VALTER MANOEL GOMES
F O I ^ S DO P E N S A M E N T O H I S T O R I O G R A F I C O C A T A R I N E N S E
D i s sertação apre s e n t a da ao Curso de P o s - G r a d u a ç ã o em História^ da Universidade Federal de Santa Ca_ tarina^ como req u i s i t o -parcial à obtenção do grau de Mestre.
Florianópolis
E x pressamos a nossa g r a t i d ã o a todos que d e s p e r t a r a m em nôs, o interesse pelas ações de o utros e q u e r o b u stece r a m a nossa r e s p o n s a b i l i d a d e e m r e l a ç ã o ao que p o d e ser feito.
C u m p r e - n o s d e s t a c a r u m a g r a d e c i m e n t o à Co o r d e n a d o r i a d o Curso de P ô s - G r a d u a ç ã o em História, ao D e parta m e n t o de História, â Secret a r i a e D i r e ç ã o do C e n t r o de Ciên cias Humanas, da Unive r s i d a d e F e d e r a l de Santa Catarina, pelas condi ç õ e s de trabalho p r o p o r c i o n a d a s .
U m a grati d ã o m u i t o e s p ecial aos colegas d o Depar tamento, Valmovj LauTa^ Rufino^ T h e r e zinha^ Fâti-maj Ru-Cz e Sara^ e ao nosso O rientador P r of es so r Piazza^ p e l a c o l a b o r a ção, não institucional, b r o t a d a de u m a g e n e r o s a c r e n ç a e m n o £ sas possibilidades.
R E S U M O
C o n s t i t u i - s e esta d i s s e r t a ç ã o <<âe u m e s tudo sobre a H i s t o r i o g r a f i a Catarinense, ã luz d o n o v o estatuto d a Histõ ria, a g o r a c i ê n c i a h i s t ó r i c a c o m p r o m e t i d a c o m a sociedade e c o m o presente.
A l g u n s histor i a d o r e s catari n e n s e s f o r a m examin a d o s na q u a l i d a d e de mediadores, entre a p r o p o s t a o b j e t i v a d o p a £ sado que ê o d o c u m e n t o - e a p r o p o s t a s u b j e t i v a d e u m p r e s e n te - que se c o n s titui d e teorias, de limitações, de q u e s t i o n a m e n t o s d o lugar soçial do historiador.
H ã três m o m e n t o s básicos de a t enção e de exame: da ú l t i m a d é c a d a do século X VIII ao f inal da s e gunda d é c a d a d o sé culo XIX, c o m p r o d u ç ã o h i s t o r i o g r â f i c a c e n t r a d a na ideologia d a conquista; da sexta à o i t a v a d é cadas d o século XIX, q uando os h i s t o r i a d o r e s d e f e n d e r a m a i d e o logia da conciliação, d e f e n sora d a o r g a n i z a ç ã o política, social e e c o n ô m i c a vigente; e da 'segunda à o itava décadas do século XX, finalmente, q u a n d o ,
i d e o l o g i c a m e n t e n a c i o n a l i s t a s e elitistas, os h i s t o r i a d o r e s ’p e s q u i s a d o s a p o n t a r a m p a r a inovações teóricas e m e t o d o l ó g i c a s geradoras das c o n d ições p a r a uma intele c ç ã o c a t a r i n e n s e d o pas sado.
A lenta e v o l u ç ã o da p r o d u ç ã o h i s t ó r i c a c a t a r i n e n s e , s o mada ã n o v a c o n s c i ê n c i a social e às inovações s u p racitadas , cu l m i n a na formação, e m d a t a b e m recente, das c o n d i ç õ e s mini m a s p a r a . u m e s t u d o de Historiografia.
The p u rpose of this d i s s e r t a t i o n is a study of the H i s t o r i o g r a p h y of Santa C a t a r i n a u n d e r a n e w light, w h e r e the h istorical science is compro m i s e d w i t h society and w i t h the present.
Some historians of Santa C a t a r i n a w e r e v i e w e d as m e d i ators b e t w e m an o b j e c t i v e proposal of tfae past - W h a t is the d o c u m e n t and a subjective propo s a l of the p r e s e n t - w h i c h is c o m p o s e d of theories, limitations and i n t e r r o g a t i o n s about the h i s t o r i a n social position.
There are three basic m o m e n t s of a t e n t i o n and analysis. The first m o m e n t c o v e r e d from the 1 7 9 0 's to the 1 8 2 0 's, p eriod w h e r e the h i s t o r i o g r a p h i c p r o d u c t i o n is c e n t e r e d in the i d e o l o g y o f the conquest. The second m o m e n t w e n t from the 1 8 5 0 's to the 1 8 7 0 's. D u r i n g this p e r i o d historianscfefended the ideology of conciliation, an ideology w h i c h stood by the cu rrent political, social and e c o n o m i c organization. F i n a l l y , the third m o m e n t covered from the 1 9 1 0 's to the 1 9 7 0 's, • w h e n n a c i o n a l i s t and elitist histo r i a n s w e r e a t t r a c t e d to theoreti cal and m e t h o d o l o g i c a l i n novations w h i c h c r e a t e d the conditions for a C a tarinense i n t e r pretation of the past.
The slow e v o l u t i o n of the h i s t o r i c a l p r o d u c t i o n toge ther w i t h a n e w social consc i o u s n e s s arid t h e o r e t i c a l and m e t h o d o l o g i c a l innovations brougt, in r ecent years, the m i n i m u m conditions for a study of the C a t a r i n e n s e Histo r i b g r a phy.
O p r e s e n t e trabalho se d e stina a o exame d o g r a u de c o m p r o m e t i m e n t o d o histor i a d o r c a t a r i n e n s e a u m a b a s e teórica e a e s t a b e l e c e r a r e l a ç ã o entre essa base e o d i s c u r s o h i s t o riogrãfico.
0 "status quaestioni-s” ê fruto de u m a e v o l u ç ã o epis temológica, de u m novo estatuto d a História, u m a H i s t ó r i a que se compro m e t e com a sociedade, com o presente, " s a n g r a n d o " , e q ue é capaz e que tem o d e v e r de d e s p e r t a r forças q u e produ zam futuro.
S e m fazer o favor de c o n s i d e r á - l o s valiosos, os tra b a l h o s p roduzidos sobre a H i s t o r i o g r a f i a Catarinense, atê aqui, n ã o f o r a m e stimulados por ambições maiores.
Nossa p r o p o s t a e nossa a m b i ç ã o foi, justamente, a da ident i f i c a ç ã o d e u m a H i s t o r i o g r a f i a Catarinense, que, teó rica e m e t o dologicamente, fosse o m o d o c a t a r i n e n s e de pensar a H i s tória de Santa Catarina; m o v e u - n o s d i n t e resse de estabe lecer u m a conexão, entre as fases iniciais d a p r o d u ç ã o histó rica, c o m a p o s t u r a c i e n t í f i c a p o s t e r i o r â f u n d a ç ã o d a Facul dade C a t a r i n e n s e de Filosofia, Ciências e Letras e o C u r s o de P ó s - G r a d u a ç ã o em História, d a U n i v e r s i d a d e F e d e r a l de Santa Catarina; u m e n saio de H i s tória d a H i s t ó r i a Catarinense. Pro pusemo-nos, ainda, a i dentificar e a interp r e t a r as v a r i ações da forma do p e n s a m e n t o h i s t o r i o g r â f i c o "barriga verde".
A pesquisa agora r e a l i z a d a b u s c o u a v a r i e d a d e de abordagens, a s u b s t i t u i ç ã o de q u e s t i o namentos, o proces samento de revisões, as tendências q u e se acentuam.
