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(1)UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO – UMESP DIRETORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO. VANESSA BIANCHI MOCHETTI. DIREITOS HUMANOS NA MATRIZ CURRICULAR DO CURSO DE DIREITO DA UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO. SÃO BERNARDO DO CAMPO 2019.

(2) VANESSA BIANCHI MOCHETTI. DIREITOS HUMANOS NA MATRIZ CURRICULAR DO CURSO DE DIREITO DA UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO. Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Educação, da Universidade Metodista de São Paulo, para obtenção do título de Mestre, sob orientação do Prof. Dr. Sergio Marcus Nogueira Tavares.. SÃO BERNARDO DO CAMPO 2019.

(3) FICHA CATALOGRÁFICA M715d. Mochetti, Vanessa Bianchi Direitos humanos na matriz curricular do curso de direito da Universidade Metodista de São Paulo / Vanessa Bianchi Mochetti. 2019. 166 p. Dissertação (Mestrado em Educação) --Diretoria de Pós-Graduação e Pesquisa da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2019. Orientação de: Sérgio Marcus Nogueira Tavares. 1. Direitos humanos – Educação 2. Ensino superior – Política educacional 3. Curso de direito – Universidade Metodista de São Paulo I. Título. CDD 378.

(4) A dissertação de mestrado intitulada: “DIREITOS HUMANOS NA MATRIZ CURRICULAR DO CURSO DE DIREITO DA UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO”, elaborada por Vanessa Bianchi Mochetti, foi apresentada e aprovada em ___________________ de 2019, perante banca examinadora composta por Prof. Dr. Sergio Marcus Nogueira Tavares, Prof Dr. Marcelo Furlin e Profa. Dra. Selma Martinez Simões Rodrigues de Lara.. ______________________________________ Prof. Dr. Sergio Marcus Nogueira Tavares Orientador e Presidente da Banca Examinadora. _______________________________________ Prof. Dr. Marcelo Furlin Coordenador do Programa de Pós-graduação. Programa: Pós-graduação em Educação Área de Concentração: Educação Linha de Pesquisa: Educação em Direitos Humanos.

(5) Dedico este trabalho à minha família Aos meus professores.

(6) AGRADECIMENTOS. A Deus que me deu saúde, laços fortes, uma belíssima família e que permitiu a realização deste sonho.. Aos meus pais que apesar de toda a dificuldade me repassaram valores morais e éticos.. Ao meu Grande Amor, parceiro pelo apoio incondicional e permanente.. A minha fila Lara, que apesar de tão pequena, compreendeu meus momentos de ausência dedicados a esta dissertação. Obrigada de coração!. Aos Professores na Universidade Metodista de São Paulo, Marcelo Furlin e Adriana Azevedo que por meio de suas aulas proporcionaram momentos de amizade e conhecimento impagáveis.. Ao meu orientador, Prof. Dr. Sergio Marcus Nogueira Tavares que me direcionou nos caminhos que levaram ao conhecimento, à reflexão e à perfeita conclusão deste trabalho, apesar de todas as dificuldades acadêmicas não medindo esforços para isso..

(7) “Com relação às grandes aspirações dos homens de boa vontade, já estamos demasiadamente atrasados. Busquemos não aumentar esse atraso com nossa incredulidade, com nossa indolência, com nosso cetiscismo. Não temos muito tempo a perder” Extraído do livro “A Era dos Direitos”, Norberto Bobbio.

(8) RESUMO O presente trabalho tem como objetivo o estudo e a reflexão sobre a abrangência e contribuição da disciplina Direitos Humanos (DH) para a formação dos alunos do curso de Direito. A inclusão do tema DH no ensino das Instituições de Ensino Superior (IES) ocorre em alguns casos como matéria obrigatória, podendo resultar na formação humanista do educando e contribuir para a formação de profissionais mais autônomos, responsáveis, éticos. E, assim, habilitados para participar da construção social como protagonistas de suas próprias histórias. A História nos mostra com propriedade a luta dos indivíduuos inicialmente para seu reconhecimento, depois para a sua preservação com sua ampliação numérica pela passagem do tempo, alcançando hoje direitos inimagináveis há seculos atrás. Atualmente, o papel dessa área do direito na sociedade se mostra muito importante na medida em que encontramos diuturnamente movimentação entre povos, imigrações, êxodos de uma população pressionada pelas atitudes bárbaras praticadas por ditadores em seus países de origem, através de um movimento destacado pela imprensa internacional, tal como o êxodo dos refugiados que tem invadido os países mais desenvolvidos da Europa. A educação como forma de intervenção no mundo, não pode deixar ao largo os Direitos Humanos. Como método, como instrumento de coleta de dados foram utilizadas a observação, análise documental e pesquisa. Como embasamentos foram utilizados os autores em questão, a saber: BOBBIO (2004), BONAVIDES (2004), FERREIRA (1999), FREIRE (1997, 2015) PIOVESAN (2003), LYNN (2009) entre outros. A pesquisa realizada apontou ainda que, sem esta formação específica, o profissional não poderá auxiliar ou assessorar indivíduos em sofrimento pela lesão de seus direitos mais íntimos, os DH e, sem a sensibilidade necessária para a defesa dos DH nem o acadêmico, nem o profissional formado poderão ajudar na conquista destes direitos frustrando sua formação e seus objetivos no seio da sociedade. Palavras-chave: Direitos Humanos; Políticas Educacionais, implementação; curso superior; importância; teoria, ideia e movimento..

(9) ABSTRACT This study aims to study and reflect on the scope and contribution of the Human Rights (HR) discipline to the students' citizenship education. The inclusion of the DH theme in the teaching of Higher Education Institutions (HEIs), occurs in some cases as a compulsory subject, which can result in the humanist formation of the student and contribute to the formation of more autonomous, responsible and ethical professionals. And thus, enabled to participate in social construction as protagonists of their own stories. History shows us the individual's struggle for the first time for their recognition, then for their preservation with their numerical enlargement by the passage of time, reaching rights unimaginable centuries ago. Nowadays, the role of this area of law in society is very important to the extent that we find daily movement between peoples, immigration, exodus of a population pressured by the barbaric attitudes practiced by dictators in their countries of origin, through a movement highlighted by the press refugees who have invaded the more developed countries of Europe. Education as a form of intervention in the world can not leave Human Rights alone. As a method, the observation, documentary analysis, research and interviews were used as instruments of data collection. As a base, the theoretical contributions were used in authors that deal with the topic in question, namely: BOBBIO (2004), BONAVIDES (2004), FERREIRA (1999) FREIRE (1997, 2015) PIOVESAN (2003), LYNN others The research also pointed out that, without this specific training, the professional will not be able to assist or advise individuals in suffering for the injury of their most intimate rights, the HR and, without the necessary sensitivity for the defense of the HR, neither the academic nor the professional can help in the achievement of these rights by frustrating their training and their goals within society. Keywords: Human Rights. Educational policies, implementation; upper course; importance; theory, idea and movement.

(10) LISTA DE ABREVIATURAS - a.C. – antes de Cristo - Art - artigo. - DH – Direitos Humanos - DUDH – Declaração Universal dos direitos humanos - IES – Instituição de Ensino Superior - UMESP – Universidade Metodista De São Paulo - OAB – Ordem Dos Advogados Do Brasil - PMEDH – Programa mundial em direitos humanos - ONU – Organização Das Nações Unidas - CEIS20-UC – Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra - UC – Universidade de Coimbra - UP – Universidade do Porto.

