Para iniciar a abordagem deste capítulo é interessante destacar que nos últimos 30 a 40 anos consolidou-se uma preocupação nas Instituições de Ensino com o tema em debate, como forma de buscar resoluções às demandas sociais na direção de uma responsabilidade ética até então não vista nas escolas de formação educacional, em relação ao perfil profissional dos egressos. Sustentam Araújo e Grandino51 que:
Ao menos nas três últimas décadas, a Educação em Direitos Humanos tem sido uma demanda crescente das sociedades ocidentais democráticas e dos sistemas de ensino desses países. Parece consolidar-se o reconhecimento de que uma maior responsabilidade institucional com a formação ética e moral dos seus estudantes, uma preocupação com a cidadania e com a busca de soluções para os problemas sociais devem se incorporar às atribuições científicas tradicionais. Partindo de tais demandas, universidades do mundo inteiro vêm promovendo transformações curriculares e, porque não dizer, em seu próprio objeto de ensino e pesquisa, na direção de levar as novas gerações de profissionais a terem maior responsabilidade ética e profissional.
Como vemos, esse intróito traduz com substância o objetivo traçado e mostra, em apenas algumas linhas, não só a preocupação com os problemas sociais como também a responsabilidade que os novos profissionais devem ter na resolução dos conflitos a partir de uma nova ética nas relações dentro da sociedade.
Não se pode negar que, para atingir estes objetivos propostos, a ferramenta que dispõe a humanidade é a educação, e no caso específico deste trabalho, a educação em Direitos Humanos.
O primeiro documento oficial de Direitos Humanos a mencionar o termo “educação” foi a Declaração Universal de 1948, quando em seu preâmbulo diz52:
A ASSEMBLEIA GERAL proclama ESTA DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS como um ideal comum a ser alcançado por todos os povos e todas as nações, para que todo indivíduo e todo orgão da sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração, procure pelo ENSINAMENTO, EDUCAÇÃO, promover o respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universal e efetiva, tanto entre os povos dos próprios Estados-Membros, quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição.
Porém, só no artigo 26 o tema é mencionado, mas sem a utilização da palavra educação que é substituída pelo vocábulo “instrução”. Vejamos:
Todo ser humano tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnico- profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior, esta baseada no mérito.
51 ARAÚJO, Ulisses F. e GRANDINO, Patrícia Junqueira. Direitos Humanos e Formação Universitária: relato de uma experiência da EACH-USP, p. 4.
52 Declaração Universal dos Direitos Humanos. Disponível em:
A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.
De acordo com Ferreira53, educação tem o seguinte significado: “Processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral da criança e do ser humano, em geral visando sua melhor integração individual e social.”
Paulo Freire54 acreditava que “A educação é sempre uma certa teoria do conhecimento posta em prática”, pois segundo ele “seria uma agressiva contradição se, inacabado e consciente do inacabamento, o ser humano não se inserisse num permanente processo de esperançosa busca. Este processo é a educação”. Com isso “(...) a educação não é um processo de adaptação do indivíduo à sociedade. O homem deve transformar a realidade para ser mais, isto é, em sua busca constante pela humanização" Portanto, para Freire55, educação é uma forma de intervenção no mundo.
De acordo com o portal “significados”56, no seu sentido mais amplo, educação significa “o meio em que os hábitos, costumes e valores de uma comunidade são transferidos de uma geração para a geração seguinte. A educação vai se formando através de situações presenciadas e experiências vividas por cada indivíduo ao longo da vida”.
Assim, podemos definir educação como um processo de formação e desenvolvimento do ser humano, no âmbito intelectual, físico e moral, com vistas a integrá-lo na vida social ou no seu próprio grupo, ondeos hábitos, costumes e valores de uma comunidade são transferidos de uma geração para a geração seguinte.
