AZEVEDO, Ana D’Arc Martins de. [email protected] Universidade do Estado do Pará (UEPA)
Orientador – Profº Dr. Alípio Casali
Resumo:
Esta investigação denominada estudo de caso, e de abordagem qualitativa tem origem no problema: não há clareza suficiente acerca dos processos pelos quais se constrói a identidade étnico-racial das comunidades quilombolas no Brasil; e o conhecimento acerca desse processo é decisivo para aumentar as chances de sua manutenção e desenvolvimento. Assim, objetiva analisar os processos pedagógicos de construção da identidade étnico-racial no cotidiano de práticas educativas de professores(as) em uma comunidade quilombola de Jambuaçu – Moju (PA), sem perder de vista o contexto histórico-cultural, bem como considera procedimentos de pesquisa etnográfica, por meio de coleta de informações: levantamento bibliográfico, entrevistas semi-estruturadas, observação direta e análise documental. A análise dos dados utiliza-se da identidade étnico-racial enquanto categoria focal e elege 3 (três) unidades de análise: as práticas educativas desenvolvidas face à identidade étnico-racial; o trato dado aos conteúdos relacionados à identidade étnico-racial e a percepção dos professores face à identidade étnico-racial. Nesse sentido, este estudo busca aprofundar o debate em torno da identidade étnico-racial no cotidiano de práticas educativas de professores(as) numa comunidade quilombola paraense, a fim de apontar um currículo escolar de valorização do contexto histórico-cultural local. Palavras-chave: identidade étnico-racial; currículo escolar; contexto histórico-cultural; quilombolas.
Introdução
Este estudo que versa sobre os processos pedagógicos de construção da identidade étnico-racial no cotidiano de práticas educativas de professores(as) em uma comunidade quilombola de Jambuaçu – Moju (PA), sem perder de vista o contexto histórico-cultural, é oriundo de minha trajetória como mestranda 1, no qual realizei e defendi a pesquisa intitulada “Interfaces entre identidade negra e projeto pedagógico em uma escola pública de
Ananindeua (PA)”,
Referencial teórico
Identidade, enquanto conceito polissêmico, pode representar o que o sujeito tem de mais peculiar e, ao mesmo tempo, apontar o pertencimento ao mesmo grupo adjetivada por preceitos normativos, pautados por uma concepção relacional e situacional (CANDAU, 2002).
As identidades não têm a solidez de uma rocha e nem são garantidas para toda a vida, visto que são negociáveis e mutáveis, já que as opções tomadas pelos sujeitos, os caminhos que percorrem, e as atitudes tomadas, implicam na determinação dessas identidades para se manterem firmes ou não (BAUMANN, 2005).
Identidade se constitui e se forma ainda em uma comunidade composta de representações culturais e dotada de um sentimento de lealdade, bem como de aspectos que podem surgir de “pertencimento a culturas étnicas, raciais, lingüísticas, religiosas e, acima de tudo, nacionais” (HALL, 2005, p. 08).
Diante do exposto, identidade étnico-racial se constitui em dimensões pessoais e sociais, as quais não podem ser separadas, pois é no âmbito da cultura e da história construída socialmente que essas identidades se formam em diferentes momentos. Deslocam e tornam-se provisórias, variáveis e problemáticas, em um processo contínuo de construção e de reconstrução nas interações sociais dos indivíduos, e dos grupos sociais em seus espaços físicos. É considerar: “as nações modernas, são, todas, híbridos culturais” (HALL, 2005, p. 62).
Nesse contexto, esta investigação se volta para o conceito da identidade étnico-racial “dinâmica, processual, histórica e cultural” (OLIVEIRA, 2004, p. 119), que se forma no decorrer do tempo, por meio de aspectos inconscientes, no plano imaginário e simbólico; conseqüentemente, ela está sempre em construção pelas relações exteriores estabelecidas por essas pessoas no seu cotidiano (WOODWARD, 2000).
