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1-Reparos e restauros na Matriz de Itu.
A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Candelária foi inaugurada em 1780, sob a mesma invocação da capela demolida. A fachada foi concluída em 1831.
- esta é a informação do site do IPHAN – Bens Tombados de São Paulo sobre o monumento, acompanhada por foto que a retrata (ao alto, à esquerda), todavia já com a fachada de mais de um século depois, bem diferente da colonial do ano citado acima, obra inteiramente realizada pelo Padre João Leite na década de 1780, a qual será sim complementada pela elevação de uma torre, em 1831, por um filho do Padre Jesuíno do Monte Carmelo, Simão, também padre secular, que a construiu sem alterar o frontispício original, substituído somente em 1888 pelo eclético de Ramos de Azevedo. É preciso, pois, cuidar de reparar a informação, complementando-a devidamente, pois dá a entender uma história absurda, que embaralha os fatos, e só faz desvalorizar o monumento.1
Malgrado a nefasta intervenção em completo desacordo com a sua ornamentação interior, foi mesmo assim tombada em 1938, por constituir o mais rico exemplar da Arte Colonial paulista e que agora está se revelando em toda a sua plenitude graças às obras de restauro em curso, especialmente as que se prontificam na capela mor e que poderão ser vistas e admiradas pelo público nas comemorações do aniversário da cidade, em 28 de fevereiro próximo.
Afora a pintura do teto da capela-mor, de autoria de José Patrício da Silva Manso, cujo restauro se fez na década passada, descobriu-se pinturas nas paredes laterais da capela, à moda de azulejaria, relativas a cenas do Velho Testamento, que estão sendo resgatadas, quase por inteiro (um pequeno trecho infelizmente desapareceu com a substituição de parte do madeirame), pelos serviços de restauro artístico, cuja execução permite desde já afirmar são contemporâneas às telas que representam cenas da vida de Maria e de Cristo, cuja autoria Mário de Andrade, baseado na literatura histórica, atribuiu a José Patrício e ao seu “aprendiz” Jesuíno Francisco de Paula Gusmão, o Padre Jesuíno do Monte Carmelo.
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Aliás, muito diferente também do juízo que o escritor, poeta e crítico de Arte Mário de Andrade fez a seu respeito quando enviou ao Dr. Rodrigo Melo Franco de Andrade (igualmente escritor e advogado), Diretor do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em Relatório de 16 de outubro de 1937, as primeiras informações sobre a Candelária. Repare: “Matriz de Itu. Se a parte externa desta igreja nada vale, com suas remodelações, nela viveu um
Deus faustoso. Os altares setecentistas são da milhor talha e as paredes se povoam de quadros muito curiosos.”
Como se vê, a “aversão ao eclético” não era somente própria dos arquitetos do Serviço - acusação comumente dirigida a Lúcio Costa e demais colegas da época, incluindo obviamente o arquiteto Luís Saia, que se tornaria responsável pela direção dos trabalhos de preservação em São Paulo, onde ainda contando com o apoio de Mário de Andrade, efetua os primeiros restauros arquitetônicos. A Matriz de Itu, porém, ao contrário das igrejas jesuíticas de São Miguel e de Na. Sra. do Rosário do Embu, talvez por estar em bom estado de conservação, não foi objeto das atenções da dupla de arquitetos-restauradores (Lúcio e Saia), e acabaria por conservar a fachada que substituiu a antiga, colonial, obra de fins do século XVIII.
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2-Essas telas estão sendo novamente restauradas, porém agora com a técnica mais adequada, retirando-se todas as repinturas feitas a título de “restaurativas”, reintegrando o que é possível reintegrar e complementando áreas perdidas com preenchimento pictórico alusivo que, à distância, permite perceber a unidade conceptiva primitiva das representações.
As telas, que foram levadas para a oficina da Julio Moraes Conservação e Restauro para os cuidados emergenciais e estruturais que reclamavam, retornam agora, cada qual ao seu lugar, às paredes laterais da capela mor, onde serão objeto da atenção dos artistas plásticos encarregados de sua reconstituição pictórica – tarefa que poderá ser observada diariamente pelo público ituano.