Nesse contexto, como o processo do conhecimento chamado educação tem como alvo o ser humano e sua evolução social, geração a geração, a educação em Direitos Humanos possui importância capital para o alcance do objetivo nele proposto que é a formação do ser humano preparando-o para o convívio social em obediência ao patamar mínimo de direitos que devem ser respeitados dentro desse convívio.
Em sua designação mais genérica, chama-se de educação uma atividade social tão antiga quanto à própria instituição de uma sociedade minimamente organizada. Assim, como
53 FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio Século XXI,p. 234.
54 FREIRE, Paulo. Educação e esperança. In: Pedagogia da Indignação: cartas pedagógicas e outros escritos, p. 13.
55 FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa, p. 40. 56 Disponível em: <https://www.significados.com.br/educacao/>. Acesso em:01.07.2018.
considera Jaeger57: “todo povo que atinge certo grau de desenvolvimento inclina-se naturalmente à prática da educação.”
Nesse contexto do documento internacional-universal citado, a Constituição Federal Brasileira de 1988 foi elaborada e proclamada após a ruptura que o autoritarismo advindo da ditadura militar instalou durante mais de vinte anos significando, assim, um momento fundador da reconstrução democrática no Brasil, com um atraso de pelo menos quarenta anos. O país passou sua história recente a limpo com a referente Constituição Federal de 1988.
Como afirma Fischmann58, a educação tem papel central nestes dois documentos, a Declaração Universal e a Constituição, por se tratar de reconstrução, afirmando que toda mudança é, de certa forma, uma nova construção, entrelaçando novas práticas e novas metodologias. Logo, a internacionalização da educação se dá no sentido de expandir cada vez mais em razão de oferecer de forma mais igualitária possível, para que seres humanos possam viver em condições dignas.
É nesse contexto, internacional e constitucional interno, que se pode afirmar que o desenvolvimento do direito à educação no Brasil caracteriza-se por duas vertentes: a expansão da escolarização, inclusive com a proliferação de escolas das mais variadas matérias; e a afirmação da construção escolar comum a todos. Esta última uma pespectiva da afirmação indiscutível do direito à igualdade, também previsto nos instrumentos internacionais e na Constituição Brasileira.
Quando se considera a educação como um Direito Humano, entende-se o ser humano na sua vocação natural de querer ser “cada vez mais e melhor”, o que o difere dos demais seres vivos, buscando superar uma simples existência no mundo.
Dentro desta premissa, Haddad59 assevera que:
Conceber a Educação como Direito Humano diz respeito a considerar o ser humano na sua vocação ontológica de querer “ser mais”, diferentemente dos outros seres vivos, buscando superar sua condição de existência no mundo. Para tanto, utiliza-se do seu trabalho, transforma a natureza, convive em sociedade. Ao exercitar sua vocação, o ser humano faz História, muda o mundo, por estar presente no mundo de uma maneira permanente e ativa. A educação é um elemento fundamental para a realização dessa vocação humana. Não apenas a educação escolar, mas a educação no sentido amplo, a educação pensada num sistema geral, que implica na educação escolar, mas não se basta nela, porque o processo educativo começa com o nascimento e termina apenas no
57 JAEGER, W. Paidéia: a formação do homem grego, p.3.
58 FISCHMANN, Roseli. Constituição brasileira, direitos humanos e educação, p. 156.
momento da morte do ser humano. Isto pode ocorrer no âmbito familiar, na sua comunidade, no trabalho, junto com seus amigos, nas igrejas, etc. Os processos educativos permeiam a vida das pessoas.
Como vemos, a educação não representa apenas um momento da vida cotidiana do ser humano, um átimo de conhecimento que se esgota com a passagem do tempo. Trata-se de um processo de aquisição de instrução, conforme a Declaração de 1948, que se estende por toda uma vida e que será repassado, no momento próprio, para a próxima geração de adquirentes, em um movimento que não se encerra em uma fase da vida humana.
