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(2) 1. GUALBERTO LUIZ NUNES GOUVÊIA. ESPERANÇA E DECEPÇÃO: SINDICALISMO, PARTIDO DOS TRABALHADORES, E IGREJA CATÓLICA NO ABC PAULISTA (1978 – 2002). Tese apresentada ao curso de Pós-Graduação, Universidade Metodista de São Paulo, como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em Ciências da Religião. Orientador: Prof. Doutor Dario Paulo Barrera Rivera. São Paulo 2006.
(3) 2. _____________________________________ _____________________________________. _____________________________________ _____________________________________. _____________________________________.
(4) 3. Ao Zé Fernandes, grande camarada com quem tudo começou e que continua acreditando nas utopias das classes trabalhadoras. Ainda ao Bom e Velho Peixe. A Marília..
(5) 4. AGRADECIMENTOS O caminho percorrido em um trabalho como esse é tão recheado de contribuições que quase não sabemos o que é realmente nosso ou contribuição generosa de nossos mestres. Assim, meus agradecimentos vão aos meus orientadores da Metodista, Prof. Mendonça, Profa. Yara e principalmente Prof. Paulo Barrera de enorme paciência e sem o qual este trabalho não teria terminado. Fica também um sincero agradecimento aos professores Leonildo e Sandra, rigorosos nas cobranças, mas sempre com um sorriso acolhedor. Meus agradecimentos vão também para os companheiros do SINDBAST que me ensinaram a ver o pragmatismo sindical com olhos mais benevolentes e aos Pró-reitores da Unicapital que tanto incentivaram este projeto. Vivemos um tempo em que falar sobre árvores é quase um crime, pois significa silenciar sobre tantas injustiças, dizia Bertold Brechet, em um poema intitulado “Aos que virão depois de nós”. Este trabalho não é o retrato pessimista de um movimento. É, ao contrário, um trabalho otimista que acredita sim que é possível o fim das classes sociais em benefício de um mundo que seja mais justo e igualitário. A todos que não silenciam diante das injustiças este trabalho é dedicado. À Maria Adélia, Geógrafa que desenha o contorno de um mundo melhor..
(6) 5. “Meu partido É um coração partido E as ilusões estão todas perdidas Os meus sonhos foram todos vendidos Tão barato que eu nem acredito Ah, eu nem acredito Que aquele garoto que ia mudar o mundo (Mudar o mundo) Freqüenta agora as festas do ‘Grand Monde’ Meus heróis morreram de overdose Meus inimigos estão no poder Ideologia Eu quero uma pra viver Ideologia Eu quero uma pra viver” Cazuza.
(7) 6. RESUMO A presente tese procura demonstrar como a Igreja Católica, a partir de Leão XIII, despertou para a questão social, particularmente a dos trabalhadores, fornecendo uma intelectualidade que influenciaria muitas gerações de católicos que aí encontrariam o substrato e o contraponto das concepções marxistas. Com o avanço das correntes progressistas dentro da Igreja, estes se reorientaram e tentaram fazer o cruzamento entre o marxismo e o cristianismo, que culminaria com a Teologia da Libertação. Este foi o momento do encontro também com o movimento sindical, por meio de seus militantes e das Comunidades Eclesiais de Base. Essa intersecção forneceu a base moral que norteou o movimento sindical no final dos anos 70, dando origem ao chamado “novo sindicalismo”. Os militantes acreditavam que a classe trabalhadora estava engajada e comprometida com as mudanças sociais, quando, na verdade, esta pensava em suas questões mais particulares. Com o tempo, a Igreja, por meio de sua hierarquia, fragmentou a rede de apoio ao movimento sindical e a utopia se desvaneceu.. Palavras-chave: Igreja Católica, Teologia da Libertação, Sindicalismo, Utopia..
(8) 7. ABSTRACT This thesis tries to demonstrate how the Catholic Church, from Leon XIII, woke up for the social question, particularly related to the workers, providing an intellectuality that would influence many generations of Catholics that would find there the substratum and the opposing side of the Marxist conceptions. With the progress of the progressive currents within the Church, these were reoriented and tried to do the crossing among Marxism and Christianity, that would culminate with the Theology of Liberation.. This was also the. meeting moment with the trade union movements, through their militants and the Ecclesial Base Communities. That intersection provided the moral base that orientated the trade union movement at the end of the seventies, creating the call for “ne w syndicalism". The militants believed that the working class was engaged and committed with the social changes, when, actually, they thought about their more private subjects. With time, the Church, through its hierarchy, fragmented the support network to the trade union movement and the utopia disappeared.. Key-words: Catholic church, Theology of Liberation, Syndicalism, Utopia..
(9) 8. SUMÁRIO. INTRODUÇÃO.......................................................................................................................10 PARTE I – MUDANÇA NOS VENTOS: A IGREJA CATÓLICA PROGRESSISTA...30 I – A IGREJA CATÓLICA PROGRESSISTA SE MATERIALIZA. .........................31. 1.1 O SURGIMENTO DA IGREJA PROGRESSISTA.................................................32 1.2 A TRANSIÇÃO DEMOCRÁTICA: A ABERTURA POLÍTICA E A IGREJA DE BASE...................................................................................................44 II – A IGREJA SE LEGITIMA E SOFRE SUAS CONTRADIÇÕES..............................67 2.1 NOVO MODELO DE IGREJA................................................................................76 2.2 ECOS DO CONCÍLIO..............................................................................................87 2.3 A LIBERTAÇÃO DA DOUTRINA.........................................................................97 III – A ARTICULAÇÃO SOCIAL DO PROJETO IDEOLÓGICO E DO DISCURSO PROGRESSISTA NA IGREJA CATÓLICA BRASILEIRA.............105 3.1 UMA TEOLOGIA MULTIFACETADA...............................................................110 3.2 VOZES DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO.......................................................115 3.3 A COMPLEIÇÃO DA DOUTRINA......................................................................120 3.4 UMA TEOLOGIA ACADÊMICA EM BUSCA DO POVO.................................126 3.5 EM BUSCA DE UMA METODOLOGIA..............................................................133 PARTE II – A TRAJETÓRIA DOS TRABALHADORES..............................................143 IV – ORIGENS......................................................................................................................145 4.1 SEM SEGURANÇA NO EMPREGO – ANTES DA CONSOLIDAÇÃO DAS LEIS DO TRABALHO..................................................................................151 4.2 O POPULISMO DE VARGAS – DEPOIS DA CONSOLIDAÇÃO DAS LEIS DO TRABALHO..................................................................................159 V – SURGIMENTO DAS CENTRAIS...............................................................................177 5.1 A CENTRAL ÚNICA DOS TRABALHADORES – CUT.....................................183 5.2 A CENTRAL GERAL DOS TRABALHADORES – CGT....................................189.