(11) SUMÁRIO. INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 13 1. DIREITOS HUMANOS X DIREITOS FUNDAMENTAIS: UMA OPOSIÇÃO APARENTE ............................................................................................................................ 16 1.1. Características dos Direitos Humanos ........................................................................... 20 1.2. Breve evolução dos Direitos Humanos .......................................................................... 21 1.2.1. Divulgação dos Direitos Humanos.......................................................................... 22 1.2.1.1. Petição de Direito (1628) ................................................................................... 23 1.2.1.2. Declaração de Independência dos Estados Unidos (1776) ................................ 23 1.2.1.3. A Constitução dos Estados Unidos da América (1787) .................................... 25 1.2.1.4. A Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão – Declaração Francesa (1789) ........................................................................................................................................ 25 1.2.1.5. Declaração dos Direitos (1791) ......................................................................... 25 1.2.1.6. A Primeira Convenção de Genebra (1864)........................................................ 26 1.2.1.7. As Nações Unidas (1945) .................................................................................. 27 1.2.1.8. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) .................................... 27 1.2.2. A Evolução histórica dos Direitos Humanos no Brasil ........................................... 28 1.3. Os Direitos Humanos e a Pena de Morte: uma discussão diametralmente oposta ........ 31 1.4 Os direitos humanos e os romances do século XVIII: uma forma de enfrentar o novo . 34 1.5. Primeiras obras sobre direitos humanos ........................................................................ 39 1.6. A evolução histórica dos direitos humanos fundamentais ............................................. 40 1.7. Contribuição de alguns grandes expoentes aos direitos humanos ................................. 43 2. EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS: INTERFACES ............................................. 49 3. A EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS NA UNIVERSIDADE ........................... 56 3.1. Repercussões e reflexões ............................................................................................... 59 4. A FORMAÇÃO DO PROFISSIONAL DE DIREITO NAS CONDIÇÕES ATUAIS DE ENSINO ACADÊMICO ........................................................................................................ 61 4.1. A evolução e as transformações do curso de Direito nas últimas décadas .................... 61 4.2. A Formação do estudante do curso de Direito e a participação de diferentes atores ..... 63.

(12) 4.2.1. Da legislação que institui novas diretrizes curriculares nacionais no curso de Direito ........................................................................................................................................... 69 4.3. A prática jurídica como elemento de distinção curricular ............................................. 70 4.4. O reflexo da ausência da disciplina DH nas matrizes dos cursos de Direito e indicações de alternativas viáveis ........................................................................................................... 74 4.5. A visão da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) ..................................................... 76 5. ABORDAGEM DE DIREITOS HUMANOS NO CURSO DE DIREITO DA UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO (UMESP) ......................................... 81 5.1. Inclusão social e no trabalho .......................................................................................... 92 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................. 94 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................. 99 ANEXO A – DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DO HOMEM PREÂMBULO ...................................................................................................................... 104 ANEXO B - DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS .................. 105 ANEXO C – APRESENTAÇÃO DE TCCS – DIREITO – 2018/02 UMESP ................. 110 ANEXO D – ESTRUTURA CURRICULAR DO CURSO DE DIREITO DA UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO (UMESP) ....................................... 113 ANEXO E - RESOLUÇÃO Nº 5, DE 17 DE DEZEMBRO DE 2018 .............................. 161.

(13) 13. INTRODUÇÃO A inclusão do tema Direitos Humanos (DH) no ensino das Instituições de Ensino Superior (IES) ocorre em alguns casos como matéria obrigatória, podendo resultar na formação humanista do educando e contribuir para a formação de profissionais mais autônomos, responsáveis, éticos. E assim, habilitados para participar da construção social como protagonistas de suas próprias histórias. Atualmente, o papel dessa área do direito na sociedade se mostra não menos importante na medida em que encontramos diuturnamente movimentação entre povos, imigrações, êxodos de uma população pressionada pelas atitudes bárbaras praticadas por ditadores em seus países de origem, através de um movimento destacado pela imprensa internacional, tal como o êxodo dos refugiados que tem invadido os países mais desenvolvidos da Europa. Assim pretende-se debater de que maneira a formação em DH – realizada na Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) por meio de aulas, atividades complementares, oficinas, palestras, escritórios jurídicos, estágios supervisionados, núcleos de prática jurídica dentre outras possibilidades – contribui para aquisição de suporte teórico e prático no desenvolvimento de habilidades e competências dos profissionais do direito, proporcionando a ressignificação e a recontextualização das práticas e dos saberes destes profissionais para atuação na contemporaneidade. A inclusão dessa disciplina na matriz curricular parece trazer os profissionais de direito para um novo contexto, sendo fundamental, e que somente alcançará frutos e êxitos se a matéria de Direitos Humanos for contemplada de maneira objetiva no curso de graduação. Essa necessidade já havia sido levantada por Flávia Piovesan1 ao citar as primeiras mas discretas iniciativas e experiências de Instituições de Ensino voltadas à inserção dos DH como matéria nos cursos de Graduação e Pós-Graduação, citando como motivos dessa necessidade de: a) a emergência dos DH como pauta crescentemente incorporada às Instuituições; b) às respostas dadas por estas Instituições e c) a necessidade de criação de um espaço de interlocução e atuação destas Instituições para a implantação da matéria. A citada autora alia como justificativas para a inclusão da matéria nos cursos de direito, ainda, o necessário exame do que ela chama de Direito Internacional dos Direitos Humanos,. 1. PIOVESAN, Flávia. Temas de Direitos Humanos. Disponível em: <http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/flaviapiovesan/piovesan_dh_ensino_superior.pdf>. Palestra realizada em João Pessoa PB 2003. Acesso em: 25.04.2018..

(14) 14. seus órgãos, tratados e os reflexos destes acordos ou tratados internacionais no direito interno brasileiro. Independente disso pode-se afirmar que a discussão sobre a inclusão da matéria de Direitos Humanos nos cursos de Direito chega tardiamente no universo escolar e universitário, vez que sua presença nas grades curriculares das faculdades deu-se apenas a partir da década de 2010. Desde a metade do século XX, momento histórico em que os países perceberam a importância do tema com a Declaração de Direitos do Homem de 1948, tal temática poderia, e por que não dizer, deveria fazer parte dos currículos universitários, em especial nos cursos de Direito. A inserção da matéria DH naquele momento histórico se fazia necessária como forma de disseminar as ideias propostas na Declaração. Sem dúvidas, àquela época iniciava-se uma nova fase na história com o término da segunda grande guerra e seus efeitos catastróficos. Ali, a influência dos DH por meio do seu estudo acadêmico, despertaria o tema nas pessoas de maneira exponecial. Caso isto tivesse ocorrido, pelo menos duas gerações de operadores do Direito teriam tido contato com a temática, o que teria aprimorado sobremaneira as relações humanas nesta área de atuação social. Dessa maneira, a inclusão da disciplina nos cursos de Direito, assim como seus impactos, precisa ser pesquisada para verificar se os seus objetivos, previstos no Programa Mundial para Educação em Direitos Humanos (PMEDH), estão sendo cumpridos pelo Brasil. O PMEDH2 possui os seguintes objetivos: contribuir para o desenvolvimento de uma cultura de direitos humanos; promover o entendimento comum com base em instrumentos internacionais, princípios e metodologias básicas para a educação em direitos humanos; assegurar que a educação em direitos humanos receba a devida atenção nos planos nacional, regional e internacional; proporcionar um marco coletivo comum para a adoção de medidas a cargo de todos os agentes pertinentes; ampliar as oportunidades de cooperação e de associação em todos os níveis; aproveitar e apoiar os programas de educação em direitos humanos existentes, ilustrar as práticas satisfatórias e incentivar sua continuação ou ampliação, assim como criar novas práticas. Com a implementação desse tema na educação formal do bacharel em Direito no nível superior, a disseminação dos direitos básicos entre a população poderá torná-la mais informada e mais atenta ao tema. E com mais informação e educação o Poder Público se obrigará a 2. Plan of Action: World Programme for Human Rights Education; first phase. Publicado em 2006 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH). Disponível em: <http://unesdoc.unesco.org/images/0014/001478/147853por.pdf>. pg 16. Acesso em: 25.03.2018..