G o n s i d e r o u a prcxiução h i s t ó r i c a como t r a balho es sencia l m e n t e intelectual, que se v a l e de idéias, q u e se consti tui de idéias; e s t a b e l e c e u u m c o n f r o n t o entre o p r o c e s s o h i s t õ rico, a c r i t i c i d a d e social e as i n t e r p r e t a ç õ e s / r e s p o s t a s âque las r e a l i d a d e s q u e o h i s t o r i a d o r d e v e compreender.
O e s t u d o se d e s e n v o l v e u e m d i r e ç ã o â d e m o n s t r a ç ã o das h i p ó t e s e s r e l a t i v a s ao r e c r u t a m e n t o dos h i s t o r i a d o r e s na e lite administrativa, m i l i t a r e eclesiástica, ã e l a b o r a ç ã o de uma H i s tória v o l t a d a para o passado, d e s l i g a d a dos interesses sociais, de r e g i s t r o e d e m a n u t e n ç ã o do '[status quo", â desti n a ç ã o dos trabalhos a u m a s o c i e d a d e a - c r í t i c a e à e v o l u ç ã o his toriogrãfica, m a i s p o r a c u m u l a ç ã o de conhecimentos, de objetos conhecidos, d o que p e l a s u p e r a ç ã o c i e n t i f i c a (teoria e método)- .m a n e i r a s de
conhecer.-N ã o é u m traba l h o exaustivo. M u i t a s c o n t r i b u i ç õ e s não f o r a m e x a m i n a d a s e m u i t o s fatores c o n t r i b u t i v o s ãs obras apreciadas, n e m siquer f o r a m citados.
O t r a b a l h o se l i m i t o u à "êpooa a m a d o r i s t a ” d a produ ção histórica, isto é, d a p r o d u ç ã o não acadêmica, dos primei ros m e m o r i a l i s t a s até O s w a l d o R o d r i g u e s Cabral, s e m formação u n i v e r s i t á r i a em História.
. A fase p o s t e r i o r â c r i a ç ã o d o Curso de Pós- Gradua ção e m História, d a U n i v e r s i d a d e F e d e r a l de S anta C a t a r i n a , que e n sejou u m a t r a n s f o r m a ç ã o q u a l i t a t i v a c o n s i d e r á v e l - a H i s t ó r i a c i e n t í f i c a - n ã o fazia p arte d o â mbito d a p e s q u i s a projetada.
As m u d a n ç a s havidas, e m termos h i s t o r i o g r á f i c o s , são uma r e a l i d a d e insuspeitâvel; p o r é m os elementos, as d i m e n soes e os s i gnificados d e s s a s m u d a n ç a s ainda não f o r a m e s t u d a dos.
c a p í t u l o I
o
H I S T O R I A D O R E O D I S C U R S O H I S T O R I O G R A F I C OH ã no h o m e m u m passado, q u e o c o n d i c i o n a e o limita ; ao c o n h e c ê - l o e o r g a n i z á - l o o h o m e m se liberta, libera as suas po s s i b i l i d a d e s e se torna capaz d e p r o d u z i r futuro.
0 h i s t o r i a d o r ê u m e s p e c i a l i s t a d e s s a libertação; co nhecer o q u e já foi, e fazer e n t e n d e r que a s o c i e d a d e p o d e ser diferente, é sua tarefa. D e v e o h i s t o r i a d o r ”O rg anizar o p a £
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sado em f unção do p r es en te , "... d om inar o p a s s a d o . . . ” e "... d i s t i n gu i r as a l te rn at iv as do p a s s a d o " ^ sempre a s e r viço dos vivos.
0 c o n h e c i m e n t o histórico, c o m o q u a l q u e r o u t r o c o n h e c i mento, c o n s i s t e n o r e f l e x o de u m a parte d o mundo, como r e a l i d a de objetiva, m a s c o n s i s t e t a m b é m e m criatividade; "Conhecimento é a r e p r es en t aç ão y criada pelo intelecto ^ a t ri bu in do um signifi_ oado ã r e a l i d a d e " ^ .
^FÈBVRE, Lucien. Combates por la H i s t o r i a . Barcelona, Ariel , 1 97 4 , p. 245.
2 -
CARR, Edward H. Que é H i s t o r i a ? Rio de Janeiro, Paz e Terra , 1 9 7 6 , p. 25.
3
-TREVOR-ROPER, H. H i s t o r i a e I m a g i n a ç a o . Caderno de Cultura , Jornal E stado de São Paulo, 19/10/1980.
^KOCHE, J.C. F undamentos de M e t o d o l o g i a C i e n t í f i c a . Porto Alegre, Vozes, 1982, p. 13 e segs.
c ompreende o m u n d o real, p e r m i t i n d o ao h o m e m uma i n t e g r a ç ã o in telectual neste m u n d o real.
Diz B a s b a u m ^ que a consc i ên ci a é o p r oc es so mental através do qual o homem estabelece a sua identidade no meio, r £ flete sua relação com este meio e se torna capaz de criar valo_ r,es relativos ao meio, optando, limitando e a tr ib ui nd o- lh es fun ções, consideradas as circunstâncias.
Pela a b u n d â n c i a e r i queza dos conhecimentos, o h o m e m amplia a sua c o n s c i ê n c i a individual, r o m p e o seu microc o s m o , e se integra na humanidade, num fenôm e n o social.
'■ Inelutavelmente, a a t i v idade i ntelectual d o h i s t o r i a dor começa num lugar social, n u m limite, como diz Certeau^, em conceitos, como quer_y,e;
0 p r o c e s s o de e l a b o r a ç ã o d o c o n h e c i m e n t o h i s t õ r i c o se o r i g i n a em c o n h e c i m e n t o s a dquiridos e a c e itos "a p r i o r i " pelo historiador, e é d e f l a g r a d o a p a r t i r d e d e t e r m i n a d o lugar, ali onde se c r u z a m e se f u n d e m as influências do e s p a ç o e do tempo.
C ultiv a d o r de u m a d i s c i p l i n a - a H i s t ó r i a - e m e m b r o de u m a c o m u n i d a d e científica, q u e retifica, alarga, a p r o f u n d a e supera o saber histórico, o h i s t o r i a d o r não ê u m a v e n t u r e i r o isolado. D e s t i n a m - s e p r i n c i p a l m e n t e â c o m u n i d a d e c i e n t í f i c a as obras q u e se p r e t e n d e m h i s t o r i o g r ã f i c a s , porque terão ali leito
^BASBAUM, Leôncio. História e consciência s o c i a l . Global Edito_ ra, são Paulo, 1982. p. 26.
^CERTEAU, Michel de. A Escrita da H i s t ó r i a . Forense, Rio de J £ neiro, 1982. p. 66.
^VEYNE, Paul. Como se escreve a H i s t ó r i a . Brasília. Ed.Univ. de Brasília, 1982. p. 65.
res capazes de e s t a b e l e c e r u m a r e l a ç ã o c o m u m e s t a d o de q u e s t ã a ^ A s s e v e r a Rodri g u e s ® q u e "A obra histórica^ num estudo de Historiografia, deve ser vista e examinada como obra h i s t o r ^ ca, pelo seu v a lo r i n t r í n s e c o , como c on tr i b u iç ã o ao desenvolvi^ mento de sua disciplina". N a m e s m a linha d e pensamento, C e r t e a u
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re f e r e - s e ã o b r a h i s t ó r i c a c o m o "... aquela ... r e c on he ci da como tal -pelos pares. A q ue l a que pode ser situada num conjunto o p e r a t o r i o " .
M a r r o u ^ ^ é a i n d a m a i s c l a r o q u a n t o ao p o n t o d e parti da d o p r o c e s s o de e l a b o r a ç ã o d o c o n h e c i m e n t o histórico: " Para qualif i ca r o p a s s a d o temos que dar-lhes üma f orma que o espiri to possa apreenderj um rosto que o olhar da consci ên ci a possa Ver, um nome enfim - um c o n c e i t o " .