(10) 9. 5.3 A CENTRAL GERAL DOS TRABALHADORES BRASIL – CGTB..................192 5.4 A FORÇA SINDICAL – FS....................................................................................193 5.5 FRENTE SOCIAL DEMOCRATA DE SINDICATOS – FSDS...........................196 5.6 UNIÃO SINDICAL INDEPENDENTE – USI.......................................................199 5.7 CENTRAL AUTÔNOMA DOS TRABALHADORES – CAT..............................200 5.8 UNIDADE SINDICAL (DO PPS)...........................................................................202 5.9 CORRENTE SINDICAL CLASSISTA (PC DO B)................................................204 5.10 COORDENAÇÃO CONFEDERATIVA DOS TRABALHADORES – CCT......205 5.11 O DESAFIO DO NEOLIBERALISMO................................................................206 5.12 A CRISE DO SINDICALISMO – UMA VISÃO POLÍTICA..............................208 5.13 O NOVO SINDICATO........................................................................................226 5.14 SINDICATO DE RESULTADOS X SINDICATO REVOLUCIONÁRIO........233 5.15 SINDICATO POLÍTICO X SINDICATO POLITIZADO..................................241 PARTE III – UMA UTOPIA SÓLIDA QUE SE DESMANCHA NO AR......................248 VI – UTOPIA E LIBERTAÇÃO........................................................................................251 VII – O SER HUMANO COMO UTOPIA CRISTÃ NO CATOLICISMO PROGRESSISTA.........................................................................281 VIII – A UTOPIA CATÓLICO/TRABALHISTA 30 ANOS DEPOIS............................325 CONCLUSÃO.......................................................................................................................383 BIBLIOGR AFIA..................................................................................................................398 ANEXOS................................................................................................................................424.
(11) 10. INTRODUÇÃO.
(12) 11. Este estudo busca compreender o papel da Igreja católica progressista na constituição do sindicalismo nascido no ABC paulista, que se convencionou chamar de Novo Sindicalismo, em contraposição ao movimento sindical de um lado pelego, pela sua submissão ao Estado, e ao de via comunista, que não contava com a confiança dos movimentos católicos. A mudança de política da Igreja Católica, com a posse de João Paulo II, levou à fragmentação da militânc ia católica ligada à Teologia da Libertação e, por conseguinte, ao esvaziamento ético dentro do Novo Sindicalismo. Nesta tese, reflete-se sobre as relações entre os movimentos populares da Igreja Católica e o sindicalismo, a partir do estudo das formas pelas quais se deram tais relações no ABC 1 paulista, após o final dos anos 70, e dos rumos que teve o movimento depois da política implantada por João Paulo II. O grupo do qual se originou o sindicato dos metalúrgicos da região vinha de quadros da Igreja formados tanto nas comunidades eclesiais de base, oriundos da Teologia da Libertação, como do Partido Comunista. Para que se possa compreender o momento em que se cruzaram os caminhos dessas aparentemente diferentes formas de entendimento do mundo, é preciso recuar no tempo às primeiras décadas do século XX. Entre os anos de 1926 e 1929, a presença da Igreja junto aos operários brasileiros se fazia por intermédio de uma organização de trabalhadores católicos que fazia frente ao Anarco-sindicalismo e aos militantes do Partido Comunista. Era uma organização que primava pelo anticomunismo e pretendia influir no movimento sindical com sua visão conservadora. O surgimento da Juventude Operária Católica - JOC, movimento da Ação Católica, no Brasil, na década de 40, ve io, paulatinamente, mudar a concepção e a forma de atuação da Igreja junto ao movimento operário.. 1. Região da Grande São Paulo e que compreende as cidades de Santo André, São Bernardo e São Caetano. Alguns falam hoje em ABCD, acrescentando a cidade de Diadema..
(13) 12. Os militantes da JOC, apoiados por alguns bispos e sacerdotes com ampla visão da questão social, começaram a estudar a história do sindicalismo brasileiro, comparando-o às exigências evangélicas para os novos tempos e ensaiando uma prática de militância sindical inédita. Para eles, a compreensão da função do sal nos alimentos e do fermento na massa, segundo os ensinamentos do evangelho, era o caminho que levaria ao entendimento de que os cristãos devem estar nos movimentos dos trabalhadores para, ali dentro, serem agentes de transformação. Segundo esse conceito, ficaria descartada toda e qualquer iniciativa de se organizar uma entidade sindical católica (ou cristã) que viesse a competir com as demais organizações. A idéia desses grupos era dar um “sabor evangélico” aos movimentos existentes e ser também esse “fermento da massa” que contribuísse para o avanço conjunto das lutas operárias em busca de sua unidade política e da Justiça Social. Nesse sentido, não poderiam pactuar com qualquer idéia ou proposta que significasse mais divisão entre o movimento dos trabalhadores. Com o decorrer dos anos, esses conceitos foram ganhando corpo, até resultarem num conjunto de idéias básicas para a atuação dos cristãos nos seus espaços de atuação (trabalho, bairro, escola, lazer, comunidade). É preciso aqui destacar o sentido embrionário da JOC para a Juventude Universitária Católica (JUC), que serviu como uma aglutinadora do operariado com os estudantes. O Concílio Vaticano II, no início da década de 60, levou o conjunto da Igreja, particularmente no Brasil, a avançar em seu compromisso com a sociedade e, em especial, com os trabalhadores. O crescimento das organizações dos trabalhadores rurais e o avanço das lutas operárias, neste período, contribuíram para o crescimento das preocupações com as questões sociais. A constituição da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB também foi fundamental para tal avanço, pois as suas assembléias gerais criaram o espaço.
(14) 13. necessário para o intercâmbio do conhecimento dos problemas do povo brasileiro, vividos de forma muito individual entre os bispos, o que dificultava a visão e a compreensão do conjunto da problemática nacional. Havia, dentro da Igreja, nesta mesma época, uma forte tendência anticomunista e uma visão contraditória quanto às justezas das reivindicações e dos instrumentos de luta, particularmente no que se referia às greves, sempre mal vistas pelos políticos da chamada burguesia, que, estrategicamente, as confundia com ações comunistas. O golpe militar de 1964, que contou com a simpatia e o apoio de alguns bispos conservadores, e a conseqüente política implantada no Brasil de dependência aos capitais externos às custas do setor social, aliada à política de repressão praticada pelos militares (em apoio, muitas vezes, a interesses internacionais), aos poucos, contribuíram para que a Igreja, em grande parte, mudasse sua orientação. No entanto, foi fundamental o papel de antigos militantes da JOC, que assumiram o compromisso de organizar um Movimento de Combate à Estrutura Sindical Brasileira (cópia da Carta Del Lavoro 2 ), por intermédio de um trabalho de base, semiclandestino, de organização dos trabalhadores em seu local de trabalho (fábrica, escritório, comércio, bancos), com a perspectiva de se alcançar objetivos a curto, médio e longo prazo. Tal desafio era resultado da compreensão da dimensão histórica dos inúmeros movimentos sociais conseqüentes. Simultaneamente, esses mesmos ex-jocistas e membros da Ação Católica Operária ACO realizavam amplo trabalho de conscientização nas suas Comunidades de Base, revelando a nova realidade política, econômica e social do país, ao mesmo tempo em que ajudavam a refletir sobre as exigências evangélicas dos novos tempos. Desses trabalhos. 2. Estatuto do Sindicalismo Italiano criado à época do fascismo e que colocava os sindicatos atrelados e dependentes do Estado totalitário..