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Há também a qualidade das imagens que estão sendo restauradas também em S. Paulo. E o destaque é a padroeira, Nossa Senhora da Candelária, cujo trabalho de decapagem ainda não se concluiu, sendo forçosa a sua permanência, ainda por mais algum tempo, na oficina de restauro, dadas as especificidades dos serviços que requer. Mas, o que já se pode ver, após a retirada da roupagem que lhe recobriu sabe-se lá por qual ou quais razões, é coisa pra lá de espetacular, revela um trabalho artístico de grandioso valor, e a resgata em toda sua beleza e esplendor, e que provoca a curiosidade dos especialistas e conclama os historiadores da Arte a envidar esforços em busca dos artífices que a criaram – pois é obra que requereu conhecimento, experiência e muita competência, tanto do escultor que a criou, como e sobre tudo do pintor que a encarnou.
O destaque maior porém é o retábulo mor, agora resgatado em seu douramento e em suas cores originais – também obra de José Patrício da Silva Manso – que eleva o trabalho escultórico de seu verdadeiro autor – Bartholomeu Teixeira, recentemente descoberto na documentação cartorial da cidade – a um tão alto grau de qualidade artística, antes jamais imaginada, nem mesmo pelos especialistas que vem se debruçando sobre os altares coloniais paulistas.
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4-Muitos acadêmicos e críticos de Arte vêm acompanhando, com enorme interesse, os trabalhos de restauro dessa peça escultórica, entre os quais vale citar: Percival Tirapeli, Mozart Bonazzi e, ultimamente, Jorge Coli a quem tivemos o prazer de acompanhar em visita a Matriz e aos monumentos de Itu recentemente.
E, reparem, há quem, no IPHAN de São Paulo, nutra a esperança de, apesar do evento programado não prever realização de encontro entre especialistas, como propõe o historiador e maestro Luís Roberto de Francisco em seminário que atualize o conhecimento sobre a Arte Colonial Paulista a partir das ações realizadas nos monumentos ituanos nesses últimos trinta anos, contar com a presença da Doutora Myriam Ribeiro Oliveira, de modo a dela obtermos uma manifestação, mesmo que apenas introdutória, acerca dos resultados até agora colhidos na Matriz, especialmente de seu retábulo mor, o qual se reapresenta, cerca de dois séculos e meio depois de sua criação, resplandecendo em suas primitivas cores e douração que a todos tem encantado não só pela beleza intrínseca como pela harmoniosa integração com o grandioso painel que orna o teto da capela mor – outra obra-prima do Pintor que tinha a preferência do Bispo Dom Manuel da Ressurreição que impôs a sua contratação em
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5-1786, contrariando desejo da mecenas de Itu, Dona Maria Francisca Vyeira que patrocinava as obras, destinando verbas testamentárias para esses específicos fins: a fatura do retábulo pelo escultor Bartholomeu Teixeira, bem como sua pintura e douração, e ainda a fatura do painel Ministério da
Purificação no forro, sendo seu desejo fosse realizada por um aparentado seu, o ainda desconhecido pintor Joze Duarte do Rego que, suspeitamos, deve também ter deixado na matriz alguma obra, ainda não identificada, entre os elementos confeccionados à época. Louvemos, todavia, a arbitrária mas sábia decisão do erudito bispo, franciscano de origem, que impôs o Pintor José Patrício da Silva Manso, por ser melhor artífice na verdade e por todos havido, e reputado por tal.
Aliás, vale aqui relembrar os termos do contrato por ele firmado em 26 de novembro 1786. Os serviços a serem por ele executados compreendiam o retábulo do altar mor, com sua tribuna, camarim
desta e banqueta, com todo o oiro precizo nas talhas e morduras e nas partes onde não levasse ouro com tintas finas, a pedras fingidas o mais perfeito que puder fazer ... assim mais a semalha tal e seis tribunas da dita capela mor com frisos e molduras e talhas douradas, assim mais o arco da dita capella mor e com todas as molduras douradas e pedras fingidas, os dous púlpitos da dita igreja com toda talha dourada e pedras fingidas como também o Presbitério tingido de pedras. Pela descrição dos serviços, conclui-se que os altares colaterais ainda não haviam sido faturados.
E, quanto ao forro da capela mor, devia executá-la a ólio e com suas melhores pinturas e no
meio um painel do Ministério da Purificação. 2
O público que comparecer à cerimônia, ao se acomodar nos bancos nave, logo notará que os serviços de restauro já se fazem também presentes neste grandioso espaço: inteiramente substituído o piso hidráulico por tabuado de madeira tal como era originalmente, e verificará que tanto a bela balaustrada que o cerca bem como os altares laterais já se apresentam em alguma medida livres das tintas que desfiguravam suas feições primitivas, e observar suas antigas cores e também doirados aqui e acolá que só estarão inteiramente restaurados ao término dos trabalhos.