Assim, a d i s c i p l i n a e m si - a H i s t ó r i a - , c o m seu e s t a t u t o próprio, a c o m u n i d a d e c i e n t í f i c a - onde se p r o c e s s a m tanto a c r í t i c a i ntersubjetiva, q u a n t o a a d m i s s ã o de conceitos, a c o n s c i ê n c i a social e a ideologia, são p a r c e l a s import a n t e s d a q u i l o que o h i s t o r i a d o r já sabe e já aceita, ao iniciar u m seu trabalho. Ei-lo, p r a t icamente, c o m u m q u a d r o r e f e r e n c i a l teóri co, q u e lhe r e c o m e n d a a s e leção de u m o bjeto e a m a n e i r a de abordá-lo.
N ã o é u m d e s p r e v e n i d o e i n g ê n u o se l a n ç a n d o à pesquJ^ sa; d i s p õ e de i n s trumentos a p r opriados, como os conceitos, e apoio logístico; não é t a m b é m u m inocente; já t e m p r e f e r ê n c i a s
8 • -
RODRIGUES, José H. H i s t o r i a d a H i s tória do B r a s i l . Nacional , Sio Paulo, 1979. pãg. XV.
^CERTEAU, M. op. cit., p. 72.
mentos, arquivos e práticas. Ç sô i n a d v e r t i d a m e n t e tenta res suscitar o passado; sabe que o d o c u m e n t o é apenas u m a v e r s ã o de uma a l t e r n a t i v a d o passado.
O h i s t o r i a d o r faz u m a i n t e l e c ç ã o d o passado, nada mais. E l a b o r a u m d i s c u r s o i n t e r p r é t a t i v e que será tanto mais v a
lioso q u a n t o mais r e velar u m p e n s a m e n t o c r í t i c o e uma intenção explícita.
C o n s c i e n t e disso, nas duas p r i m eiras edições da sua "Evolução P ol ít ic a do B r a s i l ”, Caio P r a d o Júnior fazia uma cha m a d a p a r a o seu pensamento, c o m o s u b t ítulo de "Ensaio de intev_ p retação m at e r i al i st a da historia b r a s i l e i r a " .
Além* disso, ele t e m c o n s c i ê n c i a de que a obra ê posta numa r e l a ç ã o c o m outras; e, de seu lugar, admite tanto o múlti pio, q u a n t o o p r o v i s ó r i o e, m e s m o q u e p r o c u r e m a n t e r uma i n s u £ t entável p r e t e n s ã o d e ’ neutralidade, não c o n s e g u e c a m uflar em seu d i s c u r s o as intenções p e r f o r m a t i v a s .
Assim, sem d e s p r e z a r os c o n d i c i o n a m e n t o s diversos, ã retaguarda, c o m as instituições especializadas, d i r e t a m e n t e in teressadas no seu trabalho, a q u a l i d a d e dos arquivos, a quanti dade de documentos, o nível d o q u a d r o teórico, c o n v é m - a d i a n t a r , n e s t e momento, que o h i s t o r i a d o r nutre intenções b e m subjetivas na d e s t i n a ç ã o d o trabalho h i s t o r iogrâfico, na v o n t a d e de inter v i r n o p r o c e s s o h i s t ó r i c o - \ama c o n s c i ê n c i a social em forma de liderança intelectual.
A vontade, aliás, é u m a das formas de m a n i f e s t a ç ã o da consciência, c a r a c t e r i z a d a p e l a o p c i o n a l i d a d e e pela l ogícidade e, portanto, c o m liberdade e com esforço.
cevteza aprese nt ad a ..." diz Liard^^.
Por outro lado, "A decisão., diz B a s b a u m , e o resuí^ tado de um processo que se verifica no cérebro humano em virtu de de estímulos externos, p o r uma necessidade de ordem psico-fi_ siológica,, o p e n s a m e n t o . Essa decisão se realiza na ação atra^ vês da v o n t a d e " . .
Por esta razão, recomenda-se, hoje, substi t u i r a e x p r e s s ã o "escrever H is t ória" por "fazer a H i s t ó r i a " ^ ^ . A escri ta, o discurso, se sobrepõe ao real, u m a vez que o real não se c o n segue captar e estudar, e t a m b é m p orque no fato e no d o c u m e n to não reside a v e r dade plena.
* • Trevor-Roper^^ chega a a d v ertir que há u m q u a d r o ge ral d e forças, inclusive as v e n cidas e/ou inibidas, g e r a n d o
acontecimentos; "... a H i stória não ê meramente o que aconte_ ceu:' é o que acont e ce u dentro do contexto do que p o de ri a ter a c o n t e c i d o " .
A solução a d otada ê a da t r a n s f e r ê n c i a da v e r d a d e pa ra o p r oduto do trabalho intelectual d o historiador: para a for m a grafica. Uma m a n e i r a de abordar, u m m é t o d o - toda u m a prâti ca - e u m d i s c u r s o numa r e l a ç ã o de produção: isso é fazer a História. 0 histor i a d o r p r o p õ e (ou impõe) um limite: u m perío do, u m objeto, u m lugar. Para compreender, pela prática, o his t oriador vai â realidade; porém, depois, essa m e s m a r e a l i d a d e é ''sepultada" pelo d i s c u r s o continente da intelecção que o his to riador fez dela.
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^^LIARD, L. L Õ g í c a . Nacional, São Paulo, 1979 . p. 165 ^^BASBAUM, L. op. cit. p. 15
^^CERTEAU, M. op. cit. p. 32
Historia é e s t a b e l e c e r u m a r e l a ç ã o entre u m lugar (esse C u r s o de M e s t r a d o e m História, d a U F S C ) , p r o c e d i m e n t o s de análise
(problema, hipótese, método, c o n d ições conjunturais, h a b i l i d a d e crítica, capacidade criativa, etc) e a e l a b o r a ç ã o do texto. E nesta relação, se se a l t e r a o lugar, m u d a t a m b é m a p r ática d a d i s c i p l i n a e a forma d o discurso. Daqui, deste lugar, se forma liza o p a s s a d o para, e n t ã o ^ p r o c u r a r seus vestígios, isto é, as provas documentais.
E m outras palavras; e s t r i b a d o firmemente numa formali zação do passado, o h i s t o r i a d o r o investiga, e x a m i n a n d o os des vios. "A prãt-íoa encontra o p as sa do sob a forma de um d esvio re_
lativo a m od el os presentes", ensina Certeau^^.
A s s i m procedendo, o h i s t o r i a d o r evita que o p a s s a d o seja u m p e s o morto, qiie a g e r a ç ã o do p r e s e n t e seja i n a p e l a v e ^ m e n t e c o n d e n a d a a carregar; a H i s t ó r i a p a s s a a ser "... uma co_ nexão entre o p a ss a do e o presente... uma força v i v a " ^ ^ .
E m decorrência, a obra h i s t ó r i c a p a s s a a ser o r e s u ^ tado de uma r e c o n h e c i d a b o a o p e r a ç ã o de "fazer H i s t o r i a " , q u a n d o o historiador, o b e d i e n t e aos estatutos da H i s t ó r i a como dis ciplina, c u m p r e a sua f u n ç ã o social, atrâvés de uma contribui ç ã o p e ssoal e marcante, na c o n s i d e r a ç ã o q u a l i t a t i v a do enrique c i m e n t o d a m e s m a disciplina.
Que se d e v e p r o c u r a r ou o q u e se pode e s perar de uma série d e obras h i s t o r i o g r á f i c a s ? C l a r o que não é u m a simples evolu ç ã o linear, m e r a a c u m u l a ç ã o de conhecimentos, nem a p reocu pa ç ã o p e l o d a d o c o m u m e regular.