(15) 14. nasceram várias pastorais sociais, especialmente a Pastoral Operária, principal instrumento de diálogo com o episcopado brasileiro a respeito das questões operárias e trabalhistas. Todo esse caminhar conjunto, entre o episcopado e os trabalhadores cristãos engajados nos movimentos operário, popular e político, redundou em apoios concretos às lutas dos trabalhadores durante seus conflitos com o governo militar e com o empresariado. As organizações sindicais, por sua vez, em sua origem no Brasil, eram frágeis e surgiam e desapareciam com muita facilidade. Poucas, como a União dos Trabalhadores Gráficos, tiveram alguma continuidade. Aparecendo e desaparecendo, os sindicatos germinavam graças à dedicação de muitos organizadores, que, com habilidade, baseavam suas exigências na melhoria dos salários e das condições de trabalho. As primeiras organizações não tinham o nome de sindicato, eram denominadas Associações Operárias, Alianças de Resistência, Uniões, Defesas, etc. A designação de sindicato só começou a aparecer com mais freqüência após a realização do primeiro Congresso Operário Brasileiro, realizado em 1906, que aconselhou seu uso para diferenciar as associações de resistência do patronato de função beneficente. A maioria das organizações reunia operários do mesmo ofício, dado o caráter artesanal da indústria brasileira da época: grande número de oficinas e pequeno número de fábricas. Eram associações de sapateiros, chapeleiros, pintores, garçons, gráficos, oleiros, etc. Havia também sindicatos que reuniam, indistintamente, indivíduos de todo e qualquer ofício, local de trabalho e setor econômico. Às vezes este tipo de sindicato aparecia com o quadro de sócios composto só de trabalhadores do mesmo grupo étnico, como o Círculo Operário Italiano. Havia, ainda, uma espécie de associação que se definia pelo quadro de organização técnica de trabalho, em que se incluíam os associados. Era o caso dos ferroviários, por exemplo, que procuraram, desde o início, constituir associações deste tipo. Eles agruparam o.
(16) 15. pessoal do tráfego, das oficinas e dos serviços de conservação, de cargas, isto é, todos os ofícios do mesmo setor – ferroviário – no mesmo sindicato. Os trabalhadores em fábricas de tecido também fizeram o mesmo, entre outros. Em seu trajeto político, os sindicatos tiveram a influência dos anarco-sindicalistas, dos socialistas, dos comunistas e dos trabalhistas, estes compostos por aqueles que buscavam alguns direitos operários, sem pôr em questão os fundamentos do sistema social, sendo que entre seus lemas estava a frase “ideologia não enche barriga”. Foi justamente a vitória desse tipo de sindicalismo, chamado de pelego, que gerou as condições concretas para que o movimento operário católico pudesse ganhar espaço no ambiente sindical. A partir desse momento, com o desgaste do aparelho comunista pela repressão e também com o esgotamento do sindicalismo trabalhista, os setores progressistas da Igreja Católica avançaram e criaram uma mentalidade sindical que vinha sendo gestada com a Teologia da Libertação. O discurso agora era o da libertação concreta dos povos oprimidos, que começou a ser proferido no Concílio Vaticano II e ganhou impulso com o encontro episcopal de Medellín, na Colômbia, em 1968. Essa vertente criou uma ética sindical única até aquele momento, uma vez que oferecia uma visão inédita de sindicalismo baseada num cristianismo socialista que resgatava o marxismo no seio do movimento dos trabalhadores. O encontro de Puebla, no México, onze anos depois, marcaria o auge e a queda desse sincretismo religioso/trabalhista que resultaria na volta da política da “ideologia não enche barriga”, agora chamada de “sindicalismo de resultados”. Esse sindicalismo teve como marcas a fragmentação do movimento, a capitulação ao mercado e as mudanças de orientação ética, criando um novo paradigma no mundo sindical, o qual se poderia chamar de “desencantamento sindical”, em referência ao “desencantamento do mundo” de Weber..
(17) 16. A convivência cotidiana com o movimento sindical por mais de dez anos me possibilitou acompanhar seu desenvolvimento, seus encontros e desencontros. Durante esse período, pude perceber que, ano após ano, havia uma perda de interesse pelo sindicato por parte dos seus associados. Esse dado pura e simplesmente não seria em si um problema; no entanto, estruturalmente tem havido um descrédito generalizado nas mais diversas instituições públicas, motivado pelas constantes promessas não cumpridas e pelas políticas que dificilmente procuram atingir os interesses genuinamente populares. Cabe, portanto, salientar, em primeiro lugar, a problemática da questão, ou seja, o quadro no qual se situa o problema que se considera no presente estudo: em que medida o movimento sindical surgido na região do ABC paulista no final da ditadura militar sofreu influências da militância católica progressista, e como um movimento que ganhou corpo embasado em uma forte ética humanista cristã, aos poucos, se distanciou desses valores e inaugurou um sindicalismo voltado para o mercado. O objetivo desta pesquisa é traçar um panorama sócio-econômico-cultural das mudanças que foram se delineando na sociedade brasileira a partir do final dos anos 70 até o momento atual. Procura-se alcançar tal objetivo por meio da análise dos dois âmbitos diretamente relacionados à pesquisa: o da religiosidade e o do mundo do trabalho. Para se entender a questão proposta, recua-se no tempo e toma-se como ponto de partida a Encíclica de Leão XIII (1891). No que compete especificamente ao tema, parte-se do final dos anos 70, uma vez que esta foi a época em que as relações entre a Igreja e o movimento operário se tornaram mais visíveis no interior da sociedade brasileira e, de forma mais acentuada, no ABC paulista. 3 A política se tornava presente na Igreja pela via da Teologia da Libertação e se inseria nos movimentos populares um tanto quanto levada por uma visão utópica das lutas sociais na 3. Para uma reconstrução histórica detalhada da aproximação entre a Igreja e o movimento operário ver: MARTINS, Heloísa. A Igreja e o Movimento Operário no ABC. São Paulo: Hucitec, 1988. p.61-142..
(18) 17. América Latina. Os jovens católicos ligados a esses movimentos populares sentiam que o marxismo oferecia uma via científica a uma visão metafísica da libertação dos povos. Era possível uma visão interpretativa da forma que se exercia o poder manipulador opressivo para a transformação do mundo. Nesse sentido, a libertação deveria ser conquistada pelos povos, e os operários eram o “povo eleito” que conduziria as massas à sua terra prometida, sem a exploração do homem pelo homem e com rendimentos justos. O pensamento no seio da Igreja era de que se tornava urgente reconhecer os sinais que apareciam no céu e que indicavam os caminhos efetivos da salvação no mundo. Dessa forma, a teologia da libertação se tornava uma alternativa à visão secularizada do homem e da sociedade baseada na análise das contradições econômicas. Essa visão da sociedade permeava uma parte significativa do clero latino-americano e particularmente do Brasil. Em vários setores, ela se mostrou atuante e, em alguns, assim continua até hoje, como no Movimento dos Trabalhadores sem Terra. Mas foi no ABC que essa teologia encontrou a sua via mais visível, por meio do sindicalismo, que, depois, originaria o Partido dos Trabalhadores e a Central Única dos Trabalhadores. Desde o final do século XIX, a Igreja – sendo esta considerada enquanto instituição, sem se fazer referência às práticas individuais dos fiéis – vinha tomando a direção de um posicionamento frente às mazelas advindas do capitalismo e do liberalismo, bem como representando resistência contra o racionalismo e a secularização. A encíclica Rerum Renovarum, publicada em 1891, representa esse posicionamento. Ao longo do século XX, a Doutrina Social foi se afirmando como parte da missão da Igreja de promover a justiça, a igualdade e uma sociedade pautada em valores cristãos..