Objetivos
Geral: analisar os processos pedagógicos de construção da identidade étnico-racial no cotidiano de práticas educativas de professores(as) em uma comunidade quilombola de Jambuaçu – Moju (PA), sem perder de vista o contexto histórico-cultural.
professores(as); b) contextualizar historicamente essa comunidade; c) revelar a que compreensão, saberes e desafios constituem sobre identidade étnico-racial.
Metodologia
Em função de esta investigação ter origem no problema de que não há clareza suficiente acerca dos processos pelos quais se constrói a identidade étnico-racial das comunidades quilombolas no Brasil; e o conhecimento acerca desse processo é decisivo para aumentar as chances de sua manutenção e desenvolvimento, é que neste estudo levanto a situação-problema de investigação: como ocorrem os processos pedagógicos de construção
da identidade étnico-racial no cotidiano de práticas educativas de professores(as) em uma comunidade quilombola de Jambuaçu – Moju (PA), sem perder de vista o contexto histórico-cultural?
Os objetivos estabelecidos neste estudo, de abordagem qualitativa, levam-me a optar por um estudo de caso, no qual consiste em delimitar minuciosamente um caso de maneira detalhada e explicativa, sempre buscando novas respostas e levantando novas indagações durante o processo investigativo da pesquisa, por meio de sucessivas descobertas que podem surgir no processo do estudo, pois o conhecimento não é algo acabado, mas construção permanente permeada de acertos e erros por meio da relação contextual, em que está situado o objeto de estudo (LÜDKE, 1986).
A fim de tornar menos distante o aporte teórico, com a experiência de campo numa dimensão histórico-cultural, e no intuito de coletar informações e opiniões dos sujeitos (ANDRÉ, 1997), aproximo procedimentos de pesquisa etnográfica enquanto “visão contextualizada do fenômeno pesquisado, onde a diversidade e a heterogeneidade culturais sejam valorizadas” (SOUZA, 2003, p. 34). Nesta perspectiva, os caminhos metodológicos definidos, são: levantamento bibliográfico, entrevistas semi-estruturadas, observação direta e análise documental.
A análise dos dados que utiliza identidade étnico-racial como categoria focal, elege 3 (três) unidades de análise: a) as práticas educativas desenvolvidas face à identidade étnico-racial; b) o trato dado aos conteúdos relacionados à identidade étnico-racial e c) a percepção dos professores face à identidade étnico-racial.
Desenvolvimento
No Brasil, a história do negro ocorreu, por meio de uma complexa organização etnocultural (MORAES, 1989), resultante de relações diversas entre o Velho e o Novo Mundo, entre o “novo” mundo indígena e as antigas culturas africanas que adentraram ao Brasil, mais intensamente do final do século XIX até hoje. Segundo Ferreira (2004, p.38), “o Brasil em relação às outras nações americanas foi o país a escravizar o maior número de africanos e o último país do mundo cristão a abolir a escravidão, em 1888”.
Nesse contexto de conflitos e lutas políticas que perpassam pelo plano simbólico e cultural que a identidade étnico-racial vem sendo construída como luta de afirmação e de direitos da pessoa negra no Brasil, é relevante considerar: “quem aparta e segrega não mostra nenhuma tolerância para conviver com as diferenças” (MUNANGA, 1999, p. 105).
A educação do negro, por exemplo, foi uma luta dos quilombos, que surgiram da iniciativa dos próprios negros, com o objetivo de promover e melhorar a auto-imagem da população negra (GONÇALVES, 2000), por meio de irmandades dos negros católicos que conforme este autor teve influência na educação dos negros no Brasil. Elas foram criadas verticalmente pelos portugueses, tendo o Estado como único agente que podia autorizar a construção. Eram de cunho não apenas educacional, mas assistencialista, cívico e recreativo destinadas às crianças e aos jovens negros, porém, não avançaram em relação à escolarização do negro; contribuíram apenas para a preservação das tradições africanas.