^^CERTEAU, M. op. cit., p. 107
^^RODRIGUES, J.H. Teoria da Historia do B r a s i l , Nacional, São P a u l o , 1 9 6 9 . p . 30.
C o n s i d e r a m o s h i s t o r i o g r â f i c a a obra h i s t ó r i c a q u e é o o b j e t o de e s t u d o da Historiografia, isto é, a quela d e q u e se e £ tudam justamente essas c o n tribuições pessoais, i n t e l i g e n t e s e conseqüentes, esses p e n s a m e n t o s e c o m p o r t a m e n t o s inovadores.
Estas obras são p r o d u ç õ e s intelectuais, c o n d u z i d a s por inteligências e vontades, por d e v e r e s e liberdade, e n ã o u m m e r o a r r o l a m e n t o de const a t a ç õ e s visuais; é, pois, d e se e s perar q u e as obras h i s t o r i o g r â f i c a s a p r e s e n t e m a b u s c a do diverso, d o irregular, d o que inova e subverte.
Inverteram-se as posições; a e x p l i c a ç ã o d o p a s s a d o - única, ú l t i m a e d e f i n i t i v a - foi u m engano. Ê impossível conhe cer o p a s s a d o como ele r e a l mente aconteceu; ê m a i s i n t e l i g e n t e e h o nesto a d mitir que a m e l h o r aproxi m a ç ã o d a r e a l i d a d e p a s s a d a acontece através da p l u r a l i d a d e de versões, frutos d e q u e s t i o n a mentos e de a bordagens diferentes, v e r d a d e s p a r c i a i s e p r o v i s õ rias, p r ó prias de pessoas re textos, acomodados e m seus r e s pecti vos contextos. E s s a s ^ v e r s õ e s são r e sultantes dos valores, das categorias conceituais, dos m o delos e das teorias de cada g r u p o p s i c o - s o c i a l , e m sua e v o l u ç ã o sócio-histórica.
0 "fazer H is to ri a " a s sume formas compat í v e i s c o m o c o n t e ú d o do c o n t e x t o d o lugar de cada historiador, b e m c o m o com o c o n t e ú d o d o seu c o n t e x t o mental, isto é, de a c ordo c o m a m a n e ^ ra pela qual cada histo r i a d o r reage aos estímulos internos e ex ternos.
Anteriormente, c i tamos o h i s t o r i a d o r c o m o líder inte lectual, como u m h o m e m d o t a d o de c o n s c i ê n c i a social, capaz de apreender e de compr e e n d e r as aflições e os q u e s t i o n a m e n t o s do g r u p o p s ico-social a que pertence. Essas aflições e q u e s t i o n a m e n tos são problemas que o historiador, motivado, v a i investigar. A ex p r e s s ã o "íJão hã História sem d oc u me n to s " m e r e c e e x p l i c a ç ã o e
reparo. Os documentos, realmente, são indisp e n s á v e i s p a r a o his toriador; mas sem o t r a b a l h o p e s s o a l (.inteligência, vontade, ba ses teóricas) d o historiador, eles são apenas coisas sçm signifi cado. 0 s i g n i f i c a d o lhes é c o n c e d i d o p e l o historiador, numa p r o p o s t a de s o l u ç ã o para u m problema. Não há História sem p r o b l e mas: a nova a f i r m a ç ã o consagrada.
E para se r e s o l v e r u m p r o b l e m a n ã o se m e r g u l h a nele d e s p r o v i d o de e l e m e n t o s de solução; u m p r o b l e m a h i s t ó r i c o se re solve c o m uma p e s q u i s a histórica.
Uma p e s q u i s a h i s t ó r i c a não ê u m a v i a g e m a o p a s s a d o , a t r a v é s de p a s t a s e p a c o t e s dos arquivos, sem r o t e i r o n e m desti no p r e v i a m e n t e estabelecidos. "Quando não se sabe o que se busco, tampouco se sabe o que se encontra"'^'^. U m a p e s q u i s a h i s t ó r i c a , pr o p r i a m e n t e dita, não pode p r e s c i n d i r de u m e m b a s a m e n t o t e ó r ^ CO, que forneça c o n h e c i m e n t o s em n íveis diversos, como u m c o r p o de c o n c eitos o p e r a c i o n a i s d a História, c o m o tudo que p r e cede e or i e n t a u m a prática, que v i a b i l i z a a f o r m u l a ç ã o de u m a h i p ó t e s e ou a c o n s t r u ç ã o d e u m a conjectura. A t e oria d e n u n c i a o lugar so ciai d o h i s t o r i a d o r e u m t r a balho sem lugar n ã o é História, mas
lenda.
Da tese d a v o c a ç ã o d e s i n t e r e s s a d a d o saber, até a vo cação para a praxis, a f o r m a ç ã o do saber h u m a n o tem m e r e c i d o es tudos e e x p l i c a ç õ e s em todos os sentidos. Como já está impllcitcv em outras p artes d e s s e trabalho, o h o m e m p r e c i s a c o n h e c e r a sua situação p a r a atuar c o m eficiência. S i t u a r - s e ê saber como o seu grupo social se t r a n s f o r m o u no tempo e, então, no presente, qual a sua posição, função e possibilidade., 0 p r e s e n t e se i l umina e se e n g r a v i d a d e futuro.
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U m a pesqu i s a histórica, consequentemente, c o m o qual quer o u t r o trabalho científico, d e v e atender a e x i g ê n c i a de ser e t i c a m e n t e ütil para o homem. E o saber h i s t ó r i c o ê s ocialmente útil, justamente porque, sabendo e tendo vontade, o h o m e m age , r e a liza e se realiza. L abora c o n f o r m e o e s p írito d a êpoca, a co n s c i ê n c i a social, que gera os c ó d i g o s h i s t ó r i c o s sobre o é t ^ co, o estético, etc.
O p r o c e s s o de intele c ç ã o do p a s s a d o e x a m i n a os produ tos do passado - dos homens e m suas relações sociais - e isola e dâ c o n s c i ê n c i a à forças sociais de transformação. Porém, isso ocorre à luz de u m a teoria; os fatos não falam por si: r e s p o n d e m
* ,
a hipóteses. As hipóteses, s u stentadas p e l a teoria, d i z e m do sen tido d a p e s quisa e d o seu limite.
Que Paul V e y n e i l u stre mais u m a vez este texto: a his toriog r ã f i a só conhece d o i s bloqueios; ou não d i s p õ e de d o c u m e n
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tos ou sua p r o b l e m á t i c a e s t á esclerosada. O Autor diz que ". . . os 'instrumentos concei tu ai s são o ponto dos p ro gr es so s da historiografia (possuir c o nc eitos é conhecer coisas)...". A Hi s tória e s t u d a os m a t e r i a i s humanos subsumidos nos conceitos.
Os c o n c e i t o s são os d o c o n t e x t o do h i s t o r i a d o r e atra vês deles, e por causa deles, o histor i a d o r r e vela forças produ toras d o seu m o m e n t o presente. J u s t a m e n t e por isso hâ c o n t e ú d o s / períodos ou p e r í o d o s / c o n c e i t o s que se d e s t a c a m na p r e f e r ê n c i a do historiador.
O e s t á g i o a t u a l das ciênc i a s sociais, p a r t i c u l a r m e n t e d a História, nega a e x i s t ê n c i a d o a b s o l u t a m e n t e objetivo, rebe la-se c o n t r a a n e u tralidade impossível e acusa de c o m p r o m e t i d o s
VEYNE, P. op. cit., p. 66 18
os h i s t o r i a d o r e s de todas as épocas. C o m p r o m e t i d a s as idéias, a base teórica, fica t a m b é m comprometida, numa r e l a ç ã o lógica, a forma de interpretar.