(15) 15. desenvolver Políticas Educacionais voltadas ao estudo, pesquisa e implementação dos Direitos Humanos nas escolas. Isto causará um aumento na capacidade dos integrantes da sociedade de lidar com mudanças sociais, contemporâneas, capacitando-os para a vida em uma sociedade marcada pela técnica, informação, discriminação e tolerância à diversidade. Além disso, estará o estudante adstrito a uma formação ética e preparado para o exercício da cidadania3 crítica e participativa. Se levadas à risca as orientações do PMEDH (Programa Mundial para Educação em Direitos Humanos), consequentemente será formada uma geração de indivíduos mais autônomos e engajados política e moralmente, com a sociedade em que vivem. Ou seja, a ampliação da discussão dos direitos humanos conduz o educando a uma visão humanística que o preparará para uma observação e aplicação do Direito como ferramenta, visando desmontar as arbitrariedades e discriminações que infelizmente ainda imperam na sociedade atual. Desse modo, traça-se como objetivo geral do trabalho inventariar4 sobre a implantação da temática DH no curso de Direito da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), refletir sobre a articulação dessa disciplina no campo profissional jurídico e analisar seus impactos para os futuros profissionais da área jurídica. Assim, poderemos compreender a abrangência desta formação e discutir a contribuição da disciplina (DH) para a formação dos alunos, o que pode resultar em um profissional mais humano e autônomo, que vá além da boa técnica jurídica e da norma. Como método para o presente trabalho, analisaremos a grade curricular do curso de Direito da Universidade Metodista e a aplicação desta disciplina nestas ementas, comparando as concepções educacionais, sempre observando os fins e os meios propostos para a aplicação e desenvolvimento no curso em questão, no entendimento de que a mudança de comportamento dos seres humanos, está intrinsicamente ligada às possibilidades de uma mudança de padrão civilizatório.. Segundo Dalmo de Abreu Dallari: “A cidadania expressa um conjunto de direitos que dá à pessoa a possibilidade de participar ativamente da vida e do governo de seu povo”. O que é cidadania?. Departamento de Direitos Humanos e Cidadania – DEDIHC. Disponível em: <http://www.dedihc.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=131>. Acesso em: 07.07.2019. 4 Segundo o portal “dicio”, inventariar significa: fazer uma enumeração detalhada; descrever (alguma coisa) com riqueza de detalhes. Disponível em: <https://www.dicio.com.br/inventariar/>. Acesso em: 07.07.2019. 3.

(16) 16. 1. DIREITOS HUMANOS X DIREITOS FUNDAMENTAIS: UMA OPOSIÇÃO APARENTE Inúmeros doutrinadores de renome podem ser utilizados para definir Direitos Humanos. Mesmo que tomemos todos estes e resumíssemos em um só conceito, os elementos seriam comuns e não refogem à ideia central deste conjunto de normas. Inicialmente tomamos o conceito de Piovesan5, segundo a qual: “o conceito de direitos humanos é dotado de universalidade, pois possui extensão universal, pois basta possuir condição de pessoa para ser titular de direitos. Portanto, o ser humano é visto como um ser essencialmente moral com unicidade existencial e dignidade.” Ainda podemos mencionar Paulo Gustavo Gonet Branco6, para quem a expressão direitos humanos ou direitos do homem, é reservada para àquelas reivindicações de perene respeito a certas posições essenciais ao homem. São direitos postulados em bases jusnaturalistas, contam com índole filosófica e não possuem como característica básica a positivação em uma ordem jurídica particular. Em uma tradução não oficial, vale afirmar que bases jusnaturalistas significam que o direito é fundamentado na natureza do ser humano, o chamado Direito Natural. Em razão disso, estes direitos não precisam estar “escritos” em uma lei ou na constituição, por exemplo, pois são naturais ou inerentes ao ser humano. O exemplo clássico é o direito à vida ou mesmo à liberdade. Não há necessidade de uma lei para se usufruir desta garantia. Norberto Bobbio7 é crítico dessa forma de Direito, ao exprimir que o que falta à lei natural é exatamente o que constitui o elemento característico do direito, a sua efetividade, seu caráter punitivo em caso de descumprimento. Para ele, o direito natural é um direito desarmado, pois ninguém nega que ele exprima uma exigência, uma proposta mas por não possuir força para fazer-se valer não é direito no sentido corrente da palavra. Para Marcio de Almeida Farias8, a conceituação de forma direta e objetiva de DH significa que são: “direitos básicos inerentes a todas as pessoas sem distinção, adquiridos com seu nascimento, tais como o direito à vida, à liberdade de locomoção, à liberdade expressão, liberdade de culto, dentre outras, que ainda não receberam positivação constitucional e 5. PIOVESAN, Flavia. Direitos Humanos e Justiça Internecional: um estudo comparativo dos sistemas regionais europeu, interamericano e africano, p. 18. 6 BRANCO, Paulo Gustavo Gonet e MENDES, Gilmar Ferreira. Curso De Direito Constitucional, p. 166. 7 BOBBIO, Norberto. Jusnaturalismo e Positivismo Jurídico, p. 199. 8 FARIAS. Marcio de Almeida. Direitos humanos: conceito, caracterização, evolução histórica e eficácia vertical e horizontal. Disponível em: <<https://jus.com.br/artigos/37044/direitos-humanos-conceito-caracterizacaoevolucao-historica-e-eficacia-vertical-e-horizontal>. Acesso em: 25.03.2018..