(19) 18. Os movimentos populares 4 e, especificamente no caso desta pesquisa, os operários encontraram nessa Doutrina Social a brecha para conquistarem voz5 dentro da Igreja. A abertura para esses movimentos não foi uma concessão da instituição; ao contrário, essa abertura se fez por meio de negociações e lutas. Afinal, a Igreja, enquanto instituição baseada em valores religiosos, não poderia mesmo, de acordo com uma visão conservadora, se inserir na sociedade como agente social com pretensões políticas sem ameaçar sua identidade religiosa. Essa perspectiva foi encampada pelo papa João Paulo II, que tratou de sufocar os movimentos ligados à Teologia da Libertação e de concentrar a prática da Igreja num circuito bem delimitado de eclesiologia. Como bem notou Weber, o processo de desencantamento do mundo levou à autonomização das esferas econômica, religiosa, política, estética e erótica, cada uma garantindo sua autonomia a partir da afirmação de uma racionalidade que lhes era própria. Além disso, a existência de diferentes racionalidades tornou impossível a conciliação de valores senão nos indivíduos, o que significa dizer que é racionalmente impossível eleger fins sociais, uma vez que, em última análise, tudo está referido a valores. 6 Para Weber, o ponto de partida da explicação sociológica é o indivíduo. Sendo assim, para se compreender a sociedade e suas instituições é preciso antes entender o comportamento dos indivíduos. Weber, então, recomenda que se volte ao nascimento das instituições para se entender as razões que os seres humanos tinham para criá-las. Dessa forma, o indivíduo estabelece determinados objetivos, busca os meios mais adequados para perseguí- los (ação racional referente a fins) e orienta sua ação a partir de um valor,. 4. Movimento contra a carestia, Sociedade de amigos de bairro, Movimento pela Anistia, Comunidades Eclesiais de Base e Pastorais estudantil e operária, entre outros movimentos. 5 Essa voz é não apenas uma metáfora no sentido de que foi o espaço único possível num período de repressão pela ditadura militar, mas também a interlocução de bispos e padres que levavam ao exterior as denúncias sobre o que ocorria no Brasil, e mesmo internamente ousavam denunciar os abusos do regime. Destacavam-se naquele período o cardeal de São Paulo, D. Paulo Arns, e também o agora cardeal D. Cláudio Humes. 6 Cf. WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1971. p.371-408..
(20) 19. independente dos resultados positivos ou negativos que ela possa ter (ação racional referente a valores). Tal relativismo presente na sociedade, para além das implicações morais, teve conseqüências bastante diretas para as instituições religiosas. Elas passaram a abrigar em seu interior indivíduos tão cindidos quanto elas próprias no que se referia à incompatibilidade entre os valores religiosos e as exigências práticas da vida cotidiana. Foi neste contexto que se inseriu o movimento operário dentro da Igreja. Poder-se-ia dizer que foi a cisão vivida pelos indivíduos que trouxe para dentro da instituição religiosa a necessidade de enfrentar a tensão entre a esfera religiosa e a esfera mundana, re-significando o conceito de missão, de ser cristão ou de sinal de Deus no mundo. A urgência levava ao dilema e ao conflito, fazendo-se necessário criar uma teologia que legitimasse essa ação. A Igreja passou a entender que Jesus estava a serviço do homem para que este se libertasse, se humanizasse e vivesse plenamente. A chamada “opção pelos pobres” implicava na presença da Igreja junto àqueles que ela considerava como explorados e oprimidos, carentes dos bens básicos para permanecerem vivos e com qualidade digna. Assim, a Igreja se voltou para o povo, e a opção pelos pobres tornou-se o veículo básico para a caridade. A libertação deixou de ter o conteúdo histórico-cristão de uma vida melhor após a morte e se tornou uma busca concreta e cotidiana por ter o que comer, o que vestir e onde morar, aproximando-se, assim, dos movimentos populares sufocados pelo sistema repressor. A inserção dos movimentos populares e operários na Igreja aconteceu devido à necessidade dos fiéis de colocarem em prática os valores construídos dentro dessa mesma Igreja. Além disso, vale notar que as paróquias atuaram, muitas vezes, como fator de aglutinação de bairros e comunidades, funcionando como verdadeiras “escolas” de.
(21) 20. organização popular, o que também contribuiu para explicar por que tais movimentos adquiriram uma dimensão tão marcadamente comunitária. 7 Os movimentos operários católicos do ABC ganharam mais força, ou pelo menos mais visibilidade, em 1946, quando D. Jorge Marcos 8 se tornou bispo da Diocese do ABC. Não que eles tenham começado a se estruturar apenas neste momento, mas foi só quando tais movimentos encontram um interlocutor dentro da instituição que os reconheceu que eles passaram a pensar nas orientações da Igreja. Assim, os movimentos JOC, JUC, JEC e ACO9 foram se consolidando e se constituindo progressivamente como alternativas aos sistemas vigentes: o capitalismo e o sindicalismo pelego. No início, tinham por objetivo apenas cristianizar os operários. Os militantes desses movimentos queriam evangelizar o maior número de operários possível para evitar que eles fossem seduzidos pelo comunismo. Como relata Heloísa Martins:. A JOC e a ACO mudaram muito de concepção. Então, você tem momentos em que a JOC, o trabalho dela está essencialmente voltado para a instituição Igreja, é um trabalho de cristianização. Na questão operária, é a disputa com o comunismo mesmo, então é “vamos tomar conta desse operário antes que ele seja controlado pelos comunistas”. Então, a JOC é expressão muito disso, eles têm uma expressão que seria quase uma terceira via, nem um comunismo ateu, como eles falam, nem um capitalismo selvagem, não me lembro mais das coisas, mas eles propõem uma terceira via, que é a via da conciliação, as relações mais humanas, atenuar a exploração do trabalhador, que, nessa concepção, junta patrão e trabalhador, no início. 10. 7. Comunidade no sentido que lhe dá Freyer: “É possível conceber comunidade como um mundo vital, que é essencialmente unidade e que circunda os homens de um horizonte comum, reúne o grupo inteiro em um grande ‘nós’. [...] Este ser impelido e ligado a um ‘nós’, por efeito do mundo comum unitário, converte a comunidade em um ser de natureza própria que possui o caráter da duração e do imperecível.” FREYER, H. “Comunidade e Sociedade como estruturas histórico-sociais.” In: FERNANDES, Florestan. Comunidade e Sociedade. São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1973. p.134. 8 Bispo de linha progressista dentro da Igreja, foi fichado pela Delegacia de Ordem Política e Social - DOPS e era investigado como comunista. Seu discurso se dirigia em particular aos operários e aos interesses dos trabalhadores. 9 Juventude Operária Católica, Juventude Universitária Católica, Juventude Estudantil Católica e Ação Católica Operária, respectivamente. 10 MARTINS, Heloísa. Entrevista concedida ao autor (Gualberto Luiz Nunes Gouveia). São Paulo, 16 de março de 2001. Em sua tese de doutoramento, Heloísa trabalhou com as relações entre Igreja e movimento operário no ABC, reconstruindo a história que desembocou nas greves de 68, privilegiando o caso de Santo André. Conf.: MARTINS, Heloísa. Op. cit., 1988..