O e s t a d o da q u e s t ã o é fruto de uma evolu ç ã o e p i s t e m o lógica, de u m n o v o e s t a t u t o da História, q u e consi d e r a como fu]^ cro dos trabalhos h i s t ó r i c o e h i s t o r i o g r á f i c o o lugar social do historiador, o presente, e que se p r o c l a m a capaz.e competente para d e s p e r t a r e d a r c o n s c i ê n c i a ãs forças que p o d e r ã o produzir futuro.
A f unção social d o h i s t o r i a d o r se p l e n i f i c a na comuni cação da sua interpretação, d a sua l e itura sobre u m a realidade: essa c o m u n i c a ç ã o é o d i s c u r s o historiográfico.
D i s s e m o s anteriormente, r e p e t i n d o Certeau, que "fazer História é a li nh ar um m étodo e um discurso numa relação de pro_ ãução". 0 m e s m o autor francês diz que "discurso c i en t íf ic o que não fala de sua relação com o corpo social não serã capaz de ar t icular uma prãtica". E concluiu: "... evidencia-se a p r i o r i dade do discurso histórico sobre cada obra h is to riogrãfica par ticular, e a relação desse discurso com uma i nstituição social.
19 É o p roduto de um lugar"
. No d i s c u r s o há d o i s aspectos fundamentais: o c o n t e ú d ç e a forma.
O c o n t e ú d o ê u m a opção, u m a interpretação, uma proba bilidade, sobre u m sistema, uma rede de acontecimentos, que go zou da a t enção e exame d o historiador. 0 "optimum" desse c onteú d o d e p e n d e de u m a série de fatores, como a c a p a c i d a d e de
^^CERTEAU, Michel. "A Operaçio H i s t ó r i c a ” . In: LE GOFF, J. E NO RA, Pierre. História: Novos P r o b l e m a s . Livraria Francisco. Alves, Rio de Janeiro, 1976. p. 22.
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c o m p r e e n s ã o e de i maginação d o historiador, dã seleção de fatosy d o q u a d r o teórico, da m e t o d o l o g i a e problemática, do c o n t e x t o m e n t a l e da consci ê n c i a social d o historiador.
É b o m r e p e t i r que a H i s tória não está no passado, nem no fato, n e m no documento. A c o n c epção positivista, ê certo, ti^ nha a p r e t e n s ã o de encontrar a História; o histor i a d o r não fa
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-zia; coletava, resgatava. Agora, M a r r o u poe a s s i m o problema: "... a Historia é o r e su ltado do esforço^ num sentido criador , pelo qual o historiador^ o sujeito cognoscente, estabelece essa relação entre o passado que evoca e o presente que é o seu". E
21
C'erteau complementa: "0 historiador trabalha sobre um mate_ rial pára transformã-lo em H i s t ó r i a " .
O c o n teúdo não é de uma r e a l i d a d e passada; ê do proce s s o m e n t a l do historiador. Isso não significa que se este ja iriüdando o passado: simple s m e n t e p e r m i t e que o prese n t e faça o utra seleção d o passado.
- 22 ~
E n s i n a Balinas que "... a gestão do p e rs o na g e m hi^ tórico não existe sem a d ig estão por p ar te _ d o historiador". Sem histo r i a d o r não há História, mas q u a l q u e r o u t r a coisa n eutra , indefinida, como devir, acontecer, gênese, evolução, etc.
20
MARROU, H. op. cit. p. 48 ^^CERTEAU, M. o p . cit. p. 29
2 2
-BALINAS, C.A. El Acontecer H i s t õ r i c o . Rialp. Madrid, 1965. p. 55.
~ 2 3
Tem r a z ã o A m a r a l L a p a q u a n d o a f i r m a que ",.. nossos historiadores (precisam) de uma completa r e ci cl ag em que lhes permita^ pelo menos, f a la r e entender a m oderna linguagem das ciências h u m a n a s " .
24
E n r i q u e c e n d o a discussão, P enna lembra q u e "... no c o nh e c im en to h i s t ó r i c o , sujeito (historiador) e objeto estão unidos p o r inere n ci a e não por j u s t a p o s i ç ã o ; não são r ealidades independentes e sim se envolvem em processos dialéticos que cor^ po r t a m ação e reação reciprocas".
Hoje à seleção d o fato é d e t e r m i n a d a p e l a i m p o r t â n c i a
A
que o h i s t o r i a d o r lhe atribui no d e s e n v o l v i m e n t o d e sua tese. O i n s t r u m e n t o d e s s a o p e r a ç ã o é a hermenêutica.
25 -
-Stein a s s e g u r a q u e "A h er menêutica e o m etodo da c ompreensão do fenômeno humano em sua obra". Ela "suporta a tensão entre o p en s am e nt o e a realidade". E m conclusão: "A h ermenêutica e déci^
siva para o c on he ci me nt o da História. I mp edirá que o h omem i n g^ nuamente se j ulgue imune e livre das cargas de seu passado, ou que se julgue a bs ol ut am en te d e te r m in ad o pela tradição".
O o u t r o a s p e c t o d o d i s c u r s o é a forma.
A forma tem r e l a ç ã o lógica c o m o conteúdo; dele d e p e n de e não hâ c o n t e ú d o informe. São tão relacionados, que é níti da a r e p u l s a do c o n t e ú d o n o v o c ontra u m a forma velha.
23 - ^ •
LAPA, Jose R. Amaral. A H i s toria em Q u e s t ã o . Vozes, Petropo^ lis, 1976. p. 180.
^^PENNA, L i n coln A. Analise do saber h i s t ó r i c o . Ed. Rio, Rio de Janeiro, 1975. p. 21.
STEIN, Ernildo. História e I d e o l o g i a . Monumento, Porto Alegre, 1 9 8 2 . p. 14.
' A forma é a o r g a n i z a ç ã o interna e a e x p r e s s ã o do con teûdo. Todavia, hã, em certos m o v i m e n t o s modernistas, a subordi nação d a idéia ã forma, c o m o o c o r r e ’com a "'intelligents-La" bur guesófoba, na r e p r e s e n t a ç ã o t e atral d o papel de vítima, ou com a contra-cultura, q u e "... no p r im e ir o c ontratempo recorre ã racion a li da d e tecnológica que abomina: uma extravagênoia luxuo sa tornada p os sível e m a nt id a pela eficiência do que c on dena" . \
e. os ' - . n ! . J .ís. . ^
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A ideia e aríterior a forma è esta Irelaçao tem que mantida. "0 discurso obedece a um esquema c onstruído de antemão
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nas atitudes m entais do sujeito" . 0 historiador, por exemplo, ne c e s s i t a de u m a forma p a r a e x t e r n a r uma idéia; não se trata de um a d e v o ç ã o ao luxo, mas sim u m a b u s c a d a perfeição, no sentido de dar clareza ã m e n s a g e m e "rigor e p re c i sã o ao r a c io c í n io " , diz Claret. 0 p e n s a m e n t o de u m Autor c i n t i l a na c o n s t r u ç ã o lõg^ ca da forma, que n ã o é somente, em g r a u de excelência, u m a sele ção de p a l avras e sua d i s p o s i ç ã o nas frases e no texto, mas t a m b é m na a d oção dos c o n c e i t o s e na e x p r e s s ã o dos seus comporta mentos, como p e n s a d o r e pesquisador.