(17) 17. até então são apenas aspirações. As pessoas já nascem sendo titulares desses direitos básicos.”. Bobbio9 define Direitos Humanos como sendo “princípios que resumem a concepção de uma convivência digna, livre e igual de todos os seres humanos, válidos para todos os povos, em todos os tempos.” Vivemos atualmente em um novo paradigma no que tange aos DH. Um paradigma que só foi possível em razão de uma série de transformações sociais, políticas e jurídicas nas últimas décadas, sobretudo a partir do fim da Segunda Gurerra Mundial. Trata-se do paradigma jurídico dos DH, uma vez que deixaram de ser meras proposições ético-políticas e passam a ter vínculo jurídico, ou seja, juridicidade no plano internacional. Quando se fala em vínculo jurídico ou juridicidade dos DH, isto quer dizer que estes direitos deixaram de participar de debates e discursos internos em grupos de países ou em entidades internacionais para se tornarem Direitos Positivados nos países que os adotaram como base de direitos em sua sociedade. Nesse contexto, a juridicidade pode ser definida como a qualidade de ser jurídico, ou em conformidade com os princípios e as formas de direito. Conclui-se como sendo a própria legalidade, o próprio Direito Positivo, que nada mais é do que o direito colocado em uma sociedade de forma escrita, para que todos o conheçam da maneira mais ampla possível. Num conceito mais abrangente, toma-se a lição de Fátima Aparecida Kian10 segundo a qual Direitos Humanos são: Um conjunto de regras pelas quais o Estado e todos os cidadãos a ele pertencente devem respeitar e obedecer, são um conjunto de leis e vantagens prerrogativas que devem ser reconhecidos como essência pura para uma vida digna, ou seja, não ser inferior ou superior a outros seres em razão da diferença de sexo, raça, religião ou etinia, a principal função dos direitos humanos é a proteção dos indivíduos contra as injustiças, arbitrariedades, autoritarismos e abuso de poder. Os direitos humanos são sinônimos de liberdade.... De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU) os direitos humanos são garantias de proteção às pessoas contra ações ou falta de ações dos governos que possam colocar em risco a dignidade humana. São direitos humanos básicos como o direito à vida, à liberdade, à liberdade de expressão, de opinião e de religião, direito à saúde, à educação e ao trabalho.. 9. BOBBIO, Norberto. A era dos direitos, p. 5. KIAN, Fátima Aparecida. Direitos Humanos na Contemporaneidade, p. 84.. 10.

(18) 18. Diante de todos estes elementos, os DH se definem como direitos para a manutenção da dignidade da pessoa humana em suas multifacetadas dimensões e necessidades, independentemente de raça, sexo, nacionalidade, etnia, idioma, religião ou qualquer outra condição, podendo-se destacar como primeiro elemento o direito à vida, pois não se pode cogitar a existência do direito sem a presença da vida humana. Em nossa opinião, importante citar, também, o direito à igualdade e a não discriminação em razão do sexo, da cor da pele ou da opção religiosa. Igualmente, o direito a uma moradia digna, à segurança e ao trabalho digno não podem ser esquecidos. Os demais DH podem variar conforme a região, o país, a necessidade e a conjuntura existente naquele momento histórico e naquele exato local. Como por exemplo, o direito à água ou à alimentação digna e adequada, e assim por diante. No que tange aos direitos fundamentais, estes, em alguns momentos se confundem na sua literalidade e na sua essência com os DH, pois são os mesmos direitos essenciais à pessoa, fundamentais ou humanos. Entretanto, a doutrina os difere por meio de uma linha muito tênue. Vicente Paulo11 detalha que os DH são direitos pertencentes ao homem de forma universal sem referência a determinado ordenamento ou Direito Positivado, ou ainda a determinado território ou limite geográfico. Fundamentais, por sua vez, são direitos relacionados às pessoas escritos em ordenamentos jurídicos de cada Estado ou país, tais como as constituições, limitados, garantidos e assegurados na medida em que cada país ou Estado os estabelece. Samuel Fonteles12 conceitua os direitos fundamentais como sendo os "direitos relativos a uma existência humana digna, reconhecidos por uma Constituição, que impõem deveres ao Estado, salvaguardando o indivíduo ou a coletividade". Para Sarlet13: Em que pese sejam ambos os termos ('direitos humanos' e 'direitos fundamentais') comumente utilizados como sinônimos, a explicação corriqueira e, diga-se de passagem, procedente para a distinção é de que o termo 'direitos fundamentais' se aplica para aqueles direitos do ser humano reconhecidos e positivados na esfera do direito constitucional positivo de determinado Estado, ao passo que a expressão 'direitos humanos' guardaria relação com os documentos de direito internacional, por referir-se àquelas posições jurídicas que se reconhecem ao ser humano como tal, independentemente de sua vinculação com determinada ordem constitucional, e que, portanto, aspiram à validade. 11. PAULO, Vicente. Direito Constitucional descomplicado, p. 95. FONTELES, Samuel Sales. Direitos fundamentais para concursos. p. 18-20. 13 SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais, p. 39. 12.

(19) 19. universal para todos os povos e tempos, de tal sorte que revelam um inequívoco caráter supranacional (internacional).. Beltramelli Neto14 salienta a diferença entre ambos os direitos destacando a positividade dos direitos fundamentais, ou seja, a transformação do jusnaturalismo acima descrito em direito escrito destacando que: "em sendo a finalidade dos direitos humanos a salvaguarda jurídica do valor maior da dignidade da pessoa humana e dos demais valores que condicionam a sua preservação (liberdade, igualdade, etc.), sua enunciação normativa dá-se, prioritariamente, na forma de princípios que são consagrados pelas constituições democráticas contemporâneas sob a alcunha de direitos fundamentais". Em contraposição a estes conceitos, tomemos o pensamento direto e objetivo de DH de Comparato15, segundo o qual "a vigência dos direitos humanos independe de sua declaração em constituições, leis e tratados internacionais, exatamente porque se está diante de exigências de respeito à dignidade humana exercidas contra todos os poderes estabelecidos, oficiais ou não" Dessa forma, podemos considerar Direitos Humanos como direitos universais dos seres humanos, válidos e aplicáveis sem escrita por todo o mundo. São direitos naturais, nascidos com os indivíduos, intimamente ligados às pessoas. Fundamentais, por sua vez, são direitos que se limitam a uma porção geográfica, um país, por exemplo, são em regra escritos ou positivados e valem durante uma porção de tempo. Cada nação em razão de suas peculiaridades define de forma escrita e pública quais são os direitos que consideram importantes, necessários para a regulação da ordem social. Como não são absolutamente naturais, podem variar conforme o Estado que os fixou. Um exemplo clássico que será tratado a seguir é a pena de morte que surge na Constituição Federal Brasileira de forma excepcionalíssima, apenas em caso de guerra. Ja nos Estados Unidos há possibilidade de eliminar o direito à vida com aplicação da pena capital ante a previsão específica na legislação nacional e nas normas estaduais. Para isso basta a previsão da pena em uma norma escrita. Para efeito de exemplo bem próximo a nós e mais palpáveis, citamos como fundamentais os direitos escritos nos artigos 5º e 6º da nossa Constituição Federal16.. 14. BELTRAMELLI NETO, Silvio. Direitos humanos, p. 42. COMPARATO, Fabio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos, p. 224. 16 Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. 15.