(22) 21. Embora o início tenha se dado dessa maneira, as mudanças na conjuntura política e econômica do país e a consciência que foi sendo forjada no exercício da militância foram interpelando os movimentos a tomarem posições mais claras. E isso se expressou na passagem que muitos militantes fizeram dos movimentos católicos para os movimentos sindicais. Os anos 80 encontraram muitas das lideranças formadas nos movimentos católicos compondo os quadros do sindicalismo. Ainda que isso tenha ocorrido de maneira sistemática nos primeiros anos de ditadura, quando os sindicatos passaram a ser geridos por interventores nomeados pelo Estado, geralmente escolhidos dentre os militantes da Congregação Mariana ou dos Círculos Operários11 – movimentos operários católicos mais anticomunistas e, por isso mesmo, mais ocupados em combater o sindicalismo partidário –, o fato é que muitas das lideranças que ajudaram a formar a identidade de um “sindicalismo combativo” eram exmilitantes católicos. Os objetos de estudo deste trabalho são a relação entre os setores progressistas da Igreja Católica e o Novo Sindicalismo surgido no ABC durante os anos 70 e o resultado e os desdobramentos dessa relação no tocante a um padrão ético e cidadão de ação. Segundo Milton Santos, este espaço pode ser entendido como:. [...] um conjunto de relações realizadas através de funções e de formas que se apresentam como testemunho de uma histór ia escrita por processos do passado e do presente. Isto é, o espaço se define como um conjunto de formas representativas de relações sociais que estão acontecendo diante dos nossos olhos e que se manifestam através de processos e funções.12. No presente estudo, o espaço que interessa é o humano ou social, no qual encontra-se também a dimensão religiosa que responde por uma parcela das crenças e dos sentimentos da sociedade e atua, juntamente com os sindicatos, como subsistema desse grande sistema que é 11 12. Conf.: Ibidem. SANTOS, Milton. Por uma Geografia Nova. São Paulo: Hucitec, 1986. p.122..
(23) 22. a sociedade. Santos considera que um sistema é um grupo de estruturas interligadas por certas regras. Por um lado, os setores progressistas da Igreja Católica são um subsistema da instituição Igreja como um todo e, por outro, o Sindicato do ABC é um subsistema de um conjunto maior de sindicatos no Brasil. Juntos, contribuiriam para a formação de uma ética que permearia a história sindical brasileira. Para o autor, cada sistema funciona em relação ao sistema maior como um elemento, enquanto ele próprio é, em si mesmo, um sistema. E cada sistema ou subsistema é formado de variáveis que dispõem de força própria na estruturação do espaço, mas cuja ação é de fato combinada com a ação das demais variáveis. Este é um trabalho feito por um geógrafo em Ciências da Religião. A Geografia é, hoje, multidisciplinar e, graças a contribuições como a do Prof. Milton Santos, tem dialogado cada vez mais com outros ramos do conhecimento sem perder sua identidade e sem se tornar uma ciência que estuda de tudo e não compreende nada. A Geografia não perde seu objeto na sua interdisciplinaridade e permanece com seu olhar voltado para o espaço e suas relações, oferecendo uma teoria capaz de entender as complexas relações sociais que compõem a sociedade. Compreender o espaço geográfico como elemento constitutivo das sociedades abre uma via extremamente rica e que pode ser considerada indispensável para o entendimento da realidade. Estudar a realidade social contemporânea desprezando o ponto de vista geográfico é tratar as sociedades como abstratas e imaginárias, como um corpo que não tem onde se sustentar. O uso do espaço geográfico pelo ser humano faz dele componente do corpo social. Organizando-se em sociedade, os seres humanos ordenam também o espaço geográfico, constituindo um quadro de vida em que se desenvolvem as relações sociais. É preciso ressaltar, no entanto, que as relações sociais se dão no espaço geográfico e dependem em boa medida dele; portanto, para que elas aconteçam é necessário lidar com a.
(24) 23. distância geográfica. Quando fala mos em distância não estamos nos referindo apenas ao sentido da geometria euclidiana (metros, quilômetros, etc.), mas a uma dimensão mais ampla. Inicialmente, o que vale destacar é que qualquer relação social, para se realizar, tem um primeiro lugar de percorrer ou diminuir distâncias. Dependendo da eficiência da gestão da distância, os membros de uma sociedade podem manter mais ou menos interações, fator decisivo para o destino de qualquer grupo social. Ao longo da história, as sociedades e suas classes, apesar das enormes diferenças entre si, vêm transformando o espaço em um conjunto de objetos geográficos com a finalidade básica de gerir as distâncias geográficas, construir residências e produzir bens, três formas de uso do espaço. E aqui vale precisar a expressão objeto geográfico como componente do espaço que tem uma finalidade, que serve para alguma coisa. Projetando-se na natureza, o ser humano atribui aos elementos naturais do espaço objetivos e finalidades que, na sua origem, eles não tinham. Assim, uma montanha pode transformar-se em local sagrado e cultuado, existindo com esse propósito para determinado povo. As sociedades modernas, mais do que quaisquer outras, deram objetivos à natureza. Pode-se definir o espaço geográfico como um conjunto de objetos geográficos – elementos naturais humanizados e obras humanas – com determinadas finalidades dadas pelo ser humano. Esses objetivos são conteúdos sociais inseparáveis da dimensão material dos objetos. Assim, um edifício, do ponto de vista físico, é apenas um edifício, mas adquire conteúdo quando usado, por exemplo, como fábrica, escola, etc. As formas de produção, de organização e de uso do espaço geográfico mudam os valores dos objetos geográficos, as distâncias e as próprias relações sociais. E em tudo isso têm papel fundamental os sistemas técnicos modernos que criam espaços geográficos com novos conteúdos, que permitem controle de largos espaços durante longo tempo..
(25) 24. Este é, porém, um estudo dentro das Ciências da Religião, e estas possuem seus referenciais próprios. Assim, recorre-se a autores como Filoramo e Prandi para se estabelecer um olhar pela via das próprias Ciências da Religião. 13 Para os supracitados autores, o estudo deve começar pela observação de.... [..] que a autonomia de um discurso científico se baseia, antes e acima de tudo, na autonomia de um método legitimamente fundado e utilmente experimentado, mais até do que na autonomia do objeto, autonomia que – a não ser que se recorra a um raciocínio dedutivo, de tipo normativo – só pode nascer da eficácia do método. 14. Os autores prosseguem afirmando que rejeitar essa forma de interpretação provoca o risco de se cair no relativismo marcado por uma autonomia que já não é mais absoluta, e sim relativa, e que pode levar a um “reducionismo que priva o objeto de pesquisa de qualquer especificidade, e também de um idealismo essencialista, que postula desde o início a ‘realidade’ de um objeto que a pesquisa terá a obrigação de desvelar e testemunhar”. 15 Ainda segundo Prandi e Filoramo, uma terceira via é possível desde que se trabalhe com um conceito de religião que considere “tanto os seus aspectos funcionais quanto os específicos”. 16 Ao se fazer ciência se deve buscar o distanciamento necessário do objeto. Os autores acima referidos falam em “ateísmo metodológico”17 , enquanto outros falam em “neutralidade científica”. Milton Santos, comumente, refere-se em tom crítico aos estudiosos que buscam seu objeto no entorno de sua própria realidade. No entanto, a questão que motiva uma pesquisa é, quase sempre, a inquietude, a perplexidade diante da realidade que nos cerca. Este estudo busca estabelecer uma observação que busque a realidade concreta dentro da perspectiva religiosa. A religião aqui é entendida como algo objetivo que interfere e. 13. FILORAMO, Giovanni; PRANDI, Carlo. As Ciências das Religiões. São Paulo: Paulus, 1999. Ibidem. p.17. 15 Ibidem. p.17. 16 Ibidem. p.17. 17 Ibidem. p.22. 14.