É justamente neste contexto que a educação em Direitos Humanos representa papel preponderante na formação do indivíduo, a ponto de tornar-se, uma condição para a sobrevivência do próprio ser humano e seu bem estar social. Não há como considerar uma sociedade justa, equilibrada, igualitária, pacífica, representativa e minimamente civilizada sem a presença constante desse essencial elemento. Assim, os DH surgem como parte do processo civilizatório do ser humano e a educação, como espaço que fertiliza esse movimento.
Bobbio60, ao interpretar a Declaração Universal, afirma que a “declaração é um documento profético e que pode ser considerada como princípio de um programa detalhado e cumprido ao longo do tempo.”
A questão dos Direitos Humanos constitui um dos eixos fundamentais da problemática das sociedades contemporâneas. Do plano internacional ao local, das questões globais às da vida cotidiana, eles atravessam nossas preocupações, buscas, projetos e, por que não, nossos sonhos. Afirmados ou negados, exaltados ou violados, reconhecidos ou reivindicados, fazem parte da nossa vida coletiva, familiar e também individual.
É na integração entre igualdade e diferença, justiça e não justiça, guerra e paz, superar as desigualdades e, ao mesmo tempo, valorizar a diversidade, promover o reconhecimento aos direitos humanos como condição social, é que consideramos que este desafio está imbricado à educação e à educação em direitos humanos hoje, assim como, suas interrelações.
Miranda61 sustenta que o discurso dos DH alcança maior espaço à medida que a violação desses direitos atinge segmentos politicamente organizados, apoiados por organizações internacionais. Além disso, atrai o interesse de setores da imprensa e da comunidade internacional a prática de genocídios e outras atrocidades contra coletividades desprotegidas e vulneráveis.
60 BOBBIO, Norberto. A era dos direitos, p. 5.
61 MIRANDA, Nilmário; AIEXE, Egidia Maria de Almeida. Educação em direitos humanos: um plano, muitos desafios e uma missão. In: PEREIRA, Flávio Henrique Unes; DIAS, Maria Tereza Fonseca (Orgs.). Cidadania e Inclusão Social: Estudos em homenagem à Professora Miracy Barbosa de Sousa Gustin, p. 523.
Destaca de maneira crítica que mesmo os governantes considerando os Direitos Humanos uma ameaça à sua soberania, e utilizando o discurso da autodeterminação dos povos para defender-se de tal política, o tema é cada vez mais presente na agenda política dos países. Por isso, nota-se grande distância entre o discurso e a efetividade desses direitos, que no centro do debate sobre o tema da justiça, oscilam entre respeitabilidade no plano formal e ineficácia no plano fático. Por fim, conclui que dessa forma, surge a preocupação daqueles que defendem e promovem os DH no que tange à melhor compreensão das razões que levam esses direitos a representar o que seria o “mundo civilizado”, ora desfigurado, ora pálido demais.
Sempre foi um tema relevante, tendo em vista inúmeras situações absurdas surgidas na sociedade. Assim, como ideia importante e significativa para o presente estudo, caso a disciplina de Direitos Humanos fosse mais abrangente e tivesse sido ministrada com a devida importância, alguns fatos cotidianos poderiam não ter ocorrido. Como exemplo, cita-se o
bullying em relação à cor, ao peso, a orientação sexual e até a altura das pessoas.
Recentemente, um renomado colégio paulistano teve de conviver com importante vazamento de informações pessoais de seus alunos e de professores, após a invasão, por um aluno seu, do sistema de informática do colégio, expondo a todos as mais variadas situações de
bullying.
De acordo com a reportagem e pelo depoimento dos envolvidos, a “falta de desenvolvimento moral do aluno” que invadiu a rede de computadores da Instituição, resultou na exposição indevida das informações apostas nas fichas individuais dos alunos pelos professores e coordenadores, o que resultou nas mais diversas reações pessoais e um grande temor por atitudes mais dramáticas por parte do alunado, tal como uma tentativa de suicídio62. As sociedades contemporâneas se preocupam demasiadamente em construir legislações protetivas aos DH, mas estes deveriam ser internalizados no imaginário social, nas mentes das pessoas de forma sistêmica. Ou seja, por meio de uma visão estrutural do sistema de direitos inserida na educação que transforma e nos faz pensar diferente, caso contrário, não construiremos uma cultura dos DH na nossa sociedade.
