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Relatório Final
Estágio Profissionalizante - 6º ano
Mestrado Integrado em Medicina
Catarina Sofia Faria Tavares | 2013196
Regente: Prof. Doutor Rui Maio
Orientador: Prof. Doutor Joaquim de Sousa Gago
Índice
Introdução 1
Descrição das Atividades Desenvolvidas 1
Medicina Interna 1
Cirurgia Geral 2
Pediatria 3
Ginecologia e Obstetrícia 3
Saúde Mental 4
Medicina Geral e Familiar 5
Estágio Opcional 5
Elementos Valorativos 6
Reflexão crítica 6
Anexos 9
INTRODUÇÃO
A Medicina é uma ciência em permanente mutação que exige a perceção da globalidade do ser humano na sua dimensão física, psicológica e social, sendo por isso a formação de um Médico dotada de uma enorme complexidade, que vai muito além da aprendizagem de conhecimentos teóricos e da aquisição de gestos técnicos. Esta formação exige cultura, sem a qual não conseguiríamos compreender o doente como um todo dentro do contexto em que se insere. Impõe sentido ético e moral e interesse pelo próximo, sem os quais não se poderá praticar a abordagem humanista que constituiu o fundamento da prática médica1.Mais que
tudo, implica um desafio pessoal e um espírito de superação constantes, uma vontade de saber e fazer mais e melhor, sem os quais não poderemos ser a melhor versão de nós próprios em cada momento e para com os nossos doentes. Assim, o Estágio Profissionalizante do 6º ano do Mestrado Integrado em Medicina procura consolidar as competências e atitudes desenvolvidas pelo aluno ao longo do curso, através de um contacto direto com a prática clínica, de forma a prepará-lo para o exercício da arte médica. Pretende ser uma ocasião ímpar no curso, um elo entre a formação pré-graduada e a prática profissional, de forma a proporcionar um maior sentido de responsabilidade e independência. Procurei, assim, ao longo deste ano letivo, aperfeiçoar as minhas capacidades, focando-me não só no conhecimento científico, mas também nas atitudes e valores no contacto com os outros e como base da relação médico-doente. Além disso, estabeleci como objetivos pessoais identificar falhas na minha formação em anos anteriores, uma vez que estas se tornam mais evidentes na prática do exercício clínico, e colmatá-las, quer através do estudo quer com o auxílio dos profissionais com quem fui contactando nos estágios. Não menos importante, procurei ser pró-ativa na procura de momentos de aprendizagem e de intervenção, adquirindo progressivamente a segurança e confiança necessárias ao exercício da Medicina. O presente relatório tem como objetivo principal a análise retrospetiva, de forma sucinta, do trabalho realizado ao longo do ano. Tendo em foco esse propósito, encontra-se dividido em quatro secções: uma primeira, em que apresento os objetivos para o estágio profissionalizante e a organização do relatório, uma segunda, que constitui a síntese das atividades desenvolvidas em cada estágio parcelar, uma terceira, com os elementos valorativos, e uma quarta, de reflexão crítica.
DESCRIÇÃO DAS ATIVIDADES DESENVOLVIDAS
Medicina Interna
O meu 1º estágio deste ano profissionalizante decorreu no Centro Hospitalar Lisboa Ocidental, no Hospital de São Francisco Xavier, no Serviço de Medicina – Unidade funcional IV, tendo acompanhado, ao longo das 8 semanas de estágio, as equipas lideradas pelo Dr. José Guia e pela Dra. Alice Sousa. A vivência na enfermaria traduziu a maior parte da minha atividade formativa, competindo-me a observação de 2 a 3 doentes por dia,
com a realização deexame objetivo, colheita de dados da anamnese, redação do diário clínico, requisição e interpretação de meios complementares de diagnóstico, prescrição de terapêutica farmacológica e não farmacológica e elaboração de um plano de abordagem, sendo todas estas decisões sempre previamente discutidas e aprovadas pelos meus tutores. Gostaria de destacar a oportunidade de trabalhar numa equipa multidisciplinar, colaborando com as equipas de enfermagem, fisioterapia, terapia da fala e serviço social, na partilha de informações clínicas e gestão dos problemas dos doentes, assim como a interação com os familiares e cuidadores dos doentes, atividade que se revelou verdadeiramente desafiadora, permitindo-me expandir o meu sentido de responsabilidade, valor essencial e inerente à prática clínica. Participei ativamente nas visitas clínicas lideradas pelo Diretor de Serviço, apresentando os doentes observados por mim na enfermaria. A passagem pelo Serviço de Urgência revelou-se fundamental ao nível do raciocínio clínico, permitindo-me perceber a importância da distinção entre problemas emergentes, urgentes e não urgentes. Pude ainda participar na consulta externa de Medicina Interna, Diabetes e Diabetes Gestacional. Como parte da avaliação, elaborei uma apresentação teórica em sessão clínica para todo o serviço de Medicina Interna com o tema “Avaliação da qualidade de vida”.