(26) 25. muda a sociedade e que pode ser um instrumento para a construção de uma práxis não excludente, seletiva, que prioriza o capital sobre a pessoa, o material sobre o ético, que transforma o sagrado em uma indústria. Entroniza, assim, o utilitarismo como ferramenta de ascensão social em sacrifício dos valores humanos universais, legitimando uma moral cínica e conformista que só leva em consideração os interesses dos dirigentes e não dos grupos representados, sejam eles religiosos ou sindicais. Não se trata aqui de buscar um ecumenismo teórico em que pululam os autores numa pletora de filosofias e receitas de observação, mas de procurar o que cada autor pode oferecer para a consistente observação que se pretende do real. Nesse sentido, Marx, que parece ter saído de moda em muitos círculos acadêmicos, será uma referência para o presente trabalho. Não no seu materialismo histórico, aparentemente ultrapassado pela própria história, mas em sua dialética crítica, que convida a buscar a transformação do mundo e não apenas a observálo e descrevê- lo. O marxismo, juntamente com a Teologia da Libertação, forneceu uma das mais belas utopias do século XX, e sua superação provocou o “desencantamento do sindicalismo”. O mundo de Marx não é sagrado. É um mundo que só conhece a ética e o lucro do capital e da posse e que ignora os elementos espirituais. Salários e preços não são estabelecidos pela religião nem pela ética. A riqueza se constrói por meio de uma lógica duramente material: a lógica do lucro. Marx usa o sistema materialista de análise. Seu método é uma exigência do próprio sistema que só conhece o poder dos fatores materiais. É a angustiante lógica do lucro e da riqueza que se estabelece. Para ele: “A angústia religiosa é, por um lado, a expressão da angústia real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, a alma de um mundo sem coração, tal como é o espírito de condições sociais de que o espírito está excluído. Ela é o opium do povo.”18. 18. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Sobre a Religião. 2ªed. Lisboa: Ed. 70, 1976..
(27) 26. Seu pensamento sobre a religião tomou forma e se desenvolveu em meio a uma luta política com um grupo de filósofos chamados “hegelianos de esquerda”19 , que entendiam que a religião era a culpada das desgraças sociais e da alienação e desejava estabelecer um programa educativo com o objetivo de fazer com que as pessoas abandonassem as ilusões religiosas. Marx pensava que a religião não tinha culpa alguma e que era impossível a eliminação das idéias religiosas, ainda que falsas, das mentes dos seres humanos. Para Marx, a religião não era culpada porque não fazia diferença alguma. Ela era apenas um sintoma das forças que realmente movem a sociedade. Para ele, as idéias não são as causas da vida social, são apenas seus efeitos que aparecem depois que os processos acontecem. Marx entende que a realidade do mundo é a dos dados naturais modificados pela história dos seres humanos. O que lhe interessa considerar na existência dos seres humanos é a sua força de produção e as ligações sociais que ela constrói. As produções da consciência, ou ideologias, não passam de expressões da vida real e dela são até expressões deformadas. As condições econômicas de uma época explicam as ideologias dessa época. Assim, o espírito religioso é um produto social, a deformação das idéias explica-se pela prática material. Para ele, as pessoas não podem ser convencidas a abandonar suas idéias religiosas porque as idéias são sintomas que surgem em decorrência de determinadas situações concretas. É necessário que a realidade seja transformada para que as idéias se modifiquem. Marx, porém, hoje, não é mais suficiente para se explicar a sociedade em toda a sua complexidade; por isso recorre-se também a Weber20 para se construir o itinerário teórico deste estudo. Para Weber, o capitalismo não se caracteriza por uma simples sede de aquisição 19. Esse grupo, também chamado de “jovens hegelianos”, constituiu uma escola de pensamento no final da década de 1830, na Alemanha. Tais filósofos desejavam que a sociedade passasse por transformações radicais. Eles entendiam que a ordem social era construída com uma argamassa em que as coisas materiais eram cimentadas umas às outras por meio de idéias e formas de pensar. Assim, armas, máquina, bancos, fábricas e terras se integravam por meio da religião, do direito, da filosofia e da teologia. A conclusão político-tática se segue necessariamente: se houver uma atividade capaz de dissolver idéias e modificar formas antigas de pensar, o edifício social inteiro começa a tremer. Os que mais contribuíram para a formação das idéias de Marx foram Bruno Bauer, Ludwing Feuerbach, Max Stiner e Mosses Hesse. Conf.: BOTTOMORE, Tom (Org.). Dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988. 20 WEBER, Max. Ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Cia. das Letras, 2004..
(28) 27. (esta existe desde sempre e em todos os países), mas sim pela racionalização dessa procura do lucro: organização racional do trabalho (formalmente) livre, separação do lar e da empresa, contabilidade racional. Para que o sistema capitalista pudesse desenvolver-se foram necessárias certas evoluções técnicas, mas o fato principal da evolução foi a existência de um espírito racional, de um espírito do capitalismo. Este espírito, bem claro em um conselho atribuído a Benjamim Franklim endereçado aos jovens homens de negócios, considera que “tempo é dinheiro” e que todos têm o dever de aumentar o seu capital. Esta “filosofia da avareza” não visa apenas o êxito nos negócios. Este espírito racional não teve um desenvolvimento espontâneo. O capitalismo não teria conseguido chegar ao fim sem a ajuda de um poderoso aliado. Para se implantar num mundo feudal hostil, o capitalismo tinha de apoiar-se numa ética, tinha de aparecer como o “bem” para o homem. Para o demonstrar, Weber considerou três aspectos da ética protestante: a profissão como vocação, o dogma da predestinação e a ascese 21 secular. O ascetismo protestante, agindo dentro do mundo, opôs-se com grande eficácia ao usufruto espontâneo das riquezas e travou o consumo. Em contrapartida, libertou o desejo de adquirir, considerando-o como vontade de Deus. Tal atitude é favorável à acumulação do capital e, portanto, ao seu desenvolvimento. Em Weber ressalta-se a articulação estabelecida entre a influência da situação material sobre as convicções e as idéias religiosas e, inversamente, a ação destas na constituição de uma moral econômica. Não obstante, Weber deixa claro que uma moral econômica não é produto, nem está condicionada unicamente pela religião; ele ressalta a religião como um elemento importante. Nesse sentido, Weber se ocupa em compreender a interação dos diversos elementos (economia, moral e religião) na conduta humana. Os pressupostos de Weber auxiliam, desse modo, na demonstração da presente tese, que procura 21. Em linhas gerais, entende-se a ascese como o exercício espiritual prático que leva à efetiva realização da virtude e à plenitude da vida moral..