. A forma é p r o p r i e d a d e d o pensamento; este, porém, t e m suas motivações, o seu c o n t e ú d o e sua intenção. As m o t i v a ç õ e s d o p e n s a m e n t o p o d e m ser externas, isto é, d o c a m p o v i v e n c i a l do Autor, ou internas, d e c o r r e n t e s da n a t u r e z a o r g â n i c a ou biolõgi ca. Hâ, ainda, m o t i v a ç õ e s conscientes, formadas na consciência, i mpulsos d e racioc í n i o s lógicos. De qualq u e r forma, a m o t i v a ç ã o
2
6
MERQUIOR, José G. As idéias e as f o t m a s . Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981. p. 25.
27
-CLARET, Jacques. A idéia e a f o r m a . Zahar, Rio de Janeiro , 198 0. p. 16.
,é aquilo que p r o voca uma tensã o * n o organismo: daí o m o v i m e n t o e a ação e m b u s c a do equilíbrio. O c o n t e ú d o de ú m p e n s a m e n t o são idéias, valores, conceitos, é o c o n j u n t o d a s reflexões d o h o m e m sobre suas experiências. A intenção é a ação, como o bjeto r e a l ^ zado, como d i s c u r s o historiogrãfico, por exemplo.
Para cada c o n t e ú d o corre s p o n d e u m a forma. A inten ç ã o de uma i n v estigação h i s t ó r i c a sugere, desde o início, que a p e £ quisa jã tenha u m a d i r e ç ã o e que o c o n t e ú d o v á a s s u m i n d o uma de terminada forma. Ê clara a p r e o c u p a ç ã o "braudeliana" c o m a for ma ou e s t r u t u r a do p r o c e s s o h i s t ó r i c o , - a p a r t i r da e s colha do m é t o d o estrut u r a l ou morfológico.
Ao selecionar u m o bjeto histórico, o h i s t o r i a d o r espe c ifica u m certo sistema, cuja e v o l u ç ã o e m o d o de ação d e s e j a explicar. E a forma d e s s a e x p l i c a ç ã o é compatível c o m o p r e p a r o te ó r i c o - m e t o d o l ó g i c o d o historiador, por um lado, com sua pers pi c ã c i a e capaci d a d e de leitura, por o u t r o lado, e com sua capa cidade e i n t enção na c o m u n i c a b i l i d a d e , finalmente.
Assim, q u a n d o nos r e f e rimos ã forma, podemos estar pr e o c u p a d o s ora c o m a forma de abordar, ora c o m a de interpre tar, o r a com a forma de expór; são três m o m e n t o s da forma visí v e i s no d i s c u r s o historiogrãfico.
F icou dito, q u e o h i s t o r i a d o r parte de uma f o r m a l i z a ção d o passado, m é t o d o q u e se constitui de uma forma lógica de apreender o real e interpretá-lo. 0 d i s c u r s o é fluente, de fâ cil.entendimento, na m e d i d a e m que a i n t e r p r e t a ç ã o exibe c o erên cia c o m a formalização.
D e s c o b r i r sistemas, estruturas, formas, como objetos históricos: eis xm dos p r i m e i r o s gestos do historiador.
' Por outro lado, R ü diger acusa a h i s t o r i o g r a f i a bur guesa de criar a idéia dé continuidade., ònde o p r e sente ê uma p e rpetuação do passado; m o d a l i d a d e ou forma h i s t órica e s t r u t u r a da numa ideologia nostálgica.
A forma, na interpretação, foi o b jeto de e s tudo de - 29
Nilo O d a l i a : e x a m i n a n d o a h i s t o r i o g r a f i a brasileira, m e n c i o n a a e x i s t ê n c i a das formas c e n t r í f u g a e centrípeta, c o r r e s p o n d e n d o aos conteúdos filolu s i t a n o s e nacionalistas, respectivamente. Hâ formas que c o r r e s p o n d e m à a d oção de conceitos europeus, ou d o c a p i t a l i s m o em geral, e outras que f a l a m do e s f o r ç o em d e s c o brir ou criar u m estilo de pensar o fato brasileiro, visto como singularidade ou e s p e c i f i c i d a d e nossa.
Forma de interpretar: e x a m i n e m - s e os c u r r í c u l o s e programas dos C ursos de H i s t ó r i a e se d e s c o b r i r á u m a interp r e t a ção c e n t r a d a n u m Tordes i l h a s ideológico.. A forma está v e l h a pa ra o c o n teúdo n o v o de u m a nova geração.
Para interpretar, o h i s t o r i a d o r opera u m p r o c e s s o m e n t a l ^ d e t e r m i n a d o por suas convi c ç õ e s pessoais, f o r mação cientifi ca, filosófica, ideológica, etc. M e s m o assim, pode se agrupar , e m v i rtude d a existê n c i a d e afinidades, de pontos comuns, com outros de seus pares.
Em face disso, pode ser citada- uma interp r e t a ç ã o de terminista, que c o n s idera a H i s tória como p r o d u t o da ação do m e i o geográ f i c o e do clima sobre as sociedades; a i n t e rpretação ou forma providencialista, c o m u m a c a u s a eficiente conduz i n d o
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28 —
RUDIGER, Francisco R. A História, o poder e os epígonos____ da atividade sintética do s u j e i t o .
os d e s t i n o s humanos; a forma de ^interpretação racial, v a l o r i z a n do a p sique d o povo e as virtiides i n d i v i d u a l i z a d o r a s das raças; a forma d e c o r r e n t e d e , u m a i n t e r p r e t a ç ã o centr a d a nos h e r ó i s , nas grandes individualidades, tão, d i f e r e n t e s d a q u e l a outra for ma que p r i v i l e g i a as ações conjuntas das multidões; a interpre tação m a t e r i a l i s t a d a História, com seu q u a d r o e c o n ô m i c o e de luta de classes.
Braudel, Berr, Fèbvre, Bloch, toda a "Escola dos A n a i s "j todo o g rupo da H i s t ó r i a Nova, que nos p arece liderado por Jacques Le Goff, p o r q u e se a p r o x i m a r a m mais das outras ciências sociais e p orque v a l o r i z a r a m o q u a d r o r e f e r e n c i a l teó rico, são inovadores de formas. R e p e t i n d o Fêbvre, "o historia^ dor não sabe^ procura, e cada um ã sua maneira",
A forma e m e r g e na exposição, no discurso. 30
É C e r t e a u q u e m se surpreende que "... os historiado^ re s ... não c o nsideravam a escrita como um p r ob l em a i n terno da disciplina. Ora, a escrita é o p r óprio p r o d u t o " . Prossegue;
"... Historia, arte de tratar os restos, é também uma arte da encenação, e as duas estão estre it am e nt e ligadas". O m e s m o au tor^^ diz de forma definitiva: "Há quatro séculos, no O c i d en t e , me parece que fazer História remete à e s c r i t a " . E Nora^^ :
"... jã não hã, como outrora, um campo tradicional da História, mas tipos de H i s t ó r i a " . Ê o caso de Foucault, para q u e m o dis curso h i s t órico é u m m o d o de i n t e l i g i b i l i d a d e c r ítica d o real.
CERTEAU, Michel. In : LE GOFF e Outros. A Nova H i s t o r i a . E d £ ções 70, Lisboa, 1978. p. 24.
^^CERTEAU, M. op. cit. p. 17.
32 - . ~
20
Insistimos c o m Lefort^^; "não deixamos de nos intev_ rogar sobre as formas da Historia; sobre a disti n çã o de uma história regida por um ■princípio de c onservação ou de vepeti_ ção e de uma história que por princípio abre lugar para o no_ vo". E mais "... sobre a distinção de uma história indefinida ã qual pode ser refer id o todo encadeamento de a co ntecimentos Ou toda transformação das estruturas sociais e de uma história de algum modo inscrita no tecido das relações s o c i a i s " . Fina]^ mente: "... sobre a disti n çã o de uma história visível, aquela que faz ler a mudança, sob todas as suas formas, e de uma hi^ tória invisível que, em tal ou tal sociedade dada, subtende o ordenamento das instituições e constitui a dimensão temporal da vida social".