O termo quilombo advém de um processo de recontextualização e com sentido novo, pois:
O quilombo, hoje, não está isolado do restante da população e nem sempre a sua formação decorre de “insurreições ou rebelados”. Um dos objetivos da formação de quilombos, na atualidade, é a luta ou a resistência procurando a manutenção da cultura. Essa perspectiva permite pôr em relevo a importância dos processos de construção da identidade, considerando as características peculiares a cada grupo (REIS, 2008, p. 02).
Atualmente o Brasil começa a dar seus primeiros passos nesse âmbito (LOPES, 2006), um exemplo disso, é a Lei 9394/96, em seu artigo 1. º, que estabelece:
manifestações culturais (BRASIL, 1996, p. 01).
A Constituição Federal também em seu Art. 205, preconiza caber ao Estado assegurar, por meio da educação, direitos iguais para o desenvolvimento integral de todos, e de cada um na condição de pessoa, cidadão ou profissional como possibilidade de valorização da identidade étnico-racial (BRASIL, 1988).
Assim, acho que o currículo escolar precisa propiciar atitudes educativas com fins de viabilizar aos educandos negros que sejam sujeitos e não objetos. Para isso, ele precisa exorcizar os fantasmas dos complexos de inferioridades que alienam esses alunos, que os colocam fora do contexto de que fazem parte e não lhes possibilitam a construção de sua identidade cultural (LOPES, 1987), sendo notório: o negro “não se comportou como coisa no processo de formação do nosso país. O negro foi um agente e não um paciente” (RODRIGUES, 1987, p. 137).
Cabe assim,
[...] pensar em um currículo vivenciado pelos alunos indo além dos conteúdos escolhidos para serem ministrados pelos professores. A existência, na experiência escolar, de um “currículo oculto”, ao lado do currículo oficial, está confirmada por vários estudos sobre o tema, entendido como o conjunto de experiências não explicitadas pelo currículo oficial que nos permite ampliar a reflexão sobre o tipo de mensagens cotidianas – traduzidas pelas páginas dos livros escolares, pelo preconceito racial entre colegas e entre professores e alunos – que são levadas ao conjunto dos alunos negros e mestiços (BELÉM, 2006, p. 81-2).
É a possibilidade de uma consciência crítica, baseada num plano social em que se instaurem currículos e planos pedagógicos, fundados em dimensões históricas, “para que o homem ao sair da posição de objeto assuma a posição de sujeito da sua história” (MACIEL, 2003, p. 22), “sem que se abra mão da diversidade e de suas identidades culturais” (ARAGON, 2000, p. 12).
Diante do exposto, considero como desafio “a valorização da história e culturas dos afro-brasileiros e dos africanos, bem como uma [...] educação de relações étnico-raciais positivas, a que tais conteúdos devem conduzir” (SILVA, 2004, p. 1-2), por meio de currículos e planos pedagógicos, fundados em identidade etnico-racial.
Assim, discutir os processos de construção pedagógica da identidade étnico-racial no cotidiano de práticas educativas de professores(as) em um quilombo paraense, sem perder de vista o contexto histórico-cultural, é contextualizar aspectos étnico-raciais da cultura negra no Brasil que, ao longo da história, procurou, portanto, negar essa cultura, e ratificar uma
identidade construída a partir da relação estabelecida com o outro, o branco, elemento de referência identitária, entre o passado e o presente, entre a memória e a história.
Conclusões
É importante reiterar que, quando se discutem processos pedagógicos de construção da identidade étnico-racial no cotidiano de práticas educativas de professores(as), busca-se uma nova organização de trabalho curricular escolar calcado em atitudes de solidariedade, de reciprocidade e de participação coletiva, bem como “a construção do olhar de um grupo étnico-racial ou de sujeitos que pertencem a um mesmo grupo étnico-racial sobre si mesmo, a partir da relação com o outro” (GOMES, 2003, p. 171).