(29) 28. entender como a religião oferece a possibilidade de construção de uma moral e de um sistema de valores que legitimam um modo de conduta. Este trabalho se apóia em pesquisa bibliográfica de fontes primárias, como os documentos da Igreja (Vaticano II, Encíclicas, Medellín, Puebla) e de seus movimentos, entre os quais a Pastoral Operária e as Comunidades Eclesiais de Base. Importantes bases são também os documentos da Igreja que tratam principalmente da questão do trabalho, como os referentes à Campanha da Fraternidade e aos encontros da CNBB. Jornais 22 do movimento sindical e teses apresentadas em congressos e seminários constituem outras essenciais fontes para esta pesquisa. Além disso, o trabalho também teve a aplicação de pesquisa de campo sobre os dirigentes sindicais, os trabalhadores, os líderes de movimentos ligados à Igreja e os que ganharam notoriedade. Dessa forma, acredita-se que se pôde adquirir um prévio reconhecimento do “terreno”, necessário para se praticar uma investigação rigorosa, de forma que os resultados sejam apontados e tabulados para verificação da tese que se apresenta. Vale ressaltar que este não é um trabalho estatístico, já que, ainda que a estatística sirva de ferramenta para compreensão do real, ela isoladamente embaralha a compreensão e pode ser um instrumento de manipulação e mascaramento da realidade. Dessa maneira, conhecendo no ssos próprios limites, procuramos uma metodologia simples, sem sofisticação, acreditando que o principal de nosso trabalho é a contribuição analítica de uma realidade. Procura-se examinar os resultados obtidos pela maneira mais objetiva possível, assim como respeitar referenciais teóricos e evitar divagações inúteis e entulhadoras que podem fazer submergir, pela amplidão da documentação, qualquer trabalho de mestrado ou doutorado. Acredita-se que a informação deva fluir e não servir para desencorajar o pesquisador. Portanto, o caminho traçado deverá ser reto e não permitir desvios, senão. 22. Tribuna Metalúrgica principalmente..
(30) 29. ocasionais, pois se acredita que vasculhar demais, verificar pontos secundários ou sem importância são mais um exemplo de fuga do que de perfeccionismo. Seguindo tais premissas, o primeiro capítulo desta tese procura demonstrar o percurso da Igreja católica progressista e como ela criou uma massa intelectual que foi fundamental para auxiliar o movimento operário que surgia após o golpe de 64, culminando com o movimento do ABC. No segundo capítulo aborda-se o percurso histórico do movimento sindical, suas contradições, divisões e percalços, bem como suas conquistas e dilemas. O movimento sindical que surgiu ao final desse percurso demonstra a fragmentação pela qual passa e sua cada vez menor representatividade como instrumento de mudanças sociais. Finalmente, no terceiro capítulo procura-se demonstrar como a Igreja católica, por intermédio de seus setores mais progressistas, criou uma forma de pensar o mundo que veria nos trabalhadores os elementos messiânicos prontos para a redenção. Foram anos em que se pensou o mundo de maneira generosa e em que muitos perderam suas vidas procurando construir um mundo melhor. Para esses e para aqueles que acreditam nesse mundo, a utopia nunca morrerá e sempre valerá a pena..
(31) 30. PARTE I MUDANÇA NOS VENTOS: A IGREJA CATÓLICA PROGRESSISTA “Eu que não creio, peço a Deus por minha gente É gente humilde, que vontade de chorar.” Chico Buarque.
(32) 31. I – A IGREJA CATÓLICA PROGRESSISTA SE MATERIALIZA.
(33) 32. 1.1 O SURGIMENTO DA IGREJA PROGRESSISTA Acredita-se que a Teologia da Libertação tenha sido um singular fenômeno renovador de grande influência no seio da Igreja Católica latino-americana. Tal movimento reformista desenvolveu com vigor as novas potencialidades apresentadas pelas teorias de autores como Gutiérrez, Juan Luis Segundo, Leonardo Boff e J. Libâneo, entre outros. Influenciada e fecundada em nível científico pela teologia européia, a Teologia da Libertação existiu na plena coerência de se fazer formal e fisicamente a partir do lugar do pobre. Isso a tornou motor consciente do chamado compromisso libertador para com os deserdados, apoiando o papel de resgate de valores da religiosidade popular. Esta pode ter sido uma das razões de seu impacto tanto na consciência e na práxis eclesiástica quanto na cultura secular. Pode-se dizer, ainda, que este movimento constituiu um elemento de resgate da credibilidade da Igreja junto à esquerda, particularmente no Brasil, em virtude do apoio dado ao golpe militar de 1964, e foi, assim, um instrumento de esperança para que se implementassem mudanças sociais transformadoras. Este fenômeno, que nasceu depois do Concílio Vaticano II, começou a se manifestar nas tentativas parciais das teologias das realidades terrenas e do trabalho, para logo aceder a uma proposição totalizadora, desejosa por atingir o trabalho teológico por inteiro. Sua premissa era reformular toda a teologia, considerando-se a fé a partir de seu caráter prático e procurando-se elaborar, criar e agir de acordo com estratégias bem específicas. A elaboração de estratégias sempre se evidencia em momentos de crise, durante os quais a polarização é mais forte do que o discurso ideológico da unidade e os grupos, assim como seus interesses, aparecem com maior clareza. Foi o caso, por exemplo, do episódio da emissão de duas instruções 23 (a primeira em 1984 e a segunda em 1986) pelo monastério. 23. Segundo Jesus Horta, as Instruções constituem um “gênero literário” muito utilizado pelos monastérios que compõem a Cúria Romana, não sendo claros o seu âmbito e a sua autoridade (Conf. Código do Direito Canônico, 1983. p.16); A íntegra dos textos das duas Instruções, Libertatis Nuntius e Libertatis Conscientia, foi publicada.
(34) 33. romano denominado “Sagrada Congregação para a doutrina da Fé”, que visava interferir diretamente no desenvolvimento histórico que a Teologia da Libertação alcançava na América Latina e no Brasil. Antes mesmo que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil reconhecesse oficialmente a primeira instrução às dioceses e se articulasse para minimizar os seus possíveis efeitos negativos, esta vazou e foi publicada com estardalhaço em vários jornais do país, evidenciando claramente uma manipulação do documento para atingir os progressistas. As diferentes “leituras” das instruções foram registradas, em especial, em duas publicações internas à Igreja, a Revista Eclesiástica Brasileira (REB) e o Boletim da Revista do Clero, embora a disputa pelo sentido político dos dois documentos tenha ganhado as páginas de importantes jornais do país. No entanto, a qualificação social dessa disputa trouxe um problema de ordem conceitual no que se refere ao discernimento dos interesses mais evidentes que a pautavam. Em 1973, quando escreveu a tese que se tornaria o clássico livro “Igreja e Política no Brasil”, Marcio Moreira Alves já chamava atenção para a imprecisão pessoal trazida pelo uso das terminologias progressista, moderado e conservador para designar facções na Igreja e tendências ideológicas do episcopado. Na verdade, como a significação dos termos é historicamente constituída, parece natural que os elementos materiais da realidade que permitiram a sua representação, à medida que vão mudando, não consigam mais dar conta dessa mesma realidade. No período em que o Concílio Vaticano II foi realizado, o termo progressista era bastante significativo, pois se ligava inapelavelmente à empresa da mudança contra vontades fixistas, solidamente constituídas. Significava a clara opção pelo Aggiornamento (atualização), o que para muitos setores chamados integristas era lançar a Instituição na. na revista eclesiástica Serviço de Documentação da Igreja (daqui por diante SEDOC) e como textos autônomos pela editora Paulinas..