Cirurgia Geral
A minha atividade formativa decorreu no Hospital Beatriz Ângelo, sob orientação do Dr. João Sousa Ramos, tendo-se dividido numa semana de sessões teóricas e teórico-práticas, quatro semanas dedicadas às várias vertentes da Cirurgia Geral (Consulta Externa, Enfermaria, Bloco Operatório e Urgência), duas semanas no estágio opcional de Anestesiologia e uma semana rotativa no Serviço de Urgência Geral. A maior parte do tempo foi passado em contexto de grande cirurgia, em especial patologia colorretal, tendo-me sido dada a oportunidade de participar enquanto 1º ou 2º ajudante em váriascirurgias, o que se revelou importante para a melhor compreensão dos gestos técnicos, procedimentos e instrumentos cirúrgicos, revisão de aspetos anatómicos relevantes e importância da assepsia e adequada preparação do campo cirúrgico. Acompanhei também o meu tutor em consultas pré-operatórias e de seguimento pós-operatório, sendo que nas primeiras observei o processo de marcha diagnóstica e de estabelecimento de um plano terapêutico, enquanto que nas segundas pude rever os princípios gerais do follow up cirúrgico e as principais complicações e recomendações inerentes ao período pós-operatório de cada procedimento. A passagem pela enfermaria foi complementada pela presença semanal nas visitas médicas. O estágio opcional de Anestesia foi bastante completo. No bloco operatório, aprofundei os meus conhecimentos sobre os diversos tipos de técnicas anestésicas, observei indução e reversão anestésica, obtenção de analgesia e relaxamento muscular, e treinei inclusivamente procedimentos de ventilação e entubação, sempre sob supervisão. Para além das consultas pré-operatórias, gostaria de destacar a presença nas consultas de Acupuntura Médica, área até então desconhecida para mim, e o apoio prestado pela anestesia aos tratamentos de eletroconvulsivoterapia. No
que concerne à componente formativa, realizei o curso TEAM e participei no mini-congresso dos alunos do 6º ano, tendo apresentado um trabalho intitulado "Bottom Up".
Pediatria
O estágio decorreu no Hospital Dona Estefânia, sob tutela da Dra. Catarina Diamantino, que se dedica essencialmente à área de Endocrinologia Pediátrica. Como tal, a maioria da atividade assistencial decorreu nas consultas externas de endocrinologia, onde pude assistir a consultas de endocrinologia geral, sendo as patologias mais frequentemente observadas a baixa estatura e as alterações do desenvolvimento pubertário, e pude praticar o exame objetivo direcionado à aquisição correta dos parâmetros antropométricos e a análise longitudinal das respetivas curvas de crescimento. Nas consultas de Obesidade e de Diabetes Mellitus, tomei consciência da necessidade de uma abordagem multidisciplinar para o sucesso terapêutico nestas patologias, com intervenção ativa de nutricionistas, equipa de enfermagem e equipa médica, e ainda da importância do envolvimento de todo o agregado familiar no processo e não apenas da criança/adolescente. Acompanhei também a minha tutora no Serviço de Urgência, onde tiveum contacto mais próximo com as patologias mais frequentes em idade pediátrica e pude melhorar a colheita de história clínica, que constitui por si só um desafio, na medida em que engloba não só o doente como também os pais e os cuidadores. A passagem por este serviço despertou-me ainda para a importância de conseguir criar uma boa relação com os pais, tranquilizando-os e orientando-os corretamente, e reforçando os sinais de alarme a que devem estar atentos e na presença dos quais se devem dirigir ao hospital. Além do mais, assisti diariamente à reunião de passagem dos doentes do Departamento de Pediatria Médica, estive presente em sessões clínicas semanaissobre diversos temas relevantes para a prática clínica na pediatria e participei no Workshop de Emergências Pediátricas. Elaborei uma história clínica sobre abcesso periamigdalino e apresentei um trabalho no seminário final com o tema “Avaliação do crescimento”.