Enquanto existir a ideia de se levar vantagem em tudo e sobre o outro, a cultura dos DH será estreita. A lei, por si só, não transforma comportamentos e atitudes enraizadas por gerações. E, neste prisma, os processos educacionais são fundamentais. O conteúdo e a forma fazem diferença na educação.
62 RODRIGUES, Cinthia. A rede de intrigas do Colégio Bandeirantes. Disponível em: <http://www.cartaeducacao.com.br/reportagens/a-rede-de-intrigas-do-colegio-bandeirantes/>. Acesso em: 25.04.2018.
A Constituição Federal de 1988 em seu artigo 3º é expressa em instituir como objetivo fundamental da República “a redução das desigualdades sociais e regionais”, salientando a importância da igualdade entre os individuos, tal máxima em direito se perfaz em: “A verdadeira igualdade consiste em tratar-se igualmente os iguais e desigualmente os desiguais na medida de sua desigualdade.” Esta relação entre igualdade e diferença dentro de uma concepção prática dos direitos humanos, discute as articulações entre o direito à educação e a educação em direitos humanos, tendo como questão central a passagem da afirmação da igualdade ou da diferença para a assertiva da igualdade na diferença.
Sabe-se que as pessoas são diferentes e que pensam diferentemente umas das outras e, nesse passo, necessitam de apoios ou suportes de forma diferenciada. Eis a aplicação da igualdade e sua convergência àquela máxima jurídica acima citada:“A verdadeira igualdade consiste em tratar-se igualmente os iguais e desigualmente os desiguais na medida de sua desigualdade.”
A partir de tantas lutas, fracassos e sacrifícios, os Direitos Humanos são reconhecidos hoje como direitos positivados. Ou seja, postos em uma sociedade em uma determinada época histórica, estão presentes em diversos diplomas internacionais, sempre buscando uma maior proteção da pessoa humana. Sabemos que com a aderência dessas normas no plano jurídico nacional, ainda estamos tentando atingir objetivos propostos na Carta das Nações Unidas de 1948.
Tal afirmativa encontra-se já no seu preâmbulo, quando enfatiza como objetivo: “a promoção do progresso social e melhores condições de vida dentro de uma liberdade ampla”. Os DH se impõem, portanto, como uma ética imperativa, comprometida com a equidade, tornando-se premente em todas as sociedades. As normas positivadas por si só não garantem a sua aplicação, temos de promover conscientização para a sociedade civil e uma maior ainda para a classe política, já que na atualidade nos deparamos com a maior crise ética em nosso país.
Torna-se urgente e necessária a educação de crianças, adolescentes e adultos quanto aos seus deveres e direitos, fazendo com que estes se sintam parte da nação, e assim, incluir os temas humanísticos, a Constituição Federal, a ética e a cidadania na educação formal por meio das escolas públicas e privadas, promovendo assim, um maior conhecimento para futuras discussões e aplicações das normas jurídicas na vida contemporânea.
Não nos esqueçamos de que os DH foram criados por humanos para a sua proteção, estando intrinsicamente presente uma razão absoluta e lógica para a sua contemplação, e só por meio da educação seríamos capazes de atingir por completo e derradeiro os objetivos previstos
na Carta Internacional. Como disse Mandela em discurso proferido em 2003, “a educação é a maior arma que podemos utilizar para mudar o mundo”.
No capítulo seguinte analisaremos a grade curricular da Universidade Metodista de São Paulo, e a aplicação da disciplina Direitos Humanos, destacando a concepção educacional confessional desta Universidade, observando os fins e os meios propostos para a aplicação e desenvolvimento no curso em questão.