Mas, é preciso alertar para uma incômoda eventualidade: os recursos disponibilizados pela Prefeitura e pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social não serão suficientes para garantir o restauro de todos esses elementos. Será preciso uma suplementação, talvez mesmo um projeto complementar, que demandará trabalho paralelo, técnico e talvez demorado trâmite burocrático, para garantir a continuidade dos serviços de restauro e, desse modo, resgatar inteiramente a decoração original da Matriz do final do século XVIII. Façamos votos de que sejam providos sem delongas e contratempos.
Quem estiver presente à cerimônia será brindado, antes e depois da celebração da missa comemorativa, com apresentação de músicas sacras, compostas pelo Padre Jesuíno do Monte Carmelo, pelo Coral Vozes de Itu, sob a direção do citado Maestro Luís Roberto de Francisco, e se deixará enlevar por elas, de maneira a naturalmente ver-se estimulado a olhar para o alto em busca de cenários
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CERQUEIRA, Carlos Gutierrez – JOSÉ PATRÍCIO DA SILVA MANSO, in José Patrício da Silva Manso (1740-1801): UM PINTOR COLONIAL PAULISTA RESTAURADO. Publicação do IPHAN – 9ª SR – 2007. Brasil Patrimônio Cultural. Pag. 21.
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6-complementares, alusivos talvez a Senhora da Candelária, notando todavia a inexistência dessa ou de outras representações tão próprias das igrejas coloniais brasileiras. Verá, ao contrário, um forro recentemente refeito, com tábuas que reluzem ainda o verniz brilhante de obra nova, e se perguntará se ali não foi cometido um desses lamentáveis equívocos que a História costuma registrar.
Mas, não. Aqui não ocorreu o que infelizmente se deu com o forro da nave da vizinha igreja de Nossa Senhora do Carmo que, de um dia pro outro, viu substituído quase todo o madeirame original, deixando restar somente o núcleo do tabuado antigo onde ainda se pode ver uma pintura de Santa Teresa, desfazendo-se lentamente pela infiltração de umidade e pelo ataque de cupins que todavia tem a vantagem de nos revelar traços da pintura original feitos pelos pincéis de Jesuíno Francisco e Paula Gusmão já desfigurada pelas repinturas que sofreu.
Na Matriz, a ausência de pintura no forro da nave sempre houve, tendo sido constatada pelo viajante francês August de Saint-Hilaire, cerca de cinquenta anos depois de construída. Aliás, reparou que a nave nem forro ainda tinha quando a visitou. O que o surpreendeu deveras. Notou, e também pôs reparo, que a igreja não tinha campanário – coisa que será providenciada, como já se noticiou, poucos anos depois pelo filho do Padre Jesuíno. Terá também por esta época providenciado o forro que faltava? De qualquer modo, o forro, tal como a torre, foi prontificado muito tempo depois de concluída a sua ornamentação interna na última quadra do século XVIII, caracterizada ainda pela estética barroca e por elementos precursores do neoclássico que, de acordo com o maestro Luís Roberto, podem ser notados também nas músicas de Padre Jesuíno. De maneira que a decoração pictórica do forro, se houvesse sido feita, teria sido realizada em momento em que o estilo artístico das pinturas da capela mor já se modificara substancialmente, pautando-se em modelos clássicos em oposição à pomposa ornamentação anterior, razão porque, mesmo se houvesse artista igualmente capaz de criar obra de valor equivalente àquelas, acabaria por romper a unidade conceptiva - tal como ocorreria em tempo ulterior com o novo frontispício - imprimida á igreja de Nossa Senhora da Candelária à época em que Padre João Leite Ferraz gerenciava a totalidade das obras, quer de sua edificação quer de decoração interior, a qual (ao menos dessas últimas) agora estamos a meio caminho de seu completo restauro.
Mas, nem tudo é motivo para comemorações. A continuidade das obras de restauro só será assegurada desde que, repito, consigamos angariar apoio para obter a complementação dos recursos
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7-que lhes são necessários, sem o -que não haverá condição para o seu prosseguimento e nem teremos mais motivos e nem ânimo para botar mais reparo algum, sejam nos restauros já executados sejam naqueles que restam a fazer.
SP, 24.II.2016 Carlos Gutierrez Cerqueira IPHAN/SP