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En q u a n t o C e r t e a u afirma que o d i s c u r s o h i s t o r i o g r a fico u t iliza "... a n a r r a t i v i d a d e , que enterra os mortos, como
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meio de estabelecer um lugar para os vivos", L e f o r t c o nside ra que, o nasci m e n t o de t a l .discurso, "... m an t ém r e lação com o nascimento de um discurso ideológico - feito para conjurar a ameaça do novo".
Na verdade, uma m e n t a l i d a d e c o n s e r v a d o r a c o nduz a u m d i s c u r s o conservador, que e s conde d e s c o n t i n u i d a d e s e rupturas, que evolui ao p o n t o m á x i m o d a r e f o r m a e d a conciliação, somen te.
Thompson^^ n e gando ã H i s tória u m d i s c u r s o de demons tração próprio, preconiza como s o lução a forma lógica da
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-LEFORT, Claude. As formas da H i s t o r i a . Brasiliense, Sao Pa^ lo, 1979 . p. 16.'
^^CERTEAU, M. op. cit., p. 107. ^^LEFORT, C. op. cit. p. 20. o fL
História. Diz que "0 discurso histórico d i sc ip li na do da prova consiste num diálogo conduzido por hipóteses ôucessivas, de um lado y e a p es qu is a empírica, do outro. 0 interr og ad o r ê a lógi ca histórica; o conteúdo da i n t e rr o ga çã o é uma hipótese ; o i nterrogado é a evidencia, com suas p r o p ri e da de s determinadas". Assim, q uando u m a tese (conceito, f o r m a l i z a ç ã o d o passado) é su b m e t i d a ao c o n f r o n t o c o m sua a n t í t e s e (realidade objetiva) , o corre uma síntese (conhecimento h i s t ó r i c o ) , no p r o c e s s o chama d o de d i a l é t i c a d o c o n h e c i m e n t o histórico.
Besson^^, c i t a n d o Droysen, c l a s s i f i c a as formas de e x p o s i ç ã o em: investigadora, p r ó p r i a para obj-etos confusos , p r o c e d e n d o - s e de m a n e i r a a p a r e c e r que se p r ocura ou que se descobre; narrativa, q u a n d o o r g a n i z a o texto c o l o c a n d o os re sultados da i n v e s t i g a ç ã o c r o nologicamente; é n a r r a t i v a pragmá tica q u a n d o m o s t r a o f e n ô m e n o final c o m o r e s u l t a d o n e c e s s á r i o de uma c o n v e r g ê n c i a de fatores; é n a r r a t i v a m o n o g r á f i c a q u a n d o mo s t r a u m a r e a l i d a d e p l a s m a n d o seu p r ó p r i o destino; é nar ra t i v a b i o g r á f i c a q u a n d o se p r e o c u p a c o m êxitos e fracassos pessoais; é n a r r a t i v a c a t a s t r ó f i c a q u a n d o m o s t r a o c o n flito de m ú l t i p l o s poderes, interesses, orientações, p r e v a l e c e n d o a h e g e m o n i a d o p e n s a m e n t o m a i s alto, q u e se defende, d o m i n a e concilia; forma d i d á t i c a q u a n d o serve ao interesse de "util-^ zar todo o p a s s a d o pa ra e sc la re ce r o p re se n te e obter dele compreensão mais- p r o f u n d a " ; polêmica, q u a n d o a e x p o sição
"orienta todos os r es u lt ad os da i n v e s t i g a ç ã o , fazendo-os con vergir, como luzes num e spelho côncavo, para d e t e rm i na do ponto
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da atualidade que lhe interessa iluminar, para o probl e ma que pretende resolver, para a p r em is sa p a rt i nd o da qual se propõe chegar a uma c o n c l u s ã o p a r a o novo a s pe ct o que p r etende i nt e^ pretar".
Considerando, ainda, outros â n gulos da questão, hã outras formas de exposição.
38
Uma d e l a s ê a u t i l i z a d a por D e a F e n e l o n e outros Autores, c o n s i s t i n d o numa simples r e p r o d u ç ã o de fontes, sele cionadas e o r d e n a d a s numa s e q ü ê n c i a lógica, mas sem análise crítica.
O texto contínuo, não como fonte, mas como d i s c u r s o historiogrãfico, ê a forma cláss i c a de exposição.
Os anais, a i n d a hoje u t i l i z a d o s e m m u i t a s institui ções, são uma forma de e x p o s i ç ã o prática, o b e d iente a o crité r i o cronológico.
Tão p r á t i c a q u a n t o os Anais, p o r é m o b e d e c e n d o u m cri t é r i o de o r d e n a ç ã o alfabética, é a forma de e x p o s i ç ã o enciclo pédica, como a o b r a d e Besson, citada.
Para os fatos n u m é r i c o s são conhecidas as exposições em forma d e tabelas e s t a t í s t i c a s ou d e gráficos. .
As árvores g e n e a l ó g i c a s outras coisas não são senão a forma da e x p o s i ç ã o das r e l a ç õ e s d e parentesco.
Finalmente, os f e n ô menos g e o g r á f i c o s relaci o n a d o s com a H i s tória são e x p o s t o s nas formas ideiais dos m apas e dos atlas, c o m o o c o rreu na h i s t o r i o g r a f i a catarinense, c o m o traba
39 lho de Piazza .
3 8 — ^ .
FENELON, Dea R.. 50 textos de H i s tória do Brasil. Hucitec são Paulo, 1974.
LAZZA, Walter F. .
n a , Secretaria da Educação e Cultura, Florianópolis, 1970. 39
O H I S T O R I A D O R E A IDEOLOGIA
'No c a p ítulo anterior, algumas vezes, questi o n a m o s a n eutra l i d a d e do historiador, c o n c o r d a n d o até tratar-se de uma p o s t u r a ideológica.
0 histor i a d o r sempre, e mbora n e g a n d o q u a s e sempre , fez d i s curso i n t e r p r e t a t i v o e, consequentemente, subjetivo, re lativo, comprometido; tanto isso é verdade, que m e s m o nos tem pos em que mais se a p r egoou a mais a b s o l u t a n e u t r a l i d a d e p o £
■ ■ ■
sível, c o m Rancke, por exemplo, não se r e s p e i t o u uma pretendi^ da sacralidade dos fatos, n e m se fez a H i s t ó r i a "com cola e te_ s o u r a" 3 ironic a m e n t e c itada por C o l l i n g w o o d ^ .
• 2 . .
Pierre Nora diz c o m autoridade; "... esses historia^ dores, que não q u er i a m ser de nenhum tempo, nem de n enhum país e p r e t e n di a m fazer uma historia erudita e crítica, fizeram, na realidade, uma História muito profun d a me nt e marcada pelo nasci_ mento dos E s t a d o s - n a ç õ e s " .
N a atualidade, o r e c o n h e c i m e n t o do c o m p r o m e t i m e n t o - co nfere ao h i s t o r i a d o r u m a i nfluência d e c i s i v a sobre a Histõ ria, isto é, admite-se seu trabalho como uma decisão, como c o n s e q ü ê n c i a de uma verdade.
A Histó r i a é u m a construção, onde se e m p r e g a m "0 m £
COLLINGWOOD, R.G. A Ideía de H i s t ó r i a . Presença, Lisboa.
2 - ^
NORA, Pierre. In; LE GOFF e Outros. A Nova H i s t o r i a . Ediçoes 70, Lisboa, 1978. p. 62.