Ginecologia e Obstetrícia
O estágio de Ginecologia e Obstetrícia foi realizado no Hospital dos Lusíadas, sob orientação da Dra. Ana Paula Maia, que se dedica principalmente à vertente da Medicina da Reprodução. Como tal, as quatro semanas do meu estágio decorreram essencialmentena Procriação Medicamente Assistida (PMA), área com a qual nunca tinha contactado anteriormente, mas que rapidamente me conquistou e se tornou num dos meus principais interesses. Neste contexto, assisti a primeiras consultas de infertilidade e de seguimento, monitorizações ecográficas da evolução, exames complementares de diagnóstico como histerossalpingografias, e técnicas de PMA como inseminações intrauterinas, punções ováricas e transferências de embriões. Pude também aprender as principais indicações de cada tratamento, nomeadamente inseminação, FIV (fertilização in vitro) e ICSI (microinjeção intracitoplasmática de
espermatozóides, consolidando estes conhecimentos na passagem pelo laboratório de Embriologia. Este estágio teve uma importante componente cirúrgica, tanto no bloco operatório de Ginecologia, como no Bloco de Partos e no Serviço de Urgência, tendo a ressalvar a preocupação e zelo pedagógico de toda a equipa que me proporcionou a participação como 1º ajudante em todas as cirurgias, partos vaginais e cesarianas observados. Além de tudo, tive a oportunidade de vivenciar as diferentes valências ou subespecialidades da Saúde Reprodutiva e da Mulher disponíveis no Hospital, tais como Consultas de Ginecologia, Consultas de Obstetrícia, Histeroscopias, Consulta de Patologia do Colo, Ecografia Obstétrica, de forma a tornar o meu estágio o mais completo possível. Como complemento à minha formação, realizei um trabalho de revisão sobre o tema “Síndrome de Ovário Poliquístico e Infertilidade” que apresentei no decorrer de uma reunião clínica da Unidade de Ginecologia e Obstetrícia.
Saúde Mental
A minha atividade formativa, após dois dias de introdução teórica na faculdade, decorreu na Clínica 3 – Serviço de Psiquiatria Geral e Transcultural do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa (CHPL), sob a tutela do Dr. Ciro Oliveira. Trata-se de uma enfermaria de casos agudos, sendo que a equipa realiza várias iniciativas com o intuito da promoção da Saúde Mental em população vulnerável e em grande crise, nomeadamente pessoas sem abrigo. A minha atividade decorreu essencialmente no internamento, onde assisti às entrevistas diárias feitas a cada doente, o que me permitiu observar a forma correta de conduzir uma entrevista psiquiátrica e realizar uma correta avaliação do estado mental. Observei também entrevistas familiares, que me possibilitaram tomar consciência da sua relevância na recolha de informações acerca do ambiente biopsicossocial do paciente e do seu comportamento e funcionamento prévios. Numa das sessões de formação interna da Clínica 3, a pedido do diretor de serviço, Dr. António Bento, apresentei uma reflexão crítica sobre o conto “Tristeza” de Anton Tchekov. Participei ainda semanalmente no Grupo Psicoterapêutico Aberto do CHPL que recebe pessoas com múltiplas doenças psiquiátricas de uma forma aberta e pouco burocratizada e sem número limite de participantes, sendo especialmente vocacionado para doentes em situações vulneráveis, como sem abrigo, migrantes e refugiados. Após o grupo, tem lugar a Consulta Aberta ao Mundo que funciona “até não haver mais doentes para ver”, onde são acompanhados muitos dos doentes do grupo, tendo uma importância crucial nestes utentes, muitos deles de difícil adesão a um seguimento médico mais típico. Tive também a oportunidade de acompanhar uma saída da equipa de rua, uma iniciativa pioneira do Dr. António Bento que acompanha doentes psiquiátricos em situação de sem abrigo. Visitámos zonas já previamente sinalizadas no concelho de Lisboa, abordando as pessoas numa perspetiva de tentar apurar se existe patologia psiquiátrica ou risco para tal, promovendo também o encaminhamento para respostas que contribuam para a sua integração social. Além disto, participei semanalmente em sessões de Biblioterapia e no Serviço de Urgência.