(20) 20. 1.1. Características dos Direitos Humanos Além das definições e conceitos dos DH, é importante trazer à tona suas características. De acordo com Ferreira17, característica é aquilo que denota uma peculiaridade. Junto ao portal “significados”18, característica é um elemento que ajuda na construção de uma ideia, conceito e da noção de alguém ou alguma coisa. As características ajudam a diferenciar uma coisa de outra, ou uma pessoa de outra. São qualidades particulares que podem ser psicológicas, intelectuais, físicas, entre outras. Baseado nessas definições, os DH apresentam peculiaridades que somente eles possuem e que os diferem de outros direitos. Suas características principais são a a) universalidade; b) indivisibilidade; c) interdependência; d) imprescritibilidade; e) historicidade e f) inviolabilidade. Como “universalidade” entende-se a qualidade de ser universal, posto que os DH dizem respeito ao fato de serem direitos para todas as pessoas sem qualquer discriminação ou separação. Essa qualidade parte do princípio de que todos os humanos possuem direitos apenas pela condição de serem humanos e, em virtude disso, devem ser respeitados. A indivisibilidade dos DH determina que todos os direitos inerentes aos seres humanos são indivisíveis, ou seja, fazem parte de um conjunto único, de um único sistema de proteção aos seres, que não pode ser separado, segmentado ou hierarquizado. Como são indivisíveis, os DH são também dependentes entre si, pois é impossível pensar em um direito de forma isolada. Não pode o ser humano ter direito apenas à vida, ou somente à liberdade como DH, visto que estes direitos estão interligados e subsistem justamente por este liame que os une, consagrados em diversos documentos internacionais. Quando se pensa em direito à educação, como DH, não se pode esquecer que a criança que possui este direito também deve ter a seu lado o direito à alimentação, à agua, à saúde, à proteção. O termo prescrição no direito significa a perda de um direito pela passagem do tempo. Lesado um direito, seu titular deve acionar os mecanismos para correção dessa lesão em um prazo definido pela lei. Se não o fizer a tempo, perde esta condição. Baseado nisso, a característica da imprescritibilidade significa que os DH não são perdidos pela passagem do tempo, ou seja, são imprescritíveis, não sujeitos a um prazo para o seu exercício. Essa perspectiva surge no mundo real quando se observa, vez por outra, militares sendo condenados por crimes praticados na Segunda Grande Guerra, pelos nazistas, por exemplo, ou ainda quando. 17 18. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio Século XXI, p. 210. Disponível em: <https://www.significados.com.br/caracteristica>. Acesso em: 08.05.2019..

(21) 21. se permite a condenação de ditadores da América Latina por crimes praticados durante regimes militares totalitários ocorridos no século passado. Os DH não se perdem pela passagem do tempo, por que estão atrelados aos seres humanos. A historicidade dos DH diz respeito ao fato destes terem sido conquistados historicamente, pela passagem dos anos, décadas e séculos, oriundos de lutas históricas em prol da dignidade humana, culminanado no sistema atual de proteção e monitoramento destes direitos por inúmeros documentos internacionais. Por fim, a inviolabilidade refere-se à qualidade que mantém os DH intocáveis, inalienáveis inclusive pelo comportamento dos Estados e da sociedade os quais, contrariamente, devem fomentar, incentivar e criar constantemente meios para protegê-los. O estudo das características dos direitos humanos é fundamental à melhor compreensão do tema. A importância destas peculiaridades ou características se concentra na finalidade de estabelecer parâmetros para a organização da sociedade e de estabelecer as obrigações dos governos de agirem de determinadas maneiras ou de se absterem de certos atos e assim evitar a interferência estatal na esfera privada, respeitando-se o valor ético da dignidade da pessoa humana. 1.2. Breve evolução dos Direitos Humanos. Feitas as considerações iniciais, é importante discorrer sobre a história dos DH desde seus primórdios até os marcos fundamentais mais recentes. Farias19 apresenta uma visão geral acerca dos DH no Brasil e no mundo, abordando a sua conceituação, evolução histórica, dimensões, caracterização, positivação, com ênfase à questão de sua eficácia. Dessa forma, ele afirma que a primeira forma de declaração dos direitos humanos é atribuída ao Cilindro de Ciro, uma peça de argila contendo os princípios de Ciro, rei da antiga Pérsia que, ao conquistar a cidade da Babilônia, em 539 a.C. libertou todos os escravos da cidade, declarou que as pessoas poderiam escolher a sua própria religião e estabeleceu a igualdade racial. Esses e outros decretos foram registrados em um cilindro de argila com a escrita cuneiforme na língua acádica, falada na antiga Babilônia, no século XIV a.C. O nome desta língua é proveniente da cidade de Acádia, berço da civilização Mesopotâmia. Os escritos foram. 19. FARIAS, Marcio de Almeida. Direitos humanos: conceito, caracterização, evolução histórica e eficácia vertical e horizontal, p. 1..

(22) 22. encontrados em pedaços de barro e foram feitos com o auxílio de objetos em formato de cunha20, por isso o nome da forma escrita. Seu conteúdo está traduzido nas seis línguas oficiais das Nações Unidas e as suas estipulações são análogas aos quatro primeiros artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.. 1.2.1. Divulgação dos Direitos Humanos21 Com início na Babilônia, a ideia dos direitos humanos espalhou-se rapidamente para a Índia, Grécia e, por fim, chegou a Roma. Ali surgiu o conceito de “lei natural”, na observação do fato de que as pessoas tendiam a seguir certas leis não escritas no curso da vida, e o direito romano estava baseado em ideias racionais extraídas da natureza das coisas. Em ensaio publicado na Revista do Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais da Unijuí, Bedin22 nos ilustra que: A doutrina do Direito Natural nasceu na Grécia Antiga. Entre os primeiros a defenderem esta concepção estão o filósofo Heráclito de Éfeso (535-470 a. C.) e o escritor Sófocles (494-406 a. C.). Este último, em sua famosa tragédia Antígona, formulou pela primeira vez a questão central que envolve a doutrina do Direito Natural: existe um direito superior à legislação positiva estabelecida pela vontade do soberano.. Ainda, o referido ensaio23 nos apresenta com muita propriedade um exemplo ocorrido naquele longínquo tempo: A lição de Sófocles manifesta-se no relato do fato de que Antígona, irmã de Polinice, negou-se a cumprir as leis de Creonte, Rei de Tebas, que prescreviam que o corpo de Polinice não podia ser enterrado, uma vez que, ao se levantar contra o poder de Creonte, passou a ser considerado um traidor da pátria. Antígona, inconformada com a proibição estabelecida pelo Rei Creonte, decidiu sepultar o corpo de seu irmão Polinice, sendo surpreendida durante o enterro. Em sua defesa invocou Antígona as leis não escritas dos deuses, leis imutáveis, que não são de ontem ou de hoje, e que lhe autorizariam a proceder de tal forma (direito das famílias de enterrar os seus mortos).. Os documentos que afirmam os direitos individuais, como a Magna Carta (1215), a Petição de Direito (1628), na Inglaterra, a Constituição dos Estados Unidos (1787), a Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789), e a Declaração dos Direitos. 20. SOUZA, Isabela. O que são direitos humanos?. Disponível em: <http://www.politize.com.br/direitos-humanoso-que-sao/>. Acesso em: 23.03.2018. 21 Declaração Universal dos Direitos do Homem. Prêambulo. Disponível em: <http://www.unidosparaosdireitoshumanos.com.pt/what-are-human-rights/universal-declaration-of-humanrights/preamble.html>. Acesso em: 23.03.2018. 22 BEDIN, Gilmar A. A doutrina jusnaturalista ou do direito natural: uma introdução, p. 245/246. 23 BEDIN, Gilmar A. A doutrina jusnaturalista ou do direito natural: uma introdução, p. 245/246..