(35) 34. armadilha dos critérios transitórios, retirando-lhe, com isso, o fundamento da imutabilidade da verdade, da permanência de valores e da negação do relativismo histórico que a resguardava da cultura iconoclasta forjada pelo liberalismo. Assim, ser progressista era o mesmo que ser adepto da mudança, da realização do Concílio e da reforma da Igreja. Em outras palavras, ser progressista era ser modernizante. Hoje, o progressismo deixou de ser um termo fidedigno para nomear certas tendências que foram surgindo em seu interior e que, no entanto, dele se distanciaram em muitos aspectos. Tomando-se como referência a literatura recente sobre a Igreja, torna-se fácil diagnosticar a profusão dos termos. Fala-se em liberais e conservadores, em neo- liberais e neo-conservadores, em progressistas e progressistas-radicais, em progressistas- moderados e progressistas-libertadores, em neo-fundamentalistas e neo- fundamentalistas moderados, em carismáticos e em muitos outros termos. Este pluralismo terminológico indica que um novo conceito ainda não se afirmou e que o que se faz é apelar, seja para a arbitrariedade, seja para os recursos de última hora. Neste estudo entende-se que a maneira mais criteriosa de se corrigir as ineficiências dos conceitos “progressista” e “conservador” é estabelecendo um rol de elementos qualificadores característicos de uma ação conservadora e um outro rol de elementos qualificadores característicos de uma ação progressista, de modo que ambos sirvam de guias capazes de situar os grupos sociais, seus projetos ideológicos e sua influência institucional no seio da Igreja Católica. Contudo, os complicadores para a adoção de tal esquema são enormes, sendo que o principal deles reside na seleção dos elementos qualificadores. Alega-se, por exemplo, que muitos bispos, padres e religiosos, reconhecidos como “progressistas” no sentido político e favoráveis à ascensão das classes populares, são “conservadores” em matéria moral..
(36) 35. Categorias como heterogeneidade e incoerência, que expressam o pluralismo das opções ideológicas em que os grupos se movem, obrigam os pesquisadores a trabalharem dialeticamente com os conceitos generalizantes e específicos, levando-os a predeterminarem, conforme o caso, os elementos que estão considerando quando nomeados determinados fatos sociais. Deste modo, no que concerne ao presente trabalho, igreja progressista significa a facção da igreja que optou pelo aggiornamento em disponibilidade de consciência (ideológica) para as suas conseqüências, demonstrando isso por intermédio de uma política concreta (discurso e praxis); e igreja conservadora designa a facção que recusa ou coloca impedimentos de ordem ideológica e concreta ao desenvolvimento histórico das opções que o fato sócio-eclesial chamado Concílio Vaticano II objetivou em ato e potência. Em nível mais geral, estes dois termos – igreja progressista e igreja conservadora – se diferem de acordo com o conteúdo histórico-ideológico que os clivam. Nesse sentido, pode-se qualificar como progressista o indivíduo que se coloca em disponibilidade para a mudança social, e como conservador aquele que só vê nessa mudança a perda de seus privilégios de classe e a desordem insuperável no mundo de suas convicções. Vale afirmar, ainda, que o discurso da igreja é dinâmico e, em meio a disputas internas (disputa hegemônica), sofre injunções que expressam uma realidade plural e contraditória que não pode ser apreendida se apenas uma fonte de origem for considerada. Um discurso só tem vigência social se induzir e/ou determinar a ação dos grupos sociais localizados na esfera da sua elaboração ou da sua apropriação. E a sua maior ou menor vigência só pode ser medida pelo número e pela amplitude das ações dos sujeitos que mobiliza, dos fatos que cria, enfim, dos impactos históricos que consegue causar. Nesse sentido, o discurso da igreja não é somente o discurso elaborado pelo papa, pelo sacro colégio ou pelos clérigos concentrados na burocracia curial; é o discurso modificado, concreto e.
(37) 36. vivido por toda a comunidade dos sujeitos sociais que definem o significante igreja e que são definidos por ele. Outro fator complicador para a adoção do esquema supracitado que poderia corrigir a ineficiência dos conceitos “progressista” e “conservador” reside na possibilidade de os pesquisadores reconstruírem um discurso plural e segmentado, sem definirem de forma rigorosa os sujeitos sociais que efetivamente participaram de sua articulação como fala organizada, como voz representativa de todo um grupo sociologicamente definido e historicamente determinado. Uma vez que os sujeitos destacados neste estudo são históricos e não ideais, é natural que a sua composição, assim como a sua capacidade de articulação, no discurso global da instituição varie com o tempo e com as sucessivas mudanças ocorridas na estrutura e nos modos de organização da igreja. Até o século XIX, os concílios ecumênicos representaram momentos privilegiados de elaboração intelectual da prática social- religiosa da igreja, com uma participação quase inteiramente limitada aos bispos originários das igrejas centro-européias. 24 No século XX, no entanto, além do próprio Vaticano II, as conferências episcopais e os sínodos – que, desde 1967, têm sido realizados de dois em dois anos – adquiriram o caráter de “mini-concílios” e passaram a contar com a participação cada vez mais expressiva de bispos e padres nãoeuropeus, originários sobretudo do mundo em desenvolvimento. Em tais eventos podia-se observar os impactos da ação de novos organismos cujos estatutos políticos se achavam em processo de definição. Dentre tais eventos, pode-se citar as conferências episcopais de âmbito continental, como a CELAM (Conferência Episcopal Latino-Americana), criada em 1955. Sob a égide de lideranças progressistas, a despeito das mudanças em sua composição, a CELAM obteve repercussão internacional com os encontros gerais do episcopado que promoveu – em 1968 na 24. Ver AUBERT, Roger. “O meio século que preparou o Vaticano II”. In: AUBERT, Roger; HAJJAN, Joseph. A Igreja na Sociedade Liberal e o Mundo Moderno. Coleção Nova história da Igreja. Petrópolis, RJ: Vozes, 1976..
(38) 37. cidade de Medellín (Colômbia), em 1979 na cidade de Puebla (México) e em 1992 na cidade de Santo Domingo (República Dominicana). As diretrizes expostas em seus documentos finais adquiriram, no que se refere às igrejas dos países da América Latina e, sobretudo, ao episcopado progressista, foro de verdadeiras disposições conciliares. As próprias conferências nacionais, criadas por incentivo da política papal de Pio XII (1939-1958), se revelaram organismos capazes de suportar hegemonias que, se não a obstaculizam, ao menos não dão respaldo imediato à política Vaticana, funcionando muitas vezes como verdadeiros grupos de pressão contra determinadas atitudes de Roma. É o que ocorre, por exemplo, com a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), criada em 1952. Fruto de articulações que contaram com o empenho pessoal do então bispo resignatário de Olinda (PE), Dom Hélder Câmara – figura destacada do episcopado nacional que se consolidou ao longo do período em que esteve à frente do organismo, sendo rotulado de progressista –, a trajetória da CNBB, no que se refere tanto à vida política do país quanto à própria Igreja, tem sofrido inesperados recuos. O mais dramático deles ocorreu em 1964, por conta do Golpe de Estado, levado a cabo pelos militares, apoiados internamente por setores da burguesia e das classes médias urbanas, em que foi visível a participação de grupos católicos conservadores. 25 Durante cerca de 20 anos, tempo de duração não por coincidência dos cinco governos militares que se seguiram ao golpe (1964-1985), a CNBB foi palco de disputas que resultaram, primeiro, na súbita e breve interrupção no processo de construção de uma hegemonia progressista e, segundo, na retomada desse processo em novas bases políticas que o próprio regime, em seu desenvolvimento, ajudou a definir. Logo após o golpe, em meio a. 25. Sobre a articulação dos setores conservadores católicos que leva à reação cujo desfecho é o golpe, ver especialmente capítulos VI e VII de: DREIFUSS, René Armand. 1964: A Conquista do Estado. 3ªed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1981..
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