Medicina Geral e Familiar
O meu estágio de Medicina Geral e Familiar (MGF) decorreu na Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo (ULSBA), na USF Alfa Beja, durante 4 semanas, tendo sido tutorada pelo Dr. José Carlos Dionísio. Contactei com diversos tipos de consulta, nomeadamente Saúde de Adultos, Saúde Infantil e Juvenil, Saúde Materna, Planeamento Familiar, Vigilância da Diabetes e Hipertensão e Consulta Aberta. Nestas consultas observei principalmente, em adultos, patologia do foro cardiovascular e osteoarticular e, em idade pediátrica, patologia do foro respiratório/infecioso. Deparei-me também com uma diversidade de solicitações a que um MGF frequentemente deve responder, tais como pedidos de referenciação para outras especialidades e para o Serviço de Urgência e procedimentos administrativos, como certificados de incapacidade temporária e atestados para a carta de condução. No decorrer do estágio, desde muito cedo me foi dada a possibilidade de realizar consultas sozinha, sempre num ambiente de supervisão em que podia discutir os casos e esclarecer todas as minhas dúvidas, prezando sempre o bem do doente. Assim, pude experienciar na prática como conduzir uma consulta centrada no doente, com melhoria das minhas capacidades de comunicação interpessoal, interiorizando os princípios do registo SOAP, e como a abordagem holística do doenteé a chave para o sucesso terapêutico. Gostaria também de salientar a importância da participação nas visitas domiciliárias, constituindo uma oportunidade de excelência de observar o doente no seu contexto habitacional. O facto de ter realizado este estágio numa USF fora de um grande centro urbano permitiu-me compreender o papel preponderante da figura do Médico de Família nas populações com maior dificuldade de acesso aos cuidados de saúde. Adicionalmente, apresentei uma Norma de Orientação Clínica da Direção Geral de Saúde sobre “Diagnóstico Sistemático da Nefropatia Diabética” na reunião de serviço semanal da USF Alfa Beja.
Estágio Opcional
No âmbito da unidade curricular opcional, optei por regressar à minha cidade natal e realizar o estágio em Neonatologia, uma subespecialidade da Pediatria com especificidades próprias com a qual temos muito pouco contacto ao longo da nossa formação e pela qual tenho bastante interesse pessoal. Como tal, estagiei no serviço de Neonatologia da Maternidade Daniel de Matos – Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, durante duas semanas, sob tutela da Dra. Ana Silva. A minha atividade formativa passou maioritariamente pelo berçário, onde pude desenvolver os meus conhecimentos teórico-práticos nesta área, nomeadamente reconhecer fatores de risco na gravidez e período neonatal, identificar as variantes do normal no nascido e detetar sinais de alarme, assim como treinar o exame clínico minucioso e sistematizado no recém-nascido. Para além disso, assisti diariamente à passagem dos doentes na Unidade de Cuidados Intensivos ao Recém-Nascido, onde os principais problemas transversais a estes se relacionavam com a sua prematuridade
e baixo peso ao nascimento. Sempre que possível, tive a oportunidade de acompanhar o neonatologista de urgência à sala de partos, atividade que nunca tinha experimentado durante a minha formação. Esta vivência terá seguramente relevância no momento de escolha da minha especialidade e para isso contribuiu também a excelente equipa que me acolheu de braços abertos e esteve permanentemente empenhada na minha formação.
ELEMENTOS VALORATIVOS
Nas conhecidas palavras do Professor Abel Salazar, “o médico que só sabe de Medicina, nem de Medicina sabe”. Como tal, procurei envolver-me em algumas atividades extracurriculares, das quais destaco a participação no GASNova. O GASNova, um Grupo de Ação Social fundado na Universidade Nova de Lisboa, é uma Organização Não Governamental para o Desenvolvimento (ONGD) que tem como missão aproximar os jovens dos maiores desafios do Mundo e transformá-los em agentes desencadeadores do desenvolvimento global sustentável. Há já muito tempo que queria fazer algo diferente, queria que o meu percurso universitário fosse marcado por algo mais do que apenas as obrigações académicas, e foi por isso que no início do ano passado me juntei ao GASNova. Durante esse ano, com um esforço herculano de gestão de tempo, consegui crescer mais enquanto ser humano do que provavelmente durante todo o resto do curso. Anteriormente, já tinha tido uma experiência prévia em voluntariado na Associação Integrar – Centro de Acolhimento e Inserção Social, em Coimbra, integrado num “Voluntariado Nacional em Férias” (VNF) organizado pela Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM). Relativamente a iniciativas de cariz clínico, realizei um estágio opcional integrado nos “Curtos Estágios Médicos em Férias” (CEMEF) organizado também pela ANEM. Ao longo do presente ano letivo procurei complementar a minha formação em algumas áreas do meu interesse com a participação em alguns cursos e palestras cujos certificados se encontram em anexo.