Neste sentido, acredito que identidade étnico-racial é passível de ser discutida nas práticas educativas de professores(as) em comunidades quilombolas. É uma tarefa desafiadora que se impõe aos educadores envolvidos neste campo e àqueles que almejam um esclarecimento mais profundo sobre o próprio sentido desta discussão.
REFERÊNCIAS
ANDRÉ, Marli E. D. A de. Tendências atuais da pesquisa na escola. Cad. CEDES. [on-line]. Dez. 1997, vol, 18, nº 43 [citado 07 de janeiro de 2006], p. 46-57. Disponível na Word Wide Web:< http://www.scielo.br
ARAGÓN, Luis E. Debates sobre a Agenda Amazônia 21. Belém: Associação de Universidades Amazônicas, 2000.
BAUMAN, Zygmunt. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.
BELÉM. Universidade Federal do Pará. Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica – PIBIC- CNPq e PIBIC UFPA. Relatório Técnico – Científico. A Realidade
Educacional das Escolas Inseridas em Comunidades Remanescentes de Quilombos no Estado do Pará. Belém, 2006.
BRASIL. Constituição Federativa do Brasil. Brasília, 1988.
CANDAU, Vera Maria (organizadora). Sociedade, educação e cultura(s): questões e propostas. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
FERREIRA, Ricardo Franklin. Afro-descendente: identidade em construção. São Paulo: EDUC; Rio de Janeiro: Pallas, 2004.
Desigualdades raciais na escola. São Paulo, SP, v. 29, n. 1, p. 167-182, jan. /jun. 2003.
GONÇALVES, Luis Alberto Oliveira. Negros e Educação no Brasil. In: LOPES, Eliane Marta Teixeira. FILHO, Luciano Mendes de. VEIGA, Cyintia Greive.(orgs) 500 anos de Educação
no Brasil. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 10. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.
LOPES, Helena Theodoro. Educação e Identidade. Revista de Estudos e Pesquisa em
Educação. Raça negra e Educação. Fundação Carlos Chagas. São Paulo, nº. 63, novembro,
1987.
LOPES, Cristina. Cotas raciais: Por que sim? 2. ed. Rio de Janeiro: Ibase: Observatório da Cidadania, 2006.
LÜDKE, Menga e ANDRÉ, Marli E. D. A Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU, 1986.
MACIEL, Ana Amélia de Araújo. O grito ribeirinho: eco da educação em escolas da Amazônia. Imperatriz, MA: Ética, 2003.
MORAIS, Regis de. Cultura brasileira e educação. Campinas (SP): Papirus, 1989.
MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
OLIVEIRA, Ivanilde Apoluceno de. Saberes, imaginários e representações na educação
especial: a problemática ética da “diferença” e da exclusão social. Petrópolis, RJ: Vozes,
2004.
REIS, Maria Clareth Gonçalves. Reflexões sobre a construção da identidade negra num
quilombo pelo viés da história oral. [On-line], p. 01-19. Disponível na Word Wide Web:< http://www.lpp-uerj.net/olped/documentos/0765.pdf. Acessado em 28 de setembro de 2008. RODRIGUES, Argemiro. Irmandade Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Revista
de Estudos e Pesquisa em Educação. Raça negra e Educação. Fundação Carlos Chagas. São
Paulo, nº. 63, novembro, 1987.
SILVA, Petronilha Beatriz Gonçalves e (relatora). Diretrizes Curriculares Nacionais para a
Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Brasília, (DF). Parecer aprovado em 10/03/2004.
SOUZA, M. E. V. Culturas, realidades e preconceito racial no cotidiano escolar. Tese de Doutorado – Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação. Campinas, SP: [s.n.], 2003.
WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (org.); HALL, Stuart; WOOODWARD, Kathrny. Identidade e