(23) 23. dos Estados Unidos (1791), segundo a doutrina são os precursores escritos dos documentos de Direitos Humanos atuais. Em um primeiro momento, a Magna Carta, ou a “Grande Carta”, foi possivelmente a influência inicial mais significativa no amplo processo histórico, que conduziu ao status de lei constitucional atualmente no mundo anglicano. Em 1215, após o Rei João da Inglaterra ter violado um número de leis antigas e costumes pelos quais o país tinha sido governado, os seus súditos forçaram-no a assinar a Carta Magna, que enumera o que mais tarde veio a ser considerado como um tratado de direitos humanos. Entre eles estava o direito da Igreja de estar livre da interferência do Estado, o direito de todos os cidadãos livres possuírem e herdarem propriedade, e serem protegidos de impostos excessivos. Ainda, estabeleceu o direito das viúvas, que possuíam propriedade, e poderiam decidir não voltar a se casar. Também, estabeleceu os princípios de processos devidos e da igualdade perante a lei. A Carta contém previsões legais que proíbem o suborno e a má conduta oficial-pública. Amplamente visto como um dos documentos legais mais importantes no desenvolvimento da democracia moderna, a Magna Carta foi uma norma crucial na luta para estabelecer a liberdade individual.. 1.2.1.1. Petição de Direito (1628) Em 1628, o Parlamento Inglês enviou uma declaração de liberdades civis do Rei Carlos I, marco importante no desenvolvimento dos Direitos Humanos. A rejeição pelo Parlamento de financiar a política exterior impopular do rei tinha causado a exigência, pelo Estado, de empréstimos forçados e de aquartelar tropas nas casas dos súditos como uma medida econômica. A prisão arbitrária e o aprisionamento por oposição a esta política governamental produziram no Parlamento uma hostilidade violenta a Carlos e a Jorge Villiers, o Duque de Buckingham. Como reação a esses fatos, surgiu a Petição de Direito, que se baseou em estatutos e em cartas inglesas anteriores e afirmou quatro princípios: a) Nenhum tributo pode ser imposto sem o consentimento do Parlamento; b) Nenhum súdito pode ser encarcerado/aprisionado sem motivo demonstrado (a reafirmação do direito de habeas corpus); c) Nenhum soldado pode ser aquartelado nas casas dos cidadãos e d) Lei Marcial não pode ser usada em tempo de paz.. 1.2.1.2. Declaração de Independência dos Estados Unidos (1776).

(24) 24. Em 4 de julho de 1776, o Congresso dos Estados Unidos aprovou a Declaração de Independência, tendo como principal autor Thomas Jefferson, que depois se tornou o terceiro presidente dos EUA. Tal documento histórico também serviu como um anúncio de que as treze Colônias Americanas não faziam mais parte do Império Britânico. O Congresso publicou a Declaração de Independência de várias formas. No começo foi mencionada como uma folha de papel impressa de grande formato, largamente distribuída e lida pelo público como forma de ampla divulgação do seu conteúdo. Também chamada de “Declaração de Direitos do Bom Povo da Virgínia” o documento expressa, por meio de apenas 18 artigos, que todos os homens têm direitos naturais, devendo buscar a felicidade e a segurança, baseando-se na soberania do povo como forma legítima de governar. Estabele eleições e a transitoriedade no poder como base de um governo democrático, realizadas por meio do voto livre e geral. Prevê, ainda, o direito ao devido processo legal e a liberdade de imprensa como base de todo o governo democrático ali determinado. A repercussão dessa Declaração ecoa até hoje no território e no espírito americano, que se honra em ter como título de sua terra como “The land of the free” expressão que está presente inclusive no hino nacional americano em sua frase final, ouvido diariamente como exemplo de nacionalisto e patriotismo24. Orgulham-se os americanos pela liberdade de expressão e manifestação, de imprensa, de cultos religiosos, sexual, da cor da pele. Em data não muito distante, chegou-se a discutr na Suprema Corte America a possibilidade de seus cidadãos queimarem a bandeira americana em protesto contra as políticas locais, tanta é a liberdade presente naquela terra. Do ponto de vista doutrinário, a Declaração acentuou dois temas: os direitos individuais e os de liberdade. Estas ideias tornaram-se largamente apoiadas pelos americanos e também se difundiram internacionalmente, influenciando em particular a Revolução Francesa e a nova Carta de Direitos, que surgirá deste movimento. Comparato25 observa que a Declaração representa o ato inaugural da democracia moderna combinando sob o regime constitucional, elementos essenciais para o momento histórico e o futuro das nações: a representação popular por meio do voto, a limitação dos poderes do governo e o respeito aos direitos humanos.. “And the star-spangled banner in triumph shall wave O'er the land of the free and the home of the brave” cuja tradução é “E este é nosso lema: ‘Em Deus está nossa confiança’”. E a bandeira coberta de estrelas em triunfo ondulará a terra do livre e a casa do valente.”. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/The_StarSpangled_Banner>. Acesso em: 29.03.2019. 25 COMPARATO, Fabio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos, p. 99. 24.

(25) 25. 1.2.1.3. A Constitução dos Estados Unidos da América (1787) Escrita em 1787, na Filadélfia, a Constituição dos Estados Unidos da América é a lei fundamental do sistema federal do governo dos EUA e um documento de referência para o mundo Ocidental. Essa é a mais antiga constituição nacional escrita que está em uso, e que define os órgãos principais de governo e suas jurisdições e os direitos básicos dos cidadãos. As dez primeiras emendas da Constituição, a Declaração dos Direitos, entraram em vigor no dia 15 de dezembro de 1791, limitando os poderes do governo federal dos Estados Unidos e, também, para proteger os direitos de todos os cidadãos, residentes e visitantes no território americano.. 1.2.1.4. A Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão – Declaração Francesa (1789) Também reconhecida internacional e historicamente como um documento que propiciou as bases dos DH como hoje se encontram, a chamada “Declaração Francesa” traz em seu bojo o princípio de que todos são iguais em direitos, conservando os direitos naturais e imprescritíveis do homem como sendo a liberdade, propriedade, segurança e resistência à opressão. Com relação à liberdade, define-a como “ fazer tudo aquilo que não prejudique a outrem”, recepciona a lei como vontade geral e prevê, como a Declaração Americana, o direito ao devido procesos legal, à presunção de inocência, também adotada pela nosso Constituição e define que a sociedade tem o direito de exigir contas de todo o agente público pela sua administração.. 1.2.1.5. Declaração dos Direitos (1791) A Declaração dos Direitos protege a liberdade de expressão, a liberdade de religião, o direito de guardar e usar armas, a liberdade de assembleia e a liberdade de petição. Esta também proíbe a busca e a apreensão sem razão alguma, o castigo cruel e insólito e a autoinculpação forçada. Entre as proteções legais que proporciona, a Declaração dos Direitos proíbe que o Congresso faça qualquer lei em relação ao estabelecimento de religião e proíbe o governo federal de privar qualquer pessoa da vida, da liberdade ou da propriedade sem os devidos processos da lei. Em casos de crime federal é requerida uma acusação formal por um júri de.