REFLEXÃO CRÍTICA
Partindo com as expetativas elevadas dado o caráter profissionalizante deste ano, estas foram não só cumpridas, como largamente superadas. Fui sempre estimulada a manter um elevado grau de empenho e motivação, adotando uma postura exigente comigo própria de modo a aproveitar todo o conhecimento à minha disposição e melhorar as minhas aptidões e competências. Tendo em conta o objetivo fundamental da realização deste estágio, o de tornar o aluno do 6º ano num profissional com capacidade de aplicar na prática clínica a teoria adquirida ao longo de todo o Mestrado Integrado em Medicina, considero que a minha experiência foi em toda a ordem completa e exigente neste sentido. No que diz respeito aos objetivos pessoais que defini no início do presente ano letivo, saliento que os cumpri na sua íntegra, no entanto, constatando que as dificuldades irão continuar a aparecer ao longo da minha vida profissional, até porque
cada doente é singular e o conhecimento é infinito e, como tal, é essencial estudo permanente e humildade para aprender, independentemente de quão vasta venha a ser a nossa experiência, mantendo presente que a plenitude da sabedoria é e sempre será inatingível. Não consigo pensar em melhor forma de iniciar este ano do que com o estágio de Medicina Interna, em que fui plenamente integrada como membro ativo da equipa médica, tendo-me sido dada a possibilidade de exercer uma prática clínica com mais intervenção, como nunca tinha acontecido até então enquanto estudante, contando sempre com supervisão de toda a minha atividade formativa. É num ambiente de grande responsabilização, mas igualmente de trabalho em equipa, que os seus elementos recebem cada membro que chega, permitindo um crescimento das qualidades profissionais e humanas de um futuro médico. Paralelamente, contactei com uma realidade cada vez mais presente nos hospitais e que se prende com os designados internamentos sociais. O protelar de uma alta hospitalar, para além do que seria necessário do ponto de vista clínico, constitui um desafio para o próprio médico, face às consequências nefastas em que incorrem os doentes afetados. Relativamente a
Cirurgia Geral, devido ao seu caráter cirúrgico, constituiu o momento de menor participação prática,
revelando-se uma experiência fundamentalmente observacional, contudo, tratando-se de um estágio profissionalizante, deveria existir maior oportunidade para o treino de procedimentos técnicos inerentes à especialidade, nomeadamente treino de suturas, o que constitui uma lacuna grave na nossa formação. Além disso, tenho a referir que a semana rotativa no Serviço de Urgência Geral tem muito pouco contacto com a cirurgia propriamente dita, acabando por retirar tempo de contacto efetivo com a especialidade e, apesar de compreender os constrangimentos a nível de pessoal, número de alunos e rotações que estão subjacentes, terei de referir este como o ponto menos positivo do estágio. Em Pediatria, compreendi a importância de termos presente que a criança não pode ser entendida como um adulto em miniatura, mas sim como como um ser único em constante crescimento e desenvolvimento, com necessidades e exigências próprias. Para tal, é indispensável uma abordagem clínica global da criança e do adolescente, compreendê-la como parte integrante de uma família e de uma comunidade, e não como um ser isolado. Para além da mais valia na minha formação clínica, este estágio alertou-me para aquela que é uma realidade flagelante em Portugal: a obesidade infantil, o que reflete a necessidade emergente da criação de medidas de educação para a saúde da população. A falha que identifiquei no escasso contacto que temos com a neonatologia durante a nossa formação procurei colmatá-la realizando um estágio opcional nesta área. O estágio mais completo e cativante que vivenciei este ano foi, sem sombra de dúvida, o de Ginecologia e Obstetrícia. Destaco a excelente organização do estágio que se denota na distribuição dos alunos pela prática clínica diária dos vários médicos do serviço, sendo visível a preocupação para que cada aluno tenha a oportunidade de contactar com as diversas valências desta especialidade, possibilitando então uma visão holística do universo da Saúde da Mulher. Tomei consciência de uma realidade até então desvalorizada por mim: a tendência atual para o adiamento do projeto reprodutivo por diferentes razões de natureza socioeconómica e profissional,