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todo h istórico" para a d e s c o b e r t a e a crítica, e as teorias para a v i a b i l i d a d e da compreensão, isto é, teorias oferecidas pelo p r e s e n t e para a c ompreensão d o passado. Afinal, "0 histo_
3 - .
riador parte do p re se n t e ,. . " e "Toda Histó ri a serã c o m p r o m ^
■ 4
tida, nunca neutra" .
Ev o camos José H. Rodrigues^: "Mesmo porque os que f u giam à reflexão teórica não d e ix av am de marcar s u b j e t i v a m e n te seu t r a b a l h o " . E mais adiante arremata; "A viabilidade das o p i n i õ e s , interpretativas e a firmeza do texto, eis os dois po_
los do trabalho h i s t ó r i c o " . E T r evor-Roper complementa: " Atê rriesmo os historiadores mais objetivos ... são p r is io ne ir o s ... de uma'fi l os of ia que estã c ondicionada pela experiência o bj e t ^ va" . A i n d a V e y n e nos socorre: "Todo historiador ê implicita_ mente um filósofo, jã que decide o que reterã como antropologi_ camênte intere ss an te " .
0 conhec i m e n t o h i s t ó r i c o b u s c a a d e t e r m i n a ç ã o de possib i l i d a d e s retrospectivas; isso significa r e n ú n c i a ao es qu e m a causai, e eleição do condi c i o n a l e do p o s s i b i l i s m o ,
Não sendo possível a H i s tória objetiva, n e m a Histõ ri a inocente, o d i s c u r s o h i s t o r i o g r á f i c o outra coisa não é' se n ã o xoma r e s p o s t a a u m a problemática, com a inevitável interfe r ência de p r e s s u p o s t o s ideológicos, onde "... vale insistir no
3 - •
LEFEBVRE, Henri. 0 fim da H i s t o r i a . D o m Quixote, Lisboa , 197 1 , p. 129.
^PENNA, L.A. op. cit., p. 22.
^RODRIGUES, J.H. Teoria da História do B r a s i l , op. cit., p. 421 e segs.
^TREVOR-ROPER, H. o p . cit.
^VEYNE, Paul. 0 inventário das d i f e r e n ç a s . Brasiliense, São Paulo, 1983. p . 7.
fato de que a visão clássica da.^istoria sempre foi pervertida,
■ 8
mas ninguém ligava, ou não se 'dava conta d is s o " .
C a d a d i s c u r s o . h i s t o r i o g r ã f i c o é u m m o d o de i n t e l i g i b ^ lidade do passado, d e p e n d e n t e d e u m sistema de referência. Ins_i nuante nesse sistema r e f e r e n c i a l encont r a - s e a ideologia.
9
-M o n t e n e g r o é b e m explícito; "... a neutralidade cien_ tifica do h i s t or i óg ra fo , ou um p re te ns o d is ta n ci a m e nt o da p o l ^ tica que procure, compõe também uma postura ideológica e conser_ vadora, s er vi nd o, nos quadros da história f a c t u a l , aos interes ses daquela estrutura de d om in aç ão .. ."
Aliás, Lapa^^ r e c o menda que "Um programa atraente de trabalho seria o inventário do seu (do h i s t o r ia d o r ) comportaníen to intelectual ou mesmo o r e c o n h e c i me n to da ideologia do desen volvimento ao longo da História do Brasil". 0 e n g a j a m e n t o na p r o b l e m á t i c a d o d e s e n v o l v i m e n t o seria v i s t o em dois enfoques e em dois momentos; na análise dos m o m entos h istóricos seleciona dos e na c o n t r i b u i ç ã o - e s p e c í f i c a do histo r i a d o r (na Histó r i a e na H i s t o r i o g r a f i a ) .
W i l s o n M a r t i n s ^ ^ realizou, neste sentido, uma bela contribuição, da qual, para ilustrar, extraímos algumas pas s a g e n s ;
8 . .
FERRO, Marc. A Nova História pretende evitar que as ideologias se apoderem da H i s t ó r i a . Caderno de Cultura, Jornal Estado de São Paulo, 11/07/82.
9 „ ,
MONTENEGRO, Joao A.S. Historia e d e s e n v o l v i m e n t o . Ed. UFC, Fo_r taleza, 1980. p. 206.
1 0 ,
LAPA, José R.A. op. cit., p. 172.^^MARTINS, Wilson. História da Inteligência B r a s i l e i r a . E d . USP, Paulo, 1976, vol. I, p. 13 e segs
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"A cultura i ntelectual jesuí ti ca era funda m en t al me nt e medie v al is ta e r e pr e s en ta va uma tentativa de p r o l o n g a ç ã o do passado, mais do que üm esforço de integração simpática no p re sente e de a n t e ci pa ç ão favorável do futu ro".
"Em todas as Faculd ad es Universitárias ■ (em Portugal) foi lei a obrigatoriedade dos
textos e daí a escravização do mestre ao jâ sabido e a imposs i bi li da de de p r o gresso cien tífico",
"... o século XVIII p o rt uguês oferece- nos o espetáculo de uma cultura f r us trada , vazia de experiência e de i n t e l e c t o " .
"A ilustração no Brasil p re co ni zo u tudo o que o Iluminismo prometia, p or ém o.seu pírito era, não revolucionário, anti-hist6r■^^ co- e irreligioso, como o francês, mas es_ sencialmente progressista, reformista, nacio^ nalista e humanista. E o Brasil, f ru strado , caiu na monarquia, intelectual e socialmente a n a c r ô n i c a " .
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A i n d a Lapa enfatiza, era sua propo s t a d e d e f i n i ç ã o de Historiografia, seu c u i d a d o com a f o r mação "de uma memória, uma consciência e uma prática ideoló g ic a por parte dos agentes que reproduzem, p r om o v e m a circulação, a s si milam e i n t e r a g e m . .." no c o n h e c i m e n t o h i s t ó r i c o (o g r i f o é nosso).
A i d e o logia não é, e m si, u m m.al a ser extirpado, nem u m b e m a ser idolatrado; simple s m e n t e n ã o hã como ignorã-la.
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A fusão das c o n sciências individuais, num c a m p o de co municação m ú l t i p l o - tão p r óprio das massas e das m u l t i d õ e s - , produz uma c onsciência social, que, por ser c i r c u n s t a n c i a l e ter existência histórica, é p r ópria de cada época, é o e s p í r i t o da época. '
Em outras palavras, o espírito d a época, na t r a n s p a r ê n c ia da consciência social, ê o conjunto de aspirações, desejos e reivindicações de uma d e t e r m i n a d a época.
Q u a n d o u m d e t e r m i n a d o grupo social, de d e n t r o d o e s p ^ rito d a época, estabelece u m seu p r ó p r i o c o n ceito d e vida, num c o n junto de idéias, "... capas de -impregnar a consciena-ia so_ ciai e de transformar em f o r ç a " ^ ^ , nasce uma ideologia.
É u m sistema de conceitos subordinado e e m b a s a d o no sistema m a i o r de u m a c u ltura determinada. Üma cultura p e r t e n c e a u m grande grupo, que se subdivide e m grupos menores, c o m suas respectivas ideologias.
B u n g e a firma q u e "... ê p os sível a formul aç ão de ideo_ logias c i entíficas" {pois considera que mesmo sendo um a o njunta de idéias coerentes, nem sempre são verdadeiras), ist.o é, cier^ cia social aplicada a serviço da maioria". N ã o h a v e n d o pesqui sa, nem a v a l iação de resultados, que não sofra a influê n c i a de
14 ~
padrões conceituais proprios de uma ideologia, Bunge p ropoe que se controle a ideologia, c i e n t i f i c i z a n d o - a para que ela não ideologize a ciência.
^^BASBAUM, L. op. cit., p. 197.
^^BUNGE, Mário. Ciência e D e s e n v o l v i m e n t o . Itatiaia, Sio Paulo, 1980. p. 83.