(26) 26. instrução para qualquer ofensa capital, ou crime infame, e a garantia de um julgamento público rápido com um júri imparcial no distrito em que o crime ocorreu, e proíbe um duplo julgamento. 1.2.1.6. A Primeira Convenção de Genebra (1864) A importância histórica dessa convenção está no fato de que ela inaugura o que se denominou “direito humanitário”, no âmbito internacional. Isto significava um conjunto das leis e costumes de guerra, visando minorar o sofrimento de soldados doentes e feridos, bem como de populações civis atingidas por um conflito bélico. É a primeira manifestação dos direitos humanos na esfera internacional, daí sua importância no campo. O direito da guerra e da paz passou no início do século XVII a dividir-se em direito preventivo da guerra e direito do estado de guerra, destinado a regular as ações dos países combatentes. A evolução posterior, no entanto, levou ao reconhecimento da ilicitude da guerra como solução de conflitos internacionais, quaisquer que sejam as razões de seu desencadear. A Convenção assinada em Genebra em 22 de agosto de 1864, por países europeus, destinada a melhorar a sorte dos militares nos exércitos em campanha, surgiu dos esforços de uma comissão reunida em torno do suíço Henry Dunant. Em livro publicado em 1862, Um Souvenir de Solférino, relatou como organizou entre os exércitos austríacos e francopiemonteses, durante a batalha de Solferino em junho de 1859, os serviços de pronto-socorro para os soldados feridos de ambos os lados da batalha. As convenções sobre soldados feridos e prisioneiros de guerra foram revistas e consolidadas em três situações diferentes em Genebra, (1949), sob os auspícios da Comissão Internacional da Cruz Vermelha. Na mesma ocasião, foi celebrada uma quarta convenção, tendo por objetivo a proteção da população civil em caso de guerra. Com relação a esse tema, tomemos como parâmetro o trecho retirado do portal “unidos para os direitos humanos” que nos ilustra muito bem a respeito da referida Convenção26: Em 1864, dezesseis países europeus e vários estados americanos assistiram a uma conferência em Genebra, a convite do Conselho Suíço Federal, com a iniciativa do Comitê de Genebra. A conferência diplomática foi celebrada com o objetivo de adotar uma convenção para o tratamento de soldados feridos em combate.. Os princípios fundamentais foram estabelecidos na Convenção e foram mantidos pelas Convenções posteriores de Genebra especificando a obrigação de ampliar o cuidado, sem discriminação, ao pessoal militar ferido ou doente, mantendo o respeito para com eles e com a. 26. Declaração Universal dos Direitos do Homem. Preâmbulo. Disponível em: <http://www.unidosparaosdireitoshumanos.com.pt/what-are-human-rights/universal-declaration-of-humanrights/preamble.html>. Acesso em: 23.03.2018..

(27) 27. marca de transportes de pessoal médico e equipamentos distinguidos pela cruz vermelha sobre um fundo branco. 1.2.1.7. As Nações Unidas (1945) A Segunda Guerra Mundial durou de 1939 até 1945 e, ao seu final, as cidades por toda a Europa e Ásia encontravam-se em ruínas e chamas, literalmente destruídas necessitando urgente reconstrução. Milhões de pessoas haviam morrido, outros milhões mais estavam sem lar, passando fome. As forças russas cercavam o remanescente da resistência do exército alemão na bombardeada capital de Berlim. Ante o estrondoso quadro de destruição e morte, em abril de 1945, delegados de cinquenta países reuniram–se em São Francisco, Califórnia, EUA, para uma Conferência. O objetivo da Conferência das Nações Unidas na Organização Internacional era formar um corpo internacional, supranacional, acima do território dos países, para promover a paz e prevenir futuras guerras. Dessa reunião surgiram ideais que foram declarados no preâmbulo da uma carta proposta pelos delegados participantes com a seguinte essência: “Nós os povos das Nações Unidas estamos determinados a salvar as gerações futuras do flagelo da guerra, que por duas vezes na nossa vida trouxe incalculável sofrimento à Humanidade”27.. 1.2.1.8. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) Cientes da necessidade de reconstruir os DH logo após o término da Segunda Guerra, bem como de restabelecer a paz e a união internacional, cinquenta países presentes na Conferência Internacional criam em 1945 a ONU – Organização das Nações Unidas. Piovesan28 é muito feliz ao definir que “a barbárie do totalitarismo significou a ruptura do paradigma dos direitos humanos por meio da negação do valor da pessoa humana como valor-fonte do direito. Se a Segunda Guerra significou a ruptura com os direitos humanos, o pós-guerra deveria significar sua reconstrução.”. Com esse pensamento e nesse contexto histórico, em 1948, sob a presidência de Eleanor Roosevelt, delegada dos Estados Unidos nas Nações Unidas, viúva do presidente Franklin Roosevelt e defensora dos direitos humanos por vontade própria, a Comissão presente à. 27. Ibid. PIOVESAN, Flavia. Direitos Humanos e Justiça Internecional: um estudo comparativo dos sistemas regionais europeu, interamericano e africano, p. 122. 28.

(28) 28. Conferência Internacional elaborou o rascunho do documento que viria a converter-se na Declaração Universal dos Direitos Humanos, captando a atenção mundial para a importância do tema. A Declaração foi adotada pelas Nações Unidas no dia 10 de dezembro de 1948, e sua Presidente referiu-se à Declaração como a Carta Magna internacional para toda a Humanidade. No seu preâmbulo e no artigo 1º, a Declaração proclama os direitos inerentes de todos os seres humanos: O desconhecimento e o desprezo dos direitos humanos conduziram a atos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade, e o advento de um mundo em que os seres humanos sejam livres de falar e de crer, libertos do terror e da miséria, foi proclamado como a mais alta inspiração do Homem... Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos.. Nesse momento nasce oficial e formalmente um documento legal e internacional de proteção ampla aos Direitos Humanos. Por conseguinte, tais afirmações surgem de forma inexorável para todas as nações e passam a ser reconhecidas de forma supra nacional, pela primeira vez de maneira coletiva. Sua adoção é um imperativo civilizatório que referencia a sociedade desde a metade do século XX. Pela importância da Declaração neste estudo, junta-se o Preâmbulo deste documento como Anexo A.. 1.2.2. A Evolução histórica dos Direitos Humanos no Brasil No que diz respeito aos Direitos Humanos no Brasil, dentro do contexto interno das normas, a Constituição Federal de 1988 acolheu em seu texto todas as gerações de direitos humanos. As liberdades individuais constam no art. 5º. Os direitos sociais no art. 6º. Os direitos políticos nos arts. 14 a 16. A saúde no art. 6º e no art. 196. O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado no art. 225. Mas nem sempre isso ocorreu na história do país. A melhor maneira de entender a evolução dos Direitos Humanos no Brasil é por meio do estudo evolutivo das Constituições Brasileiras. Os princípios de garantias dos direitos políticos e civis apareciam, já na Constituição de 1824, ainda que o poder estivesse concentrado nas mãos do imperador. O objetivo era garantir principalmente a liberdade, a segurança individual e, a propriedade. Essa lei foi a que perdurou por maior tempo em nosso país entre 1824 e 1891, ou seja, por 65 anos. Ainda assim, nesse período, continuava a existir a escravidão e os escravos eram tratados como mercadoria e propriedade do senhor, sendo comercializados como tal. As violências sofridas por essas pessoas, com a perda de liberdade, desrespeito à sua integridade física e a.