que a sociedade parece acolher como aceitável, à qual se segue um desejo e exigência imediata da concretização da fecundidade quando o projeto reprodutivo se estabelece. Em Saúde Mental, pude vivenciar um acompanhamento notável oferecido à população mais vulnerável (sem abrigos, migrantes, refugiados), numa adaptação do seguimento em consulta clássico, por vezes pouco eficaz, permitindo abranger uma população enorme de uma forma integradora e de livre acesso, sendo que a frequência do Grupo Psicoterapêutico constituiu uma experiência social e clínica única. A oportunidade de acompanhar a equipa de psiquiatria de rua alertou-me para uma situação de extrema gravidade que é frequentemente negligenciada pela opinião pública: muitas vezes são as condições de saúde, nomeadamente a patologia psiquiátrica, que perpetuam a permanência destes doentes na rua e não os seus baixos rendimentos. Terminei com chave de ouro em Medicina Geral e Familiar. Sem dúvida que o facto de ter estagiado em Beja me abriu horizontes e constituiu uma mais valia para a minha aprendizagem académica e pessoal, permitindo-me conhecer uma realidade totalmente diferente daquela com que contactei ao longo de todo o curso. Os recursos são mais limitados, principalmente em termos de acesso a meios complementares de diagnóstico ou a cuidados de saúde secundários ou terciários, não sendo raros os casos em que o doente tem que se dirigir a Évora ou até mesmo a Lisboa, o que constitui um obstáculo ao acesso aos cuidados de saúde. Assim, a tomada de consciência desta realidade e a adequação dos cuidados à população constituiu um dos grandes benefícios deste estágio. Foi sem dúvida o estágio em que pude ter uma prática mais interventiva, pondo à prova não só os meus conhecimentos como também a minha capacidade de comunicação com os doentes e seus familiares e permitindo a correção e o aperfeiçoamento dessas aptidões.
Tenho a referir que foi um ano deveras desafiante, numa tentativa constante e, por vezes, infrutífera de conciliar o estudo para a Prova Nacional de Seriação, as responsabilidades crescentes de estar integrado numa equipa médica e a busca do bem-estar físico e psicológico na vida para além da medicina. Neste momento, as dúvidas e incertezas assombram o meu pensamento e o futuro é incerto e, por isso mesmo, assustador. Encerro hoje este capítulo com uma sensação de dever cumprido, sentindo-me mais preparada para uma realidade que galopantemente se aproxima e com a certeza de que saio mais rica com aquilo que aprendi com cada pessoa que se cruzou no meu caminho e que, graças a elas, hoje sou, não só uma melhor profissional, mas fundamentalmente uma melhor pessoa. É com um enorme sentimento de gratidão que termino este desafiante percurso, reconhecendo o incalculável valor de todas as pessoas que me acompanharam durante estes seis anos e com a convicção de que sem o seu apoio nada disto seria sequer concebível.
Não posso de forma alguma terminar esta etapa da minha vida sem prestar uma saudosa homenagem a quem partiu cedo demais para me ver concluí-la - a ti, Pedro Faria.
“Para ser grande, sê inteiro:/ nada Teu exagera ou exclui./ Sê todo em cada coisa. Põe/ quanto és no
ANEXOS
ANEXO 1 - TRABALHOS DESENVOLVIDOS NO ÂMBITO DO ESTÁGIO PROFISSIONALIZANTE
Estágio Tema/Autores
Medicina Interna “Avaliação da qualidade de vida” – Catarina Tavares
Cirurgia Geral “Bottom Up” – Catarina Tavares e Margarida Castro
Pediatria “Avaliação do crescimento” – Andrea Abreu, Catarina Tavares, Joana Paraíso e Ricardo Costa
Ginecologia e Obstetrícia “Síndrome de Ovário Poliquístico e Infertilidade” – Catarina Tavares
Saúde Mental Reflexão crítica do conto “Tristeza” de Anton Tchekhov – Catarina Tavares
Medicina geral e Familiar NOC “Diagnóstico Sistemático da Nefropatia Diabética” – Catarina Tavares