Pesca Aqüicultura. Pesca Artesanal. Publicado em Segunda, 29 Agosto 2011 14:13. Disponível: http://www.mpa.gov.br/pescampa/artesanal

SBEEL. Sociedade Brasileira para estudo dos Elasmobrânquios. Plano nacional de ação para conservação e o manejo dos estoques de peixes elasmobrânquios no Brasil. Recife, 2005.

PORCHER, L.C.; POESTER, G.; LOPES, M e SCHONHOFEN, P. e SILVANO, R.A.M. Percepção dos Moradores sobre os impactos ambientais e as mudanças na pesca em uma lagoa costeira do Litoral Sul do Brasil. Bol. Inst. Pesca, São Paulo, 36(1): 61 – 72, 2010.

SILVA, J. G. S. Caiçaras e jangadeiros: culturas marítimas e modernização no Brasil. São Paulo: Nupaub, 1993.

Referências

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