(29) 29. perda da própria vida, foram nitidamente um desrespeito aos DH que infelizmente se consagrou durante a vigência da Constituição Imperial. Na Constituição de 1891, já no período republicano, surgiram direitos importantes como a garantia do sufrágio direto para eleição de deputados, senadores, presidente e vice-presidente. Mas o sufrágio não era universal, já que impedia o voto de mulheres, mendigos e analfabetos. Esta Constituição defendia os princípios de liberdade, igualdade e justiça. Entre algumas medidas protetivas aos DH da Constituição republicana, estão o direito à plena liberdade religiosa, à defesa ampla aos acusados, direito à livre associação e reunião, destacando a importante inserção no rol de proteção pessoal dos indivíduos a criação do habeas corpus, como forma de proteção nos casos de violência ou coação no direito à liberdade por ilegalidade ou abuso de poder. Com a revolução constitucionalista de 1932 e a posterior Constituição de 1934 foram estabelecidas algumas concepções de segurança ao indivíduo, como proteção ao direito adquirido, proibição da prisão por dívidas, criação da assistência judiciária aos necessitados e a obrigatoriedade de comunicação imediata ao juiz competente sobre qualquer prisão ou detenção. A Constituição de 1934 também instituiu diversas garantias ao trabalhador, elevando à categoria constitucional os direitos sociais, tais como: a proibição de diferença salarial para um mesmo trabalho e da diferença salarial em razão de idade, gênero, nacionalidade ou estado civil; a proibição do trabalho para menores de 14 anos e do trabalho noturno para menores de 16, além de proibir o trabalho insalubre para menores de 18 anos e para mulheres. Determinou a estipulação de um salário mínimo ao trabalhador, o descanso semanal remunerado e a limitação diária de jornada a oito horas. Tais medidas fazem avançar os DH no âmbito de relação entre capital e trabalho. O período do Estado Novo, sob o comando austero do Presidente Getúlio Vargas, não trouxe avanços dos direitos humanos. Durante esses anos (1937 a 1945), ocorreu o fechamento do Congresso e a proibição de funcionamento de quase todos os partidos políticos. Se por um lado houve benefícios aos trabalhadores no campo do Direito do Trabalho, inclusive com a edição da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), por outro houve o fim da liberdade política e a imposição de mecanismos de controle da sociedade. Com o início do Estado Novo passa a vigorar a Constituição de 1937, que tinha influências fascistas e autoritárias, pois autoriza e tornava legítimos os poderes absolutos do Presidente da República, chamado por parte da imprensa da época como “o ditador”, enquanto os DH eram violados pelo aparelho repressor do Estado – a Polícia Especial. Aquela.

(30) 30. Constituição recebeu apelido de “Polaca”, justamente por ter sido inspirada no modelo semifascista polonês e ser extremanente autoritária. Como resultado, na época foi criado um Tribunal de Segurança Nacional, com competência para julgar qualquer crime contra a segurança do Estado. O governo assumiu amplo domínio sobre o Poder Judiciário e foram nomeados diversos interventores nos estados. Nesse período de repressão, os direitos fundamentais foram enfraquecidos e esquecidos, sobretudo por causa da atuação já mencionada da Polícia Especial e também pelo poder exercido no Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), que censurava as comunicações orais e escritas, inclusive em correspondências dos indivíduos e das empresas. Este cenário só foi alterado em 1946, quando chegou ao fim o Estado Novo e vigorou uma nova constituição. Essa constituição restaurou os direitos e garantias individuais, além de ampliá-los, quando em comparação com o texto de 1934. Mas essa melhoria não durou muito, pois o desrespeito aos direito fundamentais voltou a aparecer em 1964, com a instauração do Regime Militar. O período militar foi conturbado para os Direitos Humanos no Brasil. Em 1964 os militares assumiram o governo brasileiro com a promessa de que a intervenção duraria um curto tempo, até que o país superasse os problemas que levaram à intervenção. Apesar da promessa, o Regime Militar durou vinte e um anos e, marcado por um centralismo e autoritarismo, resultou em sérias consequências aos direitos fundamentais. Após o longo período de vinte e um anos de Regime Militar ditatorial, deflagrou-se o processo de democratização no Brasil. A transição democrática exigiu a elaboração de um novo código, que refizesse o pacto político-social. Tal processo culminou na promulgação de uma nova ordem constitucional – nascia assim a Constituição Federal de 1988, conhecida como Constituição cidadã. A Carta de 1988 introduz indiscutível avanço na consolidação legislativa das garantias e direitos fundamentais e na proteção de setores vulneráveis da sociedade brasileira. A partir dela, os Direitos Humanos ganham relevo extraordinário, na perspectiva do reconhecimento do direito à cidadania como prerrogativa para todos os cidadãos. A Emenda Constitucional nº 45/2004, acrescentou ao art. 5º, o parágrafo 3º, o qual dispõe que os tratados internacionais sobre direitos humanos, que forem aprovados em cada casa do Congresso Nacional, por 3/5 de seus membros, em dois turnos, equivalem às emendas constitucionais, ou seja, esses tratados ganham status de norma constitucional e, portanto, ampliam as garantias e tornam-se mais rígidos quanto a possibilidade de mudança legislativa..

(31) 31. Percebe-se pelo resgate histórico destacado, que os DH no Brasil iniciaram-se por bons caminhos no Império e no início do século XX, com a criação e ampliação dos direitos inerentes ao indivíduo. Porém, também encararam períodos de instabilidade e repressão onde os DH foram colocados à margem da sociedade pela intervenção estatal, vivendo momentos tormentosos como no período getulista e no regime militar. Mas esta situação ganhou estabilidade com a promulgação da Constituição de 1988, que afasta qualquer possibilidade de aviltamento dos DH, preservando os direitos fundamentais dos brasileiros e brasileiras através de previsões legais imutáveis, como por exemplo as chamadas “cláusulas pétreas” previstas no parágrafo quarto do artigo 60 da Constituição.. 1.3. Os Direitos Humanos e a Pena de Morte: uma discussão diametralmente oposta Não se pode deixar de abordar ainda que de forma sucinta, a existência de um fato em relação à vitalidade e a atualidade dos direitos humanos: a pena de morte. Quando se analisam tais questões deve-se salientar a importância da conciliação entre dois fatos sociais tão díspares. Apesar das inúmeras tentativas das entidades supranacionais e das normas internacionais sobre o tema DH, há países que ainda adotam a tortura, a crueldade e, por mais absurdo que seja, a pena de morte nos dias atuais. É inegável afirmar que existem vários Direitos Humanos consagrados mesmo sem lei escrita, como dissemos o Direito Natural ou o Jusnaturalismo. Contudo, o direito à vida é sem dúvida o mais precioso e importante. Em uma colocação ao mesmo tempo poética, realista e, também, jurídica, o médico Benjamin Rush em 1787 afirmava: “não devemos esquecer que até os criminosos possuem almas e corpos compostos dos mesmos materiais que os de nossos amigos e conhecidos. São Ossos dos seus ossos.” 29 Conhecido autor estudado nas Escolas de Direito, Beccaria30 ajudou a valorizar a linguagem do sentimento. Para ele a pena de morte “não se apoia, assim, em nenhum direito. É uma guerra declarada a um cidadão pela nação, que julga a destruição desse cidadão necessária ou útil.” Além disso, ao justificar a intervenção o autor expressava esperança de que “se eu provar, porém, que a morte não é útil nem necessária, terei ganho a causa da humanidade.” Ouvir os defensores da pena de morte é justo e necessário. Dentre vários argumentos a favor da pena capital destacam-se: a inibição de atos criminosos, em especial em países em que a criminalidade é alta, o índice de punição é baixo. Some-se, ainda as brandas penas previstas. 29 30. HUNT, Lynn. A invenção dos Direitos Humanos, p.76. BECCARIA, Cesare. Dos Delitos e das Penas, p. 55..

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